Daniel Maia-Pinto Rodrigues em entrevista — «Socialmente, a poesia está na moda»



Texto: Tânia Pinto Ribeiro
Imagens cedidas por Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Bisneto do professor e filósofo José Texeira Rêgo, Daniel Maia-Pinto Rodrigues cresceu rodeado de livros. Dos primeiros que se lembra de ler a eito vêm-lhe à memória O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier e, logo a seguir, O Homem Eterno, de G.K. Chesterton. Mas o clássico a que volta sempre é a Alfredo Guisado, o poeta d’Orpheu, «gosto muito da poesia que ele escreveu. Aprecio bastante o universo da sua imaginação».

À infância, que lhe correu na cidade do Porto, onde cresceu e ainda vive, recorda-a de uma forma «intensa e positiva» e também determinante para a sua arte da escrita. «Longe vinha em mim o início da escrita, todavia apercebi-me posteriormente de que eu já estava ali dentro de um poema ou de uma ficção.»

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, 59 anos, poeta, autor de 20 livros - entre eles um único romance, O Corredor Interior - é um dos mais recentes poetas que viu a sua poesia reunida (os poemas mais antigos são de 1977, os mais recentes a 2015) publicada na coleção «Plural» da Imprensa Nacional, sob o título Turquesa. A propósito deste título, explica-nos o poeta:«Em palavras rápidas e simples, Turquesa, representa aquilo que, sendo belo, não se alcançou. Por um mero desencontro ou percalço. Por extensão, representa também a Utopia, a Quimera, o Ideal.».

Para este «portuense do mar e não do rio», a poesia é o terreno onde tudo talvez ainda possa ser dito, mas mais importante do que isso, todavia, é que «ela seja bem escrita».Para Daniel Maia –Pinto Rodrigues a poesia está socialmente na moda. «Nas redes sociais, chovem convites para tudo e mais alguma coisa (dentro da área da poesia e da escrita, já se vê)» A sua obra poética tem merecido a atenção da crítica nomeadamente por arte de autores como Manuel António Pina, Rosa Maria Martelo ou Mário Cláudio. Daniel Maia-Pinto Rodrigues está representado em mais de 30 antologias, dados que não passam despercebidos. «Têm significado. E é claro que entre positivo ou negativo, o significado pende mais para o lado do que é positivo» refere.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues diz que não teve mestres no campo da escrita: «Penso até que, se os tivesse tido, há muito tempo que já me desinteressara da escrita». Refere que são a imaginação e «tudo quanto guarda na memória» a grande bateria de tudo quanto possa escrever. Diz também não se enquadrar num movimento ou num escola. Rui Laje, poeta que assinou o prefácio de Turquesa, explica que a condição de Daniel Maia-Pinto Rodrigues na poesia portuguesa é «uma condição excêntrica e extemporânea». Daniel Maia-Pinto Rodrigues concorda.

Do terreno fértil da poesia para o asfalto. Daniel Maia-Pinto Rodrigues é fã de automobilismo em todas as suas vertentes. Se tiver de eleger uma escolhe as corridas de velocidade, as pistas, os circuitos, o asfalto. «De 1968 até 2003, fui as todas as edições do Circuito de Vila do Conde, sempre com o meu pai. De 1977 em diante existiram duas edições por ano. Fui as mais variadas vezes ao Circuito do Estoril; assisti à primeira vitória do Ayrton Senna na F1. Chovia, foi em 1985, e o Senna foi fantástico! », recorda. Daniel Maia-Pinto Rodrigues teria mil histórias para contar a este respeito… «Desde a pulsação académica contra o regime de Salazar, bem presente lá, nas margens dos rios Corgo e Cabril, em dias de corridas em Vila Real,  aos hippies estirados ao sol, um bocadinho para além das margens, e um bocadinho também mais desvinculados das corridas».

Além da escrita, Daniel Maia-Pinto Rodrigues dedica-se também à intervenção cultural - Daniel não simpatiza muito com esta expressão - e está muito ligado ao Teatro do Campo Alegre. «A partir de 1985, a convite do então presidente, José Viale Moutinho, estive ligado à acção literária da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. A minha ligação ao Teatro do Campo Alegre é somente a de convidado. Sempre o foi.», salienta.

