FERNANDO GIL (1937-2006) #2 — A Razão Fragilizada

por Miguel Real

1. CONTEXTUALIZAÇÃO

Na vasta obra de Fernando Gil (1937-2006), emergem com clareza dois períodos de labor filosófico: o primeiro, prolongando-se ao longo das décadas de 60 e 70, constitui um tempo de dispersão e de multiplicação de atividades e apelos filosóficos, bem como de uma particular errância intelectual e geográfica; o segundo, que define estruturalmente o núcleo de problemas filosóficos e epistemológicos que individualizam o seu pensamento, inicia-se em princípios da década de 80 e constitui-se como um corpo conceptual coeso e singular em 1993 com a publicação, em Paris, do Tratado da Evidência (edição portuguesa de 1996), desdobrando-se em inúmeros textos posteriores, todos centrados (ou, de certo modo, subsumidos) em torno da questão da «evidência», ou seja, da questão da autoaceitação subjetiva da existência de uma verdade incontestável.

No primeiro período, destaca-se a intensa atividade de tradutor, tanto de ficção (1) como de ensaio (2), bem como produção filosófica própria expressa no livro Aproximação Antropológica (3), onde, sobre uma terminologia de evidente inspiração existencialista (M. Heidegger, J.-P. Sartre, K. Jaspers, porventura José Marinho e a sua «teoria da cisão») e sob um horizonte ético-social antiburguês (4), se desenha uma teoria da «subjectividade» com base na fenomenologia de Husserl, que, curiosamente, prenuncia, sobretudo nos apontamentos ou reflexões sobre a teoria da «consciência originária» «antepredicativa» (5), a busca de uma «teoria da evidência», realizada com sucesso vinte anos depois. Possivelmente, o conteúdo das páginas 65 e seguintes deste ensaio revelar-nos-á o pensamento de Fernando Gil ao 24 anos de idade, bem como a sua então «teoria da subjetividade», a qual, ainda que quase exclusivamente integrada na fenomenologia, não deixa de corresponder, duas décadas depois, à sua concretização, mutatis mutandis, na tematização do esgotamento da subjetividade moderna e na busca de uma nova formulação do Eu, explorada e concretizada na sua teoria da evidência de 1993, exprimindo-se, assim, não uma continuidade sistemática ou lógica no seu pensamento, mas uma continuidade temática e problemática no âmbito geral dos estudos filosóficos.

Na passagem entre os dois períodos, Fernando Gil publica La Logique du Nom e desenvolve inúmeros estudos filosóficos temáticos para a Enciclopédia Einaudi enciclopédia filosófica italiana dirigida por Ruggiero Romano, de cuja publicação se torna, desde 1983, «coordenador responsável» em Portugal, editando-se na Imprensa Nacional-Casa da Moeda cerca de 40 volumes até ao ano 2000 (6). Entre 1975 e 1977, Fernando Gil leciona na Faculdade de Letras de Lisboa e, em 1978, o seu nome surge referenciado como «de quem se deve um forte sustentáculo para a formação» do Grupo de Investigação de Filosofia e Epistemologia. O «GIFE, criado em Junho de 1977, era constituído por diversos recém-licenciados em Filosofia, como António Marques, Manuel Maria Carrilho, Zazá Moura, Maria Filomena Molder. Propunha-se «fazer filosofia»:

[...] e evitarem aquilo que, entre nós, a vida pós-universitária, e em particular o ensino, tão sugestivamente propiciam: o abandono de qualquer trabalho de investigação, a resignação à banalidade, a cedência aos manuais, a derrapagem autista e a consolação magistral. Inicialmente ligados por um vago projeto que encontrava as suas referências comuns na «filosofia das ciências», este grupo foi definindo ao longo de um ano de regulares sessões de trabalho semanais as suas específicas áreas de trabalho: por um lado, a epistemologia, encarada no seu alcance e problematicidade próprios mas também nas suas margens mais rebeldes e críticas, por outro lado, a análise filosófica de problemas ligados à comunicação, seja através da filosofia da linguagem, da abordagem estética ou da perspetiva pragmática. [...]

