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«Não me importo que a minha vergonha esteja presente neste livro», entrevista de Vasco Gato a Diogo Vaz Pinto, no Sol



por Diogo Vaz Pinto, in Sol, 21 jan 2017


Contra Mim Falo, título da obra poética de Vasco Gato, acaba de chegar às livrarias e é, a par da reunião da obra do poeta brasileiro Eucanaã Ferraz, uma edição que abre boas perspetivas quanto ao projeto de fazer renascer a Plural.

A estreia no ano 2000, se não foi das mais seguras, viria a ser marcante por dar início a um percurso que hoje coloca Gato como um dos nomes mais firmes da nova poesia portuguesa, essa que não recusa nem vira as costas aos grandes abalos provocados na tradição poética portuguesa no século XX.

DVP — Este título, Contra Mim Falo, pressupõe a ideia da poesia como o discurso com o qual uma pessoa se condena, ao invés de procurar salvar-se?

VG — Claramente. Espero que esse fogo se mantenha, o da poesia como o grande adversário da complacência. É fácil não ter complacência com o mundo, com o estado das coisas, mas depois seres bastante benevolente contigo próprio. O título pode estender-se a essa investigação que deves sempre manter, um estado de vigilância e confronto contigo mesmo. Na verdade, nasceu da ideia de reunir todos os livros, que não era algo que eu desejasse propriamente, sabendo que ia ter de lidar com muitas coisas que, neste momento, me põem a falar contra mim, mas, num sentido mais lato, creio que sempre foi essa a matriz.

DVP — Nos últimos tempos tem traduzido muita poesia. Há um lado mais sedutor na tradução do que na escrita de poesia?

VG —
Sim. Há o próprio deslumbramento de andar a folhear e ser de repente apanhado por qualquer coisa. Já há o ponto de partida do fascínio e o desafio é só – é só? – transpô-lo, fazer com que mantenha a palpitação. Na escrita tens de andar à procura de um deslumbramento ou de uma inquietação. Às vezes penso que já traduzi muito, julgo que já não vou encontrar muitos poemas… E de repente, no último ano, depois de ter reunido uma série de poemas traduzidos, já tenho mais cento e tal páginas de poemas. Não vou dizer que é inesgotável, mas é fascinante essa promessa renovada de que vais encontrar uma coisa que te vai derrubar. É esse o gozo do tradutor, neste caso, o saber que andam por aí à espera que tropeces neles, ou que alguém tos faça chegar. Que vais ter outra vez esse momento de descoberta.

Ler a entrevista na íntegra:

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