A numismática está fora de moda?
É coisa de outro tempo?

Pois, não é nada disso que nos diz CARA OU COROA? Pequena História da Moeda a primeira publicação com a dupla chancela Museu Casa da Moeda / INCM, destinada ao público infantojuvenil. 

CARA OU COROA? Pequena História da Moeda é um livro muito divertido e muito bem ilustrado, que explica, em tom muito bem-humorado mas muito sério: o que é a moeda, como surgiu, como evoluiu e que formas foi assumindo ao longo do tempo, como se processa o seu fabrico, e até que ponto o seu valor depende intrinsecamente do princípio fundamental da confiança.

O tema não podia ser mais atual!

Com texto de Ricardo Henriques e ilustrações de Nicolau, CARA OU COROA? Pequena História da Moeda é uma edição Museu Casa da Moeda / INCM em parceria com o Museu do Dinheiro e a editora Pato Lógico.

Razões de sobra para estarem atentos.

A apresentação está agendada para o próximo dia 1 de junho, em Setúbal, a mesma ocasião em que será  inaugurada a exposição «Desenhar a moeda — o futuro» e em que decorrerá a entrega de prémios do concurso que lhe deu origem, promovido pela INCM em colaboração com a Câmara Municipal de Setúbal com vista a sensibilizar a população escolar dos 2.º e 3.º ciclos para a riqueza cultural, patrimonial e artística de um artefacto comum, a moeda, e para o colecionismo. 


APRESENTAÇÃO:
1 de junho, às 11h30
Galeria Municipal do Banco de Portugal
Av. Luísa Todi, n.º 119, SETÚBAL



RAS






A 86ª Feira do Livro de Lisboa 2016 inaugura amanhã, 26 de maio, feriado!
E, como não podia deixar de ser, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda lá estará.
Este ano pode encontrar-nos nos stands B 42 – 44, no corredor do lado direito de quem desce, entre a Praça Amarela e a Praça Verde.

Porque o espaço é limitado, e queremos sobretudo que se se sinta muito confortável quando nos visitar, preparámos para a Feria uma excelente seleção dos nossos títulos mais peocurados.
Mas, a seu pedido, arranjamos qualquer título em poucas horas.

Por isso sugerimos que previamente consulte aqui o nosso catálogo.

Estamos à sua espera.






Horário de abertura:2.ª a 5.ª feira — das 12h30 às 23h00
6.ªs feiras e dia 9 de junho — das 12h30 às 24h00
Sábados e dias 10 e 12 de junho — das 11h00 às 24H00
Domingos e dias 26 de maio e 13 de junho — das 11h00 às 23h00


   Jorge Reis-Sá


Falemos do senhor Castelo Branco. Mas do que interessa.

Há uns anos, o JL convidou-me para escrever um depoimento sobre Camilo. Entre a irreverência da juventude e um trauma juvenil, escrevi algumas considerações. Agora, sei, certamente injustas. Não à obra do senhor de Seide, mas àquilo que faziam com a figura em Famalicão por alturas da minha adolescência.

Esse trauma materializava-se num camilo pintado na parede do polivalente do liceu, a assombrar todos os jovens que lá entravam. E eu, note-se, gostava de ler. O que aquela figura fazia aos reguilas lá do burgo, só mesmo as psiquiatras para aferirem tantos anos depois. A mim, doía-me a alma ver aquela pintura tão dada, imberbe e horrível do alto dos seus três ou quatro metros. Doía-me ver Camilo tão mal retratado, na mesma proporção que que foi abraçado pelos meninos e meninas de Educação Visual ou do curso secundário de Artes e que, agora, trabalham muito bem em seguradoras ou em bancos, dado o jeito evidente.

Mas o tempo cura tudo. Tanto que o Parque Escolar do Engenheiro das Beiras permitiu mandar abaixo o liceu inteiro. Desse trauma eu não me livro era o meu liceu e agora é um conjunto de caixas inócuas. Mas pelo menos com ele foi aquele camilo, grande e minúsculo, permitindo o aparecimento na minha vida do Camilo maiúsculo.

