Vamos Descobrir a Biblioteca Nacional de Portugal é lançado já esta quarta-feira, dia 27 de março, pelas 18.00h,  no auditório da Biblioteca Nacional de Portugal.

Com texto de Luísa Ducla Soares e ilustração de Mariana Rio, esta edição da Imprensa Nacional convida os mais novos a conhecerem a BNP, desde a sua história ao percurso do livro e do leitor. A apresentação da obra está a cargo de Daniel Pires e André Letria.
Apareça e traga os mais novos. A entrada é livre!


Embarcando na curiosidade dos protagonistas desta aventura, o João e a Joana, o livro transporta os leitores mais pequenos numa viagem à descoberta da biblioteca patrimonial do País, reservada a maiores de 18 anos.

Assim que entram portas adentro, juntando-se a uma visita guiada, o João e a Joana são surpreendidos pelo Doutor Ribeiro dos Santos, o Bibliotecário-mor da Real Biblioteca Pública da Corte, nomeado por Sua Majestade D. Maria I, há 200 anos. Curioso por também saber o que aconteceu na Biblioteca desde então, conta aos dois amigos que a Biblioteca Nacional foi idealizada por D. João V e por D. José, tendo sido adiada devido ao terramoto. Em 1796, foi criada por alvará régio e instalada na Praça do Comércio.

Durante a visita guiada, seguem-se muitas outras surpresas e histórias. O João e a Joana ficam a conhecer os tesouros da BNP, importantes acontecimentos histórico-políticos, ilustres figuras da cultura e literatura portuguesas. Descobrem o que acontece aos muitos livros e revistas que entram diariamente na BNP, os vários serviços e tratamentos por onde têm de passar até chegarem às mãos dos leitores...e ficam ainda a saber como alguém se pode tornar leitor, as muitas coleções a que pode ter acesso, que incluem partituras de música, mapas, espólios de autores portugueses e obras para invisuais.


Biblioteca Nacional de Portugal
Campo Grande, 83
1749-081 Lisboa




Prelúdios – Braga Santos e Freitas Branco

Solistas da Metropolitana

Quinta-feira, 28 de março, 18h30

Biblioteca da Imprensa Nacional (Rua da Escola Politécnica n.º 135, Lisboa)

Programa

J. Braga Santos Noturno, Op. 1

L. de Freitas Branco Dez Prelúdios (Dedicados a Vianna da Motta)

L. de Freitas Branco Sonata para Violino e Piano N.º 2

Músicos

Daniela Radu violino, Savka Konjikusic piano

Preencher um programa com obras de Luís de Freitas Branco e de Joly Braga Santos representa colocar lado a lado mestre e discípulo, qual evocação de umas das mais fecundas passagens de testemunho a que se assistiu ao longo de toda a História da Música Portuguesa. Ainda antes da 1.ª Grande Guerra, o jovem Freitas Branco teve a oportunidade de viajar até Berlim e Paris. Nesta última cidade conheceu Claude Debussy, pelo que não espanta a estética impressionista que transborda nos dez prelúdios para piano que compôs após ter regressado a Portugal, quando do início da contenda. Estas peças foram estreadas em 1918 pelo próprio dedicatário da partitura, José Viana da Mota. Por sua vez, a Sonata para Violino e Piano N.º 2 teve origem uma década mais tarde. Esta revela uma sonoridade diferente, marcada pelo diatonismo modal de pendor neoclássico que anunciava uma nova fase criativa do compositor. Terão sido estas influências – por um lado as sonoridades relutantes e sugestivas que se reconhecem nos prelúdios, por outro a clareza formal da sonata – que encantaram o jovem Joly Braga Santos quando frequentou as lições particulares de Freitas Branco ao longo da década de 1940. Não por acaso, ambas se distinguem na primeira obra que assumiu no seu catálogo, o Opus N.º 1 «Noturno para Violino e Piano», datado de 1942.


No Dia Mundial da Água, instituído pela Organização das Nações Unidas, em 1993, e celebrado desde aí a 22 de março, transcrevemos um excerto da introdução que Barbara Spaggiari, profunda conhecedora da poesia de Camilo Pessanha, fez à obra que imortalizou este autor: Clepsidra, publicada pela primeira vez em 1920.

O elemento «água» é um tema recorrente na miríade temática da poética de Camilo Pessanha, muitas vezes representa metaforicamente a passagem inevitável do tempo, a começar logo pelo título com que Pessanha nomeou o seu livro: Clepsidra, título simbólico, que se refere a um relógio antigo, de origem egípcia, que media o tempo pelo escoamento de água num recipiente graduado.


O elemento «água» na poesia de Pessanha surge também como sinal de profundidade, simbolizando a distância abissal entre o sujeito poético e o seu passado — lugar temporal preferido de Pessanha, como podemos constatar nos versos do seu soneto «Singra o navio. Sob a água clara [Vénus II]»:

« Singra o navio. Sob a água clara/ Vê-se o fundo do mar, de areia fina... /— Impecável figura peregrina, / A distância sem fim que nos separa!» (pág. 67).



Clepsidra é um importante testemunho do acolhimento português da poesia europeia finissecular, sobretudo o Simbolismo, articulado com a sensibilidade decadentista.

Está publicado na coleção «Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa», coordenada por Carlos Reis e com a chancela da Imprensa Nacional.



Excerto da Introdução de Clepsidra, por Barbara Spaggiari

(...)
Pessanha testemunha nas suas poesias a fidelidade absoluta a
um núcleo restrito de temas, que é a projeção, no plano poético,
de um nó existencial nunca resolvido. Nem a razão, nem Deus
conseguem dar um sentido qualquer à existência, a partir do momento
em que a razão lhe nega a evasão pela abstração onírica, e
a falta de fé lhe retira qualquer suporte metafísico. A fuga para o
passado é um modo de continuar a iludir-se. Até a memória,
consequentemente, cessa de dar conforto, uma vez que a racionalidade
do adulto tem destruído todas as ilusões, num desespero
irrevogável pondo a nu a incomensurabilidade entre o desejo e o
objeto real.

