Depois de Madrid, em 2017, e de Guadalajara, em 2018, Portugal volta a ser país convidado numa feira do livro internacional, desta vez na Feira do Livro de Sevilha, considerada uma das principais feiras literárias de Espanha.


Este ano a Imprensa Nacional dedicou a sua Agenda aos 500 anos do inicio
da grande viagem de Fernão de Magalhães

O evento, que este ano dá destaque aos 500 anos da primeira viagem de circum-navegação (iniciada por de Fernão de Magalhães), arranca já amanhã, dia 23, e permanece até ao dia 2 de junho na Plaza Nueva, mesmo no centro da cidade do Guadalquivir.



A participação portuguesa na Feira do Livro de Sevilha (FLS) insere-se na VII Semana de Portugal, onde, além da promoção da literatura e cultura portuguesas, se contemplará também uma programação muito variada com música, cinema, exposições e muitas palestras.




Nesta oportunidade de promover a cultura, a literatura e os escritores portugueses lá fora, a Imprensa Nacional não poderia deixar de estar presente.

Recorde-se que em 2021, Portugal voltará a dar cartas: será o convidado de honra da Feira do Livro de Leipzig, a segunda maior feira do livro da Alemanha (depois de Frankfurt) e uma das mais relevantes da Europa.





Uma Conversa Silenciosa colige breves ensaios, onde Eugénio Lisboa reflete sobre literatura, escritores, política cultural, edição e editores...
A erudição, a perspicácia e o tom tantas vezes irónico de Lisboa atravessam todo o livro. Hoje damos-lhe a conhecer o texto «Dicionário de Autores».

Dicionário de Autores

O simpático e útil Magazine Littéraire, na sua edição nº385, de março deste ano [2001], publica um Dictionnaire des auteurs, dedicado a escritores portugueses, o qual é apenas parte de uma bem intencionada secção intitulada Écrivains du Portugal. O referido dicionário da‑se como organizado por François Busnel, com a colaboração de seis outras personalidades.
O resultado é, diga‑se de passagem, bizantino. Há limites para o que se pode tolerar, em termos de leviandade, para não dizer, simplesmente, irresponsabilidade. Claro que um pequeno florilégio não podia incluir «tudo». Mas isto não é desculpa para se incluir, por exemplo, na letra «L», Jacinto Lucas Pires (este, já agora, porque não na letra «P»?), à custa de se excluir Fernão Lopes (o nosso maior cronista), Rodrigues Lobo, Gomes Leal, Irene Lisboa, ou mesmo Alberto de Lacerda, António Maria Lisboa ou Óscar Lopes (visto que se inclui Eduardo Lourenço). Na letra «S» não sobrou um nicho para António Sérgio, uma das mais influentes personalidades culturais do século xx português.
Mas há mais: o «V», por exemplo, não chegou para o Padre António Vieira, porventura o nosso maior prosador de todos os tempos (Fernando Pessoa chamou‑lhe «imperador da língua» e ter‑lhe‑ia ficado a dever ter‑se tornado poeta em português…). A letra «R» só contemplou um autor, Wanda Ramos, excluindo‑se, escandalosamente, uma das maiores figuras literárias do século xx, José Régio, além de outros de bem maior peso do que a simpática e, ai de nós!, já falecida Wanda: Bernardim Ribeiro, Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Garcia de Resende ou António Ramos Rosa. O «B» chegou para Bocage mas ignorou João de Barros (o das Décadas mas também, se quiserem, o do Anteu), Mário Beirão, Diogo Bernardes, Padre Manuel Bernardes, Edmundo de Bettencourt, António Botto ou Raul Brandão, entre vários outros não descartáveis (Abel Botelho, Maria Ondina Braga, Sampaio Bruno, Francisco Bugalho). O «P» deu para Fernando Pessoa mas esqueceu, intoleravelmente, Pascoais e Pessanha, para não mencionarmos António Patrício ou Duarte Pacheco Pereira… O «A» contemplou Eugénio de Andrade, o que é de aplaudir, mas deixou estranhamente de fora Almada ou Fialho de Almeida. O «C» premiou Camões (era melhor!), mas ignorou Castanheda ou Eugénio de Castro. O «F» deu para Vergílio Ferreira e Almeida Faria (os deuses os possam abençoar) mas não deu para António Ferreira, Branquinho da Fonseca, José Gomes Ferreira, Tomaz de Figueiredo, Manuel da Fonseca, Reinaldo Ferreira (o dos Poemas e não o da morfina, que era seu pai), Jose‑Augusto França. O «E» achou por bem esquecer Florbela Espanca. O «T» inclui Torga mas ignora, injustamente, Tolentino. Voltando ao «S», deixou de fora, além de Sérgio, Santareno, João Gaspar Simões (que toda a gente gosta de esquecer ou agredir), Ary dos Santos, Joel Serrão, Agostinho da Silva, José Marmelo e Silva, Castro Soromenho, José Augusto Seabra e… Frei Luís de Sousa (um dos grandes prosadores da língua). O «O» não deu sequer para o grande poeta que foi O’Neill (ou Garcia de Orta, ou Ramalho Ortigão, ou Carlos de Oliveira ou o Cavaleiro de Oliveira…). Mas o «T», por outro lado, inclui Tabucchi, que tem tanto direito a ser autor português como tem Graham Greene a ser vietnamita ou sul‑americano.
Será preciso acrescentar alguma coisa? Eu diria apenas que o espírito que preside à organização de um dicionário de autores «deve» ser fundamentalmente diferente do que preside à elaboração de Gente. Há três ingredientes indispensáveis: conhecimento, bom senso e seriedade. É pouco, mas ajuda e é, até, suficiente.