Como editor tive o raro privilégio de o editar há poucos meses e de estar a colaborar com o Centro de Estudos Camilianos e a Câmara de Famalicão para o editar ainda mais. São livros de capa dura, com duas narrativas em cada volume, para que se fixe em casa de quem ainda o não tem. Como leitor tenho a sorte de ver a Imprensa Nacional a fazer o que deve: editá-lo bem mas em capa mole. Livros sem mácula, de tão brancos. Livros bem feitos, de tão bem pensados nos materiais. Livros que completam o que tenho feito com a autarquia famalicense. Quererão maior exemplo de serviço público do que a complementaridade que pessoalmente sinto? A ela voltarei em breve, àquela que junta várias entidades como Castelo Branco juntou. Não esse, mas o que interessa.


Título: A Sereia de Camilo Castelo Branco
Quarto volume das obras de Camilo Castelo Branco
Edição de Ângela Correia e Patrícia Franco
256 páginas com capa e design de Undo, impressas nas oficinas da Imprensa-Nacional em Coral Book Ivory de 90 gramas durante o mês de Outubro de 2015.





OBRAS EM RESERVA
O MUSEU QUE NÃO SE VÊ
MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA
Em exposição de 18 maio a 25 setembro 2016


São cerca 140 mil os objetos de arte das mais variadas tipologias e proveniências que o Museu Nacional de Arte Antiga acumulou ao longo do tempo: «o maior número de obras do património artístico português classificadas como tesouro nacional e a mais representativa e diversificada ilustração do que de melhor se produziu ou acumulou em Portugal, nas diversas disciplinas».

Destes objetos de arte, «muitos são reconhecidamente excecionais, muitíssimos outros relevantes ou significativos — dimensões ilustradas nos cerca de oito mil que expõe —, e outros ainda não tanto, confinados, por isso mesmo, às reservas ou mobilizados em outras funções. Todos se encontram organizados por repartições ou coleções (ou, ao invés, alojados em zonas intersticiais, que os condicionam negativamente na sua fortuna crítica e reconhecimento público), as quais conformam a sua estrutura constitucional e as áreas de conhecimento em que se apoiam.»

O MNAA, designação familiar que o prestígio e o mérito já fixaram, é o «primeiro museu» em número de visitantes à escala nacional, mas é simultaneamente o «mais pequeno dos grandes museus» internacionais, «polo credenciado de investigação científica» e uma referência da «relação museológica intercontinental, amplamente consolidada nos últimos anos, com reflexos na captação crescente de públicos e na própria perceção nacional do seu valor estratégico».

Na exposição que ontem inaugurou sob o título Obras em Reserva O museu que não se vê, o MNAA traz à sua área expositiva mais de 300 peças, que apesar de desconhecidas da grande maioria do público, são inquestionavelmente merecedoras de apreço, como muito bem se percebe dos textos do catálogo com o mesmo nome, disponível também desde ontem.

As reservas «(...) são, por natureza, um espaço de viagens múltiplas, ao mesmo tempo fascinante e mítico. Viagens sobretudo intelectuais e solitárias, pela polissemia que, naturalmente, suscita a natureza heterogénea dos objetos que nelas se preservam, se acumulam, se sistematizam. Ao evocar esse território semântico, esse museu imaginário, o MNAA está certo de proporcionar aos visitantes um percurso inteligente e sedutor: a um tempo pelo museu que é e pelo que pode vir a ser, para o bom serviço de Portugal, mas, muito especialmente, da cultura universal em que se inscreve.»

Quem o diz é António Filipe Pimentel, Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga.


O CATÁLOGO:

Obras em Reserva — O museu que não se vê
Coordenação científica de António Filipe Pimentel, Anísio Franco, José Alberto Seabra Carvalho.
Textos de António Filipe Pimentel, Alexandra Gomes Markl, Ana Kol, Anísio Franco, Celina Bastos, Joaquim Oliveira Caetano, José Alberto Seabra Carvalho, Luís Montalvão (LM), Luísa Penalva, Maria da Conceição Borges de Sousa, Maria João Vilhena de Carvalho, Miguel Soromenho e Rui André Alves Trindade.
Edição Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 2015, 200 pp.


