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«Textos sobre Textos» — a poesia de Alexandre Sarrazola vista por Maria da Conceição Caleiro



por Maria da Conceição Caleiro
in Revista Caliban, 18 set. 2016


E uma imagem. Vidro sobre vidro, autor anónimo, séc. XIX. Textos que emanam imagens fortes: Fade Out, menção honrosa do prémio de poesia INCM/Vasco Graça Moura, é o último volume de uma trilogia que inclui Thaumatrope (Averno, 2007) e View-Master (Língua Morta, 2013). Imagen(s), mote ou trampolim de escrita. Livro dedicado a Mafalda Capela cujas fotografias têm acompanhado o escritor. Poesia? Prosa? Antes quadros imagéticos fortíssimos. Livro dividido em duas partes: RODA DE FARADAY e DRESS CODE. O movimento, a velocidade que alucina e transformo no seu curso umas coisas noutras e outras; a máscara sobre a máscara do sujeito que enuncia e de qualquer cena enunciada; e dada a ser visualizada.

Uma poesia culta, algo hermética plena de erudição, «textos sobre textos», multirreferencial, que se mascara, densa, elítica. Quase parece um quebra-cabeças com que o autor se diverte e nos enreda. Como que estratificada em ondas vibrantes e sucessivas de sentidos possíveis que se sucedem mas não se sobrepõem e expandem diferindo qualquer sentido que um instante sincronizou, e que parecia estável como uma câmara lenta. Mais parece uma incessante charada. No Aurélio, charada: «espécie de enigma cuja solução consiste em recompor uma palavra partindo de elementos desta ou de sílabas que tenham um significado determinado, sendo tais significados (parciais, pedras ou chaves) apresentados juntamente com um conceito que expressa a palavra desejada. Caso ou assunto misterioso».

Ao mesmo tempo da imaginação (metaforicamente desenfreada ) que reúne corpos sem nada aparentemente em comum, da atenção aos agregados imagéticos que isola, intensifica e por acumulação metonímica exaustivamente descreve. Riqueza metafórica na vertical e acumulação metonímica que estende o espaço sem o esgotar, as conexões são sem fim. Tal como o trabalho do arqueólogo que o autor é e em que o leitor é induzido a transformar-se, expurgando estrato a estrato, em profundidade, o que parece turvar a compreensão plena. E dentro da imaginação uma obsessiva, obstinada e precisa atenção às pequenas peças do mundo.

Na capa, uma linha negra esgarçada, talvez uma réstia da lua. Ou luz. Um rastilho magro que mesmo assim levará o texto sempre a reacender-se.

Mesmo que sobre um pano de fundo obscuro, de guerra, conflito e de morte.

Todo um léxico noturno trespassa: sangue, cicatrizes, rixa de navalhas, bélica celebração, navalha, ponta-e-mola, balear, bala, tórax couraçado, cota de malha, elmo, detonação, 6,45 [arma]… Uma constelação bélica suporta-a:
HELENA:

de pouco lhe servia a tua ponta-e-mola quando a quiseram levar dali para o bloco
onde se morria preso por elásticos e ligado a garrafas de soro sedativos e mijo;
a Ilíada à cabeceira e a velha levada por uma plêiade de mulheres de socas perfuradas
suas saias drapejando o ar condicionado demasiado apontado ao linóleo do piso

sobre quem retumbar era só uma questão de fortuna: os aparelhos a monitorizar a queda;
rodapé vidros e chão: tudo agredido por um solvente com nome de guerreiro aqueu —
e eis que enquanto a empurravam, as almofadas em desordem sobre a cama de rodados,
rachou o ecrã da laparoscopia empunhando bem alto o seu flamejante capacete de deusa.
Um dos traços estlísticos desta escrita é a colisão de universos à partida distintos, o chamado zeugma: os olhos de Peter, eram azuis e ele tinha uma pistola de alarme. Chama-se Aquiles o poema e é talvez um dos mais belos de Fade Out. Curiosamente usa-se e abusa-se do condicional. O futuro do passado. O passado revisitado numa perspetiva futura? De quem persegue as situações de fora de qualquer, ou seguindo o rastilho trespassando todos os tempos. Diluindo-os. Talvez.