Se a sua vida desse um filme escolheria o australiano Peter Weir, para o realizar. «Picnic at Hanging Rock é o meu filme preferido». E se tivesse de escolher uma banda sonora para o acompanhar encomendava-a aos Camel (com Peter Bardens a acompanhar Andrew Latimer) e não descartaria os Pink Floyd, os Coldplay ou os Sigur Rós.

Entrevista a Daniel Maia-Pinto Rodrigues



PRELO (P) — O Daniel nasceu no Porto, em 1960, no ano em que António Ramos Rosa publica «Viagem através de uma Nebulosa», livro que deixa entrever novas tendências que viriam revolucionar o estilo de escrever de então. Um ano depois é publicada a mítica coletânea «Poesia 61», que incluía textos de Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz... Podemos dizer que os poetas desta geração são assim uma espécie de padrinhos e madrinhas espirituais para si?


Daniel Maia-Pinto Rodrigues (DM-PR) — Não. No primeiro lustro da década de 70, quando comecei a interessar-me pela poesia, já iam aparecendo outros nomes. Mas estes, assim como os outros, também não o foram.

P — Quem foram os seus mestres na sua formação de escritor?


DM-PR —  Eu não tenho mestres. Penso até que, se os tivesse tido, há muito tempo que já me desinteressara da escrita. Quando em criança tentava encontrar bosques através de enigmáticos lugos nos quintais, nenhum mestre me regia. A minha força é essa, encontra-se aí. No pequeno/grande encontro comigo próprio. A minha imaginação, e tudo quanto guardo na memória, na memória que é a minha, são a bateria deveras característica e pessoalíssima de tudo quanto possa escrever. Nada mais se me afigura com sentido
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P — O primeiro livro que publicou, Vento, saiu em 1983, em edição de autor. Como e quando descobriu o prazer da escrita?



DM-PR — Em 1977. E não foi uma questão de prazer; aconteceu de um dia para o outro sem eu estar a contar. Na verdade, foi numa certa manhã, quando acordei. Estava-me a lembrar do sonho que tivera; tê-lo-ei, estremunhado, achado bonito, e tirei uns apontamentos num caderno para não me esquecer dele. Como sabemos, os sonhos tendem a fugir de nós.

P — E as primeiras leituras? Lembra-se do primeiro livro que conseguiu ler a eito?

DM-PR — O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier, e a seguir O Homem Eterno, de G.K. Chesterton

P — Que autores começou por admirar?

DM-PR — Grande parte dos clássicos que constavam nas seletas literárias. Eu sou o bisneto mais velho do filósofo José Teixeira Rêgo; tive acesso a muitos livros.

P — Há algum «clássico» a que volte sempre? Se sim, qual? 

DM-PR — Eu não sei se o nome que vou mencionar é «clássico» ou não. Sei que é um poeta da geração de Orfeu. É o Alfredo Guisado. Não há muito a dizer que vá no sentido de justificação; gosto muito da poesia que ele escreveu. Aprecio bastante o universo da sua imaginação.

P — Num dos poemas de «A Casa da Meia Distância» lê-se: «Faz-me falta ser essa criança. Ser a única criança». De que sente falta da sua infância, Daniel?

DM-PR — Sinto a falta de toda a infância. Da infância toda. Sou um produto dela. De certa forma, poder-se-á dizer que aquela criança ainda me faz companhia. Diria mais, é a “pessoa” que ainda hoje me faz mais companhia.

P — Como recorda a sua infância?

DM-PR — É a tal coisa, recordo-a de forma intensa e positiva. Na verdade, tive uma infância muito boa, estruturada, quem me conhece sabe que assim é. Tendo nascido em 1960, fui criança nessa década. Todo o característico tecido temporal desses anos está em mim. É certo que não o vivi com 15 ou 18 ou 20 anos, mas tive primos mais velhos, amigos com irmãos mais velhos, e convivi com eles. Aos nove anos, dancei a suave Ruby Tuesday, dos Rolling Stones, com uma jovem de treze. Estávamos nós na época em que os foguetões subiam à Lua com alguma frequência. E a nossa diferença de altura foi ela própria uma experiência imersiva.