Foi por isto que decidimos criar este grupo e ainda porque, em Portugal, as melhores «vocações filosóficas» acabaram frequentemente por se encaminhar para a crítica literária, para a pedagogia ou para a história da cultura, precisamente pelas dificuldades que a investigação filosófica sempre enfrentou entre nós. (8)

Na mesma «Apresentação», o GIFE demarca-se claramente de duas formas tradicionais de «fazer filosofia» em Portugal:

O que exige que nos demarquemos de duas coisas: da filosofia tradicional universitária e da chamada «filosofia portuguesa». Da filosofia universitária porque só por uma reformulação que atingisse as próprias vísceras ela se poderia libertar dos efeitos (ligados a uma história de meio século) que ainda persistem e das práticas que os perpetuam; da filosofia portuguesa porque nos situamos nas antípodas das suas tentações serodiamente nacionalistas ou dos seus ilusionismo místicos, que de resto já não têm força nem eco. (9)
Ainda que texto colectivo, não é difícil de entrever, nas linhas gerais desta «Apresentação», o estilo frontal e político (isto é, de vincular questões filosófico-institucionais a um horizonte histórico-político) de Manuel Maria Carrilho. De facto, o GIFE e as suas publicações traziam um espírito novo à filosofia em Portugal: o espírito de investigação sobre problemáticas epistemológicas, a modernização da terminologia, o contacto com autores de ponta em diversos países do Centro da Europa e, sobretudo, um fortíssimo corte com o tradicional modo de fazer filosofia em Portugal — ou a erudição académica, tão pessoalmente gratificante quando nula de consequências para a história do pensamento, ou a cavalgada lírica de uma retórica inspirada, não raro centrada na defesa de posições nacionalistas ou eclesiais (10).

Em 1982, sai a público o título Estudos Filosóficos, vol. I (sem continuidade) (11), edição da Universidade Nova de Lisboa, registando o trabalho produzido no primeiro ano de pós-graduação em Filosofia, no ano lectivo de 1979-1980, no seminário leccionado por Fernando Gil, onde surgem, pela primeira vez reunidos, os nomes daqueles que até hoje têm constituído, não exclusivamente, o rosto da filosofia em Portugal até à atualidade: Viriato Soromenho Marques, Maria Filomena Molder, António Marques, Trindade dos Santos, João Sàágua, Mafalda Blanc, Manuel Maria Carrilho.

Em 1984, Fernando Gil cria a revista Análise, revista do Gabinete de Filosofia do Conhecimento (no entanto, apenas criado em 1985 12), onde, amortecendo a novidade revolucionária do aparecimento do grupo GIFE seis anos antes e recusando as dicotomias radicais «velho-novo», «metafísica-ciência», escreve como apresentação:

Há muitas moradas na casa de Deus, mas a análise é o único método em filosofia. Por isso, tantas revistas têm este nome, sinal de um compromisso a que pretendemos também vincular-nos.

Será o único. Análise não privilegiará moradas dentro do conhecimento. Está aberta — é um convite — à reflexão metafísica, à filosofia das artes e das ciências, do direito e das ciências humanas e quereria ser ocasião de confluências e lugar de acolhimento para o risco de pensar por conta própria.

Análise não procura ser atual ou inatual, castiça ou estrangeirada, não lisonjeará, quer o perto, quer o longe, a contemporaneidade ou a filosofia perene e fechará as portas à ideologia. Publicação de um tempo tão problemático quanto os outros tempos, mas mais terrível que todos, Análise opor-se-á ao monopólio das escolas sem se arrogar saber onde reside o interesse do homem (Crítica da Razão Pura, prefácio à 2.ª edição). Mas sabemos que o eterno retorno dos grandes problemas pode ocultar a deslocação e deriva, assim como motivos de reflexão menos caucionados, menos facilmente localizáveis, mais discretos. Paul Valéry escreveu que o espírito sopra para onde pode — e só importa que ele habite o sopro. (13)

De facto, concretizando o conteúdo da apresentação da revista, Análise faz a ponte com o tradicionalismo filosófico português, atribuindo algum privilégio a inéditos de Delfim Santos e José Marinho, integrando igualmente um artigo de Carlos H. do C. Silva, pensador de profunda vocação espiritualista, que, aliás, publica igualmente nos segundo e terceiro números; no n.° 7, António Braz Teixeira relembra a polémica entre António Sérgio e José Marinho e apresenta inéditos de Silvestre Pinheiro Ferreira; o n.° 13 (1989) é integralmente dedicado a pensadores portugueses. Assim, sobre a aparente ruptura filosófica desejada por Manuel Maria Carrilho em 1978, prevaleceu indubitavelmente a visão continuísta da história da filosofia de Fernando Gil. Sem o dramatismo de Manuel Maria Carrilho, e um pouco à semelhança da Revista Filosófica de Joaquim de Carvalho, da década de 50, Fernando Gil, em Análise, continuou a revolução silenciosa da filosofia em Portugal, primeiro reunindo uma plêiade de investigadores (para além dos nomes apontados em Estudos Filosóficos, e com exceção do nome de Manuel Maria Carrilho, juntam-se-lhe agora Nuno Nabais, Olga Pombo, Rosa Alice Branco, Manuel Silvério Marques, Maria João Ceboleiro, Isabel Matos Dias, Maria Luísa Couto Soares, Adelino Cardoso, Diogo Pires Aurélio, Marta Mendonça, Irene Ferreira, Paulo Melo, ...) que, em si, têm constituído grande parte do rosto visível da nova investigação filosófica em Portugal; segundo, abrindo as páginas da revista à colaboração internacional — de facto, com exceção do n.° 13, a presença de investigadores estrangeiros a par com a de investigadores nacionais atravessa todos os números de Análise, tanto elevando deste modo a qualidade dos artigos como subtraindo a filosofia a qualquer forma de ideologia ou privilégio nacionalista. Continuando a participar em Análise, Fernando Gil abandonou a sua direção em 1998, no n.° 20 , passando a ser dirigida por Maria Luísa Couto Soares, recentemente substituída por André Barata.


