A figura de Luís Carlos Guedes Derouet (1880-1927) está incontornavelmente ligada à história da Imprensa Nacional. 

Nomeado pelo Governo Provisório no próprio dia 5 de Outubro de 1910, tomou posse no dia seguinte e manteve-se no cargo até 31 de Outubro de 1927.

Filho de Júlio Derouet e de Sofia Guedes, nasceu em Lisboa, na freguesia de Santa Isabel, em 19 de Abril de 1880. Estudou no Liceu do Carmo e fez na Escola Politécnica os preparativos para a Escola Médica, não tendo concluído o curso de medicina por entretanto se ter dedicado ao jornalismo. Casou com Clementina Porto e dela teve uma única filha, Maria Luísa Porto Derouet.

Republicano convicto, como jornalista colaborou nos jornais A Cabra (1893), Actualidade, Barricada, A Vanguarda (que fundou em 1897), A Pátria, O Mundo (que também fundou), A Manhã (1917), Diário da Tarde e Diário de Lisboa, entre outros. É ainda autor do livro Duas Pátrias, compilação de crónicas enviadas para o jornal O Mundo, quando da visita que fez ao Brasil, em 1922, acompanhando o Presidente da República, António José de Almeida.

Em 1902 concorreu para revisor da Imprensa Nacional e ingressou nos quadros da empresa como revisor de 1.ª classe, categoria que mantinha quando em 6 de Outubro de 1910 tomou posse do cargo de Administrador-Geral (a partir de 1913 chamado de Diretor-Geral).

Enquanto se manteve à frente da instituição, teve sempre, para além do cuidado com a boa gestão da casa, a preocupação com o desenvolvimento cultural e a melhoria das condições de vida do seu pessoal.

Logo em 1911 participou ativamente na Reforma Ortográfica.

Com os numerosos livros que se achavam encaixotados desde que o antigo edifício dera lugar ao actual, inaugurou em 3 de Outubro de 1923, na presença do então Presidente da República, António José de Almeida, a sala da Biblioteca.

Com Luís Derouet se iniciou a tradição — recentemente retomada — de organizar eventos públicos de cariz cultural na Biblioteca, com a promoção de diversas exposições, a última das quais, a 1.ª Exposição Internacional de Ex-Libris, deveria encerrar no dia 1 de Novembro de 1927.

Mas na véspera, ao sair da Imprensa Nacional, Luís Derouet foi atingido por três tiros desfechados por Manuel Pinto, um tipógrafo desempregado, preso na ocasião. Levado para o Hospital de São José ainda foi operado, mas não resistiu, morrendo no dia seguinte, 1 de Novembro de 1927. O seu funeral, que saiu no dia 3 das instalações da Imprensa Nacional para a Cemitério dos Prazeres, foi uma sentida homenagem de todo e pessoal e dos numerosos amigos que, nas palavras do Dr. Tomás de Mello Breyner, perdiam um «bom e leal amigo, que atravessou a vida amando a família com ternura, servindo o País com valor, querendo bem aos amigos sem prejudicar o próximo e praticando o bem tantas vezes.»

O busto de bronze que se encontra no átrio da Imprensa Nacional, foi inaugurado em 26 de Maio de 1928 e nesse mesmo ano foi publicada a obra À Memória de Luís Derouet: Palavras Justas, da iniciativa da Cooperativa do Pessoal da Imprensa Nacional de Lisboa, A Pensionista.

A obra social e cultural de Luís Derouet na Imprensa Nacional foi vasta:

1911
> 1.ª Exposição de trabalhos artísticos executados pelo pessoal 
> Primeiras visitas dos aprendizes da Escola profissional da IN a estabelecimentos públicos e privados com interesse para a sua educação profissional e artística, que perduraram até 1916:
  • Casa da Moeda
  • Jornal O Século
  • Biblioteca Nacional
  • Laboratório de Química da Faculdade de Ciências
  • Litografia Portugal
  • Escola Afonso Domingues
  • Igreja da Madre de Deus e Asilo Maria Pia
  • Jardim Zoológico
  • Fábrica de Papel da Abelheira
  • Manutenção Militar
  • Exposição de Aguarela, Desenho e Miniatura na Sociedade Nacional de Belas Artes 
1912
> Inauguração do balneário e do refeitório da IN
> Concurso para elaboração de uma «memória histórica» sobre a IN, sendo premiada a monografia da autoria de José Silvestre Ribeiro, Imprensa Nacional: subsídios para a sua história (1768-1912)
> Início das conferências aos Domingos, na sala de composição tipográfica, abertas ao pessoal e ao público em geral, versando temas de «vulgarização científica e artística». Publicadas:
  • Aspetos da Tipografia em Portugal, por Norberto Araújo (1913)
  • Democratização da Arte, por Norberto Araújo (1914)
  • Camilo Castelo Branco: sua vida e sua obra, por Oldemiro César (1914)
1913
> Festa de homenagem ao pessoal da IN com 50 ou mais anos de casa
> 1.ª Exposição Nacional de Artes Gráficas na IN

1914
>
Participação da IN na Exposição Internacional da Indústria do Livro e das Artes Gráficas, em Leipzig

