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EDIÇÃO NACIONAL — «O Senhor Fernando»

por Jorge Reis-Sá

O meu filho Guilherme tem dez anos. Chegou a Lisboa aos três, percorrendo a A1 à procura do novo mundo. Ou então vinha com os pais e eles é que tentavam encontrar mundos novos.

E aqui logo se percebeu da meteorologia. Não há necessidade de camisolas interiores nem, mais importante, de ir para casa mal se saia da escola. O tempo, mesmo invernoso, convida sempre a um passeio. E o seu pai levava-o ao Chiado algumas vezes.

Foi lá que ele conheceu o senhor Fernando. Sentou-se com ele para a foto habitual. Noutra altura até levou a bandeira do Futebol Clube de Famalicão, o que em nada aumentou a confusão pessoana. Afinal, não se descobriu (ainda) o ideal clubístico do senhor Fernando, mas se for de três ou quatro clubes só entronca bem na heteronímia.

Ainda hoje, quando lá passa, cumprimenta o senhor Fernando. «Ficou tanto tempo à espera de ser servido, que se tornou pedra». Acho que não é bem pedra, mas para uma criança tudo é o que for. E acho que a Brasileira não deve achar piada a esta consideração, mas os melhores croissants são os da Benard. Tornado pedra, claro. Mas nunca imóvel.

O senhor Fernando continua a redescobrir-se. Mesmo coberto com bandeiras do Famalicão, há sempre quem o descubra. E o que algumas editoras têm feito com ele é de louvar e não pouco. A Tinta da China, com Jerónimo Pizarro a dirigir uma fabulosa coleção (que, pela primeira vez o digo, não tem correspondência no layout, demasiado soturno); a Relógio D’Água e a Assírio, claro; e a Imprensa-Nacional.

Esta com um cuidado gráfico que faria o senhor Fernando corar de tanto orgulho. Uma colecção «Pessoana», de nome e substância. Os Poemas de Ricardo Reis, por exemplo, da sua série de edições. E, muito mesmo, Uma Admiração Pastoril pelo Diabo, ensaio comunicante entre Pessoa e Pascoaes, da autoria de António Feijó, este na série ensaios. Falo aqui deste último porque se reveste do mesmo acerto gráfico, dando continuidade aos poemas de Pessoa. Se a Imprensa Nacional tinha a mais importante edição crítica, tem agora uma coleção mais pequena, despida dos paratextos e para um maior público, que faz jus à importância de Pessoa.

Coberto por bandeira, ao lado de turistas ou com crianças a indicarem a razão da estatuária, o senhor Fernando está bem vivo na Imprensa Nacional.


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