por Helena Bento
in Expresso «Cultura», 21.02.2018
(...) trabalhámos a partir dessa edição (de 1888) que é aquilo a que chamamos edição autorizada, isto é, a única edição que Eça acompanhou e que teve muitos acidentes de percurso. O texto esteve na tipografia mais de oito anos. Eça vivia no estrangeiro e isso também complicava as coisas. Seja como for, essa edição ficou como o único texto de referência. Há alguns materiais de espólio, como um ou outro manuscrito abandonado, que também foram aqui usados, mas mais como apêndices e trabalho preparatório. Não trabalhámos a partir de manuscritos porque de facto não há manuscritos. Devem ter-se perdido quando Eça os enviou para a tipografia a partir da Inglaterra.

A obra levou muito tempo a ser escrita e passou de facto por muitas mãos em diferentes tipografias, o que fez com que os critérios fossem muito oscilantes. Na época, os escritores confiavam muito no trabalho das tipografias e isso gerava algumas discrepâncias e incongruências. A edição crítica procura, na medida do possível, normalizar o texto. E evidentemente resolver também alguns lapsos que o escritor cometeu e o tipógrafo não viu.

Pergunta-me - para que serve então uma edição crítica? E eu respondo-lhe - serve como matriz para futuras edições. É um pouco como se quiséssemos reproduzir um quadro mas, percebendo que esse quadro está um pouco estragado, optássemos por restaurá-lo primeiro e só depois então reproduzir. Assim, as editoras que continuam a editar “Os Maias” têm de considerar o facto de já existirem edições críticas de muitos títulos. Porque de facto não faz sentido fazermos edições desta natureza se as edições correntes, que estão no mercado, não baseiam nessas edições críticas. É como se estivéssemos constantemente a repetir os mesmos erros e a reproduzir a versão estragada do quadro e não a restaurada.

Algumas [editoras consideram as edições críticas], outras não, e basicamente por razões económicas. De facto, é mais barato reproduzir infinitamente e também dá menos trabalho. Há quem invoque a questão dos direitos de autor, mas isso é apenas uma má desculpa, porque os direitos de Eça de Queirós estão em domínio público. A editora pode usar edições críticas sem ter de pagar um tostão nem à Imprensa Nacional nem à família de Eça. Se não usa, é por preguiça - porque usar edições críticas obriga a recompor o texto e não apenas a fazer uma reprodução fotomecânica - ou por razões económicas. Isto merece uma reflexão. A nossa ideia de património baseia-se muito no património físico - nas capelas românicas, nos quadros do séc. XVI e por aí fora. Se alguém estragar um monumento, uma escultura, uma pintura, uma capela ou a fachada de uma catedral, essa pessoa é responsabilizada e a comunidade indigna-se. Mas parece que as obras dos escritores não cabem neste critério e que portanto podem ser estragadas ao longo dos anos, que não há problema nenhum e ninguém se preocupa.

Ler na íntegra aqui.




SILENCE, ON LIT! é um conceito (e também o nome da associação que o desenvolveu) que consiste na promoção do prazer de ler livros, em simultâneo, diariamente e em silêncio, durante 10 ou 15 minutos.

Em França, o projeto começou no ano letivo de 2016/2017, a exemplo de um liceu francófono em Ankara (Turquia), onde há 15 anos toda a gente lê todos os dias, à mesma hora.

O entusiasmo dos professores e dos pais estendeu-se também aos alunos que atualmente já encaram a leitura como um prazer. Em apenas 3 meses, eram os próprios alunos que reconheciam que retiravam daquela prática quotidiana da pausa para leitura alguns benefícios importantes: a calma, o relaxamento, uma melhor capacidade de trabalho, a oportunidade de aprender coisas novas, alargar o vocabulários e estimular a imaginação.

A iniciativa começou por ser destinada sobretudo aos alunos e a estimular o seu gosto pela leitura. Mas acabou por se transformar num ritual quotidiano que abrange toda a escola, dos professores aos auxiliares. E mesmo entre os adultos há quem admita que voltou a ganhar hábitos de leitura já perdidos. Para alguns, é um pouco como recuperar a juventude.