P.S.: Para que me não acusem de ter cometido o pecado de omissão cometido pelos autores do Dictionnaire, faço questão de sublinhar que me limitei a dar alguns exemplos escandalosos de omissão. Mas poderia citar outros: Cesariny, Teixeira Gomes, Alfredo Cortez, Afonso Duarte, Domingos Monteiro, Al Berto, David Mourao‑Ferreira, etc. etc. etc. Eu estava, porém, a criticar um dicionário e não a fazer outro. Para levar a água ao meu moinho, alguns exemplos gritantes bastavam.


Eugénio Lisboa, in Uma Conversa Silênciosa, Imprensa Nacional, Lisboa, 2019, pp. 75-77











No dia 18 de maio celebra-se o Dia Internacional dos Museus, que este ano evoca a importância dos museus como plataformas de cultura e cidadania.

O Museu Casa da Moeda foi inaugurado em 2017, precisamente com o objetivo de divulgar o conhecimento e devolver à sociedade a fruição de um património numismático e medalhístico verdadeiramente único! E há muito para descobrir e aprender neste museu.

Se ainda não o conhece, este ano, aproveite o Dia Internacional do Museus para visitar o Museu Casa da Moeda, que é inteiramente digital e gratuito. Basta para isso seguir a ligação www.museucasadamoeda.pt.




A Casa Das Artes Arcos de Valdevez recebe, amanhã, dia 18 de maio, a partir das 9:30h, o colóquio «Teixeira de Queiroz: Literatura, Medicina e Cidadania», com organização do Município de Arcos de Valdevez, em parceria com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda e a Academia das Ciências de Lisboa.

Recorde-se que este ano a editora pública começa a editar a «Obra Completa de Teixeira de Queiroz», médico, colaborador em vários jornais, deputado, vereador republicano e Ministro dos Negócios Estrangeiros. Teixeira de Queiroz (1848-1919) foi ainda presidente da Academia das Ciências de Lisboa e mestre do conto e do romance. Na História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva e Óscar Lopes comparam o seu talento ao de Eça de Queirós. Teixeira de Queiroz deixou uma vasta e valiosíssima obra que assinou inicialmente como Bento Moreno. A Imprensa Nacional vai agora disponibilizá-la,com coordenação de Manuel Curado, Ana Lúcia Curado e Patrícia Gomes Leal. A coleção vai começar pela série Comédia do Campo, cujo primeiro volume, Os Meus Primeiros Contos, foi publicado pela primeira vez em 1876.



Humberto da Silva Delgado nasceu a 15 de maio, em Torres Novas. Foi político e militar distinto da Força Aérea Portuguesa e o principal rosto da oposição ao regime de Salazar. O seu percurso ficaria marcado pela candidatura à Presidência da República nas eleições presidenciais de 1958, das quais saiu fraudulentamente derrotado. Para a História ficou como o único candidato presidencial a bater-se nas urnas e dos poucos a afrontar Salazar ao proferir a célebre frase: «Obviamente, demito-o». A coragem deste General sem Medo sairia-lhe cara. A «Operação Outono» - nome de código da armadilha montada contra Humberto Delgado culminaria com a assassinato deste «General Sem Medo» e da sua secretária, Arajaryr Campos, junto à fronteira espanhola de Olivença, em 13 de fevereiro de 1965.