No olhar do poeta, ora aceso, ora cansado, ora absorto, a realidade
refrata-se como num espelho partido; assim dissociada e
fragmentada, oferece as suas frações cortantes para construir correlações
e analogias, símbolos e metáforas, em que as coordenadas
espaciais se anulam, as referências histórico-biográficas se tornam
fugazes, contornos, tons e cores adquirem uma fluidez que se
transmite ao ritmo do verso.

A perceção lúcida de um movimento incessante, tão vão
quanto inútil, faz com que as imagens, reflexo do real, sejam também
elas imparáveis e fugidias, formas transitórias e evanescentes
que debalde se tentam fixar. As categorias percetivas fundem-se
e subvertem-se na sinestesia, associadas apenas pela natureza efémera
do seu ser. Iludida a noção de lugar e de espaço, o mundo
externo é colhido no seu devir fragmentário.

Através a fugacidade das sensações, Pessanha percebe a duração
do tempo, a que faz alusão o símbolo recorrente da água, que
escorre inexorável, sem nunca parar — nos rios, nos mares e, evidentemente,
na clepsidra (relógio de água). O nosso íntimo desejo
seria ficar como que suspensos entre o presente e o futuro, mas o
presente não existe, é já passado ou já futuro, amargo concentrado
de nostalgias e temores, de saudades e de ilusões. As imagens
sobrepõem-se, os sons confundem-se, os planos da perceção intersecionam-
se num tecido analógico cuja trama pode ser desvendada
em qualquer momento por uma centelha de lúcida ironia.

No registo mais propriamente decadente, evidencia-se o tema
da morte, interpretado ora como decomposição e putrescência,
ora como purificação e assepsia. Exemplar da primeira vertente,
o soneto «Vénus» subverte o tópico do nascimento da deusa, que
tradicionalmente sai, despida e esbelta, da espuma do mar. Recusando
a iconografia clássica e renascentista, a Vénus de Pessanha,
é, antes de mais, uma representação simbólica da morte (não da
vida que nasce, não do amor que gera). Mais similar à Ofélia dos
quadros pré-rafaelitas, do que à Vénus de Botticelli, a figura feminina
— que só o título identifica com a deusa — é um cadáver
que flutua à flor da água. Surge, como primeira imagem, o cabelo
verde, já apodrecido, que o remoinho da água enreda e desenreda.
Do corpo exala-se o cheiro a carne, um odor fétido que embebe o
ar, até nos inebriar. O olhar demora no ventre da mulher, pútrido...
azul e aglutinoso 28. A densa onda do mar, no seu vaivém, absorve
as escórias da putrefação com um murmúrio de gozo, num sorvo,
como se bebesse (prosopopeia). Surgem logo outras ondas que se
agitam, lutam e bramem como animais selvagens, para se disputar
a lia do corpo desfeito, abandonado a seus assaltos. Essa figura de
mulher, de pé, flutua, levemente curva... os pés atrás, como voando:
da Vénus evocada no título resta apenas um esboço na água túrbida
da marinha, só um perfil a boiar, à tona da água, enquanto as
vagas arrastam na areia os vestígios da deusa.

A areia, justamente, permite ligar o tema da putrefação ao
outro tema, oposto e complementar, da morte como instrumento
de purificação. Durante uma das viagens por mar, do parapeito
do navio, Pessanha olha para as distâncias infinitas do deserto
africano, soltando uma série de invocações aos elementos da paisagem:
as nesgas agudas do areal, as gaivotas que voam em redor
do navio, as águas verde-esmeralda do Canal (de Suez), as águas
que filtram na areia, o sol sem mancha, rútilo e triunfante. Insistente
e lamentoso, o poeta pede aos elementos da natureza, que
nesse ambiente extremo adquirem uma força e um vigor inusitados,
que lhe outorguem o aniquilamento físico do ser, a começar
pelo cérebro mole, inconsequente e doentio, fonte de sofrimentos
irregulares. Na luz alucinada e deslumbrante do deserto, sob o
sol que queima e enxuga, a fria e exangue liquescência do corpo
irá volatilizar-se, sem embaciar de veneno o brilho e a viva transparência
do ar. Em paralelo, os recortes vivos das praias abrirão
as suas veias, derramando o sangue que será espalhado e absorvido
na areia branca como em um lençol. E, finalmente, as cristalizações
salinas irão ressecar o plasma vivaz, de maneira que não
se desenvolvam as ptomaínas, com o seu olor obsessivo e adocicado.
Uma vez absorvida e eliminada qualquer liquescência, resta
o crânio a rolar insepulto no areal: uma caixa vazia, purificada
pelo sol e pelo sal, abandonada ao vento quente do deserto.

(...)

Barbara Spaggiari, 30 de junho de 2011




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Pedro Tamen nasceu em Lisboa em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa.

Entre 1958 e 1975 foi diretor da Editora Moraes e depois, até 2000, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi também dirigente cineclubista, professor, diretor-adjunto de uma revista, crítico literário num semanário, e tradutor literário. Pedro Tamen traduziu, ente outros, Imitação de Cristo, dos Fioretti de S. Francisco, Cantos de Maldoror, de Breton, e autores como Sartre, Foucault, Camilo José Cela, Georges Bataille, Georges Pérec, Flaubert e Gabriel García Márquez.

A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias, foi, em 2018, completamente reunida na edição de Retábulo das Matérias, da Imprensa Nacional. Os seus poemas estão traduzidos e publicados em catorze línguas.

Recorde-se ainda que Pedro Tamen foi distinguido com o Prémio D. Diniz/Casa de Mateus, em 1981, o Grande Prémio de Tradução Literária, em 1990, o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, em 1991, o Prémio Bordallo, da Casa da Imprensa, em 2000, e no ano seguinte, o Prémio P.E.N. de Poesia, em 2001.

