Texto e fotografias: Tânia Pinto Ribeiro

Gonçalo M. Tavares é um virtuoso das letras contemporâneas e um prodigioso observador da gramática humana. Mas não tem a certeza se daqui a 50 anos haverá um Clube de Leitores que se reúna para debater uma obra sua, apesar de tentar «escrever de uma forma séria». E escrever de uma forma séria pressupõe «escrever livros que resistam ao tempo». Ficaria «muito contente» se, a partir de um livro seu, conseguíssemos todos ficar «um pouco mais lúcidos» em relação ao «mal» e à «maldade».
Para já, ou melhor, para outubro, é ele quem vai dinamizar a 1.ª edição do Clube de Leitores da Imprensa Nacional, inteiramente dedicada aos clássicos da Literatura Portuguesa. De Gil Vicente a Nemésio, passando por Camões, Pessoa e Sá Carneiro; de Cesário Verde a Almada, sem esquecer António Vieira, Régio ou Eça. As sessões — num total de 10 — vão tocar temas tão díspares como universais: a morte, o amor, a linguagem, as utopias, a arte, a beleza, a loucura, o poder, a imaginação ou a identidade… «A ideia é termos um clube de leitura aberto, gratuito, com sessões mensais, a decorrerem na Biblioteca da Imprensa Nacional, onde se irá debater, em cada sessão, um tema e um livro.», diz-nos.
Gonçalo M. Tavares vê na leitura «o início da reflexão» — como que uma espécie de prefácio do pensamento. Diz que não gosta de ler sozinho e que tem de ter sempre à mão a «imprescindível» companhia do lápis. «Ler não é estar a ver um programa de televisão. Ler é estar com um bisturi, que é o lápis, a anotar, a sublinhar, a riscar, a apontar de lado…». Depois há também a questão dos sublinhados, um roteiro que o faz compreender o momento da leitura e, em certa medida, uma parte da sua biografia. «O que não sublinhei naquele momento foi porque não lhe dei importância».
Diz também que não consegue ler poesia ou ficção da parte da manhã. Só ensaio e filosofia dura. Também não consegue ler ensaio ou filosofia dura da parte da tarde. Só poesia e ficção. Gonçalo M. Tavares não gosta de falar de autores, prefere falar de obras. Menos das suas. Foi na biblioteca do pai que folheou as primeiras obras clássicas da literatura universal. E onde se tornou leitor. «Na biblioteca do meu pai havia várias coleções de clássicos. É engraçado porque associo os clássicos também a um percurso do corpo. Uma dessas coleções estava no primeiro andar, outra estava no piso abaixo. Eu tinha de chegar até lá».
Hoje, Gonçalo M. Tavares continua a manter uma relação muito física com o livro impresso. «Uma coisa tão simples como sentir o peso do material é algo que não se consegue com o e-book. Quando se está a começar a ler um livro o peso maior está no lado direito, depois continuamos a ler e sentimos um prazer enorme ao verificar que o peso do livro se está a deslocar para a mão esquerda. É uma sensação extraordinária!». Foi o que sentiu quando leu A Montanha Mágica, de Thomas Mann.
Mas o clássico a que volta sempre — e do qual não se cansa de falar — foi escrito há quase dois mil anos. Precisamente por ser um clássico continua atual: Cartas a Lucílio, do estoico filósofo romano Séneca. Afinal, «um clássico pode ser muito mais contemporâneo do que um livro escrito na contemporaneidade».
Escritor, Gonçalo M. Tavares não obedece a regras. Obedece a instintos. Não escreve com um plano. Escreve de «maneira alucinada». Escreve «de manhã» para publicar anos mais tarde. O tempo apura-lhe o olhar. Até porque não há espírito crítico que não se altere com o acontecer dos dias. Também é subversivo «intencionalmente» quanto à ortografia. O que origina diálogos «muito divertidos» com os seu revisores. Como das vezes em que escreve Paris com p pequeno. «Quando se escreve Paris com p grande no meio da frase há uma pequena paragem; quando se grafa Paris com p pequeno no meio da frase há uma microaceleração. Isto parece uma conversa de malucos mas para quem escreve e para quem sente o texto não é!». A revista Magazine Littéraire intitulou-o «genial»!
Não gosta da palavra «inspiração» para explicar o dom. Prefere chamar-lhe «energia extraordinária». «Realmente esta parte da escrita nada tem que ver com uma racionalidade muito lúcida. Lá isso não tem! Até sinto que quanto mais rápido escrevo, quanto menos estou a pensar, mais forte o texto fica».
Explica, depois, que a falta de curiosidade é uma «desistência da vida» e o entusiasmo uma «doença contagiosa». Mas, por muito que se esforce, não consegue sentir «entusiasmo» quando olha para uma fotografia despida de gente. «Uma paisagem sem pessoas é muito pouco interessante. O que me interessa são as pessoas». E Gonçalo M. Tavares vai ao encontro delas, quase que secretamente, calcorreando, sem pressa, os cafés, as artérias e as curvas da cidade — de que tanto gosta — como que a contemplar, perdão, a observar um grande fresco da condição humana. E, talvez por isso mesmo, capaz de as tornar personagens. Depois — e como que numa roda viva — põe-nas a caminhar por entre reinos, bairros, mitologias, cidades e bibliotecas, descortinando também, por detrás de cada uma delas, a sua própria experiência de grande leitor que é.
É, aos 46 anos de idade e quase 40 livros depois, considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea ocidental. Recebeu os mais diversos prémios e chegaram-lhe os elogios mais distintos de nomes como Eduardo Lourenço, Enrique Vila-Matas, Bernardo Carvalho, António Lobo Antunes, Alberto Manguel e José Saramago. Reza a história que o Nobel português teve vontade de lhe bater por «escrever tão bem», deixando a profecia: a Academia Sueca iria estar de olhos postos na obra dele. Vasco Graça Moura não pôde estar mais de acordo. Mas Gonçalo M. Tavares prefere não se deixar deslumbrar (nem irritar) diante das reações que recebe. Opta por «guardar uma certa distância». Talvez por cautela. Talvez por ser avesso a grandes aclamações épicas. Apesar de já ter escrito uma epopeia: Uma Viagem à Índia.
Hoje, está presente em de cerca 50 países e é traduzido em quase 40 línguas. E há uma coisa que agrada Gonçalo M. Tavares nesse percurso lá fora: geralmente quem o escolhe publicar «são editoras muito literárias». Já este ano esboçou um novo projeto com a editora pública portuguesa, a futura coleção Europa, e inaugurou, na Bertrand Editora, a série Mitologias com o título A-Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, «a primeira publicação ligada a uma inquietação minha», conta-nos. E nós, claro, quisemos saber qual é…