2. TEORIA DA EVIDÊNCIA

1985 parece ter constituído o annus mirabilis do pensamento de Fernando Gil. No ano anterior, publicara o árido, multivalente e dispersivo volume de Mimésis e Negação, «elemento de um sistema que o não é», simultânea síntese da profícua colaboração do autor na Enciclopédia Einaudi e da lecionação nos seminários de pós-graduação da Universidade Nova de Lisboa; enfim, síntese de dez anos de atividade filosófica, desde a publicação, em França, de La Logique du Nom. Dividido em quatro capítulos, «Representar», «Categorizar», «Inventar» e «Conhecer», com uma introdução sobre «Os tempos do pensamento» e «A explicação e os seus objectivos», Mimésis e Negação, disparando filosoficamente em todas as direções, se assim nos podemos exprimir, recolhendo formulações e interpretações próprias da história da filosofia, com um fortíssimo destaque para Kant e Leibniz, lendo as antigas problemáticas da representação, da categorização, da imaginação e do conhecimento através de um quadro epistemológico contemporâneo, parece circular em torno de uma tentativa (não sistemática) de teorização ou de categorização da relação contrastiva e opositiva entre uno e múltiplo, contínuo e descontínuo, todo e partes, mesmo e outro, na qual a «afinidade» «mimética» entre os elementos conceptuais dos pares não anula a negatividade da diferença, da alteridade, da pluralidade, isto é, da sua «negação»:

Do realismo da representação e do idealismo da interpretação, a um realismo da interpretação — ou, antes, do conflito das interpretações. A imaginação é por essência plural e pertence à ideia de conjetura poder ser contrariada por uma outra conjetura; e entender-se-ia assim o princípio, quer das adequações, quer (num único gesto) da negação, da controvérsia, do erro, do resto. O realismo comporta tentativas e erros, é o sistema das interpretações que, assimptoticamente, se declarará isomorfo do mundo.

Porém, pluralidade não significa ainda continuidade; além disso, só graças a uma espécie de passagem ao limite (ficção, justamente, de uma continuidade) as incompatibilidades poderão parecer extremas da pluralidade... A negação implica analiticamente a pluralidade, mas não é implicada por ela. Com a contradição, instala-se, de uma só vez e para todo o sempre, um regime mais forte: um hiato irrecuperável separa a incompatibilidade da pluralidade e da continuidade.

O materialismo — isto é, um pensamento por natureza incompleto, deficitário, e não uma harmonia preestabelecida — saberá reconhecer que a mimésis universal permanece uma ideia reguladora. Falta-nos um «esquematismo» convincente (sem petição de princípio e a título não somente programático), capaz de estabelecer, para cada sistema de ocorrências, a articulação dos objetos da ciência com a manifestação empírica. Dito numa outra linguagem, as epistemologias da continuidade são insuficientes. Há continuidade dentro de fenomenologias mais ou menos arbitrariamente identificadas, e entre algumas das fenomenologias, e assimptoticamente todas. Contudo, o sistema, o todo, está ocultado pelos resíduos, e as partes são fragmentos, terrivelmente desconexos. Nenhuma continuidade une o tempo reversível da mecânica clássica e a irreversibilidade termodinâmica, ação a distância e campo, inconsciente e consciente, existência e morte. Assimptoticamente, representar-se-á o discreto como um ponto de ruptura dento do contínuo. Contudo, o contínuo dá-se dentro do descontínuo, o múltiplo é permanentemente mais poderoso do que o uno, a ligação comporta hiatos (datur vacuum formarum) e nunca é necessária. A lei de continuidade é uma só «máxima da razão»: «no entanto, embora, em rigor, não seja verdade que o repouso é uma espécie de movimento ou que a igualdade é uma espécie de desigualdade, do mesmo modo como não é tão-pouco verdade que o círculo é uma espécie de polígono regular, contudo pode dizer-se que o repouso, a igualdade e o círculo terminam os movimentos, as desigualdades e os polígonos regulares a que, por uma modificação contínua, estes chegam desvanecendo-se. E embora as terminações sejam exclusivas, isto é, em rigor não compreendidas nas variedades que limitam, têm contudo as respectivas propriedades, como se nelas estivessem compreendidas, segundo a linguagem dos infinitos ou infinitesimais, que considera o círculo, por exemplo, como um polígono regular cujo número de lados é infinito... (Leibniz), A afinidade não explica a disparidade irremissível de semelhança e contraste, mesmo e outros, que não representam extremidades de um contínuo, mas são absolutamente descontínuos. O facto da negação — do contraste, da oposição, da controvérsia — é o limite insuperável da mimésis.

