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BIOGRAFIA — Manuel Teixeira Gomes, boémio, negociante, melómano, viajante, escritor, diplomata e Presidente da República





A 10 de dezembro de 1925, Manuel Teixeira Gomes dá início ao último, e porventura mais assombroso, capítulo da sua «agitada, longa e curiosa vida». Abandona o cargo de presidente da República e embarca, uma semana depois, rumo ao Norte de África, para «voltar a correr mundo». Votando-se a um exílio obstinado, não mais regressaria à pátria, nem mais veria família ou amigos.
Boémio, negociante, melómano, viajante, escritor, diplomata e Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes, nascido em 1860, atravessou, como testemunha e protagonista, os grandes momentos da história portuguesa do início do século XX: o advento e a afirmação do regime republicano, a participação na I Grande Guerra, a ascensão e queda do sidonismo, as intricadas negociações do pós-guerra e a voragem política e social da I República.

Participou intensamente na vida pública e viveu intensamente a sua vida privada. Colecionou experiências, saberes, objetos, arte, amores, amizades e viagens, e tudo nos devolveu através de uma admirável produção literária — cartas, livros de ficção, ensaios e crónicas. Correspondeu-se e relacionou-se com as principais figuras do seu tempo, da literatura à filosofia, da política à arte. Amigos que preservou e que o admiraram malgrado o tempo e a distância.

Nesta biografia não se trata apenas do retrato de um homem fascinante, mas do retrato de um país e do seu tempo. Aliando o rigor irrepreensível de um historiador às qualidades narrativas de um romancista, José Alberto Quaresma, o biógrafo, chama à liça Manuel Teixeira Gomes, o biografado, e juntos contam-nos uma história — pessoal e coletiva — que por vezes nos comove, por vezes nos diverte e quase sempre nos interpela.

INTRODUÇÃO
Manuel Teixeira Gomes é uma das personalidades mais marcantes do século xx. Tem as qualidades de homem esquisito — precioso, raro, primoroso, elegante, requintado, invulgar, excêntrico.

A vida deste ateu convicto sobe bem alto e declina serena para o assumido desfecho solitário, entre o mesquinho detalhe e o grande plano. Os trilhos seguidos, numa ínfima fração, apoucam-no. Em larguíssima parcela, alçam-no muito acima dos seus contemporâneos.

Estudante, cábula, boémio, leitor ávido, absorve uma cultura enciclopédica criativa. Empurrado por antepassados míticos, converte-se num dos mais cosmopolitas habitantes de mundos vastos e pequenos para as suas sedes. Viajante solitário, metódico, não raro se deixa guiar pelas mãos do acaso. Comerciante de olho vivo, acumula fortuna e esbanja-a em todos os prazeres. Frequenta o melhor do seu tempo, hotéis, restaurantes, botequins, prostíbulos. Visita insistentemente exposições, teatros, salas de concertos, museus, bibliotecas. Coleciona com paixão inúmeras obras de arte. Maravilha-se, na Europa, África e Médio Oriente, com catedrais, ermidas, palácios e vestígios sobrevindos do fundo da história. Sobre tudo fala e escreve com sensibilidade, humor, sólida erudição.

É, pelo engenho no manejo da língua portuguesa, um dos maiores escritores da primeira metade do século xx. Dissolve e recria na escrita, de forma insuperável, as paisagens e as vidas que o emocionam. A sua obra literária é um deslumbre para os sentidos.

Admirado por grandes vultos da arte e da literatura nacionais e estrangeiros, conquista pelo talento, cultura, elegância e afabilidade uma multidão de amigos.

Inteligência, intuição política, conhecimento e conhecimentos levam‑no ao mais importante posto da diplomacia portuguesa. Está nas difíceis negociações do reconhecimento internacional da república e da entrada de Portugal na Grande Guerra. É ativo participante dos fóruns posteriores, decisivos para o futuro da Europa e do Mundo, chegando a vice-presidente da Assembleia-Geral da Sociedade das Nações, antecessora da Organização das Nações Unidas.

Eleito sétimo presidente da República, mostra-se tão empenhado quanto cético. Cansado de políticos, militares e gente em quem não acredita, abandona a meio o mandato e o País. À Pátria, dirigida com mão de ferro, não mais quer voltar em vida.

Esta biografia caminha como uma narrativa a duas vozes: a do biógrafo, bisbilhotando com curiosidade velada em milhares de documentos durante oito anos, e a do biografado, cioso dono do seu destino, que a deixa ecoar, com surpreendente atualidade, em manuscritos, correspondência, textos ensaísticos, crónicas e livros. É fortuna ter ao lado esta voz esclarecida, estilisticamente arrebatadora. Ninguém melhor sabe de si, no que revela e no que esconde.

