«Dicionário de Autores» — por Eugénio Lisboa



Uma Conversa Silenciosa colige breves ensaios, onde Eugénio Lisboa reflete sobre literatura, escritores, política cultural, edição e editores...
A erudição, a perspicácia e o tom tantas vezes irónico de Lisboa atravessam todo o livro. Hoje damos-lhe a conhecer o texto «Dicionário de Autores».

Dicionário de Autores

O simpático e útil Magazine Littéraire, na sua edição nº385, de março deste ano [2001], publica um Dictionnaire des auteurs, dedicado a escritores portugueses, o qual é apenas parte de uma bem intencionada secção intitulada Écrivains du Portugal. O referido dicionário da‑se como organizado por François Busnel, com a colaboração de seis outras personalidades.
O resultado é, diga‑se de passagem, bizantino. Há limites para o que se pode tolerar, em termos de leviandade, para não dizer, simplesmente, irresponsabilidade. Claro que um pequeno florilégio não podia incluir «tudo». Mas isto não é desculpa para se incluir, por exemplo, na letra «L», Jacinto Lucas Pires (este, já agora, porque não na letra «P»?), à custa de se excluir Fernão Lopes (o nosso maior cronista), Rodrigues Lobo, Gomes Leal, Irene Lisboa, ou mesmo Alberto de Lacerda, António Maria Lisboa ou Óscar Lopes (visto que se inclui Eduardo Lourenço). Na letra «S» não sobrou um nicho para António Sérgio, uma das mais influentes personalidades culturais do século xx português.
Mas há mais: o «V», por exemplo, não chegou para o Padre António Vieira, porventura o nosso maior prosador de todos os tempos (Fernando Pessoa chamou‑lhe «imperador da língua» e ter‑lhe‑ia ficado a dever ter‑se tornado poeta em português…). A letra «R» só contemplou um autor, Wanda Ramos, excluindo‑se, escandalosamente, uma das maiores figuras literárias do século xx, José Régio, além de outros de bem maior peso do que a simpática e, ai de nós!, já falecida Wanda: Bernardim Ribeiro, Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Garcia de Resende ou António Ramos Rosa. O «B» chegou para Bocage mas ignorou João de Barros (o das Décadas mas também, se quiserem, o do Anteu), Mário Beirão, Diogo Bernardes, Padre Manuel Bernardes, Edmundo de Bettencourt, António Botto ou Raul Brandão, entre vários outros não descartáveis (Abel Botelho, Maria Ondina Braga, Sampaio Bruno, Francisco Bugalho). O «P» deu para Fernando Pessoa mas esqueceu, intoleravelmente, Pascoais e Pessanha, para não mencionarmos António Patrício ou Duarte Pacheco Pereira… O «A» contemplou Eugénio de Andrade, o que é de aplaudir, mas deixou estranhamente de fora Almada ou Fialho de Almeida. O «C» premiou Camões (era melhor!), mas ignorou Castanheda ou Eugénio de Castro. O «F» deu para Vergílio Ferreira e Almeida Faria (os deuses os possam abençoar) mas não deu para António Ferreira, Branquinho da Fonseca, José Gomes Ferreira, Tomaz de Figueiredo, Manuel da Fonseca, Reinaldo Ferreira (o dos Poemas e não o da morfina, que era seu pai), Jose‑Augusto França. O «E» achou por bem esquecer Florbela Espanca. O «T» inclui Torga mas ignora, injustamente, Tolentino. Voltando ao «S», deixou de fora, além de Sérgio, Santareno, João Gaspar Simões (que toda a gente gosta de esquecer ou agredir), Ary dos Santos, Joel Serrão, Agostinho da Silva, José Marmelo e Silva, Castro Soromenho, José Augusto Seabra e… Frei Luís de Sousa (um dos grandes prosadores da língua). O «O» não deu sequer para o grande poeta que foi O’Neill (ou Garcia de Orta, ou Ramalho Ortigão, ou Carlos de Oliveira ou o Cavaleiro de Oliveira…). Mas o «T», por outro lado, inclui Tabucchi, que tem tanto direito a ser autor português como tem Graham Greene a ser vietnamita ou sul‑americano.
Será preciso acrescentar alguma coisa? Eu diria apenas que o espírito que preside à organização de um dicionário de autores «deve» ser fundamentalmente diferente do que preside à elaboração de Gente. Há três ingredientes indispensáveis: conhecimento, bom senso e seriedade. É pouco, mas ajuda e é, até, suficiente.

P.S.: Para que me não acusem de ter cometido o pecado de omissão cometido pelos autores do Dictionnaire, faço questão de sublinhar que me limitei a dar alguns exemplos escandalosos de omissão. Mas poderia citar outros: Cesariny, Teixeira Gomes, Alfredo Cortez, Afonso Duarte, Domingos Monteiro, Al Berto, David Mourao‑Ferreira, etc. etc. etc. Eu estava, porém, a criticar um dicionário e não a fazer outro. Para levar a água ao meu moinho, alguns exemplos gritantes bastavam.


Eugénio Lisboa, in Uma Conversa Silênciosa, Imprensa Nacional, Lisboa, 2019, pp. 75-77









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