Na obra de Fernando Gil, a emergência da teoria da evidência postula-se como resultado dos três anteriores objetos de investigação filosófica por parte do autor:
  1. O tema da categorização ou da formalização lógica e epistemológica, cuja exploração maior se encontra nos diversos artigos que constituem o todo de Mimésis e Negação;
  2. O do estatuto da controvérsia, já formalizado no último capítulo deste livro, ponto 6, onde se deixa em aberto a objectividade de uma teoria da controvérsia , continuado em 1985, em Provas [1986], relativamente ao «bom uso a fazer das disputas da razão», que, com base nos quatro pares de conceitos da «tópica transcendental» de Kant, o autor reconverte numa espécie de «quadrado» paradigmático da controvérsia, e, ainda em 1985, prolongado pela intervenção de Fernando Gil no colóquio «Controvérsias Científicas e Filosóficas», organizado pelo Gabinete de Filosofia do Conhecimento em Évora, de 2 a 7 de Dezembro de 1985, onde de novo o autor refere o «carré de la controverse», agora com uma classificação conceptual pessoal — independentemente da sua formulação lógica e da sua fundamentação filosófica, Fernando Gil conclui, com Kant, que «as controvérsias são constitutivas e não um preliminar do exercício do pensar»;
  3. O das provas lógicas e experimentais que solidificam a decidibilidade de uma teoria (formalizada e controversa) face a outra(s), como o evidencia a escolha do conteúdo e do título em que regista as «provas» (assim também designadas, no sentido de «pôr à prova» o candidato) de agregação em Filosofia do Conhecimento, na Universidade Nova de Lisboa, em 1985, mas já fortemente tematizado em «Preuve» e em «Do direito à teodiceia: Leibniz e o ónus da prova nas controvérsias», e, em 1986, em «Das provas à controvérsia».
Como se nota, «categorização», «controvérsia» e «prova(s)» constituem-se como temas recorrentes e circulares entre si na obra de Fernando Gil desde a primeira metade da década de 80, que, evidentemente, se prolongam ao longo da sua posterior meditação, como, por exemplo, no seminário sobre «A Prova em Freud», 1999, tendo igual expressão na própria alteração da designação da sua intervenção, em 1996, no ciclo de conferências «A Ciência tal qual se Faz», então intitulada «A ciência e o problema da objectividade» , que, publicada em 2001, em Mediações, sofre a alteração do título para «A ciência tal qual se faz e as controvérsias sobre a objetividade». De facto, como que reflectindo sobre a lógica interna que atravessa os seus inúmeros artigos, aparentemente avulsos, compendiados neste último livro, Fernando Gil realça na apresentação de Mediações: «os estudos aqui reunidos pertencem a diferentes épocas [...]. Uns e outros se inscrevem [porém] nos temas do livro: controvérsia e prova ('opor, com-por'), condições e modelos de inteligibilidade ('pôr, propor') [isto é, categorização do real] [...] Aliás, na sua maior parte, os textos deste volume inscrevem- se no plano conceptual de Provas e de Mimésis e Negação» (24). Assim, segundo palavras do próprio, o universo de escrita filosófica de Fernando Gil reside, entre finais da década de 70 e finais da década de 80, em torno da constelação conceptual ligada aos temas da controvérsia, da prova e da categorização (esta enquanto vinculada à questão da inteligibilidade do real). Podendo sempre integrar-se em operadores de análise de âmbito mais extensivo que os englobe aos três, como a questão da subjetividade/objetividade ou a questão das relações entre o conhecer e o ser, porém, de um modo específico, muito específico, aqueles parecem ser os três conceitos centrais de todo o pensamento de Fernando Gil até ao final da década de 80; aliás, Maria Luísa Couto Soares, em 1989, ao recensear o livro Provas, escreve: «A própria expressão tomada em exergo [provas], que o Autor toma como fio condutor deste seu trabalho, pode bem ser considerada a divisa de toda a investigação filosófica que F. Gil tem realizado e promovido entre nós» (25), devendo entender-se a expressão «provas» no sentido de condensação da procura de inteligibilidade do real e de um possível critério de decidibilidade de uma teoria face a outra no seio da controvérsia.

