(continuação da 1.ª parte)

PROUST, CAMUS E CAMILO 

Prelo — Escreveu, feitas todas as contas e se não me engano, mais de 30 obras, entre a ficção, o ensaio, a biografia, a história do Benfica. Tem algum terreno preferido?

AMF — Não consigo. Não consigo escolher. Não consigo efetivamente escolher.

Bom, evidentemente que eu tenho um terreno preferido que, se quiser, era aquele em que eu gostaria de ser excelente, que é poesia. Como não sou excelente, só publiquei dois livrinhos pequeninos e não publicarei mais poesia até ao fim da minha vida.

P — Nunca diga nunca!

AMF — Eu não publicarei! Vão cá ficar centenas. Mas eu não publicarei mais poesia, porque a poesia, de facto, é a ficção suprema, como dizia o Wallace Stevens. Mas, para além disso, a poesia deve ser a expressão mais concisa da verdade das coisas. Para isso, há meia dúzia deles que já o fizeram genialmente. E, por muito que se tente, nada daquilo que eu escrevo em poesia, para mim, tem essa dimensão do que esses enormes poetas — Paul Celan, Wallace Stevens ou, lá mais para trás, poetas até mais antigos, de outros séculos… — coisas que fizeram que são absolutamente... É impossível dizer melhor aquelas ou outras coisas com a mesma intensidade.

De resto, não. Eu passo do ensaio à ficção — porque, hoje em dia, praticamente já não escrevo crónica jornalística — e, portanto, ando entre a ficção e o ensaio. Gosto muito da ficção. Se calhar, tenho um pouco a sensação de que tudo aquilo que acumulei ao longo da vida, consigo exprimi-lo melhor através do ensaio do que através da própria ficção.

P — Publicou há pouquíssimo tempo Hotel Locarno. Fale-nos um pouco desta obra.

AMF — Hotel Locarno é o nome do meu hotel preferido em Roma. Há uns anos tive a ideia de que queria escrever um livro de contos. Tinha uma série de contos. Eu demoro 20 anos a escrever um livro de contos: escrevo um; 3 anos depois escrevo outro; começo 7; depois, com os anos, tenho 14 começados,... E depois, de repente, dá-me uma coisinha má (ou boa?), e em 3-4 meses digo: «É este, é este, e vou acabar este...» Porque, normalmente, andei durante tantos anos a pensar naquilo, que já tenho dentro da cabeça a construção. Só falta escrever. Escreve-se e pronto! A coisa engraçada é que sempre pensei neste tipo de contos — e quando digo «sempre» digo para aí há uns 15 anos que pensava nisto —, Hotel Locarno, e queria escrever um conto situado no Hotel Locarno; era uma ação que se passava no Hotel Locarno, que era a paixão demencial de um poeta Italiano, Gabriel D'Anunzzio, por uma grande estrela do cinema mudo italiano, chamada Eleonora Duse. E depois um dia disse: OK! Então, vamos lá escrever esta história. Comecei a investigar, a ler coisas, e descobri que o Hotel Locarno abriu no ano seguinte à morte de Eleonora Duse. E a desilusão foi tão grande! Porque isto não impedia, em ficção, de mesmo assim situar a história no Hotel Locarno. O que é que interessa? Está bem, não era este Hotel Locarno, era um outro. Mas a desilusão foi tão grande! Porque durante tantos anos eu tinha andado a pensar naquela cena, naquela paixão dos dois, para situar naquele hotel, que eu conheço bem. Portanto, sabia o que é que se situava no largo, o que se situava na terraza lá de cima, da qual se vê a Piazza del Popolo... ou do outro lado, de onde se vê a cúpula de São Pedro...Todo o espaço da representação da história estava na minha cabeça. A desilusão foi tão grande, que deixei de lado. Não consegui escrevê-lo. Mas mantive o título do livro. Portanto, o livro chama-se Hotel Locarno, e não há lá nenhuma história chamada «Hotel Locarno». Eu explico isso numa nota final com esta história, a dizer: achei que era uma falta de respeito pelo Hotel Locarno agora retirar o título, só porque eu não consegui lá meter uma história. Paciência! Não consegui a história, mas fica o título do livro. O livro chama-se Hotel Locarno e tem 13 contos, escritos ao longo dos anos.
e tinha aberto no computador uma pasta que diz «Hotel Locarno». E eu queria escrever este livro chamado

P — Recebeu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, em 2002, pelo livro de contos A Expressão dos Afetos. Qual a importância dos prémios na carreira de um escritor?

AMF — Não lhe posso responder genericamente. Não sei que importância tem para os escritores. Para mim, pessoalmente, tem uma enorme importância, porque foi o reconhecimento feito por críticos, pelos meus pares, escritores também, e isso foi um estímulo. O Prémio, quando não é venal — e esse não é; já não me lembro de quanto é que foi, na altura, para aí cinco mil euros; não é com isso que se enriquece nem que se profissionaliza um escritor —, o que é importante é o reconhecimento. É a sensação de que não se está a falar no deserto, sozinho. Que há um eco. Para lá dos exemplares do livro que se vendem, há um eco. Um prémio representa um eco. Há um conjunto de pessoas que acham que aquele livro foi, naquele ano, o melhor livro de contos que se publicou, neste caso em Portugal. E isso é extremamente importante. Teve para mim dois aspetos interessantes. Um deles foi o reconhecimento e o estímulo. O outro foi bloqueador. O Hotel Locarno é o meu primeiro livro de contos, depois desse, de há 13 anos para cá. Tem um efeito bloqueador. Ou seja, tem-se a noção de que o nível de expectativa criado com aquela obra exige muito mais de nós do que provavelmente aquilo que antes exigia. O efeito que eu diria mais importante é um efeito altamente positivo, é um efeito altamente motivador: receber um grande prémio, e sobretudo receber um grande prémio com o nome de Camilo Castelo Branco, isso é uma alegria enorme!

P — Tem algum escritor português que ame? Ou de que goste muito?

AMF — Mais que um. Camilo Castelo Branco, absolutamente! Esse «amo», para distinguir entre o «amar» e o «gostar muito» (risos); «gosto muito» de Eça, mas «amo» Camilo. É diferente. É outra coisa.


Adoro Jorge de Sena, que acho um escritor assombroso. Acho os Sinais de Fogo o grande romance incompleto do século XX.

P — Ia pedir-lhe três obras portuguesas intemporais, excecionais.

AMF — Os Sinais de Fogo, do Jorge de Sena, absolutamente. Em certa medida, o final do romance do século XIX em Portugal é um romance de Vitorino Nemésio chamado Mau Tempo no Canal, que é uma obra superior, também. Mas é uma obra superior de feitura mais tradicional. É um romance do século XIX escrito no século XX. Admiravelmente escrito. É um livro fantástico. Onde Está a Felicidade, do Camilo, que é das obras maiores da literatura portuguesa. Mas, começo a dizer Onde Está a Felicidade, e vêm todos: vem o Amor de Perdição, que é extraordinário. E vem O Demónio do Ouro, que é uma coisa formidável. E depois vem tudo, até A Queda dum Anjo é incrível. É difícil escolher porque, na realidade, Camilo foi um asteroide, um meteoro que caiu sobre a literatura portuguesa e é, a muitos títulos, um escritor inclassificável. É um escritor incaptável. Isto que eu vou dizer é aproximativo, é uma imagem: eu tenho sempre a sensação de que, se eu quisesse, perceberia tudo o que o Eça de Queirós quis dizer. Tenho a sensação de que, mesmo que quisesse, nunca conseguiria perceber tudo o que o Camilo Castelo Branco quis dizer. Porque o Camilo joga com uma outra dimensão, que é a dimensão mais profunda da alma humana. Uma espécie de emoção subterrânea. É a emoção da qual nós não sabemos dizer o nome. E é uma coisa incrível! Porque, de repente está-se a ler o Camilo, e descobre-se uma identificação... Uma história de raparigas raptadas nas margens do Douro, e de repente o leitor está lá dentro. E está lá dentro a identificar-se com as personagens que acabam de acender nele uma luz que ele não sabia que tinha dentro de si. É um... É um santo das almas, Camilo. E é um santo das almas portuguesas, ainda por cima! Nesse aspeto compreendo que Camilo não seja um escritor muito universal. Porque há uma corda que vibra em Camilo que é absolutamente portuguesa. Retintamente portuguesa.

P — Publicou na INCM O Essencial sobre Proust e Camus, foi uma proposta sua?

AMF — E está ai outro para sair, sobre Dom Quixote.

P — Foram propostas suas, o Proust e o Camus?

AMF — Foram. Tanto um como o outro. Exatamente. O Proust, falei com o Diretor Editorial e chamei-lhe a atenção para o facto de que em 2013 passavam 100 anos sobre a edição do primeiro volume do À la recherche du temps perdu [Em Busca do Tempo Perdido], de Proust. E disse-lhe: «Acho que não podes deixar passar isto.» Entretanto, tinha havido uma inflexão percetível na coleção Essencial. É que a coleção tinha mudado de grafismo, tinha mudado de formato, e tinha mudado, parecia-me também, de orientação num sentido que eu considero muito positivo — tinha saído, finalmente, um livro sobre um autor estrangeiro, Shakespeare, com texto do Prof. Mário Avelar. Um livro excelente, um livro de introdução a Shakespeare, absolutamente magnífico! E eu disse: «Ah, mas até que enfim que há aqui uma aberta. Então já posso lá meter... ou propor, pelo menos.» E propus de facto isso. A proposta foi aceite. Fiz o Proust e depois disse: «Bom, e aqui há um pequeno problema: é que depois há o centenário de Camus, e não se pode deixar passar o centenário de Camus.» E o Diretor Editorial, na sua infinita generosidade e abertura de espírito, disse-me: «Bem, está bem. Então Camus, pronto.» E eu fiz esses dois Essenciais, e foi algo que me deu um enorme prazer fazer. 

P — E muito brevemente, o que é essencial saber sobre Proust?

AMF — O essencial a saber sobre Proust, é que Proust foi o único escritor que escreveu um romance sobre o tempo.



P — E sobre Camus?

