Título:
Diário 2000-2015
Coleção: Biblioteca de Autores Portugueses
Autor: João Bigotte Chorão
Apresentação: Marcello Duarte Mathias
Edição: Imprensa Nacional
Data: quinta-feira, 26 de abril
Horário: 18:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Entrada livre limitada à capacidade da sala.

João Bigotte Chorão nasceu na Guarda, estudou em Coimbra, vive em Lisboa, é membro efetivo da Academia das Ciências, e é uma figura incontornável das letras portuguesas.
Foi diretor do departamento de Enciclopédias da Editorial Verbo. Conviveu de perto com nomes tão relevantes como Torga, Mourão-Ferreira, Tomaz de Figueiredo e Natércia Freire, e destacou-se em grande medida pelos seus textos de crítica e de recensão, e pela sua participação enquanto editor e redator nalgumas importantes revistas literárias do século XX.
Iniciou a escrita diarística em 1958, tendo já publicado na Imprensa Nacional em 2001 o seu Diário Quase Completo, a que vem agora juntar este segundo volume de reflexões que continuou a registar até 2015.


Marcello Duarte Mathias — diplomata de carreira, e ele próprio diarista por quem João Bigotte Chorão nutre manifesta consideração pessoal e literária —  será o apresentador desta recente edição.

Uma evidente cumplicidade entre dois pensadores do nosso tempo.
23 de maio [de 2010]

Aproveito toda uma semana para ler ao ar livre o novo volume do Diário de Marcello Duarte Mathias, leitura que só interrompo para namorar o jardim, agora bem cuidado, com a olaia majestosa, e para admirar a sinfonia verde da serra da Lousã. Lamento não poder gozar mais tempo e mais vezes a casa e a paisagem, sobretudo quando, como agora, não há chuva, nem vento, nem frio.

Se há leitores que apreciarão mais neste Diário o que lá se diz da vida diplomática – da carreira e da casa, para usar a terminologia ali usual –, outros, como eu, interessam‑se antes pelas reflexões sobre literatura autobiográfica, tão familiar ao autor. Surpresa de ver citados os diaristas brasileiros Lúcio Cardoso e Ascendino Leite, que poucos aqui conhecem. Para Lúcio Cardoso, não são os acontecimentos que fazem um diário, mas a ausência deles. Em Marcello Duarte Mathias há, pelo contrário, muitos acontecimentos, alguns deles de relevância discutível. A rebelião de Abril fornece, naturalmente, matéria para comentários críticos, que não poupam aqueles que não sabiam o que faziam – ou por demais o sabiam. Alguns, julgando‑se protagonistas, pisaram desajeitadamente o palco da História, como simples comparsas. Quem anteriormente detinha o Poder deixou‑o fugir das mãos, enleado em perplexidades e indecisões, fatais para o País, abandonado à destruição apressada e irresponsável.
Não faltam neste Diário retratos, não raro polémicos e devastadores, de políticos e militares, de diplomatas e escritores. A república literária é toda uma lamentável feira de vaidades, ambições, invejas. O incenso vai sempre para os mesmos autores, e não sobra nada para os que a crítica ignora sistematicamente.

Em Portugal, escrever é para muitos uma atividade clandestina, no juízo certeiro de Marcello Duarte Mathias. Que anuncia um livro de aforismo, desafio arriscado para quem conhece Cioran.

Em suma: um Diário que convida à leitura, aberto tanto à literatura como à pintura. De salientar ainda o culto de uma família de raízes beirãs – raízes que são uma defesa contra as tentações cosmopolitas. Ao contrário do estrangeirado que só lá fora se sente bem, Marcello Duarte Mathias não esconde as saudades da terra e o sabor de cada regresso.













As duas primeiras obras distinguidas pelo prémio INCM / Eugénio Lisboa, na edição de 2017 apresentam-se em Maputo.


MUNDO GRAVE 
Autor: Pedro Pereira Lopes
Vencedor da 1.ª edição do Prémio INCM/Eugénio Lisboa 2017

As férias do inspetor especial, Costley Liyongo, decorriam serenamente na cidade de Inhambane, quando um telefonema do diretor da polícia de investigação criminal lhe deixa claro que, devido a uma emergência, era forçosa a sua comparência no serviço.
Num velho prédio, outrora uma espécie de hotel barroco, uma prostituta tinha sido assassinada. Este será o ponto de partida para uma investigação que se irá adensando à medida que os homicídios se sucedem e ganham contornos fantásticos.