A década de 90 evidencia, não um outro Fernando Gil, mas uma como que forte alteração no objecto da sua atenção filosófica, subsumindo as três problemáticas anteriores no tema dominante da «evidência», como mecanismo auto-afirmador da razão por si própria, que, em si, não sendo falsa nem verdadeira, explicita o sentido de um conhecimento relativamente à sua marca de verdade ou de falsidade:

A evidência é esse registo estranho pela qual uma proposição, um rito, certas provas judiciárias, uma profecia, um exemplo, se põem a si mesmos e se põem como verdadeiros. A evidência é index sui et veri. Ela dispensa prova na medida em que se deixa ler em marcas indubitáveis: a carne queimada numa ordália, uma visão, um diagrama matemático. Diferentemente da prova, a evidência não remete para dispositivos exteriores de avaliação, ela constitui o desdobramento do sentido na indicação (o índice, a marca) da sua própria verdade. A indicação não se efetua por meio de técnicas mais ou menos standard, ela releva de uma semiótica interna. Na prova, os procedimentos de investigação da verdade são distintos das decisões finais (a proposição será declarada falsa, provada, plausível, provável, etc.) — na evidência as decisões acham-se por assim dizer nos procedimentos.

De facto, Fernando Gil dirigiu, entre 1989 e 1992, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, um seminário sobre a evidência, publicando de seguida o livro Traité de l'Évidence, em 1993, com edição portuguesa, na Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em 1996 — um dos mais importantes livros de filosofia publicados por autor português no século XX. Em «A inteligibilidade como modelo», de 1987, Fernando Gil como que anuncia o seu tema de investigação e esclarecimento da década seguinte:

Procura-se antes decompor a evidência nos seus constituintes, de modo a apreender o sentido do próprio sentimento de inteligibilidade (o «sentido do sentido»). É um inquérito que, na forma de uma antropologia da compreensão, reintroduz o sujeito na epistemologia. Na linguagem do século XVII, ele exprime-se pela pergunta: que quer dizer a «satisfação do espírito» — a que, pela nossa parte, chamaremos sentimento de inteligibilidade.

Pouco sabemos a este respeito. Conceitos como convicção, assentimento, crédito, inteligibilidade, força da explicação, e também evidência e compreensão e até crença, permanecem descritivos e designam apenas o contorno de uma caixa negra. Abri-la significará interrogar ao mesmo tempo a arqueologia e as condições formais da compreensão. Em bases diferentes, retoma-se outra interrogação seiscentista: que é o sujeito epistémico e como se enxerta ele no sujeito natural? A questão da evidência atesta a vigência do segundo sujeito no primeiro.

Assim, as investigações pertinentes ao Tratado da Evidência inscrevem-se na tentativa do autor de remontar às condições mais fundas («arqueológicas») da razão ou da «forma princeps da compreensão». Dito de outro modo, o intento filosófico de Fernando Gil neste seu importante livro põe em causa, na história do pensamento português do século XX, todas as anteriores tentativas de firmar uma teoria (positivista, Teófilo Braga; racionalista, António Sérgio; neopositivista, Abel Salazar; marxista, Vasco de Magalhães Vilhena; neo-racionalista de feição estruturalista, Eduardo Lourenço) assente num conceito claro e distinto de razão ou num conceito dialético e/ou estrutural de razão. O que Fernando Gil intenta provar é que, no fundo da evidência por que a decisão é tomada ou uma teoria formulada, existe um complexo intuitivo, inventivo ou um processo alucinatório (portanto, de matriz irracional) que solidifica e presentifica a evidência com a força da certeza e da verdade no interior do sujeito. Ao modo de António Damásio, mas segundo uma fundamentação eminentemente filosófica, com recurso à análise de algumas teses da psicanálise, Tratado da Evidência demonstra que a razão mais forte e mais sólida da evidência consiste no seu próprio assentimento irracional ou num movimento «alucinado» do sujeito que garante a fortaleza e a coerência do raciocínio evidente:
Faltam a Bergson e a Husserl, fazendo eco a Agostinho e a Malebranche, as palavras para exprimir os diferentes conceitos que se prendem com a evidência. A inteligibilidade da evidência, ao mesmo tempo metáfora e conceptual, não é em si mesma discursiva, mas coloca-se para além da separação do sensível e do não-sensível. Ela representa uma alucinação, mas não no sentido de um percepto do irreal em vez da percepção do existente: antes significa a transposição da percepção para outra coisa que não ela mesma. É uma operação alucinatória que, com a força irrecusável do real, converte em verdade a percepção e a significação. [...]

