João Bigotte Chorão (1933-2019)




Só morre quem não é imortal.
Bigotte Chorão, In Diário 2000-2015, Imprensa Nacional 2018

Escrevi e publiquei o meu testemunho. Espera-o o silêncio? Não importa: vivi o meu ofício de homem, pus por escrito o que pensei e senti, em liberdade interior.
Bigotte Chorão, In Diário Quase Completo, Imprensa Nacional 2001.


João Bigotte Chorão nasceu na Guarda em outubro de 1933 e faleceu, este sábado, em Lisboa, aos 85 anos de idade.

Foi professor e funcionário público, notabilizando-se como crítico, diarista e ensaísta, sendo unanimemente considerado um dos grandes especialistas na obra de Camilo Castelo Branco.

João Bigotte Chorão foi também diretor literário da Editorial Verbo onde teve a seu cargo o departamento de Enciclopédias e Dicionários, e daí coordenou a publicação da Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI (29 volumes, 1998-2003) e a Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia .

Licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Bigotte Chorão debruçou-se sobretudo no estudo de autores do século XIX e XX. Além de Camilo, foi uma profundo conhecedor das obras de Almeida Garrett, Eça de Queirós, Carlos Malheiro Dias, Thomaz de Figueiredo e João de Araújo Correia. Aliás, Bigotte Chorão é o autor de O Essencial Sobre Camilo e O Essencial Sobre Thomaz de Figueiredo, obras que publicou na Imprensa Nacional, respetivamente em 1996 e 2000.

Ainda no âmbito do ensaio, João Bigotte prefaciou várias livros da editora pública. Mencionam-se aqui os prefácios de Contos de Novelas, de João de Araújo Correia, Nó Cego (livro inaugural da coleção «Obras Completas de Thomaz de Figueiredo») e Contos e Novelas, de Domingos Monteiro.

Foi também um profícuo colaborador da revista Prelo — revista literária da Imprensa Nacional. Bigotte Chorão, começou, aliás por publicar os seus escritos em obras coletivas, jornais e revistas, entre as quais a Tempo Presente, a Colóquio/Letras e a Távola Redonda.

Do que publicou em livro destaque para os ensaios Vintila Horia ou Um Camponês do Danúbio, de 1978, O Escritor na Cidade, de 1986, João Araújo Correia, Um Clássico Contemporâneo, de 1986, Camilo, Esboço de Um Retratado, 1989, Páginas Camilianas e Outros Temas Oitocentistas, de 1990, e O Espírito da Letra, de 2005.

De formação humanista cristã, e sempre cultivando o gosto pelas culturas italiana e francesa, Bigotte Chorão deu, como se disse acima, particular atenção ao memorialismo, à epistolografia e ao diarismo — género do qual foi mestre. Discípulo Noturno, de 1965, e Aventura Interior, de 1969 provam-no bem.

«Escrevo e escreverei nem que seja para preservar a memória dos meus dias e vencer o vazio pela disciplina mental da escrita», escreveu.

Já em 2001 publicou Diário Quase Completo, na Imprensa Nacional — obra com a qual viria a receber o Grande Prémio da Literatura Biográfica da APE. A Imprensa Nacional seria também a casa onde Bigotte Chorão publicaria aquela que seria a sua derradeira obra: Diário 2000-2015, em fevereiro de 2018, há um ano preciso.

Em Diário 2000-2015, na escrita intimista com que sempre nos habituou, Bigotte Chorão leva-nos, no intervalo destas datas e em pouco mais de trezentas páginas, à descoberta do seu universo cultural e a tudo aquilo que o entusiasmava e comovia, deixando para a posteridade um precioso espólio de memórias que por sua própria vontade resistem e vão continuar a resistir ao esquecimento.

Numa mensagem colocada no site da Presidência da República, o chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, realçou a «incansável curiosidade e poderosa capacidade reflexiva» de Bigotte Chorão, enaltecendo também «o constante empenho no conhecimento e na valorização da literatura portuguesa».
Bigotte Chorão deixa aos leitores «o que de melhor definiu a sua vida como missão: o subtil diálogo entre a escrita, o escritor e o seu decifrador no tempo e para além dele», pode ler-se ainda no comunicado do Presidente da República.

Recorde-se, por fim,  que João Bigotte Chorão era membro da Academia das Ciências de Lisboa e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, tendo dirigido também o Círculo Eça de Queiroz. É pai de Pedro Mexia, poeta, cronista, crítico literário e cinematográfico, membro do conselho editorial da Imprensa Nacional e também do júri do Prémio IN/Vasco Graça Moura.

Deixamos aqui um excerto do seu Diário 2000-2015, excertos «arrancados» às páginas de março a abril de 2015.


30 de março
Uma antologia de Rubem Braga, no seu centenário. Não foi em livro,
mas em revista – a Manchete, de saudosa memória –, que conheci o
cronista, que tinha ali a sua página semanal. O que admirava e admiro
em Rubem e também em Rachel de Queiroz, esta no Cruzeiro, era a
fina observação do quotidiano. Para não falar na linguagem depurada,
clássica, de mestres do idioma. Note‑se que a simplicidade é, não
raro, aparente, de tão complexa pelo uso de palavras que nos são de
todo desconhecidas. Cada vez mais o português do Brasil se afasta da
matriz lusíada. A crónica sobre o Dicionário Aurélio é expressiva desta
realidade. O próprio Rubem Braga, consultando o Aurélio, se espanta
da riqueza vocabular a que os especialistas dão erudita cobertura.

3 de abril
Morte de Manoel de Oliveira. Que hei de dizer que já não tenha
sido dito e se venha ainda a dizer? Só morre quem não é imortal.

15 de abril
Que José Régio era também um grande epistológrafo, já o sabíamos
pelas cartas que têm sido publicadas, notáveis pela dimensão e
espírito crítico. Agora vêm a lume cartas familiares, algumas centenas,
endereçadas aos pais. A correspondência com a mãe é sobretudo afetuosa,
como a de um filho que encontra quem o ouve e retribui com
amor o amor que recebe. Não falam de literatura, mas de problemas
domésticos, quando José Maria não se revelara ainda como José Régio.
Com o pai, a relação é um pouco diferente, respeitosa porque se
dirige a um homem austero, que o ajudava financeiramente, lhe dava
conselhos e tinha interesses literários, sobretudo teatrais. Com ele, já
Régio confessava os seus projetos literários, conversava dos livros que
ia publicando e da receção crítica, ora favorável, ora negativa, se não
se traduzia pelo silêncio. Às vezes, as cartas, sobretudo no tempo de
estudante em Coimbra, essas cartas parecem contas‑correntes.
O gostodo colecionador de antiquários agrava a situação financeira e compromete
viagens fora de portas.

18 de abril
Mais um volume do Diário de Marcello Duarte Mathias, que
na literatura intimista tem um lugar inquestionável. A carreira
diplomática alimenta muitas das suas páginas, que não escapam a
uma certa mundanidade. As reflexões sobre literatura e sobre pintura
são de boa leitura. Incansável viandante pelas sete partidas, o
ecumenismo não o afasta das raízes. Português, não se excede em
retórica patrioteira, reconhecendo que os defeitos são a causa da
nossa mediocridade. Quando tenho a tentação do desistir, uma boa palavra lida no
Diário age como um estímulo. Escrevo e escreverei nem que seja para
preservar a memória dos meus dias e vencer o vazio pela disciplina
mental da escrita.

9 de maio
No jardim, o chorão cresce a olhos vistos. Só no mundo vegetal é
que em cada ano se renova a primavera.

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