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CLUBE DE LEITORES DA IMPRENSA NACIONAL

1.ª edição: Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa
Orientador: Gonçalo M. Tavares
Sessões: de outubro 2017 a julho 2018 (1 por mês)
Horário: 18:30 às 20:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)

Estão abertas as inscrições. Ver aqui o Programa e o Regulamento.

A leitura é só o início. Será um clube de leitores reflexivo. Há uma ideia importante que é a de não falarmos apenas de literatura. A literatura não é uma espécie de arte que está num túnel ao lado de outros túneis. Não existe o túnel da literatura, o túnel do teatro, o túnel do cinema… Não são túneis paralelos e que não se tocam! É precisamente o contrário. Estas artes estão todas no mesmo mundo e tocam-se. O ponto de partida deste clube de leitores será um determinado livro mas passaremos por muitos livros e por outras artes.
Gonçalo M. Tavares

Já a partir do início de outubro próximo, a centenária Biblioteca da Imprensa Nacional, em Lisboa, voltará a ser povoada pelos nossos autores clássicos, os livros de sempre, as leituras comuns e os debates esclarecedores (ou, talvez, inquietantes)…

«Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa» é a proposta temática para este que é o primeiro clube de leitores dinamizado pela Imprensa Nacional e pelo leitor (e também escritor) Gonçalo M. Tavares, que coordenará as sessões.

De Gil Vicente a Nemésio, passando por Camões, Pessoa e Sá Carneiro; de Cesário Verde a Almada, sem esquecer o Padre António Vieira, Régio ou Eça. As sessões tocarão temas tão díspares como universais: a morte, o amor, a linguagem, as utopias, a arte, a beleza, a loucura, o poder, a imaginação, a identidade, entre outros...

O Clube de Leitores reunirá mensalmente, num total de 10 sessões (entre outubro 2017 a julho de 2018). As sessões serão totalmente gratuitas, e destinam-se a todos aqueles que gostam de ler e, sobretudo, a todos aqueles que gostam de conversar sobre aquilo que leram, que estão a ler ou que tencionam vir a ler.

Esta é mais uma iniciativa da Imprensa Nacional-Casa da Moeda que pretende ir ao encontro do seu desígnio de sempre, numa missão maior de serviço público: promover a leitura, reavivar os clássicos, suscitar reflexões, fomentar debates.

Promete, a rentrée literária da editora pública! E sempre na melhor das companhias: a dos nossos escritores!

Veja aqui como pode candidatar-se.


TPR


CLUBE DE LEITORES DA IMPRENSA NACIONAL
1.ª edição: 2017/2018
Programa: Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa
Orientação: Gonçalo M. Tavares
Organização: INCM
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Periodicidade: mensal
Horário: quintas-feiras, 18:30 - 20:00 h

O Clube de Leitores da Imprensa Nacional é uma iniciativa da editora pública e do escritor Gonçalo M. Tavares.
A 1.ª edição do Clube de Leitores da Imprensa Nacional desenvolverá as suas sessões, totalmente gratuitas, entre outubro de 2017 e julho de 2018, num total de dez (10) sessões.

1. Objetivos:
  • Debate sobre as obras proposta por Gonçalo M. Tavares;
  • Partilha de conhecimentos, reflexões e inquietações a partir de uma experiência de leitura;
  • Reavivar a leitura das obras e dos autores clássicos e trazê-los para o debate contemporâneo.
2. Público-alvo:
  • O Clube de Leitores da Imprensa Nacional destina-se sobretudo a pessoas que gostem de ler e que não encarem a leitura apenas como um processo de distração ou de puro passatempo. Este clube não se destina a especialistas de livros. Destina-se àqueles que veem o livro como o início de uma boa conversa.
3. Funcionamento:
  • Todas as sessões terão como ponto de partida a leitura de clássicos da Literatura Portuguesa;
  • O mesmo livro suscita quase sempre diferentes interpretações e vivências por isso para cada sessão haverá um livro, um autor e um tema — que servirá de tópico para discussão.
  • Na sessão, além da leitura em voz alta de excertos do livro, haverá um diálogo sobre o livro proposto bem como sobre outros livros com temas próximos.
  • O clube funcionará através de sessões presenciais.
  • O clube reunirá com uma periodicidade mensal.
  • Cada participante lerá o livro indicado para cada mês.
  • Todas as sessões serão orientadas/dinamizadas por Gonçalo M. Tavares.
4. Local de funcionamento
  • As sessões decorrerão na Biblioteca da Imprensa Nacional sita na Rua da Escola Politécnica n.º 135 em Lisboa (entre o Largo do Rato e o Jardim do Príncipe Real).
  • Como chegar: Autocarro: 773 e 758; Metro: Rato; Coordenadas GPS: N 38º 43' 4.45" W 9º 9' 6.62" 
5. Calendário das sessões
  • A agenda das sessões será definida pelo orientador do clube juntamente com os seus membros, com início previsto para outubro de 2017.
  • As sessões do Clube de Leitores da Imprensa Nacional ocorrerão uma vez por mês, sempre num dia útil (quinta-feira), ao final da tarde, entre as 18:30 e as 20:00 horas.
6. Admissão
  • O número de participantes será limitado a 15 (quinze);
  • Para participar no Clube de Leitores da Imprensa Nacional Casa da Moeda os interessados deverão enviar até 15 de setembro de 2017 um pequeno texto explicativo (cerca de 1200 caracteres em formato Word) do seu percurso académico e profissional e a motivação que os leva a querer participar no Clube de Leitores da Imprensa Nacional.
  • O critério de selecção dos participantes será efectuado com base no texto de motivação enviado. Os candidatos deverão ainda disponibilizar as seguintes informações:
  1. Nome completo
  2. Data de Nascimento
  3. Profissão
  4. Contacto email
  5. Contacto telefónico
  • As candidaturas deverão ser enviadas para o email: clube.leitores@incm.pt
  • A seleção dos participantes ficará a cargo da Imprensa Nacional Casa da Moeda e será comunicada para o endereço email e /ou telefónico facultado pelos participantes até 30 de setembro de 2017.
  • Todas as informações adicionais deverão ser solicitadas por escrito para o email: clube.leitores@incm.pt
7. Programa
  • Sessão 1 – Sobre a morte
    Gil Vicente – Auto da Barca do Inferno
  • Sessão 2 – Sobre o amor e o desejo
    Camões – Os Lusíadas (canto IX)
  • Sessão 3 – Sobre a linguagem
    Padre António Vieira – Sermões (Sermão aos peixes)
  • Sessão 4 – Sobre as utopias
    Eça de Queirós – O Mandarim
  • Sessão 5 – Sobre a técnica e a cidade
    Cesário Verde – O Livro de Cesário Verde
  • Sessão 6 – Sobre a arte
    Almada Negreiros – Manifestos
  • Sessão 7 – Sobre a loucura e a racionalidade
    Mário de Sá Carneiro - A Loucura
  • Sessão 8 – Sobre a doença e a beleza
    José Régio - O Príncipe com Orelhas de Burro
  • Sessão 9 – Sobre o poder e a imaginação
    Vitorino Nemésio – Poesia
  • Sessão 10 – Sobre a identidade
    Fernando Pessoa – Livro do Desassossego
8. Disposições finais
  • Os membros do Clube devem respeitar-se mutuamente e cumprir as regras básicas de boa convivência, caso não o façam reserva-se o direito à Imprensa Nacional — Casa da Moeda de anular a sua participação.
  • A não comparência, sem aviso prévio, a duas (2) ou mais sessões consecutivas, reserva-se o direito à Imprensa Nacional — Casa da Moeda de anular a sua participação e de substituir o participante.
  • Somente serão consideradas as inscrições que estiverem em conformidade com as normas estabelecidas neste Regulamento.
  • Ser membro do Clube de Leitura da Imprensa Nacional pressupõe a aceitação e cumprimento dos termos propostos no presente Regulamento.

* Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Desde 2001 publicou livros em diferentes géneros literários e está a ser traduzido em mais de 50 países. Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no estrangeiro. Como Aprender a rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meuilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Orhan Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Elias Canetti, entre outros. Alguns outros prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi também por diferentes vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Uma Viagem à Índia recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas, curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, vídeos de arte, ópera, performances, projetos de arquitetura, teses académicas, etc. Já em 2017 publicou A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, pela Bertrand Editora.




Texto e fotografias: Tânia Pinto Ribeiro

Foi a «perplexidade» perante algumas coisas, «na arte e na vida de todos os dias», que «empurraram» Frederico Pedreira para a noção de estranheza. Uma noção que é assim uma «espécie de convite às possibilidades da interpretação» conta-nos o vencedor do Prémio INCM/VGM 2016, na categoria Ensaio. Foi, precisamente, com Uma Aproximação à Estranheza que Frederico Pedreira conquistou, com a unanimidade do júri, o galardão da editora pública. O júri, já repetente (recorde-se que na edição anterior havia premiado história do século vinte, de José Gardeazabal), foi composto por Jorge Reis-Sá, Pedro Mexia e José Tolentino Mendonça, e evidenciou na obra de Pedreira a «robustez teórica e a amplidão de olhar no tratamento de um tema transversal à experiência de receção do mundo e das suas múltiplas linguagens: a noção de estranheza (…)».

Licenciado em Comunicação e doutor em Teoria da Literatura, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Frederico Pedreira já tinha publicado Presa Comum (2015), Fazer de Morto (2016), Um Bárbaro em Casa (2014) e, antes disso, três volumes de poesia ou de prosa poética: Breve Passagem pelo Fogo (2011), O Artista Está Sozinho (2013), Doze Passos Atrás (2013). Mas o percurso de Pedreira, no campo das letras, começou muito antes disto. Nascido, em Lisboa, em 1983, afirma que a escrita lhe vem «desde sempre». A prosa, a poesia, o ensaio, o conto — as áreas que tem privilegiado e onde se tem destacado — foram, depois, surgindo «em plena conformidade com as arritmias naturais do gesto criativo». Diz Pedreira que «sem biografia não existe literatura», até porque o escritor procura «pôr no papel aquilo que, de uma maneira ou de outra, nos faz falta na vida lá fora».
Também a tradução tem um peso precioso na vida de Pedreira. G. K. Chesterton, Robert L. Stevenson, Oscar Wilde e H. G. Wells foram alguns dos consagrados que já traduziu. Decidimos provocar este jovem escritor (e tradutor) com o velhinho adágio italiano que diz que «traduttore, traditore» (tradutor, traidor). Pedreira negou prontamente a veracidade do provérbio, argumentando que o tradutor é muitas vezes a «besta de carga da linguagem», aquele que faz «o possível» com o que tem à mão, e muitas vezes com o que não tem: «é quase um milagre que consiga certas coisas só com a sua intuição e algum domínio da língua de chegada», diz-nos.

Da sua geração dá destaque à poesia do Vasco Gato, Paulo Tavares e Daniel Jonas que é, diz, «simplesmente grande». Surpreendido ficou com o livro de estreia de Miguel Alexandre Marquez, Coda. Dos «grandes» realce para o António Lobo Antunes do início («sensivelmente de Memória de Elefante até A Morte de Carlos Gardel») e José Cardoso Pires («sempre irrequieto no seu modo de dizer»). Com certos autores diz mesmo manter uma «relação de eterno retorno». Com o Pessoa do Desasocego a ganhar o podium. No que ao ensaio em português diz respeito, Pedreira admira nomes como António M. Feijó, Miguel Tamen e Frederico Loureço. Já quanto à ideia deste país ser ou não ser para escritores, Pedreira explica-nos que «a escrita é uma realidade íntima» e, quando se fala num país que é bom para os seus escritores, «fala-se em expectativas e colmatação dessas expectativas». Frederico Pedreira considera que «o escritor, por definição, não precisa de nada disso».

Diz ainda que não estava à espera de ser o vencedor da 2.ª edição do Prémio INCM/VGM. Aliás, chegou mesmo a sentir «estranheza». Até porque a notícia «não veio em tempo real», veio no «tempo diferido de uma mensagem de voz». Além do valor pecuniário do Prémio, o galardão da editora pública significa para Pedreira «a sorte de alguns olhos atentos e um interesse que não esperava fora das salas de aula». E será sempre uma «recordação risonha» mas que não deve interferir com o seu trabalho. Frederico Pedreira só celebra «esse pobre festim da escrita» quando todos os outros assuntos «já dormem» e já não o «atormentam».

Uma Aproximação à Estranheza teve a sua génese na tese de doutoramento de Pedreira, tratando-se de um conjunto de quatro ensaios que partiram de «um impulso inicial para entender algumas ansiedades expressivas manifesta nas obras de alguns escritores». Entre esses autores estão aqueles que «martelaram» Pedreira «até à surdez». Nuno Bragança, Beckett, Joyce, Céline, Robert Walser, John Cassavetes, João César Monteiro, Kierkegaard, Wittgenstein e Cavell, para mencionar alguns.

Uma Aproximação à Estranheza está agora publicada na coleção Olhares, da chancela da casa que o premiou. Diz o próprio autor que se trata de «um livro peculiar», sobretudo pela forma como foi feito «numa lufa-lufa entre o coração e a cabeça». E só por aqui se sente que o livro promete!


PRELO [P] — O seu nome soa já entre os nomes da nova na literatura portuguesa. Pode em algumas linhas resumir-nos o seu percurso até aqui?

FREDERICO PEDREIRA [FP] — A escrita vem desde sempre que me lembro de ter consciência de ser pessoa com coisas a dizer de mim para mim, a minha maneira de estar só. O dito percurso, na sua lógica cumulativa de livros, é uma consequência absolutamente acidental dessa consciência. Voltado para o público, veio em primeiro lugar Breve Passagem pelo Fogo, livrinho que me é muito caro, não exactamente pelo que vem nele, mas pelas circunstâncias, o entusiasmo e as expectativas, muito verdes, ingénuas, que lhe deram forma. É um livro pobre, e há beleza discreta nisso. Há um ou outro livro dos que vieram a seguir que ainda gosto enquanto livro: Doze Passos Atrás, por exemplo. O resto, prosa, poesia, ensaio, conto, foi surgindo em plena conformidade com as arritmias naturais do gesto criativo. A melhor forma que encontro para resumir o meu percurso é achá-lo uma espécie de anotação à margem dos dias, um diário de bordo de utilidade nula e ainda assim indispensável.

P — Há algum tempo, José Tolentino Mendonça, que presidiu ao prémio INCM/VGM, escrevia numa das suas crónicas para o semanário Expresso que «este país não é para escritores». Concorda? 

