Alberto Manguel, em Lisboa, entrevistado por Luís Caetano na Biblioteca da Imprensa Nacional

 

Alberto Manguel, romancista, tradutor e ensaísta argentino, naturalizado canadiano, diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina desde o final de 2015, esteve em Lisboa para apresentar o seu livro A Biblioteca à Noite, agora publicado em português.

Simbolicamente, Luís Caetano entrevistou-o para o programa Todas as Palavras escolhendo como cenário a confortável Biblioteca da Imprensa Nacional, situada na zona do Príncipe Real.


Luís Caetano — Conversamos na Biblioteca da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, uma biblioteca cheia de história, cheia de vida. O que é que sente quando olha à volta para todas estas estantes, para todos estes livros? O que é que lhe apetece fazer?

Alberto Manguel —
Deixo que os livros falem comigo. Quando estou num espaço como este, sinto que biblioteca tem a identidade da sociedade que a alberga. Então, aqui há um refinamento, e também uma certa modéstia, e também uma elegância, que faz pensar que esta biblioteca foi criada para os leitores de Lisboa.

LC — Uma biblioteca onde estamos agora, a meio da tarde... As bibliotecas são diferentes de dia e de noite, Alberto Manguel?

AM —
Creio que sim. Porque, durante o dia, uma biblioteca se oferece de forma evidente. Podemos ver a ordem pela qual os livros estão expostos, podemos intuir a coerência que o bibliotecário deu ao lugar. Mas, quando cai a tarde, quando a penumbra começa a entrar na biblioteca, essa ordem desaparece. Não se consegue distinguir muito bem o que está nas prateleiras superiores, e deixamo-nos influenciar pela presença dos volumes, que é como lhe falassem numa linguagem secreta. Eu sinto que numa biblioteca, à noite é o momento em que posso pensar mais livremente. É como se a falta de ordem, ou a ordem oculta da biblioteca à noite se me revelasse sob a forma de um incitamento à pergunta, ao questionamento. E deixo que as perguntas surjam à minha volta, e ouço aquilo a que Quevedo chamava «as conversas com os mortos». 


Excerto da entrevista,
transmitida a 29 de outubro,
e disponível aqui (aos 15 min).


http://www.rtp.pt/play/p2408/e256861/todas-as-palavras




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