Um policial negro e arredio a exotismos, localizado num país que luta ainda pelas suas catarses.
António Cabrita

BEBI DO ZAMBEZE
Autor: António Manna
Menção honrosa do Prémio INCM/Eugénio Lisboa 2017

A escrita de António Manna remete-nos enquanto leitores para universos e memórias da cultura africana. Ao longo de quatro contos, onde a realidade e a fantasia se entrecruzam, envoltos na presença de uma natureza encantada e atuante, são evidenciados temas como maldições, magias ancestrais, rituais e sofrimentos de amor.
Mas António Manna também aborda outro tipo de padecimentos, o de um povo que vive à mercê dos desígnios da guerra e da angustia da morte precoce, seja a que ocorre na savana, no asfalto da cidade ou na vontade do próprio, conforme nos conta em Memórias de uma Alma Errante:

Morri duas vezes, primeiro de morte falsa e depois de morte real, e foi esta última que me transformou definitivamente numa alma errante.





A 16 de abril de 1889 nascia em Londres o ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, argumentista e músico britânico Charles Spencer Chaplin, criador e intérprete de uma das personagens mais famosas da cultura mundial.
Charlot, então, o quê? Um amoroso transido e sempre rebuscando o amor ou nele declinando, por fim, a sua sucessão, «um sonhador, um poeta que ama as crianças e as rosas, que sabe o que é o assassinato — que sabe, apenas, que deve viver e que tem medo». É a própria definição que Charles Chaplin lhe dá — e neste amor buscado, e neste medo que o envolve, vítima permanente da sociedade, o mito se desenvolve, define e se assume, em própria (self) criação.
Como em mais nenhum criador na longa história da cultura ocidental, talvez possamos ter observado.
Como (ousarei dizê‑lo aqui? — talvez brincando, talvez não…) uma espécie de Zé Povinho universal!

Próximo como se quer do público, e de um público vivo que se manifeste, que se relaxe, que menos preso esteja a um convencionalismo de classe enleada de cuidados — Charles Chaplin encontra-se então gostosamente na presença nua e autêntica do povo: «A minha arte não é para os grão-finos — é uma arte para o povo». A sua arte é como a do circo, que nunca se aburguesou, que sempre contou com o entusiasmo simples dos aplausos e dos grandes risos.



Da sua infância miserável, Chaplin traz necessariamente um duplo desejo: de se isolar dos que o maltratam e de viver num meio amável. Traz o desejo de amar e de ser feliz, mas traz também a fatalidade de não crer na felicidade. Ao propor o «sonho» a Charlot, Chaplin sabe que é apenas um sonho que propõe, perecível ao despertar.



 
SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS GLOBAIS
Sessão XVII: «Tecnologia e Impactos Sociais»
Organização: INCM | UAb | CIDH | FCT | CLEPLUL | APCA | IAC
Data: Quinta - 19 abril
Horário: 16:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)

Entrada livre condicionada à capacidade da sala.


Arlindo Oliveira, presidente do Instituto Superior Técnico e autor de Mentes Digitais, publicado em inglês pela MIT Press e em portugês pela IST Press, é uma referência internacional no domínio da Robótica e da Inteligência Artificial.

A dita inteligência artificial do presente não são realmente máquinas inteligentes. São sistemas que resolvem problemas muito concretos, entre os quais reconhecimento de imagens, processamento de linguagem natural, análise de bases de dados, condução autónoma ou inferência de regularidades em séries temporais.
(...)
[A] possibilidade [de um cenário negro em que a máquina domina o homem] existe sempre, mas não será, penso eu, porque as máquinas nos queiram fazer mal. Mesmo que sejam mais inteligentes que nós, não terão, com certeza, a motivação para dominar o mundo, como acontece nos filmes de ficção científica.
(...)
Estamos a discutir tecnologias que vão mudar muito a sociedade, nas próximas décadas. Penso que é útil a sociedade discutir o potencial da tecnologia, as disrupções que irá causar, as consequências no nosso modo de vida. Algumas pessoas pensam mesmo que existem riscos existenciais para a espécie humana.