Pedro Tamen recebeu ainda o Prémio Luís Nava, em 2006, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, em 2010, e o Prémio Literário Casino da Póvoa, no ano seguinte. Em 1993, o Governo português condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.


Vou a Praga à boleia, meu amor,
furto fortuito de mercês pensadas
e cingidas a peito noutros anos
— agora encaixilhadas a bolor
de tanto serem tidas e molhadas
de olhos cativos e samaritanos.

Atrás de nós ficámos na viagem
longa de mais, de menos, repetida
conjura contra um espaço e o seu dolo,
e mais se desbotou a nossa imagem
na foto de turista e minha ferida
que levarei agora a tiracolo.

E arrasto na cidade o tricolor
pelo da barba, e molho a tinta pura
a novidade alada que quis dar.
Mas sei demais, mulher, e onde for
tu lá estarás fatal fada madura,
maçã de vento e só neste pomar

que somos nós por mais que não queiramos.
E assim está o teu corpo sobre o verão
como seu sol veraz e seu destino
onde afinal deitados nos queimamos.
E a busca acompanhada desta mão
traz-nos o ar correto e já salino

do mar que atravessado foi deveras.
Por isso não vou só se quiser ir,
nem tu já poderias, poderás.
Partir é isto mesmo das esperas
e embalar nos ouvidos a zumbir
o som pronunciado de outra paz.

Vamos a Praga os dois a pé-coxinho.
Eu brinco no teu peito, tu nos dedos
de mim calhados com que te encadeio.
Temos nozes e pão, agudo vinho,
bocas de carne, matas sem enredos,
o tempo todo à frente, e o do meio.

in Pedro Tamen, Retábulo das Matérias, Lisboa, Imprensa Nacional, 2018, pp. 405,406




A 19 de março de 2006, há precisamente 13 anos, morria em Paris o filósofo e epistemólogo Fernando Gil, autor de uma vasta obra publicada, da qual ressaltam transversalmente os temas da inteligibilidade e do sentido da razão.

Fernando Gil e o seu pensamento ocupam lugar de destaque no catálogo da Imprensa Nacional-Casa da Moeda desde a década de 1980.

A mais notável das suas obras editadas na Imprensa Nacional é Mimésis e Negação (1984), obra distinguida com o Prémio Ensaio do PEN Club, na qual desenvolveu a importante reflexão acerca do caráter irremediavelmente histórico e plural do conhecimento.

Em 2006, a revista PRELO, 3.ª Série, n.º 1, dedicava-lhe um espaço especial com a publicação de três textos da autoria de três outros importantes autores.

Treze anos mais tarde, o PRELO relembra Fernando Gil através da republicação desses textos de leitura imprescindível:

«Carta (incompleta) de José Marinho a Fernando Gil» (ler aqui)

«Fernando Gil: a Razão Fragilizada», por Miguel Real (ler aqui)

«Evocação de Fernando Gil no Espírito da Música», por Manuel Ferreira Patrício (ler aqui)





Para ser lido mais tarde

Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar
quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando
já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres
quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho
para ti será o começo de tudo
Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda
Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante
Mas para mim será já tão frio e já tão tarde
E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara




Homem das artes e das letras, Mário Dionísio (1916-1993), foi um forte opositor à ditadura de Salazar e Caetano.

Entre 1936 e 1988 publicou poemas (reunidos na coleção «Plural» da Imprensa Nacional em 2016), contos (O Dia Cinzento, 1944, reescrito em 1967; Monólogo a Duas Vozes, 1986; A Morte É para os Outros, 1988) e um único romance, Não Há Morte nem Princípio (1969). Uma escrita em que o rompimento com a escrita tradicional é evidente.

Autor de inúmeros ensaios, muitos dos quais sobre pintura, de que o principal é A Paleta e o Mundo (1956-1962), desde sempre escreveu em jornais e revistas (crítica literária e de artes plásticas, crónicas sobre assuntos vários). Prefaciou obras de Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, José Cardoso Pires, Alves Redol.

Nos ensaios, artigos, prefácios é central a questão do realismo, dos novos realismos, da relação entre arte e sociedade.

Desde muito cedo, pintou. Organizou as primeiras Exposições Gerais de Artes Plásticas, onde expôs até 1954. Mas a sua primeira exposição individual de pintura realizou-se apenas em 1989, aos 73 anos. Abandonaria a escrita. No fim da vida só pintava.

Licenciado em Filologia Românica, foi professor toda a vida: de Português e de Francês no ensino secundário e, já depois do 25 de Abril, de Técnicas de Expressão do Português na Faculdade de Letras de Lisboa.

Conta tudo isto numa pequena Autobiografia (1987).






«Quando ele nasceu, todos nós nascemos», disse Fernando Pessoa a propósito de António Nobre (1867-1900).

Poeta português do século XIX, António Pereira Nobre nasceu no Porto em 1867 e faleceu a 18 de março de 1900 na Foz do Douro, vítima de tuberculose.

De Verlaine António Nobre herdou o simbolismo francês e de Almeida Garrett o neogarretismo.

Em vida publicou apenas uma obra (1892). Numa linguagem poética, que assimila a vivência coloquial provinciana e emocional.  foi publicado pela primeira vez em 1892, em Paris, onde estudava António Nobre, pela Léon Vanier Editeur. é segundo o próprio autor « o livro mais triste que há em Portugal». Hoje é considerada como umas das obras mais emblemática do fim-de-século português.

Apesar de morrer jovem, com apenas 33 anos, António Nobre deixou uma marca indelével na poesia nacional e uma referência obrigatória de toda a Literatura Portuguesa. Quem não conhece, por exemplo, o seu poema «Lusitânia no Bairro Latino»?

Postumamente seriam publicados vários inéditos de António Nobre como: Despedidas (1985-1899) publicado em 1902, Primeiros Versos (1882-1889) publicado em 1921, e Cartas Inéditas de António Nobre publicado em 1921, entre outras.