A Imprensa Nacional tem dedicado várias obras a este «General sem Medo». Destaque para:

Humberto Delgado (1906-1965) - Coragem, Determinação, Reconhecimento , o primeiro volume da coleção «No Panteão Nacional», uma coleção que pretende homenagear a vida e obra daqueles que receberam a mais elevada honra póstuma concedida em Portugal, o Panteão Nacional. A autoria é de Frederico Delgado Rosa;



Inventário do Espólio de Humberto Delgado, publicado em outubro 1998, de autoria de Paula Cristina Ucha;


Humberto Delgado. A Coragem do General sem Medo com texto de José Jorge Letria e ilustrações de Richard Câmara, um livro que integra a coleção «Grandes Vidas Portuguesas», onde se destaca biografias de personalidades de vários domínios da nossa História.

Humberto Delgado. A Coragem do General sem Medo é uma edição realizada em parceria entre o Pato Lógico e a Imprensa Nacional, destinando-se ao público infanto-juvenil.









Sebastião José de Carvalho e Melo, diplomata e estadista português, conhecido como Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, nasceu nas Mercês, em Lisboa, há 320 anos. Era o dia 13 de maio de 1699.

Indissociável da figura do Marquês de Pombal, é a Praça do Comércio, em Lisboa. Conheça a história da  mais emblemática praça lisboeta em Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio - História de um Espaço Urbano, uma obra coordenada por Miguel Figueira de Faria, numa edição da Imprensa Nacional em parceria com a Universidade Autónoma de Lisboa.

Conta com textos de Aline Gallasch‑Hall, António Filipe Pimentel, Cristina Dias (que apoiou a coordenação), Hélder Carita, José de Monterroso Teixeira, Maria Helena Barreiros, Maria Helena Ribeiro dos Santos, Miguel Figueira de Faria e Miguel Soromenho.


Terreiro do Paço/Praça do Comércio: História de Um Espaço Urbano
é o segundo título da trilogia, iniciada com o volume Praças Reais: Passado, Presente e Futuro 1, que se conclui com a edição crítica da obra de Joaquim Machado de Castro, Descripção Analytica da Execução da Real Estatua Equestre… (Lisboa, 1810).



A presente obra, publicada em 2012, procura compreender a progressiva metamorfose do Terreiro do Paço/Praça do Comércio como referente da cultura urbanística de Lisboa.

O desafio lançado foi o de reunir num só volume uma visão global e actualizada sobre as várias idades do espaço, atendendo à sua evolução morfológica, simbólica e funcional, num progressivo escrutínio das soluções arquitectónicas, monumentais e utilização quotidiana que se sucederam entre os séculos xvi e xix.

Oferecer ao público um elemento seguro de informação e consulta, onde se estabelecesse, simultaneamente, a fixação da doutrina e a renovação do estado da questão, constituiu o objectivo central do presente conjunto de ensaios. Para além das reflexões originais que apresenta procurou-se, ainda, disponibilizar uma sólida base de dados bibliográfica e iconográfica, reunindo o essencial das duas etapas — pré e pós terramoto — determinantes na compreensão da evolução do primitivo terreiro à praça programada pombalina e da sua necessária articulação com as soluções urbanas que o envolveram, desde a fundação manuelina até à conclusão oitocentista.

Saiba mais detalhes sobre esta obra na nossa loja online.  Aqui.






Jorge Fazenda Lourenço, em janeiro de 1987, publicou na Imprensa Nacional — coleção «O Essencial» — um livrinho de 64 páginas intitulado «O Essencial Sobre Jorge de Sena». Era o nr.º 30 daquela coleção. Trinta e dois anos depois, em ano de centenário do biografado, Jorge Fazenda Lourenço dá agora à estampa uma versão revista e bastante aumentada que muito em breve vai estar à venda nas livrarias.