Fonte:
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), figura central do 1.º Modernismo, é objecto de um precioso O Essencial sobre Mário de Sá-Carneiro (IN-CM, 2018), da autoria da premiada e reconhecida investigadora e ensaísta, Clara Rocha. Trata-se de versão refundida e aumentada de um livro anterior, de 1985. Com o rigor de concepção e construção e com a qualidade de escrita que distinguem o estilo ensaístico da autora, a obra ilumina a biografia, mas, sobretudo, a produção literária de Sá-Carneiro, enquadrando-a do ponto de vista da História Literária na sua relação com os movimentos de vanguarda da época e estudando com sensibilidade, e de forma penetrante, quer a notável poesia do autor de Indícios de Oiro, quer a sua escrita narrativa e dramática (abordando a relação daquela com o fantástico), sem esquecer a correspondência. Abrindo, por vezes, novos ângulos de análise e oferecendo, como convém, perspectivas de leitura muito próprias, o ensaio termina com uma cronologia e uma actualizada bibliografia activa e passiva (selectiva). Últimas palavras do texto: «Autor de uma fulgurante obra poética e ficcional, Sá-Carneiro afirmava naquele verso [“Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda.”], mais do que nunca, a sua crença na aura da arte e a consciência de uma singularidade criadora que o tempo viria a reconhecer» (p. 84). O livro de Clara Rocha afirma-se, assim, enquanto guia de leitura crítica e instrumento de estudo imprescindível, revelando-se, simultaneamente, como obra de deleitosa leitura.

(...)

Texto publicado em 7 de abril de 2018, em AbrilAbril - O Outro Lado das Notícias







O Essencial sobre Mário Sá-Carneiro

Coleção Essencial, n.º 8
Fevereiro de 2018

Título: QUEM É ESTA GENTE NOS PAINÉIS DE SÃO VICENTE?
Autor texto: Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães
Autor ilustração: Ana Seixas
Apresentação: Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães

Edição: Imprensa Nacional
Data: sexta-feira, 13 de abril
Horário: 14:00 h


Local: Museu Nacional de Arte Antiga
R. das Janelas Verdes, Lisboa


No Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, estão expostos os famosos Painéis de São Vicente, um grande retrato de grupo, pintado por Nuno Gonçalves há cerca de 500 anos.

Ora, nem o pintor nem ninguém da época deixou escrito quem são as figuras ali representadas.
Daí que, ao longo do tempo, muito se tenha discutido acerca delas — umas parecem-se com pessoas daquele tempo; outras com pessoas que só viriam a nascer muitos séculos mais tarde; outras parecem estar repetidas;...

Enfim, um tesouro da pintura portuguesa, composto por várias peças, que é um grande caso de mistério!

E quem melhor do que as autoras Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, bem vossas conhecidas, para nos contar o que sabem sobre os Painéis e sobre o mistério que os envolve?

Aqui fica o convite para virem conhecer o onde eles se encontram, e ouvir a sua história.


COMPOSITORES EXILADOS - FERNANDO LOPES-GRAÇA
PAUL HINDEMITH

SOLISTAS DA METROPOLITANA
Temporada 2017/2018

Data: quinta-feira, 12 abril 2018
Horário: 18:30 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
Entrada livre, condicionada à capacidade da sala.


PROGRAMA:
F. Lopes-Graça Quarteto de Cordas N.º 2, LG 87
P. Hindemith Quarteto de Cordas N.º 1, Op. 2

SOLISTAS
José Pereira, Joana Dias violinos
Joana Tavares viola
Catarina Gonçalves violoncelo

Na mais respeitosa reverência pela tradição clássica, [o Quarteto de Cordas (1982) de Fernando Lopes-Graça] dispõe os quatro andamentos numa animada «conversa» entre violinos, viola e violoncelo – de iguais para iguais. No todo, espelha exemplarmente o desígnio intelectual e estético que orientou a vida do compositor tomarense. Resulta de um esforço de síntese entre uma musicalidade com raízes na tradição popular e os recursos mais sofisticados da música erudita. Ambas coincidem, deste modo, numa mesma pauta, sublimando-se em tensão dramática um confronto de universos distantes, na eterna busca de uma coexistência harmoniosa idealizada.
[O Quarteto de Cordas n.º 1 (1915) de Paul Hindemith] é uma composição que se inscreve numa tradição romântica tardia, mas com laivos de experimentação que denunciam o espírito inquieto do compositor alemão. Destaca-se o contraste entre a cadência fúnebre do Adagio e as articulações esfuziantes do Scherzo, ambos compostos já no início da Primeira Grande Guerra.

Foi há mais de 700 anos que um florentino, Dante Alighieri, começou a escrever uma das grande obras da literatura mundial. Com mais de 14 mil versos, A Divina Comédia é uma jornada de paixões, devoções, e misticismo, à medida do seu autor.