AMF — E sobre Camus o essencial talvez seja dizer que, em todas a circunstâncias da vida, nunca deixou de defender o direito do mais fraco à liberdade.


P — Para si qual é o magnum opus de Camus e de Proust?

AMF — De Proust, é a obra inteira. São os sete volumes da Recherche. E de Albert Camus, acho que é O Estrangeiro, francamente. É um dos livros da minha vida, e um dos livros que eu leio e releio continuamente. Já não sei quantas vezes li O Estrangeiro, e acho que é o livro de Albert Camus.

P — Leu o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido com 20 anos...

AMF — 21-22 anos, sim.

P — Os outros foi «lendo que à medida que a vida, a curiosidade ou alguns interesses particulares lhe pediam, sem ordem ou um programa definidos». É difícil entrar-se no universo de Proust?

AMF — Não é fácil. Admito que não é fácil. E muitas vezes entrar no universo de Proust requer uma aprendizagem que demora décadas. Acho que foi isso que me aconteceu. Eu li, de facto, o primeiro volume do Proust, Du coté de chez Swann tinha 22 anos — e sei isso porque no meu primeiro volume continuo a conservar o bilhete de comboio da linha de Sintra de 1971, portanto, eu tinha 22 anos — e li nessa altura o primeiro volume. E depois passaram anos até ler o segundo, À l'ombre des jeunes filles en fleur. Depois dei um salto e fui ao sétimo, ao último, para ver como é que aquilo tudo acabava, Le temps retrouvé. E depois andei um bocado aos saltos, e durante muitos anos nem sequer tinha lido o sexto volume, que era Albertine disparue. Tinha lido os outros todos aos saltos, Sodoma e Gomorra, Le coté de Guermentes,... mas não tinha lido esse. E depois, um dia, disse: «Não! Há aqui uma coisa que eu tenho absolutamente que fazer.» Que era aquilo que o Proust dizia: o Proust insistia muito que o livro dele não podia ser lido aos bocados. Tinha que se lido de fio a pavio. Um romance deve ser lido de fio a pavio. Fui dizendo «OK... há de ficar para mais tarde...», e depois houve um dia em que eu disse: Não, não é mais tarde, é agora!

P — E foi a eito?

AMF — Foi talvez há uns 7-8 anos, em que foi de um lado a outro. E quando acabei a última página... (pausa) descobri que era outro! Descobri que era outro. Como leitor, eu tinha mudado. Ao ler aquele livro de um lado a outro, como ele deve ser lido, de uma ponta à outra, eu tinha descoberto subitamente que... Tinha descoberto imensos erros na minha vida. Na minha vida de leitor. Tinha descoberto: «A, mas porque é que perdeste tanto tempo a ler isto, aquilo e aqueloutro? Estava tudo aqui! E tu tiveste isto na estante estes anos todos» e não aproveitei. Mas penso que recuperei. Já o li segunda vez de um lado ao outro. Depois da primeira, já o li segunda vez.

Marcel Proust fotografado por Otto Wegener (1895)


P — A propósito de Albertine disparue, que foi originalmente intitulado La fugitive, o Proust escrevia: «Não podemos ler um romance sem emprestar à heroína os traços daquela a quem amamos.» Enquanto leitor, este exercício faz-lhe sentido?

AMF — Enquanto leitor do Proust, não. Os traços que ele emprestou a Albertine eram os de um homem, que era o motorista dele, Agostinelli, que ele transfigurou como uma mulher. E quase de certeza que projetou, na personagem da mulher que ele cria, traços do Agostinelli, que era uma paixão assolapada do Proust. O Proust fervia em pouca água, do ponto de vista afetivo. Tinha umas paixões extraordinárias. O Agostinelli foi uma paixão que durou seis meses. Não exageremos. Ao que parece sequer correspondida, fisicamente, porque o Agostinelli não era dessas praias. Era de outras: tinha mulher, que vivia, aliás em casa do Proust, com ele também, tudo aquilo era uma enorme confusão!

Portanto, eu acho que todo o grande escritor transfigura, magnificando, o mínimo pormenor da vida comezinha de todos os dias. E isso é que faz o grande escritor. Faz agigantar tudo! A paixão pelo Agostinelli, vamos adimitir isso, tem eco, pelo menos, em dois volumes completos do romance dele. Mas começa lá atrás. Porque o Proust não escreveu de seguida. Ele queria que a gente o lesse de seguida, mas ele escreveu para trás e para diante. Escrevia em dois ou três volumes ao mesmo tempo. Nesse livrinho de O Essencial [sobre Proust], encontrei uma imagem, que é a imagem de um organista, que toca em diversos teclados, e toca ao mesmo tempo. E o Proust escreve exatamente assim: escreve aqui, depois dizia lá à governanta «Traz-me aí aquele caderno...», que era uma coisa que depois foi parar ao terceiro volume. Ele escrevia ali mais um bocado, e depois voava para outro. Na realidade, todo o grande escritor transfigura...

P — ... um certo ressoar biográfico para aquilo que escreve?

AMF — ... de forma que aquilo aparece, efetivamente, magnificado, engrandecido.

P — O escritor António Mega Ferreira também faz isso?

AMF — Modestamente... Eu não sou um grande escritor. Eu disse um grande escritor faz isso. (Risos.)

P — Mas também faz?


AMF — Tento fazer. Qualquer escritor tenta fazer isso. Tento fazer isso, provavelmente sem sucesso, mas não sou o melhor juiz para avaliar... Mas, claro, transformar um episódio... pegar num episódio e começar... Por exemplo, neste livro de contos que saiu, há uma série de contos que são episódios. Pegar em episódios aparentemente indiferentes e dar àquilo a dimensão de uma narrativa — ainda que uma curta narrativa, como é o conto — é uma tentativa de transfigurar e magnificar o real. Quer seja uma coisa que nos tenha acontecido, quer seja uma coisa que tenha acontecido a outros, ou tenha visto, ou que tenha observado, um pormenor... Todo o escritor quer fazer isso. Quer fazê-lo magnificamente. Mas só muito poucos é que conseguem fazê-lo. Como Proust.


P — O «homem absurdo» de Camus é o que enfrenta lucidamente a condição — e a humanidade — absurda. A luta em si é suficiente para preencher o coração do homem, António Mega Ferreira? Consegue imaginar Sísifo feliz?

AMF — Consigo imaginar Sísifo feliz, claro. A luta pode, em certas condições, preencher completamente o coração do homem. Há exemplos históricos extraordinários. Ghandi, por exemplo. Não tenho qualquer dúvida de que o coração de Ghandi ficou completamente preenchido por aquilo que ele fez toda a vida, que foi apenas lutar. Nunca se soube muito bem qual era o programa político de Ghandi. Ainda hoje não se sabe. Ghandi é assim uma entidade...

Portanto, eu acho que é possível imaginar Sísifo feliz. Aliás, nesse ensaio o Camus recorda o mito de Sísifo, que é de facto extraordinário, que é aquela ideia fantástica de que um homem, Sísifo, empurra o rochedo por uma montanha acima, e quando chega ao topo da montanha, sistematicamente, o rochedo vem por ali abaixo. E Sísifo desce, e volta a empurrar, e assim sucessivamente. É possível imaginar Sísifo feliz quando vem a descer da montanha, é o que diz Camus nesse ensaio. É quando ele vem a descer que ele se apercebe da necessidade, do imperativo de continuar a empurrar o rochedo para o alto da montanha, embora sabendo que o rochedo há de rolar, de novo, até cá abaixo.

É! É possível imaginar Sísifo feliz.


A NECESSIDADE DO REFORÇO DE UM PENSAMENTO CRÍTICO

P — De facto, entre as melhores manifestações de consciência crítica do século XX, a presença de Camus é certamente uma das mais generosas. Como pensador, que peso dá à filosofia de Albert Camus?

AMF — A lição fundamental de Camus foi, num tempo em que tanta gente tinha tantas certezas, ele não tinha certeza nenhuma. Quando hoje se lê Camus, sobretudo o seu ensaísmo — estou a pensar em L'homme révolté, do ponto de vista ensaístico, para mim o livro maior de Albert Camus — o que é extraordinário é que, com um estilo muito afirmativo, que é o estilo dos moralistas franceses do século XVIII — ele é um moralista francês do século XX, no sentido literário do termo — com o estilo de um Saint-Simon, por exemplo, ele é muito afirmativo da dúvida. O que ele faz com esta certeza absoluta é dizer-nos que não há nada mais certo do que a dúvida.

P — E acha que é necessário um reforço do pensamento crítico neste momento de crise económica e social em que vivemos? 

AMF — Penso que a existência, a afirmação e o reforço do pensamento crítico é um imperativo de qualquer tempo. Nenhuma sociedade efetivamente evolui sem uma pensée critique, sem um grupo — quando digo um grupo, pode ser um grupo de pessoas, um grupo de pensadores, um grupo de pensamentos, ponhamos a coisa assim — que efetivamente coloquem em causa a sociedade. Sobretudo aquilo a que se chama claramente a doxa, o pensamento dominante. Há sempre em todas as alturas sociais um pensamento dominante. Por exemplo, hoje em dia o pensamento dominante é que todas as atividades, inclusivamente as não lucrativas, devem gerar lucro. Este é o pensamento dominante. É conveniente...


P — Vivemos no tempo do capitalismo.

AMF — É o capitalismo no seu pior. Não é o capitalismo! O capitalismo não é exatamente isto. Isto é o capitalismo na sua versão mais rasteira, aprendida em MBA de universidades neo-capitalistas e neo-liberais. Isto é ensinado como pensamento dominante. E, portanto, já há quem pergunte: «Então, mas a reedição do livro "tal"...?» Não estou a referir-me à Imprensa Nacional, não sei o que é que se passa aqui. Mas sei de instituições onde se pensa: «Sim, mas o lançamento do curso "tal", que lucro é que isso vai dar?»

P — Fala-se, aliás, de se encerrar determinado cursos.

AMF — Claro! Porque não dão lucro.

P — E com o argumento de que não dão saída.