P — Que peso atribui à infância na sua obra?

DM-PR — Grande peso. Pude, efetivamente, usufruir de grandes e arborizados quintais. Senti neles uma calma imensa. Além de que, em outras ocasiões, foram palco, esses quintais contíguos, de amplas brincadeiras com amigos ou vizinhos. Essa pulsação juvenil tanto era diurna como noturna. Jogar às escondidas, à noite, nessa amplitude recheada de dédalos é, o que é que é?, é uma coisa que fica em nós. O «Bosque» que recorre na minha poesia tem que ver com estas coisas que estou a dizer. Eu imaginava que em determinados pontos recônditos dos já por si amplos quintais, existiam estranhas passagens para bosques. Levantava-me de noite para ir lá sozinho. Ia cheio de medo e de fascínio. Longe vinha em mim o início da escrita, todavia apercebi-me posteriormente de que eu já estava ali dentro de um poema ou de uma ficção.

P — Como foi crescer na cidade do Porto?

DM-PR — Foi muito bom, normal. Em certa medida, já abordei a proposição. Quanto mais não seja porque, aqui (pergunta), «crescer» tem que ver com a infância e a adolescência. Foi muito bom. No Porto, o rio termina, mas a cidade continua, o que lhe confere uma variedade de vistas assinalável. Eu sou um portuense do mar e não do rio. Embora sem o ter à vista, na zona do Pinheiro Manso, na Avenida da Boavista, a minha essência cita naqueles quilómetros onde o bravo oceano banha a cidade. Quando saía de casa, em pleno Porto, e nas milhares e milhares de pessoas com quem falei, nenhuma (ou quase nenhuma) tinha a pronúncia a que alguns têm como característica do Porto. Veja-se, por exemplo, Filipa Leal, uma portuense de gema, e que voz bonita ela tem. Ou a voz, perfeitamente «normal», de Rodrigo Guedes de Carvalho. Então qual é a explicação?, a explicação está no facto de se pôr o «microfone» à frente de quem está desejoso por pôr a boca no trombone. E escolhem-se a dedo essas pessoas; o mais pitoresco é sempre o escolhido como «representante» da cidade. E ele próprio está ávido de dizer que o é. Isto enquanto os mais «serenos» não lhe estão a ligar meia. Nem ao seu «representante» nem à reportagem. Em suma, os portuenses que não têm a tão propalada pronúncia não são tidos pelo Sul do país como sendo do Porto. É algo deveras estranho e curioso. Sendo que os portuenses têm culpa nisso, uma vez que parecem alhear-se demasiado do facto. E é então por isso que eu estou aqui a tocar na tecla. Essa pronúncia em questão existe em grande maioria noutros locais do Norte do país, entre os quais estão algumas zonas da periferia.


Daniel em julho de 2000, aos 40 anos
P — No poema «A Rosa dos Tempos» o sujeito poético afirma: «Exatamente no mesmo quarto de antes —, a oeste já não oiço a ronca marítima a este já não oiço o comboio a sul já não oiço os elétricos a norte já não oiço os festejos da Senhora da Hora.» Que diferenças vê no Porto da sua infância do Porto atual?