LUÍS CAETANO – Dante viveu há sete séculos (...). Ele nasce em 1265, de uma família privilegiada, mas nem por isso particularmente rica, estuda em casa, torna-se um senhor das letras 200 anos antes do livro impresso. Como é que foi essa maturação, esse enriquecimento cultural dele?

ANTÓNIO MEGA FERREIRA – Sabe-se muito pouco sobre a infância de Dante. Sabe-se quem eram os pais, sabe-se quem era a família, sabe-se mais ou menos onde é que ele nasceu e onde a família vivia – hoje em dia existe uma Casa di Dante em Florença, muito perto da Abadia Fiorentina (...) e em frente de uma pequena igreja que se diz ser a igreja de Dante (é pouco crível). Não se sabe ao certo se era ali a casa dele. Enfim, é um pouco como o sítio onde nasceu o Santo António – é ali, ou talvez à volta... Seja como for, é no centro histórico de Florença que ele nasce. Mas depois sabe-se muito pouco sobre a infância dele. Não se sabe onde ele aprendeu as primeiras letras. Havia sobretudo um mestre que ensinava ali – há notícia disso –, não se sabe se o ensinou a ele, mas é admissível que sim. Mas sobretudo, o primeiro grande mestre de Dante é um homem chamado Brunetto Latini, que era um homem muito extraordinário. Era notário (o que não tinha nada de especial, porque nessa altura em Florença havia 660 notários registados numa população de 40 mil pessoas). Era um homem cultíssimo, um erudito; é o primeiro enciclopedista, que escreve um tesaurus que recolhia os mais diversos saberes medievais. Brunetto Latini é o primeiro mestre de Dante, isso sabe-se com certeza. Aliás, Dante fá-lo figurar na Divina Comédia, elogiando-o muito, mas apesar de tudo pondo-o no Inferno. (...) Depois, a partir daí sabe-se pouco. Em alguns dos poemas que se conhecem mais tarde, por exemplo, há abundantes sinais de afeto dele para com Guido Cavalcanti, um enorme poeta (que falizmente vai ser revelado em Portugal 7 séculos depois, visto que vai sair na Imprensa Nacional dos [seus] poemas, numa tradução que foi menção honrosa do Prémio de Tradução INCM / Vasco Graça Moura, em 2017). (...) Na Vida Nova, Dante chama a Guido Cavalcanti «il primo dei miei amicci» (o primeiro dos meis amigos). Este «o primeiro» não se sabe bem o que é; pode ser uma referência cronológica, porque Guido Cavalcanti era 10 anos mais velho que o Dante. (...) Guido Cavalcanti é um enorme poeta; um grande poeta do dolce stil nuovo. Curiosamente, quem dá o nome a essa corrente é Dante, que refere na Comédia (...). A partir daqui não se sabe muito... Sabe-se, isso sim, que depois da morte de Beatriz Portinari (...) ele se apaixonou por uma dama molto bela e gentile, que era a Filosofia – Dante falava assim (...) – porque começa a frequentar obsessivamente os estudos que havia, quer na Igreja de Santa Croce, quer na Igreja de Santa Maria Novella, uns dominicanos e outros franciscanos, que era estúdios filosóficos, onde havia muito debate e muita abertura às ideias novas. (...) Não se sabe muito mais sobre a formação de Dante.

De facto, a Comédia ensina os pecadores a descobrirem na sua própria vida as razões da danação das suas almas e aponta o caminho, através de sucessivos gradus contemplationis, para atingir a revelação divina. A primeira parte do Poema trata da intenção inicial; a segunda traça um caminho de purificação rumo ao Paraíso; a terceira é, ao seu modo não poucas vezes especulativo e enigmático, a ilustração da salvação conquistada. Na bagagem, Dante leva tudo aquilo que liga entre si as partes narrativas do Poema: para lá das inovações linguísticas e da afirmação de uma identidade política da língua, a Comédia é também uma espécie de enciclopédia dos saberes medievais, da filosofia à astronomia, da teologia à geografia, da astrologia à retórica, da matemática à numerologia, porque se assume como uma forma de pôr ordem no caos aparente que é o mundo e a vida dos homens dentro dele.
O Poema, vertido em terza rima ao longo de 14 233 versos, conta uma viagem empreendida pelo narrador, durante a Semana Santa de 1300, em pleno Jubileu decretado pelo papa Bonifácio VIII.
p. 77