FP — Depende do que se quer dizer com isso. Se falamos a um nível estritamente financeiro ou lucrativo, o melhor é o escritor português saber muito bem outra língua e mudar de país, procurar a sua Faber & Faber, seja lá onde for, pois aqui, se não andar de festival em festival a promover os seus livros ou a estender os seus esforços criativos num regime semanal em forma de prosa consumível, não terá muito que amealhar ao fim do mês. A meu ver, todos os países são para escritores, pois a noção de país não interfere em nada com o trabalho de escrita e de pensar. A ideia de país, nação ou pátria são acidentes de percurso numa mente que se quer livre de constrangimentos exteriores, seja na cela do quotidiano ou na falível paz de alma de uma quinta com vista para as maravilhas do mundo. A escrita é uma realidade íntima. Quando se fala num país que é bom para os seus escritores, fala-se em expectativas e colmatação dessas expectativas. O escritor, por definição, não precisa de nada disso.

P — É possível, para um jovem escritor, como é o seu caso, viver-se inteiramente da escrita em Portugal? Isto é, ser um escritor profissional?

FP — A ideia de escritor profissional dá-me arrepios. A escrita é o que se faz nos intervalos das profissões. A ideia de profissão é indissociável de obrigações. Ora, o trabalho do escritor é um constante espantar dessas obrigações. Escrever corresponde a umas férias da mente activa, como se por momentos deixássemos o mundo em ponto morto. Ter essas férias da mente é, sem dúvida, e hoje mais do que nunca, um verdadeiro luxo, isto por causa das tais profissões. É um luxo porque tudo o que se passa lá fora é uma seta disparada para um determinado alvo, e gosto de ver as minhas palavras no papel como setas despedidas ao acaso, como quem se entretém na interminável excitação de um novo brinquedo.

P — Ser escritor era um sonho de adolescente ou foi uma coisa que lhe «aconteceu»?

FP — Quando era miúdo, olhava para os retratos de certos escritores antigos e via neles uma circunspeção que adivinhava nos começos da minha. Tudo isto levou entretanto muitas voltas. O sossego da escrita, que significa declarar falência ao mundo lá fora e instaurar uma república doida onde por breves instantes somos donos e senhores de tudo, tornou-se um tique da minha consciência que não mais quis abandonar. O meu sonho de adolescente era ter uma banda, tocar guitarra ou piano num palco. Isso sim, é que me enchia o olho. Tentei, mas é tão complicado por vezes partilhar um estúdio com outros músicos… Experimentei fazer música a sós, mas toda a logística de instrumentos, do equipamento de gravação, é tão vasta e complexa comparada com a pobreza do papel e do lápis afiado. Percebi que também na escrita podia habitar o alto de certas fantasias. Assim, por falta de paciência para a música, transferi-me em toda a minha impaciência para as horas de escrita.

P — A seu ver, qual é a importância da leitura no métier de um escritor?

FP — A leitura chegou-me tarde e por mãos alheias. Um livro de aventuras, a perplexidade perante o colosso de uma enciclopédia, até uma tentativa de transcrição integral, sei lá eu porquê, de um dicionário para um ficheiro no computador. Entretanto, começo a ler fora de horas o que me ensinavam no secundário. Começo a entender que a leitura integral é diferente da leitura-amostra. Apercebo-me de gente que dedicou vidas inteiras às palavras. O ofício doente e obsessivo dos poetas: como não ficar seduzido pela simultânea inutilidade e grandiosidade imposta em tais esforços? Nisto, dou conta de que há um relógio sempre atrasado no mundo, que bate devagar nos livros. Sem essa noção que outros escritores me deram de atrasar o tempo, teria sido difícil escrever o que quer que fosse. Lá fora, as pessoas não falam como nos livros, e nem isso seria bom. Perderia toda a graça, alguém pedir um café em verso ou falar ao almoço sobre personagens de romances como se estes morassem na rua abaixo. A leitura é uma afinação do isolamento que nos esvazia de vida e nos convence loucamente de que até sabe bem conversar com um papel.

P — E a inspiração? Onde a vai sorver?

FP — A inspiração é uma coisa dos demónios. É uma palavra perigosa, isto porque nos faz de facto acreditar que ela significa realmente alguma coisa. Mas vou-me dar ao luxo de usar o termo esvaziado e dizer assim que inspiração é quando nos achamos subitamente rodeados de uma parte importante dos objetos do nosso afeto. Estes podem ser rostos, memórias ou fragmentos da linguagem que ora nos fazem caretas, ora sorriem ou fazem birra até que começamos finalmente a prestar-lhes atenção. Quando escrevo, não estou muito à-vontade, como se me obrigasse a tapar boca e nariz debaixo de água. Às vezes é uma aflição, porque temos de dar atenção a muita gente ao mesmo tempo: há rostos e imagens que nos pedem atenção há anos, e ainda não tratámos deles no papel. Há comichões intelectuais que procuram os paliativos da razão, do tempo e da ponderação. Há uma fila de fantasmas que esperam a sua vez de entrar, e então a pessoa que escreve pergunta-se «porquê?» sem ter tempo de responder porque entretanto já está ocupado a depenar das sombras de um.

P — Todos desenvolvemos uma relação pessoal com a escrita. Qual é o seu processo de escrita?

FP — Só celebro esse pobre festim da escrita quando todos os outros assuntos já dormem e não me atormentam. Gosto quando, pressionadas por outras, algumas pessoas levantam o dedo, meio aflitas, e dizem «Momento», reduzindo ao máximo a expressão, essa bandeira branca que pede tréguas às vozes dos outros. Continuo a achar que as pessoas, na generalidade dos casos, falam muito. No fundo, acho que deviam falar menos. Mas nada posso quanto a isso. Assim, a altura em que também eu, diariamente, levanto o meu dedo e digo «Momento», é quando atraso o desacerto das vozes lá fora e tento fazer alguma coisa com ele. A escrita é a minha intimidade às avessas, meio contrariada, zangada até, de costas voltadas para os barulhos que as pessoas fazem durante o dia.

P — Já publicou poesia, estreou-se em prosa com Um Bárbaro em Casa (2014) e agora enveredou pelo ensaio. Tem algum género preferido? Isto é, sente que um determinado terreno é mais fértil do que outro?

FP — A fertilidade do terreno interessar-me-ia se procurasse meios de me estabelecer publicamente. Não tenho como averiguar a qualidade desses terrenos. O que vou escrevendo tem que ver unicamente com apetites, com uma voracidade por vezes cega de dizer. Às vezes, a voz sai-me esganiçada, o que já aconteceu nesse primeiro livro em prosa e em alguma poesia, outras escuto-me como indivíduo dotado de certa ponderação, como no ensaio, mas isso sou eu a enganar-me com as roupas novas da linguagem. Em Uma Aproximação à Estranheza, vou todo engalanado para um baile cheio de gente inteligente, elegante, interessante, alguns mortos também. Chego lá e ouço todos esses autores, pouco ou nada digo, mas escuto tudo com muita atenção. Tiro apontamentos. Faço um livro com as impressões que essa festa me provocou. É um livro de ensaios porque se tratava de gente inteligente e cheia de argumentos plausíveis.

Um Bárbaro em Casa foi o primeiro
livro em prosa de Frederico Pedreira.
P — Em Um Bárbaro em Casa há sinais claros da influência de Lobo Antunes. Este escritor é uma referência para si? 

FP — Admiro muito os seus primeiros livros, sensivelmente de Memória de Elefante até A Morte de Carlos Gardel. Guardo reservas, em termos estritamente intelectuais e criativos, ante um autor que escreve tanto e que adormece tantas vezes sobre os papéis que vai enchendo. Há muito tempo que não há surpresa nesse nome, e é um desconsolo quando um autor ganha gosto ao atirar sucessivas rosas aos próprios pés. Parece-me que o Cardoso Pires, por exemplo, andou sempre irrequieto no seu modo de dizer, e isso distingue de facto cada um dos seus livros.

P — E o que o seduziu na escrita de António Lobo Antunes?