A evidência, além disso, foi constantemente relacionada com uma atribuição de existência, e isso desde o «ver apodíctico» de Husserl e da fé primordial na existência. Mais precisamente, a evidência consubstancia uma intensificação do dado sensível, através de uma mudança de escala que é dupla: o sensível converte-se em conceito (atenção, ostensão, intuição, imposição da verdade) que ao mesmo tempo se ultrapassa na direção da existência. A intensidade — a força da evidência — é obra de uma energética, já a vimos operando em Malebranche, em Husserl, na lógica pagã e no sonho.

Como se constata, Fernando Gil invoca toda a história da filosofia e toda a sua vastíssima erudição para teorizar o seu novo conceito de evidência, integrando esta, enquanto cativadora do sentido do real e do discurso e produtora de verdade, na teoria mais vasta, igualmente própria, da modernidade como «disjunção tendencial, nunca absoluta, mas sempre agravada, da verdade e do sentido» (30), este teorizado pela filosofia e aquela identificada com as estruturas formais e os dispositivos de prova das ciências (31). Tal «disjunção» teria sido provocada pela emergência do «sujeito epistemológico» (a partir de Descartes e da revolução científica europeia do século XVII), constitutivo universal do conhecimento verdadeiro (a ciência), totalmente diferenciado do «sujeito psicológico» ou «natural», individual, particular, produtor da filosofia (e de opinião, isto é, de ideologia, de teoria política, jurídica, ...), validada pela sua própria crença, individual ou colectiva.

Desde 1992, os estudos avulsos de Fernando Gil publicados em Análise organizam-se, por um lado, em torno da questão da evidência (32), e, por outro, em três artigos, datados de 1996 e 1998 (33), tanto em torno da evidência quanto da necessidade de uma nova teorização da subjetividade que ponha fim à diferencialidade entre sentido e verdade, instauradora da modernidade; assim se devem entender os artigos «A subjetividade incompreensível» e o espantoso estudo sobre o Eu, do n.° 20 (1998), bem como esse fabuloso encontro entre as teorias de Fernando Gil e de António Damásio no n.° 19 de Análise, concretizado na recensão do primeiro ao livro O Erro de Descartes, do segundo, no qual Fernando Gil como que encontra comprovação teórica e experimental nos estudos de Damásio para a sua própria teoria da evidência como refundação harmónica no sujeito psíquico, cognitivo, existencial, do sentido e da verdade. É, sem dúvida, ainda que tão breve (verdadeiramente constitui um artigo do jornal Público, de 4 de julho de 1995, depois transcrito em Análise), um dos melhores e mais instigantes artigos de filosofia escritos em Portugal na década de 90, tanto pela sua simplicidade terminológica (contrariando a massa volumosa de conceitos e autores que Fernando Gil constantemente nos oferece no intento de nos persuadir das suas conclusões, só seguida por quem, obviamente, domine todos os filósofos citados), quanto pelas possibilidades teóricas que levanta, quanto ainda por abraçar num mesmo racionalismo autoproblematizador (tão excelsamente diferente do racionalismo triunfante que guiou grande parte da filosofia em Portugal nos séculos XIX e XX) os dois maiores vultos atuais do pensamento português— Fernando Gil, na Filosofia, António Damásio, na Ciência. Neste, Fernando Gil encontra a confirmação de que a racionalidade possui constitutivamente um «soco afetivo», ou seja, a tese da existência de «um arcaísmo emocional da inteligibilidade que — acrescento, não sei até que ponto por conta própria [interpreta F. Gil, pondo à prova a sua teoria da evidência] — vai até enformar o que designamos por compreensão». De seguida, Fernando Gil reconduz os resultados do ensaio de Damásio à «perspetiva filosófica, que a meu ver se integram», e, verdadeiramente, esta perspetiva filosófica não é outra que a sua própria:

Depois do reinado da inteligibilidade «estrutural», um movimento de pêndulo conduz-nos hoje a uma revalorização do sujeito, de que seria fácil dar exemplos em todas as ciências humanas (e não só nelas). Por via de regra, as filosofias do «sujeito» acham-se em posição defensiva e instruem maus processos à racionalidade e à objetividade. Ao lermos os grandes debates: hermenêutica contra positivismo, intuicionismo contra formalismo e logicismo, sociologia compreensiva contra objetivismo ou, hoje, intenção contra computacionalismo, damo-nos conta que muitos dos combates levados a cabo em nome do sujeito são combates de retaguarda.