Dante começa por contrapor ao expediente simoníaco das indulgências plenas o caminho da inevitável condenação, projetando os pecados individuais num futuro em que os pecadores são já almas penadas, puras memórias do que foi o seu trajeto na terra. (...) O que o Poeta nos diz, através do seu poema, é que não há instância terrena capaz de passar uma esponja sobre os desmandos e desvios à «diritta via» do amor a Deus e da fusão da criatura com o seu Criador. No Inferno, cada um é julgado do lado de lá, pelo que fez do lado de cá, e ocupa, no Além, o lugar que lhe compete atendendo aos erros e sucessos da vida já terminada. Não há fatalidade divina na punição, apenas corolário do exercício humano do livre-arbítrio. Neste universo dos mortos, já não há tempo para o arrependimento que permita arrepiar caminho: todos têm o seu destino traçado por força do que foi o seu percurso existencial.
p. 78

A viagem de Dante é fantástica na ambição visionária do seu programa; é sobrenatural no salto para o desconhecido que é o mergulho no «mundo» do Além; e é apocalíptica na presunção implícita de que a ele, e só a ele, como Poeta, é dada a possibilidade de sobreviver ao cataclismo da morte humana para atingir a Revelação e poder narrar (o narrador é o que fica para poder contar) a punição das almas e a sua possível redenção. O Poeta começa por nos dizer que entrou na selva escura que é o seu descaminho sem se aperceber, «tão grande era o meu sono no momento / em que a via veraz abandonei» (Inf., I, 11‑12). Por isso, nada se lembra do que o levou até ali. Por isso, é quando desperta, e bem acordado, que ele vai empreender a sua peregrinação. Como um miraculado, vai sobreviver ao terror do Inferno e purificar-se no Purgatório, para acabar a fundir-se na beatitude do Paraíso. Dir-se-ia que só um poema poderia salvá-lo; porém, num golpe de engenho que talvez denote a crença de Dante na veracidade da sua visão, a narrativa denuncia-se incapaz de encontrar qualquer analogia com Cristo que lhe ilustre a rima, e prenuncia o fim do Poema como obra humana a catorze cantos do seu fim. Três vezes o nome de Cristo é chamado à rima e, momento decisivo (embora não único) do Poema, não encontra analogia capaz de rimar com o nome do filho de Deus:

[…] «Nenhum engenho
a este reino subiu sem crer em Cristo,
antes ou pois de ser cravado ao lenho.
Mas vê: muito que grita ‘Cristo, Cristo!’
ser‑lhe‑a
em julgamento menos prope,
do que esse tal que não conhece Cristo;[»]
(Par., XIX, 103‑108)

Cristo não é inominável, mas o seu nome é incomparável. Daqui em diante, é como se o Poeta deixasse de ter mão no Poema, tornando-se mero escriba daquilo que lhe é ditado pela inspiração divina.
p. 79


ANTÓNIO MEGA FERREIRA – Na realidade, todos os saberes convergem no poema. Inclusivamente, a Astrologia, que para nós hoje é um bocado extraordinário, mas à época não era tanto. A Astrologia era uma arte e uma ciência que fazia parte da cultura geral das pessoas.

LUÍS CAETANO – Mas na base de tudo está o amor? É um poema sobre o amor?

ANTÓNIO MEGA FERREIRA – Eu acho que o poema é sobre o amor. Mas acho que é um poema sobre a poesia. Ou seja, pode-lhe tirar os conteúdos todos; por exemplo, eu sou ateu, e não me interessa nada a revelação da salvação divina, e a alma, etc., etc. Porém, a forma poética usada por Dante para dizer estas coisas (que não me interessam rigorosamente nada) é tão fascinante, que o poema vale por isso. Vale como uma declaração de amor à poesia. De facto, é porque ele é um gigantesco, um extraordinário poeta, único completamente, que é possível nós hoje, sete séculos depois, ainda estarmos a ler A Divina Comédia, sendo que aquilo que lá é dito não tem para nós nenhuma verosimilhança. Nenhuma! Nem o Inferno, nem o Monte do Purgatório, e muito menos o Paraíso, como é óbvio. O Inferno, a gente ainda consegue visualizar por aproximação, não é? E há um papel fundacional do poema de Dante em relação ao Purgatório – o Purgatório era uma invenção teológica muito, muito recente. E ele define o Purgatório como um lugar físico, uma montanha no topo da qual está o Epírio celeste. E eles vão subindo a montanha – eles, e os pecadores, os que ainda têm esperança de atingir a salvação, porque se arrependeram dos seus pecados. (...) Até aí, para a Igreja, o Purgatório não era um lugar físico; era um estado – purgavam-se as penas; ou seja, um estado intermédio entre o Inferno e a Salvação, entre a Danação e a Salvação, que era um estado de purgação de penas. Não era um território, não havia penas concretas; estava-se ali em «lume brando», se quiser. A partir [de Dante], a Igreja passa a falar do Purgatório à luz da imagem fundacional criada por Dante no seu poema.