FP — Em livros muito bons, como os que referi atrás e onde falta, talvez, um posterior, Manual dos Inquisidores, o que gosto realmente é de uma noção muito curiosa de liberdade comezinha, a procura de esse poucochinho de paz que é esgaravatada com mãos de gigante. As mãos do escritor desses livros eram gigantes, muito sujas e comoventes na sua falta de jeito. Não podiam pegar no mais mínimo bibelô que estilhaçavam logo tudo. No fundo, em todas aquelas personagens, contava-se a história de um homem à procura da forma mais respirável de ser homem, isto quando a canção da vida parecia morrer de inanição. Esses seus livros fazem-me lembrar um homem que declara falência ao banco numa manhã e à tarde adormece a cheirar flores num parque suburbano.

José Cardoso Pires com António Lobo Antunes, nos anos 1980.

P — Um autor referência para um jovem escritor pode também ser uma dor de cabeça? Isto na medida em que pode condicionar a nossa própria escrita?

FP — Sem dúvida. Ainda assim, não percamos a esperança. Há truques. Infelizmente, tenho a intuição de que não me livrarei das sombras dos meus dias de leitura e portanto de certos timbres que me acompanharam, ainda que hoje em dia os ouça como conversa alheia no andar do lado. Por decoro, tento não ouvir mais do que me é impossível deixar de ouvir. Ganhei o hábito, bastante negligenciável só por si, de escrever poesia quando leio prosa e vice-versa. Se me ponho a escrever poesia e a ler poetas ao mesmo tempo, começo a cantar alto e a convencer-me de que a melodia é realmente minha.

P — Existe material autobiográfico nos seus livros?

FP — Sem biografia não existe literatura. O autor de memórias sabe isso da mesma maneira que, no íntimo, o autor de ficção científica também o sabe. Procuramos pôr no papel aquilo que, de uma maneira ou de outra, nos faz falta na vida lá fora. A escrita é uma obsessão com consequências não muito nefastas, e, ainda assim, é mais uma obsessão entre muitas que temos, como voltar ao carro duas ou mais vezes para ver as portas estão trancadas. A diferença entre as duas não é de espécie, mas de grau. A ideia que atravessa toda a escrita é esta: «Sou eu, estou aqui, aconteceram coisas, o que é que eu faço?» E então passa-se para a palavra, que, essa sim, é largamente maleável, dada a desvarios, felizmente para nós. Seria aborrecido se a escrita não passasse de um duplicado do que aconteceu ontem.

 

P — Já alguma vez sentiu a necessidade de se afastar de algumas leituras? De alguns autores?

FP — Acontece-me várias vezes ter de deixar leituras de parte para conseguir escrever. Mas isto não se deve a nada de esotérico ou a uma angustiante troca de influências: deve-se apenas ao facto, muito mais pobre e menos apelativo, de, nas circunstâncias em que me encontro, ter de gerir o meu tempo com alguma inteligência: se, mesmo assim, procuro o resgate instantâneo de um poema ou de uns parágrafos ensaísticos antes de começar a escrever nesse pouco tempo que me resta, ler um romance soa-me quase, nestes dias, a um reclame de férias para as quais não tenho dinheiro.

P — Quais?

FP — No sentido da resposta anterior, afasto-me de todos os livros, bons e maus, que façam um orçamento de tempo que excede claramente o que lhes posso dar.

P — E existe algum autor a quem tenha sempre voltar? 

FP — Mantenho com vários autores uma relação de eterno retorno. O Pessoa do Desasocego em primeiríssimo lugar, a poesia de Pessoa em trajo simples e disfarçado de Alberto Caeiro, os maravilhosos ensaios e poesia de Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Jorge Roque, o Séneca de Cartas a Lucílio, os Quatro Quartetos de T.S. Eliot, os ensaios de Stanley Cavell, Wittgenstein, Robert Walser, algum Hamsun. Assim todos ao molho, são os meus portos de abrigo, ou, afinando a metáfora, os meus regressos a casa.

Frederico Pedreira mantém uma relação de eterno retorno
com o Fernando Pessoa do Desasocego e com a poesia
de Alberto Caeiro

P — Da sua geração quais são os autores portugueses que mais admira? E porquê?

FP — A poesia do Vasco Gato marca-me, sinto falta da poesia do Paulo Tavares (Minimal Existencial e Linhas de Hartmann são leituras fortes), e o Daniel Jonas é simplesmente grande. Fiquei muito surpreendido com o livro de esteia de Miguel Alexandre Marquez, Coda. Estranha e enviesadamente inovador. Não são da minha geração, mas acredito serem os melhores ensaístas que escrevem hoje: Miguel Tamen (Erro Extremo) e António M. Feijó (Uma Admiração Pastoril pelo Diabo). E acrescento, claro, Frederico Lourenço e o excelente O Lugar Supraceleste.

A poesia do Vasco Gato foi recentemente publicada pela Imprensa Nacional com o título «Contra Mim Falo»

P — Também é tradutor. Já traduziu, entre outros, de G. K. Chesterton, Robert L. Stevenson, Oscar Wilde e H. G. Wells. O que se traduz primeiro: as palavras ou as intenções?

FP — Traduzir é mais difícil do que parece. A pessoa tem de manter uma conversa a dois durante semanas, meses, com uma determinada voz, e nunca se percebe bem se se trata de um monólogo vindo de um estrangeiro qualquer, não tendo nós escolha senão aceitar e dar-lhe ouvidos, ou se nos é de facto permitido entrar na conversa sem ofender muito o pudor alheio. Para mim, não há palavra sem intenção, como não há gesto consciente sem direção. A palavra não nos aparece como uma peça pronta a ser encaixada num molde diferente. Às vezes, temos de perceber se ela não se aborrece muito na convivência de outras, perceber se nos sorri, se está ali meio contrariada ou envergonhada por saber que está a ocupar o lugar de outra. Não há, é verdade, uma única intenção do autor, e mesmo se houvesse, o tradutor nunca iria encontrar esse tesouro. O que o tradutor tenta fazer é experimentar uma dicção diferente numa boca que é sua e aprender os truques e tiques de linguagem alheios até que, por momentos, se tornem seus. O tradutor intui uma intenção e a partir dessa julga descobrir, melhor ou pior, outras tantas do autor.

Robert L. Stevenson

P — Existe um provérbio em italiano que diz que "Traduttore, traditore." Provoco-o, perguntando-lhe se um tradutor é sempre um traidor? 

FP — Nada. Mas o tradutor não é traidor porque não traiu coisa nenhuma. Ele está simplesmente a tentar deixar em linguagem legível o que um estrangeiro expressou com barulhos que soam estranhos aos ouvidos dos que não são da cultura dele. O tradutor é um facilitador e, ao mesmo tempo, um escavador de culturas. O autor ou o leitor que se acharem traídos, experiência particularmente penosa, devem procurar dicionários e uma escola de línguas que os leve a escrever ou a ler noutro idioma. O tradutor, muitas vezes besta de carga da linguagem, faz o possível com o que tem à mão, e muitas vezes com o que não tem. Às vezes, é quase um milagre que consiga certas coisas só com a sua intuição e algum domínio da língua de chegada.

P — Uma Aproximação à Estranheza é a edição distinguida com o Prémio INCM/Vasco Graça Moura 2016, na categoria de Ensaio. O que é que os leitores podem esperar desta obra?

