O génio de Cervantes está em levar-nos a tomar o partido da loucura, de cada vez que a realidade desmancha o prazer que a loucura de D. Quixote nos proporciona.

António Mega Ferreira




in JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1180, de 23-12-2015 a 05-01-2016, Estante, p. 13


Ao longo das últimas décadas, os postais institucionais de Boas Festas da Imprensa Nacional-Casa da Moeda têm retratado a atividade gráfica e editorial da empresa.

Com frequência se recorreu à reprodução de gravuras do Mestre Gravador Francesco Bartolozzi (Florença, 1728 — Lisboa, 1815), contratado em 1802 por D. Rodrigo de Sousa Coutinho para reformar a aula de gravura da Imprensa Régia.

Em 1971, ainda a solo, a Imprensa Nacional apresentava no seu postal o logótipo brasonado com a legenda "Sciencias e Artes", e no interior uma imagem gravada por Bartolozzi em 1811, nas Oficinas da Impressão Régia. Esta gravura voltaria a ser replicada no postal de Boas Festas de 1996.






A gravura Adoração dos Pastores, realizada em 1810, quando Bartolozzi já tinha 84 anos, viria a ser utilizada nos postais de 1997 e de 2010. Esta gravura pertence à obra Missale Romanum, editada em 1820, pela Tipografia Régia.




Nos postais de 1972 e de 1974, já com ambas as instituições reunidas numa só e um novo logótipo idealizado pelo designer Valente de Carvalho, o postal de Boas Festas da INCM reproduz uma imagem incluída numa edição antiga do Auto da Mofina Mendes, de Gil Vicente.






O postal de Natal da INCM em 1980 remete para as comemorações camonianas, decorridas 500 anos sobre a morte do poeta, com uma folha em fac-símile de Os Lusíadas, retirada da sua própria coleção das obras de Luís de Camões. 




O uso de imagens retiradas das edições INCM para ilustração dos postais de Boas Festas é recorrente na década de 80, como podemos constatar na Adoração dos Magos, pormenor do vitral da capela-mor do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha. Esta imagem foi utilizada na obra O Vitral em Portugal – séculos XV-XVI, editada em 1988.




Outro exemplo, na década seguinte, são os postais dos anos 1995 e 2000, que utilizam uma iluminura e uma gravura retiradas da edição da INCM, de 1983, do Livro de Horas de D. Manuel: estudo introdutório, de Dagoberto Markl.




Nos postais dos anos 90, observamos ainda a utilização de testemunhos históricos existentes no edifício da Casa da Moeda. Em 1993, é retratada a imagem de um fólio do Livro de Rezistos dos Previllegios... concedido aos Officiais e Moedeiros..., códice em pergaminho que pertence ao acervo do Arquivo Histórico.






Em 1994, opta-se por mostrar o fresco existente na antiga sala do Museu Numismático, aos dias de hoje a sala do Conselho de Administração. Este painel mural foi realizado pelo Pintor Henrique Franco e retrata o episódio da recolha de metais na cidade de Lisboa para uso na produção de nova moeda, presente na Crónica de D. João I.




Na primeira década do novo milénio, as imagens tornam-se mais estilizadas e genéricas como é exemplo o postal do ano 2008. Com a criação da nova logomarca INCM em 2010, pelo designer Eduardo Aires, assiste-se ao renovar da edição dos postais de Boas Festas, que passam a estar associados à agenda produzida para o mesmo ano, num trabalho integrado da Unidade de Publicações da empresa. A partir de então, procura-se aliar os temas com as comemorações da cultura histórica e literária portuguesa, editando o postal institucional com uma imagem grafiacamente mais despojada, apelativa e contemporânea, através do uso de um design gráfico de cores e tipografia fortes, marcantes e destacadas.





Como exemplos: o postal do ano 2011, enquadrado nas comemorações do V centenário do nascimento de Fernão Mendes Pinto. Este postal contém um excerto de texto da Peregrinação, com desenhos do arquiteto e artista plástico Carlos Marreiros.



O postal de 2015 centra-se na comemoração do centenário da publicação da revista Orpheu, onde se reproduzem as imagens das capas dos dois únicos números publicados da revista.





Por fim, o postal de 2016 retrata a comemoração do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, um dos escritores e autores mais importantes do século XX literário português, destacando um excerto da sua obra Aparição.



Boas festas!

MJG



Em 1615, «o empreendedor fidalgo lançou‑se de novo à estrada para dar ao seu autor matéria para escrever a segunda parte.»

Em escrita fluida e tom espirituoso, António Mega Ferreira propõe-nos a compreensão da personagem Alonso Quixano, mais conhecido por Dom Quixote, o fidalgo cuja imaginação era bem maior que os pequenos privilégios que a condição de membro da baixa aristocracia lhe conferia.

«Quando o livro foi publicado, em princípios de 1605, Cervantes tinha 58 anos de idade; a segunda parte veio a lume em 1615, quase a atingir os 70.»

O o 126.º título da coleção Essencial, que nos conta o que de mais relevante há para saber acercada da figura eterna do cavaleiro sonhador que, pela narrativa de Carvantes, marcou o ponto de partida do romance europeu.

À venda nas nossas lojas.

 


O Tempo não passa por mim: é de mim que ele parte.
Vergílio Ferreira, in Aparição.


Cumprindo a tradição já antiga da INCM de publicar a agenda anual temática, acaba de sair a de 2016, desta vez comemorando o centenário do nascimento de Vergílio Ferreira.

A organização coube a Helder Godinho (coordenador), Fernanda Irene Fonseca e Jorge Costa Lopes.
O design gráfico ao atelier SilvaDesigners.
A coordenação editorial e impressão à Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Num registo criativo, distintivo e intemporal, a Agenda de 2016 é uma peça de arte para usar e guardar.


Já à venda nas nossas lojas.


por Rui Ramos

«Uma Admiração Pastoril pelo Diabo (Pessoa e Pascoaes), de António M. Feijó (Imprensa Nacional)

António Feijó prova que deixámos de saber ler Fernando Pessoa a partir do momento em que deixámos de ler Teixeira de Pascoaes, o “monstro” das letras portuguesas na primeira metade do século XX. Subitamente, a biblioteca esquecida da literatura portuguesa adquire uma vida nova, como se alguém tivesse levantado o lençol de indiferença que a cobria. Um milagre de erudição e de subtileza. Um livro sensacional.»

Ler o texto original aqui.
http://www.rtp.pt/play/p321/e217265/a-forca-das-coisas

A propósito das comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, Luís Caetano conversa com Daniel Pires sobre o livro Bocage. A Imagem e o Verbo, editado pela INCM.

12 Dez, 2015


Daniel Pires,
Bocage. A Imagem e o Verbo,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015.



Ouvir a entrevista aqui.


por Tânia Pinto Ribeiro

Arqueologia, a palavra fascina. E Hollywood sabe-o bem. Indiana Jones ou Lara Croft mitificam e povoam o imaginário sobre o tema. Prova disso: em junho de 2015 mais de dez mil leitores da revista Empire escolheram as melhores personagens de sempre da história do cinema. E foi o famoso arqueólogo, celebrizado por Harrison Ford, que ganhou o primeiríssimo lugar no pódio, afastando o brilhante agente secreto 007 para um honroso 2.º lugar. Mas os chicotes, as perseguições e as pistolas estão muito longe de corresponder à vida real de um arqueólogo, onde o mistério e a aventura têm contornos bem diferentes.
O verdadeiro arqueólogo — hoje, já rendido às novas tecnologias — persegue a aventura do estudo e do conhecimento e substitui as armas por pás, picaretas e, claro, também pelas máquinas digitais. Recordemos, por exemplo, a figura de Howard Carter, que descobre o túmulo de Tutankhamon, um homem de fato, estudioso, concentrado; ou a de Estácio da Veiga, engenheiro que um dia sonhou erguer um museu no Algarve e, hoje, é uma figura incontornável da arqueologia portuguesa.
Quem nos dá este alerta é António Carvalho, diretor, desde 2012, do Museu Nacional de Arqueologia (MNA). É este o museu com mais bens classificados como tesouros nacionais, alguns de valor incalculável. Terá surgido por motivos patrióticos, logo a seguir ao Ultimato Inglês e hoje, seguindo os desígnios do seu fundador, Leite Vasconcelos, continua a ser «o museu mais local de todos os museus nacionais», possuindo objetos arqueológicos que representam quase todos os concelhos do País, e que têm constituído ao longo dos anos objeto de estudo de gerações e gerações de arqueólogos.
Não é de estranhar, portanto, que em plena praça do Império, em Lisboa, se erga um dos museus mais visitados do país. Espaço de exposições permanentes e temporárias, entre elas a das cobiçadas múmias do Egito. Local de encontros intergeracionais, cuja biblioteca conta com um acervo de mais trinta mil obras, muitas delas exemplares únicos, que fazem também dele um dos museus mais fascinantes.
Segue-se a primeira cruzada do PRELO neste templo de portas abertas ao público e à investigação, guiada por António Carvalho, seu diretor e fiel guardião. E começamos por uma ligação histórica que une o MNA à INCM: a publicação do Arqueólogo Português, um arquivo vivo da arqueologia portuguesa, mas que não se esgota aí.



