Imprensa Nacional com muitas novidades editoriais em 2019


A coleção «Itálica» é uma das novidades da Imprensa Nacional para 2019 e afigura-se como um dos projetos editoriais mais desafiantes da editora pública, feita com o apoio do Instituto Italiano de Cultura de Lisboa. Dedicada a grandes escritores italianos, e com António Mega Ferreira como diretor literário, a coleção inaugura com chave de ouro: as Rimas de Michelangelo Buonarroti e também as de Guido Cavalcanti, cujas traduções ficaram a cargo de João Ferrão e A. Filipa Santos (prémio e menção honrosa do Prémio INCM/Vasco Graça Moura — Tradução, respetivamente), seguindo-se a poesia completa de Giuseppe Ungaretti, Vita d’un Uomo, Tutte Poesie, que vai conhecer a sua tradução para o português pela mão de Vasco Gato.

E já a pensar nas comemorações de 2021, ano em que se assinala o 7.º centenário do desaparecimento daquele que é considerado o maior poeta da língua italiana, il sommo poeta, a coleção «Itálica» recebe também um volume que reúne Vita Nuova e Rime do florentino Dante Alighieri, cujas traduções estão a cargo de Jorge Vaz de Carvalho e António Mega Ferreira.

Mas as novidades não se ficam por aqui.

Outra das linhas significativas da atividade editorial da Imprensa Nacional em 2019 serão as obras completas (ou selecionadas) de alguns autores portugueses cuja obra é difícil encontrar ou está mesmo indisponível no mercado. São os casos de autores como Manuel Teixeira Gomes, Maria Ondina Braga ou Francisco Teixeira de Queirós, que terão a sua obra publicada na íntegra sob a orientação de especialistas e investigadores, a começar logo no primeiro semestre.

Sob coordenação de Nuno Júdice e José Alberto Quaresma, a coleção «Obra Completa de Manuel Teixeira Gomes» vai inaugurar com a reedição de Inventário de Junho. Cartas sem Moral Nenhuma. Agosto Azul, textos que compõem o primeiro volume da coleção, ao qual se acrescenta a peça de teatro que Manuel Teixeira Gomes escreveu em 1905: Sabina Freire.

Já a obra completa de Maria Ondina Braga será coordenada por Isabel Cristina Mateus e Cândido Oliveira Martins. No segundo semestre de 2019 sairá do prelo o primeiro volume: Autobiografias Ficcionais: Estátua de Sal; Passagem do Cabo; Vidas Vencidas. Recorde-se que Maria Ondina Braga, falecida em 2003, afirmou-se como ficcionista sendo hoje considerada um dos grandes nomes da narrativa portuguesa contemporânea.

Manuel Curado, Ana Lúcia Curado e Patrícia Gomes Leal coordenam a «Obra Completa de Francisco Teixeira de Queirós», médico, colaborador em vários jornais, deputado, vereador republicano e Ministro dos Negócios Estrangeiros. Teixeira de Queirós (1848-1919) foi ainda presidente da Academia das Ciências de Lisboa e mestre do conto e do romance. Na História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva e Óscar Lopes comparam o seu talento ao de Eça de Queirós. Teixeira de Queirós deixou uma vasta e valiosíssima obra que assinou inicialmente como Bento Moreno. A Imprensa Nacional vai agora disponibilizá-la, a começar pela série Comédia do Campo, cujo primeiro volume, Os Meus Primeiros Contos, foi publicado pela primeira vez em 1876.


Também as obras completas de Mário Soares, coordenadas por José Manuel dos Santos, cuja organização ocupa já desde o ano passado uma equipa de investigadores e um conselho cientifico, começarão a sair este ano. Inaugura a coleção As Ideias Políticas e Sociais de Teófilo Braga, trabalho que tem por base a dissertação de licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas que Mário Soares apresentou na Faculdade de Letras de Lisboa, e que contará agora com anotações inéditas de António Sérgio. A este título seguir-se-á o primeiro volume de Correspondência Cultural.


Novidade é também a coleção de ensaios sobre a religião coordenada pelo Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. A coleção «Estudos de Religião» pretende ser um espaço de reflexão sobre a religião na atualidade. A Teologia Ficcional de José Saramago: Aproximações entre o Romance e a Reflexão Teológica, de Marcio Cappelli, A Religião no Espaço Público Português, de Helena Vilaça e Maria João Oliveira, e Livro, Texto e Autoridade. Diversificação Religiosa com a Sociedade Bíblica em Portugal (1804-1940), de Rita Mendonça Leite são as propostas para este ano.

Retomando as datas redondas, em 2019, a Imprensa Nacional continua a celebrar os seus 250 anos, cumpridos a 24 de dezembro de 2018, e são muitas as iniciativas. A começar pelas editoriais. Imprensa Nacional. 250 anos, de autoria de Inês Queiroz, Inês José e Diogo Ferreira, conta-nos a história da Imprensa desde a sua criação até à sua atividade presente. Trata-se de um estudo inédito que atravessa dois séculos e meio de atividade editorial contínua passando pela produção artística combinada com a atividade industrial, englobando ainda a história das artes gráficas, da formação profissional e dos seus protagonistas. Este é o primeiro de vários títulos no âmbito dos 250 anos da editora pública.