RAS

por Cláudio Garrudo










e o tempo-antes cresce. Qual balanço,
uísque, livro, fumo azul – a espera!
Adulterado tempo-agora, avanço
da paixão em demência que acelera



Livro: Alexandre O’Neill
«Soneto da Espera»
Entre a Cortina e a Vidraça (1972)
in Poesias Completas 1951/1986
coleção Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995, p. 324

© do texto: representantes do autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016

 

A Agenda temática da INCM para 2016, comemorativa do centenário de Vergílio Ferreira, acaba de ser distinguida com menção honrosa na 25.ª edição dos Prémios Papies na categoria de Fine Papers.

A Agenda 2016 – Vergílio Ferreira teve coordenação científica de Helder Godinho, Fernanda Irene Fonseca e Jorge Costa Lopes, e design gráfico do atelier SilvaDesigners.


Os Prémios Papies, promovidos anualmente pela Revista do PAPEL (DP) publicada mensalmente pela Pixelpower, destinam-se a distinguir a criatividade e execução dos melhores trabalhos de comunicação gráfica criados por empresas portuguesas.

RAS



por Tânia Pinto Ribeiro



Até agora escreveu mais prosa e teatro que poesia, mas foi precisamente no terreno fértil dos poemas que José Gardeazabal sobressaiu por entre mais de 200 candidaturas à primeira edição do prémio INCM/Vasco Graça Moura. E foi precisamente a sua história do século vinte, «um livro de saltos e acumulações», no dizer do poeta, que acabou por vencer, por unanimidade dos votos do júri, o disputado galardão da editora pública. Uma história escrita a partir de factos e de alguns recuos, que o autor compôs há cerca de oito anos, e que vem agora estrear a renovada coleção Plural, iniciada em 1982 por Vasco Graça Moura. Uma espécie «de cartografia do próprio tempo, um olhar filosófico para a realidade que colhe o nó da questão do século XX, uma antiepopeia, um louvor não lírico, quase cirúrgico que não deixará nenhum leitor indiferente», assim se referiu José Tolentino Mendonça, presidente do júri, à obra distinguida de Gardeazabal. Quanto ao prémio, diz Gardeazabal que significou sobretudo um reencontro do autor com a sua obra. E se cada escritor desenvolve uma relação pessoal com a escrita, Gardeazabal não foge à regra: gosta de escrever todos os dias, e normalmente trabalha em dois ou mais projetos ao mesmo tempo. Quanto à palavra «profissional» diz que convive mal com a literatura, mas que a literatura é a sua forma de viver. Já a inspiração encontra-a na leitura, porque afinal «Ler é o princípio da Literatura». E se Theodor W. Adorno defendia que depois de Auschwitz é impossível escrever poemas, Gardeazabal vem refutar o mandamento do filósofo alemão e vem mostrar com esta sua história, como o século feito de tragédias, bombas e Holocausto — mas também de pequenas coisas, como pessoas a sorrir no canto das fotografias — nos transformou totalmente. E à Literatura também. Vem provar que neste já adolescente século XXI e numa Europa assolada por crise(s) sucessiva(s), a poesia continua viva e em toda a parte. E mais, numa «poética que arrisca alimentar o esquema das oposições, num exercício invulgar, notável e vertiginoso» José Gardeazabal consegue também a proeza de conduzir «a literatura para um lugar novo», como tão bem salientou o júri do prémio, composto por José Tolentino Mendonça, Jorge Reis-Sá e Pedro Mexia. Um prémio que vem revelar um poeta novo às letras portuguesas contemporâneas. Entrevista a José Gardeazabal.




PRELO — Nadine Gordimer, Nobel da literatura 1991, dizia que a «poesia é um esconderijo e um altifalante». Concorda?