P — O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) celebraram, em 2011, um protocolo de cooperação pelo qual a INCM volta a ser a editora do MNA, como no tempo de José Leite de Vasconcelos. Que vantagem vê nesta parceria?

AC — Em primeiro lugar, uma vantagem histórica. O MNA é um museu feito por Leite Vasconcelos, proposto por Leite Vasconcelos, em 1893, como Museu Nacional. O MNA é construído com o projeto de museu nacional.
Há uma ideia que o Dr. Luís Raposo, meu antecessor no cargo, desenvolveu muito, que é a ideia do museu-resposta ao Ultimato Inglês. Um museu que se vem afirmar por exaltação da identidade nacional. O Ultimato Inglês dá-se em 1890, e o museu é de 1893. Portanto, o museu que está a maturar na cabeça de Leite Vasconcelos surge como resposta ao Ultimato Inglês. E Bernardino Machado, ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria do rei, concretiza-o. E assim o museu aparece como projeto de museu nacional, para tratar o presente etnográfico e o passado arqueológico.
Ora, sendo José Leite Vasconcelos uma figura marcante da cultura portuguesa nessa época e ao longo da primeira metade do séc. XX, e sendo autor da INCM, é normal que tivesse pensado que era a INCM a editora ideal, o local próprio — eu insisto neste conceito — para que as publicações, nomeadamente o órgão oficial do Museu, O Arqueólogo Português, ficasse ali «amarrado». E a editora do Estado ser a editora do museu nacional — o museu que surge como museu nacional: o Museu Etnográfico Português, depois Museu Etnológico e depois Museu Nacional de Arqueologia — é, realmente, extremamente relevante. Esta questão tem que ser vista numa dupla dimensão, face ao Leite e à sua obra. O Leite é autor de muitas outras obras, publicadas antes e depois de o Museu Nacional de Arqueologia existir, ligadas à INCM.
Estamos a pensar provavelmente só em arqueologia, nesta conversa. Mas não devemos.


Entrada do Museu Nacional de Arqueologia. no Mosteiro dos Jerónimos, em Belém (Lisboa).


P — Etnografia, certamente?

AC — Sim, etnografia portuguesa. Há muitas obras que são publicadas na Imprensa Nacional, a partir de 1895, data em que Leite Vasconcelos publica o primeiro volume de As Religiões da Lusitânia. Por um lado, é um autor da INCM. Por outro lado, O Arqueólogo Português, como publicação de referência, é uma das mais antigas publicações de arqueologia da Europa.

P — Trata-se de uma publicação centenária.

AC — É uma publicação centenária. Uma publicação de referência ligada à INCM, e que vai servir de base à constituição da biblioteca especializada que o Leite acredita que o museu tem que ter para, com O Arqueólogo, se estabelecer um sistema de permutas internacionais. São coisas que para nós, hoje, são de uma normalidade quase banal, mas que são muito avançadas para a época — o Leite idealiza um modelo em que, por um lado, a editora do Estado imprime a obra magna da arqueologia; e, por outro lado, isto permite-lhe constituir a biblioteca a partir das permutas internacionais que faz com O Arqueólogo Português.
Hoje a INCM edita um Arqueólogo (o suplemento, que é uma coisa recente; mas na altura é O Arqueólogo, 1.a série), presente em muitas bibliotecas onde está referida a INCM, graças ao sistema de permutas que o Leite Vasconcelos cria. Portanto, a ligação à Imprensa Nacional é: o museu que ele idealiza como museu nacional ligado à editora do Estado; editora do Estado de que ele vai passar a ser autor a partir de 1895 com As Religiões da Lusitânia.
Três das obras principais de Leite Vasconcelos estão na Imprensa Nacional: As Religiões da Lusitânia, 3 volumes, que vocês inclusive já (re)editaram nos anos 1980, se não me falha a memória; A Etnografia Portuguesa; e O Arqueólogo Português.

E depois todas as outras. Coisas normais, como Cartas [de Leite de Vasconcelos] a Francisco Martins Sarmento, seu mentor. Mas também na medalhística: Sete Medalhas da Guerra Peninsular, Medalha da Sociedade Económica de Ponte de Lima; na numismática: Inventário das Moedas Portuguesas da Biblioteca Nacional ou Elenco das Lições Numismáticas dadas pela Biblioteca Nacional. Ou uma obra muito interessante dele: De Campolide a Melrose, relação de uma viagem de estudo (filologia, etnografia, arqueologia); ou Pelo Sul de Portugal — Baixo Alentejo e Algarve; ou De Terra em Terra, excursões arqueológico-etnográficas, através de Portugal do norte, centro e sul, de 1927.



Portanto, são vastos os temas. Não é um autor que publique só sobre arqueologia. Leite Vasconcelos é um filólogo, é um etnógrafo, é um arqueólogo, é um numismata, é um epigrafista, um historiador, é um homem que se dedica a imensas áreas... E até à data da sua morte, em 1941, a Imprensa Nacional é a sua casa editora.

Quando o Dr. Luís Raposo renovou a ligação à INCM, foi reconstituída uma ligação natural. E eu tenho acarinhado essa ligação natural. Neste momento até há um protocolo, um segundo «protocolo-chapéu» — gosto muito desta expressão — que é o protocolo da Direção-Geral do Património Cultural (DGCP), de 2013, que enquadra a relação da DGPC com a INCM; nomeadamente para catálogos de exposições — daí O Tempo Resgatado ao Mar, etc. — mas que não anulou o protocolo de 2011. A relação da INCM com o MNA tem um valor histórico. Não autónomo do ponto de vista orgânico, uma vez que a DGPC é a entidade que tutela o MNA; mas o da DGPC não anulou o do MNA; antes acrescentou. Por isso é que eu falo em «protocolo-chapéu».


P — O que representa hoje esta revista para a arqueologia?


AC — Temos que analisar O Arqueólogo Português sob dois pontos de vista. Perspetiva n.o 1: é uma publicação que surge em 1895, e funciona como arquivo de memória da arqueologia portuguesa, como repositório. Há bases de dados, setoriais ou nacionais — feitas posteriormente, já na época contemporânea — em que O Arqueólogo Português é citado milhares de vezes. Era a grande revista onde publicava o Museu Nacional, dirigida por esse homem até 1929; depois dirigida pelo Prof. Manuel Heleno; mais tarde por D. Fernando de Almeida; e depois continuada por todos os outros diretores: o Dr. Francisco Alves, já no pós-25 de Abril; o Dr. Luís Raposo; e agora continua comigo.
Claro está que, quando olhamos para o séc. XIX ou para o início do séc. XX, a revista funciona como arquivo histórico da arqueologia, como repositório. Quando olhamos agora para épocas mais recentes, em que há mais revistas, vemos que O Arqueólogo Português disputa o espaço com outras revistas. Todavia, os autores ainda gostam de ali publicar. O Arqueólogo Português está neste momento, sob minha orientação e com uma equipa do próprio Museu, a implementar um sistema de peer review para que possa ser um espaço disputado, incluindo, obviamente, a questão da discussão interpares para que tenha mais reconhecimento, mais credibilização.

P — O primeiro Suplemento nestas condições tem por título Leite de Vasconcelos e Orlando Ribeiro. Encontros Epistolares, sendo autores Maria Fernanda Alegria, Suzanne Daveau e João Carlos Garcia. O que revela esta atividade epistolar?