DM-PR — No Porto, como em qualquer outra cidade, da década de 60 do século passado até aos hodiernos dias, existiram inúmeras alterações. Poder-se-ão aquilatar ou visualizar essas mudanças, e creio eu, em grosso modo, pelas mudanças que existiram em Coimbra ou em Lisboa ou em Braga ou em Setúbal. À imagem de outras zonas da cidade do Porto, a zona do Pinheiros Manso (ou mais concretamente, a zona do Foco), viu crescer enormes prédios, grandes extensões de complexos urbanísticos. Também estes, tal como o mar e toda a sua ampla área costeira, nunca aparecem no «postal ilustrado» da cidade. É uma pena e é estranho. Parece existir uma intenção de mostrar que não houve progresso no Porto. E mais uma vez, o portuense tem culpa nesse cartório; aprecia muito meter-se debaixo da Ponte (de D. Luís), dizer umas calinadas, contar umas anedotas soezes, e fazer-se aparecer lá nas fotografias. Cabe ao portuense lutar por alterar essa imagem, em vez de ficar contente por lhe acharem piada às anedotas. Será que estão a achar piadas às anedotas ou a rirem-se da triste figurinha que faz? Exclamo com grande veemência: esses pseudo-portuenses não representam a cidade! O portuense, para ser portuense, não precisa de estar a falar mal de Lisboa, assim como certamente o lisboeta para ser lisboeta não precisa de estar a falar mal do Porto.

P — Turquesa, o livro que acabou de publicar na Imprensa Nacional, começa com um agradecimento especial: «a Gisela a Manuel Pires a Manuel Ribeiro respetivamente a irmã, o cunhado e um amigo da adolescência do autor (...) a João Luís Barreto Guimarães». Qual a importância da família e dos amigos no métier do poeta?

DM-PR — Ao longo de tantos e tantos anos, a família e os amigos foram sempre polos de grande importância na minha vida. E, portanto, intrinsecamente na ordem de ideias para conseguir escrever. A minha mãe e o meu pai foram meus grandes admiradores. Assim como o meu filho também o é. E, claro, as pessoas que tão bem mencionou. Além de tantas outras que também o foram ou também o são. E se falarmos de ajuda, a ajuda é concreta; eu nunca lidei com uma máquina de escrever ou com um computador. Todos eles me preservaram. Preservaram a minha forma de ser e a minha queda para o isolamento.

P — Podemos ler logo na contracapa de Turquesa que este é «o 20.º livro do autor». Na escrita de um livro há inspiração, há transpiração em que relação de poder?

DM-PR — Pois…. Deixe-me aqui ver na cartilha qual é a resposta mais acertada para essa pergunta. Não está aqui! Alguém me rasgou a folha onde essa matéria vinha explicada. Mesmo assim vou tentar responder: comecei a preparar o livro Turquesa em 2017; volvidos 26 meses, ainda estava dentro da preparação. Cada uma das palavras do livro, todas as possibilidades (que são inúmeras), cada sinónimo, cada nuance de junção de palavras, cada verso, cada pontuação – tudo isso e mais, foi algo de profunda e longa reflexão.

P — Também é diseur de poesia...

DM-PR — Eu não sou diseur. Ao longo da vida, fui convidado muitas vezes para participar em eventos literários. E, então, em algumas dessas ocasiões, disse os meus poemas. Não os dos outros.
Quase todas as segundas-feiras da década de 90, fui às Noites de Poesia do Pinguim. Mas num puro registo de divertimento e lazer. Era, aliás, esse o espírito dessas noites. Com muita poesia à mistura, é claro.
Em Ponte de Lima, em 2010

P — Acha que poesia nasce para ser dita?

DM-PR — Não, não acho que a poesia nasça para ser dita. Composta por palavras que é, presta-se a sê-lo, apenas isso.

P — Atualmente, que tipo de público aprecia ouvir poesia?

DM-PR — Pelo menos no Porto, um evento com poesia, só com poesia, tem frequentemente a lotação de centenas de pessoas. Mais de mil, por vezes. Pelo que me é dado ver, e de há bastante tempo para cá, o interesse não pára de aumentar. E, não alheio a isso, o tipo de público cada vez é mais vasto e variado. Fazer notar que o acesso à maioria desses eventos é por compra de bilhete.

P — Turquesa compila a sua poesia desde 1983 até 2015. Fez algumas alterações nos poemas? Isto é, reescreveu alguns?

