António Mega Ferreira e Dante Alighieri, convidados de Luís Caetano em «A Ronda da Noite»


Foi há mais de 700 anos que um florentino, Dante Alighieri, começou a escrever uma das grande obras da literatura mundial. Com mais de 14 mil versos, A Divina Comédia é uma jornada de paixões, devoções, e misticismo, à medida do seu autor.

LUÍS CAETANO – Dante viveu há sete séculos (...). Ele nasce em 1265, de uma família privilegiada, mas nem por isso particularmente rica, estuda em casa, torna-se um senhor das letras 200 anos antes do livro impresso. Como é que foi essa maturação, esse enriquecimento cultural dele?

ANTÓNIO MEGA FERREIRA – Sabe-se muito pouco sobre a infância de Dante. Sabe-se quem eram os pais, sabe-se quem era a família, sabe-se mais ou menos onde é que ele nasceu e onde a família vivia – hoje em dia existe uma Casa di Dante em Florença, muito perto da Abadia Fiorentina (...) e em frente de uma pequena igreja que se diz ser a igreja de Dante (é pouco crível). Não se sabe ao certo se era ali a casa dele. Enfim, é um pouco como o sítio onde nasceu o Santo António – é ali, ou talvez à volta... Seja como for, é no centro histórico de Florença que ele nasce. Mas depois sabe-se muito pouco sobre a infância dele. Não se sabe onde ele aprendeu as primeiras letras. Havia sobretudo um mestre que ensinava ali – há notícia disso –, não se sabe se o ensinou a ele, mas é admissível que sim. Mas sobretudo, o primeiro grande mestre de Dante é um homem chamado Brunetto Latini, que era um homem muito extraordinário. Era notário (o que não tinha nada de especial, porque nessa altura em Florença havia 660 notários registados numa população de 40 mil pessoas). Era um homem cultíssimo, um erudito; é o primeiro enciclopedista, que escreve um tesaurus que recolhia os mais diversos saberes medievais. Brunetto Latini é o primeiro mestre de Dante, isso sabe-se com certeza. Aliás, Dante fá-lo figurar na Divina Comédia, elogiando-o muito, mas apesar de tudo pondo-o no Inferno. (...) Depois, a partir daí sabe-se pouco. Em alguns dos poemas que se conhecem mais tarde, por exemplo, há abundantes sinais de afeto dele para com Guido Cavalcanti, um enorme poeta (que falizmente vai ser revelado em Portugal 7 séculos depois, visto que vai sair na Imprensa Nacional dos [seus] poemas, numa tradução que foi menção honrosa do Prémio de Tradução INCM / Vasco Graça Moura, em 2017). (...) Na Vida Nova, Dante chama a Guido Cavalcanti «il primo dei miei amicci» (o primeiro dos meis amigos). Este «o primeiro» não se sabe bem o que é; pode ser uma referência cronológica, porque Guido Cavalcanti era 10 anos mais velho que o Dante. (...) Guido Cavalcanti é um enorme poeta; um grande poeta do dolce stil nuovo. Curiosamente, quem dá o nome a essa corrente é Dante, que refere na Comédia (...). A partir daqui não se sabe muito... Sabe-se, isso sim, que depois da morte de Beatriz Portinari (...) ele se apaixonou por uma dama molto bela e gentile, que era a Filosofia – Dante falava assim (...) – porque começa a frequentar obsessivamente os estudos que havia, quer na Igreja de Santa Croce, quer na Igreja de Santa Maria Novella, uns dominicanos e outros franciscanos, que era estúdios filosóficos, onde havia muito debate e muita abertura às ideias novas. (...) Não se sabe muito mais sobre a formação de Dante.

De facto, a Comédia ensina os pecadores a descobrirem na sua própria vida as razões da danação das suas almas e aponta o caminho, através de sucessivos gradus contemplationis, para atingir a revelação divina. A primeira parte do Poema trata da intenção inicial; a segunda traça um caminho de purificação rumo ao Paraíso; a terceira é, ao seu modo não poucas vezes especulativo e enigmático, a ilustração da salvação conquistada. Na bagagem, Dante leva tudo aquilo que liga entre si as partes narrativas do Poema: para lá das inovações linguísticas e da afirmação de uma identidade política da língua, a Comédia é também uma espécie de enciclopédia dos saberes medievais, da filosofia à astronomia, da teologia à geografia, da astrologia à retórica, da matemática à numerologia, porque se assume como uma forma de pôr ordem no caos aparente que é o mundo e a vida dos homens dentro dele.
O Poema, vertido em terza rima ao longo de 14 233 versos, conta uma viagem empreendida pelo narrador, durante a Semana Santa de 1300, em pleno Jubileu decretado pelo papa Bonifácio VIII.
p. 77

Dante começa por contrapor ao expediente simoníaco das indulgências plenas o caminho da inevitável condenação, projetando os pecados individuais num futuro em que os pecadores são já almas penadas, puras memórias do que foi o seu trajeto na terra. (...) O que o Poeta nos diz, através do seu poema, é que não há instância terrena capaz de passar uma esponja sobre os desmandos e desvios à «diritta via» do amor a Deus e da fusão da criatura com o seu Criador. No Inferno, cada um é julgado do lado de lá, pelo que fez do lado de cá, e ocupa, no Além, o lugar que lhe compete atendendo aos erros e sucessos da vida já terminada. Não há fatalidade divina na punição, apenas corolário do exercício humano do livre-arbítrio. Neste universo dos mortos, já não há tempo para o arrependimento que permita arrepiar caminho: todos têm o seu destino traçado por força do que foi o seu percurso existencial.
p. 78