AC — O Dr. Leite Vasconcelos congregava à sua volta um conjunto de nomes de reputadas figuras que nos habituámos a reconhecer, e que começaram o seu percurso como seus alunos, como seus colaboradores. Uma dessas figuras é o geógrafo Orlando Ribeiro, que poderia ter sido diretor do MNA, se a escolha não tem recaído sobre o Prof. Manuel Heleno, em 1930. De qualquer maneira, o que é importante registar aqui é que temos que ancorar a importância destes encontros epistolares entre [19]31 e [19]41 — 1930-31 coincidiu com a saída do museu e 1941 com a sua morte — com o universo de um homem em que o ato da correspondência ocupa um lugar absolutamente decisivo na sua vida. E está aqui o livro, aliás, com a chancela da Imprensa Nacional.
Aqui no museu conservamos um pouco mais de 27 mil de cartas recebidas. É o chamado «epistolário de Leite Vasconcelos». A isto temos que somar a correspondência que ele próprio escreveu e expediu; porque estas cartas tiveram resposta ou são elas próprias respostas a outras cartas. É desta correspondência ativa e passiva que nós temos a dimensão de uma pessoa e da sua obra; é da soma destes dois lados. Ora, este volume muito importante da correspondência com Orlando Ribeiro — o geógrafo de referência, pai da geografia humana em Portugal, um homem absolutamente único, com uma obra também ela de referência — é um testemunho dessa grande produção epistolar... Podia citar outras, por exemplo, a troca epistolar com Francisco Martins Sarmento, da Sociedade Martins Sarmento. Esta é uma das dimensões de Leite Vasconcelos: ter alimentado uma troca de correspondência muito significativa.

P — Isto referente a uma década.

AC — Neste caso, só se publica durante uma década. Mas o epistolário de Leite Vasconcelos é vastíssimo. Aqui no museu temos mais de 27 mil cartas, recebidas. Fora as expedidas. Temos que pensar que uma carta não é um ato isolado; é sempre resposta a outra que é mandada, ou é ela própria geradora de respostas.

P — Leite de Vasconcelos é para si o impulsionador da arqueologia em Portugal?

AC — Não. Não é o arqueólogo profissional português. O arqueólogo profissional, assumidamente arqueólogo, é o Estácio da Veiga.
O Leite da Vasconcelos é — vou usar uma expressão do Prof. Pais de Brito, de que gosto imenso — o «delimitador dos limites das ciências»; onde é que elas começam e acabam. E preenche-as. A filologia, o que é? O barranquenho, a arqueologia, a epigrafia, a numismática, os estemas, o cante alentejano, ... ? Ele tem um texto precoce sobre o cante alentejano; sobre a desmontagem do ponto de vista da rima. É um delimitador, um definidor.
O Leite de Vasconcelos é o enciclopedista. Também é arqueólogo. Mas é o construtor de museus, o construtor de uma obra nacional, é uma figura da cultura portuguesa.
O Estácio da Veiga não é, nesse sentido, uma figura da cultura portuguesa.

P — Contextualize-nos o Estácio da Veiga.

AC — O Estácio da Veiga é um engenheiro, que em vida rivaliza com o Leite de Vasconcelos, na perspetiva que ambos têm para a arqueologia. Estácio da Veiga queria fazer um museu regional do Algarve, que publicasse as antiguidades monumentais do Algarve, as antiguidades monumentais de Mafra, e de Mértola — sítios onde está a trabalhar e aproveita para trabalhar nesses temas. De qualquer maneira, é uma pessoa que visa conhecer uma região, o Algarve e fazer um museu regional do Algarve.
Já, o Leite de Vasconcelos quer fazer um museu nacional que conte a história do homem português. O Leite não recolhe informação só pela arqueologia, precisa também da etnografia — por isso é que, à data em que funda este museu, o chama de Museu Etnográfico Português. O Leite Vasconcelos tem essa dimensão global.


P — Em mais de um século de existência, este museu constituiu-se na instituição de referência da arqueologia portuguesa. Que desafios traz esta responsabilidade para o diretor?

AC — Há um colega nosso que por graça diz sempre «a casa-mãe da arqueologia portuguesa». E isto, que é uma graça, tem uma dimensão real. O MNA é um museu que conserva um espólio arqueológico relativo a praticamente todos os concelhos de Portugal, produto das excursões científicas que o fundador fazia, e depois dos trabalhos subsequentes de muita gente que se relacionava com ele e enviava para cá o espólio. Ou, em épocas posteriores, também uma consequência dos trabalhos arqueológicos que os diretores e outros funcionários do museu dirigiam, um pouco por todo lado.
Depois, a realidade mudou a partir dos anos 70. O MNA já não é o espaço que incorpora o espólio recolhido já não incorpora o espólio que é recolhido um pouco por todo lado; e nem podia ser assim. Hoje incorpora-se muito pouca coisa no museu, porque o espaço não é elástico. O espólio hoje é incorporado em museus municipais. Como então. Só que a posição do MNA hoje em dia é de um grande ascendente sobre esse espólio.
Todavia, é importante perceber-se as coleções que se incorporam no museu: quer as coleções de Leite Vasconcelos quer outras posteriores são de tal maneira coleções de referência, que são objeto de estudo de muitas gerações de arqueólogos. Temos sempre novos olhares sobre velhas coleções. E isto é muito interessante: há sempre gerações de gentes, de arqueólogos, de estudiosos que se renovam no museu, olhando muitas vezes para as mesmas coleções. Por outro lado, nunca tudo o que existe no MNA foi estudado. Do ponto de vista da representatividade, o MNA tem objetos arqueológicos de todos os concelhos, ou quase todos os concelhos. Como costumo dizer muitas vezes, a brincar com este tema que é sério: o MNA é o museu mais local de todos os museus nacionais, porque é um museu que vive a partir dessa soma dos localismos todos. Por outro lado, quando eu falo desta comunidade que se renova, estou a falar do museu que provavelmente tem mais bolseiros da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) a trabalhar em permanência. Sim, temos cerca de 60 bolseiros da FCT. É muita massa humana forte, digamos assim. O músculo científico do museu.

P — Há facilidade em conseguir essas bolsas?

AC — Temos muitas bolsas. A FCT dá bolsas, e o Museu tem uma longa tradição de ser parceiro desses projetos de doutoramento, de mestrado ou de projetos investigação financiados. Hoje mesmo chegou mais um projeto para o museu fazer: ser parceiro do Museu do Ar.
O museu é o espaço onde essas coleções se conservam, não é o espaço onde se expõem. Tem reservas muito importantes. O museu tem uma política de portas abertas. Há investigação, como essa tal «casa-mãe da arqueologia portuguesa». Aqui neste museu vemos as gerações de arqueólogos renovarem-se. Por isso mesmo cito esta frase: «Novos olhares sobre velhas coleções».

P — Fale-nos um pouco da biblioteca aqui do MNA, com um acervo que conta já com cerca de vinte e duas mil obras.

AC — Exatamente. A biblioteca do MNA é criada por decreto em 1901. Muita atenção a este detalhe: não é uma biblioteca que se constitui dentro do museu por vontade do diretor; o diretor constitui, e o Estado português ratifica essa constituição. Quer o museu quer a biblioteca são instituições criadas por decreto em 1901, sempre estiveram no espírito do fundador. Leite Vasconcelos acreditava que uma biblioteca de referência era fundamental para apoiar o desenvolvimento do museu e acumular conhecimento. Hoje, temos cerca de 30 mil monografias, 1800 títulos de publicações periódicas, e ainda manuscritos, livros antigos, literatura de cordel, arquivos pessoais e, à cabeça, o legado de Leite Vasconcelos. Mas também ilustração, fotografia, etc...

P — Há algum livro que queira realçar pelo seu valor histórico?


AC — Poderia realçar muitos! Podia, inclusive, realçar documentos que fazem parte de listas de «património a salvar em caso de guerra». É assim, por exemplo, que o segundo diretor deste museu se refere em 1953 a um conjunto de bens, no quadro de um levantamento que fez. Poderia realçar O Cancioneiro Fernandes Tomás, a Sátira de Feliz e Infeliz Vida [1468], de D. Pedro de Portugal, outro manuscrito do séc. XV, Livro de Horas e Iluminuras, de meados do séc. XV, uma Cartilha de El-rei D. João III,... Podia citar bastantes.

P — E são exemplares únicos os que estão aqui?

AC — São exemplares únicos.

P — E do museu o que é que destaca? Uma peça, por exemplo.