DM-PR — Desde 1983, em livro. Os poemas mais antigos datam de 1977. Sim, fiz alterações em diversos poemas. Como referi anteriormente, todos eles estiveram sob a alçada da minha revisão, ou seja, da minha óptica actual. É certo que clássicos como «Dióspiro» ou «A história do pastor», entre outros, eu não os iria modificar. E não modifiquei. No próprio livro, exista a indicação de que o longo poema de 27 páginas, «A Casa da Meia Distância», publicado em 2010, teve uma nova demão (com cortes, modificações e acréscimos) em 2017. Dir-se-á que quem entra de novo nessa «Casa», encontrará sempre coisas diferentes. O livro mais recente representado em Turquesa é de 2015. Portanto, esta versão de 2017 do poema referido, é o labor mais recente neste presente volume.
Como é natural, quando vão para um livro, os poemas estão dados como rematados. Todavia, posteriormente, podem ocorrer ideias que, raciocinadas, se nos afiguram como pertencendo a poemas passados e não a poemas a fazer.

P —  Os poemas que aqui congrega já estão, então, na sua «forma definitiva»? Ou um verso nunca está acabado? 

DM-PR — É como vimos. Vou fazer 60 anos este ano. Pretendo eu próprio ver a versão definitiva dos meus poemas. E acho que este é um bom livro para a poder encontrar. Há, efetivamente, o caso especial do poema «A Casa da Meia Distância». Seja como for, não há em mim a vontade de o tornar a publicar.

P — Para si, os versos mais recentes são sempre os melhores?

DM-PR — Ainda a propósito das questões anteriores, uma nova versão (mesma que seja uma pequena alteração) de um poema que não é novo – sim, tenho-a naturalmente como melhor. Por isso, fiz a alteração. No que possa dizer respeito a achar que os poemas recentes (ou até futuros) são melhores do que os já feitos, não. Não acho, mesmo. Sou até severo com os poemas recentes; digamos que eles têm de ter respeito pelos mais velhos.

P — Qual o significado da cor  turquesa para título deste livro onde reúne a sua poesia?

DM-PR — Além de estar presente no título, esta palavra aparece (uma vez) ao longo do livro. Podemo-la encontrar no poema «Singular Tempo Plural». «(…) Mas naqueles poucos quilómetros / que faltavam para o sítio turquesa / Onde o mar é lindo / o carro ficou sem bateria (…)». Em palavras rápidas e simples, Turquesa, representa aquilo que, sendo belo, não se alcançou. Por um mero desencontro ou percalço. Por extensão, representa também a Utopia, a Quimera, o Ideal.
Diferente deste, existe um outro episódio em que a palavra «turquesa» aparece na minha vida: em meados dos anos 90, tinha o meu filho 8-9 anos (durante anos a fio jogámos juntos imensos jogos de consola), joguei com ele um marcante jogo onde havia um item com uma forma parecida com um «U». Chamei-lhe Turquesa, de forma espontânea. Era um item raro, importante; constava que só existia em locais distantes. E o meu filho, galvanizado pelo jogo, dizia-me: «Papá, um dia ainda hei-de encontrar a turquesa».

P — A seu ver, para onde caminha a poesia contemporânea portuguesa? Um movimento? Uma escola?

DM-PR — Desconheço o movimento que toma e se essa movimentação a leva a uma escola. Caso vá ter a uma escola, terá de ser uma escola enorme, porquanto cada vez há mais pessoas a descobrir o interesse na escrita. No meu tempo, «a escrita» não fazia parte do que era «interessante» fazer-se na vida. Mas atualmente, uma vez a vida estabilizada, não deixa de ser giro uma experiência na escrita. Para o mês que vem experimenta-se outra coisa. O que interessa são experiências novas… A vida enriquece-se imenso com isso…

P — Consegue definir a sua própria poesia? Se sim, como a define?

DM-PR — Prefiro que outros o façam. Rui Lage, no prefácio ao Turquesa, fê-lo com mestria. Diria apenas que tenho vários tipos de escrita, que podem ir desde o satírico ao fantástico, passando pelo bucólico, pelo urbano, pelo quotidiano, pelo psicadélico. Diversos textos são tocados pela luz do quietismo e do impressionismo; o bucólico e o fantástico estão bastante à vontade neles. Foram diversos aqueles que me disseram que eu deveria ou poderia criar heterónimos. A ideia não deixava de fazer sentido. Mas pela razão que facilmente se compreende, achei que isso seria pretensioso. E então, por mais diferenciados que sejam entre si, assino todos os poemas com o mesmo nome, aquele que é o meu nome. Acho, aliás, que assim é a fórmula mais indicada. Nenhum estilo é menos eu que os outros.



