Edição Nacional - Dedicácias, por Jorge Reis-Sá




Estive com José Saramago uma única vez. Um encontro inolvidável, julgo que já depois do Nobel. Nunca o esqueci – ele nunca mais se lembrou. Mas não deixa de ser inolvidável. Feira do Livro do Porto, talvez no ano 2000. Ele sentado a assinar livros «com simpatia» e eu na fila, um rapazinho saído da faculdade e a iniciar a vida no meio deles. Coloquei o Ensaio sobre a Cegueira na mesa, ele mal levantou os olhos por trás dos aros salientes e perguntou o nome. Disse «Jorge». Tenho pena, poderia ter dito outra coisa qualquer. Mas disse «Jorge» e ele lá fez o gesto e a simpatia: «para o Jorge, com a simpatia de José Saramago». Era a segunda edição do Ensaio. Sempre tive pena de não lhe pedir para que assinasse a primeira edição do Círculo do Evangelho. Pertencia ao meu pai, poderia ter feito como fiz com a Agustina. Fui ter com ela, já mais crescido um pouco, a um lançamento na Fnac. Levei-lhe uma edição antiga da Sibila, com a assinatura de posse do meu pai, morto há anos. E disse-lhe: «era o livro do meu pai, que já faleceu». Ela perguntou o nome dele. Disse, intrigado, «Manuel Augusto Reis Sá». E ela começou, naquela letra lindíssima de senhora de boas famílias, «Para o Manuel Augusto…» e eu pensei «não acredito, a velhota enganou-se e vai assinar o livro para o Pai porque não percebeu que ele já morreu». Mais uma «simpatia», mas desta vez para quem já não a leria. E ela continuou «… em memória do leitor que foi». Só não chorei porque gente grande não chora (em público, pelo menos, e muito menos com a senhora dona Agustina ao lado). Saí de lá de coração cheio, foi a melhor dedicatória que me fizeram, desde sempre e para sempre. Na Feira do Livro, aí, Saramago foi o que diz a biografia do Joaquim Vieira: sério, soturno, fechado, amargo, impaciente para a vida. Ou então estava só cansado de aturar rapazinhos saídos da faculdade a pedirem autógrafos. Não sei, mas seja como for ficou-me uma dedicatória guardada quase para sempre.

Não foi para sempre porque mudei de casa anos depois. E a mudança, de Famalicão para Lisboa, foi feita por transportadora, com aquelas empresas que pegam na nossa vida toda e a trazem de um dia para o outro e a colocam noutro local como se lá tivéssemos vivido sempre. No meio de quadros ou de primeiras edições, desapareceu uma única coisa: a minha segunda edição do Ensaio, assinada que estava. Algum homem pensou que a assinatura do Saramago valia dinheiro e a levou. Felizmente, com o «Jorge» e não com o «Jorge Reis-Sá», senão era a vergonha de saber algures à venda um livro assinado para mim com as letras todas. Já me aconteceu ao contrário, um livro que assinara para um crítico da nossa praça apareceu na Barata a cinco euros. Fiquei chateado. Não pelo crítico, mas pelos cinco euros. Mas afinal eu só valho cinco euros depois de anos e anos a escrever o romance? Bem, em 2.000 exemplares de tiragem, se multiplicarmos por cinco já são 10.000 euros. A dissonância cognitiva é uma coisa linda. Pensei em comprar o livro e devolver ao crítico com a indicação «caro xpto, acho que alguém te assaltou a casa», mas ele é conhecido pela falta de sentido de humor, não valia a pena abrir essa porta e deixar sair o vespeiro. Como fez o António Lobo Antunes um dia, contaram-me. Uma outra crítica da nossa praça terá sido muito crítica num jornal a um dos seus romances. E ele autografou um livro e mandou-o para ela: «para a xpto, que ainda não leu este livro». Engraçado, agora que penso, não fossem de géneros diferentes e poderiam, ambos os críticos, ser muito amigos.

As dedicatórias são às vezes ácidas. A da Agustina ainda hoje me enternece. A do Saramago está perdida algures e lembra-me a sua figura austera. E o livro do Evangelho não tem «José Saramago» lá inscrito mas tem o meu pai em todo ele.



Foi o meu primeiro livro a sério. Tinha 14 anos, julgo. E nunca lera mais que atlas, alguns tio patinhas, dois ou três livros que esqueci entretanto. Lia muito, mas o meu livro de cabeceira sempre foi o Atlas Universal Círculo ou a Enciclopédia Geográfica das Selecções. Ainda hoje devo saber de cor quase todas as capitais. Acabei por só anos depois saber quem era o Sexta-feira. Passei logo dos mapas para o Evangelho, como no Monopólio, sem passar pela casa de partida. A vida não é uma narrativa certa, é uma estrada cheia de curvas e contracurvas. Só podemos fazer uma de duas coisas: ou a aceitar como foi ou mudá-la no fim, ficcionando-a e chamando-lhe verdade.