Aqui um pequeno excerto em jeito de pré-publicação:


Jorge Cândido de Sena nasceu no dia de Finados de 1919, em Lisboa, na freguesia de Arroios, filho de Maria da Luz Teles Grilo e de Augusto Raposo de Sena, comandante da marinha mercante (v. cronologia). A sua infância de «filho único e tardio», como ele mesmo dirá, sem amigos, salvo primos e primas, com quem raramente brincava, muito protegido pela mãe e com um pai largamente ausente, foi extremamente solitária. Com as devidas distâncias entre a ficção e a biografia, o conto «Homenagem ao papagaio verde» (Os Grão-Capitães), um dos mais belos da literatura em português, deixa entrever o ambiente dramático familiar, marcado, do ponto de vista da criança, por uma «solidão acorrentada». Numa entrevista de 1976, a um jornal de Los Angeles, o poeta confessa: «era um solitário [...], totalmente fascinado pelos livros» (E, 339), cuja leitura fora incentivada pela mãe e pela avó materna, a avó Isabel, a grande figura tutelar da sua infância e juventude e «das pessoas de quem terei sempre saudade», como diz num pequeno e humorado texto memorialístico, «Castelos e outros objectos de influência» (Jornal de Letras, Artes e Ideias, 20de janeiro de 2009).

Isabel dos Anjos Alves Rodrigues Teles Grilo estivera como professora régia e inspetora das escolas no Huambo (v. o poema «Foi há cem anos, em Angola», de Conheço o Sal...) e regres¬sara a Lisboa no início dos anos 20, passando a viver com a filha, depois de um acidente profissional do genro, que o afasta da vida ativa, em 1933. Matriarca da família, mulher extremamente organizada e metódica, tocava e compunha música, fazia versos, era, tal como a filha, uma premiada charadista, tinha lugar cativo no cinema Capitólio, assinava a revista Cinéfilo, era uma amante de literatura policial — tudo gostos que Jorge de Sena herda, incluindo o das palavras cruzadas. É ainda ela quem, atenta à vocação do neto, lhe oferece um caderno, quando ele parte para a viagem de cadete da Marinha, para lhe servir de diário, e lhe faz a datilografia, pois tinha máquina de escrever, do seu primeiro e inacabado romance, «A personagem total».

Maria da Luz Grilo de Sena é uma figura menos visível, mas igualmente determinante para o destino literário do filho. Condicionada pela dominadora ausência do marido, constantemente embarcado, e pelos valores da sociedade patriarcal do tempo, a mãe do poeta fora educada no colégio dominicano de Santa Joana, em Aveiro, onde o francês era a língua quotidiana, e onde permaneceria «como ao casamento, em outubro de 1906, em Lisboa, com Augusto Raposo de Sena, que conhece num navio com destino a Angola, de visita a sua mãe. «Eu mesmo, na verdade — diz Jorge de Sena, em 1972, numa crónica de viagem a Angola e Moçam¬bique —, vim a nascer des[s]as Áfricas — sem elas, minha mãe, voltando dos metropolitanos estudos para Angola, menina e moça e ruiva, não teria conhecido a paixão romântica e brutal do capitão de navios, jovem e de bigodes retorcidos, que foi o meu pai» (RP, 205). Segundo Mécia de Sena, Maria da Luz sempre encorajou as atividades literárias do filho, ainda que a ocultas do marido e da família, e apesar das suas dificuldades de afirmação num contexto dominado pelas figuras autoritárias dos militares de ambas as famílias, a sua e a do marido. A educação musical de Jorge de Sena, impulsionada pela mãe, e sua «única manifestação de teimosa independência» (GC, 39; «Homenagem ao papagaio verde»), era motivo de discórdia familiar. Como o próprio recorda, em «Castelos», acima citado: «Aprendia piano em especial e música em geral, e compunha improvisos com muitos acordes e dissonâncias, de êxito revolucionário nas reuniões de família ou afins, com excepção do ramo familiar paterno, que achava impróprios destes tempos mo¬dernos [...] e da dignidade social tais (como outros) devaneios artísticos, que minha mãe apadrinhava e faziam as delícias de um papagaio verde que eu tinha, que andava solto pela casa, com terror de toda a gente por ser uma fera» (o paralelo com o conto autobiográfico é manifesto).