(...)

LUÍS CAETANO – E isto de «A Divina», de onde é que vem?

ANTÓNIO MEGA FERREIRA – O Primeiro comentador da obra é o filho, Piero Alighieri. E o primeiro campeão da glória de Dante é Giovanni Boccaccio, duas gerações depois. Boccaccio apaixona-se completamente pela Comédia, a tal ponto que em 1373 na Abadia Fiorentina, Giovanni Boccaccio procede a uma leitura comentada da Comédia que ficou célebre. E é num pequeno ensaio que escreveu sobre a Comédia e sobre Dante, que lhe chama a «Comedia divina». E, a partir daí, as primeiras edições impressas da Comédia de Dante – que, evidentemente, só começam a aparecer no séc. XVI, duzentos anos depois – aparecem como La Divina Comedia. Na realidade, ninguém lhe tinha chamado assim a não ser Boccaccio. (...) E porque é que é uma comédia? Porque, segundo a categorização aristotélica, a tragédia tinha um final infeliz, e a comédia tinha um final feliz. Para Dante, o poema tem um final feliz, porque ele se dissolve em Deus.
(...) o que torna o Inferno imaginado por Dante um lugar incontornável do imaginário ocidental, não é tanto a meticulosa topografia, nem o desfile de almas penadas, mas a crueza das penas inventadas pelo Poeta, que correspondem ao interminável «catálogo de perversões» que o Poema enumera.
p. 90



«A Ronda da Noite», um programa de Luís Caetano, recebe e divulga escritores, artistas, gente com conhecimento e imaginação, autores de excepção. Mostra o novo mas também recupera memórias e momentos, e sai do estúdio para palcos de criação e fruição.
Antes do dia acabar, a rádio tem ideias para discutir e histórias para contar. Como num quadro de Rembrandt.

na Antena 2, RTP



 
Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.











Luís de Camões
Lírica Completa II
Biblioteca de autores Portugueses
1994
p. 170

Título: Jorge Gonçalves, 20 Anos de Trabalho
Fotografias, Artistas Unidos
Autor: Artistas Unidos
Apresentação: Maria João Luís e Jorge Silva Melo

Edição: Imprensa Nacional
Data: segunda-feira, 26 de março
Horário: 18:30 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Foi, faz agora vinte anos. Nem sei se foi alguém que mo recomendou, se foi por eu já ter visto as suas belíssimas fotografias de Vera Mantero ou de João Fiadeiro, não sei. Sei que, uma tarde nos finais de junho de 1998, o Jorge Gonçalves nos apareceu, nos Recreios da Amadora, num ensaio quase final de Aos que Nascerem Depois de Nós, um espetáculo que dirigi com canções de Bertolt Brecht. E fotografou, fotografou, fotografou. Ainda a fotografia era em película, ainda usava o preto e branco, fazíamos uma volta da peça para as fotos a cores, outra para o preto e branco.
E foram deslumbrantes aquelas primeiras fotografias, é ver as pp. 24, 99 e 132, deslumbrantes. Movimento, composição, relação entre atores, rostos em ação, olhos é aquele o teatro de que gosto e, logo nessa longa primeira sessão, o Jorge Gonçalves se entendeu bem com esta nossa (barroca?) desarrumação que não deixo de dedicar ao que tanto aprendi com o Tintoretto. Sim, o Jorge Gonçalves gosta do desequilíbrio, da instável relação de forças, do corpo vivo dos actores, dos olhos que irradiam, do corpo em queda, do olhar furtivo, da mão que se eleva até à boca.
E desde então tem andado connosco. Sempre. Passou da película ao digital, acabou-se o preto e branco e as longas noites a revelar em casa, acabou-se esse mundo, falamos em RAW e em DPI, mas ele continua a fotografar, e são vibrantes os trabalhos que nos trás, esplendorosos. Foram vinte anos, são milhares de fotografias, quase duzentos atores, tantas peças, muitos diretores, tantas salas diferentes, grandes umas, sem recuo outras tantas, pequenas muitas delas, A Capital, o Taborda, as Mónicas, a Malaposta, o Dona Maria, o CCB, a Culturgest, a Mundet no Seixal, a Voz do Operário, o Belém-Clube, o São Luiz, o Teatro Municipal de Almada, o Centro Cultural do Cartaxo, o Estrela 60 de tantos ensaios, agora o Teatro da Politécnica (mudámos mais vezes de casa do que de sapatos?) , tanta sessão, tanta fotografia, tanto nome, tanto trabalho, tanto talento: vinte anos.
O teatro vive mal com os registos, desconfio dos vídeos, veneno omnipresente que torna tudo velho, mais velho do que a memória.
E o que o Jorge Gonçalves faz não é de todo um registo, ele não é testemunha, inventa fotografia a partir dos ensaios, fotografia da vida que está dentro dos espetáculos, é uma outra maneira de olhar o mundo, é reescrita, é fotografia, chamemos-lhe arte, que foi para isto que se inventou esta palavra.
Muitas vezes tem de se acrescentar luz ao desenho que o Pedro Domingos fez, e tentamos seguir-lhe as linhas mestras, quase nunca temos recuo para fotografar os sempre extraordinários cenários da Rita Lopes Alves, preso que o Jorge anda (e deve andar) à movimentação dos atores, à sua instantânea vulnerabilidade. Vemos só uma parte, sim, «a parte pelo todo», como se diz que é a metonímia.
E não é isso mesmo a fotografia? Ou seja, a poesia?

