Jorge Reis-Sá em mais um Edição Nacional «Nas Vertentes Mais Escondidas da Ilha»



Escolhi propositadamente um verso de J. H. Santos Barros para início de conversa. Santos Barros era açoriano e um dos grandes poetas esquecidos do século passado. Tenho a responsabilidade – ou tive, que o livro está quase aí – de editar para esta Imprensa Nacional a sua obra completa, com uma forte componente de inéditos. Escolhi-o porque Santos Barros diz muito da Companhia das Ilhas de que aqui quero falar.
A Ilha não precisa de ser rodeada de mar por todos os lados. Pode ter terra a rodeá-la e, mesmo assim, estar isolada. Quando, há 20 anos, comecei as Quasi em Famalicão era assim que me sentia. Um deserto de terra como o deserto de mar que abraça o projecto de Carlos Alberto Machado; uma dificuldade enorme de nos fazermos existir, com deslocações constantes à «capital do império»; uma vontade enorme de gritar «estamos aqui», um aqui visto por vezes com sobranceria, outra vezes como se fôssemos uma excentricidade..
Mas, durante dez anos, existimos. Fizemos, cumprimos, estabelecemos. Não vou escrever «contra tudo e contra todos» porque seria injusto, tremendamente injusto, para os tantos que a nós se juntaram. Mas contra o mar de terra que nos abraçava a ambição, isso sim.
A Companhia das Ilhas lembra-me as Quasi. Vontade indómita. Qualidade. Cuidado. Ambição. Um catálogo já surpreendente, onde a autores nacionais se juntam os ditos «locais». E esta «localização», literal e metafórica, é elogiosa. Também eu tive responsabilidade na colecção que celebrou os oitocentos anos do foral de Famalicão. E hoje, olho para trás, e vejo-a ombreando com os livros de Lisboa 94 e Porto 2001 e pouco mais. A Companhia das Ilhas faz isso: celebra a localização editando os escritores açorianos. Mas não só – e aí é que está o truque. Editar locais é provinciano. Editá-los inseridos num projecto nacional e expansivo é inteligente e certo e cosmopolita.
Já se anunciou há uns meses que esta Companhia se associou à Imprensa Nacional para reeditar Nemésio, com Quental o epítome da literatura feita por açorianos. É a cereja no topo do bolo de uma editora para a qual desejo uma longa e próspera vida, não caindo nos erros meus, na má fortuna e no amor demasiado ardente que as Quasi caíram.
Que as vertentes das ilhas se virem ao brilho do sol cada vez mais.

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