1915
> Cooperativa a Pensionista

1918 
> Caixa de Auxílio a Viúvas e Órfãos

1923
> Previdência Mútua
> Inauguração da Biblioteca da IN

1924
> Exposição Camoneana, na Biblioteca

1925
>
Exposição Comemorativa do 4.º Centenário de Vasco da Gama, na Biblioteca

1926
> Exposição de encadernações feitas pelo pessoal da casa

1927
> 1.ª Exposição Internacional de Ex-Libris, na Biblioteca

MJG



in Diário Digital, 25 junho 2015


«Ana de Castro Osório - A Mulher Que Votou na Literatura», texto de Carla Maia de Almeida e ilustração de Marta Monteiro, «Aristides de Sousa Mendes - Um Homem de Coragem», texto de José Jorge Letria e ilustração de Alex Gozblau, «Azeredo Perdigão - Um Encontro Feliz», texto de António Torrado e ilustração de Susa Monteiro, e «Alfredo Keil - A Pátria Acima de Tudo», texto de José Fanha e ilustração de Susana Carvalhinhos, são as novidades da coleção "Grandes Vidas Portuguesas", dedicada às vidas de personalidades que se destacaram, em vários domínios, na História de Portugal. Edição da Pato Lógica, em parceria com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda.


«Ana de Castro Osório - A Mulher Que Votou na Literatura», texto de Carla Maia de Almeida e ilustração de Marta Monteiro

«É verdade que as mulheres conseguem fazer muitas e diferentes coisas ao mesmo tempo. Também é verdade que há cem anos, ninguém perdia tempo a fazer “gosto“ no Facebook, nem a jogar horas com o telemóvel, nem a escolher entre 50 marcas diferentes de cereais para o pequeno-almoço. Ana de Castro Osório teve a sorte e a liberdade de poder usar o seu tempo para pensar, escrever e ser útil à sociedade. Afinal, era aquilo que mais gostava de fazer. Se tivesse vivido nos dias de hoje chamar-lhe-iam “supermulher“? Teria sido diagnosticada, ao princípio, como uma “criança hiperativa”?»

«Aristides de Sousa Mendes - Um Homem de Coragem», texto de José Jorge Letria e ilustração de Alex Gozblau

«Nessas horas terríveis, que são sempre aquelas em que se descobre a matéria moral de que são feitos os verdadeiros heróis e os seres humanos em geral, o cônsul escreveu,
para que mais tarde outros pudessem compreender o seu gesto e a coragem do seu ato:”Tudo está agora nas minhas mãos, para salvar os muitos milhares de pessoas que vieram de todos os lados da Europa na esperança de encontrar refúgio em Portugal. Todos eles são seres humanos, e o seu estatudo na vida, religião ou cor são totalmente irrelevantes para mim (...)»

«Azeredo Perdigão - Um Encontro Feliz», texto de António Torrado e ilustração de Susa Monteiro

«Neste livro vai falar-se de um advogado português, Dr. José Henrique de Azeredo Perdigão, que teve a oportunidade de cruzar-se com um milionário arménio, com quem estabeleceu laços de amizade perduráveis. Desse feliz encontro resultou a criação de uma grande
Fundação, sediada em Lisboa, dedicada ao apoio das Artes, das Ciências, da Educação. [...] As biografias são lembretes, estímulos para a memória. Vai-se o homem, fica a obra. Ainda estremecemos só de imaginar que estes dois homens, por azares do destino, podiam nunca ter chegado a encontrar-se. Por isso estamos gratos às estrelas propícias que lhes iluminaram os passos pelos trilhos da vida»

«Alfredo Keil - A Pátria Acima de Tudo», texto de José Fanha e ilustração de Susana Carvalhinhos

«Muitas vezes as obras artísticas escapam da mão do seu autor no momento em que ele as entrega ao público e seguem caminhos próprios e, por vezes, inesperados. A Portuguesa apareceu logo a seguir ao Ultimatum num espectáculo do Teatro dos Condes e logo aí o público saiu para a rua a cantá-la e a marcha popularizou-se e espalhou-se como fogo na palha.
A popularidade deste hino tornou-se tal que a sua letra e até a sua partitura apareceram reproduzidas em rótulos de latas de bolachas e de sardinhas, em invólucros de
sabonetes, caixas de charutos e outras embalagens comerciais.»

Originalmente publicado aqui.

As logomarcas Imprensa Nacional e da Casa da Moeda ao longo dos tempos

Desde cedo se registaram tentativas de construção de uma identidade gráfica das duas empresas que deram origem à imprensa Nacional-Casa da Moeda, ainda que só tarde tenham chegado à fixação.

O logótipo da Imprensa Nacional-Casa da Moeda desde 2010

A Casa da Moeda

No caso da Casa da Moeda (CM), a primeira ocorrência de um ensaio de imagem de marca surge em 1863 e prossegue com amplas hesitações em relação ao modelo.


 


Em 1873, aparece uma imagem no papel timbrado, precursora, também, de uma imagem de marca.


E é no papel timbrado que diversas imagens se vão sucedendo, ao arbítrio do grafismo em moda.



A República traz o escudo para o centro da imagem.



Em 1938, a Casa da Moeda passa a ter no seu nome apenas estas palavras, tendo caído definitivamente em desuso a sua identificação como produtora de papel selado.



A Imprensa Nacional

No caso da Imprensa Nacional (IN), os primeiros esboços desse ensaio têm lugar no papel timbrado. Também com a República, o escudo passa a ter lugar de destaque no grafismo da IN.

O mais aproximado de ideia de logótipo surge inscrito nos vitrais e cadeiral da biblioteca, inaugurada em 1923.

Com a fusão, muda o nome da empresa, juntando num só o das empresas que a constituíram, mas seriam necessários mais 10 anos para que uma identidade gráfica se estabelecesse.

 

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Fundada em 1972 pela fusão das duas empresas públicas que integram o seu actual nome e um ano mais tarde, a INCM tem, pela primeira vez, um logótipo. O seu designer foi o colaborador da empresa, Valente de Carvalho.