(...)
BELMIRA

Entra na casa dos quarenta. O longo corrupio das viagens aparenta ter chegado ao fim. Tenta abraçar uma vida pouco menos que indolente.

«Mas o regresso a casa, o silêncio do meu gabinete — neste pacificador ambiente quase conventual, alguma vez já defumado a incenso e com escaninhos onde outros aromas predilectos se encelaram — trouxe-me quase uma esperança… Tanto basta a galvanizar-me numa vida nova! Fruir, parado, o mundo todo — a paisagem nas suas linhas e cores, sem perder movimento algum dos seres perceptíveis que a animam — fruir sem exaltação, saboreadamente, — como nas serenas contemplações que adoçam as convalescenças demoradas sem a angústia da ansiedade juvenil nem os encruamentos da tristeza prevista pela experiência, tal seria agora a minha aspiração ou o meu programa…»

Quer contentar-se com pouco, decifrar os enigmas «miudinhos» da vida, poupar-se ao esforço físico.

Traz debaixo de olho uma trabalhadora do seu fumeiro, de apenas quinze anos, nascida em Vila Nova de Portimão, no dia de Nossa Senhora das Neves, a 5 de agosto de 1886. Este dia soltou-se do Breviário e colou-se-lhe ao nome, Belmira das Neves.

O pai de Belmira, João de Deus, nome para colher simpatia, é um pescador de Alvor. A mãe, Quitéria das Dores Reis, governanta nascida no mesmo lugar, também suscita afeição. A bisavó paterna de Manuel chamava-se Quitéria Maria de Ataíde e nascera também em Vila Nova de Portimão. O acaso adiantava pequenas afinidades.

Belmira é bela. As trocas de olhares entre patrão e empregada são intensas. O campo afetivo estreita-se. O patrão é sabido. Sabe envolver-se e envolver. Do embasbacamento à intimidade vai um passinho curto.

Quando vê fugir-lhe a juventude, amanceba-se com a donzela. Monta-lhe casa na vila. Passam a deitar-se em leito conjugal, sem passar pelo altar ou pelo registo paroquial. Enlace de juntar apenas corpos e tralha, salvo seja, já que Manuel conhece há muito o conforto. O casal instala-se na vila, a meio da Rua Direita, no número 10. A casa é ampla, com dois pisos e quintal, um bom ninho para a paixão que não cessa de crescer.

Não se sabe o que pensam os pais de Belmira do arranjinho. A esperança num bom partido é superior ao preconceito. Ignora-se, também, se houve dize-tu-direi-eu por um maduro seduzir a moçoila sua trabalhadora. Manuel tem mais 26 anos do que Belmira. Nada invulgar. Muitas uniões dão-se com grandes diferenças de idade. Não há homens velhos nem mulheres novas em demasia.

Os pais de Manuel, sobretudo a mãe, não apreciam o caso258. Estranho seria se avalizassem uma relação entre criaturas provindas de berços tão apartados.

O património mete-se sempre pelo meio dos devaneios. De um lado muito, do outro quase nada.

O casamento formal nunca se realizará. Só poderia trazer embrulhadas. Os pais imaginam as derivas do solteirão. A censura a um filho já quarentão é inútil.

E o pior. A vida está a secar-se para José Libânio Gomes. O respeitado republicano recebe o sacramento da extrema-unção e morre aos oitenta anos em casa, às onze horas da noite de quinta-feira, no dia 16 de março de 1905. É sepultado em «jazigo privado no cemitério público». Não deixa testamento.

Tristezas não pagam dívidas. Dúvidas cedo se apagam. Um mês depois da morte do pai, Manuel já se passeia em Lisboa na companhia de Belmira, agora com dezoito anos. Por aqui devaneiam, entre meados de abril e maio.

Vive-se o ímpeto da modernização urbanística. Executam-se os projetos elaborados, em 1888, por Ressano Garcia. É aprovado o Plano Geral de Melhoramentos que inclui a construção das Avenidas Novas. A cidade tem quatrocentos mil habitantes. Enorme, quando comparada com as outras do País. Cresce a contragosto de quem a ama e conhece bem maiores e mais bem organizadas.


José Alberto Quaresma
Manuel Teixeira Gomes - Biografia
Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
2016
634 pp

À venda nas lojas INCM.

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