«A fala do poeta é sempre instável e arriscada» — Entrevista a Antonio Carlos Secchin



Por: Tânia Pinto Ribeiro

Se fosse uma canção de Bossa Nova, pela melodia, seria a icónica Manhã de Carnaval — a canção mais famosa de Luiz Bonfá e de Antônio Maria, eternizada nos ecrãs de cinema, em Orfeu Negro. A atentar à letra, seria O Quereres, de Caetano Veloso, uma canção toda feita de falsas antíteses. E se a sua vida desse um filme escolheria Charles Chaplin para o realizar — foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça. Mas, é sabido, a vida não obedece aos condicionais. Isso é coisa da gramática.

Tinha apenas minutos de vida quando o avô materno, português de Évora, profetizou que o neto seria escritor. E quis o acaso — «tudo na vida é o acaso» — que nascesse no Dia de Camões. Mas Antonio Carlos Secchin, poeta, ensaísta, crítico literário, professor de literatura e um dos imortais da Academia Brasileira de Letras não tem a pretensão — apesar «da sua aspiração das grandezas» — de «unificar as duas datas nacionais». Mas gostaria de ver as literaturas portuguesa e brasileira, muito concretamente no campo poético, a descobrirem-se uma à outra. Afinal, são «duas amigas que se desconhecem». Por exemplo, Manuel António Pina é «inteiramente desconhecido» no Brasil, mas Antonio Carlos Secchin deu-lhe o seu voto em 2011 — ano em que Manuel António Pina recebeu o Prémio Camões.

Se pudesse, Antonio Carlos Secchin gostaria de raptar Cesário Verde para a literatura brasileira. «Nós não temos nada no Brasil de equivalente. Ele é parnasiano, é realista, é irónico». À mesa dos deuses sentaria Fernando Pessoa, Camões, Mário de Sá-Carneiro e Antero de Quental — de quem possui as primeiras edições assinadas. Dos mais recentes, Secchin admira Sophia e Eugénio de Andrade e também Gastão Cruz, Nuno Júdice, Inês Fonseca Santos, E. M. Melo e Castro, «na sua linha mais experimental», Fiama Pais Brandão, Al Berto, entre muitos outros.

No campo académico, refere Alva Teixeiro, Aparecida da Silva, Abel Barros Baptista, Vania Chaves e Arnaldo Saraiva como os principais mestres portugueses em Literatura Brasileira. Na inversa, cita, entre outras, as figuras icónicas de Cleonice Berardinelli, «viva nos seus 102 anos», e de Massaud Moises, ambos fulcrais para os estudos da Literatura Portuguesa no Brasil.

Antonio Carlos Secchin pensou em estudar, a fundo, o autor de O Ateneu, Raul Pompeia, mas acabou por se especializar no pernambucano João Cabral de Melo Neto eternizado pela sua Morte e Vida Severina. Depois de muitas páginas escritas e de 30 anos de muita pesquisa, em 2014, Secchin lançou aquele que considera ser o seu «livro testamento» em matéria cabralista: João Cabral: Uma fala só lâmina, um livro com quase 500 páginas. Depois disto anunciou a sua reforma em João Cabral. Mas será que Cabral é um assunto mesmo arrumado? «Sempre digo que é e as pessoas nunca permitem que o seja», desabafa. Arrumada está a questão do Acordo Ortográfico de 1990 no Brasil, onde «foi aceite pacificamente e não causou confusão».

Quanto à poesia, diz-nos, que esta fala para cada vez menos pessoas, o que «do ponto de vista da difusão é a sua tragédia, do ponto de vista da autonomia é a sua glória». Para Secchin o poeta é «uma ilha cercada de poesia alheia por todo o lado». E o crítico também: cercado por todos os discursos que o banham. A diferença é que o poeta está «absolutamente livre diante da página em branco». Já o crítico pode ir para qualquer lugar mas está, à partida, «com o espaço predeterminado». Esse espaço é a palavra do outro. Entre julgar ou compreender uma obra, Secchin prefere a via da «compreensão». Até porque «a vida é muito curta para perdemos tempo com obras que nós achamos ruins».

Diz que «todas as palavras combinadas são passíveis de análise» mas ressalva: «letra é uma coisa poema é outra». E, neste sentido, Vinicius foi um grande poeta mas «como letrista escreveu textos, na média, de nível abaixo dos que fez como poeta».

Antonio Carlos Secchin diz-se «imantado» pela Literatura. E foi ela que o trouxe a Portugal, em Maio de 2018 — como de todas as outras vezes. Desta vez veio também para tomar posse na Academia das Ciências de Lisboa — como correspondente brasileiro — e para percorrer os alfarrabistas, de que tanto gosta, ou ir até à a Feira da Ladra, em pleno coração alfacinha — o lugar onde sempre «vingamos dum pouco desse tempo que morreu», como diz a letra de Ary dos Santos.

Por ser um «apaixonado por livros», Secchin é tido como um dos principais bibliófilos brasileiros. Eucanaã Ferraz dedicou-lhe um poema, precisamente: «Os Bibliófilos». Uma paixão que o fez descobrir volumes raros, alguns já considerados perdidos para sempre. Descobriu, por exemplo, Os 25 Poemas da Triste Alegria, de Carlos Drummond de Andrade, ou Espectros da Cecília de Meireles, um livro de 1919, que estava desaparecido há mais de 80 anos. «O livro escolhe as mãos em que quer parar!», diz.

Antonio Carlos Secchin, esteve a 11 de maio na Biblioteca da Imprensa Nacional para lançar Desdizer, um livro que dedica à mãe, que, conta, foi quem lho encomendou. «Felizmente ela nunca me pediu um livro de ficção». A cerimónia pública contou com a apresentação de Ronaldo Cagiano e com  as presenças do Ministro da Cultura Português, Luís de Castro Mendes, e do Embaixador Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, Representante Permanente do Brasil junto à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Desdizer — o título é uma provocação — está agora publicado na renovada coleção «Plural» da Imprensa Nacional, coordenada pelo também poeta e editor Jorge Reis-Sá, e vem juntar-se a mais dois outros poetas brasileiros: Eucanaã Ferraz, seu antigo aluno, e Alice Sant’Ana, um «frescor» para a nova poesia brasileira. Logo na contracapa de Desdizer pode ler-se que este congrega toda a produção poética de Antonio Carlos Secchin «em forma definitiva». Será que devemos acreditar?

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