Alguns testemunhos recolhidos na escola pública de Banon, na região dos Alpes-Alta-Provença:
Isto permite-me ler com mais frequência, e ao mesmo tempo terminar os livros mais rapidamente.
Aluna

Eu não lia. Agora leio de vez em quando. Antes não lia, nem sequer os livros que os professores mandavam.
Aluno

É mesmo muito agradável, porque temos um período de coesão, no silêncio, e é notável encontrar uma silencio com esta qualidade com um grupo de alunos.
Professor

Partimos um pouco à aventura, pensando que era uma injunção, pedir aos miúdos todos os dias, à mesma hora, que pegassem num livro. Achávamos que ia resultar três vezes, quarto vezes,... E afinal já passaram vários meses e continua.
Diretora


https://youtu.be/-a4rGVDjkYQ 


O conceito SILENCE, ON LIT !© tornou-se entretanto extensivo a todos os tipos de coletividades – desde as escolas às empresas.




RAS



Título: OS MAIAS
Autor: Eça de Queirós
Edição crítica: Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha
Apresentação: Paula Morão
Coleção: Edição crítica das obras de Eça de Queirós
Edição: Imprensa Nacional
Data: quarta-feira, 21 de fevereiro
Horário: 17:30 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastron azul‑celeste.
O Craft conhecia‑o; Ega apresentou a Carlos o sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absintho
(...)
— Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar‑se no divan, uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinha griffon, e servida por um esplêndido preto!
O sr. Dâmaso Salcede, que não despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
— Bem sei! Os Castro Gomes… Conheço‑os muito… Vim com eles de Bordéus… Uma gente muito chic que vive em Paris.
Carlos voltou‑se, reparou mais nele, perguntou‑lhe, afável e interessando‑se:
— O senhor Salcede chegou agora de Bordéus?
Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu‑se imediatamente, aproximou‑se do Maia, banhado num sorriso:
— Vim aqui há quinze dias, no Orenoque. Vim de Paris… Que eu em podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci‑a em Bordéus. Isto é, verdadeiramente conheci‑a a bordo. Mas estávamos todos no Hotel de Nantes… Gente muito chic: criado de quarto, governanta inglesa para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas… Chic a valer! Parece incrível, uns brasileiros… Que ela na voz não tem sutaque nenhum, fala como nós. Ele sim, ele muito sutaque… Mas elegante também, V. Ex.ª não lhe pareceu?


Tendo por texto base a única edição em vida de 1888 (Livraria Internacional de Ernesto Chardron), esta edição crítica de Os Maias resulta de cerca de dez anos de trabalho de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, dedicado ao estudo meticuloso dos manuscritos, das notas do autor e da vasta epistolografia em que Eça se refere ao seu magnum opus.

Paula Morão é professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), especialista em Literatura Portuguesa dos séculos XIX a XXI e em Literatura Autobiográfica. Estudiosa de Irene Lisboa, mas também de António Nobre, Cesário Verde, Sophia de Mello Breyner, Maria Judite de Carvalho e Luísa Dacosta, o seu trabalho tem sido distinguido com prémios tão importantes como o Grande Prémio de Ensaio da APE e o Prémio Jacinto do Prado Coelho da Associação Internacional dos Críticos Literários.
Foi Directora-Geral do Livro e das Bibliotecas, Directora da Área de Literaturas Artes e Culturas da FLUL, e colabora com o Centro de Estudos Clássicos (U. Lisboa) e o Centro de Estudos Portugueses (U. Coimbra).




Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca dum abrigo;
E apesar disso, crês? nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito,
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno,
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.

Passo contigo a tarde, e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo.
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Rufando apressado,
E bamboleado,
Bonet posto ao lado,
Garboso, o tambor
Avança em redor
Do campo de amor…

Com força, soldado!
A passo dobrado!
Bem bamboleado!
Amores te bafejem.
Que as moças te beijem.
Que os moços te invejem. 


Mas ai, ó soldado!
Ó triste alienado!
Por mais exaltado
Que o toque reclame,

Ninguém que te chame…
Ninguém que te ame… 

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro…
Lançá-lo ao mar.
Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançai-o ao mar.

E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
— A última, de antes do teu noivado.
A sete chaves, — a carta encantada!
E um lenço bordado… Esse hei de o levar.
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.


A região de Ségou, no centro sul do Mali, é palco de uma tradição viva de máscaras e marionetas, que tem a sua origem na era pré-colonial. (…) A dança de máscaras é atual, aberta à invenção e à mudança. (…) É esta troca dinâmica entre tradição e inovação que dá ao teatro o seu caráter atual e permite que a dança de máscaras continue a ser um importante e popular contexto artístico de produção de conhecimento e significado para as comunidades do Mali. 