José Gardeazabal — A literatura é tanto exposição como esconderijo. Por vezes esconder é o princípio de ver. Há uma tradição da poesia que a torna a campeã da exposição, uma tradição que foi reiterada até à adulteração. Em relação a essa poesia, a escrita de história do século vinte está mais do lado do esconderijo. Poesia escondida atrás de um século. A história tem aqui algo de esconderijo, de não exatamente. Mas em muitos outros textos, ficção, teatro e outros, acho que estou mais do lado da exposição.

Para mim a literatura tem algo de recuo e de grito. Escrever é como dar um passo atrás e, em vez de sair um grito, sai literatura. É um ajuste de contas com o mundo. Lentamente, e muitas vezes em silêncio. Mais silêncio que altifalante. Certo é que a literatura enquanto esconderijo nos revela coisas novas e verdadeiras sobre nós, individual e coletivamente.

P — Como teve conhecimento do resultado do Prémio INCM/VGM?

JG — Através de um telefonema muito simpático do José Tolentino Mendonça.

P — E como reagiu quando soube que era o vencedor? 

JG — Fiquei contente.




P — Recorda-se dos primeiros poemas que escreveu? Como começou a sua aventura literária?

Sim, dos primeiros poemas e dos primeiros outros textos.

P — A prosa é um terreno que lhe poderá ser fértil também?

JG — Até agora escrevi mais prosa e teatro que poesia. Primeiro há a literatura, só depois a forma da literatura. Romance, teatro, poesia, prosa curta, tudo são veículos para a literatura. O meu foco é nas ideias e nas palavras, só depois surge o veículo, prosa, poesia, o que seja. Acontece começar um livro que pensava vir a ser de poesia e vê‐lo exigir ser prosa à minha frente. Ou o contrário, de prosa em poesia ou teatro. Nesses momentos temos de respeitar o texto. Fazer literatura é também respeitar a forma da literatura.

P — Onde vai encontrar inspiração?

JG — Gosto de ler quase tudo. Ensaio, teatro, ficção, poesia. Não é para mim um prazer ter um bom livro para ler e não o fazer. Ler é o princípio da literatura. Não é, certamente, o fim. Mas é o princípio.

P — Tem escritores de eleição?

JG — Há muitos autores que fazem parte importante da minha vida. A sensação de descobrir um desses autores é sempre de uma estranha familiaridade e humanidade partilhada. É um acontecimento de alegria.

P — O que é que os leitores podem esperar de história do século vinte?

JG — É difícil falar sobre um livro. É um objeto que fala por si, que diz o que quer dizer e por vezes diz mais do que o autor pode dizer. Diz e pensa. Se correr bem, o livro pensa por si.
Este texto é feito de fragmentos, saltos, acumulações. Num certo sentido o contrário de história. Não há personagens, não há ações consequentes, há uma multidão de factos, movimentos, observações. Não há culpas, responsabilidades, vencedores. Num outro sentido, mais profundo, este texto é uma história honesta, um fluxo de consciência do século. O século vai‐nos dizendo coisas mas não lhe conseguimos apontar o dedo. Não o conseguimos agarrar.

Uma certa ofuscação não é propositada, acontece. É como se o escritor visse mal e retirasse os óculos para compreender melhor. E neste caso do século vinte, compreender pode vir de ver pior, ver de longe, com alguma saudável miopia. A primeira coisa que perdemos quando vemos mal ao longe são as personagens, as datas, as simplicidades narrativas. Este livro é uma história escrita a recuar, um passo atrás até perder datas e nomes, perder fios condutores, um observador que recua em relação à história até a transformar em literatura. Um recuo que se torna poesia.

Acho que este texto pode ser lido a partir do ponto que quisermos e terminar também onde quisermos. De certa forma podemos ler apenas frases ou conjuntos de palavras. É uma literatura de fragmentos, como aqueles fragmentos gregos em que se suspeita que alguém gostou de alguém, ou alguém matou alguém, mas não sabemos, não temos a certeza. Nesta história também impera o fragmento. Não é cada página que é o centro, o poema, são os vários fragmentos, individualmente, que têm personalidade própria. Os fragmentos ou o texto todo, ambos têm uma personalidade própria.