A primeira imagem da marca INCM mantém-se em uso durante quase duas décadas.
Em 1991 é substituída por um novo logo, da autoria do pintor e escultor José Cândido.





A Criação da Nova Marca

Em 2010, a INCM lança um concurso para a criação de uma nova identidade gráfica.

O essencial das transformações formais realizadas é explicado pelo próprio autor-designer que ganhou o concurso para o projecto da nova marca, Eduardo Aires:

Deixamos aqui sublinhados alguns aspectos conceptuais que presidiram à recriação do «logo» da empresa. Antes do mais, a passagem a primeiro plano do próprio nome «INCM». A opção prende-se com o prestígio que a empresa e a sua designação adquiriram, ao saber modernizar-se e responder aos novos desafios da actualidade. INCM é um nome com valor: tradição, confiança, segurança, rigor. É essa relação entre tradição e modernidade que a nova imagem traduz, ao manter elementos essenciais do «logo» anterior, reinterpretando-os no tempo presente, a olhar para o futuro.

E o resultado foi a atual logomarca da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, que passou a estar presente em todas as publicações e em todas as peças de comunicação:

O texto completo do racional criativo encontra-se na edição de junho de 2010 do boletim Matriz.

Prelo — Na sua opinião, o que distingue uma editora pública de uma editora comercial?

José-Augusto França — a primeira deve assumir os custos de uma programação cultural; a segunda deve assumir os riscos de uma programaçao criativa — a menos que prefira participar de uma programação que sirva os gostos mais comuns do leitorado.

P — O que pensa da evolução da editora INCM nos últimos anos?

J-AF — Positiva a partir das presidências de Vasco Graça Moura e de António Brás Teixiera.

P — Acha que a INCM presta um bom serviço público?

J-AF — Sem dúvida, em relação às suas possibilidades.

P — Indique-nos três títulos do catálogo da INCM de que mais gostou.

J-AF — Prefiro destacar o empreendimento das Obras Completas de vários autores nas suas edições críticas.

P — Indique-nos um título que gostaria de ver publicado no catálogo da INCM.

J-AF — Uma História Crítica do Cinema Português, que podleria ser acordada com a Cinemateca Nacional, considerando a falta de tal obra nas nossas bibliotecas — e prevendo resumos adequados, em inglês, francês e espanhol.

Abril 2015

JAF

in O Jardim Assombrado, 17 de junho de 2015


Não é um «triplo A», mas um «quádruplo A», esta segunda leva da colecção Grandes Vidas Portuguesas, uma edição conjunta da Pato Lógico/Imprensa-Nacional Casa da Moeda. Dá-se a coincidência de todos os biografados partilharem a letra A no nome com que ficaram para a História. Por ordem, na imagem: Azeredo Perdigão, primeiro presidente da Fundação Calouste Gulbenkian; Alfredo Keil, artista e compositor do hino nacional; Aristides de Sousa Mendes, o diplomata que salvou milhares de vidas do regime nazi; e Ana de Castro Osório, escritora, editora, feminista, republicana e unanimemente considerada «a mãe da literatura infantil». A colecção foi apresentada por Henrique Cayatte no passado domingo, durante a Feira do Livro de Lisboa, com a presença dos quatro escritores: António Torrado, José Jorge Letria, José Fanha e moi-même. Faltaram os ilustradores, que fizeram um trabalho primososo. Também por ordem: Susa Monteiro, Susana Carvalhinhos, Alex Gozblau e Marta Monteiro. Venham mais quatro.

Originalmente publicado aqui.
Arnaldo Saraiva é professor emérito da Universidade do Porto, de cuja Faculdade de Letras foi professor, tendo também ensinado na Universidade da Califórnia em Santa Barbara (1978-1979),na Universidade de Paris – Sorbonne Nouvelle (1993-1994) e na Universidade Católica Portuguesa-Porto (2003-2009).
Foi membro da direcção da Cooperativa Árvore, presidente do Conselho Geral do Boavista Futebol Clube, fundador do Centro de Estudos Pessoanos, presidente da Fundação Eugénio de Andrade, cronista colaborador da Radiotelevisão Portuguesa e da Radiodifusão Portuguesa e ator em filmes de Luís Galvão Teles, António Reis, Saguenail e Joaquim Pinto. Autor de extensa bibliografia, entre os seus livros (ensaio, poesia, crónica e tradução) incluem-se:
  • Literatura Marginalizada (2 vols., 1975 e 1980)
  • Bilinguismo e Literatura (1975)
  • Fernando Pessoa e Jorge de Sena (1981)
  • In (poemas, 1983)
  • O Modernismo Brasileiro e o Modernismo Português (1986) – reeditado em 2015 pela INCM
  • O Livro dos Títulos (1992)
  • Fernando Pessoa Poeta-Tradutor de Poetas (1996)
  • Introdução à Poesia de Eugénio de Andrade (1995)
  • O Sotaque do Porto (1996)
  • Conversas com Escritores Brasileiros (2000)
  • Folhetos de Cordel e Outros da minha Coleção (2006)
  • Poesia de Guilherme IX de Aquitânia (2008)
  • Augusto dos Santos Abranches, Escritor e Agitador Cultural em Portugal, em Moçambique e no Brasil (2013)
  • O Génio de Andrade (2014)
  • Dar a Ver e a se Ver no Extremo – O Poeta e a Poesia de João Cabral de Melo Neto (2014)
  • Os Órfãos do Orpheu (2015)



por Tânia Pinto Ribeiro

«À Tânia:
Respostas a eito, mão levantada, currente calamo e má caligrafia,
em 25 de abril de 2015 — depois de algumas centenas de páginas
que escrevi, mais explicativas.»

