Luís Derouet, o primeiro Diretor-Geral da Imprensa Nacional após a Proclamação da República

A figura de Luís Carlos Guedes Derouet (1880-1927) está incontornavelmente ligada à história da Imprensa Nacional. 

Nomeado pelo Governo Provisório no próprio dia 5 de Outubro de 1910, tomou posse no dia seguinte e manteve-se no cargo até 31 de Outubro de 1927.

Filho de Júlio Derouet e de Sofia Guedes, nasceu em Lisboa, na freguesia de Santa Isabel, em 19 de Abril de 1880. Estudou no Liceu do Carmo e fez na Escola Politécnica os preparativos para a Escola Médica, não tendo concluído o curso de medicina por entretanto se ter dedicado ao jornalismo. Casou com Clementina Porto e dela teve uma única filha, Maria Luísa Porto Derouet.

Republicano convicto, como jornalista colaborou nos jornais A Cabra (1893), Actualidade, Barricada, A Vanguarda (que fundou em 1897), A Pátria, O Mundo (que também fundou), A Manhã (1917), Diário da Tarde e Diário de Lisboa, entre outros. É ainda autor do livro Duas Pátrias, compilação de crónicas enviadas para o jornal O Mundo, quando da visita que fez ao Brasil, em 1922, acompanhando o Presidente da República, António José de Almeida.

Em 1902 concorreu para revisor da Imprensa Nacional e ingressou nos quadros da empresa como revisor de 1.ª classe, categoria que mantinha quando em 6 de Outubro de 1910 tomou posse do cargo de Administrador-Geral (a partir de 1913 chamado de Diretor-Geral).

Enquanto se manteve à frente da instituição, teve sempre, para além do cuidado com a boa gestão da casa, a preocupação com o desenvolvimento cultural e a melhoria das condições de vida do seu pessoal.

Logo em 1911 participou ativamente na Reforma Ortográfica.

Com os numerosos livros que se achavam encaixotados desde que o antigo edifício dera lugar ao actual, inaugurou em 3 de Outubro de 1923, na presença do então Presidente da República, António José de Almeida, a sala da Biblioteca.

Com Luís Derouet se iniciou a tradição — recentemente retomada — de organizar eventos públicos de cariz cultural na Biblioteca, com a promoção de diversas exposições, a última das quais, a 1.ª Exposição Internacional de Ex-Libris, deveria encerrar no dia 1 de Novembro de 1927.

Mas na véspera, ao sair da Imprensa Nacional, Luís Derouet foi atingido por três tiros desfechados por Manuel Pinto, um tipógrafo desempregado, preso na ocasião. Levado para o Hospital de São José ainda foi operado, mas não resistiu, morrendo no dia seguinte, 1 de Novembro de 1927. O seu funeral, que saiu no dia 3 das instalações da Imprensa Nacional para a Cemitério dos Prazeres, foi uma sentida homenagem de todo e pessoal e dos numerosos amigos que, nas palavras do Dr. Tomás de Mello Breyner, perdiam um «bom e leal amigo, que atravessou a vida amando a família com ternura, servindo o País com valor, querendo bem aos amigos sem prejudicar o próximo e praticando o bem tantas vezes.»

O busto de bronze que se encontra no átrio da Imprensa Nacional, foi inaugurado em 26 de Maio de 1928 e nesse mesmo ano foi publicada a obra À Memória de Luís Derouet: Palavras Justas, da iniciativa da Cooperativa do Pessoal da Imprensa Nacional de Lisboa, A Pensionista.

A obra social e cultural de Luís Derouet na Imprensa Nacional foi vasta:

1911
> 1.ª Exposição de trabalhos artísticos executados pelo pessoal 
> Primeiras visitas dos aprendizes da Escola profissional da IN a estabelecimentos públicos e privados com interesse para a sua educação profissional e artística, que perduraram até 1916:
  • Casa da Moeda
  • Jornal O Século
  • Biblioteca Nacional
  • Laboratório de Química da Faculdade de Ciências
  • Litografia Portugal
  • Escola Afonso Domingues
  • Igreja da Madre de Deus e Asilo Maria Pia
  • Jardim Zoológico
  • Fábrica de Papel da Abelheira
  • Manutenção Militar
  • Exposição de Aguarela, Desenho e Miniatura na Sociedade Nacional de Belas Artes 
1912
> Inauguração do balneário e do refeitório da IN
> Concurso para elaboração de uma «memória histórica» sobre a IN, sendo premiada a monografia da autoria de José Silvestre Ribeiro, Imprensa Nacional: subsídios para a sua história (1768-1912)
> Início das conferências aos Domingos, na sala de composição tipográfica, abertas ao pessoal e ao público em geral, versando temas de «vulgarização científica e artística». Publicadas:
  • Aspetos da Tipografia em Portugal, por Norberto Araújo (1913)
  • Democratização da Arte, por Norberto Araújo (1914)
  • Camilo Castelo Branco: sua vida e sua obra, por Oldemiro César (1914)
1913
> Festa de homenagem ao pessoal da IN com 50 ou mais anos de casa
> 1.ª Exposição Nacional de Artes Gráficas na IN

1914
>
Participação da IN na Exposição Internacional da Indústria do Livro e das Artes Gráficas, em Leipzig

1915
> Cooperativa a Pensionista

1918 
> Caixa de Auxílio a Viúvas e Órfãos

1923
> Previdência Mútua
> Inauguração da Biblioteca da IN

1924
> Exposição Camoneana, na Biblioteca

1925
>
Exposição Comemorativa do 4.º Centenário de Vasco da Gama, na Biblioteca

1926
> Exposição de encadernações feitas pelo pessoal da casa

1927
> 1.ª Exposição Internacional de Ex-Libris, na Biblioteca

MJG

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