Francisco José Viegas | Deixar um Verso a Meio



Francisco José Viegas esteve esta manhã, dia 13 de novembro, na Biblioteca da Imprensa Nacional, à conversa com Ana Daniela Soares para o programa Todas As Palavras da RTP, a propósito da sua obra Deixar um Verso a Meio, editada na coleção «Plural» da Imprensa Nacional.


Deixar um Verso a Meio  é uma edição que congrega a obra poética de Francisco José Viegas. É um livro feito de livros diversos que revela a versatilidade do autor e apresenta em perspectiva a dimensão da sua lírica. Espreite aqui alguns poemas.

O AMOR ETERNO

A água que uma vez matou a sede de amor
mata a ave que, ferida, poisou na casa.
O movimento dos astros engana o frio, de
repente, enquanto o verão não se aproxima

e docemente entrega ao corpo o que sempre
tomou para si: o calor, a nudez mais escura
e tardia. Mas há sempre um nome que
regressa à serenidade, ao espanto, à luz.

Não interrogues esses segredos tão difíceis,
ocultos nas vagas da madrugada azul,
não interrogues o tempo. Depois de mim

as aves viverão ainda mais nesta distância
que o próprio tempo ignora. Nunca mais
o amor eterno, ferido. Apenas isso, o encanto.

in As Imagens



UMA DESPEDIDA EM REYKJAVÍK

Despeço-me das ruas de Reykjavík
depois de a chuva ter caído. Em breve,
com o vento frio vindo de Husavík,
será a neve a cair na avenida
mais próxima da baía.
Sente-se já esse vento, como uma
doce ameaça a pairar sobre os telhados
coloridos da cidade.
Mas, a esta hora, a neve desconhece
ainda as cores que a recebem — só o lago,
iluminado pelo luar, se abre ao céu
com a sua face transparente.

in Poemas Islandeses

DESÍGNIOS, SINAIS

As luzes acendem-se em nome de todas as coisas.
Cada um escolhe o seu olhar, a sua sombra, o seu
nome; não pode ser de outra maneira a vida que
se escolhe, nem aquela que havemos de viver.

Onde poderemos encontrar refúgio senão nos dias
que se aproximam? Fazes perguntas, olhas os faróis,
gavetas cheias de papéis, as varandas dependuradas
na tarde. O inverno é longo, o seu nome salva-nos,

as luzes acendem-se uma a uma, um dia depois
do outro. Não há segredo, nenhum mistério, só
um risco no céu, um desígnio, um sinal, um aviso.
Fica um olhar, uma palavra a menos no meio da vida.

in Se me Comovesse o Amor


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