FP — Julgo que podem esperar um piscar de olhos e algum pensamento com trejeitos filosóficos ou literários a um tema (a estranheza) que, digo-o sinceramente, me ultrapassa e ainda hoje não sei bem como falar acertadamente dele. É bom sinal, continua a deixar-me perplexo. Até porque foi a perplexidade perante algumas coisas, na arte e na vida de todos os dias, que me empurrou para a noção de estranheza. É um livro peculiar, acredito, sobretudo pela forma como foi feito: sempre numa lufa-lufa entre coração e cabeça.

Foi com Uma Aproximação à Estranheza
que Frederico Pedreira venceu o Prémio
INCM/VGM 2016
P — Como teve conhecimento das candidaturas ao Prémio INCM/VGM?

FP — Através de um website, quando andava de olho em empregos: Plataforma 9.

P — Porque decidiu concorrer?

FP — O livro nasce de uma tese de doutoramento com breves adaptações. Ao longo do tempo em que fui escrevendo minha tese, não larguei a ideia, ainda que remota, de um dia vê-la publicada em livro. Depois, precisava realmente do dinheiro.

P — Sentiu algum tipo de estranheza quando soube que era o vencedor? Como reagiu quando soube que era o vencedor? 

FP — A estranheza que senti foi esta: não esperava, a verdade é essa. E a notícia não veio em tempo real, porque não atendi o telefone (na altura não sabia quem era). Veio no tempo diferido de uma mensagem de voz. E ao ouvi-la, ia pensando que não era comigo. Não é preciso ganhar um prémio para termos por vezes a sensação de que não é a nós que se dirigem as pessoas que nos dizem coisas.

 

P — Além do valor pecuniário o que é que este prémio significa para si?

FP — Significa a sorte de alguns olhos atentos e um interesse que não esperava fora das salas de aula; será sempre uma recordação risonha, mas que não deve interferir com o trabalho, esse sempre em curso, com uma boa dose de pudor e distanciamento.

P — Teve oportunidade de privar com Vasco Graça Moura? Conhece a sua obra? 

FP — Nunca tal aconteceu. Acho que teria sido difícil. Conheço e gosto de muitos dos seus poemas. Parece-me que foi um poeta essencialmente livre e responsável, na aceção da palavra que gosto de lhe dar.

P — Explica neste seu livro que a escrita destes 4 ensaios — que o compõem — partiu de um impulso inicial para entender algumas ansiedades expressivas manifesta nas obras de alguns escritores. Que ansiedades e que escritores são esses? 

Samuel Beckett
FP — Os autores são os que martelaram até à surdez e ao longo de anos de leitura a minha ideia de linguagem: Nuno Bragança, Beckett, Joyce, Céline, Robert Walser, John Cassavetes, João César Monteiro, Kierkegaard, Wittgenstein, Cavell. Não falo de poetas porque seria uma lista bem mais longa. As ansiedades de que falo remetem para uma arritmia expressiva, um querer dizer por linhas tortas, o falar de costas voltadas para quem ouve. Isto não é bem assim: qualquer pessoa que faça arte com alguma seriedade pensa na possibilidade de público. Ainda assim, certos autores expõem, como que à luz do dia, o avesso da relação conturbada entre o que se quer dizer e o que se diz. Isso sempre me interessou. Dá-me vontade de perguntar ao autor: «Mas o que está a tentar fazer, afinal?», como perguntamos a um estranho que se porta mal. A pergunta pode soar irritada ou simplesmente curiosa. A verdade é que, naturalmente, não é por encostarmos o mais possível o livro aos olhos que conseguimos ver o que está para além da tinta no papel. Temos de nos contentar com o que lá foi posto. É aí, então, que a estranheza e a minha versão dela neste meu livro começam.

P — Como explica o seu «certo fascínio» pela noção do «inexprimível»?

FP — Esse fascínio nasce, como sugeri na resposta anterior, da perplexidade diante de escolhas vocabulares de autores que dão voltas e voltas para dizerem o que acreditam, de uma maneira ou de outra, que ficará muito aquém do que podia ter sido dito noutras circunstâncias, ou do que podia ter ficado só em pensamento.

P — Assim de repente, o que lhe é inexprimível por palavras? 

FP — É engraçado e, acredito, algo contraditório, mas acho que não existe nada que seja verdadeiramente inexprimível, se isto realmente significar aquilo que não é passível de ser dito em voz alta ou no papel. Acredito que tudo o que pode ser pensado pode ser dito, mal ou bem, com muito ou pouco esforço. Até a ideia de Deus. Ainda assim, uma tentativa pode não ser suficiente. Se calhar, pode ser necessário que se tente mais duas ou três vezes, quiçá uma vida inteira de tentativas. Os teólogos, os poetas e os filósofos nada mais fazem, no fundo, do que isso. Os académicos e os críticos literários sérios fazem isso. Os escritores resolvidos a mesma coisa. Por isso é que às vezes os seus livros só fazem sentido quando consideramos o todo de que são parte constituinte, com as suas falhas e incompletudes, mas na condição de gesto total cuja direção só a noção de obra pode esclarecer minimamente.



P — «Estranheza:
1. Característica daquilo que é estranho;
2. Designação de admiração, assombro, espanto ou estupefação;
3. Desconforto, incómodo, desconfiança ou apreensão;
4. Esquivança, desconsideração, desdém ou desprezo.»
Que definição imediata acrescentaria a estas definições de estranheza que ocorrem nos dicionários de língua portuguesa?

FP — Interpretação.

P — «Acontece que os cenários desabam. Os gestos de levantar-se, o carro-eléctrico, quatro horas de escritório ou de fábrica, refeição, carro-eléctrico, quatro horas de trabalho, refeição, sono e segunda-feira, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, esta estrada segue-se com facilidade a maior parte do tempo. Só um dia o «porquê» se levanta e tudo recomeça nessa lassidão tingida de espanto. 'Começa', isto é importante. A lassidão está no fim dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura, ao mesmo tempo, o movimento da consciência.»

Este é um excerto de O Mito de Sísifo, de Albert Camus. É neste «porquê» que a estranheza começa?

FP — Sem dúvida. Alguém disse que a verdadeira cultura era o simples ato de parar para pensar. Falo num reconhecimento das nossas condições de existência, numa ponderação dos meios em que subsiste a consciência do eu. Este pedaço de Camus faz-me lembrar numa banda rock norte-americana que ia gravar para o estúdio com zero horas de sono em cima. Na descarga do som, por definição já agressivo e gutural, pressentia-se uma exaustão propícia a um abandono das vestes da sociabilidade e da tal «vida maquinal». Se calhar, também eles pensavam que assim se amplificava melhor, como Camus diz, «o movimento da consciência». O «porquê» que o texto citado levanta é a inauguração da perplexidade, cuja relação com momentos de estranheza, voltada para o eu e para os outros, é absolutamente contígua. É o começo de todo o pensamento. Um certo aturdimento nunca fez mal a ninguém.

P — Continuemos n’O Mito de Sísifo e em Camus. Em Situações I, vemos um Jean Paul-Sartre a compreender, à luz do Mito de Sísifo, a inocência de Meursault, o protagonista d’ O Estrangeiro, opus magnum de Camus. Diz Sartre a propósito de Meursault:
«Um inocente em todos os sentidos da palavra, um 'idiota' também, se assim quiserdes. E desta vez compreendemos plenamente o título do romance de Camus. O estrangeiro que quer descrever é justamente um desses terríveis inocentes que constituem o escândalo de uma sociedade porque não aceitam as regras do seu jogo. Vive entre os estrangeiros, mas para eles é também um estranho. Por isso alguns o amarão, como Marie, sua amante, que lhe tem afeto 'porque é bizarro': e por isso, também, outros o detestarão, como essa multidão de sedentários cujo ódio ele sente imediatamente. E nós mesmos, que, ao abrir o livro, ainda não estamos familiarizados com o sentimento do absurdo, em vão tentaríamos julgá-lo segundo as normas habituais; achamos também que é um estranho.»
É mesmo assim os seres estranhos são sempre «inocentes» e «idiotas», passiveis de ser amados e odiados? 