Tudo é perspetivado assim. Diversas situações que tendo sido viriam a ser.

O passado revisitado adquire uma aura de tempo sem balizas, sem bainha. Imponderável. O futuro do passado reinventa-se. Daí talvez a preferência por minúsculas no começo de cada verso, deixados em aberto do começo e no fim. Sem ponto final, antes o ponto e vírgula, uma pausa menor do que o ponto. Uma espécie de ethos desencarnado que levita mesmo quando a identificação no espaço é precisa.

Uma espécie de regresso. A persistência em sincronia com a memória do agora ou do naquele tempo. Talvez por isso os títulos dos poemas são os nomes próprios de Homero: Aquiles, Ájax, Heitor, Ulisses; Paris, Agamémnon, Helena.

Na primeira parte o espaço, povoado pelos «mauvais garçons» é reconhecível: de Carcavelos a Santo Amaro talvez: a praia, o túnel para a praia, a Pérgola, a linha de caminho de ferro à beira, a Marginal onde alguém mergulha e morre. Sob o rápido de Algés. E era verão, é quase sempre verão o tempo destes maus rapazes, violentos e alcoolizados, na ressaca. A temática dos amigos, da adolescência, da família insiste.

Versos longos, quase prosaicos cuja poeticidade, ou estranheza, advém sobretudo da irrupção de elementos insólitos, cujo choque de alusões nem sempre facilmente decifráveis (o que acontece aliás em todo o livro aliás), na solene e elegante inversão de substantivo e adjetivo, na menção de um léxico incomum no texto literário e que nos sobressalta; estranha a leitura (farmacopeia. Ablepsia ou laparoscopia), assim como o gosto por termos já quase arcaicos ou línguas estrangeiras. Sem esquecer a elegância das repetições.

Lugares, personagens, nomes que arrastam e cumulam uma história, abraçam e dão nome próprio ao que o poema alude, que nele se inspira. E que o leitor terá de desvendar, se quiser, estas contiguidades intensas.

Um exemplo: da segunda parte, DRESS CODE, o primeiro «A shorter Ego. [ James Agate]». Primeira interrogação do leitor comum: quem foi James Agate (1877–1947)? Um diarista (Ego, em vários volumes), textos sérios e faits-divers, assuntos descosidos, critico de teatro britânico, desabrido e mordaz, as entradas do são de uma grande variedade. Elitista e petulante, um dandy. Gostava de cavalos e ambientes requintados: Ego, é o nome que o sujeito poético (James Agate?) chamava a uma égua baleada. A sua agonia é dilacerante. Todo o poema é construído sobre um eixo semântico equestre e a violência animal do cavaleiro: o cavalo, o cavalgar e os apetrechos da cavalgada (até as luvas que a seguir à detonação foram deixadas numa cómoda encimada pela figura de São Francisco;
o texto é emblema deste labor e universo poéticos tão peculiares em todos os planos: a ferocidade, um estado ou ameaça de guerra latentes e a minúcia dos detalhes. Ela, Ego, «espojada entre os trevos e as azedas» diria: «Seigneur, faites de moi un instrument de votre paix», transcreve Sarrazola a oração de São Francisco, o mesmo pousado sobre a cómoda de mogno.

De resto a hiponímia é um dos traços mais marcantes. Ainda deste poema, mas poder-se-ia escolher muitos outros:

no princípio era a pulsão de a montar e ir a passo galgar o arroio bordejado da azedas
que marcava o limite da granja e corria depois para a curva da várzea alagada pelo rio: 
ninguém aqui me estranhou, nem às polainas sujas de pétalas de flores do lameiro; (…). 

Se o olhar é regra geral agreste, Com a soberba fria de um olhar que se quer exterior, sem sujeito, a frio. Mesmo escaldando por defeito. No que diz respeito à paisagem, a uma certa ruralidade, a violência dá tréguas e a delicadeza quase amorosa emerge.


Fade Out - Alexandre Sarrazola


Alexandre Sarrazola
Fade Out
Coleção Plural
Imprensa Nacional-Casa da Moeda


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