Centenário Ruben A. (1920-2020)





Alfredo Andresen Leitão, nome literário de Rúben A., nasceu em Lisboa a 26 de maio de 1920. Há 100 anos precisos.

Rúben A. licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, lecionando depois, entre 1945 e 1947, em escolas do Porto e de Lisboa. Como bolseiro do então Instituto de Alta Cultura, deu aulas no King’s College, em Londres, de 1947 a 1952, onde privou com o escritor T.S. Eliot.

De regresso a Lisboa, Rúben A. trabalha, durante cerca de vinte  anos, na embaixada do Brasil, até 1972, altura em que é nomeado administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

O Conselho de administração da nova empresa pública. I.N.C.M.»  in  Prelo: revista nacional de artes gráficas, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, n.º 3, julho-agosto de 1972.

Em 1972 dá-se a fusão de duas empresas, a Imprensa Nacional e a Casa da Moeda, originando a Imprensa Nacional-Casa da Moeda [INCM]. Rúben A. fez assim parte do primeiro Conselho de Administração desta «nova» empresa.

O primeiro conselho de administração da nova empresa ficou constituído por Higino Borges de Meneses, até então pca da Imprensa Nacional, que assumiu funções como administrador geral da incm, Ramiro Farinha, que ocupou o cargo de administrador, e, por nomeação posterior dos Ministérios das Finanças e do Interior, por Rúben Andresen Leitão e José Manuel Charters. A cerimónia da tomada de posse teve lugar em 1 de agosto de 1972, na Biblioteca da Imprensa Nacional, com a presença, entre outros, do embaixador de Portugal no Brasil, José Manuel Fragoso, e da presidente do iac, Maria de Lurdes Belchior Pontes. Depois da tomada de posse, a primeira reunião do conselho realizou-se no edifício da Casa da Moeda.
in Indústria, Arte e Letras. 250 Anos da Imprensa Nacional, pág. 471.


Rúben A. foi administrador do pelouro comercial e cultural da INCM. E tinha muito bem definido o que pretendia para a editora pública. Em ofício enviado à Presidente do Instituto para a Alta Cultura, Maria de Lourdes Belchior Pontes, em 1972, escreve a propósito do plano editorial da INCM.

A nova estrutura da Imprensa Nacional-Casa da Moeda impõe que se planifique o vasto campo editorial em que tanto estamos empenhados. Tentaremos, agora, estabelecer várias colecções, e pensamos em muitos títulos para editar ou reeditar, mas para e fazer um trabalho válido, neste mundo dos livros, é necessária a colaboração, troca de impressões, conhecer-se o que é mais urgente e útil no vasto campo da cultura portuguesa. Coordenar esforços com a experiência que V. Exa. Nos pode dar, com as informações que através dos anos de Leitores da Língua e Literatura Portuguesas trouxeram do estrangeiro, é uma apaixonante obra de labor em comum, sobretudo quando é preciso saber-se o que se pode fazer e o que se deve fazer.

Juntamente com Higino Borges de Menezes, Rúben A. inaugurou a livraria Camões, no Rio de Janeiro em 6 de novembro de 1972, desempenhando assim um papel fundamental no processo de abertura desta filial naquela cidade. Ruben Andresen Leitão escreve de novo a Maria de Lourdes Belchior Pontes a propósito desta abertura:

Excelentíssima Senhora Presidente,
Em resposta ao amável ofício de 31 de Agosto p.p., cumpre-me agradecer o entusiasmo e a simpatia que mereceram de V. Exa. A iniciativa desta Empresa de ir estabelecer em breve uma dependência no Rio de Janeiro. Ninguém melhor do que V. Exa. Compreende e sente a importância de um real e ótimo intercâmbio cultural luso-brasileiro. A sua estada no Brasil foi um digno exemplo que ainda, felizmente, perdura nos fastos da Comunidade.

Dias depois, a 14 de setembro de 1972, o então administrador da INCM volta a escrever à Presidente do Instituto para a Alta Cultura e salienta a importância das parcerias na área da cultura.
Excelentíssima Senhora Presidente,
Estou certo de que esta colaboração entre o Instituto de Alta Cultura e a Imprensa Nacional será o primeiro passo para futuros entendimentos no vasto campo da cultura e da efectiva publicação e comercialização de obras em que se verificou toda a vantagem de colaborar dentro de um plano de perfeita coordenação.

Rúben A.  deixa a Imprensa Nacional-Casa da Moeda para exercer as funções de diretor-geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura. Em 1975, Rúben A. é convidado para lecionar no Saint Anthony’s College, da Universidade de Oxford.

Livros escolhidos» escrito por Ruben A.  (Diário Popular, de 1 de março de 1973)
 Alheio a escolas ou movimentos, cultivou o conto, a novela, o romance, o diário, a autobiografia e e a escrita para teatro. Rúben A. consagrou ainda vários estudos a D. Pedro V e aos arquivos de Windsor. Das suas obras principais destacamos: Páginas (seis diários publicados entre 1949-1969), Caranguejo, de 1954, Cores, de 1960, Júlia, de 1963, A Torre de Barbela, de 1964, e O Mundo à Minha Procura. 

Rúben A. morreu em Londres a 26 de setembro de 1975, vítima de um enfarte de miocárdio. Deixou 4 filhos, frutos do seu casamento com Rosemary Bach. A sua prima direita, Sophia, dedicou-lhe um poema que aqui transcrevemos:


Que tenhas morrido é ainda uma notícia
Desencontrada e longínqua e não a entendo bem
Quando - pela primeira vez - bateste à porta da casa e te sentaste à mesa

Trazias contigo como sempre alvoroço e início
Tudo se passou em plenos e projetos
E ninguém poderia pensar em despedida

Mas sempre trouxeste contigo o desconexo
De um viver que nos funda e nos renega
- Poderei procurar o reencontro verso a verso
E buscar - como oferta - a infância antiga

A casa enorme vermelha e desmedida
Com seus átrios de pasmo e ressonância
O mundo dos adultos nos cercava
E dos jardins subia a transbordância
De rododendros dálias e camélias
De frutos roseirais musgos e tílias

As tílias eram como catedrais
Percorridas por brisas vagabundas
As rosas eram vermelhas e profundas
E o mar quebrava ao longe entre os pinhais

Morangos e muguet e cerejeiras
Enormes ramos batendo nas janelas
Havia o vaguear tardes inteiras
E a mão roçando pelas folhas de heras

Havia o ar brilhante e perfumado
Saturado de apelos e de esperas
Desgarrada era a voz das primaveras

Buscarei como oferta a infância antiga
Que mesmo tão distante e tão perdida
Guarda em si a semente que renasce.


Sophia de Mello Breyner Andresen | O nome das coisas, 1977

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