Neste âmbito, inaugura-se ainda a coleção dirigida por Ana Paula Avelar: «Dos Itinerários Portugueses», com a reedição da Relação ou Noticia Particular da Infeliz Viagem da Náo de sua Magestade Fidelissima, Nossa Senhora da Ajuda, e S. Pedro de Alcantara, do Rio de Janeiro para a Cidade de Lisboa neste presente anno ..., de Elias Alexandre e Silva, cuja primeira impressão ocorreu em 1778. Esta nova coleção visa a publicação de obras editadas no passado pela Imprensa Nacional (a Impressão Régia ou Régia Oficina Tipográfica), nalguns casos sob os auspícios da Sociedade de Geografia de Lisboa. Trata-se de reedições, ou antes, de novas edições, afinal, as obras a sair do prelo serão quase sempre acrescidas de novos conteúdos. Como é o caso do segundo volume a dar à estampa este ano: Viagem de Capelo e Ivens pela África (1884-1885) ou De Angola à Contracosta, de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, que contará com os desenhos dos dois cadernos de viagem de Ivens, que serviram de base às gravuras incluídas na primeira edição (1886).

Juntamente com a Casa da Achada a editora pública traz-nos também este ano uma obra monumental de Mário Dionísio: A Paleta e o Mundo, trabalho que pertence ao património nacional e europeu, como referiu Daniel-Henri Pageaux, que a prefaciou numa das edições anteriores. De salientar que A Paleta e o Mundo conheceu duas edições. A primeira em dois volumes com arranjo gráfico de Maria Keil, entre 1956 e 1962, e a segunda em capa mole foi publicada em cinco volumes entre 1973 e 1974. Ambas pela Europa-América e há muito esgotadas. A terceira edição desta obra, à semelhança da primeira, será uma edição ilustrada.

Este ano a «Biblioteca José-Augusto França», dedicada a um dos mais notáveis intelectuais portugueses contemporâneos, continua a crescer: Amadeo de Souza Cardoso, o «Português à Força». Almada Negreiros, o «Português sem Mestre» e Lisboa Pombalina e o Iluminismo.

Já a «Biblioteca Eduardo Prado Coelho» recebe Crónicas — Política Cultural, uma reunião de textos publicados na sua maioria no jornal Público, entre 1990 e 2006. A edição fica a cargo de Margarida Lages.

Também as crónicas que Nuno Brederode dos Santos foi escrevendo, ao longo de 17 anos, para o semanário Expresso serão reunidas este ano em livro pela Imprensa Nacional em parceria com a editora Cotovia. Recorde-se que Nuno Brederode dos Santos, desaparecido em 2017, recebeu precisamente pelas suas crónicas do Expresso o Prémio Gazeta Crónica do Clube de Jornalistas, em 1990. A organização deste volume será da responsabilidade de Maria do Céu Guerra e Maria Emília Brederode dos Santos.

A recentíssima coleção «Obra Completa de Vitorino Nemésio», fruto da parceria entre a Imprensa Nacional e a açoriana Companhia das Ilhas, continua também a somar títulos: Sob os Signos de Agora. Conhecimento de Poesia. Elogio Histórico de Júlio Dantas e Ondas Médias. O Segredo de Ouro Preto estão previstas para o primeiro semestre. Para o segundo semestre espera-se Poesia (1950-1959) e Varanda de Pilatos. A Casa Fechada.

Outra das apostas fortes da Imprensa Nacional nos últimos anos tem sido a poesia. 2019 não será exceção. Francisco José Viegas, Daniel Maia Pinto-Rodrigues e o brasileiro Paulo Leminksi verão a sua poesia reunida na coleção «Plural», que conta com a direção literária do também poeta e editor Jorge Reis-Sá. Uma Antologia Poética de Vitorino Nemésio, organizada por Pedro Mexia, entrará também para esta coleção, inaugurada na década de 1980 por Vasco Graça Moura, retomada e renovada em 2015. A «Plural» receberá ainda Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio, de José Luís Tavares, vencedor do Prémio INCM/VGM 2018. 

Também a Poesia de Sá de Miranda conhecerá uma nova edição em 2019, coordenada por José Camões e editada em parceria com a Universidade de Coimbra.

A literatura portuguesa mantém-se em destaque na edição da Imprensa Nacional: Vinte Horas de Liteira, de Camilo Castelo Branco, vem reforçar a «Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa», coleção que olha para a literatura portuguesa como um corpus muito alargado e que pretende juntar obras fundamentais para estabelecer o cânone da literatura portuguesa.

Viana da Mota, de Bruno Caseirão, Fernando Namora, de José Manuel Mendes, Mário Cláudio, de Martinho Soares, e Jorge de Sena, de José Fazenda Lourenço, serão alguns dos títulos do ano da icónica coleção «O Essencial Sobre», tratando-se do último de uma 2.ª edição revista e aumentada.