AMF — É interessante, provavelmente faz sentido que uma instituição encerre determinados cursos ou determinadas atividades se não tem frequência, se não tem procura. Se não tem procura é porque a oferta é desajustada. Isso é uma questão de organização empresarial — ajustar a oferta à procura que existe. Se não há procura para determinadas coisas, não se pode continuar a oferecer coisas que não são procuradas por ninguém ou são procuradas, numa sociedade de dez milhões de habitantes, por três pessoas. Desculpem, mas de facto ninguém é obrigado a estar a suportar uma coisa que é procurada por três pessoas apenas. Mas não é isso que está em causa. Porque hoje em dia estamos num grau superior de luta. É a necessidade de cada coisa, casuisticamente, gerar lucro. Que é uma ideia «pedestre», completamente. Porque, na realidade, a gestão de uma oferta cultural, por exemplo — é nisso que estou a pensar desde o início — faz-se, não por uma quantificação casuística do lucro, mas pela ponderação global do lucro da oferta. Assim, por exemplo, é perfeitamente admissível em atividades culturais que haja umas coisas que dão lucro que pagam as outras que não dão lucro. Isto é corrente. Enfim, não é o pensamento dominante neste momento. Neste momento, o pensamento dominante nas sociedades em que vivemos — na sociedade portuguesa, claramente — é o lucro. Tudo deve estar orientado para o lucro! Para voltarmos à história do pensamento crítico, o que é essencial é uma crítica sistemática deste pensamento. É pôr em causa isto. E não pô-lo em causa a agitar bandeiras. Pô-lo em causa com argumentos. E os argumentos históricos são esmagadores! Eu lembro-me de um debate em que estava, aqui há uns anos — uma organização de intelectuais de direita convidou-me, como uma pessoa de esquerda, para participar num debate com eles. E eu fui. Hesitei bastante, e depois disse: «Why not?» Então fui lá. A certa altura houve uma coisa hilariante que era quando um deles dizia: «Porque o Estado não tem nada que apoiar a cultura! A cultura deve sobreviver pelo livre jogo das forças do mercado!... Alguma vez o Bach recebeu subsídios?!» Eu interrompi e disse: «Ó meu amigo! O Bach não produziu uma única peça que não lhe fosse paga! Ele era Kapellmeister. Ele era um "empregado" dos príncipes alemães, por onde andou, Dresden, Leipzig, etc… Você escolheu o pior dos exemplos. Não há uma peça do Bach que não tenha sido comprada. Paga pelo Estado.» Ao que me respondeu: «Não, o Estado não existia!» E eu disse-lhe: «Ó meu amigo, não existia? Existia! Existiam era muitos estados. Mas aquilo a que nós hoje chamamos Estado era um príncipe. Eram os príncipes que pagavam ao Bach, e que pagaram toda a vida.» E a cultura fez-se, durante séculos, estritamente assim! Sem mercado.

P — Fala-se muito em «políticas culturais», ou deveria falar-se... Acha que a cultura se submete à política?

AMF — Não. Eu acho que a política é um departamento da cultura. Acho que a visão política, as opções políticas devem obedecer a uma visão cultural. E a visão cultural o que é? É uma visão da sociedade. É tão simples como isto. A visão cultural não é mais do que uma visão da sociedade. Mas é uma visão consequente, articulada, coerente do que é a sociedade, do que são as pessoas, de para onde vai a sociedade. E depois vêm as opções políticas que são: para onde deve ir a sociedade. A direção para onde se vai é a opção política. Aquilo que é, é de facto a visão cultural. Toda a opção política deve obedecer a uma visão cultural.



ENTRE A GESTÃO CULTURAL E A ELEVAÇÃO DO NOME DE PORTUGAL

P — Dirigiu a participação de Portugal como país-tema da Feira do Livro de Frankfurt em 1997. Acha que esta feira influenciou a Academia para atribuir o Nobel a José Saramago?

AMF — Yes. E não digo mais sobre isso.

P — Em 1987, criou a revista LER, que é uma revista literária. Foi um dos colaboradores permanentes da revista Egoísta. Os movimentos literários fazem muitas vezes das revistas literárias os seus porta-vozes. Estou a recordar-me da importância do Orpheu e o Portugal Futurista, para o nosso primeiro modernismo, a Presença para o segundo, Vértice para o neo-realismo, Prisma para o surrealismo… Aliás, a publicação da INCM Revistas Literárias do Século XX em Portugal (1985) continua a ser uma obra de referência neste campo… Acha que as revistas literárias ainda desempenham este papel?

AMF — Não. Não, de todo. Nem em Portugal nem nos outros países. Repare, por exemplo, há bocado falámos do Camus. O Camus tem uma polémica célebre com o Sartre, quando se zangam, que é uma das grandes polémicas ideológicas das segunda metade do século XX, que é toda ela feita através das páginas de uma revista, Les temps modernes, em que o Sartre... Bom, quem mandava era o Sartre. Só que disfarçava. Mandava uns assistentes escrever os artigos contra o Camus. Ele nunca escreveu contra o Camus, mesmo. O Camus é que escrevia contra ele. Mas [a polémica] processou-se toda nas páginas de Les temps modernes. As revistas literárias tinham, de facto, esse papel. E tinham esse peso. Hoje em dia, estou a pensar nas revistas literárias francesas, na sua maior parte são magazines: Le magazine littéraire, a Lire, Books, são mais magazines do que revistas literárias. As revistas literárias que existem, por exemplo em França — é o país da Europa onde existem mais revistas literárias; em França e na Alemanha é onde existem mais — as revistas literárias que existem têm já uma participação na sociedade, na vida cultural, na vida intelectual, na via das ideias da sociedade que é hoje bastante reduzida. Mas também o papel do intelectual na sociedade mudou muito nos últimos 50 anos. O intelectual era uma espécie de referência da sociedade.

Hoje em dia, o intelectual não é nada. É um intelectual, pronto. Mas não se pode dizer que os intelectuais sejam referências da sociedade; figuras nas quais as pessoas se revejam. Com certeza, haverá umas pessoas que se reveem neste escritor ou neste intelectual, mas esse peso... Repare uma coisa que é interessante. Quando eu fazia jornalismo — estou a pensar em 1982 — o Grande Prémio do Romance e da Novela da APE era todos os anos anunciado nas primeiras páginas de todos os jornais. No dia em que saía, era a notícia do Telejornal da RTP1. E havia todo um build-up, uma construção de expectativa nos dias anteriores — fala-se neste nome, naquele, no outro,...E isto ocupava os jornalistas e as páginas de jornais. Hoje em dia o Grande Prémio da APE sai nas páginas interiores do jornal. Quando muito, uma chamada na capa. Uma chamada: «Zé Maria Pincel ganhou Prémio da APE.» Tumba! Lá para dentro, que não interessa nada. Depois lá dentro, lá vem uma notícia que, normalmente, é uma biografia que a Lusa põe online. Exceto, obviamente, o JL [Jornal de Letras e Ideias] que faz esse trabalho mais de enquadramento, de resto não há. E isto é um bom sinal, é uma boa medida da transformação que houve do papel da arte, da cultura e, por extensão, dos intelectuais e dos criadores, na sociedade, como referência. Deixaram, efetivamente, de ser referências da sociedade. Hoje em dia, as referências da sociedade são os «famosos». Não há, entre os famosos, um único intelectual. Bem pelo contrário, aliás. Quanto menos intelectuais, mais famosos são. A própria ideia de «famosos» é extraordinária. Famosos eram, há 30-40 anos, as grandes figuras, fossem da cultura, ou da política, ou da ciência. Os famosos era as pessoas, de facto... As glórias da sociedade. Isso acabou. Hoje em dia os famosos são as figuras mediáticas.

P — À frente do CCB criou iniciativas de cariz literário (as comemorações do Dia Mundial da Poesia, os ciclos de colóquios sobre escritores, as homenagens, as maratonas de leitura, os Dias dedicados a certos autores: Tolstoi, Kafka, Vitorino Nemésio, Tabucchi, etc.) e agora à frente da Metropolitana existe uma parceria com a INCM. Que vantagem traz esta ligação?

AMF — Qualquer ligação da associação da Metropolitana — normalmente as pessoas acham que a Metropolitana é a orquestra, mas não… a Metropolitana é uma orquestra e três escolas de música, com trezentos e muitos estudantes que todos os dias estudam música dos diversos níveis dentro do mesmo edifício, em que noutra sala está a orquestra a ensaiar. Portanto, qualquer ligação entre uma associação como a Metropolitana e outras instituições culturais de prestígio é uma ligação win-win, é ganhadora para ambas as instituições. Do ponto de vista da Metropolitana, obviamente que associarmo-nos a uma instituição cultural com o peso a dimensão e a história da INCM é altamente lisonjeiro. E que a INCM nos tenha escolhido como parceiro para a música, para nós é altamente significativo: a Imprensa Nacional tem quase 250 anos de história a Metropolitana tem 22.

P — Qual é a sua relação com a música?

AMF — A música é uma parte importantíssima da minha vida. Infelizmente não toco um único instrumento de música. Eu diria que depois da literatura é a parte mais importante dos meus interesses culturais. Em adolescente, era o cinema — e ainda continua a ser muito interessante para mim — mas atualmente, importante, fundamental é a literatura e a música.

P — Tem noção de que para a maioria dos portugueses o António Mega Ferreira é o «pai da EXPO ’98»…

AMF — Ah, mas não sou! Não sou nada o pai. Vá chamar pai a outro (risos)! Fui um dos padrinhos da EXPO ’98.

P — Sente-se honrado? Ou acha isso um epíteto limitador?