FP — Meursault é uma personagem literária e, de uma maneira ou de outra, resultado de uma obsessão do autor face a um determinado tema. Nós, as pessoas, somos familiares e estranhas umas para as outras, mudamos muitas vezes de uniforme consoante as expectativas da ocasião. Tudo depende dos olhos que espreitam e das circunstâncias em que o fazem. Não existem pessoas intrinsecamente estranhas, do mesmo modo que não há linguagem ou autores intrinsecamente estranhos. As propriedades que participam da nossa constituição, bem como da linguagem, são, de um modo geral, neutras; é a nossa forma de prestar atenção que lhes confere nomes precisos e tão variáveis como os ventos: estranho, comum, vulgar, excecional, inocente, idiota, etc.

Marcello Mastroianni fez de Meursault no filme O Estrangeiro realizado
por Luchino Visconti e inspirado na obra homónima de Camus.

P — A estranheza também pode ser «absurdo»? E o «absurdo» pode ser a estranheza do mundo?

FP — O que há de absurdo na estranheza é, como agora se ouve dizer nas ruas de Portugal, o seu timing. Nunca se sabe muito bem quando somos surpreendidos por momentos de estranheza. Sem dúvida que o mundo às vezes se nos revela estranho, e isso dá ares de absurdo. A meu ver, o melhor da estranheza, ainda assim, não é isso: é o que podemos fazer a partir dela, em forma de interpretação e de novas descrições do que nos marcou. O absurdo provoca muitas vezes um entorpecimento da mente e é um bom lugar para se estar quando nos achamos intelectualmente preguiçosos e na verdade não nos apetece juntar nada às conversas em que todos falam de peito cheio. É importante que haja a noção do absurdo do que se fez comum, e é mais importante ainda espantar a atrofia do absurdo para pensarmos na vida, na arte, nas pessoas, como se tudo isto se nos aparecesse diante dos nossos olhos com uma certa frescura inaugural.



P — Devemos entender a estranheza como sinónimo de incomunicabilidade ou, pelo contrário, como circunstância propicia à comunicação?

FP — A estranheza, como eu a entendo, é uma espécie de convite às possibilidades da interpretação. Funciona, nesse sentido, como um movimento que tanto alerta para a possibilidade da incomunicabilidade como nos garante, ultrapassado o arrepio intelectual ou a confusão sensorial, que duas interpretações são sempre melhores do que uma. Com isto quero dizer que a estranheza é inevitável em certos casos, e que, ao invés de nos determos no seu lado sedutor, silenciado, quase místico, devemos vê-la como um momento propício à recriação das expectativas voltadas para o que somos e para as outras mentes. O mérito da estranheza é servir como reação criativa à possibilidade sempre intermitente de não compreendermos os outros e de não sermos compreendidos.

P — E de que maneira é que a estranheza nos causa uma «cegueira particular»?

FP — Quando, no livro, me refiro a uma «cegueira particular», estou a falar sobretudo de convicção. Acreditamos, a certa altura, que a nossa convicção, aquilo que a constitui, tem ou pode merecer um lugar no mundo, e assim acreditamos que essa convicção não tem motivos para corar no meio de outras que não são as nossas. Esta cegueira não diz respeito à doença da obsessão mas ao ponto de vista particular da convicção. A estranheza leva-nos a aprofundar os motivos das nossas convicções e a tentar descrevê-las, seja em forma de arte ou num gesto que se estende a outra pessoa no sentido de compreendê-la e darmo-nos também a compreender.

P — De que forma pode a estranheza contribuir para o nosso «bem-estar»?

FP — O momento de estranheza torna-nos mais clara a verdade de que importamos, para nós e para os outros, e que as nossas intuições aguardam que lhes atribuamos a forma de convicções, passíveis de serem descritas. O bem-estar relaciona-se com o facto de não pensarmos que a nossa vida é, como o filósofo Galen Strawson diz, «uma maldita coisa a seguir à outra.» Isto relaciona-se com a ideia de cultura que atrás descrevi como o momento em que se para para pensar, para reavaliar as nossas convicções, as nossas expectativas e o reconhecimento das condições de manutenção da nossa consciência.

P — O filósofo italiano Mario Perniola a partir da leitura de Das Unheimliche, de Freud, diz-nos que «a experiência mais afastada da identidade não é a absoluta estranheza, mas uma estranheza familiar, que mergulha as suas próprias raízes no nosso passado, que ao mesmo tempo é e não é ela própria». Isto significa que mesmo havendo familiaridade pode haver estranheza? Também estranhamos o «eu»?

FP — Sugiro no meu livro, por outras palavras, que não há nada passível de maior estranheza do que aquilo que nos constitui como pessoas. Espantarmo-nos ou acharmo-nos perplexos com aquilo que somos num determinado momento é o movimento primordial da estranheza. Todos os momentos de estranheza confluem nessa espécie de regresso a casa. Como não ficarmos perplexos ou estranharmos as sucessivas mortes que nos foram compondo e descompondo ao longo da vida? O espanto que direcionamos a um nosso retrato envelhecido é da mesma família da estranheza que sentirmos quando não nos conseguimos movimentar, a nível percetual ou intelectual, na pessoa que fomos noutros tempos. A estranheza do absolutamente desconhecido ou do inédito nas nossas vidas empalidece incrivelmente quando confrontada com a estranheza, essa muito mais interessante, do confronto súbito entre as memórias e expectativas do que fomos, e que deixámos pelo caminho ou substituímos entretanto por outras. Proust foi o autor que, a meu ver, mais e melhor escreveu sobre isso, nos volumes da Recherche.

Marcel Proust
P — Em Uma Aproximação à Estranheza aproxima a alteridade ao rumor. Quer explicar-nos melhor esta aproximação?

FP — No livro, falo do rumor do mundo, das vozes dos outros, precisamente em termos de rumor, isto é, uma sequência de barulhos não imediatamente identificável, anónima. Quando falo em alteridade, falo sobretudo na noção de outras mentes e no receio, muito bem explicitado por Stanley Cavell, de não nos conseguirmos dar a compreender e de não compreendermos os outros na mesma medida. A alteridade, que é uma questão inevitável na nossa existência, serve também como aviso para esses dois géneros de impossibilidade expressiva. A natureza reactiva da estranheza, que suscita a apetência para a descrição e para a interpretação, é um modo salutar, a meu ver, de combatermos esse receio, que acaba por transformar o mero rumor do mundo em vozes audíveis e comunicativas.

P — E qual é a importância da estranheza na forma como olhamos os outros? Ou mesmo na forma com que atentamos a uma obra de arte?

FP — Muitas vezes, passamos a prestar atenção a pessoas e a obras de arte motivados por uma tentativa de resolver o que uma certa estranheza inicial, fruto de um primeiro encontro, nos provocou. Outras, é no contacto sucessivo e aturado com pessoas, com obras de arte ou com determinadas situações que a estranheza se revela de forma gradual, precisamente pelo atraso implícito na sua condição de interrupção momentânea da ordem natural das coisas.

P — Se a estranheza nos chega sempre em forma de pergunta, como explica no seu livro, a aproximação chega-os sempre em forma de resposta?