São dez os novos títulos da editora pública, a Imprensa Nacional, a integrarem as novas recomendações do Plano Nacional de Leitura (PNL) para 2017/2018, agora que estamos a mês e meio do início de mais um ano letivo.

O Plano Nacional de Leitura disponibilizou a professores, educadores e leitores, de diferentes idades e níveis de ensino, as listas que divulgou esta semana, e onde se acrescentaram, da chancela Imprensa Nacional, livros tão diferentes quanto: O Essencial sobre Charles Chaplin e O Essencial sobre Pablo Picasso, de José-Augusto França, ambos publicados na icónica coleção O Essencial Sobre. Juntam-se também à lista a Poesia Completa de Mário Dionísio, e Estrada Nacional de Rui Laje, ambas incluídas na renovada coleção Plural, que premeia a poesia e homenageia também um grande poeta: Vasco Graça Moura (que idealizou a coleção).

Recomendados estão também os livros infantojuvenis Cara ou Coroa? Pequena História da Moeda, com texto de Ricardo Henriques e ilustrações de Nicolau, e Sou o Lince Ibérico – O Felino mais Ameaçado do Mundo, texto de Maria João Freitas e ilustrações de Tiago e Nádia Albuquerque; ambos da coleção Museu da Casa da Moeda.

Vou ao Teatro Ver o Mundo, de Jean Pierre Sarrazac, editado pela primeira vez pela Gallimard, conheceu em 2016 a sua versão em português com design e ilustrações de Abigail Ascenso. Fruto da parceria da Imprensa Nacional com o Teatro Nacional de São João, este título faz agora parte da lista de sugestões PNL.