Admira Piero della Francesca e Nuno Gonçalves, mas também Chaplin, Mahler e Louis Armstrong. Faz do Jardim da Estrela o seu porto de abrigo no meio ano que passa em Lisboa. O resto do tempo passa-o em Jarzé, um pequeno vilarejo francês, o «descanso do guerreiro», como gosta de lhe chamar. Correu o mundo em busca do belo e da verdade. E não só — acrescenta ele. É avesso às novas tecnologias e não gosta de gravar entrevistas. Prefere respondê-las à mão. E assim foi. Duas linhas, em jeito didascálico, encabeçam as respostas à PRELO. São reveladoras da personalidade deste colaborador já antigo da INCM. Quanto ao número de páginas que escreveu estar na ordem das centenas, isso já será apenas modéstia. Feitas todas as contas, este escritor, historiador da arte e também académico — por esta ordem precisa — chegarão, facilmente, aos milhares. Quanto à data das respostas poderá ser apenas coincidência. Ou talvez não. É que o percurso que vamos revisitar a seguir, a currente calamo, como quem diz, ao correr da pena, pertence a um homem que, aos 92 anos, continua a viver a vida aprendendo a ver e a escrever sobre o que procura ver. A tal «liberdade cor-de-homem», como lhe chamou o surrealista André Breton. Espaço para as saudades, não o tem. Mas tempo para voltar ao Louvre, o seu museu preferido, para visitar a Tate Modern, onde nunca esteve, e escrever um Essencial sobre Picasso, não lhe pode faltar. E por falar em tempo… é o tempo que faz a Arte ou a Arte que faz o tempo? Quem melhor do que José-Augusto França para nos dar a resposta?

Prelo (P) — Tem várias obras publicadas pela editora pública. Como e quando começou a sua relação com a INCM?

José-Augusto França (JAF) — Com a edição «comparada» de Memórias dum Doido, de António Pedro Lopes de Mendonça, que propus em 1982, e prefaciei.

P — Foi colaborador da revista PRELO. Fale-nos um pouco das suas contribuições para esta publicação.

JAF — Um depoimento pedido, um conto que propus e um estudo sobre quatro obras de «pseudo-história» dos anos 20 que me propus reeditar; assim não foi e o prefácio preparado adaptou-se à revista.

P — Faz parte do conselho editorial da INCM. O que é que este cargo representa para si?

JAF — É um cargo (de nomeação continuada) do Ministério da Cultura, que tem funções meramente consultivas.

P — Coloque pela ordem com que mais se reconhece. José-Augusto França é sobretudo: escritor; historiador da arte; crítico de arte; académico.

JAF — Escritor (que é aquele que escreve, também romances); historiador (que é aquele que escreve história, não só da arte); académico por docência profissional, desde 1974.

P — Existe uma polémica entre os heterónimos de Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, quanto à classificação das artes. São elas:
Ricardo Reis: «Há só duas artes verdadeiras: a Poesia e a Escultura. A Realidade divide-se em realidade espacial e realidade não espacial, ou ideal.

A escultura figura a realidade espacial (que a pintura desfigura e abaixa e a arquitetura artificializa porque não reproduz uma coisa real mas outra coisa). A música, que é a arquitetura da poesia, isola uma coisa, o som, e quer dar o ritmo fora do humano, que é a ideia.»

Álvaro de Campos: «Há cinco artes — a Literatura, a Engenharia, a Política, a Figuração (que inclui o drama, a dança, etc.) e a Decoração. (A Decoração vai desde a arte de arrumar bem as coisas em cima de uma mesa até à pintura e à escultura. F[ernando] P[essoa] teve razão numa coisa: a pintura e a escultura são essencialmente artes de decorar, mas errou em limitar a essas as artes decorativas).»

P — Para si, qual é a mais certeira? E porquê?

JAF — Todas ou nenhuma — ou outra qualquer proposta, com humor semelhante, de fantasia e inteligência possível…

P — Assina vários livros da coleção Essencial. Se possível, diga-nos em apenas uma linha o que é o Essencial sobre: António Pedro.

JAF — A imaginação da sua obra pictórica e a consciência da sua obra de encenador.

P — Rafael Bordalo Pinheiro.

JAF — O humor crítico que cobriu 40 anos da vida portuguesa.

P — Columbano Bordalo Pinheiro.

JAF — O retrato entendido do fin de siècle nacional.

P — José Malhoa.

JAF — A vista exterior dos costumes portugueses durante duas (ou três) gerações.

P — Almada Negreiros.

JAF — A sua proposta de mítica nacional.

P — Amadeo de Souza-Cardoso

JAF — A originalidade plástica da sua obra de 1916-17.

P — Charlie Chaplin.

JAF — A angústia da vivência ocidental durante 60 anos do século XX.

P — Faz parte do júri do Grémio Literário que este ano atribuiu à obra Joaquim de Vasconcelos: Historiador, Crítico de Arte e Museólogo, de Sandra Leandro, o Prémio Grémio Literário 2014, e a menção honrosa à obra A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós. Que valores reconhecerem nestas edições da chancela INCM?