Para nós é isso: vinte anos.
Jorge Silva Melo



Maria João Luís
Estreou-se no teatro em 1985 no grupo de teatro A Barraca (Um Dia na Capital do Império, Um Homem é Um Homem, Fernão, Mentes?, O Diabinho da Mão Furada e O Baile, sempre com encenação de Helder Costa). Trabalhou ainda no Grupo de Teatro da Casa da Comédia, Acarte, Teatro da Malaposta, Teatro da Comuna. No Teatro da Cornucópia participou em A Comédia de Rubena de Gil Vicente (enc. de Luís Miguel Cintra), Antes Que a Noite Venha, de Eduarda Dionísio (enc. de Adriano Luz), Tito Andrónico, de Shakespeare e Um Homem é um Homem, de Bertolt Brecht (enc. de Luís Miguel Cintra). Interpretou várias peças na televisão com direção de Ferrão Katzenstein, Artur Ramos, Cecília Neto e Luís Filipe Costa. Presença regular em séries e novelas da televisão, trabalhou no cinema com Fernando Matos Silva, Teresa Villaverde, João Botelho e Luís Filipe Rocha.



Jorge Silva Melo
Estudou na London Film School. Fundou e dirigiu, com Luís Miguel Cintra, o Teatro da Cornucópia (1973/79). Bolseiro da Fundação Gulbenkian, estagiou em Berlim junto de Peter Stein e em Milão junto de Giorgio Strehler. É autor do libreto de Le Château dês Carpathes (baseado em Júlio Verne) de Philippe Hersant; das peças Seis Rapazes Três Raparigas, António, Um Rapaz de Lisboa, O Fim ou Tende Misericórdia de Nós, Prometeu, Num País onde não Querem Defender os meus Direitos, Eu não Quero Viver, baseado em Kleist; de Não Sei (em colaboração com Miguel Borges ) e O Navio dos Negros. Fundou em 1995 a sociedade Artistas Unidos, de que é director artístico. Realizou as longas-metragens Passagem ou A Meio Caminho, Ninguém Duas Vezes, Agosto, Coitado do Jorge, António, Um Rapaz de Lisboa; a curta-metragem A Felicidade; o os documentários António Palolo e Joaquim Bravo, Évora, 1985, etc, etc, Felicidades, Conversa com Glicínia, Conversas em Leça em Casa de Álvaro Lapa, Nikias Skapinakis - O Teatro dos Outros, Álvaro lapa: A Literatura, António Sena, A Incessante Mão, Ângelo de Sousa: tudo o que sou capaz e A Gravura: Esta Mútua Aprendizagem. Traduziu obras de Carlo Goldoni, Luigi Pirandello, Oscar Wilde, Bertolt Brecht, Georg Büchner, H. P. Lovecraft, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini, Heiner Müller e Harold Pinter.







 
A 4.ª edição do Mercado do Livro França Borges, no Príncipe Real, já tem data marcada! 
É no próximo sábado, dia 24 de Março.

PROGRAMA

11:30h
Ateliê de ilustração de personagens
com Marta Braz. Dos 8 aos 14 anos.