AMF — Sobretudo acho desadequado. Na verdade, eu acho que fui um dos padrinhos da Expo. Não vou, com falsa modéstia, dizer «Não, fui só uma peça na engrenagem». Não, eu fui uma das peças fundamentais da engrenagem. Na candidatura, com certeza, que eu fui a figura do protagonista, a figura determinante. Era o presidente da comissão da promoção da candidatura, portanto se a ganhámos em boa parte é devido a mim e às pessoas que trabalharam comigo. Mas era um grupo tão pequeno... Em relação a Expo, não. Eu gosto sempre de citar um verso de um poeta francês, pré-surrealista, o Conde de Lautréamont, que dizia: «A poesia deve ser feita por todos, não por um.» E a EXPO’98 é um ato poético feito por milhares de pessoas. Durante a exposição trabalharam na Expo 7200 pessoas. Isto é uma multidão, é um exército! E cada uma delas foi fundamental para o sucesso da EXPO’98. Desempenhei um papel relevante, importante, na 1.ª linha da EXPO’98, mas quero dizer claramente que uma pessoa tão importante como eu fui, num período mais curto de tempo, foi o engenheiro Cardoso e Cunha, que foi o primeiro Comissário-geral. Sem ele não haveria Oceanário, por exemplo. Quem inventou o Oceanário foi o professor Mário Ruivo; eu levei nos braços a ideia do Oceanário. Mas, de facto, se o Presidente do Conselho de Administração e Comissário-geral não me tivesse dito, numa viagem em que fomos aos Estados Unidos visitar uns quantos aquários, «Você tem toda a razão, temos de ter uma coisa destas lá» — foi assim que ele me disse —, não o teríamos feito. Não era eu que decidia.

Isto para relativizar a história do «pai» da EXPO’98. Agora, evidentemente, até pelas circunstâncias em que a Expo se desenrolou e pelo facto de eu ser talvez uma figura mais mediática, adquiri um certo protagonismo que leva as pessoas a essa conclusão — a meu ver, completamente inadequada — de que eu sou (fui, que já não estou lá há 13 anos) o pai da EXPO’98. Não, eu fui um dos padrinhos da EXPO’98. Há uma série de padrinhos, e eu sou um deles.

P — Preciso de ganhar fôlego para a próxima pergunta: jornalista no Comércio do Funchal, Jornal Novo, Expresso, ANOP [agência nacional de Lusa), RTP, O Jornal; autor e apresentador de programas de televisão; chefe de redação no Jornal de Letras e Ideias; diretor editorial do Círculo de Leitores; fundador da Revista Ler. Chefiou a candidatura de Lisboa à EXPO’98; foi comissário executivo da EXPO’98; presidente do conselho de administração da Parque Expo, do Oceanário e do Pavilhão Atlântico;...

AMF — Perdeu-se?… é natural! (risos)


P — Sim, perdi-me mesmo! (risos) Continuando: dirigiu a representação portuguesa na Feira do Livro de Frankfurt de 1997; presidente do conselho de administração do CCB, diretor executivo da Metropolitana; cronista regular do Diário de Notícias, d’O Independente, do Expresso, do Diário Económico, do Público, da Visão, da Egoísta; 30 livros publicados; traduções; prémios... Não acha que falta à nossa política pessoas como o António Mega Ferreira?

AMF — Não, acho que não.

P — A política não é para intelectuais?

AMF — Não digo isso. Digo que a política não é para mim. Ou eu não sou para a política. Não é um sapato para o meu pé.

P — Não sente esse dever?

AMF — Dever, não sinto nenhum. Não. Não devo nada a ninguém, felizmente.

P — Não acha que faz falta à política nacional pessoas com o ser percurso e saber?

AMF — É provável que sim, mas a política não tem nada a ver comigo. Eu não tenho essa vocação. Vocação no sentido de vontade. Não tenho vontade de ter uma vida política, ou carreira política, ou até mesmo um cargo político. Ainda que fosse só para rematar o meu currículo. Não, eu não tenho essa vontade.

P — Como gostaria de ficar conhecido na história?

AMF — Eu gostava de ficar conhecido na história por tudo aquilo que mencionou. Como um tipo que fez essas coisas todas e que continua a fazer coisas.

P — O que lhe falta fazer, António Mega Ferreira?

AMF — Ah! Sei lá o que me falta fazer! Que pergunta, a uma hora destas!

Olhe, falta-me comer um leitãozinho assado que encomendei ali na Boutique dos Leitões, de Campo de Ourique, enquanto vejo um jogo da Liga dos Campeões. É um prazer tão grande!

P — Se tivesse de escolher entre assistir ao Benfica na final da Champions ou ao tão cobiçado Concerto de Ano Novo de Viena, o que escolheria?

AMF — Ah, isso não é nada difícil de escolher, porque eu odeio Concerto de Ano Novo de Viena, portanto escolheria obviamente o Benfica. Mas, vou ser justo: se tivesse de escolher entre uma transmissão da Champions com o Benfica ou qualquer outra coisa, escolheria o Benfica!


TPR



por Tânia Pinto Ribeiro

Escritor, estreou-se na Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) com um livro dedicado à pintora Graça Morais, mas tem hoje mais de trinta livros publicados — entre a ficção, o ensaio, a poesia e as biografias. O último saiu em maio deste ano: Hotel Locarno, 13 contos em homenagem ao seu hotel preferido, em Roma. Pelo meio escreveu o Essencial sobre Camus e Proust, ambos com a chancela da editora pública, e vem mais um a caminho, sobre D. Quixote.

Gestor cultural de renome é o atual diretor executivo de uma orquestra e três escolas: a Metropolitana, com a qual estabeleceu uma melodiosa parceria com a INCM. Nasceu em Lisboa, em 1949. Estudou Direito na faculdade, mas aconteceu-lhe o mesmo que lhe tinha acontecido com o Latim no 7.º ano: só mais tarde é que se apercebeu da utilidade do curso que tirou. O que vem confirmar a ideia de que «a cultura é tudo aquilo que fica depois de termos esquecido tudo o que aprendemos». A vida «a sério» iniciou-a quando voltou de Manchester, onde foi estudar jornalismo, e depois começou a trabalhar. Primeiro como tradutor de imprensa estrangeira, depois como jornalista. Era no tempo em que os jornalistas, apesar da pressão da máquina — essa verdade eterna do jornalismo — tinham tempo para ter tempo de refletir, fundamentar, certificar as fontes. Sem a pressão do imediato e do tempo real a acelerar a notícia. O que se seguiu é o que toda a gente já sabe: enquanto padrinho da EXPO '98 pôs Lisboa no centro do mundo. À frente da Parque Expo, entre outras coisas, ajudou a erguer o Oceanário. Como presidente do conselho de administração do Centro Cultural de Belém deixou também a sua forte marca através de diversas iniciativas, como o Dia Mundial da Poesia, as maratonas de leitura e os colóquios dedicados aos escritores.

Mas a juntar a este perfil, ainda assim tão incompleto, têm também sabor alguns dos seus afetos mais arreigados: ama Camilo Castelo Branco, gosta muito de Eça de Queirós, adora Jorge de Sena e alimenta um enorme afeto por Itália e pelo Manchester United. Porque é vermelho. O jornal que lê é espanhol e chama-se El País. Depois da Literatura é a música o que mais lhe dá prazer. De fazer politica não quer nem ouvir falar: não é um sapato que o seu pé queira calçar.

Segue-se uma entrevista transversal a um dos mais multifacetados eruditos portugueses: homem do intelecto e homem da cultura. Um pensador livre que consegue imaginar um Sísifo feliz — essa desgraçada figura da mitologia grega condenada a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar um rochedo até ao topo da montanha sabendo que este vai voltar a descer. Esse mesmo Sísifo do mito que Camus atualizou. Absurdo? Talvez não, ou não fosse António Mega Ferreira um homem de desafios, compromissos e obras feitas. E seria heresia não acrescentar: Benfiquista de alma e coração.

 

A ESTREIA LITERÁRIA NA INCM



Prelo (P) — Tem obras publicadas na INCM. Como e quando é que começou a sua relação com editora pública?

António Mega Ferreira (AMF) — A minha relação com a INCM começou, naturalmente, com o Vasco Graça Moura, quando ele era administrador da Imprensa Nacional nos anos 80. O Vasco convidou-me para escrever — para uma série chamada Arte e Artistas — um livro sobre a pintora Graça Morais. Acabou por ser o meu primeiro livro publicado, embora fosse o meu segundo livro escrito. É uma biografia relativamente pequena, porque o livro tinha uma grande parte de ilustração da obra de Graça Morais. Saiu, salvo erro em 1984 ou 1985. E acabou por ser o primeiro. Portanto, a Imprensa Nacional esteve na origem da minha carreira literária e foi a casa onde eu publiquei o meu primeiro livro.

P — Carreira que é vastíssima…

AMF — Vastíssima não é. Mas, enfim, é razoável.

P — A obra selecionada para o primeiro título da coleção Observadores é sua. Trata-se de Papéis de Jornal — Crónicas 2003-2010. Caracterizou esta obra como «uma espécie de gazeta literária, pessoal e fragmentária destes anos que assinalam a primeira década do século XXI». Fale-nos um pouco deste trabalho, nomeadamente da seleção...


AMF — Antes de falar do trabalho, deixe-me contar uma história curiosa que tem a ver com o título. O título, «Papéis de Jornal», que eu escolhi, naturalmente, e que depois propus à editora, que o aceitou. Depois do livro já ter saído, apercebi-me com espanto e horror que uns dez anos antes, um amigo meu, chamado Vasco Graça Moura, tinha publicado um livro de crónicas chamado Papéis de Jornal. Mandei-lhe imediatamente um exemplar, dizendo: «Ó Vasco, peço-lhe imensa desculpa! Eu não sabia de todo que tinha escolhido este título.» Ele respondeu muito amavelmente, como era costume, éramos amigos de há muitos anos: «Não tem mal nenhum. Isso só significa que eu escolhi bem o meu título, porque anos depois você escolheu o mesmo.» E ficou assim.