A viagem de Dante é fantástica na ambição visionária do seu programa; é sobrenatural no salto para o desconhecido que é o mergulho no «mundo» do Além; e é apocalíptica na presunção implícita de que a ele, e só a ele, como Poeta, é dada a possibilidade de sobreviver ao cataclismo da morte humana para atingir a Revelação e poder narrar (o narrador é o que fica para poder contar) a punição das almas e a sua possível redenção. O Poeta começa por nos dizer que entrou na selva escura que é o seu descaminho sem se aperceber, «tão grande era o meu sono no momento / em que a via veraz abandonei» (Inf., I, 11‑12). Por isso, nada se lembra do que o levou até ali. Por isso, é quando desperta, e bem acordado, que ele vai empreender a sua peregrinação. Como um miraculado, vai sobreviver ao terror do Inferno e purificar-se no Purgatório, para acabar a fundir-se na beatitude do Paraíso. Dir-se-ia que só um poema poderia salvá-lo; porém, num golpe de engenho que talvez denote a crença de Dante na veracidade da sua visão, a narrativa denuncia-se incapaz de encontrar qualquer analogia com Cristo que lhe ilustre a rima, e prenuncia o fim do Poema como obra humana a catorze cantos do seu fim. Três vezes o nome de Cristo é chamado à rima e, momento decisivo (embora não único) do Poema, não encontra analogia capaz de rimar com o nome do filho de Deus:

[…] «Nenhum engenho
a este reino subiu sem crer em Cristo,
antes ou pois de ser cravado ao lenho.
Mas vê: muito que grita ‘Cristo, Cristo!’
ser‑lhe‑a
em julgamento menos prope,
do que esse tal que não conhece Cristo;[»]
(Par., XIX, 103‑108)

Cristo não é inominável, mas o seu nome é incomparável. Daqui em diante, é como se o Poeta deixasse de ter mão no Poema, tornando-se mero escriba daquilo que lhe é ditado pela inspiração divina.
p. 79


ANTÓNIO MEGA FERREIRA – Na realidade, todos os saberes convergem no poema. Inclusivamente, a Astrologia, que para nós hoje é um bocado extraordinário, mas à época não era tanto. A Astrologia era uma arte e uma ciência que fazia parte da cultura geral das pessoas.

LUÍS CAETANO – Mas na base de tudo está o amor? É um poema sobre o amor?

ANTÓNIO MEGA FERREIRA – Eu acho que o poema é sobre o amor. Mas acho que é um poema sobre a poesia. Ou seja, pode-lhe tirar os conteúdos todos; por exemplo, eu sou ateu, e não me interessa nada a revelação da salvação divina, e a alma, etc., etc. Porém, a forma poética usada por Dante para dizer estas coisas (que não me interessam rigorosamente nada) é tão fascinante, que o poema vale por isso. Vale como uma declaração de amor à poesia. De facto, é porque ele é um gigantesco, um extraordinário poeta, único completamente, que é possível nós hoje, sete séculos depois, ainda estarmos a ler A Divina Comédia, sendo que aquilo que lá é dito não tem para nós nenhuma verosimilhança. Nenhuma! Nem o Inferno, nem o Monte do Purgatório, e muito menos o Paraíso, como é óbvio. O Inferno, a gente ainda consegue visualizar por aproximação, não é? E há um papel fundacional do poema de Dante em relação ao Purgatório – o Purgatório era uma invenção teológica muito, muito recente. E ele define o Purgatório como um lugar físico, uma montanha no topo da qual está o Epírio celeste. E eles vão subindo a montanha – eles, e os pecadores, os que ainda têm esperança de atingir a salvação, porque se arrependeram dos seus pecados. (...) Até aí, para a Igreja, o Purgatório não era um lugar físico; era um estado – purgavam-se as penas; ou seja, um estado intermédio entre o Inferno e a Salvação, entre a Danação e a Salvação, que era um estado de purgação de penas. Não era um território, não havia penas concretas; estava-se ali em «lume brando», se quiser. A partir [de Dante], a Igreja passa a falar do Purgatório à luz da imagem fundacional criada por Dante no seu poema.

(...)

LUÍS CAETANO – E isto de «A Divina», de onde é que vem?

ANTÓNIO MEGA FERREIRA – O Primeiro comentador da obra é o filho, Piero Alighieri. E o primeiro campeão da glória de Dante é Giovanni Boccaccio, duas gerações depois. Boccaccio apaixona-se completamente pela Comédia, a tal ponto que em 1373 na Abadia Fiorentina, Giovanni Boccaccio procede a uma leitura comentada da Comédia que ficou célebre. E é num pequeno ensaio que escreveu sobre a Comédia e sobre Dante, que lhe chama a «Comedia divina». E, a partir daí, as primeiras edições impressas da Comédia de Dante – que, evidentemente, só começam a aparecer no séc. XVI, duzentos anos depois – aparecem como La Divina Comedia. Na realidade, ninguém lhe tinha chamado assim a não ser Boccaccio. (...) E porque é que é uma comédia? Porque, segundo a categorização aristotélica, a tragédia tinha um final infeliz, e a comédia tinha um final feliz. Para Dante, o poema tem um final feliz, porque ele se dissolve em Deus.
(...) o que torna o Inferno imaginado por Dante um lugar incontornável do imaginário ocidental, não é tanto a meticulosa topografia, nem o desfile de almas penadas, mas a crueza das penas inventadas pelo Poeta, que correspondem ao interminável «catálogo de perversões» que o Poema enumera.
p. 90



«A Ronda da Noite», um programa de Luís Caetano, recebe e divulga escritores, artistas, gente com conhecimento e imaginação, autores de excepção. Mostra o novo mas também recupera memórias e momentos, e sai do estúdio para palcos de criação e fruição.
Antes do dia acabar, a rádio tem ideias para discutir e histórias para contar. Como num quadro de Rembrandt.

na Antena 2, RTP


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