16 de abril | 18.00h | Apresentação «Do Caos Redivivo», de Luiz Fagundes Duarte



A 16 de abril, pelas 18h00, Pedro Mexia fará a apresentação do livro Do Caos Redivivo, Ensaios de Crítica Textual sobre Fernando Pessoa, de Luiz Fagundes Duarte, numa edição da Imprensa Nacional.

A sessão de apresentação é de entrada livre e decorrerá na Biblioteca da Imprensa Nacional, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.

Do Caos Redivivo, Ensaios de Crítica Textual sobre Fernando Pessoa
está publicado na coleção «Pessoana», uma coleção feita em colaboração com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Escrito entre 1987 e 2016, este livro é no dizer do seu autor «[...]um livro de descoberta e de relatos de processos sobre assuntos e problemas de filologia e de crítica textual aplicados aos manuscritos de Fernando Pessoa [...]»



Transcrevemos e damos aqui a conhecer, em primeira mão, o Prólogo deste livro, assinado por Luiz Fagundes Duarte.

A minha condição de eterno filólogo aprendiz estriba se em quatro homens de exceção: D. Afonso III, Antero de Quental, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa. Do primeiro, editei lhe os documentos oficiais que mandou escrever em português; do segundo, editei lhe a poesia toda e cheguei à conclusão de que, sem ele, Pessoa não seria, em parte, aquele que conhecemos; do terceiro, além de lhe editar o romance falhado A Capital!, estudei lhe a maneira como compunha este e outros romances; e do quarto, é o que por este livro se poderá ver.

Com todos me fascinei, com todos me desiludi.

Primeiro, D. Afonso III, que tinha a convicção de que «foy achada a escritura que as cousas traspasadas per firmidõ da escritura seiã sempre presentes», e que por isso mesmo representou a minha primeira desilusão — que o meu posterior trabalho como filólogo e crítico textual viria a confirmar: a escrita não é coisa firme.
Segundo, Antero de Quental, que me convenceu de que o autor é que é, de facto, o dono dos seus manuscritos e dos seus textos.

Terceiro, Eça de Queiroz, que me revelou a cena de um escritor nos seus trabalhos de escrita — ele próprio, disfarçado de Gonçalo Mendes Ramires — que «labutava, empurrando a pena como lento arado em chão pedregoso»: porque escrever é coisa difícil.

E quarto, Fernando Pessoa — que passou quase toda a sua vida a sonhar com livros onde reuniria, planeadamente, toda a sua produção poética, e que acabaria por morrer sem os ver concretizados — à exceção da Mensagem que, em grande parte, é um livro que houve à custa da predação de outros que não houve: porque os livros são coisa transitória.

O livro que se segue — coisa transitória sobre as dificuldades da escrita que é coisa movediça — reúne uma parte do trabalho ensaístico que, como crítico textual, fui fazendo e publicando ao longo de trinta anos (incluindo os dezoito em que, estando a exercer funções políticas, apenas intermitentemente fui visitando as atividades de investigação filológica) acerca dos papéis de Fernando Pessoa e de muito daquilo que lá encontrei. E é, em parte, documento do trabalho de aplicação de modelos teóricos e de aparelhos técnicos que, ao longo das duas últimas décadas do século xx e da primeira do século xxi, foram sendo construídos, experimentados, desenvolvidos e aperfeiçoados perante a necessidade de se estudar e editar dois importantes monumentos da cultura portuguesa que, mercê do tempo e da lei, ficaram quase em simultâneo à disposição dos filólogos: os espólios de Eça de Queiroz e de Fernando Pessoa.

Mercê do tempo e da lei — mas também, no que me diz respeito, mercê do acaso.

Porque foi quase por acaso que aqui vim parar — orientado que estava, no início dos anos de 190, para o trabalho filológico sobre textos medievais, de que a edição e estudo dos documentos em português da Chancelaria de D. Afonso III viria a ser exemplo . Mas a atribulada publicação, em 1980, na sequência da nova legislação sobre a queda em domínio público dos direitos de autor, do suposto romance inédito de Eça de Queiroz a que deram o título (falso) de A Tragédia da Rua das Flores levou a que Ivo Castro me desafiasse para elaborar um estudo sobre tão infausto acontecimento — o que fiz e me deu muito gosto fazer. E, na sequência disso, Carlos Reis convidou me para colaborar na edição crítica das obras de Eça de Queiroz, em cujo contexto desenvolvi um método de estudo e de edição crítico genética, do qual resultaria uma tese de doutoramento e a edição crítica de A Capital!. Ao mesmo tempo, e igualmente de maneira atribulada, também Pessoa entrou em domínio público — e Ivo Castro, nomeado coordenador do projeto nacional de edição crítica de Fernando Pessoa, convidou me para a sua equipa, onde trabalhei durante vários anos e em cujo contexto produzi os ensaios que aqui se reúnem e as edições de que adiante, pontualmente, vou dando conta.

Este é, portanto, um livro de descoberta e de relatos de processos sobre assuntos e problemas de filologia e de crítica textual aplicados aos manuscritos de Fernando Pessoa; e sobre a minha própria maneira de trabalhar nestas matérias. Ao mesmo tempo, acaba também por ser um documento — pequeno e pessoal, mas autêntico — sobre a maneira como se foi fazendo crítica textual — e sobretudo crítica textual genética — em Portugal, ao longo de um período curto mas intenso durante o qual tivemos que achar a melhor maneira de levar a bom fim uma tarefa em que, de certa maneira, fomos pioneiros.

Escritos entre 1987 e 2016, os textos que aqui se reúnem não foram pensados para um dia virem a integrar um livro: na verdade, eles foram escritos soltamente, e soltos foram sendo publicados ou de alguma maneira apresentados ao público — a maior parte deles como comunicações e conferências em congressos — com as diferenças de registo que as pessoas, os objetos e as circunstâncias, bem como o meu envolvimento afetivo e a minha própria maturidade, permitiram.
Nenhum mal viria ao mundo se eu deixasse ficar estes textos nos loca amoena onde até agora jaziam e a que originalmente se destinaram; porém, não tanto pelo seu mérito, mas pelo valor daquilo que na sequência do meu trabalho de investigação e de escrita terá sido possível revelar acerca dos papéis de que aqui falo, achei que deveria exumá los e, sob a forma de livro e com as adaptações que o novo contexto aconselha (embora conservando algumas repetições, inevitáveis), trazê los a um público mais alargado que também será, tendo em conta a passagem do tempo, um público novo.

É gostosamente devida, e aqui registada, uma palavra de reconhecimento aos meus companheiros dos tempos pioneiros da equipa Pessoa: Ivo Castro, Manuela Vasconcelos, João Dionísio, Joaquim Mendes, Luís Prista e José Nobre da Silveira. E à memória de Pedro da Silveira que, com muita frequência, nos entrava porta adentro trazendo uma nova miúnça, quase sempre oportuna, sobre Fernando Pessoa. E ainda aos técnicos e responsáveis da Biblioteca Nacional de Portugal que, por gosto e por ofício, foram presença constante no desenrolar destas cenas de uma história sem tempo que é a do trabalho do filólogo: de um modo especial, António Braz de Oliveira, Fátima Lopes, Júlia Ordorica, Aurora Machado e Maria Teresa Mónica.

Valete fratres atque sorores
!

Luiz Fagundes Duarte
Biscoitos, Terceira, 25 de abril de 2016


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