In memoriam Altino do Tojal (1939-2018)




— Lá está o senhor outra vez! Que nervos! Fala como se a sua voz também fosse um ovo. Fala, fala e volta sempre ao mesmo. Olhe que não há Céu. Morremos, metem‑nos num buraco, e pronto, ficamos sozinhos no escuro. Tenho muito medo. Mas um dia há de ficar sempre escuro, mesmo fora dos buracos. Os passarinhos deixam de cantar e isso tudo. O meu pai disse que o Sol há de apagar‑se quando estiver velho e cansado.
— Talvez nisso o teu pai tenha razão, menina. Mas sei de um que não se apagará nunca. Não é amarelo, é verde, e está fora do alcance dos mais potentes telescópios.
— Sei muito bem o que é um telescópio. O meu pai disse‑me.
— Pois essa estrela verde está muito para além do mais potente telescópio. Descobri‑a eu próprio.
— Quando?
— Quando tinha a tua idade.
— E como a conseguiu ver, se nem sequer um telescópio dos grandes era capaz de…
— Vi‑a com os olhos da alma. Só se pode ver essa estrela com os olhos da alma.
— Lá está você outra vez! Que nervos!
— E como a descobri, achei‑me no direito de a batizar.
— Que nome lhe pôs?
— Esperança. Na tua idade, menina, eu também pensava no buraco.
— A sério?
— A sério.
— E tinha medo?
— Muito medo. Vi meu avô morrer e descerem‑no a um buraco.
— O senhor gostava do seu avô?
— Gostava.
— Foi então que descobriu essa tal estrela?
— Foi. Mais sozinho que tu, de noite, no monte, a olhar o céu de olhos húmidos. É nessa estrela que vive o melhor de meu avô.
— Não se pode viver nas estrelas. São muito quentes.
— Naquela pode.
— Como é que sabe?
— Sei. Claro que Esperança é uma estrela muito especial. Gostas de música?
— Gosto.
— Pois a estrela que descobri é tão sensível que até a mais suave das nossas canções soaria ali com o estrondo das trovoadas. O chão tem a luminosidade das águas, as águas têm a leveza das brisas, as brisas são ecos de murmúrios de sonhos lindos. Só o mais íntimo e puro de nós lá vai parar. Entende‑se
a linguagem dos pássaros e das borboletas, podemos conversar com as árvores. Não há mágoas, nem desesperos, nem solidão, nem más recordações. Quem não anda por lá a rir anda pelo menos a sorrir.
— Como é que sabe?
— Sei.
— Mas se essa tal estrela… Como é que ela se chama?
— Esperança.
— Mas se Esperança fica assim tão longe, antes que o melhor de nós lá chegue…
— Fica de facto tão longe que nem dá para entender. Para lá, muito para lá do ovo. Mas chega‑se depressa. Quanto mais sensível for o melhor de nós e mais profunda a afeição pelos que nos precederam no buraco, mais depressa lá chegamos.
— Acha que vou encontrar a minha mãe?
— Está pacientemente à tua espera.
— E o senhor vai encontrar o seu avô…
— Assim será.
— E havemos de comer cerejas.
— Até fartar.
— Há lá cerejas?
— Toda a fruta que conhecemos e outra que desconhecemos, que nem podemos sequer imaginar.
— Gosto muito de cerejas, mas aqui em casa comemos poucas, porque são caras. O meu pai ganha pouco dinheiro, percebe? Ser vigilante na garagem não dá muito. E se não fossem as gorjetas…
— Em Esperança, menina, comerás as cerejas que quiseres.
— E havemos de rir.
— Podes estar certa. No mínimo, sorrir.
— O meu pai nunca ri e só às vezes é que sorri.
— Há de rir e há de sorrir.
— E eu e o senhor havemos de falar muitas vezes, à beira de um ribeiro dessa tal estrela, sentados na erva a comer cerejas…
— Eternamente, menina.
— O senhor não estará a enganar‑me?
— Não.
— De certeza?
— Sim.
— Sabe uma coisa?
— Conta‑me.
— Gosto muito de si.
— Sei que gostas, menina.
— Eu sei que sabe, mas gosto de dizer.
— E eu gosto de ouvir.
— Já tenho menos um bocadinho de medo.
— De quê?
— Do buraco.
— Não há razão para teres sequer um bocadinho de medo.
Altino do Tojal,
«Trrrrrim!…»
Livro Quarto — OS PUTOS DO INVERNO
Os Putos — Contos da Luz e das Sombras
29.ª edição revista e aumentada
Imprensa Nacional,
Lisboa, maio 2014
pp. 576-578


Faz agora meio século que este livro nasceu e foi crescendo ao ritmo generoso das reedições, suportando airosamente os desgastes do tempo. Chamava-se Sardinhas e Lua nas suas origens — 1964 — e reapareceu a partir de 1973 com o título definitivo.
Era já um grosso volume quando, em 1995, resolvi dar às suas numerosas histórias uma arrumação que respeitasse a sequência em que tinham aparecido, enquadrando-as nas estações da minha própria vida. Por isso, os contos publicados na juventude constituem Os Putos da Primavera, os da idade madura compõem Os Putos do Verão, os da barbicha a agrisalhar correspondem a Os Putos do Outono, enfim, os da velhice são naturalmente Os Putos do Inverno.
Há n’Os Putos tanto de mim que, se quisesse 
autobiografar-me, o primeiro dos seus 153 contos, escrito quando moço, era um excelente começo, enquanto o último, escrito já na velhice, seria o epílogo perfeito.
Fez-me bem escrever este livro, conto a conto, na incerta caminhada entre o berço e o túmulo, porque dei por mim a sublimar, pelo ato transfigurador da criação literária, dificuldades de sobrevivência e fastios existenciais que, de contrário, exigiriam um estoicismo superior àquilo de que sou capaz para serem toleráveis. Na verdade, embora desejando que Os Putos fizessem doer a consciência tão cruelmente como os vivi, quis também que arrebatassem a imaginação tão magicamente como os sonhei. O facto de continuarem a ser lidos, meio século decorrido, permite concluir que da semente dos meus propósitos germinou boa árvore.
Altino do Tojal,
sinopse escrita para a contracapa
da 29.ª edição revista e aumentadade Os Putos — Contos da Luz e das SombrasImprensa Nacional,Lisboa, maio 2014

Nascido em Braga, em 1939, Altino do Tojal é autor de contos, novelas e romances inseridos no que se pode designar uma corrente de realismo mágico, dos quais se destaca Os Putos (1973), chamado inicialmente Sardinhas e Lua (1964). Os Putos, acrescido de novos contos de edição para edição, é considerado
por Óscar Lopes (in História da Literatura Portuguesa) como contendo «alguns dos melhores contos contemporâneos da infância e adolescência pobres» e foi adaptado ao teatro, à televisão, à rádio e à banda desenhada. O romance O Oráculo de Jamais (1979) seria por seu turno saudado por Urbano Tavares Rodrigues
como «uma das grandes e raras obras universais da nossa literatura». Histórias de Macau (1987) é produto de uma digressão do autor pelo Oriente, enquanto Ruínas e Gente (1991) se refere a uma viagem que empreendeu pelas antigas culturas mediterrânicas, nomeadamente à Grécia e ao Egito.

In Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, organizado
pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, vol. VI,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 2001,
pp. 591-592.

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