FP — Sim, se tivermos jeito e alguma sorte; mas essa não será nunca a resposta, é só uma entre muitas possíveis. A pergunta é a perplexidade, a resposta é a tentativa de aquietar essa perplexidade, embora por vezes só faça por acicatá-la ainda mais: é o que se passa, por exemplo, com os ornitólogos e com os académicos.

P — Nos nossos dias, na nossa atualidade, que mais lhe tem causado estranheza? Porquê?

FP — Fazem-me espécie os horrores encobertos no nosso país, a literalidade mesquinha de um quotidiano voltado unicamente para a cegueira do ganha-pão e do «bola para a frente», o gesto empreendedor, a embrutecida utilidade que se sobrepõe a tudo. Quanto à estranheza, associo-a a coisas bem mais refrescantes, nobremente inúteis, e que se podiam passar em quaisquer latitudes e tempos dispersos da história: a estranheza salutar do comum, do quotidiano, das perplexidades no reconhecimento da individualidade, que é um trabalho para a vida. Como o são a poesia e a filosofia.

P — Recorreu a uma vasta bibliografia para escrever este livro. Há alguma obra ou autor que queira destacar? 

Stanley Cavell
FP — Stanley Cavell. É um grande autor e filósofo que muito merecia ser traduzido e editado por cá.

P — Pode-nos justificar a escolha de Stanley Cavell?

FP — Falo da abertura percetual implícita no seu modo de compreender a filosofia, a literatura e o cinema, que não faz alarde de uma multidisciplinaridade bacoca, sendo antes marcada pela mais genuína e descomprometida forma de curiosidade que me foi dada a conhecer nos últimos anos.

P — Nietzsche dizia que nos sentimos tão bem na natureza porque ela não nos julga e não nos obriga a artificializar comportamentos. Sentimos menos estranheza (do mundo, de nós, dos outros) quando nos aproximamos da natureza?

FP — O momento de estranheza resulta de um confronto entre memória e expectativas, de uma interferência súbita, por vezes inusitada e momentânea entre a consciência do que fomos no passado, do que achamos que somos no presente e do que esperamos do futuro, por muito microscópicas que sejam estas expectativas. Esta é a linguagem da intimidade, e a mesma não se prende a cenários, sejam urbanos ou bucólicos. Ainda assim, julgo que é difícil pensar bem quando se tem o coração aos saltos pelas piores razões. Lisboa faz-nos isto, nos tempos que correm, precisamente por essas piores razões. Falo de influências externas, e falo também no ínfimo círculo de literatos que ainda assim parecem povoar em peso a cidade. Acho que só faz bem andar afastado de todos os géneros de trânsito, isto porque o trânsito é uma força cega desprovida de nome e vontade própria, por muito que os que vão à frente digam que sabem o caminho.

P — Além de poeta, romancista, tradutor e ensaísta, sente também que é um filósofo?

FP — Nunca me passaria pela cabeça considerar-me filósofo no sentido profissional do termo. Gosto verdadeiramente de pensar em alguns assuntos do meu afeto. Aliás, nem é uma questão de gosto. É porque, de mim para mim, acho que é assim que deve ser. Mas se há algum gesto de natureza filosófica que possa revelar, prefiro pensar nele livre e dado aos caminhos batidos do quotidiano e da poesia que lhe vai servindo de atalho.

Denis Diderot
P — Dizia Diderot que a paixão destrói mais preconceitos do que a própria filosofia. O que acha da ideia?

FP — Se substituir a palavra «paixão» por «amor» estou absolutamente de acordo. A paixão é a imaturidade do amor em estado de euforia. O amor, aturado e atento como deve ser, é capaz de concentrar em si muitas versões interessantes do que tenho vindo a designar como estranheza. Também a filosofia dos poucos filósofos que ainda leio é uma forma de amor e de assídua estranheza. Stanley Cavell deixa-o implícito repetidas vezes na sua autobiografia, Little Did I Know.

P — Que projetos gostaria de concretizar num futuro próximo?

FP — Sobretudo viver com algum desafogo e tranquilidade, o que implica também levar a bom porto assuntos que ainda são apenas desavenças temporárias do pensamento e que aguardam a sua vez de serem passados a limpo no papel. De resto, esses assuntos piscam o olho à poesia, à filosofia e ao romance, mas a verdade é que por enquanto não se querem deter muito tempo em nenhuma destas companhias.




Junho 2017






Um júri constituído por Artur Anselmo, Isabel Cristina Mateus e Maria João Reynaud decidiu, por maioria, atribuir o Grande Prémio de Ensaio “Eduardo Prado Coelho” APE/C.M de Vila Nova de Famalicão ao livro A Palavra Submersa. Silêncio e Produção de Sentido em Vergílio Ferreira, de Isabel Cristina Rodrigues (edição da INCM).

O Grande Prémio de Ensaio “Eduardo Pardo Coelho, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, destina-se a galardoar anualmente uma obra de ensaio literário, em português e de autor português, publicada em livro, em primeira edição, no decurso do ano de 2016.

O valor monetário deste Grande Prémio é, para o autor distinguido, de € 7.500,00 (sete mil e quinhentos euros) e desde de 2010 distinguiu já Victor Aguiar e Silva, Manuel Gusmão, João Barrento, Rosa Maria Martelo, José Gil, Manuel Frias Martins e José Carlos Seabra Pereira.

A Palavra Submersa. Silêncio e Produção de Sentido em Vergílio Ferreira
(...) trata, com uma vasta e rica fundamentação teorética e crítica, tanto quanto possível multidisciplinar, sem, no entanto, se afastar da área específica dos estudos literários, temas relevantes na obra literária de Vergílio Ferreira: o caminho que vai da palavra ao silêncio; o silêncio como comunicação e suas aporias; a arte do silêncio; a comunhão, expressão máxima da comunicação, contraposta à incomunicabilidade; a palavra exteriorizada e a palavra interior; a palavra monologante e o diálogo; o silêncio como metáfora; o constante problema vergiliano da relação do homem com Deus ou com os deuses.

SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS GLOBAIS
Sessão X: «Haverá uma ética para a idade global? Possibilidades, dúvidas e alguns condicionamentos»
Orador: Onésimo Teotónio Almeida
Organização: INCM | UAb | CIDH | FCT | CLEPLUL | APCA | IAC
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Data: SEG - 10 de JULHO
Horário: 18:00 h
Entrada livre condicionada à capacidade da sala.

Interessam-me mais as ideias do que a literatura, onde sou um visitante e leitor por gosto. Custa-me a entrar num universo ficcional. Só leio romances quando posso lê-los sem interrupções. Para entrarmos na ficção temos de nos deixar embarcar. De qualquer modo, quer na ficção quer na não-ficção o meu desejo é entender o mundo. E tanto a ficção como a não-ficção ajudam.

(...)

Sempre me senti atraído por uma frase que ouvi a um professor – “as couves nascem do chão”. Percebi que o empirismo, aquilo que se nos mete pelos olhos dentro, foi mais forte que todas as teorias lidas nos livros, e moldou a minha visão do mundo. Sempre que um autor, Marx ou fosse quem fosse, não estivesse de acordo com a realidade que eu observava, era a realidade que triunfava na minha compreensão das coisas.


Onésimo Teotónio Almeida é professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, Providence, Rhode Island (R.I.), onde se doutorou em Filosofia. Conhecido como escritor, conferencista e viajante incansável, é principalmente um filósofo e um profundo pensador de temas como identidade, ética, valores, mundividências, modernidade e pós-modernidade.

