Tsundoku, ou a arte de empilhar



Não resiste a entrar numa livraria? Compra livros, leva-os para casa e depois depara-se com pilhas de volumes amontoados à espera de leitura? Vive no meio de estantes atulhadas de obras, adquiridas por si, que nunca foram lidas e que continuam e (tudo indica que) vão continuar à espera da sua atenção? No seu quarto há uma tonelada de livros abertos que foram apenas folheados? Uns a servirem mesmo de mesa de cabeceira? Se respondeu sim, então seguramente é um praticante de Tsundoku!

Tsundo-quê? Tsundoku! Não, não se trata de um golpe de karaté!

Foneticamente muito parecido com Sudoku, o Tsundoku não tem nada a ver com o célebre jogo de lógica e números. Não, não tem! Trata-se de uma palavra de origem japonesa que significa literalmente comprar livros, empilhá-los e nunca os ler.

O termo teve origem no século XIX, durante a era de Meiji, no seio da burguesia nipónica muito preocupada com o olhar dos outros e com as respetivas aparências culturais. Acumulavam livros sem nunca os abrir. Mas o termo só recentemente se tornou conhecido no Ocidente. Trata-se da contração de «Tsunde», que significa «empilhar coisas» e «Oku», que significa «por algum tempo».

Atenção: quando o amor pelos livros chega a tal ponto que as relações sociais e a saúde ficam ameaçadas, já não se trata de Tsundoku, mas sim de um transtorno obsessivo-compulsivo denominado de bibliomania (não confundir com bibliofilia, que consiste em colecionar livros raros e preciosos, nem com bibliofagia que consiste em destruir ou roer livros)!

Fazer dos livros apenas objetos de decoração é limitar (e muito!) a sua utilidade e contribui (e muito!) para a sua ignorância, mas uma coisa é certa: uma casa repleta de livros será sempre uma casa cheia de histórias (em potência). E depois há sempre a esperança de que aquele dia para ler aquele livro há de sempre chegar! Escrevia Alberto Manguel na sua Biblioteca à Noite: «Não tenho nenhum sentimento de culpa diante dos livros que não li e talvez jamais lerei; sei que os meus livros têm uma paciência ilimitada. Vão esperar por mim até o fim de meus dias.»

Os seus livros – esses que comprou e ainda não leu – também estão à sua espera! Garantidamente!

Um excerto de uma magnífica crónica de José Luís Peixoto, publicada no Jornal de Letras, em maio de 2011, intitulada «Uma Casa Cheia de Livros»:

Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão.
José Luis Peixoto in Jornal de Letras (Maio, 2011)

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