Um poema de Mário Dionísio para celebrar o Dia do Pai




Para ser lido mais tarde

Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar
quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando
já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres
quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho
para ti será o começo de tudo
Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda
Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante
Mas para mim será já tão frio e já tão tarde
E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara




Homem das artes e das letras, Mário Dionísio (1916-1993), foi um forte opositor à ditadura de Salazar e Caetano.

Entre 1936 e 1988 publicou poemas (reunidos na coleção «Plural» da Imprensa Nacional em 2016), contos (O Dia Cinzento, 1944, reescrito em 1967; Monólogo a Duas Vozes, 1986; A Morte É para os Outros, 1988) e um único romance, Não Há Morte nem Princípio (1969). Uma escrita em que o rompimento com a escrita tradicional é evidente.

Autor de inúmeros ensaios, muitos dos quais sobre pintura, de que o principal é A Paleta e o Mundo (1956-1962), desde sempre escreveu em jornais e revistas (crítica literária e de artes plásticas, crónicas sobre assuntos vários). Prefaciou obras de Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, José Cardoso Pires, Alves Redol.

Nos ensaios, artigos, prefácios é central a questão do realismo, dos novos realismos, da relação entre arte e sociedade.

Desde muito cedo, pintou. Organizou as primeiras Exposições Gerais de Artes Plásticas, onde expôs até 1954. Mas a sua primeira exposição individual de pintura realizou-se apenas em 1989, aos 73 anos. Abandonaria a escrita. No fim da vida só pintava.

Licenciado em Filologia Românica, foi professor toda a vida: de Português e de Francês no ensino secundário e, já depois do 25 de Abril, de Técnicas de Expressão do Português na Faculdade de Letras de Lisboa.

Conta tudo isto numa pequena Autobiografia (1987).




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