JAF — Uma obra incontornável sobre o fundador da historiografia da arte em Portugal; e a realização de metade do programa crítico editorial da obra completa em 30 volumes, dirigido por Carlos Reis.
No seu escritório, na casa de Lisboa. Na parede, à esquerda, um guache de Vieira da Silva; à direita, um Noronha da Costa, dos anos 1980


P — Tem uma atividade literária vastíssima. Que género lhe dá mais prazer escrever?

JAF — Quando escrevo romances escrevo romances (em 1949 ou nos anos 2000), quando escrevo história (da arte, da cultura) isso faço — desde 1956. E uma coisa ou outra faço com prazer — ou não faria…

P — Porquê esta relação tão especial com os surrealistas? E não com os neorrealistas, por exemplo? É uma questão de origens? De vivências? De leituras? De educação? Do acaso?

JAF — Questão de história, de geração, e de consciência de «Liberdade cor-de-homem» (André Breton).

P — Quais as melhores recordações que guarda do grupo surrealista?

JAF — As amizades — António Pedro, António Dacosta, Fernando Azevedo, Marcelino Vespeira, Fernando Lemos, os primos inter pares

P — As suas primeiras colaborações versavam muito sobre cinema. Mais tarde, acompanhou António Pedro na fundação dos «Companheiros do Pátio das Comédias», no Teatro Apolo e chegou a dirigir, entre 1948 e 1955, a programação cinematográfica das «Terças-Feiras Clássicas» do Jardim Universitário de Belas Artes, no cinema Tivoli. Mais de 200 sessões! Como era selecionar filmes e escrever sobre eles no período de ditadura?

JAF — Os filmes existiam nos distribuidores devidamente censurados: o caso era só de escolha estética e histórica, para uma programação específica, acompanhada com comentários culturais da melhor gente disponível...

P — Escreveu o primeiro romance anticolonialista português: Natureza Morta. Sente-se o precursor de uma geração que escreveu e obteve sucesso com o tema?

JAF — Antes de mim o fez Castro Soromenho em Terra Morta, 1947. Depois não foi tema muito tratado nas «malhas do império» defunto.

P — Também foi editor na Editorial Confluência, onde dirigiu a publicação do Dicionário Morais da Língua Portuguesa, em 12 volumes. Para si, o que distingue um bom editor e uma boa edição?

JAF — Não foi uma propriamente dita ação editorial (que me estava interdita pelo regime), foi uma empresa de caráter comercial e científico. Um bom editor é aquele que lê, escolhe, sugere, propõe.

P — Estudou no Liceu Gil Vicente, com o professor Sebastião Lisboa que o «ensinou a escrever», na Faculdade de Letras com o professor Vieira de Almeida que o «ensinou a pensar», na École des Hautes Etudes com Pierre Francastel que o «ensinou a historiar», na Sorbonne com o professor Léon Bourdon que o «ensinou a trabalhar academicamente». Houve alguém que o tenha ensinado a apreciar a arte?

JAF — Muito devo aos quatro professores indicados. Quanto à arte, meu pai levava-me, menino, ao Museu de Arte Antiga. Desde fins dos anos 30 passei a ir, por meu pé, onde podia... E, desde 1946, Paris, Paris, Paris...

P — Há pessoas fundamentais no seu percurso. E livros? E filmes? Quais são aqueles que mais o influenciaram?

JAF — Amores, desamores, Eça, Stendhal, Proust, Faulkner, Musil, Simenon, Chaplin, Renoir, Rossellini, Antonioni, Hitchcock, Manoel d'Oliveira, os Marx— ao longo do caminho...

P — Porque deixou incompleto o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa?

JAF — Razão circunstancial: a morte do meu pai e necessidade de ir para Angola trabalhar.

P — Retomou os estudos em Paris na École des Hautes Etudes e na Sorbonne; só em 1959. Recorda-se das grandes diferenças que sentiu a nível académico entre as duas instituições?

JAF — São duas instituições culturais (e etárias) diferentes nas suas estruturas culturais, sociais e nacionais.

P — Como observa a evolução do ensino da história da arte em Portugal?

JAF — Houve radical e programada modificação em 1976, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

P — Em 1982 é publicado pela INCM a obra Cem Exposições. Há alguma que o tenha marcado mais?

JAF — Reuni ali os cem primeiros prefácios de exposições publicados — e lembro-me de que o primeiro foi sobre Almada Negreiros, em 1951.

P — Como define a atividade de um crítico de arte?

JAF — Ir aprendendo a ver e a escrever sobre o que soube ver.

P — E como define a ética de um crítico de arte?

JAF — A ética é do cidadão, crítico de arte ou não...

P — Olhando, por exemplo, para os principais jornais e revistas de atualidade nacional, acha que em Portugal a crítica tem espaço suficiente no debate público?

JAF — Não, nunca teve e cada vez menos tem, em folha impressa, rádio ou televisão. A actualidade (com “c” ou sem “c”) vai mal!

P — Numa obra de arte o que é mais importante: a verdade ou a beleza?

JAF — A obra de arte é a sua própria verdade e «el arte es el social» (Federico Garcia Lorca)

P — O que é a Arte segundo José-Augusto França?

JAF — Ouvi perguntar isso ao Almada Negreiros que, em reposta, abriu os grandes braços. Que melhor resposta?

P — O que representam as seguintes cidades do universo de José-Augusto França:
Tomar?

JAF — Uma memória familiar reproduzida.

P — Lisboa?

JAF — Uma vivência infantil, adolescente e profissional.

P — Paris?

JAF — Uma ideia encarnada desde 1946.

P — E a pequena vila de Jarzé, em França?

JAF — Le repos du guerrier, a 300 km de Paris.