AC — O MNA é o museu nacional com mais bens classificados como Tesouros Nacionais, bens de interesse nacional, mais de 950 itens, que abarcam muitos períodos e também permitem apresentar diferentes tipologias de materiais. Poderia destacar, por exemplo, a seleção que fizemos para a exposição Lusitânia Romana: Origem de Dois Povos, que esteve patente ao público em Mérida até 30 de setembro. Depois virá para o MNA, e depois vamos preparar a sua apresentação em Madrid, no Museo Arqueológico Nacional. Apresentamos nessa exposição um conjunto de tesouros nacionais que abarcam vários tipos de peças; neste caso da época romana, mas temos tesouros nacionais de outras épocas. Temos peças bem diferentes. Por exemplo, os Guerreiros Galaicos, peças de ourivesaria, determinadas peças metálicas, por exemplo, a peça Lameira Larga, que é uma peça muito bonita. Enfim, são mais de 950 bens!

Guerreiros Galaicos


P — É possível quantificar o valor destes tesouros?

AC — O património cultural não tem preço. É intangível, do ponto vista desse valor. Agora, quando fazemos uma exposição internacional, definimos um valor por peça, que é o valor que temos comunicar à seguradora para efeitos de fazer deslocar desse bem. Esse seguro que fazemos é o chamado seguro de Estado que é complementado, no nosso caso, pelo seguro de outro mecenas, outro parceiro especial que nós temos, na área dos museus nacionais e que, por acaso tem o mesmo nome da exposição que falámos há pouco (a palavra «Lusitânia» é uma palavra muito usada na nossa cultura).
Como é que nós chegamos ao valor da peça? Em função de múltiplos critérios: raridade, estado de conservação, enfim, muitos critérios.


P — Qual a diferença entre uma relíquia e uma antiguidade?

AC — Depende do contexto em que a frase é dita. O termo «antiguidade» tem uma dimensão histórica. Antiguidade — está convencionado em termos históricos — é uma época. Dá-nos um conceito histórico, uma cronologia, um ambiente cultural, uma época. Se eu disser a «Antiguidade Clássica» estou a falar de Grécia e Roma.
O valor que me ocorre para a palavra «relíquia», em primeiro lugar, não é o de uma riqueza; é um valor religioso. São os vestígios muitas vezes antropológicos de um determinado mártir ou de um determinado santo. São vestígios aos quais a Cristandade dá valor como relíquias. Uma antiguidade com valor é uma «relíquia». Dizemos isso de um automóvel antigo, ou de uma peça de mobiliária com a qual temos uma boa relação, uma relação de afeto. Mas teve de haver também um juízo sobre o valor da peça.


P — Mas fazem-se os mercados de antiguidades...

AC — Isso é outra coisa! É outro valor semântico da palavra. «Mercado de antiguidades» inclui a palavra «mercado» que já dá a dimensão económica daquilo de que estamos a tratar. E aí «antiguidades» já não diz respeito à antiguidade clássica, porque está no plural mas a coisas com algum tempo. Mercado de antiguidades é um mercado de coisas antigas (velharias), neste caso, com valor (relíquias).

P — Em arqueologia diz-se «achados» ou «descobertas arqueológicas»?

AC — É muito bem colocada a questão. Se estiver a escavar, diz-se «exumados». Se já tiver usado a palavra exumado várias vezes e precisar de uma palavra diferente, digo «identificado» ou «recolhido». Sendo que, para o «recolhido», posso não estar a escavar. Não uso muito «achado», embora já tenha havido uma época que usava. E «descobertas» implica que não esperávamos que aquilo estivesse ali e de repente apareceu.

P — A descoberta implica uma procura?

AC — A descoberta implica uma surpresa e o achado também. A expressão «achado», ou «achados arqueológicos», usamo-la mas mais na oralidade. Na escrita usamos «identificar», «exumar», «recolher».

P — Qual a última identificação, exumação, descoberta arqueológica a vir para o museu?

AC — Primeiro, temos que perceber um conceito, que é o de «aquisição». Como é que as peças entram nos museus? As peças entram por «aquisição», por «doação», entram eventualmente por «depósito» de um arqueólogo. Mas a todas estas palavras está associada uma outra que vamos usar aqui neste caso, para a sua pergunta: «incorporação». Falamos em incorporação de bens no museu. A última grande incorporação, já comigo à frente do museu, não foi a incorporação de uma peça excecional; foi o resultado de um processo de materiais da pré-história que estava cá para ser resolvido. Vamos usar para esse caso, em vez da palavra incorporação, «apresentação». A peça que temos lá em baixo, proveniente do Alqueva, O Touro — aquele touro do [sítio arqueológico] Cinco Reis 8 — é uma apresentação. Não é uma incorporação do MNA, é um depósito para apresentação. Há muitas formas de as peças chegarem cá: pode ser um depósito para uma exposição temporária, pode ser cedência temporária, pode ser uma incorporação.

Escultura em cerâmica representando um touro, com cerca de três mil anos e que foi recuperada
no sítio arqueológico Cinco Reis 8, incluída na Exposição Alqueva 20 anos de obra, 200 Milénios de História.


P — E na parte de ourivesaria, chegou alguma coisa ao museu?

AC — Recentemente daquele calibre, não. Infelizmente!

P — Há quanto tempo é que não recebe nada para a Sala do Tesouro?

AC — A última incorporação para a Sala do Tesouro, é anterior à minha chegada. No entanto estivemos no outro dia a tratar de um processo de incorporação de uma peça que já cá estava. A palavra «incorporação» implica simultaneamente «entrar» e «legalizar». No outro dia legalizámos uma peça que já cá estava há muito tempo, uma peça da zona de Vila Franca de Xira, em ouro, que já tinha entrado no museu, mas ainda não estava incorporada no espólio do museu. Não estava exposta, sequer. Faltava ser incorporada no espólio, para pertencer ao Estado português, o que só aconteceu há muito pouco tempo. 

P — Como funciona esse processo nos termos da lei?

AC — Dentro do termos da lei, há um processo que se instrui até chegar a despacho da tutela.

P — O museu incorpora algumas coisas preferencialmente?

AC — Incorpora. Tenho neste momento em cima da mesa um assunto para tratar, que é a eventual aquisição para incorporação de um vaso grego de uma coleção particular.
No sentido da pergunta — «como é que nós nos relacionamos com a atividade arqueológica?» —, o MNA, desde a década de 1970 para cá, já não incorpora tudo aquilo que recebe, tudo aquilo que se escava. Muita coisa vai para outros museus. Felizmente, o país evoluiu e há muitos museus. E, além disso, incorporamos as peças com valor museológico, com valor científico de grande importância. O Menino do Lapedo, por exemplo, está cá. Porquê? Porque aquele resto antropológico, daquela importância científica e patrimonial, tem que estar no MNA. Não está exposto, mas está cá.

P — O MNA é um dos museus mais visitados do País.

AC — Pelas estatística de 2014, é o 4.º. O 1.º é o Museu Nacional de Arte Antiga, depois o Museu Nacional do Coches, o 3.º o Museu Nacional do Azulejo e o 4.º Museu Nacional de Arqueologia. É um dos museus da esfera pública mais visitados do País.

A Praça do Imperio vista da entrada do Museu Nacional de Arqueologia


P — Que razões é que aponta para este sucesso?

AC — Bem, há uma razão absolutamente fundamental e evidente, que é: o MNA está na Praça do Império. Está no perímetro desta «sala de receções» de Lisboa.

P — Falou-se em mudar o museu para outro sítio. Isso está fora de questão? Vai permanecer aqui?

AC — Há muitos anos. Hoje não é questão que se coloque, não. Certamente vai permanecer aqui, tanto quanto se pode prever o futuro. Não é tema que se discuta. Falou-se na Cordoaria, como nos anos 1950 se falava do sítio onde está hoje a Torre do Tombo. Sabia que houve um projeto para o Museu, para o sítio onde está hoje a Torre do Tombo? Está publicado numa edição da INCM; um livro chamado Manuel Heleno. Fotobiografia.
No passado discutiram-se várias localizações. Neste momento não se discute a mudança do Museu daqui [do Mosteiro dos Jerónimos] para fora.
Primeiro dado — o perímetro onde está situado.
Segundo dado, extremamente importante — como é que se explica a uma criança da escola, à comunidade educativa, um conjunto de realidades assim como no Museu de Arqueologia? Uma coleção que atrai muito as crianças da escola e a comunidade educativa, professores e alunos, é a Coleção Egípcia, com as múmias. Atrai imenso!
Depois, o Museu tem realmente umas peças de inegável qualidade estética, artística, arqueológica, cultural. Muitas das quais se podem ver na Sala do Tesouro ou nas Religiões da Lusitânia.
Depois — deixe-me um bocadinho «vender o peixe» da nossa relação com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, que também é justo —, a nossa exposição O Tempo Resgatado ao Mar atraiu muita gente. Nós não vamos ao fundo do mar. É um local inacessível. E daí a importância da exposição: o espólio que vem do fundo do mar, que o mar conserva para nós, que resgatamos ao mar (mas de que o mar é o ambiente de conservação) atraiu muito público. O Museu este ano teve uma subida muito grande, muito graças à exposição O Tempo Resgatado ao Mar, porque permite às pessoas verem um conjunto de bens culturais e de reconstituição de espaços que vêm do fundo do mar. E o fundo do mar é um ambiente misterioso...
Mais do que dizer que é o 4.º museu, é importante o crescimento do Museu em termos de público, porque ultrapassou a fasquia dos 100 mil visitantes por ano.