A conclusão resulta do estudo que iniciado entre 1978 e 1980, no campo da dança de máscaras de jovens do Mali. Mary Jo Arnoldi regressou regularmente àquele país ao longo dos 30 anos seguintes, para prosseguir a investigação.


Inspirados no comportamento e movimentos da natureza, os bailarinos usam a dança para compor a personagem dramática. É a relação entre a dança e a máscara que cria a identidade da personagem perante a assistência. Ao representar animais, o intérprete enfatiza as suas qualidades, violando qualquer sentido de comportamento socialmente aceite. Quando carateriza pessoas, a dança é composta por movimentos que a comunidade entende como o comportamento apropriado à idade, género e estatuto social da personagem.


O teatro e as danças de máscaras são usadas pela comunidade para transformar os incidentes e as tensões locais em questões de ordem mais genérica, sujeitando-as a um comentário moral mais universal.

As máscaras, mais ou menos extravagantes para imprimir energia à talha de madeira, não devem suplantar as formas naturais do material, mantendo com ele um equilíbrio dinâmico.
Muitas personagens estão ligadas a múltiplas associações. Uma das mais antigas e complexas, e que aparece na maioria dos teatros da região, é a hiena. Habitualmente, descreve-se a hiena como um ladrão que devora o gado. A hiena também aparece num grande número de contos populares sobre animais, e em muitas histórias dessas ela é atiçada contra a lebre. (…) Muitos espectadores estão cientes  da multiplicidade de significados associados à hiena, mas qual das inúmeras interpretações eles destacarão difere imensamente de indivíduo para indivíduo. 


LOULÉ. Territórios, Memórias, Identidades é o catálogo da exposição temporária com o mesmo nome, que vai estar na Galeria Poente do Museu Nacional de Arqueologia até 30 de dezembro de 2018.

A partir dos vestígios arqueológicos e das fontes documentais disponíveis, que constituem as memórias e a identidade daquela área, LOULÉ. Territórios, Memórias, Identidades – a exposição e o catálogo – conta a história das comunidades que a habitaram entre a Pré-História e a Idade Média.


Aqui, tudo fala de um tempo antes da História, em que a África estava unida à Europa, e ao mesmo tempo tudo esconde. Depois, muito mais tarde, quando as ervas deram flores, e já existiam homens para colhê-las, levas sucessivas de povos do mundo pré-histórico aqui vieram fixar-se, porque ali havia terra boa, sol brilhante e mar tranquilo, e era após era, foram deixando o rasto das suas mãos fabricadoras no solo generoso que habitaram. Hoje, passados milhares de anos, o movimento é semelhante. As Terras de Loulé continuam a ser um lugar pacífico, um lugar mãe, um lugar de receber todo aquele que vier por bem. Que outras palavras usar? São sempre banais as palavras de quem ama.
Lídia Jorge
in LOULÉ. Territórios, Memórias, Identidades
Coordenação geral de António Carvalho, 
Dália Paulo e Rui Roberto de Almeida
uma edição conjunta da Imprensa Nacional 
e do Museu Nacional de Arqueologia,
com o apoio da C. M. de Loulé

A exposição reúne mais de meio milhar de bens culturais provenientes de várias coleções públicas, e resulta de um trabalho de 15 meses de preparação, e da colaboração de cerca de 50 técnicos das mais variadas áreas de especialidade.


A história da arqueologia de Loulé é indissociável do Museu Nacional de Arqueologia (MNA). Uma das suas coleções mais antigas foi reunida pelo arqueólogo e escritor Estácio da Veiga (1828-1891), com vista a constituir o Museu Arqueológico do Algarve. Em 1894, esta coleção acabou por ser incorporada no então Museu Etnográfico Português, que viria a ser o MNA. Outro louletano notável, o etnógrafo Manuel Viegas Guerreiro, foi um colaborador muito próximo de José Leite Vasconcelos, fundador do MNA, tendo sido convidado para dirigir o Museu entre 1974 e 1975.



SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS GLOBAIS
Sessão XVI: «As prioridades de política para os portugueses no mundo»
Orador: José Luís Carneiro
Organização: INCM | UAb | CIDH | FCT | CLEPLUL | APCA | IAC
Data: Quarta - 14 fevereiro
Horário: 18:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)

Entrada livre condicionada à capacidade da sala.