P — O Jardim da Estrela, em Lisboa, onde nos encontrámos pela primeira vez, é um lugar especial para si. Quer contar-nos porquê?

JAF — Simboliza memória infantil, redescoberta aos 70 anos, com lago, patos e amigos. Porque não a herança de um viscondado da Estrela, de um brasileiro Rodrigues (como eu), em 1879?

P — Viajou por todos ou quase todos os continentes. Qual a importância das viagens para o seu olhar de historiador?

JAF — Áfricas, Europas, Américas, Goa, o Japão. Horizontes diversos em descoberta e entendimento possível, ao longo de 70 anos.

Vários objetos de arte africanos e uma pequena Torre Eiffel datada de 1889, o ano da Grande Exposição Universal de Paris, numa das estantes do escritório em Lisboa.


P — Qual o seu museu preferido e porquê?

JAF — Seria ingratidão não dizer o Louvre.

P — Que museu lhe falta visitar?

JAF — Tenho que ir à Tate Modern, que ainda não visitei. E entretanto visitei o Guggenheim de Bilbao, onde ainda não fora.

José-Augusto França e Marie-Therése Mandroux-França por José Guimarães (cerca de 1975).


P — Que artistas e obras nacionais mais admira?

JAF — Nacionais? O Nuno Gonçalves!

P — E a nível internacional?

JAF — Piero della Francesca e Picasso

P — Para si, quais são os grandes nomes da arte contemporânea?

JAF — Nuno Gonçalves, Piero dela Francesca e Picasso — contemporâneos da história que vamos tendo e verificando, isto é, «fazendo verdade».

P — Qual é o segredo para se conseguir apreciar e tirar prazer da arte contemporânea?

JAF — Soubera-o eu! Mas tê-lo, tenho...

P — Numa obra de arte, a que atentam primeiramente os historiadores?

JAF — Depende mais dos historiadores do que a obra. Mas melhor será que atentem primeiro na própria obra!

P — Na atualidade, a essência do objeto artístico, no que respeita a originalidade, passou a ser uma utopia?

JAF — Cada objeto artístico contém, a sua própria origem.

Quadro de Jean Miotte, anos 1960.
P — Podemos gostar de uma obra de arte sem a perceber?

JAF — Com a necessária inocência, ou a ela voltando sempre, como ensinava Almada Negreiros.

P — O valor de uma obra de arte e o seu preço são a mesma coisa?

JAF — São circuitos diferentes e circunstanciais, que nos preços têm dependência aleatória e manipulada dos mercados — entre marchands, galeristas, leiloeiros, comissários ou curadores.

P — Acha que o papel da arte se tem alterado ao longo dos tempos?

JAF — Não fundamentalmente, nas variações culturais das sociedades.

P — Em Sete Cartas a um Jovem Filósofo, Agostinho da Silva escrevia: «A vida, para a vida, é sempre longa; mas para a Arte é sempre breve, só quando não se faz nada há sempre tempo». O que representa o tempo na arte?

JAF — Vita brevis... É a arte que faz o tempo, acrescento eu, às palavras de um homem que conheci e respeitei.

P — Acha que ainda exista arte engagée?

JAF — Trata-se de uma limitação política da sua função essencialmente social. «El arte es el social» (Lorca)

P — Para si, quais são os títulos indispensáveis à biblioteca de um historiador da arte?

JAF — Fiz um programa online para a Biblioteca Nacional em 2003. Ele terminava, nos limites cronológicos estipulados, em Joaquim de Vasconcelos.

P — Porque decidiu doar, em 2004, a sua coleção de arte à Câmara Municipal de Tomar, criando o Núcleo de Arte Contemporânea — Doação José-Augusto França?

JAF — A certa altura da vida (e da idade) ou é leilão ou é doação.

P — O que podemos ver no Núcleo de Arte Contemporânea — Doação José-Augusto França?

JAF — Um conjunto de obras culturalmente coerentes que vem da prática crítica do proprietário e das suas relações de amizade e apreço com três ou quatro gerações de artistas.

P — Não lhe custou desfazer-se de determinados objetos de arte?

JAF — É natural que sim — uma meia dúzia deles, particularmente. Ou dois ou três...

P — Acredito que ainda tenha obras de arte em sua casa. Qual a obra de arte mais especial que ainda guarda em casa?

JAF — Um Bissière que vejo todos os dias, ao me deitar e ao me levantar, em Jarzé. Em Lisboa, ainda — um António Pedro de 1946 recuperado in extremis, da última mudança, que há muito andava esquecido.

António Pedro. Este quadro esteve vários anos escondido/perdido no sótão da casa do Príncipe Real, em Lisboa. Foi publicado uma única vez numa revista inglesa da Universidade de Oxford.

P — Várias gerações da vida cultural portuguesa lhe são devedoras de um património intelectual vastíssima no domínio da arte e da história. O que sente quando lhe dizem que é o grande historiador e crítico de arte português?

JAF — «O grande» é coisa que nunca há; só uns são maiores e outros mais pequenos. E, na verdade, não sou de sentir grande coisa, no meu Ego.

P — Existe alguém que considere ser o seu sucessor nesta área? Para si, quais são os outros nomes de referência na história da arte da atualidade portuguesa?

JAF — Não há, nem deve haver, sucessões. Mas refiro sempre o Prof. Vitor Serrão como o mais dotado da geração seguinte à minha, meu aluno que foi e hoje colega.

P — Está muito ligado às artes em geral. Literatura, pintura, cinema, arquitetura. Qual é a sua relação com a música?

JAF — Ocasional — e «visual». Apaixonada também, às vezes...