Ora bem, o livro é o quê? Durante muitos anos, talvez 25 anos consecutivamente, publiquei crónicas na imprensa, nos mais diversos meios de comunicação. Em 2000 publiquei em livro uma primeira recolha de textos jornalísticos, de papéis de jornal, chamado A Borboleta Nabokov. Em 2010 achei que era a altura de fazer uma segunda seleção do que tinha publicado. Portanto, fui até 2003 e fiz uma primeira seleção. Esta primeira seleção dava um livro gigantesco. Completamente gigantesco! Embora o editor Imprensa Nacional, o diretor da Unidade Editorial, me tivesse dito que não haveria problema, que ele gostava de publicar livros grandes. E eu respondi-lhe: «Sim. Mas o leitor é que tem uma espécie de limite antropológico. Um livro de crónicas não pode ser um romance como um romance de Tolstoi. Não faz sentido.» Tive então de fazer uma seleção maior. Há crónicas de circunstância: crónicas que se escrevem sobre a atualidade política, por exemplo. Eu nunca tive nenhuma tentação de recolher em livro esse tipo de crónicas. Essas crónicas respondem a um estímulo concreto, imediato, e que se esgota no tempo. Ou seja, para se poder perceber inteiramente o que essas crónicas são, teria de contextualizar as crónicas: «Nesta altura, o primeiro-ministro era fulano tal, o ministro tinha-se demitido,...» Não fazia sentido nenhum. Seria escrever outra crónica. Então, fiz uma segunda seleção, e a seleção baseou-se muito naquilo a que se pode chamar crónicas literárias.

P — E chamou-lhe «o retrato Robot dos seus interesses maiores». Quais são os seus interesses maiores?

AMF — A Literatura em primeiro lugar. Aliás, a maior parte dessas crónicas são crónicas sobre autores, ou sobre livros. Não só sobre livros que eu lia na altura, como sobre coisas que me eram suscitadas por terceiras leituras. Por exemplo, há uma crónica sobre o encontro falhado entre o Proust e o Joyce, em 1922 ou 1923, em Paris. Cheguei a este encontro através da leitura de um livro de Alain de Botton, que estava a ler na altura. E isso suscitou-me essa coisa extraordinária que é: o que é que teria acontecido se Joyce e Proust têm encaixado um no outro? Eles não encaixaram de todo. Não se entenderam. O Proust achava o Joyce estranhíssimo e o Joyce achava o Proust um aristocrata decadente!

P — Tem conhecimento de ter havido atividade epistolar entre eles?

AMF — Não houve nada. Eles encontraram-se no restaurante do Hotel Majestic de Paris. Foi um encontro proporcionado por um casal que era amigo de ambos, e que achou: «Isto deve ser extraordinário» — isto é típico dos casais literatos — «Deve ser ótimo pôr em conjunto o Proust e o Joyce! Isto vai ser uma coisa extraordinária!» Claro que não foi coisa extraordinária nenhuma: ignoraram-se olimpicamente, não ligaram nenhuma um ao outro, e portanto foi um encontro falhado. O facto de ter sido um encontro falhado tem uma certa grandeza literária. Quando toda a gente está à espera que duas figuras daquelas se encontrem: o que é que dará? que centelha de génio é que haverá? Não houve génio nenhum! Foram duas pessoas que não simpatizaram uma com a outra, dois homens que não simpatizaram um com o outro, pronto! É tão simples como isto: não tinham nada para dizer um ao outro! Embora presumivelmente se pense hoje em dia que o Joyce já tinha lido o Proust, mas o inverso não é verdadeiro. Isto, porque o livro do Joyce, o Ulisses, só foi publicado em 1922. Portanto, o Proust não podia ter lido o Ulisses. Talvez tivesse lido o Dubliners (Gente de Dublin), o primeiro livro de contos do Joyce, publicado em 1914. Mas Proust conhecia bastante menos Joyce do que Joyce poderia conhecer o Proust, visto que o primeiro volume do Proust tinha saído em 1913, e o segundo saiu em 1919 e recebeu o Prémio Goncourt nesse ano.

Mas é um pouco isto. O interesse sobre a literatura, sobre o que está à volta da literatura, sobre as circunstâncias que proporcionam encontros ou desencontros também tem uma dimensão literária, isto é, são suscetíveis de ser aproveitados como matéria literária …

P — Como um fio condutor?

AMF — Exatamente, foi isso que foi um bocado o fio condutor, depois há outras crónicas sobre pintura, há outras sobre música... Mas o grosso do livro é dedicado, de facto, a textos sobre literatura e o que andou à roda da literatura.

P — Gosta muito de literatura, mas estudou direito na Universidade de Lisboa.

AMF — Sim, sim.

P — Chegou a exercer?

AMF — Jamais! Sou um jurista não praticante.

P — Porque deixou o Direito para trás?

AMF — Porque não me interessou nada. Confesso que não me interessou absolutamente nada. Ou seja, aconteceu-me com o Direito a mesma coisa que tinha acontecido nos anos finais do liceu com o latim.

P — O que lhe aconteceu no final do Liceu com o latim?

AMF — O latim no 6.º e no 7.º ano não me interessou, só muitíssimo mais tarde é que me vim a aperceber da utilidade que tinha tido, quer estudar latim, quer estudar direito. Mas é uma utilidade que me veio muitíssimo mais tarde. O que parece confirmar aquela velha ideia que a cultura é tudo que fica depois de termos esquecido tudo o que aprendemos. Ou seja, foi depois de ter esquecido o latim que aprendi durante dois anos no Liceu que me apercebi da importância dele. Foi depois de ter esquecido de tudo o tinha aprendido na Faculdade de Direito que vim a verificar, muito mais tarde, que afinal eu tinha uma série coisas mais presentes e que essas coisas emergiam. Ou seja, que me tinha tocado alguma cultura de latim e alguma cultura jurídica. Agora, sou jurista não praticante. Na altura, em que acabei os meus estudos de Direito já era jornalista profissional e o que me interessava era o jornalismo, claramente.

P — Acredito que da sua turma de Direito tenham saído de lá…

AMF — Ah, sim! Uns crânios, uns génios. O Marcelo Rebelo de Sousa, o Jorge Braga de Macedo, a Maria Leonor Beleza... Estes são os mais destacados de que me lembro.

P — E foi então para Manchester?

AMF — Estudei em Manchester em 1972.

P — E que memória guarda?

AMF — Muito boas, do curso.

P — Em Portugal já havia cursos de jornalismo?

AMF — Não. Não havia curso nem em Portugal nem em Inglaterra. O curso foi um curso experimental, promovido pela Universidade de Manchester, em 1972. Chamava-se Mass Comunication, isto é, Comunicação de Massas. Era um curso que tinha a ver com jornalismo, de imprensa escrita, de televisão, de rádio, e de cinema também. Aliás, o meu paper final foi sobre cinema, chamado «New Realism inglês do pós-guerra», o que me possibilitou passar tardes maravilhosas no British Film Institute a ver todos os filmes ingleses do pós-guerra. O curso era um curso experimental, durou um term, digamos assim. Não dava uma licenciatura, não dava um grau. Era um curso experimental que se estava fazer. Poucos anos depois vieram a criar a licenciatura em imprensa e em televisão, separadamente. A imprensa e aquilo a que eles chamavam media. Na altura, a imprensa não se chamava media. Chamavam media aos multimédia: à televisão, à rádio e essas coisas.

P — Com que realidade é que se deparou em Manchester, em 1972?

Estive em Manchester uma série de meses e encontrei um mundo completamente diferente. É preciso relembrar que em 1972 existia a ditadura em Portugal e, portanto, não havia liberdade de imprensa, não havia liberdade de expressão de pensamento, não havia liberdade de constituição de partidos políticos. Tudo isso existia há séculos em Inglaterra. E, portanto, o curso foi interessante, mas tanto ou mais do que o conteúdo do curso foi a vivência desses meses em Inglaterra, que para mim foi extremamente formadora. A minha cabeça foi bastante positivamente afetada por essa permanência em Inglaterra durante os aproximadamente 6 meses em que lá vivi. Da própria cidade de Manchester não guardo recordações extraordinárias. É praticamente impossível guardar recordações extraordinárias da cidade de Manchester. É uma cidade feia, dull, triste. Era a altura da recessão, de uma grande recessão económica, da grande crise industrial em Inglaterra. O início da grande crise industrial que anos depois veio provocar a subida ao poder dos conservadores e da Senhora Thatcher. Mas isto para lhe dizer que a cidade em si não era interessante...Havia uma coisa extraordinariamente interessante na cidade: o Manchester United! O meu segundo clube! Fiquei com o Manchester United no coração.

P — Porque é vermelho?

AMF — Porque é vermelho, tem toda a razão! E ganhei um ódio muito saudável ao Manchester City, porque é azul. Detestava — ainda hoje detesto — o Manchester City porque sou do United. Quer dizer, o United é o meu segundo clube. O primeiro é, obviamente, o Benfica, porque é vermelho.

Essa experiência foi muito interessante do ponto de vista da minha visão do mundo, da visão das coisas.


O JORNALISMO E A VIDA «A SÉRIO»

P — E quando voltou a Portugal, como é que era fazer jornalismo ainda em tempos do Estado Novo?

AMF — Em 1972-73, o jornalismo que eu fazia não era ainda totalmente um jornalismo profissional. Eu só sou jornalista profissional a partir do início de 1975, quando sou contratado para o Jornal Novo. Primeiro, para o Jornal Novo, mais tarde para o Expresso. Nessa altura, eu era uma espécie de semiprofissional do jornalismo. Fazia parte da delegação em Lisboa do Comércio do Funchal, que era um jornal cor-de-rosa, completamente esquerdista que se publicava na Madeira e era dirigido por um grande jornalista — o maior da minha geração — chamado Vicente Jorge Silva. Aquilo era comandado na Madeira, onde estavam o Vicente Jorge Silva, o Luís Miguel Angélica e o José Manuel Barroso, também. Depois, em Lisboa, havia uma pequena redação que incluía o José António Saraiva, que depois foi durante 22 anos diretor do Expresso, e que é atualmente o diretor do semanário Sol. Incluía o José António Saraiva e incluía mais umas quantas pessoas, sendo que eu fazia parte dessa delegação. Digamos que, nessa altura, a minha relação com o jornalismo era uma relação muito intensa. Uma relação intensa, mas numa base semiprofissional. Eu trabalhava noutra coisa desde 1970. Trabalhava como tradutor de imprensa estrangeira na Secretaria de Estado da Informação, onde era — e continua a ser — o Palácio Foz. Trabalhava como tradutor de imprensa estrangeira, designadamente do francês, que sempre foi a minha segunda língua, e também do inglês, que obviamente melhorei um bocadinho. Já tinha aprendido cá, mas melhorei durante a minha permanência em Inglaterra. Essa é que era a minha ocupação profissional, que também ajudou a descurar completamente a conclusão do curso de Direito. Porque, obviamente, ganhava dinheiro, tinha conta na Livraria Clássica, que era uma livraria que havia na Praça dos Restauradores, ao pé do Eden. Fazia a minha vida cultural intensíssima, lanchava no Gambrinus, e tinha 23 anos! Ah! E gostava do que fazia! E, sobretudo, isso permitiu-me entrar naquilo que se chama «a vida a sério», que é a vida profissional.