Em maio de 2001, a Imprensa Nacional dedicou-lhe um «Essencial Sobre», de autoria de José Carlos Seabra Pereira e no ano seguinte, em 2002, a editora pública publicou O Ritmo na Poesia de António Nobre, a tese de licenciatura em Filologia Românica que Luís Filipe Lindley Cintra apresentou à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1946.

Recordamos aqui o artigo de autoria de Luís Miguel Queirós, publicado no jornal Público, a 18 de março de 2000, aquando do centenário da morte de António Nobre.

António Nobre viveu como um enigma. Morreu faz hoje cem anos. Escreveu um dos livros maiores da literatura portuguesa, "Só". Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar, isolada, toda a capa de um livro.

Quantos livros produziu a poesia portuguesa do século XIX que coubessem sem hesitação numa escolha exigente da literatura universal? Não mais do que dois ou três.

O "Livro de Cesário Verde", sem dúvida, e talvez os "Sonetos" de Antero. Se arrumarmos a "Clepsidra" de Pessanha no século XX, resta apenas o "Só", de António Nobre.

Cem anos decorridos sobre a morte do poeta - a 18 de Março de 1900 -, já não serão muitos os que lhe recusem lugar ao lado dos maiores. Mas se o reconhecimento começa a ser consensual, nem todos o admiram pelas mesmas razões. Alguns glorificam-lhe o saudosismo nostálgico, outros apreciam a paleta impressionista dos seus retratos do Portugal provinciano, agrário e piscatório; uns sublinham a força inovadora do seu tom coloquial e dos seus versos recheados de nomes próprios, outros preferem ver nele o poeta maldito, ostentando o seu provocatório narcisismo na pátria parisiense do "mal de vivre" finissecular.

Mas talvez a prova mais segura da perenidade de Nobre seja, afinal, o modo como a sua lição foi sendo reinventada por poetas posteriores, numa linha nem sempre fácil de rastrear, mas que, passando certamente por Vitorino Nemésio e Pedro Homem de Mello, é ainda visível em autores só recentemente revelados, como Jorge Gomes Miranda. Todavia, há pouco mais de vinte anos, Alexandre Pinheiro Torres ainda podia escrever, a propósito de Nobre, estas linhas indignadas: "em 1892 publica o 'Só', um dos maiores livros da literatura portuguesa, que continua, porém, a ser largamente incompreendido ou desvalorizado pela infinita cretinice dos juízes das letras nacionais".

E Vergílio Ferreira abre com estas palavras um texto publicado, em 1992, na Colóquio Letras: "Coitado do Lusíada. Toda a diferença é um estigma e há que pagar por isso o devido preço. Toda a qualidade é ofensiva e há que esperar, se possível, que ela se perdoe pela própria qualidade. Depois de cem anos de muita injúria, a diferença de Nobre ainda não está paga e ainda se lha não perdoou".

Talvez haja um certo exagero neste diagnóstico. Por um lado, os leitores de Nobre nunca cessaram de engrossar, como o confirmam as sucessivas edições do "Só", que se contam já por dezenas. E se a publicação do livro originou, à data, paródias e escárnios, não foi preciso esperar muitos anos para que lhe prestassem a devida homenagem dois especialistas na arte de serem incompreendidos pelo seu próprio tempo: Pessoa e Sá-Carneiro. Sobretudo o segundo, que lha prestou indirectamente em muitos dos seus próprios versos, e expressamente no poema a que deu o título de "Anto".

Pessoa, esse, escreveu: "De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas". Mas neste elogio, como em tudo o resto que escreveu sobre o poeta, pressente-se a sua incompreensão dos mais profundos contributos de Nobre para a renovação da linguagem poética portuguesa. Nos seus breves 32 anos de vida, António Nobre escreveu o "Só" - ainda viu sair a segunda edição revista, em 1898 - e deixou inéditos um considerável número de poemas, postumamente publicados em "Despedidas" (1902), cuja edição original foi prefaciada por Sampaio Bruno, "Primeiros Versos" (1921) e "Alicerces" (1983).

Nobre começou a escrever muito novo. Os seus primeiros poemas datam, tanto quanto se sabe, dos 14 anos. E nada há, nessa produção juvenil, que traia uma especial disposição para a tristeza ou a melancolia. Em Fevereiro de 1885, com 17 anos, dirige mesmo a um amigo estas salutares recomendações: "aconselho-te a leitura das obras modernas, daquelas que não levam às idealizações metafísicas do romantismo; mas sim às que nos dominam por meio de sentimentos novos, que são a sinceridade, a alegria, a honestidade, enfim, todos aqueles que resultam duma alma bem formada, e dum organismo rijo, forte, sadio". A nós, que já fomos espreitar o fim da história, só pode comover-nos a confiança viril destas palavras. Sete anos mais tarde, em Abril de 1892, publica o "Só".

Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar, isolada, toda a capa de um livro. Mais do que um título, soa como uma divisa, equiparável, na sua poderosa brevidade, ao célebre "Désir" do malogrado D. Pedro. O jovem poeta, embora não suspeite da terrível doença que o destino lhe reserva, introduz o volume com este aviso à navegação, expresso nos versos finais de "Memória": "... tende cautela, não vos faça mal / Que é o livro mais triste que há em Portugal!"Os primeiros sintomas da tuberculose chegam nesse mesmo ano. Sentido-se "muito abatido", consulta um médico parisiense, que apenas lhe encontra uma forte anemia e lhe receita pílulas de ferro, vinho Delalonëe e pulverizações com "Eaux-bonnes".

Mas três anos mais tarde, Nobre está já a dar entrada no reputado sanatório suíço de Davos-Platz. É a primeira etapa de uma longa e penosa peregrinação, a que só a morte irá pôr termo.Mas voltemos ao início, a esse "menino António" que, segundo reza um bilhete manuscrito por seu pai, "nasceu em 16 de Agosto de 1867" num prédio do centro do Porto. Filho de um comerciante enriquecido no Brasil, Nobre frequenta bons colégios, alternando os estudos com temporadas nas propriedades rurais da família. E quando os pais se mudam para Leça, uma praia próxima do Porto frequentada pela colónia britânica, descobre o fascínio do mar - esse "Prof. Oceano" referido em "Carta a Manoel" - e, também, as loiras raparigas inglesas, com destaque para Miss Charlote, uma jovem preceptora com quem se corresponde durante dois anos.