Qual pode então ser a boa posição do sujeito? Cada ciência social dará a esta pergunta a sua resposta própria, que aliás são sempre várias. Será natural que a filosofia ligue o sujeito à própria ideia de inteligibilidade — e é neste contexto que O Erro de Descartes é precioso. O sujeito da ciência é toda a gente, o conhecimento procura ser objetivo e racional e o trabalho dos epistemólogos consiste em determinar os constrangimentos da objetividade (a descrição e a sua validação) e da racionalidade (a explicação segundo um «princípio de razão suficiente»). Mas o sujeito da «cognição» sou eu próprio. Se a linguagem é pública, a cognição é «privada» e respeita à «psique»; e a «convicção» de que o conhecimento e a prova podem proporcionar é a única pedra-de-toque da sua efetividade.

Cognição, psiquismo, convicção: a epistemologia rebate estas dimensões subjectivas respectivamente sobre um conhecimento (como se a apreensão não fosse obra de um sujeito) sobre as linguagens científicas (como se a psique nelas se dissolvesse) e sobre a validade da explicação (como se a convicção derivasse automaticamente da explicação, sem uma contrapartida activa com sede na mente). Contra esta posição da questão, trabalhos com proveniência diversa sugerem porém que a inteligibilidade não resulta apenas da racionalidade da explicação mas que ela se enraíza numa atividade multiforme da mente que por seu turno assenta em evidências ao mesmo tempo cognitivas e «sentidas»; o que significa em última análise — peço desculpa por não poder aqui desenvolver o argumento — que a inteligibilidade entronca em afetos intelectuais, os quais são modulações em segundo grau da emoção, segundo António Damásio. O lugar do sujeito reside na própria inteligibilidade na medida em que a racionalidade e a objetividade se atestam pela experiência subjetiva da convicção que é uma «emoção»; e, como Wittgenstein notou, produzir convicção é a única finalidade da demonstração.

Assim, com O Erro de Descartes, como que o Tratado da Evidência encontra neurologicamente a sua base experimental comprovativa no interior do sujeito psíquico, refutando a primazia moderna do sujeito universal epistémico e reconduzindo este, e sem que aquele perca a sua autonomia formal, ao sujeito cognitivo, instaurador simultâneo do sentido e da verdade enquanto convicção.

A partir do Tratado da Evidência, a restante obra de Fernando Gil em português até ao ano 2000 faz sentido harmónico com este, constituindo-se como explorações, questionações, argumentações, «provas», estudos, aplicações, da sua teoria da evidência, como, aliás, o autor o afirma em «Nota introdutória» a Viagens do Olhar, e o título seguinte do livro imediatamente o sugere.

Com Fernando Gil, a razão sólida de António Sérgio, timoneira lúcida em mar alteroso, concepção dominante em Portugal na primeira metade do século xx, fragilizou-se, concretizando e actualizando o prenúncio crítico de Eduardo Lourenço ao conceito de razão em António Sérgio, em 1969. Assim, do ponto de vista do racionalismo filosófico, António Sérgio, Eduardo Lourenço e Fernando Gil estatuem-se como três pontos diferentes no intrincado labirinto português da razão, desenhando um arco de contínua fragilidade do poder constitutivo da razão, findando com Gil e Damásio e a perspetiva de uma razão fragilizada, senão naufragada, entre os ataques da emoção e do sentimento.


