Ajustes Editoriais na «Edição Nacional» de Jorge Reis-Sá





As alterações profundas que o negócio editorial sofreu nos últimos anos aconteceram, principalmente, devido à concentração editorial. Isto fez com que alguns novos grupos editorais se vissem com uma série de chancelas onde, com mais ou menos custo, colocariam os títulos a publicar. Nesse sentido, a Leya é o caso mais gritante de esquizofrenia, com várias chancelas onde se poderiam colocar o mesmo livro. A Porto Editora, no entanto, não fica muito atrás. Vejam-se dois casos, que lembro sem pensar muito: Ana Margarida Carvalho, cujos dois romances saem na Teorema (porque não na Dom Quixote, por exemplo?); o recente No Armário do Vaticano que vê edição pela Sextante em vez da própria Porto Editora.

Um dos casos mais arrumados foi a Babel, de que tive a honra de editar, entre 2009 e 2013, algumas chancelas. O Paulo Teixeira Pinto, sempre devedor das matemáticas para organizar o caos, pensou bem num quadrado 3x3, onde estabeleceu nove chancelas, algumas existentes, outras resgatadas ao tempo, outras novas. Era a Verbo, que deixaria o infantil e se tornaria a referência de não-ficção que sempre foi; a Ulisseia, a referência de ficção; a Arcádia, recuperada para o mass market; a Guimarães, para o cânone; a K4, para livros de bolso (quadrados, no caso); a Centauro, para os projectos especiais fora do retalho; a Athena, para os livros de Arte; a Ática, recuperando a sua relação com Fernando Pessoa; e a incompreendida Pi, com o símbolo matemático tentando ensinar desde logo às crianças que há uma dízima infinita não-periódica que se deve saber de cor: para o infantojuvenil, portanto. Isto fez com que livros editados numa chancela transitassem, naturalmente, para outra. Seja a Maria Teresa Maia Gonzalez ou os livros da «Anita» (que saudades do nome antigo…), ou A Origem das Espécies que, ainda não havendo Babel, editei na Guimarães e que na segunda edição saiu com a chancela Verbo.

A 20|20, tornado o grupo editorial, tem feito o mesmo, sem tanta matemática mas algum cuidado. O caso mais recente é A Sexta Extinção de Elisabeth Kolbert. Primeiro na Vogais – em duas edições e com duas capas diferentes, que aqui se reproduzem – e agora na Elsinore. Infelizmente ou felizmente, esta última com um cuidado editorial que as outras não tiveram – como também se pode ver pela capa.



A Elsinore é um caso maravilhoso de cuidado (sendo por isso algo incompreensível, no livro que aqui nos traz, a ausência do índice remissivo que existe na edição inglesa). Cuidado no projecto gráfico dos RPVP Designers / Booktailors; nas capas; no poema do Mário Cesariny a abrir cada livro; no acabamento em soft touch; no papel Coral Book Ivory de 80 gramas mas com o índice de mão 1.2, quase sem volume; e, claro, nos títulos escolhidos.

Assim este A Sexta Extinção. É um livro assustador pelo que nos informa, mas brilhante na forma como o faz. Porque a autora não se coibiu a visitar os locais para cada uma das suas prelecções (dando conta, por exemplo, das cinco extinções em massa que aconteceram até agora e de como estamos a executar inconscientemente – ou conscientemente – a sexta). Bem escrito, informativo, cuidado – tudo o que deve ser um livro de não-ficção de referência para o grande público. Tudo o que deve ser a Elsinore. (Talvez não fosse necessária a cinta tão expressiva numa capa tão bonita. Mas eu entendo – temos de vender livros e se se puder indexar este livro aos do autor do Sapiens alarga-se o público. Ao contrário de tantas luminárias, sempre fui a favor de vender livros. Tenho uma coisa estranha comigo: gosto que as pessoas leiam e descubram coisas boas mesmo que desatentas pelo virtual da vida real.)

Ainda para mais, eu tenho um fascínio de anos pelas extinções em massa. Traduzo neste momento, muito paulatinamente, um livrinho do início dos anos 980 onde se dá conta de uma delas e das suas ramificações, baseadas numa análise estatística que se revelou incorrecta. Está um pequeno resumo no capítulo IV do de Kolbert. É lá que se fala da estrela que me acompanha diariamente. Mesmo que não acompanhe a Terra, pelos vistos. Deixo aqui esta ideia: vão ver o que é.

A Sexta Extinção de Elisabeth Kolbert
A terceira edição (depois de duas na Vogais) publicada em Fevereiro de 2019 pela Elsinore, depois de impressa na Publito.




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