Daniel Maia-Pinto Rodrigues em entrevista — «Socialmente, a poesia está na moda»



Texto: Tânia Pinto Ribeiro
Imagens cedidas por Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Bisneto do professor e filósofo José Texeira Rêgo, Daniel Maia-Pinto Rodrigues cresceu rodeado de livros. Dos primeiros que se lembra de ler a eito vêm-lhe à memória O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier e, logo a seguir, O Homem Eterno, de G.K. Chesterton. Mas o clássico a que volta sempre é a Alfredo Guisado, o poeta d’Orpheu, «gosto muito da poesia que ele escreveu. Aprecio bastante o universo da sua imaginação».

À infância, que lhe correu na cidade do Porto, onde cresceu e ainda vive, recorda-a de uma forma «intensa e positiva» e também determinante para a sua arte da escrita. «Longe vinha em mim o início da escrita, todavia apercebi-me posteriormente de que eu já estava ali dentro de um poema ou de uma ficção.»

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, 59 anos, poeta, autor de 20 livros - entre eles um único romance, O Corredor Interior - é um dos mais recentes poetas que viu a sua poesia reunida (os poemas mais antigos são de 1977, os mais recentes a 2015) publicada na coleção «Plural» da Imprensa Nacional, sob o título Turquesa. A propósito deste título, explica-nos o poeta:«Em palavras rápidas e simples, Turquesa representa aquilo que, sendo belo, não se alcançou. Por um mero desencontro ou percalço. Por extensão, representa também a Utopia, a Quimera, o Ideal.».

Para este «portuense do mar e não do rio», a poesia é o terreno onde tudo talvez ainda possa ser dito, mas mais importante do que isso, todavia, é que «ela seja bem escrita». Para Daniel Maia –Pinto Rodrigues a poesia está socialmente na moda. «Nas redes sociais, chovem convites para tudo e mais alguma coisa (dentro da área da poesia e da escrita, já se vê)» A sua obra poética tem merecido a atenção da crítica nomeadamente por arte de autores como Manuel António Pina, Rosa Maria Martelo ou Mário Cláudio. Daniel Maia-Pinto Rodrigues está representado em mais de 30 antologias, dados que não passam despercebidos. «Têm significado. E é claro que entre positivo ou negativo, o significado pende mais para o lado do que é positivo» refere.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues diz que não teve mestres no campo da escrita: «Penso até que, se os tivesse tido, há muito tempo que já me desinteressara da escrita». Refere que são a imaginação e «tudo quanto guarda na memória» a grande bateria de tudo quanto possa escrever. Diz também não se enquadrar num movimento ou num escola. Rui Laje, poeta que assinou o prefácio de Turquesa, explica que a condição de Daniel Maia-Pinto Rodrigues na poesia portuguesa é «uma condição excêntrica e extemporânea». Daniel Maia-Pinto Rodrigues concorda.

Do terreno fértil da poesia para o asfalto. Daniel Maia-Pinto Rodrigues é fã de automobilismo em todas as suas vertentes. Se tiver de eleger uma escolhe as corridas de velocidade, as pistas, os circuitos, o asfalto. «De 1968 até 2003, fui as todas as edições do Circuito de Vila do Conde, sempre com o meu pai. De 1977 em diante existiram duas edições por ano. Fui as mais variadas vezes ao Circuito do Estoril; assisti à primeira vitória do Ayrton Senna na F1. Chovia, foi em 1985, e o Senna foi fantástico! », recorda. Daniel Maia-Pinto Rodrigues teria mil histórias para contar a este respeito… «Desde a pulsação académica contra o regime de Salazar, bem presente lá, nas margens dos rios Corgo e Cabril, em dias de corridas em Vila Real,  aos hippies estirados ao sol, um bocadinho para além das margens, e um bocadinho também mais desvinculados das corridas».

Além da escrita, Daniel Maia-Pinto Rodrigues dedica-se também à intervenção cultural - Daniel não simpatiza muito com esta expressão - e está muito ligado ao Teatro do Campo Alegre. «A partir de 1985, a convite do então presidente, José Viale Moutinho, estive ligado à acção literária da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. A minha ligação ao Teatro do Campo Alegre é somente a de convidado. Sempre o foi.», salienta.

Se a sua vida desse um filme escolheria o australiano Peter Weir, para o realizar. «Picnic at Hanging Rock é o meu filme preferido». E se tivesse de escolher uma banda sonora para o acompanhar encomendava-a aos Camel (com Peter Bardens a acompanhar Andrew Latimer) e não descartaria os Pink Floyd, os Coldplay ou os Sigur Rós.


0 comentários:

Publicar um comentário