Aquela espada [que está exposta] veio do fundo do mar. Não tem tratamento possível, porque é só concreção calcária. E portanto, já que a íamos expor, deixámo-la dentro de água para ter esse elemento água na exposição. Ciclicamente temos que mudar a água, porque fica toda verde; tem lá tudo para haver vida: tem luz, tem água... Enfim, também tem umas substanciazinhas que vocês não veem, para que não cresçam «florestas» dentro de água (risos). Mas tem um valor cenográfico, que é o facto de ser água, e a sugestão do ambiente de onde provém a maior parte daqueles objetos.


Portanto, a nossa exposição O Tempo Resgatado ao Mar é uma exposição que celebrava os 30 anos de arqueologia subaquática. Mas é uma exposição que nos remete para uma outra questão política, que é muito importante: a defesa do património quando nos confrontamos com a extensão da plataforma continental. No momento em que Portugal discute, como desígnio nacional, a extensão da plataforma continental, o que é que temos que fazer com o património cultural português que essa extensão de plataforma continental nos dá? Muitas vezes não temos a possibilidade de tomar decisões, ou de ter um plano de ação para essa realidade. Mas temos a preocupação e a obrigação de colocar as questões. E esta exposição colocou claramente o património arqueológico subaquático em Portugal no centro do debate. Tem havido conferências, programas na rádio, várias ações. E houve uma comunidade — eu noto isso como diretor e utilizador do Museu — que se renovou aqui. A exposição congregou essa comunidade. Arqueólogos náuticos e subaquáticos que não vinham ao museu há muitos anos, e que se reuniram em torno da exposição.


P — Na sua História do Museu Etnográfico Português (1893-1914), Leite de Vasconcelos afirmou, em 1915: “achamo-nos assim indissoluvelmente ligados ao passado. Estudando este, prestamos pois culto aos venerandos velhos que nos legarão a herança que usufruímos» (pág. 76). Num mundo com a informação tão acelerada e acessível, com análises instantâneas e soluções prontas a aplicar, que papel desempenha esta ciência, a arqueologia, de soluções aparentemente tão minuciosas e datadas?

AC — Há um nível absolutamente imediato, que é o nível da descoberta. E, se quiser, faça o teste. Agarre em alguém que está a conversar sobre qualquer matéria, e diga: «Houve uma descoberta arqueológica, na China, no Egito, na Mesopotâmia, em Portugal, em Espanha, etc.». E o seu interlocutor para para ouvir. Porque a arqueologia está indelevelmente associada à dimensão de descoberta. De «grande descoberta». Isso é o primeiro nível, que não está aí na frase de Leite de Vasconcelos. É o nível do século XX. É um nível que a National Geographic e os grandes programas de televisão acabaram por cavalgar: as grandes descobertas.


E, portanto, a história da humanidade é pontuada, principalmente no século XX, por momentos de grande descoberta — foi a descoberta da cidade mítica de Tróia, foram as descobertas do túmulo de Tutankhamon, é a descoberta dos guerreiros em terracota na China,... É incrível, a dimensão da descoberta! E uma coisa que é interessante é que, apesar de nós sabermos muito sobre o planeta onde vivemos, de ele estar muito escrutinado, muito prospetado, muito esquadrinhado, nós somos surpreendidos por descobertas grandes. Onde é que isto se vê? Por exemplo na China, naquelas descobertas. São descobertas que ocupam vastas áreas; o exército em terracota ocupa uma área muito significativa. E lá estava, todo enterrado.


P — E aquela descoberta recente em Stonehenge…

AC — Exatamente! E para nós não havia dúvida: era um sítio arqueológico; um monumento da humanidade; uma maravilha da humanidade.
No Egito: grandes descobertas, permanentemente.
Ora, são sítios muito escrutinados onde ainda há grandes descobertas. Mesmo no território português, continua a haver.

P — Quais?

AC — Por exemplo, o Alqueva. O Alqueva trouxe mais de 1800 sítios arqueológicos novos. Há realidades novas que foram descobertas com a escavação, com os trabalhos de minimização do impacto ambiental na reconstrução da barragem. Mas agora, uma outra coisa em que tem que se pensar: e a rede de rega? Os canais de rega para puxar aquela água para dentro do Alentejo e de Espanha? Isso tem dado descobertas incríveis! Ora, há uma nova arqueologia com a Barragem do Alqueva, em numerosos sítios...

P — Já as barragens do Lindoso e de Foz Côa tinham dado origem a descobertas.

AC — E, recentemente, uma que não se construiu mas que deu origem a descobertas, por causa da prospeção intensiva: o Riba-Tua, o Sabor,... são realidades novas.
Portanto, voltando ao tema: arqueologia é, em primeiro lugar, descoberta. Se falarmos a alguém em arqueologia, a pessoa pensa numa grande descoberta.
Depois, há aquilo que o Leite Vasconcelos refere, que é o cruzamento de duas coisas: ele assume que é uma ciência — estamos a falar do conhecimento científico do final do século XIX, do positivismo. Leite Vasconcelos tem a noção de que tem que inventariar porque se pode perder. Tem a noção de inventário; de que precisa da arqueologia para compreender a etnografia; mas também precisa da etnografia para compreender a arqueologia.
O que é a etnografia portuguesa? Há um primeiro grande levantamento — a Etnografia Portuguesa, uma edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, cujos três primeiros volumes foram publicados em vida do Leite — que é como disse uma vez numa conferência sabiamente o Dr. Pedro Roseta, o Portugal monvmenta ethnographica; o grande corpus do conhecimento etnográfico; o grande corpus de usos e costumes. O Leite de Vasconcelos, introduz a ideia de herança, de legado. A arqueologia busca o legado. Só que neste sentido duplo: o presente etnográfico e o passado arqueológico. E porque é que era preciso a etnografia? Era preciso, para compreender os usos e costumes dos povos. Um homem com a dimensão de Leite Vasconcelos aplicava um código de leitura etnográfica ao reportório arqueológico que surgia. Portanto, ele olharia para um túmulo, e descrevia-o numa perspetiva também etnográfica, à época.

P — Objetos de arte e objetos arqueológicos são a mesma coisa?

AC — Um objeto arqueológico, no sentido em que é recolhido em determinadas circunstâncias e tem uma determinada antiguidade, é um objeto da cultura material, da cultura artística de um determinado tempo e de uma determinada civilização. Por exemplo, quando eu falo da Dama de Elche, falo de uma obra de arte da cultura ibérica. Para a época e para os Iberos, é uma grande peça, é uma obra de arte. Como é para nós, hoje, uma peça de elevada qualidade. Portanto, não é sempre a mesma coisa; todavia há peças arqueológicas com valor de obras de arte.

Dama de Elche. Mármore. Alcudia de Elche (Alicante, Espanha). Séc. V-IV a.C.
 Museo Arqueológico Nacional de Espanha


P — Existe uma disputa entre colecionadores e museus?

AC — Não. Tem que haver um diálogo. Quer dizer, se há um colecionador, que se porta mal, mas porta-se «legalmente» mal, «eticamente» mal; aí há disputa. Mas também existe disputa com outras profissões. Por exemplo, relativamente ao uso de detetores de metais; aí há disputa. Portanto, o colecionismo e a arqueologia não são contraditórios; o colecionismo sempre existiu. O que é a Villa Adriana? Uma grande coleção de obras de arte mandadas fazer pelo imperador Adriano, não é? Quando em época antiga se recolhem peças para trazer para os espaços, estamos a fazer colecionismo. O homem e o colecionismo sempre existiram; a recolha seletiva de alguma coisa sempre existiu. Mas o que há é uma componente ética de procedimentos desregulados, e por isso há conflito. Agora, quando um indivíduo se apresenta como colecionador, e tem uma coleção que obteve por meios legais — ou seja, em leilões ou que foi herdada, ou que vem por transmissão de família para família... Nós lidamos com tantos colecionadores privados de quem fazemos exposições! 