P — Tem algum compositor preferido?

JAF — Mozart e Mahler — é consoante. E jazz, Louis Armstrong, ainda, por exemplo.

P — O que mais o preocupa nos nossos dias?

JAF — O F.M.I. e os sunitas. E (sobretudo!) o medo! E o ódio. E, mais sobretudo, a estupidez... Eu já sabia isso de cor, dizia o Almada.

P — Falando de atualidade... o que poderá ser feito em relação à barbárie jihadista que, além de matar pessoas, arruína as obras de arte? Nomeadamente, as dezenas de esculturas de arte assíria?

JAF — Publiquei em 1955 um poema inédito de António Pedro — que sei de cor. Dois versos só: «Que de bestas, que de bestas, / Oh que de bestas, que de bestas há.» Melhor comentário não haverá, para muita coisa e muita gente.

P — E o que lhe dá mais prazer hoje em dia?

JAF — O Jardim da Estrela, quando estou em Lisboa, e Jarzé, em França, na província de Anjou.

P — Aos 92 anos, como se lida com esse sentimento tão português chamado saudade?

JAF — Não a tendo; em vez, tenho memória(s).

P — Escreveu, a propósito da exposição bibliográfica José-Augusto França 1942-2012, patente na Biblioteca Nacional de Portugal, em 2012, que «o autor prefere sempre, profissionalmente, o livro que vai escrever». Que livro vai escrever a seguir José-Augusto França?

JAF — Acho que, por divertimento (e preguiça), vou escrever um «Essencial» sobre Picasso, depois de ter escrito um Chaplin que está para sair. De momento, o meu «último» título é, na Presença, um Diálogo entre o Autor e o Crítico, de reflexão sobre os meus 15 livros de ficção.

À esquerda, uma estatueta africana oferecida por José de Guimarães. Na parede um quadro sem título (cerca de 1965) de Frans Krajcberg, pintor, escultor e artista plástico polaco, naturalizado brasileiro.

P — Atribui-se a Franz Kafka a afirmação: «quem conserva a qualidade de ver a beleza, não envelhece». É este o seu segredo?

JAF — «A beleza da vida está em viver de acordo com a sua natureza e o seu ofício» Fray Luis de León. Há muito o cito!


Abril de 2015


TPR
Eis o PRELO, um blogue temático ligado à atividade editorial.

O nome soa certamente familiar a muitos: PRELO foi o título histórico atribuído a uma publicação periódica da Imprensa Nacional, que iniciou a sua primeira série em 1972 como «revista nacional de artes gráficas», e cuja publicação foi retomada em 1983 e novamente em 2006, com a 2.ª e 3.ª séries, contando com os contributos de grandes vultos cultura portuguesa.

É essa a tradição, temporariamente interrompida, que se pretende agora recuperar — a de promover o debate intelectual em torno da cultura — mas fazendo uso dos novos canais que a tecnologia coloca à disposição da comunicação e dos seus dos intervenientes.

Os leitores do PRELO poderão contar com a publicação muito regular de novos conteúdos produzidos internamente; mas também com os frequentes contributos de personalidades de reconhecido prestígio nas respetivas áreas de atividade, e que estejam de alguma forma ligados à INCM.

Entre esses conteúdos, teremos:
  • entrevistas de fundo;
  • notícias da atualidade editorial;
  • recensões literárias;
  • opinião dos nossos autores e parceiros sobre «O papel da editora do Estado»;
  • biografias de autores publicados na INCM;
  • curiosidades ligadas à história da empresa;
  • informação acerca do Prémio de Poesia INCM | Vasco Graça Moura
Com esta nova apresentação, o PRELO constitui-se como um canal de comunicação privilegiado da INCM com o seu público, assumindo-se mais próximo e informal do que a página institucional na Internet, mas mais profundo e elaborado na abordagem dos conteúdos do que a página no Facebook; um canal que transmita o posicionamento contemporâneo da editora do Estado, e que ao mesmo tempo reforce a sua missão de serviço público.

O que desejamos para o PRELO é que venha a tornar-se uma importante referência no contexto editorial, literário e académico, por abordar conteúdos de interesse não só para a comunidade de destinatários habituais das publicações da INCM, mas também para um público cada vez mais vasto de novos leitores e simpatizantes da empresa centenária que é a Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

RAS


Numa curiosa introdução ao seu Dictionnaire bibliographique du XVe siècle, o bibliotecário jesuíta espanhol Carlos Antonio de La Serna Santander descreve o seu próprio processo de investigação da legítima autoria da arte da impressão e do engenho que pela primeira pertimiu compor complexas páginas de texto a partir de simples peças soltas devidamente organizadas e dispostas em formas:

«Os primeiros autores, ou inventores, da impressão, que provavelmente não previram quão concretamente esta feliz descoberta estava destinada a promover a difusão das letras, — e menos ainda, talvez, a honra e a celebridade que eles próprios um dia haveriam de atingir —, sempre zelaram por manter a arte em segredo, ocupando-se apenas dos seus interesses pecuniários, e de como retirar todos os lucros possíveis da sua invenção.

(...)

III. Neste trabalho irei discutir o facto de as cidades de Harlem, Mentz e Estrasburgo, apenas, reclamarem acaloradamente a honra desta invenção, e também as únicas que se gabam de poder produzir provas inequívocas para suportar as suas pretenções.

(...)

LV. Passo agora a expor, a partir das declarações das testemunhas interrogadas neste processo, que o segredo mecânico, que foi objeto da parceria acima referida, e que J. Gutenberg guardou com tanto cuidado, foi a descoberta da arte de imprimir.