Para o novo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, é fundamental o compromisso com uma política, e um rosto de proximidade aos portugueses que vivem no estrangeiro.
Um autarca é aquele que concretiza os conceitos na vida concreta das pessoas e a dimensão da proximidade é uma das marcas de qualquer Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. 
José Luís Carneiro,
entrevista ao canal Mundo Português,
Abril 2016

Nascido em 1971, José Luís Carneiro iniciou o seu percurso académico em Relações Internacionais e concluiu o seu mestrado em Estudos Africanos, tendo frequentado o do doutoramento em Ciência Política e Administração. Entre 1995 e 2005, lecionou nos departamentos de Relações Internacionais; Economia e Comércio Internacional sendo docente na Universidade Lusíada e no Instituto de Ciências da Informação e Administração, em Aveiro. Entre 1996 e 1999 tornou-se colaborador do jornal O Independente, dedicando-se à análise sobre a realidade dos países da África Lusófona. Colaborou ainda com diversos títulos da imprensa escrita, através da escrita de artigos jornalísticos e de opinião sobre política nacional e internacional.

2005, ano em que foi nomeado Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, foi também deputado da Assembleia da República na X Legislatura, integrando a Comissão dos Negócios Estrangeiros. Foi membro da Assembleia Parlamentar Euro-Mediterrânica, para além de membro do Comité das Regiões entre 2006 e 2015. Integrou as comissões de Educação, Juventude, Ciência e Cultura (EDUC) e a comissão de Coesão Territorial (COTER). Foi, ainda, eleito Presidente da Comissão de Recursos Naturais (NAT), função que desempenhou entre fevereiro e outubro de 2015. Desde outubro de 2017, é presidente da Assembleia Municipal de Baião. Ao longo da sua carreira, José Luís Carneiro tem sido agraciado com diversas condecorações e louvores.



Em termos dramatúrgicos, as três peças estão muito, muito bem escritas, são ideologicamente coerentes entre si, justificando-se assim a edição comum, é fortíssima a coesão dramática (...)
Se não nos enganamos, se José Gardeazabal continuar a escrever teatro pode vir a tornar-se (...) um notável dramaturgo, de que a cultura portuguesa tanto carece desde a criação de António, um rapaz de Lisboa (1995), por Jorge Silva Melo, e, anteriormente, da notável obra de Bernardo Santareno ao longo da década de 1960.
Miguel Real
em «Os Dias da Prosa»
J.L. 17-30 jan 2018
p. 11
Ler na íntegra aqui:



Trilogia do Olhar
_ Televisão
_ Regras para Fotografar Animais
_ Cinema Mudo

Biblioteca de Autores Portugueses
208 pp.

ISBN 978-972-27-2558-3





Informação e imagem de www.edition.cnn.com


Ao longo de vários meses, um grupo de recoletores de lixo de Ankara recuperou os livros que ia encontrando abandonados entre os desperdícios da população. Em setembro de 2017 estava reunida quantidade suficiente para inaugirar uma biblioteca pública composta inteiramente de livros destinados aos aterros sanitários.

Inicialmente, as edições encontradas eram apenas para usufruto dos funcionários e suas famílias. Mas rapidamente a coleção cresceu, e o interesse espalhou-se por toda a comunidade. Hoje, a biblioteca acolhe mais de 6000 títulos, que vão desde a literatura até à não ficção, passando por uma secção infantojuvenil e outra dedicada à investigação científica. A biblioteca inclui ainda livros em inglês e francês para visitantes bilingues.
Começámos a discutir a ideia de criar uma biblioteca com aqueles livros. E quando todos se envolveram o projeto aconteceu. 
declarou Alper Tasdelen, presidente da Câmara de Çankaya, cujo executivo apoiou a criação da biblioteca.

O acervo é tão extenso que os livros são agora requisitados por escolas de várias regiões do país, programas educativos e estabelecimentos prisionais.

A biblioteca está alojada numa antiga fábrica de tijolos desativada, situada na sede do departamento de saneamento. Com uma fachada antiga em tijolo e longos corredores, este é o espaço ideal para uma biblioteca.






Fonte: https://edition.cnn.com/2018/01/15/europe


MB








Programa: A VOZ DOS POETAS
Textos: Alberto de Lacerda
Leitura de poesia: Jorge Silva Melo e Nuno Rodrigues | Artistas Unidos
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
Data: 5 fevereiro 2018
Horário: 18:30 h

Entrada livre limitada à capacidade da sala.