15:00h
Apresentação de O Cinema Não Morreu: crítica e cinefilia à pala de Walsh
por Carlos Natálio, Luís Mendonça e Ricardo Vieira Lisboa.
Leitura de excertos pelo ator António Mortágua.

16:30h
Debate sobre «O Íntimo e o Real» em José Saramago
com Bruno Vieira Amaral e João Francisco Vilhena, moderado por Ana Matos

18:00h
Música ao vivo: Mano a Mano


Além desta programação - como é habitual - cá estarão também as suas editoras e livrarias e preferidas:

Abysmo
Almedina
Bisturi
Distopia
Galeria das Salgadeiras
Imprensa Nacional
Letra Livre
Linha de Sombra
Palavra de Viajante
Quer




Todos os detalhes em mercadodolivro.pt

Venha visitar-nos e traga a sua família.
Mais um Mercado do Livro França Borges que não vai querer perder!






VERSOS QU’O PAI QUE FOI P’Ó TRABALHO FEZ À SUA FILHA

Tanta frieza, inha mãe!
Incarrilha-s’ êste inverno:
Ei! Tantas lamas que teem
As istǐradas do rovêrno!

Greta-s’os pézes. E a lũa
É nova: têmos-ĕa feita!
Dês a medre e a faça nũa
Talhada só, forte e bũa,
Nacendo sã-iscorreita.

Parece o paúl da Praia
O sarrado da luzerna.
Não há nem pisca na baia,
Mins ê nã sei se lá vaia,
Qu’ia cobrando ũa perna.

A gente só tem bandalhos
Que nem bandeiras do bodo.
Ist’é que são uns trabalhos!
P’í a-fora, nos atalhos,
A gente alaga-se todo.

Inda mal loze o biraco,
E toca a mundar a ǐeito,
C’o pão de milho no saco.
Isto faz dar o cavaco,
Mins é mundar, e cum geito.

Cando não, mê pai dá fé
De qu’a gente é calaceiro:
— Anda, Pedro, pũi-t’a pé,
Qu’o carneiro mocho inté
Já s’aluvanta prumeiro.

Maria, eh moça, que fazes?
Nã desapegas do qŭente.
Vê lá que pão é que trazes;
Toma tino, qu’os rapazes
São todos três de bum dente.

E agora, bota sintido,
Nã fiques comã ismalmada,
Que já te tens divertido:
Qué-s’êsse milho iscolhido
E essa bezerra tratada.

A gente torna de brebe
E qué ver já tuǐdo pronto.
O cordeiro alvo da neve,
Não há ninguêm que lo leve,
Anda por í comã tonto.

E ó mei-dia, eh ř’paria,
Anda cá, nã sei se m’oives:
Qué-s’ũa bũa papia
De farinha alva e macia
Pǎ vê se s’ingana as coives.

Tês irmãos hoj’ veem mais cedo,
Qu’é pǒ via da toirada.
Deixá-los ir ó fòlguedo!
Vai se qués, nã teinas medo,
Que ficas bem arrumada.

Mins toma tento na bola,
Nã vaias fazê toliça;
Qu’ê já sei qu’o meste-iscola,
Qu’é filho do bate-sola,
Há ǐanos que te derriça.

Mins se topars algum moço
Da tua abetuaduira,
Nã le vires o piscoço:
Ruim cão que vê um osso
E nã lo passa à fressuira.

Qu’ó dispois, cando êle vinher
Tê comio pá licença,
Tê pai, c’o bem que te quer,
Vai dezer que sim, mulher,
Pâ cunsolar a criença.

Cásim vocês! Tamêm eu
Que’stou aqui me casei.
E o pão alvo que Dês deu,
Apresantado no céu
Seja sempre, à bũa lei!

E adês! A Virze te impare
E te dê sorte, Maria.
E sejas o sol e o ar
Do moço que te luvar
Para a sua cumpanhia.

Arco da Traição de Coimbra, 10-VII-22


Poema incluído no volume I — Poesia 1916-1940 — da coleção Obra Completa de Vitorino Nemésio, dirigida por Luiz Fagundes Duarte. Em publicação


NOTA de L.F.D. à edição de 2006: «Neste poema, o Autor procurou reproduzir, por meio do alfabeto convencional, as caraterísticas fonéticas do falar do povo da Ilha Terceira, recorrendo no entanto, quando as limitações do alfabeto não permitiam os efeitos desejados, a alguns sinais diacríticos do alfabeto fonético internacional.»