Por exemplo, o índice. Foi uma agradável surpresa. Acaba por oferecer uma leitura própria, ao mesmo tempo alusiva ao texto completo, leitura sumário, e por outro lado um novo texto, vivo por si mesmo. O índice foi uma sugestão dos editores da INCM e de certa forma sugere um método de leitura do texto. Além de acrescentar um «poema», por assim dizer.


P — Para si, na História do século XX, qual foi o acontecimento maior?

JG — Talvez um dos sentidos deste livro de poesia com o século vinte em fundo seja precisamente enterrar os acontecimentos concretos do século. Os grandes e os pequenos, as bombas, as barbáries, e as pessoas a sorrir no canto das fotografias. Está muita coisa lá, mas subentendida e por vezes perdida para sempre. É uma caixa com o século que se afasta de nós, até percebermos apenas contornos, impulsos. Há coisas do século vinte aqui escondidas. Escondidas do leitor e do autor. Não é o autor que as esconde, é a natureza do século e do texto que o faz. Nisso a poesia deste século vinte é como a história, trabalha sobre as sombras, é o contrário da transparência.

Não me sinto à vontade para eleger o acontecimento mais importante do século que passou. De certa forma é fácil cair num campeonato da ignomínia quando se trata do século vinte. Neste texto de poesia, como em outros textos meus, acho que o pior do século passado está presente, em pessoa ou na sombra, mas gosto de resistir a uma certa complacência na convivência com a desgraça. Dito isto, as grandes tragédias do século vinte mudaram o que somos como seres humanos. Mudaram a nossa imagem no espelho, mudaram a literatura. Neste século vinte e um estamos do outro lado do espelho, e isso influencia como nos vemos e como nos escrevemos.

Um exemplo: Beckett. No À Espera de Godot, mas também na sua prosa, Watts, Murphy, Molloy, etc. É tudo extraordinário. É uma literatura do fim, que nesse sentido é uma literatura do século vinte. É um caminho absoluto que chega a uma rua de um só sentido. É um dos grandes fios da literatura. Algum desse sentimento de fim e de desamparo é lido hoje por nós como eco de uma civilização que viveu o Holocausto. É o nosso ponto de vista, a partir de hoje, sendo hoje o fim do século passado e o princípio deste século. Mas podemos ler o À Espera de Godot como literatura pós-holocausto ou literatura pós‐bomba atómica, e há argumentos que sugerem que a experiência das explosões nucleares foi a determinante para Beckett, para a espera por Godot. As explosões nucleares eram o acontecimento marcante no imediato pós‐guerra. Só depois veio o Holocausto. Duas tragédias com significados e sentidos diferentes, que nos responsabilizam de forma distinta. Mas as duas mudaram o que é ser humano, e o que é pensarmo‐nos humanos daqui para a frente. Ora, isso é relevante para a literatura? É e não é. Se lermos Godot à luz do Holocausto ou à luz das explosões nucleares lemos duas obras diferentes. Ambas magníficas, mas diferentes. Esse é o papel dos acontecimentos únicos na literatura. Aumentam o sentido, espalham‐no em várias direções. Nesta história do século vinte temos, por assim dizer, o grande e o infinitamente pequeno, o histórico no sentido político e o histórico no sentido pessoal. É um livro de saltos e acumulações, como aqueles mecanismos anteriores ao cinema em que espreitávamos por uma ranhura para ver figuras a passar e essa passagem dava‐nos a ilusão de movimento. Imagens fixas cuja passagem imitava o cinema. Cinema antes do cinema. Esta poesia é uma tentativa de espreitar. Vamos ver menos, ver mais, ver coisas diferentes. Parte do que fica é o movimento do século. Ou a ilusão do movimento.

P — Tem projetos para o futuro no campo literário?

JG — Muitos dos meus projetos futuros foram completados no passado, nos últimos 8 a 10 anos. Gosto de escrever todos os dias e normalmente trabalho em dois ou mais projetos ao mesmo tempo. Tenho uma ideia dos três ou quatro textos que quero trabalhar cada ano, mas muitas vezes as coisas mudam e outras ideias que pensava estarem à espera do seu tempo, impõem‐se, mudo os planos. «Planos» aqui é tudo entre aspas.