P — E como foi entrar na vida «a sério»?

AMF — Bom, a vida profissional chamada «a vida a sério» é, de facto, um bocadinho incompatível ou dificilmente compatível com a «semivida», que é a vida de estudante, que não é bem a vida a sério. É muito sério, mas não é propriamente «a sério». A vida é outra coisa! Para lá de se ser estudante, tem outras dimensões que a vida de estudante não tem, naturalmente. Até porque tem a ver com a idade das pessoas e com a experiência.

E, portanto, o que aconteceu aí foi isso. Realmente, entrei profissionalmente no jornalismo em 1975, e depois fui jornalista profissional de 1975 até 1986. Em 1986, fui convidado para diretor editorial do Círculo de Leitores, onde estive 3 anos. Fui, posteriormente, para a Comissão dos Descobrimentos, convidado pelo Vasco Graça Moura. Estamos nesta casa [INCM] e, de 5 em 5 minutos, tem de se falar do Vasco Graça Moura (risos).

P — Camus escreveu: «É importante pensarmos no que é o jornalismo de opinião. A conceção que a imprensa francesa tem de informação podia ser melhor. Queremos informar depressa em vez de querer informar bem. A verdade não fica a ganhar. [...] Como vemos, tal equivaleria a perguntar se os artigos de fundo têm algum fundamento, e que se evitasse publicar como verdadeiro o que é falso ou duvidoso. É a esse procedimento que eu chamo “jornalismo crítico”. Uma vez mais, nada disto se faz sem inflexão e sem o sacrifício de muitas outras coisas. Mas talvez bastasse começar a pensar nisto.»
Uma vez que faz jornalismo de opinião, acha que passados mais de 60 anos os jornalistas já começaram a pensar a sério nisto? 

Albert Camus fotografado por Henri Cartier-Bresson (1947)

AMF — Não, não, não! É igual, mas mais acelerado. Ainda é pior. É isso, o diagnóstico é esse…

P — Como critica o jornalismo que se faz hoje em dia?

AMF — Antes de responder diretamente à sua pergunta, vale a pena contextualizar isto. Antes de irmos ao jornalismo de hoje em dia, convém dizer que há verdades eternas no jornalismo: o jornalismo será sempre, mas sempre, regido pela pressão da máquina — seja a máquina convencional, seja a máquina de hoje, seja a urgência de chegar, seja a urgência de concorrer ou ganhar ao concorrente.

Há dois textos fantásticos sobre o jornalismo. Um é um livro de um escritor inglês do século passado, chamado Evelyn Waugh, o livro chama-se chama-se Scoopscoop é aquilo a que se chama em jornalismo a «caixa». É um livro absolutamente extraordinário! Trata-se da história de um jornalista de gardening — de jardins — no jornal, e que, por causa do seu apelido, cria uma confusão na cabeça do editor que o destaca para cobrir uma revolução num país distante. O livro é genial porque é, obviamente, uma sátira ao jornalismo que se fazia — tudo é apressado, até a escolha de quem deve ir fazer a reportagem. É, de facto, um texto fantástico! E há um aforismo muito bom do G. K. Chesterton — outro escritor inglês também da primeira metade do século XX — que é este: «Jornalista é aquele profissional, que nos conta tudo acerca da morte de Lord X, de cujo nascimento nem se quer tínhamos conhecimento.» Isto é perfeito, porque o jornalismo é, de facto, isso: o jornalismo tem que encapsular em determinadas fórmulas a transmissão da informação. Isto é uma verdade eterna do jornalismo.

O que Camus dizia em 1950 está muito marcado pela sua experiência num jornal extraordinário chamado Combat, que ele dirigiu depois da II Guerra Mundial. Isto é verdade, mas é uma verdade eterna do jornalismo. O jornalismo está sempre perante essa pressão. E não pode ser de maneira diferente. Porque, se for de maneira diferente, se for essa coisa reflexiva, é a revista Les Temps Modernes, que saía de tantos em tantos meses. O jornalismo tem uma pressão temporal, um constrangimento temporal, que faz parte da sua «ontologia». O jornalismo é assim mesmo. E por isso é que é jornalismo. Porque, se não, era outra coisa qualquer: era ensaísmo, era ensaio em livro...



Mas é verdade que estas características — que são características, digamos assim, essenciais do jornalismo, e as tais eternas do jornalismo, sofreram uma aceleração. E essa aceleração tem a ver com a aceleração do tempo histórico também. Nós vivemos, efetivamente, nos últimos 50 ou 60 anos — depois do 2.º pós-guerra — uma aceleração brutal do tempo, que levou, por exemplo, a que um grande historiador como Hobsbawm dissesse que o século XX tinha terminado em 1989, quando caiu o muro de Berlim. Ou seja, o século XX acabou antes do final do século XX. A imagem é forte! É, obviamente, metafórico, mas é uma boa metáfora. Aliás, Hobsbawm dizia outra coisa extraordinária: o século XX, efetivamente, começou em 1914, com a I Guerra, e acabou em 1989. Ou seja, ele dizia: na realidade, 100 anos ficaram comprimidos — do ponto de vista do que é relevante, do que é significativo, do que é característico de uma época — ficaram comprimidos em 75 anos. E isto é muito interessante, porque esta aceleração do tempo histórico levou a encurtar tudo.

Depois, o desenvolvimento das novas tecnologias de informação — nos últimos 20, 25, 30 anos — levou a uma outra coisa que é: se o jornalismo já tinha a pressão do tempo, passou a ter a pressão do tempo real. Tudo tem que ser feito no tempo real.

P — Fala-se de um jornalismo «apressado»...

AMF — É verdade, e é mau! Tentando ver do ponto de vista dos profissionais, se calhar não podem fazer de outra maneira. Porque não é possível responder ao editor de um jornal online, que é o nosso é o nosso editor: «Então o paper sobre a prisão do não-sei-quantos?», «Amanhã dou.» O amanhã já não existe! Amanhã aquilo já não existe, já desapareceu.

P — Estamos perante o jornalismo de imediato.

AMF — É, efetivamente, o jornalismo do imediato. E é um jornalismo que, por causa do imediato, sacrifica a reflexão, a opinião, a fundamentação, a certificação das fontes, a qualificação das fontes. Porque há fontes que são credíveis e outras que o não são. Nada disso é possível. No fundo, eu vejo sempre os jornalistas de hoje em dia a fazerem uma coisa que é: têm uma fogueira enorme, e eles têm que estar constantemente a deitar lenha, mesmo quando não há lenha. A deitar lenha para manterem o fogo vivo. Porque, de facto, a informação tornou-se uma espécie de lareira, de fogueira. Uma fogueira permanente. Não se pode deixar apagar a fogueira. E, portanto, está-se sempre a deitar coisas lá para dentro. Por fim, já se deita papéis de jornal, partituras de música, livros antigos, deita-se tudo! O que é preciso é que fogo esteja sempre a funcionar. Nesse sentido, o que Camus dizia em 1950 corresponde um bocado à condenação do jornalismo. O jornalismo tem essas pressões todas que ele dizia, mas a coisa tornou-se muito pior. Não é porque os jornalistas são maus... Não! É porque as circunstâncias do tempo histórico obrigam-nos a dar uma outra resposta.

P — Como diria Ortega y Gasset, «o homem é sempre o homem e as suas circunstâncias...»

AMF — É claro! É evidente. As circunstâncias não podem ser de outra maneira. Agora — sobretudo para quem viveu num outro tempo como eu, e assistiu a outro tipo de jornalismo que se fez — não é bom. Eu costumo dizer uma coisa que às vezes irrita um bocadinho as pessoas, mas é o que eu acho. Eu digo: eu não leio os jornais portugueses. O jornal que circula em Portugal que eu leio todos os dias é espanhol, é o El País. Esse é que é o jornal!

P – Como francófono que é, não lê o Libération?

AMF — Não. O Libération não. O Libération já teve o seu tempo. O Libération é uma coisa muito como Le Monde, que era anterior ao Libération. É um jornal hoje em dia, acho eu, datado. Quer dizer, até para mim é uma coisa já datada. Evidentemente, se estou em Paris compro o Libération. É o jornal que eu compro, não compro outro. Mas sento-me na esplanada a beber um café péssimo, como se bebe em Paris — que é péssimo, o café! — e passo as folhas do Libération, e há uma história ou duas que têm graça, o resto já não me diz grande coisa. Não! De facto, o jornal que eu leio todos os dias é o El País, um jornal extraordinário, absolutamente extraordinário! É claro que tem os seus erros, que tem as suas fraquezas, mas tem também uma coisa que é extraordinária: value for money! Leva-se duas horas ou duas horas e meia a ler, bem lido, o El País. Tem montes de coisas para ler, tem conteúdo, tem texto. Não é esta coisa completamente frenética de textos curtinhos, textos curtinhos, mil carateres... Não é isso! A leitura do El País deve ser feita despacio. Porque o próprio jornal, o próprio suporte convida a dedicar tempo a ler. Não é um jornal que se leia, como esses jornais grátis que são distribuídos no Metro, em que a gente lê assim os títulos e deita-se fora.

P — Lemos «as gordas».

AMF — Pois, lê-se «as gordas» porque não tem mais nada. Não! El País é um jornal. Há outros jornais extraordinários, como The New York Times, por exemplo, que é um jornal extraordinário. Em Itália há um grande jornal que é o La Repubblica, que é jornal que eu leio às vezes, quando estou em Itália.

P — Também lê em italiano?