P — Existe uma espécie de mercado negro da arqueologia?

AC — Em Portugal não conheço. Como imagina, é sítio que nunca frequentei. Não nego que exista, e não nego que os acontecimentos recentes* à escala mundial são um fomento para esse mercado negro.

* À época desta entrevista, a Síria estava em guerra, e a cidade semita de Palmira, sítio arqueológico do neolítico classificado como Património da Humanidade, ia sendo repetidamente destruída.



P — Quando existe mercado negro, como é que se combate?

AC — É muito complexo. Por exemplo, quando há a invasão destes países, no momento da invasão já estão provavelmente no terreno determinados tipos de redes. Vimos recentemente no Egito um museu completamente despejado. Estavam as vitrinas completamente vazias. Estou a separar daquilo que se está a passar agora, que é destruição, delapidação, roubo para abastecer o mercado negro. Portanto, temos de ver tais conflitos mundiais com uma fortíssima preocupação também nesse domínio. Isto é, grupos organizados que aproveitam esta confusão para retirar, subtrair obras de arte pré-referenciadas para certas coleções, que os museus nacionais não compram nem acolhem.

P — O que é um achado fortuito?

AC — É encontrar alguma coisa num espaço, provável ou improvável. Por exemplo, na aldeia do avô — onde à partida já passaram milhares de pessoas, durante centenas de anos — encontro qualquer coisa que a chuva pôs à vista; ou que alguém destapou e ficou à vista, por exemplo… Isso é um achado fortuito.

P — Qual deve ser o procedimento a seguir quando se faz um achado fortuito?

AC — Depende do achado. Recebemos aqui neste museu, desde o tempo do Leite Vasconcelos, e com certeza o Museu vai continuar a receber, simpáticas cartas a dizer: «Estava em casa da minha avó, e encontrei isto. O que é que é?» Nós não conhecemos o sítio, e olhamos, e é uma peça arqueológica descontextualizada — é um bocado de cerâmica... é um bocado de uma ânfora... é andar na praia de Troia e encontrar qualquer coisa; é um achado. Neste caso, sabemos que é daquele sítio arqueológico. Agora, se for de uma praia em que nós não sabemos que há um sítio arqueológico, ou em que o mar arrojou à praia uma peça — como aconteceu este ano, em Esposende — é um achado fortuito. Então, a obrigação de quem acha é comunicar às autoridades. E hoje em dia não faltam autoridades. Nenhum indivíduo pode invocar desconhecimento. Podem comunicá-lo à câmara municipal, à junta de freguesia, à Direção-Geral do Património Cultural ou à direção regional da sua zona. E ao Museu Nacional de Arqueologia sempre. Se ligar para o museu, o museu tem um técnico que ajuda a enquadrar. Não falta legislação e não faltam interlocutores a quem se possa pedir apoio.



P — Há alguma coisa na legislação que a seu ver falte mudar, ou acrescentar?

AC — A legislação hoje está muito segmentada. A do património arqueológico subaquático é uma, por exemplo.
Agora, a Lei 107/2001, a lei de bases do Património, é uma boa lei. Está a ser aos poucos regulamentada, mas é uma boa lei. Foi uma lei muito discutida, muito pensada como a lei-quadro dos museus. Não nos faltam boas leis.

P — Às vezes o mais difícil é aplicar as boas leis…

AC — Estamos num sítio [o MNA] onde se aplicam essas leis. Aqui não há falta de aplicação. Quando estamos nestes edifícios e nestes cargos somos aplicadores da lei e muitas vezes somos legisladores. Há muitos colegas nossos que estão a trabalhar em pequenas comissões que apuram este ou aquele aspeto da lei para depois permitir que a tutela delibere sobre isso. Temos boas leis, e temos, acima de tudo, muita reflexão, muito trabalho, muita discussão. O Regulamento de Trabalhos Arqueológicos, que saiu há pouco tempo, é um excelente exemplo de trabalho de equipa de muita gente. Há, de facto, muita capacidade conceptual.

P — Tem uma bibliografia vasta que reflete a sua dedicação à história da Arqueologia em Portugal e a outros temas da Arqueologia clássica. Se tivesse de contar a história da arqueologia em Portugal, para um título da coleção «O Essencial», como é que contaria?

AC — Não tenho uma bibliografia vasta… A minha obra, se é que posso falar assim, é um compósito entre a gestão — já geri alguns equipamentos culturais e algumas redes —, a produção e a reflexão. O que fiz mais intensamente foi estudar a história da arqueologia em Portugal, que me interessa. E, fundamentalmente, a escavação de uma vila romana em Elvas, na Quinta das Longas, onde trabalhei muitos anos seguidos, mais de uma década, e com bons resultados, tanto quanto é possível dizê-lo, no sentido de trazer conhecimento novo para a arqueologia.
A história da arqueologia em Portugal é uma história muito interessante. Temos leis de património antigas interessantes. Por exemplo, a Lei do Património de 1721, podemos chamar-lhe «a lei de todos os patrimónios». É uma lei em que D. João V diz que temos de começar a proteger o que é nosso. É uma lei que fala de património material e património imaterial, e quer recolher tudo até ao reinado de D. Sebastião. D. João V pede à Real Academia da História que reflita sobre o que deve ser uma lei, e que esta sirva para defender o património comum, a nossa história, o património cultural português. Tivemos figuras notáveis, como por exemplo André de Resende, Francisco de Hollanda, Frei Bernardo de Brito; Frei Manuel do Cenáculo, pai do primeiro museu público em Portugal, pai de um regulamento de uma biblioteca de museu, posto ao serviço da edução, do ensino.
Depois, já no século XIX, em que a arqueologia acompanha o século da ciência, do desenvolvimento do positivismo, da corrente naturalista na arqueologia, temos uma corrente mais etnológica, mais etnográfica.
Depois temos o congresso de 1880, absolutamente fantástico. O congresso de 1880 é tão fantástico que até está tratado nas caricaturas do Bordalo Pinheiro. Reuniram-se em Portugal, para este congresso, a nata da intelectualidade europeia, com excursões científicas e visitas…
Depois em 1893 temos a fundação do Museu de Arqueologia e a ação de Leite de Vasconcelos. Pode-se pensar que é por ser o diretor do Museu Nacional de Arqueologia nesta década do século XXI que estou a dizer isto. Mas não. O Expresso, no dia 1 de junho de 2013, quando publicou os 100 portugueses mais importantes do século XX, na capa trazia o Leite Vasconcelos.
Depois, há um conjunto de gerações em que é difícil destacar em concreto alguém, mas há projetos que se destacam facilmente. Como, por exemplo, as escavações do século XX de Conímbriga, a chamada «missão arqueológica luso-francesa». Um trabalho importantíssimo de escavação, e simultaneamente de musealização e publicação de resultados.
Depois as escavações de São Cucufate, na Vidigueira, dirigidas pelo professor Jorge Alarcão. A nossa arqueologia é uma arqueologia vasta e rica, desde essa época até agora. Temos arqueólogos de várias gerações, agrupados em torno das três grandes universidades.
Depois há uma arqueologia pública, dos serviços públicos da geração do 25 de abril.
E agora há aquilo a que se chama uma arqueologia de contrato, onde nas empresas de arqueologia encontramos colegas com grande qualidade.

Alvará Régio de 20 de Agosto, publicado por D. João V, atribuindo à Academia Real da História a função
de inventariação e conservação dos exemplares mais representativos do património nacional.

P — Fale-nos um pouco de quando despontou a arqueologia subaquática em Portugal?

AC — O primeiro mergulho é em Troia, no âmbito das escavações do professor Manuel Heleno, no final dos anos 1940. De forma sistemática, aqui neste museu, com a ação do Dr. Francisco Alves e de muitas pessoas associadas.

P — Tem algum período arqueológico preferido?

AC — O período romano e, antes da época romana, a ocupação rural.

P — Ainda há muitos sítios arqueológicos para descobrir em Portugal?

AC — Claro!

P — Sob que influências e de que período é que se fazem mais descobertas em Portugal?

