«Fico inquieto por saber que há poesia e diários de Nemésio que não se podem consultar» — Luiz Fagundes Duarte em entrevista



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Por: Tânia Pinto Ribeiro

Costuma dizer aos seus alunos que Portugal é um país de um homem só. Quando temos Fernando Pessoa todos os outros desaparecem. O que considera injusto. Até porque já se apercebeu de que aquilo que Pessoa tem — e que faz dele um grande poeta — Antero de Quental também já tinha. «Hoje em dia todos falam de Pessoa, que já é um ícone para turistas, chegamos às livrarias e só encontramos a Lisboa de Pessoa ou os cafés de Pessoa e por aí fora… Tudo o resto fica na penumbra.»

É nesse grupo, entre a sombra e a meia-luz, que se insere Vitorino Nemésio, autor daquele que é provavelmente o maior romance da primeira metade do século XX português: Mau Tempo no Canal, cujo enredo se situa no pequeno universo de umas ilhas remotas, entre vulcões e lagoas, perdidas no tempo e no coração do oceano. Nestas cerca de 500 páginas, Nemésio mostra-nos que a identidade humana, a humanidade, é a mesma. «As pessoas têm alegrias, têm tristezas, têm ciúmes, têm dores, têm exaltações… Nemésio consegue reproduzir o drama humano, a comédia humana, se quisermos, que tem os mesmos cambiantes seja em que parte do mundo for, utilizando referências açorianas. O resto é paisagem, é cenário.» Daí a universalidade e força desta obra.

Mas diz-nos Luiz Fagundes Duarte que é no terreno fértil da poesia que encontramos um grande Nemésio. «Ele é poeta durante 60 anos!» Nemésio, de facto, nunca pôs de lado a poesia — atividade ininterrupta entre 1916 e 1976. E é, precisamente, com a poesia que se vai inaugurar a nova coleção «Obra Completa de Vitorino Nemésio», numa profícua — e simbólica — parceria entre as editoras Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico, e a Imprensa Nacional, «[n]uma atitude inteligente de ambas as partes», segundo Luiz Fagundes Duarte — que ficou com o pelouro da coordenação editorial da coleção. Luiz Fagundes Duarte estruturou esta nova coleção em quatro séries: Poesia, Teatro e Ficção, Crónica e Ensaio, uma forma de mostrar a obra ampla e multifacetada que Nemésio nos deixou. A ideia é criar uma «coleção simples, sem aparato, rigorosa do ponto de vista do texto e que seja agradável para um público que não está — nem tem de estar — habituado a ler edições eruditas».

Todavia, até 2028, ano em que se cumprem os 50 anos da morte do autor, continuará inacessível poesia e outros escritos inéditos de Nemésio. «Uma parte do espólio de Vitorino Nemésio está sob reserva na Biblioteca Nacional. Alguém que não foi o autor — e que segundo as minhas informações foi David Mourão-Ferreira, com as competências que tinha na altura — entendeu que aqueles papéis deveriam ficar sob reserva.» Um poder que não se sabe se foi conferido pelo próprio Nemésio ou se pelos herdeiros deste.

Diz que inserir Nemésio numa escola seria ir contra a sensibilidade dele. «O Nemésio é um académico que vai reagindo ao mundo em que vive num determinado contexto. Ele não é apologético, não é missionário de uma determinada bandeira. Mas é evidente que tem dimensões na sua criatividade que podem chegar um pouco ao neorrealismo, até ao simbolismo e algumas coisas até ao surrealismo.» Já encontrar-lhe um símbolo é mais inteligível. Nemésio gostava muito de interagir com poetas populares da ilha Terceira, que, segundo Luiz Fagundes Duarte, são pessoas extremamente elegantes no trato, na educação e muito autênticas, um pouco à medida de Nemésio. «Debaixo da farpela do professor universitário continuava a ser uma pessoa do povo, uma pessoa autêntica.» E por isso Luiz Fagundes Duarte escolheria o «cantador popular» e a «viola regional da ilha Terceira» como símbolos do poeta.

Luiz Fagundes Duarte também é açoriano, da ilha Terceira, mas disse-nos que a geografia não foi determinante na aproximação à obra nemesiana. Mas está sempre presente no coração de um açoriano. «A geografia limita, é verdade, condiciona também, é verdade, mas também é verdade que serve de motor para que as pessoas criem mecanismos para a ultrapassar sem a abandonar.»

Luiz Fagundes Duarte é também filólogo e professor de Literatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Colaborou no projeto de edição crítica da obra de Eça de Queirós, fez parte da Equipa Pessoa, dirigiu o projeto de estudo e edição do espólio de José Régio, editou a poesia de Antero de Quental e, claro, de Vitorino Nemésio. Também já desempenhou funções políticas na área da educação. E tem uma visão muito clara quanto à escola do futuro: «Gostava que existisse daqui a umas décadas uma escola que acabasse com as disciplinas, porque o conhecimento não está em gavetas.» Luiz Fagundes Duarte imaginou uma escola «onde os meninos têm uma educação sistémica», como na Finlândia, por exemplo. Para lá chegar, diz, é «preciso mudar muitas cabeças». Foi o que fez Nemésio na sua longa carreira nas salas de aula. Reza a história que os alunos ficavam fascinados…

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