«Os artistas vivem de perguntas, não vivem de respostas.» Jorge Molder em entrevista



Por: Tânia Pinto Ribeiro


É o único português a ter uma obra na Coleção de Arte da Unesco. Foi artista convidado na Bienal de São Paulo de 1994 e representou Portugal na Bienal de Veneza, em 1999. Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique, foi galardoado, em 2006, com o Prémio da AICA (Associação Internacional dos Críticos de Arte). É também o nome inaugural da nova coleção da Imprensa Nacional: a coleção «Ph.». Coordenada pelo fotógrafo e produtor cultural Cláudio Garrudo, esta é uma coleção bilingue dedicada a fotógrafos portugueses contemporâneos. Mas Jorge Molder não é pessoa que diga de la photo avant tous les autres. «Sempre estive mais ligado ao campo das artes plásticas em geral do que ao mundo da fotografia em particular», refere.
Utiliza o seu corpo — ênfase para o rosto e para as mãos — como matéria primeira das suas obras e até já o acusaram de narcisismo, termo que considera «despropositado». Até porque tem «outros interesses mais importantes». E outros «amores» também. Tecnicamente o tipo de material que privilegia é o «material humano». Isto é, «a capacidade de ter paciência e persistência». É a «teima de conseguir fazer aquilo que se quer». É «conseguir fazer algo que se encaixe naquilo que se procura». Mas Jorge Molder sabe-o bem: a criatividade é sempre mais importante do que a técnica. Até porque «à técnica, chega-se sempre lá». Foi assim que sempre o ensinaram.
O dia a dia é a sua grande fonte de alimentação. «São as bichas das Finanças, são as paragens dos autocarros, é o metropolitano, são os táxis, são as conversas de circunstância que não têm importância para ninguém mas que depois deixam, por vezes, marcas ‘bastante fortes’.»
Gosta de jogos e de jogos eletrónicos. Desde miúdo que faz paciências. E até já teve uma exposição intitulada Jeu de 54 cartes. Interessa-lhe subverter as regras. Mas não é batoteiro. É que a batota distingue-se «no propósito». Jorge Molder não joga para ganhar. Diz que «os princípios são sempre falsos» e uma pessoa de vez em quando tem de questionar.
Declina a ideia de ser um fotógrafo filósofo ou filósofo fotógrafo, como lhe chamou Van Lier, apesar de ter cursado filosofia e de garantir que o «artista procura sempre o porquê das coisas». Não gosta da palavra «implementar» e se soubesse qual é a distância que vai entre o eu e a máscara já tinha escrito um conjunto «significativo» de ensaios. Também não gosta da ideia que Henri Cartier-Bresson meteu na cabeça de gerações e gerações: a do instante preciso. Mas chamou-lhe «mestre» em resposta a uma carta que Bresson lhe endereçou. Isso foi nos tempos da Gulbenkian, onde foi assessor e depois diretor do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, experiência que lhe permitiu — e permite — avaliar bem a relação do público português com a arte. Diz que o estado da arte é «ótimo» mas que «a relação dos portugueses com a arte universal é uma relação difícil». Enfim, «somos um país pequeno, pouco poderoso e incapaz de ter iniciativas tenazes». E na cultura em especial. «Na cultura estamos sempre a recomeçar.» Não há uma continuidade, uma perduração. «Em Portugal não conseguimos até hoje ter uma presença assídua e normalizada nas bienais.» Independente, não gosta de fazer «avaliação de pessoas», mas refere que, com Manuel Maria Carrilho à frente da Cultura, Portugal «encontrou alguns sistemas de ancoragem que teriam permitido uma eventual continuidade, mas que foram muito rapidamente dissolvidos». E mais, «voltou-se ao sistema napoleónico das direções-gerais, que são mecanismos pesados e que normalmente absorvem todas as possibilidades materiais».
Por todas as razões, Beckett impressionou-o muito. Tirando o Vladimir e o Estragão «todas as grandes personagens do Beckett têm nomes constituídos por seis letras e começam por M» — como o dele. Mas a sua última grande paixão literária é Perec, que, por coincidência, ou não, também se chama Jorge [George]. Outra coincidência são as epígrafes de Mallarmé a iniciarem textos em livros ou catálogos de obras suas. «Só agora nesta conversa é que me apercebi que os autores, que não têm nenhum contacto entre eles, iniciam os textos com Mallarmé.» Acaso que o vai obrigar a passar «os próximos tempos» a reler o poeta francês.
O seu ateliê, diz, fica num «sítio paradisíaco», bem no centro de Lisboa, e está coberto de imagens, muitas das quais pertenciam à família; outras tornaram-se suas ao longo da vida: «É um sítio onde gosto de trabalhar e que tem qualquer coisa de desarrumação cósmica.»
No baralho desarrumado da memória — «a memória é uma coisa muito esquisita» — vislumbra-se, desde muito cedo, uma pessoa «altamente gourmet». Desde os tempos em que saía do Liceu Camões e ia ao Noite e Dia petiscar um caril de mariscos e beber meia garrafinha de Visconde de Salreu — um Colares conceituado à época — com os trocos que a mãe lhe dava para o almoço. Eram os tempos de uma Lisboa «fascista e sossegada» mas na qual aconteciam «factos artísticos interessantes». Eram os tempos de uma certa «vagabundagem», de ver exposições e de se pertencer a grupos que discutiam livros. Os tempos da galeria Civilização e das livrarias Quadrante, Buchholz e 111. Eram tempos em que se tinha de esperar três ou quatro dias para se conseguir bilhetes para ver um filme no cinema, ou, então, pela noite do Festival da Canção, que nunca se via, mas que era a garantia de salas mais livres. Os tempos em que surgiu «esse grande vulcão» chamado Gulbenkian. Eram os tempos do cinema Satélite e dos filmes O Couraçado Potemkine, de Serguei Eisenstein, 8½, do Fellini, Lord Jim, de Richard Brooks, ou Jaime, de António Reis. Mas Jorge Molder é pouco saudosista. «O tempo passa e pronto».
Perguntámos a este artista maior das imagens contemporâneas o que o esmorecia hoje em dia. E aí vieram-lhe à memória — sempre a memória em contraluz — os versos de um outro Jorge [Luis Borges]. E citou-os de cor: «Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach». Entrevista a Jorge Molder.

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