Inserido na atividade de programação geral da Biblioteca da Imprensa Nacional, «A VOZ DOS POETAS» é um ciclo de leitura de poesia de autores publicados pela INCM, com periodicidade bimestral.

Alberto Lacerda (1928-2007) nasceu em Moçambique. Depois de uma breve permanência em Portugal, partiu para o Brasil, nos Estados Unidos e sobretudo em Inglaterra. Com David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana e Luiz de Macedo fundou a revista de poesia Távola Redonda. Os Cadernos de Poesia, dirigidos por Jorge de Sena, José-Augusto França, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, dedicaram-lhe um número em exclusivo. Publicou em Londres o seu primeiro livro, 77 Poems (1955) que mereceu o melhor acolhimento da crítica inglesa.
Divulgou a cultura portuguesa na BBC, onde trabalhava. Colaborou com o Times Literary Supplement, The Spectator e os Cahiers de Saisons. Mas também com o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, a Colóquio-Letras e a Colóquio-Artes.Lecionou nas universidades de Austin (Texas), Nova Iorque e Boston.Privou com poetas como Ruy Cinatti, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Cesariny e António Ramos Rosa, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.Amante da pintura, foi próximo de pintores como Vieira da Silva, Arpad Szenes, Menez, Jorge Martins, Paula Rego, Victor Willing e David Hockney.Não tinha uma relação pacífica com Portugal. Dos seus textos ressaltam a melancolia, a liberdade e a iconoclastia.Alberto Lacerda deixou muitos escritos inéditos. Na Imprensa Nacional publicou cinco volumes: Oferenda I (1984) e Oferenda II (1994), Elegias de Londres (1987), Átrio (1997) e Horizonte (2001). 

Fotografia: imageBroker/Rex/Shutterstock

A Mauritshuis, na Haia – um dos mais importantes museus holandeses, que acolhe grandes tesouros nacionais como a famosa Rapariga do Brinco de Pérola de Vermeer ou O Pintassilgo de Carel Fabritius – retirou recentemente do átrio de entrada o busto seu fundador, na sequência da recente reorganização da coleção

O conde Johan Maurits van Nassau-Siegen foi governador da colónia holandesa no Brasil entre 1636 e 1644, e o museu tem em curso um grande projeto de investigação com a Universidade de Leiden sobre a sua presença no Brasil e a sua ligação à história da escravatura. O objetivo da remodelação é, pois, permitir que a Mauritshuis passe a refletir a preocupação crescente da sociedade relativamente à história da colonização e ao comércio de escravos. O museu pretende assim atualizar a visão sobre o passado, partilhando com os visitantes todos os seus aspetos, tanto os positivos com os negativos.

Quanto ao busto de Maurits, que se tratava apenas de uma cópia em gesso, a direção entendeu que ele deixava de fazer sentido no local local onde se encontrava, já que o seu original em pedra passou a integrar o novo núcleo dedicado ao fundador.

Politicamente, contudo, a decisão desencadeou várias reações adversas, designadamente da parte do primeiro-ministro Mark Rutte, que alertou para o perigo de julgar o passado distante apenas à luz do dias de hoje.

As mudanças de narrativa, a reabilitação de períodos menos abonatórios da história de cada país, a revisão de perspetivas, a abordagem moral e ética do passado, ou a forma «correta» de olhar a História estão longe de ser questões consensuais. A discussão sobre o que são decisões «politicamente corretas» ou o que pode ser considerado simples «branqueamento» civilizacional está hoje no centro do debate social e político, e irá prolongar-se provavelmente durante muito tempo. Mas é também um problema que se coloca à historiografia, cabendo aos investigadores o dever de lhe conferir o indispensável caráter científico e soluções mais duradouras.

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No âmbito da Coleção Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, fica agora disponibilizado a obra magna, o mais celebrado e mais estudado romance do autor: Os Maias.

Carlos Reis, simultaneamente coordenador da coleção, e Maria do Rosário Cunha prepararam cuidadosamente esta que é a mais recente edição do romance, regressando à sua génese, aos manuscritos, às notas do autor e a muitos outros testemunhos, como a vasta correspondência trocada entre Eça e outras personalidades suas contemporâneas, para reconstituir o texto na versão mais aproximada da intenção do autor.

Na introdução a esta edição, os dois investigadores resumem e interpretam numas empolgantes 40 páginas a sucessão de peripécias em que esteve envolvida a criação de uma das mais importantes obras da literatura portuguesa.