AMF — Leio em italiano, mas não leio italiano como leio o francês ou o espanhol. Nunca aprendi italiano. Quer dizer, o que eu aprendi de italiano tem a ver com ler em italiano. E com o fenómeno mimético que se relaciona com o meu enorme, enorme afeto por Itália e pela cultura italiana. Eu chego a Itália e no dia seguinte estou a falar italiano. Um italiano cheio de erros, com imensos pontapés na gramática, mas estou a falar em italiano. Estou a falar com pronúncia italiana e os tipos respondem-me em italiano. Não me respondem, como em Paris acontece — embora fale francês relativamente bem — em inglês. Isto deixa-me completamente fora de mim: eu dirigir-me em francês, num francês corrente — ok, eles devem notar que eu sou estrangeiro, — e responderem em inglês. Por alma de quem?! Mas isto está a acontecer em França; em Itália, não acontece. É óbvio, em Itália fala-se em italiano, como é natural. E, portanto, há esse fenómeno de imersão no som da língua. Pode ter a ver com a musicalidade da própria língua italiana, que é, de facto, uma língua poderosamente musical...

P — Também os italianos são muito vaidosos da sua língua…

AMF — Exatamente. Os italianos têm uma coisa que eu acho absolutamente extraordinária, que eu vi aqui há uns anos. É uma coisa comovente. Eu guardo esses DVD, porque é, de facto, uma coisa extraordinária. A certa altura, aquele louco genial que se chama Roberto Benigni um dia aterrou numa aula, na sala de sessões da Universidade de Bolonha — que é, como sabe, a mais antiga Universidade da Europa e uma das mais prestigiosas — e, na presença do reitor, dos professores, disse de cor A Divina Comédia, de Dante. O que é extraordinário é a loucura…

P — Recitou os três livros de cor?

AMF — Exatamente! De cor! Isso está registado. O homem transfigurou-se completamente. A certa altura, salta para cima da mesa da Sala dos Atos da Universidade de Bolonha e, de cima da mesa, diz a coisa. Há passagens que ele diz que, são ditas em coro pela sala inteira. E depois, a coisa foi de tal forma grandiosa, que a RAI — a televisão estatal italiana — convidou-o a fazer aquilo nas praças de Itália, durante o Verão. E há uma filmagem absolutamente extraordinária, passa-se em Florença, numa praça. Estão 3 mil italianos na praça, e de vez em quando ele dá a deixa e os 3 mil italianos dizem em coro A Divina Comédia. Isto revela uma identidade nacional e cultural fortíssima! Porque, efetivamente, o que os liga a todos é A Divina Comédia; o que os liga a todos é Dante, e não os particularismos regionais. Eles são, de facto, um conjunto de uma manta de retalhos de uma série de coisas, mas o que os liga é a língua. Digamos que o «papa» eterno da língua italiana que é Dante. E o grande poema nacional é A Divina Comédia. E isso é uma coisa muito extraordinária que eu devo-lhe dizer que nunca encontrei, até hoje, em mais sítio nenhum. É comum em Itália encontrarmos pessoas vulgaríssimas — não é preciso serem intelectuais extraordinários — que sabem passagens inteiras de A Divina Comédia de cor e dizem estrofes sucessivas. Quando um povo interioriza de tal forma um poema, um chamado poema nacional, há uma consciência de identidade. E essa consciência, essa identidade — apesar dos regionalismos das divisões — eles têm-na.

P — É um povo instruído...

AMF — É um povo instruído e é um povo orgulhoso.

P — Estou a recordar-me de que, por cá, há figuras da nossa política que não sabiam quantos cantos têm os Lusíadas…

AMF — Pois! E isso faz-me impressão. Porque isso é impossível encontrar em Itália.

Estou a exagerar. Com certeza que há pessoas em Itália também — os deserdados de Pietralata, por exemplo — que não sabem nada sobre A Divina Comédia. Até porque o poema é ensinado nas escolas; o poema é praticado, é memorizado; ou seja, a memorização do poema faz parte da aprendizagem do poema; e, portanto, eles têm essa capacidade reproduzir largas passagens de A Divina Comédia. E eu acho isto uma coisa verdadeiramente admirável, e acho que torna os italianos às vezes insuportáveis, de uma arrogância cultural, intelectual extraordinárias. Mas isso vem do facto de que eles sabem muito bem, como D. Quixote: «Eu sei muito bem quem sou». Os Italianos sabem muito bem quem são. E quando têm dúvidas, dizem A Divina Comédia. Pronto! E nós todos ficamos a saber que eles são os daquele poema.


O TEMPO DO CÍRCULO DE LEITORES E A IMPORTÂNCIA DO EDITOR

P — Já referiu anteriormente que foi diretor do Círculo de Leitores. Para si, o que caracteriza um bom editor?


AMF — Bom, um bom editor deve ter sentido do risco, uma visão cultural, e muito bom senso. Às vezes não é fácil ligar isto tudo.

P — Dessa sua experiência no Círculo de Leitores, recorda alguma obra com especial orgulho?

AMF — Ah! Recordo-me de uma obra absolutamente extraordinária, uma edição extraordinária que se fez, por volta de 1986. O pintor Jorge Martins apareceu-me um dia no Círculo e levava uma caixa de madeira muito bonita. Pôs a caixa em cima da mesa e disse: «Ó António, vou-te mostrar uma coisa» e abriu essa caixa. Dentro da caixa estava uma coisa que um editor lhe tinha encomendado. Encomendou-lhe, ele fez. E depois, quando a foi apresentar, o editor disse-lhe: «Desgraçadamente não tenho condições financeiras para poder fazer esta edição, é muito cara». Ele, naquele dia, apresentou-me aquilo. Eram 44 desenhos que tinha feito para a Mensagem de Fernando Pessoa. Eu disse-lhe: «Olha, eu não sei... Ainda por cima no Círculo de Leitores... Não sei muito bem como é que vou publicar isto.» O primeiro assalto que tive foi o do bom senso. O segundo foi o do risco. Disse-lhe: «Deixa ficar… Ainda não sei como, mas vou publicar!» E publicou-se! Um álbum gigantesco do qual, infelizmente, nem sequer tenho um único exemplar. Foi um álbum bastante grande, caríssimo, que vendeu 5000 exemplares. O que é alucinante! Um livro de arte vender 5000 exemplares em Portugal nos anos 80, é extraordinário! Essa, para mim, é uma edição inesquecível.
Há outras. A Obra Completa de Eugénio de Andrade, por exemplo, que tem uma história extraordinária.

P – Conte-nos!

AMF — Falei ao Eugénio de Andrade, que conhecia há já alguns anos — já o tinha entrevistado para o Expresso — e disse-lhe: «Eugénio, estou-lhe a falar daqui do Círculo de Leitores, e nós gostávamos muito de editar uma antologia da sua obra poética...». E ele respondeu-me: «Ah... Estou muito dececionado consigo... Julguei que me vinha propor editar a obra completa...» E eu disse: «Ó Eugénio, eu não me atrevia a tanto!» Mas claro que editámos a obra completa, em três volumes mais um volume de biografia; de fotobiografia. Foi uma coisa, também, que deu enormíssimo gozo.

Mas há imensas coisas...

Ah, outra coisa extraordinária! Esta também é fantástica. O escritor João de Melo tinha feito uma antologia de textos de escritores portugueses sobre a Guerra Colonial, e apareceu-me com aquilo no Círculo de Leitores. Olhei para aquilo, e ele disse: «Olha, venho aqui em desespero de causa, António. Seis editores já me recusaram esta obra.» Via a obra. E, à medida que eu ia folheando a obra, ele ia contando a história, e eu pensava cá para mim: «Percebo perfeitamente! A que propósito é que se vai publicar agora uma antologia com excertos de obras de autores portugueses sobre a Guerra Colonial? Porque é que se vai fazer isto?» E, à medida que ia vendo, disse-lhe: «Oh João, eu só vejo uma hipótese de editarmos isto. É fazermos um álbum ricamente ilustrado». Comecei logo a imaginar umas histórias. Mas havia ali um problema: como é que se ilustrava aquilo? Havia muito poucas fotografias da Guerra Colonial, porque os fotógrafos autorizados a cobrir a guerra eram pouquíssimos, dois ou três — havia a Beatriz Ferreira que tinha sido fotógrafa d'O Século, e havia dois ou três que eram autorizados pela PIDE, pelo governo — anos antes do 25 de abril, evidentemente — a ir a África fotografar. E sobretudo não eram autorizados a fotografar cenários de guerra, corpos mutilados, decepados... «Como é que haveríamos de ilustrar aquilo?» Andava nesta coisa, e um dia estava em casa, de repente, tive uma iluminação. Só me aconteceu uma vez na vida, que foi essa vez. Tive uma iluminação. No dia seguinte, pedi ao João de Melo para ir ter comigo e disse-lhe: «Ó João, tu não és professor do Ensino Secundário?» E ele disse: «Sou, sou. Sou professor do ano tal...». Disse-lhe: «Então, pergunta lá aos teus alunos se os pais deles não fizeram a Guerra, e se não têm fotografias da Guerra.»

Apareceram-me cinco mil fotografias! Pois claro. Todos eles tinham passado pela Guerra, todos tinham tirado fotografias. Portanto, havia. E aquilo foi ilustrado estritamente com fotografias de militares portugueses que tinham feito a Guerra. Isso era, aliás, explicado.

P — Fotografias em primeira mão!

AMF — Em primeira mão, completamente. Fotografias extraordinárias! E vendemos 104 mil exemplares desse livro. Foi um ano muito feliz para o Círculo de Leitores. Correu muito bem. Portanto, isso também é uma coisa de que eu gosto muito, uma coisa criada pelo trabalho do editor em conjunto com o autor. E inventar... Lembro-me perfeitamente disso — o João aparecia-me: «António! Estás aí no Círculo?». E eu dizia: «Estou, estou cá de manhã até à noite.» «Então, eu vou aparecer aí!», dizia-me ele. E chegava-me com caixas de sapatos cheias de fotografias! Abria a caixa de sapatos e dizia: «E esta? E esta?!» Umas fotografias extraordinárias. Algumas impublicáveis, até.

P — Não as conseguiu publicar todas?