P — A poesia ainda é o lugar onde tudo pode ser dito?

DM-PR — Talvez tudo possa ser dito. Mais importante, todavia, é que ela seja bem escrita. Por muito bem escritos que estes sejam, a poesia não é um diário, um discurso, um manifesto, uma notícia de jornal, uma redação, uma descrição de uma viagem. Além de que também não é um lenço para se chorar. Nem um bilhetinho onde flor rima com amor.

P — Acha que a poesia perdeu espaço e impacto social?

DM-PR — Não. Muito antes pelo contrário. Há uns anos, até os pequenos espaços estavam quase às moscas quando a poesia era o prato. Hoje, o prato/poesia enche o Teatro do Campo Alegre, enche o Rivoli, enche o Teatro Nacional S. João. No Porto, a viragem deu-se no início dos anos 90, quando o lisboeta Joaquim Castro Caldas aterrou no Pinguim. Voos altos, e adequados aos novos tempos, dispararam quando no início deste século João Gesta toma o pulso às Quintas de Leitura.
Socialmente, a poesia está na moda. Nas redes sociais, chovem convites para tudo e mais alguma coisa (dentro da área da poesia e da escrita, já se vê). Hoje em dia, todos querem ter o seu livrinho. Existem até grandes universos de «literaturas paralelas», «compêndios alternativos», totalmente alheios (ou pelo menos assim fazem parecer) de que estão completamente à margem.

P — A seu ver o que podem e devem fazer os editores para que a poesia seja mais «vendável»?

DM-PR — Não sei. Fico com a sensação de que já se tem feito bastante. Não sendo o caso da Imprensa Nacional, a aposta das editoras nem sempre recai em literatura de qualidade. Mas essa é uma outra questão. E espero que não vejam nessa «literatura» «aquilo que têm a fazer».
E depois ainda há uma outra coisa (diferente das anteriores): existem pequenos núcleos editoriais que subjugam aqueles que estão debaixo da sua alçada. Há, por exemplo, pessoas que se vêem privadas de dar a sua opinião por terem medo do cabecilha. Além de isto ser triste e lamentável, mormente para quem faz de si próprio alguém com livre arbítrio e bafejado pela emancipação, não levará a nada de muito profícuo, pois de tal forma escancaradas as coisas estão, que a situação pela qual se deixaram reger só lhes enegrece os nomes. Pouco inteligente é aquele que, entretido com a sua inteligência, não conta com a inteligência dos outros. Felizmente, alguns que chegaram a estar toldados e bloqueados por essa sombra, dão sinais fortes de se terem conseguido libertar. Vêem agora, estou certo disso, a sua capacidade de análise e de fruição muito mais ampla, limpa e rigorosa.
Há, porém, outros, mais enterrados ou atados ao jogo/jugo, que dificilmente se libertarão. Exceto se lhes aparecer um príncipe ou uma princesa, que nem encantados precisam de ser, basta apenas apresentarem-se lavados.

P — Em 1993 a sua obra A Próxima Cor recebeu o 1º Prémio Nacional Foz-Côa-Cultural e Menção Honrosa / Novos Valores da Cultura. O volume «Dióspiro» foi considerado pela Radio da Universidade do Minho o melhor livro de poesia publicado em Portugal em 2007. A sua obra poética tem merecido a atenção da crítica nomeadamente por arte de autores como Manuel António Pina, Rosa Maria Martelo ou Mário Cláudio. Está representado em mais de 30 antologias. Marcelo Rebelo de Sousa inclui um poema em Livros da Minha Vida. Qual a importância dos prémios e do reconhecimento na carreira de um escritor? E muito concretamente na sua?



DM-PR — São dados que não passam despercebidos. Têm significado. E é claro que entre positivo ou negativo, o significado pende mais para o lado do que é positivo.