AC — De uma maneira geral, todos. No entanto, há alturas em que há mais gente a investigar o período pré-histórico, noutras o período romano. Tudo depende dos modelos que são seguidos. Agora há muita gente a investigar na área da pré-história.

P — Fazem-se relatórios das escavações?

AC — Claro! É obrigatório por lei.

P — Em que é que consiste a arqueologia preventiva?

AC — Como o nome indica, implica prevenção. É uma arqueologia de acompanhamento, como na medicina; uma arqueologia que visa intervir no terreno de modo a minimizar os impactos sobre o património de obras que possam ser aprovadas. É uma arqueologia muito séria!


P — Acha que a arqueologia é levada a sério nos vários processos de urbanismo do território?

AC — Quando não é levada a sério, o ato é ilegal. Hoje vemos muitas obras públicas e privadas em que a arqueologia entra antes da retroescavadora, antes da obra. E, se não é assim, é uma prevaricação, como andar em sentido contrário na autoestrada.

P — Que desafios é que se colocam à arqueologia e aos arqueólogos nacionais?

AC — Tantos! Tantos, desafios. Mas, acima de tudo, penso que é um desafio de internacionalização, para o qual a INCM e o Museu Nacional de Arqueologia estão a contribuir, ao colocar o Arqueólogo Português online, e ao arranjar o sistema de revisão dos artigos pelos pares, para fazer do Arqueólogo Português uma publicação extremamente disputada no ato da publicação de resultados.

P — Em que consiste a arqueologia experimental?

AC — São mais os colegas da pré-história que falam disso. Tem a ver com recriar determinados tipos de prática, na tentativa de simular, o mais próximo do real possível, determinados tipos de práticas e procedimentos.

P — A arqueologia beneficiou muito com os progressos tecnológicos? Ou uma escova de dentes e uma lupa ainda servem para fazer grandes achados?

AC — Claro que beneficiou. Começa logo porque hoje a fotografia é digital. O desenho é digital. Acabou-se a tinta-da-china. E os laboratórios evoluíram imenso. As técnicas que a ciência moderna trouxe invadiram a arqueologia como invadiram outras ciências. Mesmo a nível do ADN. Não é possível pensar-se fazer arqueologia sem o recurso a essas técnicas. A ciência é que é a mesma.

P — Genericamente, quais são para si os cinco sítios mais importantes da arqueologia nacional?

AC — Sítios importantes e que possam ser visitados? Por exemplo, há sítios muito importantes como o povoado da Parede, em Cascais, que foi o primeiro local em que se utilizou determinado método de escavação. Hoje é uma escola primária.
Conímbriga: não há dúvida que é um sítio arqueológico de grande importância e que ocupa um lugar de referência na mente de todos os portugueses. É o sítio arqueológico por excelência, quando se fala numa cidade romana. Se calhar, se houvesse um inquérito em que se perguntasse por uma cidade romana, a maioria dos portugueses responderia Conímbriga. Seriam poucos os que se lembrariam de Bracara Augusta, por exemplo. A cidade romana, para os portugueses, é Conímbriga.
Depois, não nos podemos esquecer do Vale do Côa e da Arte rupestre.
Noutra geração, diria Fratel, no vale do Tejo.
Não posso deixar de referir as grutas artificiais da época pré-histórica, como sepulcros.
O conjunto de Alapraia, do Estoril é impressivo do século XIX.
Outro em Almodôvar — um sítio onde eu escavei, que hoje é um sítio emblemático, e que até vem assinalado na autoestrada — chamado Mesas do Castelinho. Aí estamos mais voltados para o período islâmico, para o período romano republicano e para períodos mais antigos.
Temos ainda a vila romana de São Cucufate, na Vidigueira, que é um sítio também fantástico.

P — E sítios arqueológicos a nível mundial?

AC — É difícil fugir aos clichês.
O Egito, todo ele, tem um encanto especial.
Há uma cidade romana no Mediterrâneo fantástica, chamada Baelo Claudia, perto de Cádiz. Trata-se de uma cidade romana na praia; vale a pena visitar.
Depois há Matmata, na Tunísia.
Villa Adriana, na cidade de Tivoli.
Roma…
São muitos, muitos, muitos… É muito difícil dizer todos os de que gostamos, sem nos escaparem alguns.

P — Se pudesse visitar já amanhã algum sítio arqueológico, onde é que ia?

AC — Voltaria ao Egito. Ou então iria a Petra, onde ainda não fui. Há muitos sítios, onde neste momento existem guerras, que são sítios emblemáticos. As cidades da Líbia, por exemplo.

P — Como é que viu a ação dos jihadistas em relação à destruição da arte síria?

AC — Com profunda tristeza, como é óbvio. Da mesma maneira como vi o que aconteceu no Afeganistão, com os Budas. Acontecem em muitos momentos da história da humanidade, inclusive da história do século XX, situações destas que nos afetam. Não é um problema de serem bens arqueológicos. É o facto de serem crimes de lesa-património. Como quando os nazis queimaram os livros em Bebelplatz, por exemplo. Estas situações afetam-nos, fazem-nos sentir pobres, devastados com aquilo que estamos a ver.

P — Questionamos a nossa natureza…

AC — Claro. E mais: a cultura não nos salva. Podemos ser muito cultos, muito conhecedores da importância das coisas, e depois a cultura não nos salva. Por isso é que o combate pela cidadania é um combate permanente. Como nunca sabemos quando é que pode haver uma perversão, temos sempre de combater pela cidadania.

P — É licenciado em História pela FCSH. Iniciou-se na Arqueologia entre 1983 e 1985, com os trabalhos de prospeção de fornos romanos no vale do rio Sado e também no rio Tejo. É investigador da Unidade de Arqueologia da Faculdade de Letras de Lisboa, desde 1990. O diretor do MNA tem saudades do arqueólogo? Ou consegue conciliar as duas coisas?

AC — O diretor do MNA não está a fazer arqueologia de campo.

P — E saudades, sente-as?

AC — Claro! Mas o diretor do MNA está concentradíssimo numa tarefa muito importante — e que é uma honra — que é dirigir um museu centenário, que é um espaço de exposição, de encontro, de referência cultural no panorama nacional. Não é compatível neste momento pensar em ir para o campo escavar.

P — Nem nas férias, Sr. Diretor?

AC — Olhe, as férias este ano foram passadas a preparar a exposição Lusitânia Romana. Origem de dois povos. O ritmo da sociedade e os museus nacionais implicam uma dedicação exclusiva.
Mas, claro, essa vontade de ir para o campo é uma vontade comum a muitos de nós. Deve ser um atributo dos arqueólogos. Devem ser muito poucos os arqueólogos que fizeram trabalho de campo e que lhe digam «detesto o campo, não quero voltar». Agora, o trabalho aqui neste museu é constante, absorvente e de grande dedicação, com o desafio de abrir o museu, de reunir muita gente à volta de muitos projetos, de internacionalizar o museu e de contribuir para que os museus nacionais sejam espaços de encontro, de construção de uma cidadania plena e ativa, de debate.
Sem esquecer a parte da investigação. Há muita descoberta nova que é feita nas coleções, nos laboratórios deste museu. Estamos a dar apoio a projetos em Marrocos. Na Universidade Nova de Lisboa, estamos a ajudar a formar jovens técnicos de conservação e restauro, que é uma dimensão muito importante do museu, pela transmissão de conhecimento. É muito importante que estes contratos geracionais não se rompam.

P — Indiana Jones, Lara Croft, Benjamin Gates… No cinema apresentam os arqueólogos como aventureiros que partem em busca de vestígios de civilizações antigas nos lugares mais recônditos do planeta, sempre envoltos em grandes mistérios. É uma boa caracterização do arqueólogo?

AC — Não! Gosto desses filmes, como filmes de aventuras. Nunca achei em momento algum que fosse esse o caminho. O Carter, que descobre o túmulo de Tutankhamon, nem ele entra nesse modelo. É um homem de fato, estudioso, concentrado; aventureiro, no sentido em que está no Egito; mas não entra neste modelo de aventura. Ainda por cima, há sempre armas de fogo associadas a esse tipo de filmes, e muito poucas pás, picaretas e escovas [risos].

P — Não serão os filmes a refletir a ameaça do tal mercado negro?