Destaque ainda para a grande vida portuguesa de José Saramago – Homem Rio, de Inês Fonseca e João Maia Pinto. Recorde-se que a coleção infantojuvenil Grandes Vidas Portuguesas dedica-se às biografias de personalidades que se destacaram em vários domínios da nossa história. E, por falar em biografias, também duas biografias bilingues: Humberto Delgado (1906-1965) – Coragem, Determinação, Reconhecimento, de Frederico Delgado Rosa; e Almeida Garrett (1799-1854) – O Homem e a Obra, de Clara Moura Soares e Maria João Neto. Ambas publicadas na recente coleção No Panteão Nacional, merecem igualmente a melhor atenção do PNL.

Entre poesia, ensaios, literatura infantojuvenil, biografias e literatura portuguesa, a Imprensa Nacional conta, pela primeira vez, com 30 obras recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura!

Do PNL já faziam parte, em 2016:


Acreditamos que continuamos no bom caminho, empenhados em prestar um serviço público de qualidade e em chegar cada vez mais e cada vez melhor a mais leitores.

Recorde-se que PNL foi criado em 2006 para melhorar os níveis de literacia e leitura dos portugueses, promovendo o gosto pela leitura e já tornou público que nos próximos anos vai apostar na «literacia científica e digital» para crianças e adultos e incluirá bibliotecas escolares e instituições de ensino superior. Porque já se sabe e os próprios o afirmam:

A leitura prejudica gravemente a sua ignorância!

Boas leituras!



TPR


 

Há livros que perdemos e ganhamos simultaneamente. Este enche-me de pena e felicidade.

Conheci a poesia de António Reis (e a de Santos Barros, já agora) quando fiz, com o Rui Lage, a antologia Poemas Portugueses. O ano talvez fosse o de 2006 ou 2007. Estes dois poetas encheram-me as medidas. E cheguei a falar com a herdeira do Santos Barros para o fazer nas Quasi. Infelizmente, o fecho da editora impossibilitou este desejo (entre tantos outros...). Na Babel, não consegui fazer muito. Era outra a minha função mas, ainda assim, editei o Ferreira Gullar, o Paulo Henriques Britto, o Mourão-Ferreira, entre outros. Quando criei a Glaciar, a ideia lírica de apostar na poesia teve de ser substituída pela realidade. Mas a Imprensa Nacional, pouco tempo depois, possibilitou-me de uma forma única continuar a fazer o que tanto gosto, convidando-me para dirigir a coleção Plural. E ainda continua.

António Reis estava previsto para 2018 ou 2019. Felizmente, o conceito de edição supletiva da Imprensa Nacional é aqui bem exemplificado: antes, a edição comercial funcionou e a Imprensa não foi necessária. Isso deixa-me feliz. Como me deixa feliz ver o livro a ser editado. Só fico triste por não ter sido eu a editá-lo. Foi o Pedro Mexia. Pelo menos, foi editado pela mão de um amigo.

A poesia do António Reis é a poesia do quotidiano por excelência. Notem a frase, que costuma ser adágio sem pensar no que se diz: «por excelência». Não só como exemplo final, mas também por ser excelente. É uma poesia feita de pequenas pulsões, frases curtas que nos fazem imaginar cada verso, entre as montras, as fábricas, os passeios e o Sol: «Poemas quotidianos // como o Sol / como a noite // como a vontade de comer / e o sono // como as preocupações / e o amor // porque saio á rua / e trabalho / diàriamente». A arte poética de António Reis toda num só pequeno e grande poema.

Mas não serei eu a analisá-la. Para tal, leia-se o excelente prefácio de Fernando J. B. Martinho ou, para conhecermos melhor o autor na sua outra e mais conhecida ocupação de realizador, o posfácio de Joaquim Sapinho. Se quisermos saber ainda mais, procurem a primeira edição desta «obra completa» (100 poemas, tão-só), editada em 1967 e introduzida por Eduardo Prado Coelho. Mas se quiserem fruir em cada verso, há esta edição da Tinta-da-China, maravilhosa, como são as edições da Tinta-da-China. Note-se o cuidado: o «à» em «diàriamente»; a foto do autor na última página. São pormenores, sim. Mas é com eles que se constroem livros perfeitos.

António Reis está publicado. O Santos Barros sai este ano na Imprensa Nacional, organizado por mim. Com uma enorme quantidade de inéditos e a reedição de todos os seus livros. E um prefácio de António Lobo Antunes. Digo-o porque acabei por ser eu, com os Poemas Portugueses, a apresentar a poesia de António Reis a este outro António. Será um prazer enorme oferecer-lhe este livro.
Obrigado, Pedro. E raios te partam, claro.