P— O poeta vive mais de perguntas ou de respostas? E o Daniel?

DM-PR — Não sei. Respostas tenho poucas. E não costumo fazer muitas perguntas. Mas tenho algumas interrogações. Tenho, todavia, mais convicções; sobretudo convicções que não anulem as interrogações. Quando se passeia com alguém, há perguntas muito interessantes. Que árvore bonita! Sabes que árvore é esta? Esta é uma pergunta interessante. E às vezes eu sei responder, quando passeio com alguém. Neste caso, e por via de regra, a resposta também se pode tornar interessante.
A naturalidade, e a ausência de nocivos risos, confere aos diálogos – às suas perguntas e respostas – um prazer inesperado. A própria afirmação ou admiração «Que árvore bonita!», tornou-se rara por ser simples. É, nos tempos que correm, uma admiração muito especial. Sabe-nos bem ouvi-la, quando passeamos com alguém. Foge-se à banalidade encontrando-se a normalidade.

P — Em «Dióspiro» tem um verso que diz: «(...) escrevo para que de mim recebam um eco (...)». Que eco é este?

DM-PR — O contexto desse poema tem que ver com as pessoas que, estando vivas, ficaram pelo caminho. Refere-se o texto àqueles que não vejo à muito tempo, mas que de alguma forma ainda andam por aí. Nesse sentido – o que está encerrado e referido nesse poema – chega a esses através da minha poesia. Na verdade, não escrevo para lhes fazer chegar eco nenhum, mas eles recebem-no.

P — Assinou um único romance: O Corredor Interior. Alguns escritores, no domínio da prosa, põem tudo numa única história. E não voltam a publicar outra. O Daniel quer publicar mais romances ou prefere manter-se no terreno fértil da poesia?

DM-PR — Eis uma coisa para a qual não tenho resposta. E também não tenho a certeza de que o terreno da poesia seja mais fértil do que o da prosa.

P — Acha que Portugal trata bem os seus poetas? Consegue-se viver no nosso país só da escrita?

DM-PR — Haverá os maltratados e haverá os bem tratados. Na minha opinião, acho que hoje em dia estão a ser «melhor tratados» do que antigamente. É mais fácil e prudente dizer o contrário, sei. Mas a minha opinião é aquela que disse. Quanto à segunda parte da questão: não estou bem a par do tópico mencionado. Mas creio que sim; há escritores que não auferem tão-somente o montante da venda dos seus livros.

P — Além da escrita dedica-se também à intervenção cultural e está muito ligado ao Teatro do Campo Alegre. A seu ver que estratégias devem ser postas em prática para que o setor da cultura possa sobreviver com dignidade a esta crise provocada pela pandemia do Covid- 19?

DM-PR — Sim, desde 1982 que faço intervenção cultural (ainda que não simpatize com a expressão). A partir de 1985, a convite do então presidente, José Viale Moutinho, estive ligado à acção literária da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. A minha ligação ao Teatro do Campo Alegre é somente a de convidado. Sempre o foi. Estratégias… Não sou o tipo de pessoa que debite opiniões nesse sentido. Já há muitas opiniões; umas acertadas, outras nem tanto.
Disfarçados de opiniões, respaldados por serem «opiniões», há muitos coros e cantochões.
Sabe, tendo a acreditar nas pessoas, e ao fim e ao cabo isso talvez não esteja completamente errado.


P — «Daniel Augusto Maia-Pinto Rodrigues, quarenta e poucos anos, um fã de automobilismo» a descrição é sua. Prefere as corridas no asfalto ou na terra batida?