Tenho uma ideia‐mãe, um título, alguma ideia do tempo que preciso de dedicar ao projeto. Depois é começar a escrever até acabar de escrever.

Revejo os textos um ou dois anos depois, quando penso que os gostaria de ter prontos para publicação. Outros ficam escritos a cru, à espera outra vez do seu tempo.

Ou seja, sim, tenho vários projetos para o futuro.

P — Gostava de viver inteiramente da escrita? Isto é, ser um escritor profissional?

JG — A palavra profissional convive mal com a literatura. Mais tempo para escrever, sim, seria muito bom. A literatura é a minha forma de viver e um grande prazer.
https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=102967
P — Agora que o livro já saiu do prelo, o que acha do resultado final? Gostou da experiência de publicar na editora pública?

JG — Devo dizer, com a sinceridade possível, que o cuidado na edição e a qualidade do volume final excederam todas as minhas expectativas. Houve paciência para cuidar do texto por parte dos editores, e uma grande inspiração no grafismo da capa e do texto. A palavra pública, como em editora pública, adquiriu para mim um sentido mais concreto e profundo depois desta experiência. Associo‐a a cuidado e esmero.

P — Todos nós desenvolvemos uma relação pessoal com a escrita. O texto, neste caso, os poemas não nascem sem um processo de escrita. Qual é o processo de escrita de José Gardeazabal?

JG — Leio muita coisa diferente. Para mim ler e escrever são atividades irmãs e irmãs gémeas. Preciso de ler para escrever e escrever ajuda a ler melhor. Escrever é ler melhor.

O meu dia ideal começa pela leitura, depois a escrita chega, e a partir de determinado momento as duas coisas estão presentes e muito próximas.

Então quase tudo, uma conversa num café, um programa de rádio passam a ser alimento para a literatura. Literatura é escrita e leitura, pelo menos essas duas coisas.

Este livro teve a sua vida, noutro lugar. Agora como que volta para mim, já envolto numa capa própria, algo fechado sobre si, mas com pistas novas e verdadeiras. O diálogo que tem comigo é diferente do diálogo do tempo da escrita. Agora é uma coisa mais equilibrada. Existe o livro e o escritor, é um diálogo, acontece em duas direções. No início, o exercício da escrita tem algo de monólogo e só depois se torna um diálogo. Isso é bastante gratificante. Gostei de voltar a encontrar e falar com este livro. Tornou‐se um amigo.

P — Quanto tempo demorou a escrever este livro?

JG — Este livro foi escrito há cerca de oito anos. Demorou três a quatro meses a escrever e revi‐o há um ano atrás.

P — Posso saber quem foi a primeira pessoa a quem deu a ler os seus poemas?

JG — A primeira pessoa a ler os meus textos foi o meu pai. Gostou. Leu romance e teatro, anda não tinha lido poesia. Algumas amigas e amigos também leram coisas pequenas, fragmentos. No caso de história do século vinte tenho de agradecer aos membros do júri, pois eles foram, neste caso, primeiros leitores. Isto se aceitarmos que quem escreve não é leitor de si mesmo, ou é um leitor bastante imperfeito de si mesmo. A minha revisão deste texto recordou‐me o que ele tem de resistente, de sólido e duro, de difícil, por isso o meu reconhecimento a estes primeiros leitores.

Março de 2016

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda e a Universidade Aberta, em associação com a Université Paris 2 Panthéon-Assas e a École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, promovem o ciclo de conferências, de periodicidade mensal, denominado «A globalização de rosto humano», no âmbito da Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização (CIDH/UAb).

O objetivo: suscitar a colaboração de pessoas de diferentes quadrantes com vista a promover a compreensão da globalização enquanto fenómeno complexo, e a influenciar positivamente o modo como as pessoas pensam e se comportam no mundo global contemporâneo, no respeito pela dignidade humana em todas as dimensões da vida.