Poemas Quotidianos de António Reis, com prefácio de Fernando J. B. Martinho e posfácio de Joaquim Sapinho.
Publicado em junho de 2017 pela Tinta-da-China, depois de impresso nas oficinas gráficas da Rainho & Neves.



CLUBE DE LEITORES DA IMPRENSA NACIONAL

1.ª edição: Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa
Orientador: Gonçalo M. Tavares
Sessões: de outubro 2017 a julho 2018 (1 por mês)
Horário: 18:30 às 20:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)

Estão abertas as inscrições. Ver aqui o Programa e o Regulamento.

A leitura é só o início. Será um clube de leitores reflexivo. Há uma ideia importante que é a de não falarmos apenas de literatura. A literatura não é uma espécie de arte que está num túnel ao lado de outros túneis. Não existe o túnel da literatura, o túnel do teatro, o túnel do cinema… Não são túneis paralelos e que não se tocam! É precisamente o contrário. Estas artes estão todas no mesmo mundo e tocam-se. O ponto de partida deste clube de leitores será um determinado livro mas passaremos por muitos livros e por outras artes.
Gonçalo M. Tavares

Já a partir do início de outubro próximo, a centenária Biblioteca da Imprensa Nacional, em Lisboa, voltará a ser povoada pelos nossos autores clássicos, os livros de sempre, as leituras comuns e os debates esclarecedores (ou, talvez, inquietantes)…

«Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa» é a proposta temática para este que é o primeiro clube de leitores dinamizado pela Imprensa Nacional e pelo leitor (e também escritor) Gonçalo M. Tavares, que coordenará as sessões.

De Gil Vicente a Nemésio, passando por Camões, Pessoa e Sá Carneiro; de Cesário Verde a Almada, sem esquecer o Padre António Vieira, Régio ou Eça. As sessões tocarão temas tão díspares como universais: a morte, o amor, a linguagem, as utopias, a arte, a beleza, a loucura, o poder, a imaginação, a identidade, entre outros...

O Clube de Leitores reunirá mensalmente, num total de 10 sessões (entre outubro 2017 a julho de 2018). As sessões serão totalmente gratuitas, e destinam-se a todos aqueles que gostam de ler e, sobretudo, a todos aqueles que gostam de conversar sobre aquilo que leram, que estão a ler ou que tencionam vir a ler.

Esta é mais uma iniciativa da Imprensa Nacional-Casa da Moeda que pretende ir ao encontro do seu desígnio de sempre, numa missão maior de serviço público: promover a leitura, reavivar os clássicos, suscitar reflexões, fomentar debates.

Promete, a rentrée literária da editora pública! E sempre na melhor das companhias: a dos nossos escritores!

Veja aqui como pode candidatar-se.


TPR


CLUBE DE LEITORES DA IMPRENSA NACIONAL
1.ª edição: 2017/2018
Programa: Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa
Orientação: Gonçalo M. Tavares
Organização: INCM
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Periodicidade: mensal
Horário: quintas-feiras, 18:30 - 20:00 h

O Clube de Leitores da Imprensa Nacional é uma iniciativa da editora pública e do escritor Gonçalo M. Tavares.
A 1.ª edição do Clube de Leitores da Imprensa Nacional desenvolverá as suas sessões, totalmente gratuitas, entre outubro de 2017 e julho de 2018, num total de dez (10) sessões.

