«Numa lufa-lufa entre o coração e a cabeça» — Entrevista Frederico Pedreira




Texto e fotografias: Tânia Pinto Ribeiro

Foi a «perplexidade» perante algumas coisas, «na arte e na vida de todos os dias», que «empurraram» Frederico Pedreira para a noção de estranheza. Uma noção que é assim uma «espécie de convite às possibilidades da interpretação» conta-nos o vencedor do Prémio INCM/VGM 2016, na categoria Ensaio. Foi, precisamente, com Uma Aproximação à Estranheza que Frederico Pedreira conquistou, com a unanimidade do júri, o galardão da editora pública. O júri, já repetente (recorde-se que na edição anterior havia premiado história do século vinte, de José Gardeazabal), foi composto por Jorge Reis-Sá, Pedro Mexia e José Tolentino Mendonça, e evidenciou na obra de Pedreira a «robustez teórica e a amplidão de olhar no tratamento de um tema transversal à experiência de receção do mundo e das suas múltiplas linguagens: a noção de estranheza (…)».

Licenciado em Comunicação e doutor em Teoria da Literatura, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Frederico Pedreira já tinha publicado Presa Comum (2015), Fazer de Morto (2016), Um Bárbaro em Casa (2014) e, antes disso, três volumes de poesia ou de prosa poética: Breve Passagem pelo Fogo (2011), O Artista Está Sozinho (2013), Doze Passos Atrás (2013). Mas o percurso de Pedreira, no campo das letras, começou muito antes disto. Nascido, em Lisboa, em 1983, afirma que a escrita lhe vem «desde sempre». A prosa, a poesia, o ensaio, o conto — as áreas que tem privilegiado e onde se tem destacado — foram, depois, surgindo «em plena conformidade com as arritmias naturais do gesto criativo». Diz Pedreira que «sem biografia não existe literatura», até porque o escritor procura «pôr no papel aquilo que, de uma maneira ou de outra, nos faz falta na vida lá fora».
Também a tradução tem um peso precioso na vida de Pedreira. G. K. Chesterton, Robert L. Stevenson, Oscar Wilde e H. G. Wells foram alguns dos consagrados que já traduziu. Decidimos provocar este jovem escritor (e tradutor) com o velhinho adágio italiano que diz que «traduttore, traditore» (tradutor, traidor). Pedreira negou prontamente a veracidade do provérbio, argumentando que o tradutor é muitas vezes a «besta de carga da linguagem», aquele que faz «o possível» com o que tem à mão, e muitas vezes com o que não tem: «é quase um milagre que consiga certas coisas só com a sua intuição e algum domínio da língua de chegada», diz-nos.

Da sua geração dá destaque à poesia do Vasco Gato, Paulo Tavares e Daniel Jonas que é, diz, «simplesmente grande». Surpreendido ficou com o livro de estreia de Miguel Alexandre Marquez, Coda. Dos «grandes» realce para o António Lobo Antunes do início («sensivelmente de Memória de Elefante até A Morte de Carlos Gardel») e José Cardoso Pires («sempre irrequieto no seu modo de dizer»). Com certos autores diz mesmo manter uma «relação de eterno retorno». Com o Pessoa do Desasocego a ganhar o podium. No que ao ensaio em português diz respeito, Pedreira admira nomes como António M. Feijó, Miguel Tamen e Frederico Loureço. Já quanto à ideia deste país ser ou não ser para escritores, Pedreira explica-nos que «a escrita é uma realidade íntima» e, quando se fala num país que é bom para os seus escritores, «fala-se em expectativas e colmatação dessas expectativas». Frederico Pedreira considera que «o escritor, por definição, não precisa de nada disso».

Diz ainda que não estava à espera de ser o vencedor da 2.ª edição do Prémio INCM/VGM. Aliás, chegou mesmo a sentir «estranheza». Até porque a notícia «não veio em tempo real», veio no «tempo diferido de uma mensagem de voz». Além do valor pecuniário do Prémio, o galardão da editora pública significa para Pedreira «a sorte de alguns olhos atentos e um interesse que não esperava fora das salas de aula». E será sempre uma «recordação risonha» mas que não deve interferir com o seu trabalho. Frederico Pedreira só celebra «esse pobre festim da escrita» quando todos os outros assuntos «já dormem» e já não o «atormentam».

Uma Aproximação à Estranheza teve a sua génese na tese de doutoramento de Pedreira, tratando-se de um conjunto de quatro ensaios que partiram de «um impulso inicial para entender algumas ansiedades expressivas manifesta nas obras de alguns escritores». Entre esses autores estão aqueles que «martelaram» Pedreira «até à surdez». Nuno Bragança, Beckett, Joyce, Céline, Robert Walser, John Cassavetes, João César Monteiro, Kierkegaard, Wittgenstein e Cavell, para mencionar alguns.

Uma Aproximação à Estranheza está agora publicada na coleção Olhares, da chancela da casa que o premiou. Diz o próprio autor que se trata de «um livro peculiar», sobretudo pela forma como foi feito «numa lufa-lufa entre o coração e a cabeça». E só por aqui se sente que o livro promete!


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