No Centenário de Jorge de Sena a Imprensa Nacional traz «O Essencial Sobre Jorge de Sena», uma 2ª edição revista e aumentada



Jorge Fazenda Lourenço, em janeiro de 1987, publicou na Imprensa Nacional — coleção «O Essencial» — um livrinho de 64 páginas intitulado «O Essencial Sobre Jorge de Sena». Era o nr.º 30 daquela coleção. Trinta e dois anos depois, em ano de centenário do biografado, Jorge Fazenda Lourenço dá agora à estampa uma versão revista e bastante aumentada que muito em breve vai estar à venda nas livrarias.

Aqui um pequeno excerto em jeito de pré-publicação:


Jorge Cândido de Sena nasceu no dia de Finados de 1919, em Lisboa, na freguesia de Arroios, filho de Maria da Luz Teles Grilo e de Augusto Raposo de Sena, comandante da marinha mercante (v. cronologia). A sua infância de «filho único e tardio», como ele mesmo dirá, sem amigos, salvo primos e primas, com quem raramente brincava, muito protegido pela mãe e com um pai largamente ausente, foi extremamente solitária. Com as devidas distâncias entre a ficção e a biografia, o conto «Homenagem ao papagaio verde» (Os Grão-Capitães), um dos mais belos da literatura em português, deixa entrever o ambiente dramático familiar, marcado, do ponto de vista da criança, por uma «solidão acorrentada». Numa entrevista de 1976, a um jornal de Los Angeles, o poeta confessa: «era um solitário [...], totalmente fascinado pelos livros» (E, 339), cuja leitura fora incentivada pela mãe e pela avó materna, a avó Isabel, a grande figura tutelar da sua infância e juventude e «das pessoas de quem terei sempre saudade», como diz num pequeno e humorado texto memorialístico, «Castelos e outros objectos de influência» (Jornal de Letras, Artes e Ideias, 20de janeiro de 2009).

Isabel dos Anjos Alves Rodrigues Teles Grilo estivera como professora régia e inspetora das escolas no Huambo (v. o poema «Foi há cem anos, em Angola», de Conheço o Sal...) e regres¬sara a Lisboa no início dos anos 20, passando a viver com a filha, depois de um acidente profissional do genro, que o afasta da vida ativa, em 1933. Matriarca da família, mulher extremamente organizada e metódica, tocava e compunha música, fazia versos, era, tal como a filha, uma premiada charadista, tinha lugar cativo no cinema Capitólio, assinava a revista Cinéfilo, era uma amante de literatura policial — tudo gostos que Jorge de Sena herda, incluindo o das palavras cruzadas. É ainda ela quem, atenta à vocação do neto, lhe oferece um caderno, quando ele parte para a viagem de cadete da Marinha, para lhe servir de diário, e lhe faz a datilografia, pois tinha máquina de escrever, do seu primeiro e inacabado romance, «A personagem total».

Maria da Luz Grilo de Sena é uma figura menos visível, mas igualmente determinante para o destino literário do filho. Condicionada pela dominadora ausência do marido, constantemente embarcado, e pelos valores da sociedade patriarcal do tempo, a mãe do poeta fora educada no colégio dominicano de Santa Joana, em Aveiro, onde o francês era a língua quotidiana, e onde permaneceria «como ao casamento, em outubro de 1906, em Lisboa, com Augusto Raposo de Sena, que conhece num navio com destino a Angola, de visita a sua mãe. «Eu mesmo, na verdade — diz Jorge de Sena, em 1972, numa crónica de viagem a Angola e Moçam¬bique —, vim a nascer des[s]as Áfricas — sem elas, minha mãe, voltando dos metropolitanos estudos para Angola, menina e moça e ruiva, não teria conhecido a paixão romântica e brutal do capitão de navios, jovem e de bigodes retorcidos, que foi o meu pai» (RP, 205). Segundo Mécia de Sena, Maria da Luz sempre encorajou as atividades literárias do filho, ainda que a ocultas do marido e da família, e apesar das suas dificuldades de afirmação num contexto dominado pelas figuras autoritárias dos militares de ambas as famílias, a sua e a do marido. A educação musical de Jorge de Sena, impulsionada pela mãe, e sua «única manifestação de teimosa independência» (GC, 39; «Homenagem ao papagaio verde»), era motivo de discórdia familiar. Como o próprio recorda, em «Castelos», acima citado: «Aprendia piano em especial e música em geral, e compunha improvisos com muitos acordes e dissonâncias, de êxito revolucionário nas reuniões de família ou afins, com excepção do ramo familiar paterno, que achava impróprios destes tempos mo¬dernos [...] e da dignidade social tais (como outros) devaneios artísticos, que minha mãe apadrinhava e faziam as delícias de um papagaio verde que eu tinha, que andava solto pela casa, com terror de toda a gente por ser uma fera» (o paralelo com o conto autobiográfico é manifesto).

