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«história do século vinte», de José Gardeazabal — recensão de José Mário Silva

  
 
in Expresso de 10-09-2016,
E, «CulturasLivros», p.71




«O que mais surpreende nesta história do século vinte, brilhante livro de estreia, distinguido com o Prémio INCM/Vasco Graça Moura 2015, é a escala e o fôlego do seu projeto literário. Em 216 fragmentos, José Gardeazabal leva a cabo uma verdadeira "travessia" do século XX, um tempo em que coexistiram os maiores avanços tecnológicos e civilizacionais, as grandes revoluções da ciência, da arte e do pensamento, com tragédias de proporções bíblicas, em que pereceram milhões de pessoas, vítimas de dois conflitos mundiais e das máquinas de extermínio dos regimes totalitários.

É então algures entre o assombro e a perplexidade que se coloca esta poética (composta por um magma de vozes, emergindo do tumulto da História), este olhar que parece planar sobre os acontecimentos e as transformações do mundo, contaminado pela "excitação do movimento/ quando nos deslocamos/ (ao vento)", sem nunca perder um sentido cénico das coisas: "chegámos aqui a pé, convidados para um teatro". No palco desse teatro assistimos às convulsões sociais e políticas, aos triunfos do progresso (os arranha-céus, as cidades fervilhantes, o apogeu da indústria, o primeiro avião dos irmãos Wright, as vacinas, a corrida espacial), mas também todas as hecatombes, o vórtice da guerra, as energias esbanjadas num rasto de morte.

A lógica da ordenação dos fragmentos não é linear, não segue uma sequência estritamente cronológica, é feita de avanços e recuos, pausas, hiatos, acumulações, momentos disruptivos, como se aos leitores coubesse o trabalho de reunir os estilhaços que resultam de uma enorme explosão. Embora aqui e ali sejamos elevados ao lugar do demiurgo que olha de cima ("e é possível que o universo se contraia novamente/ e um dia expluda como uma mina e as cinzas continuem a mover-se no ar/ os sons esfriem/ e o fumo dos sacrifícios originais se disperse enfim"), o autor nunca deixa que o poema resvale para a megalomania. O estilo é quase neutro, enumerativo, sem pathos, sem retórica, na procura da palavra estritamente necessária. Um verso alude a uma poesia "parecida com pedras" e há algo dessa nudez elementar, dessa secura, na escrita de Gardeazabal. As muitíssimas referências históricas e culturais, por exemplo, ou são discretamente sinalizadas com recurso ao itálico, ou são dissolvidas no tecido do texto. Apesar do tom geral marcadamente pessimista, vemos a beleza surgir "em locais inesperados". E ao "raspar todas as antigas camadas do pó", é possível "descobrir as formas e as cores que brilham depois da viagem".»

José Mário Silva
in Expresso de 10-09-2016, E, Culturas, «Livros», p.71

Disponível nas nossas lojas:

José Gardeazabal
história do século vinte

Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2016




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