1. Objetivos:
  • Debate sobre as obras proposta por Gonçalo M. Tavares;
  • Partilha de conhecimentos, reflexões e inquietações a partir de uma experiência de leitura;
  • Reavivar a leitura das obras e dos autores clássicos e trazê-los para o debate contemporâneo.
2. Público-alvo:
  • O Clube de Leitores da Imprensa Nacional destina-se sobretudo a pessoas que gostem de ler e que não encarem a leitura apenas como um processo de distração ou de puro passatempo. Este clube não se destina a especialistas de livros. Destina-se àqueles que veem o livro como o início de uma boa conversa.
3. Funcionamento:
  • Todas as sessões terão como ponto de partida a leitura de clássicos da Literatura Portuguesa;
  • O mesmo livro suscita quase sempre diferentes interpretações e vivências por isso para cada sessão haverá um livro, um autor e um tema — que servirá de tópico para discussão.
  • Na sessão, além da leitura em voz alta de excertos do livro, haverá um diálogo sobre o livro proposto bem como sobre outros livros com temas próximos.
  • O clube funcionará através de sessões presenciais.
  • O clube reunirá com uma periodicidade mensal.
  • Cada participante lerá o livro indicado para cada mês.
  • Todas as sessões serão orientadas/dinamizadas por Gonçalo M. Tavares.
4. Local de funcionamento
  • As sessões decorrerão na Biblioteca da Imprensa Nacional sita na Rua da Escola Politécnica n.º 135 em Lisboa (entre o Largo do Rato e o Jardim do Príncipe Real).
  • Como chegar: Autocarro: 773 e 758; Metro: Rato; Coordenadas GPS: N 38º 43' 4.45" W 9º 9' 6.62" 
5. Calendário das sessões
  • A agenda das sessões será definida pelo orientador do clube juntamente com os seus membros, com início previsto para outubro de 2017.
  • As sessões do Clube de Leitores da Imprensa Nacional ocorrerão uma vez por mês, sempre num dia útil (quinta-feira), ao final da tarde, entre as 18:30 e as 20:00 horas.
6. Admissão
  • O número de participantes será limitado a 15 (quinze);
  • Para participar no Clube de Leitores da Imprensa Nacional Casa da Moeda os interessados deverão enviar um pequeno texto explicativo (cerca de 1200 caracteres em formato Word) do seu percurso académico e profissional e a motivação que os leva a querer participar no Clube de Leitores da Imprensa Nacional.
  • O critério de selecção dos participantes será efectuado com base no texto de motivação enviado. Os candidatos deverão ainda disponibilizar as seguintes informações:
  1. Nome completo
  2. Data de Nascimento
  3. Profissão
  4. Contacto email
  5. Contacto telefónico
  • As candidaturas deverão ser enviadas para o email: clube.leitores@incm.pt
  • A seleção dos participantes ficará a cargo da Imprensa Nacional Casa da Moeda e será comunicada para o endereço email e /ou telefónico facultado pelos participantes.
  • Todas as informações adicionais deverão ser solicitadas por escrito para o email: clube.leitores@incm.pt
7. Programa
  • Sessão 1 – Sobre a morte
    Gil Vicente – Auto da Barca do Inferno
  • Sessão 2 – Sobre o amor e o desejo
    Camões – Os Lusíadas (canto IX)
  • Sessão 3 – Sobre a linguagem
    Padre António Vieira – Sermões (Sermão aos peixes)
  • Sessão 4 – Sobre as utopias
    Eça de Queirós – O Mandarim
  • Sessão 5 – Sobre a técnica e a cidade
    Cesário Verde – O Livro de Cesário Verde
  • Sessão 6 – Sobre a arte
    Almada Negreiros – Manifestos
  • Sessão 7 – Sobre a loucura e a racionalidade
    Mário de Sá Carneiro - A Loucura
  • Sessão 8 – Sobre a doença e a beleza
    José Régio - O Príncipe com Orelhas de Burro
  • Sessão 9 – Sobre o poder e a imaginação
    Vitorino Nemésio – Poesia
  • Sessão 10 – Sobre a identidade
    Fernando Pessoa – Livro do Desassossego
8. Disposições finais
  • Os membros do Clube devem respeitar-se mutuamente e cumprir as regras básicas de boa convivência, caso não o façam reserva-se o direito à Imprensa Nacional — Casa da Moeda de anular a sua participação.
  • A não comparência, sem aviso prévio, a duas (2) ou mais sessões consecutivas, reserva-se o direito à Imprensa Nacional — Casa da Moeda de anular a sua participação e de substituir o participante.
  • Somente serão consideradas as inscrições que estiverem em conformidade com as normas estabelecidas neste Regulamento.
  • Ser membro do Clube de Leitura da Imprensa Nacional pressupõe a aceitação e cumprimento dos termos propostos no presente Regulamento.

* Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Desde 2001 publicou livros em diferentes géneros literários e está a ser traduzido em mais de 50 países. Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no estrangeiro. Como Aprender a rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meuilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Orhan Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Elias Canetti, entre outros. Alguns outros prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi também por diferentes vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Uma Viagem à Índia recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas, curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, vídeos de arte, ópera, performances, projetos de arquitetura, teses académicas, etc. Já em 2017 publicou A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, pela Bertrand Editora.