Na família de Jorge de Sena, a tradição militar remonta ao general Manuel Joaquim Raposo, um dos «Bravos do Mindelo». Um tio materno, o tenente Mário Teles Grilo, foi o primeiro oficial português morto na Grande Guerra, com retrato e descrição do seu heroísmo na imprensa, nomeadamente na Ilustração Portuguesa (n.º 593, de 2 de julho de 1917). Outro tio materno, o alferes Jaime Teles Grilo, que o sobrinho há de transformar na personagem do tio Justino, de Sinais de Fogo, foi prisioneiro na Grande Guerra, tendo escapado ao campo de internamento alemão, em circunstâncias rocambolescas. Um tio paterno, o engenheiro António Maria de Sequeira, seu padrinho de batismo, e substituto do pai, nas ausências deste, esteve mobilizado em Inglaterra. O próprio pai, enquanto oficial da marinha mercante, comandou transportes de tropas, armas e munições para França, o que lhe deu direito a ser sócio da Liga dos Combatentes da Grande Guerra.

Como comenta Mécia de Sena, cujas informa¬ções registamos, embora Jorge de Sena só viesse a nascer depois da Grande Guerra, ela foi, por certo, «um acontecimento sempre pronto a entrar na conversação», numa casa em que estavam ainda tão vivas «as memórias de heroísmo, sofrimento e luto» . Esta faceta militarista da família não impede que encontremos, na sua biblioteca juvenil, livros oferecidos pelo pai e pelos tios, nem pressupõe que Jorge de Sena não tivesse podido aliar a carreira das armas à vocação das letras. Mas parece certa uma clara divisão entre o lado feminino e o lado masculino da família, entre o destino das letras (e da música) e o das armas. O facto de Jorge de Sena ter tido necessidade de se proteger, no início, sob o pseudónimo Teles de Abreu , é revelador desse conflito, e o seu fascínio por poetas como Camões, Garcilaso de la Vega ou Vigny, a alta consideração em que tinha António Sérgio, Jaime Cortesão ou João Sarmento Pimentel, se tem relação com as qualidades diversas das respetivas obras, tem muito que ver com a aliança entre as armas e as letras, tão renascentista, e com a dupla vida de poeta e marinheiro, que romanticamente sonhava e que lhe haveria de ser tirada.



Jorge Fazenda Lourenço
É Professor Associado da Faculdade de Ciências Humanas, da Universidade Católica Portuguesa (UCP), onde é docente desde 1993, ano em que obteve o PhD em Hispanic Languages and Literatures, pela Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, com uma tese sobre A Poesia de Jorge de Sena: Testemunho, Metamorfose, Peregrinação, publicada pelo Centre Culturel Calouste Gulbenkian (Paris, 1998). Tem publicações sobre Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Jorge de Sena, de quem é o coordenador das Obras Completas (Guimarães Editores). A sua atividade como investigador tem-se centrado nas literaturas dos séculos XIX e XX, no estudo do Bildungsroman e nas questões da modernidade estética, tendo traduzido obras de E. E. Cummings (xix poemas, 1991), Wallace Stevens (Harmónio, 2006) e Charles Baudelaire (O Spleen de Paris, 2007), de quem organizou e prefaciou uma antologia de crítica e ensaio (A Invenção da Modernidade, 2006). Co-editou as atas dos colóquios Guerra Civil de Espanha: Cruzando Fronteiras, 70 Anos Depois (2007), Baudelaire e as Posteridades do Moderno (2008) e Jorge de Sena: Novas Perspectivas, 30 Anos Depois (2009). A sua obra mais recente, Matéria Cúmplice. Cinco Aberturas e um Prelúdio para Jorge de Sena, recebeu o Prémio Jorge de Sena 2012.





Em junho de 2018 a Imprensa Nacional fez uma recolha da obra poética de Pedro Tamen, uma obra iniciada em 1956 e traduzida e publicada em catorze línguas. No próximo dia 20 de maio, pelas 18.30h Jorge Silva Melo e Luís Lucas dizem poemas de Retábulo das Matérias, obra imponente de Pedro Tamen e obrigatória na biblioteca de todos os que apreciam poesia.

Não falte a entrada é gratuita.

Aqui alguns poemas.