NOTAS

1 Assinalam-se as seguintes traduções literárias: de L. Mazzetti, O Céu Cai, 1962; de Cesare Pavese, O Diabo sobre as Colinas, 1962, O Verão, 1965, Entre Mulheres Sós, 1976 — todos estes romances publicados na Portugália Editora; F. Dostoievski, Recordações da Casa dos Mortos, Círculo de Leitores, 1977.
2 Assinalam-se traduções de Maurice Merleau-Ponty, Sinais, 1962, Karl Jaspers, Razão e Contra-Razão no Nosso Tempo, prefácio de Delfim Santos, 1961; H. Horney, A Psicanálise Neurótica do Nosso Tempo, prefácio de Seabra Dinis, 1961 —todos estes ensaios publicados pela Editora Minotauro.
3 Fernando Gil, Aproximação Antropológica, Lisboa, Guimarães Editores, 1961.
4 Mas não explicitamente marxista, embora certas frases o indiciem, como, por exemplo, a nota de rodapé da p. 90, que, no entanto, a leitura das «Notas», principalmente a I e a II, esclarece.
5 Cf. Fernando Gil, Aproximação Antropológica, ed. cit., p. 51.
6 Da colaboração de Fernando Gil na Enciclopédia Einaudi publicaram-se em Portugal, isoladamente, inúmeros artigos dispersos nas revistas Análise Social (por exemplo, n.° 47, 1976), Filosofia e Epistemologia (por exemplo, n.° 1, 1978), Raiz e Utopia (por exemplo, n.os 9/10, 1979) e Cultura (n.° 2, 1984). Posteriormente, estes e outros artigos foram integrados no livro Mimésis e Negação, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984.
7 «Apresentação», in Revista de Filosofia e Epistemologia, Lisboa, ed. do Grupo de Investigação de Filosofia e Epistemologia e editora Regra do Jogo, 1978, p. 11.
8 Ibidem, pp. 9-10.
9 Ibidem, p.10.
10 Sobre a novidade aportada pela Revista de Filosofia e Epistemologia, cf. Luís Martins, A Situação Actual da Filosofia em Portugal, Sintra, ed. de autor, 1985.
11 Cf. AA. W., Estudos Filosóficos, vol. I, coord. Fernando Gil, Lisboa, Ed. Universidade Nova de Lisboa, Departamento de Filosofia, 1982.
12 Cf. Análise, Lisboa, n.° 17, 1994, p. 3.
13 «Apresentação», Análise, vol. I, n.° 1, 1984, p. 5.
14 Cf. «Ante-scriptum», Análise, Lisboa, n.° 20, 1998.
15 Fernando Gil, Mimésis e Negação, ed. cit., p. 9.
16 Idem, ibidem, pp. 506-507.
17 Desenvolvida tematicamente no verbete «Controverse», Thesaurus, Encyclopaedia Universalis, Cf. Fernando Gil, «Três notas sobre provas e controvérsias», in Mediações, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, pp. 55 e segs.
18 Cf. Fernando Gil, Provas, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, p. 157.
19 Cf. AA. VV., Controvérsias Científicas e Filosóficas, coord. Fernando Gil, Lisboa, Ed. Fragmentos, 1990, p. 11.
20 Cf. Fernando Gil, Provas, ed. cit, p. 160.
21 Fernando Gil, Mediações, ed. cit., pp. 55 e segs.
22 AA. VV., A Ciência tal qual se Faz, coord. Fernando Gil/Paulo Tunhas, Porto, Campo das Letras, 1999.
23 Fernando Gil, «A ciência tal qual se faz e as controvérsias sobre a objectividade», in Mediações, ed. cit., pp. 167 e segs.
24 Fernando Gil, Mediações, ed. cit. p.7
25 Cf. Maria Luísa Couto Soares, «Fernando Gil, Provas», in Análise, Lisboa, n. 13, 1989, p. 239.
26 Cf. Fernando Gil, «A operação da evidência», in Análise, n.° 17, Lisboa, 1993, p. 9. Atenção: a citação que acompanha o artigo reenvia para o ano de 1993, mas a capa da revista reenvia para o ano de 1994.
27 Fernando Gil, «A inteligibilidade como modelo», in AA. VV., Balanço do Século, org. Fernando Gil, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990 [1987/1989], pp. 18-19.
28 Fernando Gil, «Alocução de introdução» [ao debate «Cognição e Interesse Público»], in Análise, n.° 17, Lisboa, 1993 (de novo: a capa da revista assinala 1994).
29 Fernando Gil, Tratado da Evidência, ed. cit., p. 217. Sublinhados do autor.
30 Fernando Gil, Balanço do Século, ed. cit., p. 11. Sublinhados do autor.
31 Sobre a descrição da teoria gilesiana da evidência, cf. Paulo Tunhas, «Tomar a evidência a sério», in Fernando Gil, Modos da Evidência, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998, pp. 341-353.
32 Cf. Análise, n.° 16, 1992; n.° 17, 1994; n.° 18, 1995.
33 Cf. Análise, n.°19, 1996; n.° 20, 1998.


in Prelo, n.º 1, 3.ª série, janeiro-abril de 2006,
Lisboa: Imprensa Nacinal-Casa da Moeda, 2006
(texto editado segundo o AO90)

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