Daniel Pires em entrevista — «Bocage constitui um facho da liberdade, que permanece aceso»


Texto e Fotografias: Tânia Pinto Ribeiro

Em 1765, Setúbal era uma vila com pouco menos de 12.000 habitantes. Era uma vila beata, onde existiam cerca de 12 conventos, e também muito tradicional. A economia florescia graças ao sal, que era exportado, nomeadamente para os países nórdicos, aos pomares, ao peixe e ao azeite. Era uma vila ainda a recompor-se do Terramoto que dez anos arrasou Lisboa e abalou o mundo. Foi neste cenário, conta-nos Daniel Pires, que nasceu Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage, uma das mais complexas e notáveis figuras do Iluminismo em Portugal, um autor versátil que entrou em colisão declarada com a estética literária estabelecida, com a moral mais conservadora e com a hipocrisia dos costumes daquele século XVIII. «A sua autenticidade, se tivesse sido expressa, cinco décadas antes, tê-lo-ia levado à fogueira, como aconteceu com António José da Silva, «O Judeu», prossegue Daniel Pires, coordenador da Obra Completa de Bocage, publicada pela Imprensa Nacional em 2019.

Daniel Pires licenciou-se em Filologia Germânica e doutorou-se em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa. Aluno era «muito disperso, sem disciplina, com resultados pouco recomendáveis». Mas esses anos de estudante foram também anos «impressivos, marcantes e de descoberta». Entre os seus principais mestres figuram: Alvarina, sua mãe; António Mateus Vilhena, seu fraterno amigo; António Gedeão, poeta, cientista, inventor; Martin Luther King, Galileu e Jaime Rebelo «o Homem da boca cerrada», entre muitos outros. Quanto a Bocage, descobriu-o por volta dos quinze anos «em plena adolescência, pela via «do erotismo e da sátira».

Daniel Pires tornou-se depois professor em São Tomé e Príncipe e em Moçambique, foi ainda leitor de português nas Universidades de Glasgow, Macau, Cantão e Goa. Da sua passagem pelo oriente aprendeu o elogio da diferença e o conceito vivido da «alteridade».Correu mundo e voltou a Setúbal, cidade onde não nasceu mas onde diz ter adquirido as suas «traves mestras da cidadania». E foi aí que em 1999, fundou o Centro de Estudos Bocageanos, um centro que pretende «restituir a Bocage o estatuto que deveria ter» e «libertá-lo da ganga que o liga à pornografia e ao anedótico, obliterando o autor genial de poesia». O Centro de Estudos Bocageanos ambiciona ainda «divulgar a sua obra e vincar a sua relevância no panorama literário, social e político português». Uma missão sempre contínua.

Em 2015, as comemorações dos 250 Anos do Nascimento de Bocage constituíram o enquadramento ideal para o surgimento de um outro título importante para a Imprensa Nacional, também ele liderado por Daniel Pires: Bocage a Imagem e o Verbo. E já no inicio do próximo ano (2020) Daniel Pires prepara-se para lançar, na editora pública, mais dois livros dedicados aos poeta: uma Biografia, fruto do trabalho de mais de 30 anos de investigações, e um Essencial Sobre… Daniel Pires quer publicá-los na Imprensa Nacional porque «nenhuma instituição estaria mais vocacionada para publicar Bocage, porquanto estamos em presença de um clássico da nossa literatura, cuja obra ombreia com a de Camões e com a de Fernando Pessoa.».

Para Daniel Pires, Bocage é «um facho da liberdade, que permanece aceso» e talvez isto explique porque merece estar sempre iluminada a estátua que o celebra mesmo no centro do coração da cidade do Sado.

Aproveitámos a visita de Daniel Pires à Exposição que celebra os 250 Anos da Imprensa Nacional, Indústria, Arte e Letras, para conversarmos com ele.


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