Foi o meu primeiro livro a sério e ainda hoje é um dos meus livros mais próximos. Mesmo que, com catorze anos, me tenha dado para ser crítico, lembro-me. Achei que o autor matava Deus Nosso Senhor depressa demais. Que demorara tempos infindos na infância e juventude e que, depois da vida oculta de Cristo, o crucificava com duas frases ou pouco mais. Não sei. Talvez esteja a ser injusto. Reli passados que foram uns dez anos, mas lembro-me mais da primeira leitura. Talvez seja de terminar a biografia do Joaquim Vieira e voltar ao Evangelho e à edição do meu pai. Havia ainda outra coisa, tenho de o dizer. E já foi editorial quando ainda não havia ideia de que as editoras eram. A edição da Caminho não tem, na contracapa, a reprodução que tem a do Círculo. E essa é a reprodução que Saramago descreve no primeiro capítulo. Quer isto dizer que eu li e vi a descrição. Mas que quem a lê na Caminho – e agora na Porto Editora – não o faz. Será que o Saramago soube disto? O aceitou? Estou a ler a biografia, ele acabou de publicar A Jangada de Pedra, mais umas vinte páginas e verei. A Jangada, o primeiro livro sem dedicatória à Isabel da Nóbrega e o único sem ser dedicado «A Pilar».

A questão das dedicatórias está neste momento a ser comentada no livro. Todos – ou quase, já cá volto – o criticam por isso. José Saramago tirou, nas edições subsequentes, as dedicatórias, deixando-as, julgo, sem nada. Isto porque, como bom cientista que sempre quis ser, só vendo todas as edições o poderia saber – mas as que tenho viram apenas a página desaparecer. O único que o defende é José Manuel Mendes, dando conta da sua vontade de rasurar a História. Entendo-o. E entendo porque a dedicatória pode ser da edição e não do livro. Saramago quis dedicar aquela edição a Isabel da Nóbrega (e, se nada acontecesse que o fizesse alterar isso, o livro). Mas, com o fim da relação, a edição seguinte não faria sentido ter as mesmas palavras. Isso acontece muito nos poemas. Eugénio de Andrade é um caso paradigmático. Nos primeiros livros, há dezenas de dedicatórias. (Lembro que o «Adeus» era dedicado a Afonso Duarte, por exemplo.) Mas quando Eugénio se tornou maior que Afonso Duarte, achou que não fazia sentido. Maus fígados? Talvez. Mas a verdade é que a dedicatória não é parte da obra ou do poema, é parte da edição. É um paratexto, não um texto – sinto-me hoje muito estruturalista, concedo. Por isso faz sentido essa alteração. E, convenhamos, não é caso raro. Se até eu já o fiz, não alterando os nomes mas acrescentando um e mudando a formulação. Veja-se o caso do Miguel Esteves Cardoso. Passou tudo de Susana a Maria João. E um dos prefácios, onde se falava da Susana (às «Minhas Aventuras na República Portuguesa»), passou a crónica sem Susana alguma. A vida muda, os livros mudam, as edições são outras. E nada como podermos contornar as curvas e contracurvas da narrativa da nossa vida com uma ou outra rasura.


Saramago é um exemplo. Nem sempre bom, mas não o deixa de ser. Pela forma como porfiou – tão humano, insinuando-se a Miguéis ou Sena quando editor, ou tão trabalhador, construindo uma Obra depois dos 50 anos. Pela forma como saneou e pela forma como foi saneado, primeiro demonstrando que nunca foi um democrata, depois fazendo dessa agrura uma possibilidade para se «levantar do chão». Não deveria ser uma pessoa simpática, pelo que a «simpatia» da dedicatória sabe a função de escritor e não a sinceridade. Mas também que pode um homem, sentado atrás de uma mesa de fórmica, na Feira do Livro do Porto de 2000, com uma fila de dezenas de pessoas à espera de algo único, escrever? Para o rapazinho que saíra da faculdade há pouco, nada. Uma simpatia que se perdeu numa mudança de vida, dedicada a um Jorge que era um qualquer para ele e que talvez nunca tenha sido eu para mim.

“José Saramago: Rota de Vida” de Joaquim Vieira
Publicado em Novembro de 2018 pela Livros Horizonte, depois de impresso na Publito.





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