(...) Os Maias podiam simplesmente ter-se perdido, vítimas da desorganização e do desleixo de uma tipografia lisboeta. Felizmente não foi assim (...).
(...)
Uma vez que, em vida de Eça, apenas houve uma edição d’Os Maias — que assim, para todos os efeitos, representa a última vontade do escritor —, poderia pensar-se que esta edição crítica não levantaria problemas de monta. E também por não haver notícia segura da existência de manuscritos autógrafos, de novo pareceria que o caminho estava desbravado, para uma pacífica fixação do texto dos 18 capítulos que a seguir se encontram. (...) Ainda assim, os procedimentos de escrita e as circunstâncias que rodearam a composição tipográfica e a revisão do texto d’Os Maias, ao longo de um lapso temporal muito alargado, determinaram oscilações, vacilações e divergências de vária ordem, que tiveram de ser resolvidos com ponderação verdadeiramente crítica.
(...) Os Maias passaram por um longo calvário de quase dez anos de trabalho, incluindo dificuldades materiais, no respeitante à composição tipográfica e à edição (...).
(...) a 3 de junho de 1882, Eça escrevia a Ramalho: «Eu não estou contente com o romance: é vago, difuso, fora dos gonzos da realidade, seco, e estando para a bela obra de arte, como o gesso está para o mármore. Não importa. Tem aqui e além uma página viva — e é uma espécie de exercício, de prática, para eu depois fazer melhor.»
(...) No «vai e vem» das provas tipográficas, as correções transformavam-se em supressões ou, na maior parte dos casos, em acrescentos entrelinhados ou registados em longas tiras de papel coladas às páginas originais, do que resultava um produto bem diferente do texto que inicialmente chegara às mãos dos tipógrafos.
Desta incessante procura do termo justo e da forma perfeita resultou um conjunto de materiais — manuscritos e impressos — que hoje permitem reconstituir diferentes fases e procedimentos de construção da narrativa queirosiana. Nem sempre, contudo, esses materiais foram preservados, o que pode explicar-se por, pelo menos, duas razões: pela distância física que normalmente separava Eça das tipografias com que trabalhava e pelo descaso de tipógrafos e mesmo de editores, no respeitante a materiais de trabalho (manuscritos enviados para composição e provas emendadas) que, na época, não tinham ainda o valor simbólico, científico e económico que hoje lhes atribuímos.
(...) Precisamente no caso d’Os Maias escasseiam os materiais genéticos que permitam observar as diferentes fases de gestação, de escrita e de amadurecimento do romance onde Eça, conforme escreve ao amigo Ramalho, em 20 de fevereiro de 1881, decidira «[pôr] tudo o que [tinha] no saco». E contudo, no espólio queirosiano que se encontra na Biblioteca Nacional, existem, pelo menos, três manuscritos que podem ser associados à elaboração do romance.
E qual a relação de Os Maias com A Tragédia da Rua das Flores?
Passados mais de trinta anos sobre a desastrosa aventura editorial da publicação daquele manuscrito, há algumas coisas adquiridas e outras que estão por apurar. Está adquirido (até mesmo tendo em atenção alguma correspondência queirosiana que acima foi citada) que o projeto d’A Tragédia e a tentativa da sua realização são anteriores a Os Maias. Parece claro também que, mesmo no estado incipiente em que o texto foi deixado, ele constitui uma tentativa autónoma em relação a Os Maias; o que não impede, é claro, que se fale de ligações entre ambos, no plano genético. Por fim, pode afirmar-se, com alguma segurança, que A Tragédia da Rua das Flores é um texto desequilibrado e inacabado, longe de corresponder àquilo que o escritor exigia de si mesmo, quando decidia dar à estampa um original.
(...)
Os Maias reajustam e reenquadram o tema do incesto, acentuando a sua dimensão trágica, ao mesmo tempo que eliminam a pulsão melodramática que as últimas páginas d’A Tragédia da Rua das Flores exibem. Neste caso, a cena decisiva da revelação do incesto, no encontro de Timóteo com Genoveva, revelação a que se segue o impulsivo suicídio da segunda, não disfarça claras tonalidades de dramalhão romântico da Rua dos Condes, género e ritual de que Eça foi acérrimo crítico.
Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha
«Introdução», pp. 17-58









Eça de Queirós
Os Maias
Episódios da Vida Romântica
Edição de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha
Coleção Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós
720 pp.
ISBN: 978-972-27-2550-7