DM-PR — Quarenta e poucos anos no início deste Século… Uma outra boa pergunta, e esta surpreendente! De uma forma geral, gosto de automobilismo em todas as suas vertentes. Mas a minha preferência vai para as corridas de velocidade, em pista, em circuitos, no asfalto, portanto. Este gosto adquiri-o cedo, com o meu querido pai. Para mim, tudo começou em meados dos anos 60, vendo os Ferrari P4, os Ford GT40, os Lola T70, soberbos, evoluírem no Circuito de Vila Real.
De 1968 até 2003 (o último ano em que lá houve corridas), fui as todas as edições do Circuito de Vila do Conde, sempre com o meu pai. De 1977 em diante existiram duas edições por ano. Fui as mais variadas vezes ao Circuito do Estoril; assisti à primeira vitória do Ayrton Senna na F1. Chovia, foi em 1985, e o Senna foi fantástico! Tinha mil histórias para lhe poder contar… Desde a pulsação académica contra o regime de Salazar, bem presente lá, nas margens dos rios Corgo e Cabril, em dias de corridas em Vila Real. Aos hippies estirados ao sol, um bocadinho para além das margens, e um bocadinho também mais desvinculados das corridas. Porém, deixo-lhe apenas este versinho:

Vi Corvettes pintados de plumcrazy,
Na lazy light da longas rectas.
Metas?! nada disso
… lazy light das longas rectas.

Uma palavra final nesta abordagem à interessante pergunta que me foi colocada (até para que os mais jovens possam ter a possibilidade de ver melhor a «fotografia»): aqueles certames em Vila Real eram internacionais, o que fazia com que a polícia de então afrouxasse um pouco a pressão e a repressão. Ficava atarantada. Aqueles fins de semana eram pronúncios vivos dos ventos de mudança. Eram ocasiões excecionais. Um mar de gente vinda do estrangeiro trazia as roupas e as cores e os cabelos da liberdade. Mormente os franceses, traziam do seu país as novas vagas e os seus entendimentos.

P — Em julho de 2009 disse à Página Literária do Porto:


De mim, eu direi o seguinte: divorciado. Casei em 1984. Em 1986 nasceu o Daniel Henrique, o meu único filho. As zonas mais sossegadas do paranormal – ou seja, as menos “espampanantes” e menos “parolas” – e, também, o automobilismo e a música acompanham-me há longo tempo, como motivos onde descubro interesse. Também aprecio o futebol, o atletismo, os documentários televisivos, o culto da memória, os jogos RPG para consola, o colecionismo (sobretudo os que se debruçam sobre a Natureza), a preservação dos objetos. Quando votei, votei sempre na esquerda.

11 anos passados o que acrescentaria ou alteraria a esta descrição de si?

DM-PR - O que foi encontrar! Posso acrescentar que a minha neta nasceu em 2019.
Atenuo alguns dos pontos de interesse que então referi. E com a perda do meu pai, em 2014, não mais fui ver uma prova de automobilismo. Acho que não tornarei a ir.

P — Se o Daniel tivesse de escolher hoje o poeta e o poema da sua vida, quais seriam?

DM-PR - Mantenho o Alfredo Guisado. Não será certamente o melhor poeta. Não é de certeza a escolha mais «intelectualmente indicadazinha», mas é aquele com quem eu mais me identifico.
Gosto de igual forma, ou quase igual, de diversos poemas dele. Desta vez vou mencionar «O Baloiço».

P — Se a sua vida desse um filme, que realizador escolheria para o realizar (entre os vivos e os mortos)?

DM-PR — Escolheria Stanley Kubrik. As luminosidades de Stanley Kubrik. Contudo, escolher escolher escolher, escolheria o australiano Peter Weir, o realizador do magnífico filme Picnic at Hanging Rock, o meu filme preferido. E que sugiro vivamente.

P — E se a sua vida desse uma música que compositor/cantor/banda escolheria para a interpretar?

DM-PR — Camel. Nos seus primeiros tempos; com Peter Bardens a acompanhar Andrew Latimer na composição das músicas. Os álbuns Mirage, de 1974, The Snow Goose, de 1975, e Moon Madness, de 1976, são lindíssimos. São lindíssimos. Não descartaria os Pink Floyd. Se a escolha tivesse de ser dentro de um círculo mais recente, ficava satisfeito com os Coldplay ou com os Sigur Rós.

P - Obrigada por esta entrevista, Daniel.

DM-PR - Foi esta a última pergunta? Agradeço muito a atenção.

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