Os problemas do mundo contemporâneo resultam sobretudo do desinteresse, do medo de nos aproximarmos, e do desconhecimento mútuo. Através de um verdadeiro diálogo intercultural poderemos aproximar-nos e cooperar em todos os domínios da vida.

A globalização é um fenómeno tecnológico, económico, social e político com efeitos sobre o poder relativo das nações e a qualidade de vida das pessoas.

Ao longo da história da humanidade verificaram-se sucessivas vagas de globalização como consequência das possibilidades de circulação de pessoas e bens oferecidas pelas técnicas disponíveis e pelo espírito de iniciativa.

O contributo dos Descobrimentos portugueses para a globalização nos séculos XV e XVI foi um dos mais extraordinários exemplos de encontro de pessoas e civilizações, e o seu valor para a humanidade é inestimável. A capacidade portuguesa de conjugação dos meios científicos e financeiros, o reequilíbrio dos interesses internos do País, a determinação política e estratégica, a promoção do valor do risco e uma nova ética de temeridade foram os pilares desta iniciativa que contribuiu para a instauração de uma nova ordem mundial. Urge recuperar para o futuro essa capacidade de vencer o medo da incerteza e da perda de segurança.

https://drive.google.com/file/d/0B1TJkxizP5WuZ2pHTTh3eXg4OEU/view?usp=sharingA globalização contemporânea caracteriza-se pelo recurso a instrumentos tecnologicamente sofisticados. Procuraremos, portanto, que cada sessão chegue a um número significativo de pessoas, através da transmissão em direto para todo o mundo, via Internet, permitindo a interação dos participantes com os conferencistas. As conferências serão ainda gravadas para serem retransmitidas para memória futura.

Uma iniciativa que pretende dar a conhecer o mundo às pessoas do mundo inteiro.

A sessão de inauguração terá lugar no dia 13 de maio de 2016, às 11 horas, na Sala de Atos da Universidade Aberta, com um programa de excelência (ver aqui)

Nesta sessão solene será ainda assinado o protocolo entre a Universidade Aberta e a Université Paris II Panthéon-Assas para a criação do Programa Doutoral Internacional em Estudos Globais.
RAS

por Cláudio Garrudo








A nossa fé transcende o imediato. Nós temos de ver mais longe do que o dia de amanhã.


Livro: António Torrado, Maio de 58
Coleção de Teatro Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015

© do texto: autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016
A Ronda de Noite, 25 de abril de 2016



Na sequência da recente publicação de O Essencial sobre Dom Quixote, Luís Caetano conversou com o autor, António Mega Ferreira, acerca de Cervantes (de cuja morte se assinala em 2016 o 4.º centenário), do romance de cavalaria, do herói louco a que todo o leitor irremediavelmente acaba por aderir, e acerca do que de essencial se pode dizer sobre o primeiro grande exemplo do chamado «romance europeu».



Ouvir a entrevista completa aqui.


António Mega Ferreira
O Essencial sobre Dom Quixotecoleção Essencial
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Lisboa, 2015

por Cláudio Garudo










As creanças ás vezes sentam-se umas em frente das outras, e fazem uma roda em que cada um conta a sua historia e depois de se terem já acabado as historias, ainda sobejou muita vontade de falar, de modo que fazem umas perguntas assim neste genero: De que é que tu gostas mais em todo o mundo?

Não ha ninguém que possa dizer que esta pergunta não esteja bem feita! Pois só as creanças são capazes de ter uma curiosidade d’estas! Em geral, as pessoas quando têm já uma certa idade, começam a ter muito que fazer e não teem tempo sequer para saber do que gostam mais em todo o mundo.

in Diário de Lisboa , 24 de Novembro de 1924, p.3


Livro: Almada Negreiros, Obras Completas, Vol. III — Artigos no Diário de Lisboa
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988, p. 103

N.E. A grafia utilizada na presente edição respeitou tão rigorosamente quanto possível a que foi utiizada pelo Autor nos textos publicados no Diário de Lisboa



© do texto: representantes do autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016