Texto e fotografias: Tânia Pinto Ribeiro

Foi a «perplexidade» perante algumas coisas, «na arte e na vida de todos os dias», que «empurraram» Frederico Pedreira para a noção de estranheza. Uma noção que é assim uma «espécie de convite às possibilidades da interpretação» conta-nos o vencedor do Prémio INCM/VGM 2016, na categoria Ensaio. Foi, precisamente, com Uma Aproximação à Estranheza que Frederico Pedreira conquistou, com a unanimidade do júri, o galardão da editora pública. O júri, já repetente (recorde-se que na edição anterior havia premiado história do século vinte, de José Gardeazabal), foi composto por Jorge Reis-Sá, Pedro Mexia e José Tolentino Mendonça, e evidenciou na obra de Pedreira a «robustez teórica e a amplidão de olhar no tratamento de um tema transversal à experiência de receção do mundo e das suas múltiplas linguagens: a noção de estranheza (…)».

Licenciado em Comunicação e doutor em Teoria da Literatura, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Frederico Pedreira já tinha publicado Presa Comum (2015), Fazer de Morto (2016), Um Bárbaro em Casa (2014) e, antes disso, três volumes de poesia ou de prosa poética: Breve Passagem pelo Fogo (2011), O Artista Está Sozinho (2013), Doze Passos Atrás (2013). Mas o percurso de Pedreira, no campo das letras, começou muito antes disto. Nascido, em Lisboa, em 1983, afirma que a escrita lhe vem «desde sempre». A prosa, a poesia, o ensaio, o conto — as áreas que tem privilegiado e onde se tem destacado — foram, depois, surgindo «em plena conformidade com as arritmias naturais do gesto criativo». Diz Pedreira que «sem biografia não existe literatura», até porque o escritor procura «pôr no papel aquilo que, de uma maneira ou de outra, nos faz falta na vida lá fora».
Também a tradução tem um peso precioso na vida de Pedreira. G. K. Chesterton, Robert L. Stevenson, Oscar Wilde e H. G. Wells foram alguns dos consagrados que já traduziu. Decidimos provocar este jovem escritor (e tradutor) com o velhinho adágio italiano que diz que «traduttore, traditore» (tradutor, traidor). Pedreira negou prontamente a veracidade do provérbio, argumentando que o tradutor é muitas vezes a «besta de carga da linguagem», aquele que faz «o possível» com o que tem à mão, e muitas vezes com o que não tem: «é quase um milagre que consiga certas coisas só com a sua intuição e algum domínio da língua de chegada», diz-nos.

Da sua geração dá destaque à poesia do Vasco Gato, Paulo Tavares e Daniel Jonas que é, diz, «simplesmente grande». Surpreendido ficou com o livro de estreia de Miguel Alexandre Marquez, Coda. Dos «grandes» realce para o António Lobo Antunes do início («sensivelmente de Memória de Elefante até A Morte de Carlos Gardel») e José Cardoso Pires («sempre irrequieto no seu modo de dizer»). Com certos autores diz mesmo manter uma «relação de eterno retorno». Com o Pessoa do Desasocego a ganhar o podium. No que ao ensaio em português diz respeito, Pedreira admira nomes como António M. Feijó, Miguel Tamen e Frederico Loureço. Já quanto à ideia deste país ser ou não ser para escritores, Pedreira explica-nos que «a escrita é uma realidade íntima» e, quando se fala num país que é bom para os seus escritores, «fala-se em expectativas e colmatação dessas expectativas». Frederico Pedreira considera que «o escritor, por definição, não precisa de nada disso».

Diz ainda que não estava à espera de ser o vencedor da 2.ª edição do Prémio INCM/VGM. Aliás, chegou mesmo a sentir «estranheza». Até porque a notícia «não veio em tempo real», veio no «tempo diferido de uma mensagem de voz». Além do valor pecuniário do Prémio, o galardão da editora pública significa para Pedreira «a sorte de alguns olhos atentos e um interesse que não esperava fora das salas de aula». E será sempre uma «recordação risonha» mas que não deve interferir com o seu trabalho. Frederico Pedreira só celebra «esse pobre festim da escrita» quando todos os outros assuntos «já dormem» e já não o «atormentam».