LVI. Anne, mulher de Hanns Schultheiss, construtor de fagotes, declarou que Laurence Beildeck, veio uma vez a sua casa procurar Nicholas Dritzehen, seu conhecido, e que lhe disse, meu caro Claus Dritzehen, Adres Dritzehen, de boa memória, deixou quatro páginas preparadas num prelo, e Gutenberg pede que as vás remover e que as destruas, para que ninguém possa ver o que são, porque ele não quer que ninguém as veja.

LVII. Hanns Schultheiss, marido da testemunha anterior, depôs praticamente no mesmo sentido.

LVIII. Cunrad Sahspach, torneiro, declarou que Andres Heilmann, veio ter com ele um dia, na rua dos Mercadores, e disse, Cunrad, Andreas Dritzehen está morto, e como tu construiste o prelo e conheces bem este ofício, vai e tira as peças do prelo, e deixa-as cair em pedaços, para que ninguém veja o que são.

LVIX. O testemunho de Laurentz Beildeck, criado de Gutenberg, é ainda mais decisivo; ele declarou, que Johan Gutenberg o tinha enviado a casa de Claus Dritzehen, após a morte do seu irmão Andres, para lhe recomendar que fosse particularmente cuidadoso em não deixar que o prelo, que estava em sua casa, fosse visto por nenhuma pessoa, qualquer que fosse. Ele também declarou, que Gutenberg lhe tinha ordenado que fosse imediatamente ao lugar onde os prelos se encontravam, e abrisse aquele que tinha dois parafusos, para que as peças caissem em pedaços, e depois que pusesse esses pedaços dentro ou sobre a prensa; porque se tal fosse feito, ninguém seria capaz de compreender o segredo.

LX. A testemunha também declarou que sabia que Gutenberg tinha enviado o seu criado a casa de ambos os Andres [Dritzehen e Heilman] para lhes pedir todas as formas que haviam sido baixadas na sua presença, porque havia algumas correções a fazer. Visto que após a morte de Andres um grande número de pessoas tinha mostrado curiosidade em ver o prelo, Gutenberg tinha enviado o seu criado muitas vezes baixá-lo, para que ele não ficasse visível.

LXI. Finalmente, Hanns Dünne, ourives, disse que cerca de três anos antes havia recebido de Gutenberg cerca de 100 florins, para pagamento de artigos necessários na arte da impressão.

LXII. Estes depoimentos mostram-nos tão claramente e precisamente os primeiros revezes da ascendente arte da impressão, inventada pelo feliz génio de Johann Gutenberg, que ninguém, julgo, pode razoavelmente alimentar quaisquer dúvidas sobre a matéria.

LXIII. Na verdade pode dizer-se que a opinião dos bibliógrafos não se divide a este respeito; é admitido sem hesitação que aqui se fala da arte de imprimir, mas que a questão em discussão é se Johann Gutenberg utilizou, nos seus trabalhos, carateres fixos em blocos de madeira, ou letras separadas. Muitos crêem, e com bons fundamentos, que imprimir com letras separadas, não importa de que material, é que é o objeto destes depoimentos; e esta opinião, não obstante as objeções que lhe têm sido levantadas, é certamente suportada por argumentos fortes.

LXIV. De facto, as declarações destas testemunhas parecem provar, que não é da imprensão com blocos inteiros, mas da verdadeira arte tipográfica, a impressão propriamente dita, nomeadamente com letras ou tipos separados, que aqui se trata. (...) Se as páginas tivessem sido formadas por blocos inteiros, como é que poderiam desfazer-se em peças, ou ficado desarrumadas em letras separadas assim que se abrisse o prelo? Além disso, que vantagem haveria em colocá-las sobre o prelo para melhor guardar o segredo? (...) especialmente, quando a arte de imprimir imagens, com frases e exlicações a partir da gravação num único bloco de madeira já era conhecida há muito na Alemanha (...).»
in Charles Antoine de La Serna Santander,
«An historical essay on the origin of printing» (ed. inglesa).
Newcastle: S. Hodgson. 1819.
(traduzido do inglês por PRELO/RAS)



Duas xilogravuras do séc. XVI, representando o prelo de Jocodus Badius (ou Badius Ascensius), impressor de origem holandesa, cuja oficina, famosa em Paris, ficou conhecida por «Prelum Ascensianum».

PRELO - Máquina primitiva de impressão manual usada durante muitos anos pelos impressores, antes da invenção das máquinas cilíndricas. Praelo. Praelum. Prensa.

PRELO MANUAL - No início designava um prensa manual na qual eram usados blocos aquecidos para estampar escudos de armas em ambas as pastas das encadernações em pele que, por esse motivo, tomavam o nome de armoriadas; estas prensas eram adaptáveis a toda a espécie de blocos e são ainda hoje usadas para cópias singulares e pequenas tiragens.
Prelo primitivo, inteiramente construído em madeira, no qual a pressão é obtida à mão apertando uma rosca; subsisitu quase sem alterações até finais do século XVIII; em 1807 Stanhope criou o primeiro prelo metálico e por volta de 1840 começaram a surgir os prelos accionados a vapor. Prelo holandês.
Prensa tipográfica.

in Dicionário do Livro. Da escrita ao livro eletrónico,
M. Isabel Faria, M. da Graça Pericão. Coimbra, Almedina, 2008
https://drive.google.com/drive/folders/0B1TJkxizP5WuflEwc1djRUV3TEluY283OWVuYzE2YzRISG1ELTJPdmwxbm9LRFRMcjdqWnc

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