Jerónimo Pizarro em entrevista — «Pessoa está a ser vítima da sua celebridade»


Texto e fotografias: Tânia Pinto Ribeiro

Se a sua vida desse um livro para já poderia ser o Livro do Desasocego e se lhe pedissem uma biografia breve escrevia apenas: «sou uma pessoa que encontrou Portugal e fez dele o seu lar». Colombiano de sangue, com Portugal na pele, Jerónimo Pizarro é aos 42 anos de idade uma autoridade nos estudos pessoanos. O próprio Eduardo Lourenço terá afirmado que Jerónimo Pizarro é «o mais jovem dos heterónimos pessoanos». O que faz com que a multiplicação pessoana não se fique pela do próprio Pessoa. «Antonio Tabucchi também foi considerado heterónimo de Pessoa. Acho que é muito melhor ser considerado heterónimo de Pessoa do que viúva», diz a rir.

O seu dia triunfal poderiam ser dois ou três, como o foram no caso de Fernando Pessoa. Mas Jerónimo Pizarro não esquecerá nunca o dia triunfal da leitura. Estava deitado no relvado da Universidade Nacional de Bogotá, na Colômbia, a ler o «Guardador de Rebanhos». Talvez daí o seu primeiro amor tenha sido Caeiro. Logo a seguir veio Campos e só depois Reis. «Há autores que precisam de mais tempo e mais estudo. Com Reis, ao inicio, tive problemas de paixão mas enquanto leitor acabei apaixonadíssimo», refere.

Jerónimo Pizarro é professor da Universidade dos Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia e doutor pelas Universidades de Harvard (2008) e de Lisboa (2006), em Literaturas Hispânicas e Linguística Portuguesa. É também tradutor, crítico literário e um dos principais responsáveis pela maioria das novas edições e séries de textos de Fernando Pessoa publicadas em Portugal. É ainda editor crítico da Imprensa Nacional, casa com a qual tem mantido uma relação assídua e regular, desde a publicação de Escritos sobre Génio e Loucura, em 2006.

Octávio Paz disse, a propósito de Pessoa, que os poetas não têm biografia. E para Jerónimo Pizarro ainda estamos longe de conseguir reconstituir, um dia da vida do autor de Mensagem: «já se fizeram muitos trabalhos biográficos, muitos foram feitos a partir de livros já existentes, mas falta-lhes trabalho de campo, de arquivo, de reconstrução da época. Trabalhos grandes de natureza histórica da reconstituição da vida de Pessoa faltam ainda muitíssimos», afirma. E talvez daí Pessoa tenha sido, em muitos sentidos, constantemente traído. «Tenho quase a certeza que Pessoa não teria querido publicar as cartas de amor, que não teria intitulado um livro de Páginas Íntimas e de Interpretação, que não teria dado a conhecer certos horóscopos», exemplifica.

Se tivesse possibilidade de encontrar Fernando Pessoa, como teve Ricardo Reis no livro de Saramago, e lhe pudesse fazer apenas uma pergunta, perguntar-lhe-ia se se a data de 2198 se mantém — esta que foi a data prevista por Fernando Pessoa para que a totalidade da sua obra fosse plenamente descoberta. «Um apontamento fantástico!»

Quando a diferenças entre as literaturas portuguesa e colombiana, Jerónimo diz que procura sempre mais as semelhanças do que as diferenças. E o que mais o tem atraído «é saber que existe, por exemplo, um poeta colombiano chamado León de Greiff que tem talvez tantos heterónimos ou figuras fictícias como tem Fernando Pessoa».

Perguntámos a Jerónimo Pizarro qual era o seu heterónimo pessoano preferido mas, de entre os 136 possíveis, preferiu deixar a pergunta para o leitor. «Nunca me mantive apenas num (…) vou variando». Perguntámos também quantas vezes Pessoa «foi mulher» e ficámos surpreendidos.


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