Não há mais céu
se ele não cai
humilde acaso
no seu lugar.
Não há melhor
nem som mais puro
que o natural
dos nossos olhos.
Não vale a pena
fazer brinquedos
se as nossas mãos
são de criança.

in Retábulo das Matérias, pág. 17

Só dos mortos devemos ter ciúmes; acordar
de entre as pedras doentes dolorosos
que da beira das arribas nos atirem ao porto
onde enfim se encontre a nossa angústia.
Só eles lutam palmo a palmo pelo espaço
em que já vertical erguemos nosso braço
em busca de que sumo ou de que céu. E que só eles
nos retiram da cama de que por nós foi feita
a escolha: a macieza intensa que julgámos
eterna, que nos parecia tão cordatamente
entregue à nossa própria suma sumaúma.
Só os mortos, horror, inda que vivos, vivem
paredes meias com os nossos dedos, logo afastam
os momentos ferozes que tocássemos, e as nuvens
por sobre o mar dos olhos: é bem feito,
dizem os meninos. Pois que dos vivos vivos
a vida nos desvia e nisso nos conduz, assaz
encaminhados pelo que vamos querendo.
Só os mortos nos mordem, nos apontam
a dedo frio e tenso, entorpecem desejos
e, pois pior, só eles nos expulsam
do vero som dos sinos numa entrega
às palavras baldadas do comércio.
A luta clara que sonhada fosse
pela mão dada e limpa que nos dessem
tropeça, polvo, com misérias nossas
e enterra-se na pérfida, agoniada leira
onde dominam eles nossas bocas e o sangue
que nelas perpassasse. Só os mortos,
invisíveis, letais, pesados entes,
nos disputam a vida, e só por fim nos matam.

in Retábulo das Matérias, pág. 417 e 418

Sento-me na cadeira
e olho para o chão:
mesmo à minha beira
abre-se o vulcão
onde o fogo assume
sua condição
de rubro negrume
sem limitação,
sem mira que veja
onde acaba a mão
que tem a bandeja
do vinho e do pão.
Mesmo que não queira,
sorvido me sumo:
desfaz-se a cadeira
e eu desfeito em fumo.

in Retábulo das Matérias, pág. 321


Tua palavra é longe
como de longe vejo
a luz solar que esconde
as ramas do desejo.
Mais de mim que de ti
minha palavra é longe:
roço o bronze daqui
e é mais além que tange.
Serás tão perto dela
qual eu da luz, a tua?
Termos a mesma pele
dá-nos calor da lua
que é calor de relento
entre o dia e o dia,
sabor de brando invento,
amor-telegrafia.

in Retábulo das Matérias, pág. 492


O amor já não é o que era
concluiu apressadamente o senhor Couto
vindo à tona do sonho de que o poema é feito.
O amor já não é o que era
repete-me a árvore roçagando
horas e horas, entre as folhas perdendo
uma qualquer coisa que se juntasse a ela
e a ela acrescentasse uma qualquer lembrança
do que fosse o amor quando era o que era.
Sabe o senhor Couto que não ser o que foi
é tão fatal com ele como com o sentimento
de que avança a falar como se o sentisse?

in Retábulo das Matérias, pág. 716
O Sr. Secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, esteve no programa «Bom Dia Portugal» a divulgar o Prémio IN/Ferreira de Castro, voltado para a diáspora portuguesa. Lembramos que as candidaturas estão abertas até dia 30 de maio. Veja o video aqui no Prelo.



Uma narrativa pode ser uma reflexão sobre a realidade, a vida, o conhecimento. Mas também pode ser igual a um espelho onde tudo se torna virtual como se fosse o encontro com o nada, com a perda ou com a ausência. O sentido das palavras acaba muitas vezes por se perder nelas mesmas, embora isso aconteça sem que sejam ainda o silêncio ou o esquecimento.

As narrativas incluídas neste novo título da coleção «Olhares» procura-se finalmente encontrar o significado de algumas dessas palavras.

Recorde-se que Fernando Guimarães tem publicado vários livros de poesia e de ensaio. Acabam de sair neste ano um livro seu de poesia intitulado Junto à Pedra e um de ensaio intitulado A Arte é Conhecimento? Os seus livros mereceram vários prémios literários, nomeadamente o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho. Ao conjunto da sua obra ensaística foi atribuído pela Universidade de Évora o Prémio Vergílio Ferreira. Na área da narrativa publicou As Quatro Idades e na do teatro Diotima e as Outras Vozes. Saíram também em livro traduções suas de poetas ingleses, nomeadamente Byron, Shelley, Keats ou Dylan Thomas.





