21-02-2018 — APRESENTAÇÃO DE «OS MAIAS», NA EDIÇÃO CRÍTICA DAS OBRAS DE EÇA DE QUEIRÓS

Título: OS MAIAS
Autor: Eça de Queirós
Edição crítica: Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha
Apresentação: Paula Morão
Coleção: Edição crítica das obras de Eça de Queirós
Edição: Imprensa Nacional
Data: quarta-feira, 21 de fevereiro
Horário: 17:30 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastron azul‑celeste.
O Craft conhecia‑o; Ega apresentou a Carlos o sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absintho
(...)
— Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar‑se no divan, uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinha griffon, e servida por um esplêndido preto!
O sr. Dâmaso Salcede, que não despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
— Bem sei! Os Castro Gomes… Conheço‑os muito… Vim com eles de Bordéus… Uma gente muito chic que vive em Paris.
Carlos voltou‑se, reparou mais nele, perguntou‑lhe, afável e interessando‑se:
— O senhor Salcede chegou agora de Bordéus?
Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu‑se imediatamente, aproximou‑se do Maia, banhado num sorriso:
— Vim aqui há quinze dias, no Orenoque. Vim de Paris… Que eu em podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci‑a em Bordéus. Isto é, verdadeiramente conheci‑a a bordo. Mas estávamos todos no Hotel de Nantes… Gente muito chic: criado de quarto, governanta inglesa para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas… Chic a valer! Parece incrível, uns brasileiros… Que ela na voz não tem sutaque nenhum, fala como nós. Ele sim, ele muito sutaque… Mas elegante também, V. Ex.ª não lhe pareceu?


Tendo por texto base a única edição em vida de 1888 (Livraria Internacional de Ernesto Chardron), esta edição crítica de Os Maias resulta de cerca de dez anos de trabalho de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, dedicado ao estudo meticuloso dos manuscritos, das notas do autor e da vasta epistolografia em que Eça se refere ao seu magnum opus.

Paula Morão é professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), especialista em Literatura Portuguesa dos séculos XIX a XXI e em Literatura Autobiográfica. Estudiosa de Irene Lisboa, mas também de António Nobre, Cesário Verde, Sophia de Mello Breyner, Maria Judite de Carvalho e Luísa Dacosta, o seu trabalho tem sido distinguido com prémios tão importantes como o Grande Prémio de Ensaio da APE e o Prémio Jacinto do Prado Coelho da Associação Internacional dos Críticos Literários.
Foi Directora-Geral do Livro e das Bibliotecas, Directora da Área de Literaturas Artes e Culturas da FLUL, e colabora com o Centro de Estudos Clássicos (U. Lisboa) e o Centro de Estudos Portugueses (U. Coimbra).


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