É ela que lhe encurta o nome para "Anto", diminutivo que o poeta assumirá e que evoca nos "Males de Anto", título do poema que encerra o "Só". Conhecendo a vida de Nobre, é difícil não ler os "Males de Anto" como a pungente autobiografia de um poeta amaldiçoado. Mas quando escreveu o poema era ainda um jovem e saudável estudante da Universidade de Coimbra. E é consciente dessa perversa ironia que, pouco antes de morrer, faz notar em carta a um amigo: "Deus castigou-me. Quando era feliz e apenas tinha arranhaduras dos 19 anos, escrevia os Males de Anto, exagerando tudo. Agora é que eu os sinto, depois de os ter expresso em literatura."

Leia o resto deste artigo no site do jornal Público, disponível aqui: https://www.publico.pt/2000/03/18/jornal/o-enigma-de-anto-141437





Carolina nasceu, em Berlim, a 15 de Março de 1851. Era a filha mais nova de Gustav Michaëlis, um professor de matemática alemão e de Luise Lobeck.

Aos 16 anos, Carolina começou a publicar, em revistas alemãs da especialidade, trabalhos sobre língua e literatura espanhola e italiana. O interesse pela língua portuguesa chegaria mais tarde.

Em 1876, Carolina Michaëlis casa-se com Joaquim António da Fonseca Vasconcelos, uma figura eminente nos estudos da História de Arte em Portugal ( no dizer de José Augusto França, o «real fundador da História da Arte em Portugal») e que fez os seus estudos na Alemanha.

Já a viver em Portugal (no Porto) e no âmbito das suas investigações nas áreas da Literatura, Filologia e Folclore (entre outras) Carolina Michaëlis manteve uma pródiga atividade epistolar com inúmeros intelectuais portugueses e também estrangeiros. No seu espólio encontram-se, por exemplo, as correspondências que trocou com nomes como: Eugénio de Castro, Antero de Quental, João de Deus, Henrique Lopes de Mendonça, José Leite de Vasconcelos - um dos mais entusiastas adeptos da entrada das duas senhoras para a Academia -, o Conde de Sabugosa, Braamcamp Freire, Sousa Viterbo, Alexandre Herculano, Egas Moniz e Ricardo Jorge.

A sua elevada bitola intelectual e as suas investigações fizeram de Carolina Michaëlis uma das figuras mais respeitadas do seu tempo, tornando-se, por convite, na primeira mulher a ensinar no ensino universitário em Portugal. Tinha 60 anos de idade e ensinava Língua e Literatura Alemã.

Remontam a cerca de 180 os títulos publicados por Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Destaque para:

- Poesias de Sá de Miranda, 1885
- História da Literatura Portuguesa, 1897
- A Infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas (1521-1577), 1902
- Cancioneiro da Ajuda (2 volumes), 1904
- Dicionário Etimológico das Línguas Hispânicas
- Estudos sobre o Romanceiro Peninsular: Romances Velhos em Portugal
- As Cem Melhores Poesias Líricas da Língua Portuguesa, 1914
- A Saudade Portuguesa, 1914
- Notas Vicentinas: Preliminares de uma Edição Crítica das Obras de Gil Vicente, 1920-1922
- Autos Portugueses de Gil Vicente y dela Escuela Vicentina, 1922
- Mil Provérbios Portugueses

Carolina Michaëlis dirigiu ainda (até à sua morte, em 1925) a revista «Lusitânia, Revista de Estudos Portugueses» uma das mais prestigiantes publicações da época, cujos objetivos programáticos encontram-se na nota de abertura primeiro número:

Aspira a LVSITANIA a ser um órgão da nossa cultura, posto ao serviço da Reconstrução Nacional. Órgão independente, emprêsa espiritual – pois nem sequer tem a revista outro editor que não seja a sua redacção – vem esta publicação enquadrar-se no grande movimento de re-criação do Espírito da Pátria, para o servir com sinceridade pura, isenção honrada e fé ardente na verdade imortal da Nação Portuguesa – verdade imortal e pairante sobre o medíocre, o contingente e o provisório. Amamos e queremos servir a Terra Lusa em todas as irradiações da alma avoenga e contemporânea. Eis o nosso programa.

Em 1986 a Imprensa Nacional dedicou um Essencial Sobre a Carolina Michaëlis de Vasconcelos, a douta e prestigiada intelectual nascida na Alemanha, cujo legado que deixou à cultura portuguesa é preciosíssimo.

A autoria é de Maria Assunção Pinto Correia. Conheça mais detalhes sobre esta obra na nossa loja online. Aqui.




14 de março de 2003

Morre a escritora portuguesa Maria Ondina Braga, aos 71 anos de idade.

Maria Ondina Braga foi professora, tradutora e afirmou-se como ficcionista sendo hoje considerada um dos grandes nomes da narrativa portuguesa contemporânea.

Colaborou também com diversas revistas e jornais, nomeadamente com o Diário de Notícias, Diário Popular, A Capital, Panorama, Mulher, Acção e Colóquio Letras.