Uma Aproximação à Estranheza teve a sua génese na tese de doutoramento de Pedreira, tratando-se de um conjunto de quatro ensaios que partiram de «um impulso inicial para entender algumas ansiedades expressivas manifesta nas obras de alguns escritores». Entre esses autores estão aqueles que «martelaram» Pedreira «até à surdez». Nuno Bragança, Beckett, Joyce, Céline, Robert Walser, John Cassavetes, João César Monteiro, Kierkegaard, Wittgenstein e Cavell, para mencionar alguns.

Uma Aproximação à Estranheza está agora publicada na coleção Olhares, da chancela da casa que o premiou. Diz o próprio autor que se trata de «um livro peculiar», sobretudo pela forma como foi feito «numa lufa-lufa entre o coração e a cabeça». E só por aqui se sente que o livro promete!


Ler na integra aqui.



Um júri constituído por Artur Anselmo, Isabel Cristina Mateus e Maria João Reynaud decidiu, por maioria, atribuir o Grande Prémio de Ensaio “Eduardo Prado Coelho” APE/C.M de Vila Nova de Famalicão ao livro A Palavra Submersa. Silêncio e Produção de Sentido em Vergílio Ferreira, de Isabel Cristina Rodrigues (edição da INCM).

O Grande Prémio de Ensaio “Eduardo Pardo Coelho, instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, destina-se a galardoar anualmente uma obra de ensaio literário, em português e de autor português, publicada em livro, em primeira edição, no decurso do ano de 2016.

O valor monetário deste Grande Prémio é, para o autor distinguido, de € 7.500,00 (sete mil e quinhentos euros) e desde de 2010 distinguiu já Victor Aguiar e Silva, Manuel Gusmão, João Barrento, Rosa Maria Martelo, José Gil, Manuel Frias Martins e José Carlos Seabra Pereira.

A Palavra Submersa. Silêncio e Produção de Sentido em Vergílio Ferreira
(...) trata, com uma vasta e rica fundamentação teorética e crítica, tanto quanto possível multidisciplinar, sem, no entanto, se afastar da área específica dos estudos literários, temas relevantes na obra literária de Vergílio Ferreira: o caminho que vai da palavra ao silêncio; o silêncio como comunicação e suas aporias; a arte do silêncio; a comunhão, expressão máxima da comunicação, contraposta à incomunicabilidade; a palavra exteriorizada e a palavra interior; a palavra monologante e o diálogo; o silêncio como metáfora; o constante problema vergiliano da relação do homem com Deus ou com os deuses.

SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS GLOBAIS
Sessão X: «Haverá uma ética para a idade global? Possibilidades, dúvidas e alguns condicionamentos»
Orador: Onésimo Teotónio Almeida
Organização: INCM | UAb | CIDH | FCT | CLEPLUL | APCA | IAC
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Data: SEG - 10 de JULHO
Horário: 18:00 h
Entrada livre condicionada à capacidade da sala.

Interessam-me mais as ideias do que a literatura, onde sou um visitante e leitor por gosto. Custa-me a entrar num universo ficcional. Só leio romances quando posso lê-los sem interrupções. Para entrarmos na ficção temos de nos deixar embarcar. De qualquer modo, quer na ficção quer na não-ficção o meu desejo é entender o mundo. E tanto a ficção como a não-ficção ajudam.

(...)

Sempre me senti atraído por uma frase que ouvi a um professor – “as couves nascem do chão”. Percebi que o empirismo, aquilo que se nos mete pelos olhos dentro, foi mais forte que todas as teorias lidas nos livros, e moldou a minha visão do mundo. Sempre que um autor, Marx ou fosse quem fosse, não estivesse de acordo com a realidade que eu observava, era a realidade que triunfava na minha compreensão das coisas.


Onésimo Teotónio Almeida é professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, Providence, Rhode Island (R.I.), onde se doutorou em Filosofia. Conhecido como escritor, conferencista e viajante incansável, é principalmente um filósofo e um profundo pensador de temas como identidade, ética, valores, mundividências, modernidade e pós-modernidade.

Parte significativa da sua produção literária e filosófica começa por assumir a forma de ensaio, conferência, artigo ou texto de imprensa, como um pensamento que resulta em primeira instância de viver, intervir e testar as suas ideias e preocupações teóricas. E só depois se apresentam sob a forma de experiências individualizadas nas crónicas e nas estórias, numa metodologia rigorosa e concisa que é indissociável da observação e do confronto prático.