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«Rico Filho! Até sabe o que é o mastoideu!»




Com o cheiro dos manjericos e das sardinhas assadas no ar, Lisboa dá as boas vindas ao verão em modo de festa! O popular Santo António abençoa rapazes e raparigas e os arraiais animam os bairros históricos da cidade. Cenário ideal, portanto, para Vasco Leitão: namoradeiro, conquistador e eterno estudante cábula de medicina, que sobrevive da pensão de duas tias. Precisou, porém, o menino Vasquinho de abandonar a vida boémia e aplicar-se nos estudos para conquistar a bênção do pai de Alice, sua namoradinha, e a herança das suas ricas tias. E foi, precisamente, num suposto livro «composto e impresso» na nossa casa, a Imprensa Nacional, que aprendeu o que era o esternocleidomastóideo! Feito que lhe valeu um «brilharete» no exame final  e que o tornou Doutor (porque fadista já ele era!). Mas aprendeu muito mais.

https://www.youtube.com/watch?v=fRwdQEiewBQ


A personagem de Vasco Leitão, eternizada por Vasco Santana em A Canção de Lisboa (1933), é conhecida de todos. A ele se deve a famosa frase «chapéus há muitos, meu palerma». A Canção de Lisboa é também um verdadeiro clássico da comédia portuguesa, assinalando uma efeméride importante: foi o primeiro filme sonoro português a ser filmado (em parte) em estúdios nacionais e a primeira longa-metragem produzida com equipamento da Tóbis! Já nessa altura a Imprensa Nacional era uma referência incontornável que fazia correr a sua tinta — e boa fama — ao lado da contemporaneidade: o cinema sonoro!

Realizado por Cottinelli Telmo e com diálogos de José Galhardo A Canção de Lisboa teve a sua estreia no Teatro São Luiz, a 07 de novembro de 1933, e contou com um elenco de peso: António Silva, Beatriz Costa, Manoel de Oliveira, Vasco Santana, Tereza Gomes, Alfredo Silva, Sofia Santos, entre outros. A música ficou a cargo de René Bohet e Jaime Silva Filho. O genérico saiu da criatividade de Almada Negreiros, que desenhou o cartaz do filme.

Cartaz da autoria de Almada Negreiros
A título de curiosidade, e tentando uma aproximação à obra citada em A Canção de Lisboa, dos arquivos da Imprensa Nacional — Casa da Moeda constam os seguintes títulos:

Da autoria do Dr. Eduardo Motta (e não da Mata, como refere a personagem) numa edição da Academia das Ciências:

Licções de pharmacologia e therapeutica geraes de Eduardo Augusto Motta. - 3ª ed., Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1901. - XII, 753, [1] p., 23 cm. - Enc.

Licções de pharmacologia e therapeutica geraes de Eduardo Augusto Motta. Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1887. - 674, [2] p., 23 cm. - Enc.

Da autoria de uma comissão presidida pelo Dr. Bernardino Gomes, secretariada pelo Dr. José Tomás Sousa Martins e nomeada pelo Rei D. Luís, numa edição Imprensa Nacional:

Pharmacopêa portugueza. - Edição official. - Lisboa, Imprensa Nacional, 1876. - LIII, 547 p.; 25 cm. - Enc.

Em 2016, o menino Vasquinho continuou a fazer das suas, desta vez por intermédio do humorista César Mourão, no remake do filme homónimo assinado, agora, por Pedro Varela. A adaptação da história à atualidade exigiu, evidentemente, rever o guião original: a menina Alice tem sotaque brasileiro, o seu pai já não é alfaiate mas sim um aspirante a primeiro-ministro e a tia rica é natural de França e não de Trás-os-Montes. Mas, já se sabe, há coisas que nunca mudam: e Vasco Leitão continuou e estudar pelos supostos manuais «compostos e impressos» na Imprensa Nacional.

Quanto a Vasco Santana deixou-nos há quase 60 anos, em 1958. Precisamente num dia de Santo António…

Texto: TPR
Pesquisa bibliográfica: MJG


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