É autora de variadíssimos títulos:

O Meu Sentir (1949) - Poesia
Alma e Rimas (1952) - Poesia
Eu Vim para Ver a Terra (1965)
A China Fica ao Lado (1968)
Estátua de Sal (1969, 1983)
Amor e Morte (1970)
Os Rostos de Jano (1973)
A Revolta das Palavras (1975)
A Personagem (1978)
Mulheres Escritoras (1980)
Estação Morta (1980)
O Homem da Ilha (1982)
A Casa Suspensa (1982)
Angústia em Pequim (1984)
Lua de Sangue (1986)
Memórias e mais dizeres (1988)
Nocturno em Macau (1991)
A Rosa de Jericó (1992)
Passagem do Cabo (1994)
A Filha do Juramento (1995)
Vidas Vencidas (1998)
O destino viaja a bordo (1988)
Quando o claustro é de ninguém (2000)
O Jantar Chinês (2004, póstumo)

Já este ano a Imprensa Nacional vai começar a publicar a obra completa da escritora, numa coleção coordenada por Isabel Cristina Mateus e Cândido Oliveira Martins.


«Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.»

É este evocativo de saudade e sentimentalidade que dá nome, início e matriz a uma reconfiguração do romanesco na literatura da segunda metade do século XVI.

Trata-se da frase inicial do Prólogo do livro Saudades, mais conhecido por Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, autor que será evocado por Jorge Silva Melo na próxima sessão de A Voz dos Poetas.

É já esta segunda-feira, dia 18 de março, pelas 18h30 na sala da Biblioteca da Imprensa Nacional.

Jorge Silva Melo dirá a poesia de Bernardim Ribeiro. Recorde-se que além de prosa Bernardim Ribeiro deixou-nos:

Duas trovas, três cantigas, três esparsas e quatro vilancetes, publicados no Cancioneiro Geral.

Cinco éclogas: Persio e Fauno, Jano e Franco, Silvestre e Amador, Jano, Agrestes e Ribeiro.

A sextina «Ontem pos‑se o sol, e a noute».

Duas cantigas publicadas na edição de Ferrara da História de Menina e Moça.

O romance Ao longo de hũa ribeira, pela primeira vez atribuído a Bernardim Ribeiro na edição da Menina e Moça de 1645.

A entrada, como sempre, é gratuita.


Nota biobibliográfica de Bernardim Ribeiro


Por Marta Marecos Duarte


In História de Menina e Moça, Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa, Imprensa Nacional, 2016

Bernardim Ribeiro terá nascido no Torrão, vila alentejana que pertence hoje ao concelho de Alcácer do Sal. Esta hipótese baseia‑se numa referência presente na écloga Jano e Franco (vv. 10‑13). Numa das versões da écloga Basto, da autoria de Francisco de Sá de Miranda, amigo do autor da História de Menina e Moça, as palavras do pastor Bieito parecem também indiciar essa origem: «Tornaste me ora à lembrança/ Um amigo do Torrão» (vv. 401‑402). O facto de ter assinado várias composições incluídas no Cancioneiro Geral, publicado por Garcia de Resende em 1516, permite situar o seu nascimento entre 1480 e 1490. Desta colaboração se pode depreender que Bernardim foi frequentador da corte de D. Manuel I, onde terá privado com Sá de Miranda.

Ao contrário do introdutor do soneto em Portugal, Bernardim Ribeiro não foi um cultor da medida nova. Contudo, considera‑se que a sua obra se aproxima do cânone renascentista, quer por dela fazerem parte diversas éclogas e uma sextina, géneros clássicos sujeitos a inovações nos séculos xv e xvi , quer pelos vários paralelismos que é possível estabelecer entre o seu legado e o de autores como Ovídio, Petrarca e Sanazzaro, que exerceram uma influência modelar sobre os autores quinhentistas.

Além do referido, sobre Bernardim Ribeiro praticamente nada se sabe. Durante muito tempo, a sua obra serviu para ilustrar factos que se acreditou terem feito parte da sua vida.

Como afirma J. A. Cardoso Bernardes, «À falta de documentos, o estabelecimento desses dados [condição aristocrática, amores clandestinos, loucura] operou‑se através de uma verdadeira saga decifratória visando os anagramas das éclogas e de Menina e Moça». Foi sobretudo «o projecto de construção de uma história literária nacional» que obrigou a «que ao autor da História de Menina e Moça se tenha feito corresponder, desde cedo, o protótipo do luso genial e sensível» . O protótipo que se esboçara nas cantigas de amigo e que se «projectaria depois no Romantismo e no Saudosismo» contribuiu para determinar o lugar indiscutível que a novela de Bernardim ocupou, ao longo do século xx, nos manuais escolares. A tematização da saudade que nela é feita foi também um fator determinante dessa presença, porquanto serviu de base a uma mitificação da identidade portuguesa como sendo singularmente marcada por este sentimento.

Exemplo da decifração acima citada foi a interpretação levada a cabo por Teófilo Braga no ensaio Bernardim Ribeiro e os Bucolistas, publicado em 1872. As perspetivas aí propostas são reformuladas anos depois num outro estudo, Bernardim Ribeiro e o Bucolismo . Com base num documento falso , Teófilo desvenda a Menina e Moça, estabelecendo, entre muitas outras, correspondência entre o par amoroso ficcional Bimarder‑Aónia e o poeta Bernardim Ribeiro e a sua prima D. Joana Zagalo. Sob as alegorias pastorais e cavaleirescas, «[t]ratavam‑se ahi amores do paço» , refere. O aparecimento da intriga de corte a que o poeta surge associado, à qual não é alheio o mistério que reveste o final das histórias da Menina e Moça, em particular a de Avalor e Arima, antecede em muito o final do século xix. No século xvii, Manuel de Faria e Sousa, em Fuente de Aganipe (1644), divulgava pela primeira vez a lenda dos trágicos amores de Bernardim Ribeiro com a Infanta Dona Beatriz, segunda filha de D. Manuel I. Uma lenda que foi tida em consideração não só por Teófilo Braga, mas também por Alexandre Herculano e Almeida Garrett.

Em pleno século xx, desenvolveu‑se uma outra corrente biografista, também com repercussões na interpretação da obra. Trata‑se daquela que afirma o judaísmo, ou criptojudaísmo, de Bernardim, e que encontra base de sustentação na descoberta da edição de Ferrara da História de Menina e Moça. Foram os Usque, judeus portugueses exilados em Itália, que publicaram a editio princeps da novela portuguesa. Com que interesse?

