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Saído do prelo em dezembro de 2018 Camões, de Almeida Garrett - figura nuclear no âmbito literário (e não só) português - é para muitos a obra inaugural do romantismo em Portugal. Trata-se de um poema lírico-narrativo, escrito durante o primeiro exílio do escritor, e centrado nos episódios da vida do poeta Luís de Camões relacionados com a composição e a publicação da epopeia Os Lusíadas.


No prefácio à 1.ª edição, publicada pela primeira vez em Paris, Garrett escreve:

A índole deste poema é absolutamente nova; e assim não tive exemplar a que me arrimasse, nem norte que seguisse 

Por mares nunca d’antes navegados.

Conheço que ele está fora das regras; e que, se pelos princípios clássicos o quiserem julgar, não encontrarão aí senão irregularidades e defeitos. Porém declaro desde já que não olhei a regras nem a princípios, que não consultei Horácio nem Aristóteles, mas fui insensivelmente depós o coração e os sentimentos da natureza, que não pelos cálculos da arte e operações combinadas do espírito. Também o não fiz por imitar o estilo de Byron, que tão ridiculamente aqui macaqueiam hoje os Franceses a torto e a direito, sem se lembrarem que para tomar as liberdades de Byron, e cometer impunemente seus atrevimentos, é mister haver um tal engenho e talento que, com um só lampejo de sua luz, ofusca todos os descuidos e impede a vista deslumbrada de notar qualquer imperfeição. Não sou clássico nem romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam minhas ideias boas ou más, e nem procuro converter as dos outros, nem inverter as minhas nas deles: isso é para literatos de outra polpa, amigos de disputas e questões que eu aborreço. A ação do poema é a composição e publicação d’ Os Lusíadas; os outros sucessos que ocorrem são de facto episódicos, mas fiz por os ligar com a principal ação. Tão sabida é a fábula ou enredo d’Os Lusíadas e a vida de seu autor, que nem tenho que fazer mais explicações a este respeito, nem será difícil ao leitor o distinguir, no meu opúsculo o histórico do imaginado: mas não separará decerto muita cousa, porque das mesmas ficções que introduzi, têm sua base verdadeira as mais delas. Sobre ortografia (que é força cada um fazer a sua entre nós, porque a não temos) direi só que segui sempre a etimologia em razão composta com a pronúncia; que acentos só os pus onde sem eles a palavra se confundiria com outra; e que hoje de boamente seguirei qualquer método mais acertado, apenas haja algum geral e racionável em Português: o que tão fácil e simples seria se a nossa academia e governo em tão importante coisa se empenhassem.
Paris, 22 de fevereiro 1825

João Baptista da Silva Leitão, de seu verdadeiro nome, nasceu na cidade do Porto, em fevereiro de 1799. Durante as invasões napoleónicas, refugia-se com a família nos Açores. É na ilha Terceira que inicia os seus estudos. Regressa ao continente, em 1816, para estudar Direito na Universidade de Coimbra. É nessa altura que decide adotar os apelidos com que se notabilizou: Almeida Garrett. Nos 55 anos que viveu, Garrett conseguiu com que se o seu nome ficasse gravado não apenas na história do romantismo português, movimento do qual foi o precursor, mas também na história da Literatura Portuguesa, como um dos seus autores maiores. De personalidade rica e complexa, Almeida Garrett foi poeta, dramaturgo, romancista, jurista, jornalista, diplomata, deputado e ministro dos Negócios Estrangeiros. Garrett foi também um grande impulsionador do teatro português, estando na génese do Teatro Nacional de D. Maria II e do Conservatório de Arte Dramática. O seu envolvimento nas Lutas Liberais levaram-no ao exílio, primeiro em Inglaterra, depois em França. Garrett regressaria a Portugal após a morte de D. João VI. E será D. Pedro V a agraciá-lo, poucos meses antes da sua morte, em 1854, com o título de Visconde de Almeida Garrett. Entre as suas principais obras destaque para Camões, Dona Branca, Frei Luís de Sousa, Viagens na Minha Terra e Folhas Caídas.

Esta edição de Camões integra a coleção «Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa», da Imprensa Nacional, conta com nota prévia de Carlos Reis e introdução e nota bibliográfica de Helena Carvalhão Buescu.

Boas leituras!

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