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FERNANDO GIL (1937-2006) #1 — Carta (incompleta) de José Marinho a Fernando Gil

Meu caro Fernando Gil:

Sempre é certo que a Aproximação Antropológica é qualquer coisa? V. o reconhece agora. Em filosofia como em poesia há Embriões. É o título ingénuo, rústico, mas tão cheio de promissor sentido!, do primeiro livro de Teixeira de Pascoais. Ele depois escondia-o na lista das obras. O seu embrião filosófico é, penso eu, melhor que os «embriões» poéticos dele.

Ter tido uma antevisão de que toda a antropologia emerge numa cisão, ou a ela em qualquer momento aporta, foi a sua juvenil façanha. Foi isso que desde início nos ligou. Pois embora cada vez mais para mim não só o humanismo evanesça mas se reduza o homem à sua originária ou conatural pouquidade, sempre é certo que me interessam fundamente os ontólogos a partir do ser no homem, os sérios onto-antropólogos // [2] do evanescente instante consciente que dura neste ponto indimensional dilatado que é o nosso universo sempre para nós ameaçado de plurIversão — como nós agora, e não só cientificamente, mas também poética e esteticamente sabemos. Este enunciado lhe permite ver como, para mim, a sua esboçada onto-antropologia polarizada no Amor e no Nada, com suas conotações husserlianas ou heideggerianas, sartrianas ou em Merleau-Ponty, que a ajudaram a ser, radica em algo fundo.

A dificuldade está, e por experiência eu sei, que toda a fidelidade em filosofia é proibida, e que V. tem de passar pelo outro (ou o Outro) para consistir no mesmo que vê e não vê, pensa e não pensa // [3] ainda. Em mim, a cisão foi a possibilidade de encontro com o Outro e suas atuais presenças ou fantasmas. V. partiu dela. Que maravilhosa aventura se reserva agora em seu destino?

Eu creio que tudo agora consiste para si na necessidade de relação funda com a mathesis. Ela deixou de ser universalis, coitada! Vir do uno ao múltiplo foi ao homem dado. Hoje, contudo, as formas do regresso dos Platão, Plotino, dos medievais, dos Espinosa ou Leibniz, vemo-las como demasiado simples. Não será que eles confundiram múltiplo com diverso?

A difícil situação da filosofia está, penso eu, em que a crítica da metafísica foi o último estrebuchar do homem e da lógica do homem. A verdade é que a exigência metafísica se redobrou. // [4] Não é Deus que está para além do Nada, sabemos que Deus está aqui, em toda a parte, em todo o instante e tempo, no sem lugar, no sem parte, nem tempo. O [[que]] Nada que se interpõe é, com Deus, aqui, separa-me de mim, de mim separa o que sou, o que sei. A negação de Deus ou a afirmação de Deus tornaram-se-me hoje suspeitas, aqui V. e o seu pensar suspeitos, e, com o seu ser e pensar suspeitos, o mesmo em mim, [[,]] o outro-mesmo em mim, não o, mas os, diria, após reflexão logo seguida, pois o múltiplo também dentro nos invade e sou único sem razão em mim de o ser. Resulta que, só sabe, o que diz plenamente e sem ingenuidade ou obstinação: Sou. Simplesmente, é um modo de dizer // [5] pretérito dos homens, ou nos homens. Não o sei, só ele se sabe e me sabe. No silêncio. Difícil silêncio! Como aceder ao silêncio?

Não, não é mística, pelo menos a mística que, em geral, chegou à fala, à palavra filosófica ou filosofada.


Tenho sorrido um pouco, estive a reler alguns passos da obra, sorrindo do admirado Bergson. Também esse pagou caro o imoderado amor de ser. Acabou por tomar a mística como exemplar!
Lembro o [[seu de]] que diz da sua perplexidade [[com]] o pensamento francês. Eles não têm o sentido da origem principiai. Filosofam todos a partir do homem e da razãozinha com qualquer suplemento. Sob tal aspecto, essencial, Descartes e Pascal, Malebranche, Maine de Biran // [6] ou Bergson têm a mesma gnosiologia. Viajam sempre com a costa à vista.
 

Deixemo-los e falemos de coisa mais séria, falemos dos que sabem que a razão filosófica é gerada por cada filósofo — ; se quisermos depressa dizer o de outro modo mais difícil. Fiquei suspenso um momento ao ler a sua carta: Desde há dez anos que tento pensar a negação, o que, como se sabe desde Platão, parece ser em princípio impossível-infazível.
 

Talvez tenha sido isso que me pôs, após a referida suspensão, na urgência de escrever-lhe.
 

Tenho andado a tentar uma pequena elucidação (palavra degenerada!) da Assunção do Nada. Pretendo aí mostrar //

 

Convenções de transcrição:
[[ ]] passagem riscada.
< > passagem interpolada.
// termo de folha manuscrita.


Carta (Incompleta) de José Marinho a Fernando Gil
(1961 ?)
in Prelo, n.º 1, 3.ª série, janeiro-abril de 2006,
Lisboa: Imprensa Nacinal-Casa da Moeda, 2006
(texto editado segundo o AO90)

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