Na família de Jorge de Sena, a tradição militar remonta ao general Manuel Joaquim Raposo, um dos «Bravos do Mindelo». Um tio materno, o tenente Mário Teles Grilo, foi o primeiro oficial português morto na Grande Guerra, com retrato e descrição do seu heroísmo na imprensa, nomeadamente na Ilustração Portuguesa (n.º 593, de 2 de julho de 1917). Outro tio materno, o alferes Jaime Teles Grilo, que o sobrinho há de transformar na personagem do tio Justino, de Sinais de Fogo, foi prisioneiro na Grande Guerra, tendo escapado ao campo de internamento alemão, em circunstâncias rocambolescas. Um tio paterno, o engenheiro António Maria de Sequeira, seu padrinho de batismo, e substituto do pai, nas ausências deste, esteve mobilizado em Inglaterra. O próprio pai, enquanto oficial da marinha mercante, comandou transportes de tropas, armas e munições para França, o que lhe deu direito a ser sócio da Liga dos Combatentes da Grande Guerra.

Como comenta Mécia de Sena, cujas informa¬ções registamos, embora Jorge de Sena só viesse a nascer depois da Grande Guerra, ela foi, por certo, «um acontecimento sempre pronto a entrar na conversação», numa casa em que estavam ainda tão vivas «as memórias de heroísmo, sofrimento e luto» . Esta faceta militarista da família não impede que encontremos, na sua biblioteca juvenil, livros oferecidos pelo pai e pelos tios, nem pressupõe que Jorge de Sena não tivesse podido aliar a carreira das armas à vocação das letras. Mas parece certa uma clara divisão entre o lado feminino e o lado masculino da família, entre o destino das letras (e da música) e o das armas. O facto de Jorge de Sena ter tido necessidade de se proteger, no início, sob o pseudónimo Teles de Abreu , é revelador desse conflito, e o seu fascínio por poetas como Camões, Garcilaso de la Vega ou Vigny, a alta consideração em que tinha António Sérgio, Jaime Cortesão ou João Sarmento Pimentel, se tem relação com as qualidades diversas das respetivas obras, tem muito que ver com a aliança entre as armas e as letras, tão renascentista, e com a dupla vida de poeta e marinheiro, que romanticamente sonhava e que lhe haveria de ser tirada.



Jorge Fazenda Lourenço
É Professor Associado da Faculdade de Ciências Humanas, da Universidade Católica Portuguesa (UCP), onde é docente desde 1993, ano em que obteve o PhD em Hispanic Languages and Literatures, pela Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, com uma tese sobre A Poesia de Jorge de Sena: Testemunho, Metamorfose, Peregrinação, publicada pelo Centre Culturel Calouste Gulbenkian (Paris, 1998). Tem publicações sobre Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Jorge de Sena, de quem é o coordenador das Obras Completas (Guimarães Editores). A sua atividade como investigador tem-se centrado nas literaturas dos séculos XIX e XX, no estudo do Bildungsroman e nas questões da modernidade estética, tendo traduzido obras de E. E. Cummings (xix poemas, 1991), Wallace Stevens (Harmónio, 2006) e Charles Baudelaire (O Spleen de Paris, 2007), de quem organizou e prefaciou uma antologia de crítica e ensaio (A Invenção da Modernidade, 2006). Co-editou as atas dos colóquios Guerra Civil de Espanha: Cruzando Fronteiras, 70 Anos Depois (2007), Baudelaire e as Posteridades do Moderno (2008) e Jorge de Sena: Novas Perspectivas, 30 Anos Depois (2009). A sua obra mais recente, Matéria Cúmplice. Cinco Aberturas e um Prelúdio para Jorge de Sena, recebeu o Prémio Jorge de Sena 2012.


0 comentários:

Enviar um comentário