AMF — Não. E algumas não deviam mesmo ser publicadas. Não podiam ser publicadas. Fotografias, por exemplo, íntimas dos militares, que se fotografavam uns aos outros. Como é óbvio. Estavam na guerra, no meio do mato, era para a loucura. Aquilo era o maior dos disparates. Não se podia estar a publicar uma coisa daquelas, até porque não tinha nada a ver com nenhum texto.

P — Acha que o trabalho do editor pode aumentar a vida útil da obra?

AMF — Claro. Acabei de lhe dar o exemplo com a antologia da Guerra Colonial. O olhar do editor pode ser a tal iluminação/cintilação. No caso do livro do Jorge Martins, da Mensagem, não. Ele tinha ali os desenhos, era só imaginar como é que comercialmente se viabilizava aquilo. Mas no caso desta antologia da Guerra Colonial, é claramente um produto que é criado com a participação do olhar do editor, que começa a pensar: mas como é que eu comercializo isto? Como é que eu faço disto um livro, que não seja uma chatice de textos? A maior parte dos textos, aliás, nem sequer eram inéditos. Eram excertos de livros de prosa, e de poesia também. Estavam lá poemas do Manuel Alegre, do Fernando Assis Pacheco... Portanto, como é que eu torno uma coisa que nem sequer é inédita numa coisa interessante e significativa para as pessoas? Sobretudo, para aquele milhão de portugueses, homens, que fez a Guerra e que são o mercado potencial desta obra? Pois! Vendeu cento e tal mil, claro.

(continua)

TPR

Acompanhando a evolução do mercado editorial e das novas tecnologias de informação, a INCM, em parceria com o Grupo Leya, disponibiliza alguns títulos que compõem o seu catálogo editorial em formato digital, comummente denominados de e-books, criando novas vias e formas de leitura e, simultaneamente, tornando ainda mais acessíveis obras essenciais da cultura nacional e universal.

Os livros eletrónicos da INCM são disponibilizados e comercializados, através da Loja Leya, em formato EPUB e PDF, compatíveis com as mais populares versões dos sistemas Windows e Mac OS, o que permite a sua fácil leitura na maioria dos computadores e dispositivos de leitura

Simultaneamente a INCM disponibiliza ainda, de forma gratuita, e nas condições particulares definidas, caso a caso, algumas das suas edições na Biblioteca Digital Camões.


ARTE, ARQUITETURA E PATRIMÓNIO

Cartografias da memória e do quotidiano
Autor: AA VV
Publicado em: abril de 2012
ISBN: 9789722720564

Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio História de um Espaço Urbano
Autor: AA VV
Publicado em: setembro de 2012
ISBN: 9789722723022

Missão Fotográfica. Paisagem Transgénica
Autor: AA VV
Publicado em: junho de 2012
ISBN: 9789722720571

O Essencial sobre Álvaro Siza Vieira
Autor: Margarida Cunha Belém
Publicado em: julho de 2012
ISBN: 9789722720939

O Essencial sobre Eduardo Souto Moura
Autor: Margarida Cunha Belém
Publicado em: julho de 2012
ISBN: 9789722720953

Revista Monumentos nº 33
Autor: AA VV
ISBN: 9789722722285


CIÊNCIA

O Essencial Sobre O Coração
Autor: Fernando de Pádua
Publicado em: fevereiro de 2013
ISBN: 9789722721592


DICIONÁRIOS, ENCICLOPÉIDAS

Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa
Autor: AA VV
Publicado em: outubro de 2013
ISBN: 9789722721790

Prontuário Turístico
Autor: Celestino Domingues
Publicado em: fevereiro de 2013
ISBN: 9789722723053

Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa
Autor: Academia das Ciências de Lisboa
Publicado em: Dezembro de 2012
ISBN: 9789722721264


DIREITO, JURISPRUDÊNCIA E DOUTRINA

Código Civil
Autor: AA VV
Publicado em: junho de 2014
ISBN: 9789722722896

Código de Insolvência e Recuperação de Empresas
Autor: AA VV
Publicado em: novembro de 2013
ISBN: 9789722722421

Código de Processo Civil
Autor: AA VV
Publicado em: julho de 2013
ISBN: 9789722721981

Código de Processo Penal
Autor: AA VV
Publicado em: maio de 2013
ISBN: 9789722721998

Código do Imposto Sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas
Autor: AA VV
Publicado em: março de 2014
ISBN: 9789722722841

Código do Procedimento Administrativo (Anotado) 2.ª edição
Autor: AA VV
Publicado em: julho de 2015
ISBN: 9789722722032

Código dos Contratos Públicos
Autor: AA VV
Publicado em: novembro de 2013
ISBN: 9789722722018

Código Penal Atualizado
Autor: AA VV
Publicado em: março de 2013
ISBN: 9789722721943

Da Proibição do Confisco à Perda Alargada
Autor: AA VV
Publicado em: julho de 2012
ISBN: 9789722721530

Direito da MedicinaAutor: AA VV
Publicado em: março de 2014
ISBN: 9789722722827

Direitos Humanos de onde Vêm, o Que São e para Que Servem?
Autor: AA VV
Publicado em: março de 2013
ISBN: 9789722721547

Informação e Liberdade de Expressão na Internet e a Violação de Direitos Fundamentais
Autor: AA VV
Publicado em: junho de 2014
ISBN: 9789722723183

Jurisprudência Cooperativa (Comentada)
Autor: AA VV
Publicado em: novembro de 2012
ISBN: 9789722721578

Legislação de Defesa do Consumidor
Autor: AA VV
Publicado em: março de 2014
ISBN: 9789722722407

Legislação de Família e Menores
Autor: AA VV
Publicado em: dezembro de 2013
ISBN: 9789722722384

Legislação do Ambiente
Autor: AA VV
Publicado em: junho de 2014
ISBN: 9789722722865

Legislação do Condomínio
Autor: AA VV
Publicado em: N«novembro de 2013
ISBN: 9789722722698

Legislação Laboral
Autor: AA VV
Publicado em: julho de 2013
ISBN: 9789722722001

Lei da Organização do Sistema Judiciário
Autor: AA VV
Publicado em: novembro de 2013
ISBN: 9789722722360

Lei Eleitoral dos Orgãos das Autarquias Locais
Autor: AA VV
Publicado em: agosto de 2014
ISBN: 9789722723138

Ministério Público: Que Futuro?
Autor: AA VV
Publicado em: março de 2013
ISBN: 9789722721561

Novo Regime Arrendamento Urbano (Legislação Consolidada)
Autor: AA VV
Publicado em: setembro de 2013
ISBN: 9789722722025

Portugal no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem
Autor: AA VV
Publicado em: novembro de 2012
ISBN: 9789722721554


EPISTOLOGRAFIA

Escrita Íntima. Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes Correspondência 1932-1961
Autor: AA VV
Publicado em: janeiro de 2014
ISBN: 9789722722605


ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS

Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Autor: Paulo Feytor Pinto
Publicado em: novembro de 2009
ISBN: 9789722720601

O Essencial sobre Albert Camus
Autor: António Mega Ferreira
Publicado em: novembro de 2009
ISBN: 9789722720601

O Essencial sobre Marcel Proust
Autor: António Mega Ferreira
Publicado em: novembro de 2009
ISBN: 9789722720601

O Essencial sobre Walt Whitman
Autor: Mário Avelar
Publicado em: dezembro de 2014
ISBN: 9789722722544

O Essencial sobre William Shakespeare
Autor: Mário Avelar
Publicado em: outubro de 2012
ISBN: 9789722720946


FILOSOFIA, DOUTRINA E RELIGIÃO

O Essencial Sobre Ritmanálise
Autor: Paulo Ferreira da Cunha
Publicado em: setembro de 2010
ISBN: 9789722720526


HISTÓRIA E CULTURA

A Saga Dos Portugueses na Rússia
Autor: AA VV
Publicado em: junho de 2011
ISBN: 9789722720458

Dicionário de História Empresarial Portuguesa séculos XIX e XX vol. I
Autor: AA VV
Publicado em: dezembro de 2013
ISBN: 9789722723015

Dicionário de História Empresarial Portuguesa Séculos XIX e XX vol. II Seguradoras
Autor: AA VV
Publicado em: abril de 2014
ISBN: 9789722723220

Invasões Francesas - 200 anos
Autor: AA VV
Publicado em: junho de 2011
ISBN: 9789722720793

Memórias do Conselheiro Adalberto Martins de Sousa (1880-1890)
Autor: AA VV
Publicado em: abril de 2014
ISBN: 9789722722759

O Essencial Sobre a I República e a Constituição de 1911
Autor: Paulo Ferreira da Cunha
Publicado em: agosto de 2011
ISBN: 9789722720489

Autor: Rui Namorado
Publicado em: fevereiro de 2013
ISBN: 9789722721585

Autor: Jorge Almeida
Publicado em: novembro de 2011
ISBN: 9789722720496

Autor: Duarte Ivo Cruz
Publicado em: junho de 2011
ISBN: 9789722720595

Autor: Paulo Feytor Pinto
Publicado em: setembro de 2010
ISBN: 9789722720472

Autor: VV AA
Publicado em: junho de 2012
ISBN: 9789722720700

Os Políticos e o Teatro
Autor: Duarte Ivo Cruz
Publicado em: fevereiro de 2013
ISBN: 9789722723046

Autor: VV AA
Publicado em: novembro de 2012
ISBN: 9789722721448

Autor: VV AA
Publicado em: julho de 2013
ISBN: 9789722721929

Autor: VV AA
Publicado em: maio de 2012
ISBN: 9789722720724


LITERATURA  EDIÇÕES CRÍTICAS

Amor de Perdição
Autor: Camilo Castelo Branco
Publicado em: novembro de 2012
ISBN: 9789722723800

O Demónio do Ouro
Autor: Camilo Castelo Branco
Publicado em: novembro de 2014
ISBN: 9789722723008

O Regicida
Autor: Camilo Castelo Branco
Publicado em: fevereiro de 2013
ISBN: 9789722723794


NARRATIVA, FICÇÃO E CRÓNICAS

Papéis de Jornal
Autor: António Mega Ferreira
Publicado em: junho de 2011
ISBN: 9789722720465

Sou nada ou nada sou?
Autor: Cidália da Cruz
ISBN: 9789722720960