Porquê editar uma obra de carácter profano entre uma maioria de publicações de cariz religioso, dirigidas a leitores judeus? Perguntas como estas, acrescidas do facto de a novela figurar no Índice expurgatório de 1581 e de se revestir de elementos sugestivos de uma certa heterodoxia cultural e religiosa, paralelamente a uma significativa ausência de referentes associados ao universo do cristianismo, levaram José Teixeira Rego (1931) e Helder Macedo (1977) a atribuírem a Bernardim a condição de judeu, ou cristao‑novo . O primeiro lança ainda a hipótese de o poeta e Judá Abravanel, mais conhecido pelo nome Leão Hebreu, autor de Diálogos de Amor, obra publicada em Itália em 1535, serem a mesma pessoa.

Assim, não dispondo por ora de documentação que nos conduza à elaboração de um retrato fiel do autor, atente‑se em algumas pistas que poderão ajudar a esbater parte do mistério em torno da sua biografia. É provável que Bernardim Ribeiro tenha falecido entre 1530 e 1540. A referência em tempo pretérito a um certo Ribeiro, em várias éclogas de Sá de Miranda escritas entre 1532 e 1536, permite conjeturar essa possibilidade. Herculano de Carvalho foi dos primeiros a ter este dado em conta, lançando o debate sobre um verso contido num Epitalâmio pastoril de Miranda («De Ribero has sabido bien quién fué?», v. 188). Eugenio Asensio, ao fixar a data de escrita do Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa da Menina e Moça entre 1540 e 1546, sugere também o falecimento do autor em data anterior a 1540.

Segundo Pina Martins, um passo da écloga Alexo parece sugerir que Bernardim Ribeiro acompanhou Miranda na sua viagem a Itália, entre 1521 e 1526. Repare‑se nos versos que pensa aludirem à companhia de Ribero: «Al cantar que aqui cantámos;/ Fue […] de estraña parte/ Donde un tiempo ambos andamos/ I dir te he como pasó» (vv. 437 440). Tal circunstância inviabilizaria a conexão do poeta com o cargo de escrivão da câmara de D. João III, atribuído a alguém com o mesmo nome, em 1524. Terá este sido apenas mais um dos homónimos do autor da Menina e Moça? As alusões a Ribeiro nas éclogas de Miranda não ficam por aqui. Ainda em Alexo, o pastor Juan, referindo‑se ao canto de Ribeiro, termina a estrofe com uma acusação à «Gente de firmeza poca/ Que le dió tantos loores,/ I aora ge los apoca» (vv. 388‑390). O conteúdo destes versos indiciaria, por sua vez, uma situação de mudança relativamente ao apreço granjeado pelo poeta.

Poder‑se‑a entender estas citações como pistas biográficas com a mesma certeza com que o fazemos em relação, por exemplo, à referência do poeta do Neiva a Garcilaso de la Vega, cuja morte é lamentada pelos pastores da Écloga V (Nemoroso), escrita um ano após o falecimento do poeta espanhol? Enquanto os esboços de uma possível biografia não assumem uma maior nitidez de contornos, debrucemo‑nos sobre as obras atribuídas a Bernardim Ribeiro.











Raul Brandão (1867-1930) nasceu a 12 de março de 1867 na Foz Porto.

Era filho e neto de pescadores. Foi militar, jornalista e autor de uma influente obra literária, marcada pelo imaginário das atividades ligadas ao mar e pelas duras condições de vida dos pescadores.

Os anos de produção literária de Raul Brandão coincidem com um período bastante conturbado da história de Portugal: o Ultimatum Inglês, de 1891, o Regicídio, em 1908, a Proclamação da República, em 1910, e a Grande Guerra de 1914 a 1918 e a pandemia da gripe pneumónica entre 1918-1919. Porém a sua escrita é predominantemente poética (sem nunca ter escrito poesia) e luminosa, sempre com a condição humana em pano de fundo.

Estreia-se em 1890 com Impressões e Paisagens, seguindo-se depois História de um Palhaço, de 1896. De entre os muitos títulos que escreveu depois deste, e ao longo de mais de quatro décadas, destacam-se Húmus de 1917 — considerado a sua obra prima — , Os Pescadores, de 1923, As Ilhas Desconhecidas, de 1926 – considerado um dos melhores livros de viagens de todos os tempos na literatura portuguesa – e O Gebo e a Sombra (1923) – peça, aliás, adaptada ao cinema já no século XXI (em 2012) por Manoel de Oliveira.

Além de O Essencial sobre Raul Brandão, de autoria de António M. Machado Pires, a Imprensa Nacional dedica vários título a este escritor maior das letras portugueses.

Cinzento e Dourado. Raul Brandão em Foco, nos 150 Anos do seu Nascimento

2017

Autor: Vasco Rosa

Prefácio de José Carlos Seabra Pereira

Cinzento e Dourado — Raul Brandão em Foco nos 150 Anos do Seu Nascimento é segundo o autor «(…) a continuação de A Pedra ainda Espera Dar Flor. Dispersos 1891-1930 de Raul Brandão, que publiquei em fevereiro de 2013. Ali tratou-se de pesquisar, reunir e publicar textos do escritor que estavam perdidos em folhas de papel impresso, identificados uns, desconhecidos outros, e que nunca haviam sido lançados em livro, fosse pelo autor, fosse pelos seus póstumos editores. Aqui trata-se de ir mais além na identificação da sua receção literária, da juventude do escritor até hoje, trazendo também à luz do dia alguns quase-inéditos e outros documentos suscetíveis de nos darem uma perspetiva mais ampla, e quanto possível mais completa, da sua vida e obra.»