AC — Não se percebe muito bem. No Indiana Jones há um terreno nebuloso. Como é que ele obtém aquelas peças? Não é um modelo de arqueólogo. Olhe o Leite Vasconcelos ou o Estácio da Veiga: o que é que eles têm a ver com esse modelo? Nada! O que eles são é aventureiros do conhecimento, do ponto vista intelectual. Do ponto de vista físico também são, quando vão para escavações arqueológicas. Mas não funcionam nesse quadro que Hollywood nos vendeu. Esse tipo de filmes vendeu-nos a imagem do arqueólogo de Hollywood, que nem sequer é o arqueólogo americano.

P — Isso quer dizer que não há um Indiana Jones português?

AC — Não. Não há mesmo. Há pessoas fascinantes e que tiveram projetos de investigação fascinantes, é verdade. Mesmo que aquela pessoa vá para teatros de guerra resgatar peças — roubar peças, no fundo —, depois não se vai sentar numa Universidade a dar aulas, como fazia o Indiana Jones. Quem é um caçador de tesouros não se senta a dar aulas, ou não trabalha no museu.

P — Conhece caçadores de tesouros?

AC — Não. Pode ser que haja um português nalguma parte do mundo que ande a fazer isso. Agora, que eu conheça, não.

P — E conhece investigações que se tornaram verdadeiras preciosidades?

AC — Houve gente que se dedicou a um tema de forma muito fascinante, e fascinou os outros, movendo montanhas. Cláudio Torres foi para Mértola com uma equipa, e hoje tem um centro de investigação e pôs uma cidade no mapa do património. Também o Dr. Francisco Alves, com a arqueologia náutica e subaquática. O Dr. Jorge Custódio, com arqueologia industrial. A aventura dos jovens da década de 70 que foram para o Fratel. A chamada «geração do Tejo», agora tem até uma avenida em Vila Velha de Ródão. A esta geração pertenceram o antigo diretor deste museu, Dr. Luís Raposo, e muitos outros: Mário Varela Gomes, Martinho Baptista, Sande Lemos… Essa dimensão de ir para o campo, é uma aventura de trabalho científico, de empreitada científica, igual à de Leite Vasconcelos.

P — Em que consiste o trabalho do arqueólogo moderno?

AC — O arqueólogo de hoje não tem necessariamente de estar no campo, e tem um grande grau de especialização.





P — Estamos quase no final desta entrevista. Há que voltar ao museu, e saber que exposições é que estão neste momento* no MNA

AC — O MNA tem, neste momento, 4 exposições temporárias e 2 exposições permanentes.
Uma exposição permanente é a da Sala dos Tesouros da Arqueologia Portuguesa — dizemos Tesouro para simplificar porque é a Sala dos Tesouros da Arqueologia Portuguesa —, inaugurada em 1980.
E a outra exposição permanente é a da Sala das Antiguidades Egípcias, aberta ao público em 1993. Esta última, além de algumas doações, tem fundamentalmente dois núcleos principais: a antiga coleção real e o resultado da deslocação de Leite Vasconcelos ao Egito, numa época em que era preciso trazer as coleções para apresentar nos museus; em que era preciso mostrar exatamente como a realidade era; e, na época, era fácil para um investigador relacionar-se com outros investigadores de outros países, neste caso do Egito. Portanto, há um conjunto de peças que resultam dessa viagem do Dr. Leite Vasconcelos, o que faz com que o MNA tenha a maior coleção de antiguidades egípcias num museu público em Portugal. Há outras; todavia, esta é a principal, muito estudada também. Estas são as duas que podemos dizer permanentes: foram construídas, foram pensadas, concebidas, produzidas e apresentadas como exposições permanentes.

Depois temos, ainda na ala nascente, as Religiões da Lusitânia, que é uma exposição que tem a ver com a INCM, porque a obra Religiões da Lusitânia é a tal obra em 3 volumes publicada na INCM — o primeiro volume em 1897 (época pré-histórica), o segundo volume em 1905 (proto-história), e o 3.o e último volume em 1913 (época romana, só para simplificar). E desta obra, Religiões da Lusitânia, em três volumes, na viragem do século passado para este século, sensivelmente 100 anos após a 1.a edição, já houve uma reimpressão. Entendeu a direção do museu propor a um arqueólogo e diretor de outro museu — o Dr. José Cardiga Ribeiro, diretor do Museu Arqueológico São Miguel — que pensasse numa exposição que no fundo assinalasse esse centenário das Religiões da Lusitânia, cujo catálogo é aquele livro volumoso. Assim, Religiões da Lusitânia é o nome da obra que foi editada pela INCM e também o nome da exposição temporária, todavia sem se definir uma data para ser terminada, devido ao investimento que foi feito. E tem permanecido porque é uma exposição que vai desde a chegada dos romanos ao atual território português até à época da cristianização. Contempla um grupo vasto de peças e bens culturais, que no fundo funcionam como uma linha de tempo para explicar ao visitante como foram a vida e a cultura do homem com o meio ambiente, etc.

Depois as divindades neste território: na Hispânia e, dentro da Hispânia, na Lusitânia. É uma exposição que inaugurou em 2002 e continua patente ao público, mas não foi pensada como uma exposição permanente.

Depois, inaugurámos no ano passado uma exposição temporária, O Tempo Resgatado ao Mar, onde se contam basicamente 30 anos de investigação de arqueologia náutica e subaquática em Portugal. Fez 30 anos que a arqueologia náutica subaquática começou, aqui neste museu, em 1980 pela ação do Dr. Francisco Alves. Mas este tempo aqui é o Tempo; todo o tempo. É o tempo de relação do homem com o mar; das histórias que ocorreram e da história trágico-marítima; dos vestígios que o mar conserva para nós. A exposição começa na idade de uma navegação antiga, e vem até 1942. Há três frascos de farmácia de um navio inglês, afundado aqui no território nacional num episódio da 2.ª Guerra Mundial. Esta é uma exposição extremamente interessante.


Falta-me uma exposição nova que temos, e de que eu gostaria de falar: a coleção africana do nosso museu, que também foi um desafio lançado a uma conservadora do museu, a Dr.ª Isabel Santos. Desafiei-a a fazer esta exposição por o museu fazer 120 anos.

Com estas exposições, revisitávamos várias épocas de constituição do museu, que nunca foi para ser um museu colonial mas que, do ponto de vista etnográfico e do ponto de vista dos rituais, esse era um tema que interessava ao Dr. Leite Vasconcelos. O Dr. Leite Vasconcelos recolheu algumas peças muito significativas, tão significativas que temos uma peça no Museo Comunale de Milão. Uma exposição fantástica! A peça foi pedida de propósito para essa exposição, e lá está um grande sinal de arqueologia portuguesa.
O MNA tem bens culturais distribuídos por 44 coleções de outros museus, nacionais, regionais e locais.

P — Para terminar, Shakespeare escreveu: o passado é o prólogo. O que acha?

AC — Percebo o sentido, mas o passado não é o prólogo. Isso é partir do princípio de que eu conheço o presente, e estou a falar do presente olhando para o passado, sabendo que vem aí o futuro. O passado não é prólogo. O passado pode ser o território do prólogo do desenvolvimento e do epílogo. Não é necessariamente o prólogo.



TPR / RAS


* Entrevista realizada em abril de 2015.


por Guilherme d'Oliveira Martins

«No último fim-de-semana, o CNC organizou, aliás, no Centro Cultural de Belém o dia de Eça de Queiroz, que foi um grande sucesso de público, com grande qualidade nas intervenções.

(...)

É recorrente o debate sobre a atualidade da obra de Eça de Queiroz.(...) Apesar das profundas transformações que sofreu, a sociedade portuguesa, no último século, apresenta óbvias continuidades, que o sentido irónico de Eça fixa com especial talento, a ponto de sensibilizar e motivar os leitores de hoje para os elementos que se mantém – desde o centralismo e da burocratização, até ao formalismo e à pequenez de ambientes e procedimentos.»

Artigo completo aqui.
https://drive.google.com/file/d/0B1TJkxizP5Wua3ByQzgwbnBDYXM/view?usp=sharing

Ver vídeo.

José Tolentino Mendonça, presidente do jurí do Prémio INCM / Vasco Graça Moura, a propósito da seleção da obra vencedora da primeira edição dedicada à Poesia: história do século vinte, de José Gardeazabal.

«A obra vencedora é uma obra que se destaca e que há de marcar a poesia do nosso tempo pela sua originalidade, pela sua contundência, pela qualidade, pela novidade. É uma obra que traz um modo novo de fazer poesia. Isso (...) fará com que as próximas edições despertem ainda maior interesse e maior curiosidade.»

Depoimento na íntegra.