Parte significativa da sua produção literária e filosófica começa por assumir a forma de ensaio, conferência, artigo ou texto de imprensa, como um pensamento que resulta em primeira instância de viver, intervir e testar as suas ideias e preocupações teóricas. E só depois se apresentam sob a forma de experiências individualizadas nas crónicas e nas estórias, numa metodologia rigorosa e concisa que é indissociável da observação e do confronto prático.

 

por Jorge Reis-Sá

São 219 títulos. Vamos escrever por extenso, que é para se perceber melhor: são duzentos e dezanove títulos. É este o número que nos enche as medidas: duzentos e dezanove títulos editados na coleção Ciência Aberta da Gradiva.

Quando eu era miúdo, Famalicão ficava bem mais longe do mundo do que agora fica o Kiribati. Era perto do Porto, sim, mas só se contarmos a distância em quilómetros. Porque obrigava a fazer a Estrada Nacional 14, a passar a Trofa, a passar a Maia, a passar uma entrada na cidade que se fazia por curvas e contracurvas que nunca entendi verdadeiramente (mas de que, paradoxalmente, tenho agora saudades). Por isso, em Famalicão só havia uma «livraria», onde a D. Natércia nos mostrava os livros à distância, atrás do balcão — querida e saudosa D. Natércia. O único local onde ler, para além das visitas trimestrais do Sr. Granja do Círculo de Leitores? A biblioteca municipal.

Foi lá que comecei a ler Carl Sagan, Stephen Jay Gould, H. Reeves, Yves Coppens, François Jacob, Stephen Hawking e até, valha-me Deus, Steven Weinberg num livro chamado Os Três Primeiros Minutos — este último, que me ensinou como é bom aprender para, depois, compreender (embora, confesso, nem com a frequência no curso de Astronomia ou a licenciatura em Biologia já o tenha compreendido). Qual o denominador comum de todos estes livros? A Gradiva, o trabalho de Guilherme Valente, de Luís Alves e, soube anos depois, de Maria do Rosário Pedreira.

Só consigo imaginar quantos Jorges foram inundados pela cultura científica por causa desta coleção. Quantos miúdos perdidos numa Famalicão do país souberam que fazia sentido queimar formigas num tubo de ensaio porque havia quem escrevia sobre o facto de as galinhas poderem ter dentes. Quantos jovens cientistas aprenderam a curiosidade nos livros que a Gradiva editou.

O Jorginho, como me chamavam quando pequeno, só pode pedir ao Jorge Reis-Sá para agradecer. «Agradeça, por favor, sim?» Bem mandado, agradeço. Por que sei que o Reis-Sá só é cientista — mesmo que escritor ou editor, mas nunca se deixa de ver o mundo em formato excel — porque a Gradiva ofereceu ao Jorginho livros e livros e livros. Duzentos e dezanove, contam-se até hoje.

Obrigado à melhor editora de ciência em Portugal. Obrigado Guilherme Valente, Luís Alves, Maria do Rosário Pedreira e, a partir do número 201, Carlos Fiolhais (a quem se deveria agradecer mais ainda, pelo serviço que tem feito à ciência portuguesa em várias formas e feitios). Obrigado por me explicarem o «cosmos», como o panda tem polegares esquisitos, como a flatland é maravilhosa e como um pouco mais de azul faz sempre falta, principalmente quando se decompõe o arco-íris. Mesmo que vá morrer sem perceber bem o que aconteceu nos «três primeiros minutos». Mas, convenhamos, compreender tudo vai contra o que mais se pede à ciência: a curiosidade.

Um Universo Vindo do Nada de Lawrence M. Krauss, com tradução a partir do original inglês de Florbela Marques, revisão científica de Carlos Fiolhais e prefácio de Richard Dawkins.
Publicado em Março de 2017 pela Gradiva, depois de impresso nas oficinas gráficas da Multitipo.



Com o cheiro dos manjericos e das sardinhas assadas no ar, Lisboa dá as boas vindas ao verão em modo de festa! O popular Santo António abençoa rapazes e raparigas e os arraiais animam os bairros históricos da cidade. Cenário ideal, portanto, para Vasco Leitão: namoradeiro, conquistador e eterno estudante cábula de medicina, que sobrevive da pensão de duas tias. Precisou, porém, o menino Vasquinho de abandonar a vida boémia e aplicar-se nos estudos para conquistar a bênção do pai de Alice, sua namoradinha, e a herança das suas ricas tias. E foi, precisamente, num suposto livro «composto e impresso» na nossa casa, a Imprensa Nacional, que aprendeu o que era o esternocleidomastóideo! Feito que lhe valeu um «brilharete» no exame final  e que o tornou Doutor (porque fadista já ele era!). Mas aprendeu muito mais.

https://www.youtube.com/watch?v=fRwdQEiewBQ


A personagem de Vasco Leitão, eternizada por Vasco Santana em A Canção de Lisboa (1933), é conhecida de todos. A ele se deve a famosa frase «chapéus há muitos, meu palerma». A Canção de Lisboa é também um verdadeiro clássico da comédia portuguesa, assinalando uma efeméride importante: foi o primeiro filme sonoro português a ser filmado (em parte) em estúdios nacionais e a primeira longa-metragem produzida com equipamento da Tóbis! Já nessa altura a Imprensa Nacional era uma referência incontornável que fazia correr a sua tinta — e boa fama — ao lado da contemporaneidade: o cinema sonoro!

Realizado por Cottinelli Telmo e com diálogos de José Galhardo A Canção de Lisboa teve a sua estreia no Teatro São Luiz, a 07 de novembro de 1933, e contou com um elenco de peso: António Silva, Beatriz Costa, Manoel de Oliveira, Vasco Santana, Tereza Gomes, Alfredo Silva, Sofia Santos, entre outros. A música ficou a cargo de René Bohet e Jaime Silva Filho. O genérico saiu da criatividade de Almada Negreiros, que desenhou o cartaz do filme.

Cartaz da autoria de Almada Negreiros
A título de curiosidade, e tentando uma aproximação à obra citada em A Canção de Lisboa, dos arquivos da Imprensa Nacional — Casa da Moeda constam os seguintes títulos:

Da autoria do Dr. Eduardo Motta (e não da Mata, como refere a personagem) numa edição da Academia das Ciências:

Licções de pharmacologia e therapeutica geraes de Eduardo Augusto Motta. - 3ª ed., Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1901. - XII, 753, [1] p., 23 cm. - Enc.

Licções de pharmacologia e therapeutica geraes de Eduardo Augusto Motta. Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1887. - 674, [2] p., 23 cm. - Enc.

Da autoria de uma comissão presidida pelo Dr. Bernardino Gomes, secretariada pelo Dr. José Tomás Sousa Martins e nomeada pelo Rei D. Luís, numa edição Imprensa Nacional:

Pharmacopêa portugueza. - Edição official. - Lisboa, Imprensa Nacional, 1876. - LIII, 547 p.; 25 cm. - Enc.

Em 2016, o menino Vasquinho continuou a fazer das suas, desta vez por intermédio do humorista César Mourão, no remake do filme homónimo assinado, agora, por Pedro Varela. A adaptação da história à atualidade exigiu, evidentemente, rever o guião original: a menina Alice tem sotaque brasileiro, o seu pai já não é alfaiate mas sim um aspirante a primeiro-ministro e a tia rica é natural de França e não de Trás-os-Montes. Mas, já se sabe, há coisas que nunca mudam: e Vasco Leitão continuou e estudar pelos supostos manuais «compostos e impressos» na Imprensa Nacional.

Quanto a Vasco Santana deixou-nos há quase 60 anos, em 1958. Precisamente num dia de Santo António…

Texto: TPR
Pesquisa bibliográfica: MJG


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