Maria João Costa entrevista Duarte Azinheira, diretor de edições e cultura da Imprensa Nacional, a propósito dos 250 anos desta Instituição, na revista Ler deste trimestre. Uma conversa que andou à volta das memórias mas também do futuro; do livro em papel mas também da tecnologia; do mundo editorial (e as diferenças entre as editoras privadas e a pública) e também do universo da distribuição; das publicações que já saíram do prelo nos 10 anos em que Duarte Azinheira está à frente da Imprensa Nacional e das que estão para sair muito em breve. Tempo ainda para lembrar Vasco Graça Moura.


As fotografia são de Pedro Loureiro.


Arpad Szenes nasce em Budapeste, na Hungria, em 6 de maio de 1897.
Maria Helena Vieira da Silva nasce em Lisboa, em 13 de junho de 1908.

Ambos filhos únicos de famílias da alta burguesia, cedo contactam com o meio cosmopolita, intelectual e artístico.

Arpad revela desde criança aptidão para o desenho e em 1918 frequenta a Academia Livre de Budapeste, orientado por Rippl Ronaï. Depois de percorrer as capitais artísticas da Europa, fixa-se em Paris em 1925.

Vieira da Silva estuda desenho, pintura e escultura em Lisboa e em 1928 parte para Paris. Aí frequenta as aulas de escultura na Académie de la Grande Chaumière, onde, em 1929, conhece Arpad Szenes, com quem se casa, em 1930. Vieira da Silva perde a nacionalidade portuguesa, e, não tendo regressado nesse ano à Hungria, o casal torna-se apátrida.

Em 1931, os dois artistas iniciam-se na técnica da gravura no Atelier 17 de Hayter, onde convivem com os surrealistas. Vieira da Silva dedica desde cedo especial atenção ao espaço e à profundidade e em 1932 conhece a galerista Jeanne Bucher, que organiza a sua primeira exposição individual.

Em Portugal, expõe pela primeira vez na Galeria UP, em 1935, pela mão do surrealista António Pedro e no ano seguinte expõe com Arpad Szenes no seu ateliê das Amoreiras.

Em 1939, a II Grande Guerra traz o casal a Lisboa, em busca da nacionalidade portuguesa, que lhes é recusada. Partem então para o Brasil em 1940. No Brasil, Szenes organiza um ateliê de pintura para jovens artistas e colabora em várias publicações periódicas.

Vieira da Silva faz algumas exposições no Brasil, e, em 1946, Jeanne Bucher organiza a sua primeira exposição individual em Nova Iorque. No ano seguinte o casal regressa a Paris.

A década de 1950 traz a Vieira da Silva inúmeras exposições importantes, em França e no estrangeiro, e a sua pintura assume-se no primeiro plano.
Em 1956 Vieira da Silva e Szenes naturalizam-se franceses, e, durante a década de 60, o Estado francês adquire obras suas e atribui-lhes várias condecorações.


Vieira da Silva acumula vários prémios internacionais, e a partir de 1958 organizam-se retrospetivas da sua obra por toda a Europa.

Arpad Szenes, tendo cumprido ciclos sucessivos de evolução na sua pintura, centra-se nas sensações da luz e na exploração da atmosfera, caracterizando-se por formatos estreitos, que revelam uma delicadeza espacial sugerida pela arte japonesa.

A partir de 1970 são organizadas várias retrospetivas de ambos os artistas em França e em Portugal (Fundação Calouste Gulbenkian).

Em 1983 Vieira da Silva é convidada pelo Metropolitano de Lisboa a decorar a estação da Cidade Universitária.

Arpad morre em Paris em 1985.

Em 1990, em Lisboa, é criada a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, mas a artista viria a morrer dois anos mais tarde, sem assistir à inauguração do seu museu, em 1994.

in Escrita Íntima. Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Correspondência 1932-1961


Em Escrita Íntima. Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Correspondência 1932-1961, obra publicada pela Imprensa Nacional, em 2014, pode encontrar a correspondência entre o casal, produzida entre 1932 e 1961, uma troca epistolar que documenta os raros e curtos períodos em que o casal esteve geograficamente separado.

O critério de seleção das cartas obedeceu a três parâmetros: estarem completas ou quase completas; acrescentarem ou clarificarem informação relativa ao período histórico referido ou à vida dos artistas nesse mesmo período; e, finalmente, a qualidade literária e o interesse público dos conteúdos.

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