Raul Brandão - Do Texto à Cena

2007

Autor: Rita Martins

«Mais conhecido pela sua obra narrativa, a publicação do seu teatro reserva a Raul Brandão um lugar singular na dramaturgia portuguesa. Rompendo com os códigos realistas que dominam a cena em princípios do século xx, o autor cria espaços fantasmáticos onde projecta a cisão do eu em duplos e sombras. Habitado pela solidão e pelo grito, o teatro brandoniano é expressão da mundividência trágica de alguém que se vê «entre ruínas» — entre um passado que já não existe e um futuro sem alicerces. Através da análise de três encenações de O Gebo e a Sombra, procuram-se novos sentidos de um texto marcado pela crise ideológica, política e religiosa finissecular, questiona-se a sua actualidade e a sua capacidade para nos interpelar e inquietar.».


Vida e Obra de Raul Brandão

2006

Autor: Guilherme de Castilho


«Na relativamente abundante bibliografia sobre Raul Brandão, este livro de Guilherme de Castilho, publicado em 1979 e que agora conhece uma nova edição, representa um marco significativo, não só pelos relevantes elementos que trouxe para a biografia do genial autor de Húmus como pelo inteligente e compreensivo estudo crítico do conjunto da obra brandoniana, nos vários e complementares géneros por que se desenvolve, desde os seus textos iniciais no âmbito do jornalismo, marcados pelo ambiente espiritual «nefelibata» finissecular, até às grandes obras novelísticas e teatrais de forte recorte angustiado e sombriamente metafísico, anunciador de muito do que seriam as preocupações e as atitudes filosóficas das décadas seguintes, que se projecta também na sua visão espectral da História e contrasta com o vital e luminoso impressionismo de Os Pescadores e de As Ilhas Desconhecidas.».





As alterações profundas que o negócio editorial sofreu nos últimos anos aconteceram, principalmente, devido à concentração editorial. Isto fez com que alguns novos grupos editorais se vissem com uma série de chancelas onde, com mais ou menos custo, colocariam os títulos a publicar. Nesse sentido, a Leya é o caso mais gritante de esquizofrenia, com várias chancelas onde se poderiam colocar o mesmo livro. A Porto Editora, no entanto, não fica muito atrás. Vejam-se dois casos, que lembro sem pensar muito: Ana Margarida Carvalho, cujos dois romances saem na Teorema (porque não na Dom Quixote, por exemplo?); o recente No Armário do Vaticano que vê edição pela Sextante em vez da própria Porto Editora.

Um dos casos mais arrumados foi a Babel, de que tive a honra de editar, entre 2009 e 2013, algumas chancelas. O Paulo Teixeira Pinto, sempre devedor das matemáticas para organizar o caos, pensou bem num quadrado 3x3, onde estabeleceu nove chancelas, algumas existentes, outras resgatadas ao tempo, outras novas. Era a Verbo, que deixaria o infantil e se tornaria a referência de não-ficção que sempre foi; a Ulisseia, a referência de ficção; a Arcádia, recuperada para o mass market; a Guimarães, para o cânone; a K4, para livros de bolso (quadrados, no caso); a Centauro, para os projectos especiais fora do retalho; a Athena, para os livros de Arte; a Ática, recuperando a sua relação com Fernando Pessoa; e a incompreendida Pi, com o símbolo matemático tentando ensinar desde logo às crianças que há uma dízima infinita não-periódica que se deve saber de cor: para o infantojuvenil, portanto. Isto fez com que livros editados numa chancela transitassem, naturalmente, para outra. Seja a Maria Teresa Maia Gonzalez ou os livros da «Anita» (que saudades do nome antigo…), ou A Origem das Espécies que, ainda não havendo Babel, editei na Guimarães e que na segunda edição saiu com a chancela Verbo.

A 20|20, tornado o grupo editorial, tem feito o mesmo, sem tanta matemática mas algum cuidado. O caso mais recente é A Sexta Extinção de Elisabeth Kolbert. Primeiro na Vogais – em duas edições e com duas capas diferentes, que aqui se reproduzem – e agora na Elsinore. Infelizmente ou felizmente, esta última com um cuidado editorial que as outras não tiveram – como também se pode ver pela capa.



A Elsinore é um caso maravilhoso de cuidado (sendo por isso algo incompreensível, no livro que aqui nos traz, a ausência do índice remissivo que existe na edição inglesa). Cuidado no projecto gráfico dos RPVP Designers / Booktailors; nas capas; no poema do Mário Cesariny a abrir cada livro; no acabamento em soft touch; no papel Coral Book Ivory de 80 gramas mas com o índice de mão 1.2, quase sem volume; e, claro, nos títulos escolhidos.

Assim este A Sexta Extinção. É um livro assustador pelo que nos informa, mas brilhante na forma como o faz. Porque a autora não se coibiu a visitar os locais para cada uma das suas prelecções (dando conta, por exemplo, das cinco extinções em massa que aconteceram até agora e de como estamos a executar inconscientemente – ou conscientemente – a sexta). Bem escrito, informativo, cuidado – tudo o que deve ser um livro de não-ficção de referência para o grande público. Tudo o que deve ser a Elsinore. (Talvez não fosse necessária a cinta tão expressiva numa capa tão bonita. Mas eu entendo – temos de vender livros e se se puder indexar este livro aos do autor do Sapiens alarga-se o público. Ao contrário de tantas luminárias, sempre fui a favor de vender livros. Tenho uma coisa estranha comigo: gosto que as pessoas leiam e descubram coisas boas mesmo que desatentas pelo virtual da vida real.)

Ainda para mais, eu tenho um fascínio de anos pelas extinções em massa. Traduzo neste momento, muito paulatinamente, um livrinho do início dos anos 980 onde se dá conta de uma delas e das suas ramificações, baseadas numa análise estatística que se revelou incorrecta. Está um pequeno resumo no capítulo IV do de Kolbert. É lá que se fala da estrela que me acompanha diariamente. Mesmo que não acompanhe a Terra, pelos vistos. Deixo aqui esta ideia: vão ver o que é.

A Sexta Extinção de Elisabeth Kolbert
A terceira edição (depois de duas na Vogais) publicada em Fevereiro de 2019 pela Elsinore, depois de impressa na Publito.