E ainda no que diz respeito às biografias, o investigador bocageano Daniel Pires, que é também coordenador das «Obras Completas de Bocage» da Imprensa Nacional, vai trazer-nos Manuel Maria Barbosa du Bocage – Uma Biografia, a história do poeta sadino que foi uma das mais complexas e notáveis figuras do Iluminismo em Portugal.
Dos palcos chegarão ainda dois livros especiais sobre duas salas basilares para a cultura portuguesa: 125 anos do Teatro São Luiz, uma parceria da Imprensa Nacional com a Câmara Municipal de Lisboa – EGEAC e A Casa de Garrett. Património e Arquitetura do Teatro Nacional D. Maria II , uma parceria com o TNDMII.

Já a edição do Teatro Completo de Natália Correia, em dois volumes, prevê-se marcante e entrará, este ano, na coleção «Biblioteca de Autores Portugueses», esta que será uma edição feita em parceira com a editora independente Ponto de Fuga.

A «Edição Crítica de Almeida Garrett», coordenada, após o recente desaparecimento da Professora Ofélia Paiva Monteiro, por Helena Santana, acolhe dois títulos este ano: o primeiro será Filipa de Vilhena e A Sobrinha do Marquês e o segundo será Frei Luís de Sousa. Já a «Edição Crítica de Eça de Queirós», coordenada por Carlos Reis, recebe em 2019 Philidor e também Textos de Imprensa II (Do Distrito de Évora). O romance Coração, Cabeça e Estômago junta-se este ano à «Edição Crítica de Camilo Castelo Branco», sob coordenação de Ivo de Castro, assim como Eusébio Macário e A Corja A «Edição Crítica da Obra de Fernando Pessoa» prossegue, já no primeiro semestre, com a publicação da primeira edição crítica de Mensagem e Poemas Publicados em Vida, da responsabilidade de Luiz Fagundes Duarte.

Fernando Pessoa marcará ainda presença na série de ensaios «Pessoana», que este ano recebe os títulos: Os Anos de Vida de Ricardo Reis (1887-1936), de Nuno Amado, O Espólio de Pessoa, de Simone Celani, e Doença Bibliográfica, de João Dionísio.

O ensaio continua a fazer-se na coleção «Olhares». Uma Conversa Silenciosa, de Eugénio Lisboa, e Ficções da Memória, que reúne os dois livros de memórias inéditos em Portugal, Espelho do Príncipe e Invenção do Desenho, do brasileiro Alberto da Costa e Silva, distinguido com o Prémio Camões em 2014, são os títulos esperados já para o primeiro trimestre do ano. Seguir-se-ão O Outro Lado do Desenho, de Fernando Guimarães, A Poesia de Jorge de Sena. Testemunho, Metamorfose, Peregrinação (3.ª ed.), de Jorge Fazenda Lourenço, e Deixa-as Pousar, da autoria de António Mega Ferreira — uma coletânea de estudos e conferências sobre cidades, literatura e música, onde se fixam, pela primeira vez em livro, textos escritos para intervenções circunstanciais —, são os títulos que se seguem. E no ano em que se celebram os 500 anos do início da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, são esperadas para o segundo semestre de 2019 A Viagem de Magalhães (1519-1522). O Relato de Antonio Pigafetta sobre a Primeira Volta ao Mundo, edição de Xavier de Castro, e A Expansão Portuguesa, de Luís Filipe F. R. Thomaz.


Sem nunca descurar a sua vocação, e obedecendo aos princípios da sua missão de serviço público, a Imprensa Nacional continua a publicar obras de particular relevância cultural, nomeadamente no campo da Filosofia. Assim, as «Obras Completas de Aristóteles» continuarão a sair do prelo em 2019, nomeadamente com Geração dos Animais, Ética a Eudemo e a reedição de Retórica.


Também o livro infantojuvenil é contemplado na coleção «Grandes Vidas Portuguesas», feita em parceria com a editora Pato Lógico Edições, e com a maioria dos seus títulos já publicados no Plano Nacional de Leitura. Prevê-se que este ano se venham juntar as biografias de Carmen Miranda, Sophia de Mello Breyner Andresen, 


Sidónio Pais e Mário Soares. Já a coleção do Museu Casa da Moeda, também dedicada aos mais novos, vai trazer-nos o Lobo e Circum-Navegação. Ainda para os mais novos sairão os livros Tipos Curiosos – Pequenas Histórias das Letras, de Ricardo Henriques e Madalena Matoso e O Que Vem a Ser Isto (um livro sobre o livro), de Rita Cana Mendes e André Letria, ambos inseridos nas comemorações dos 250 anos da Imprensa Nacional.

Quanto a outras artes, a «Coleção D», dedicada ao design português, continuará, em 2019, a centrar-se nas monografias sobre os principais designers nacionais. Foco especial para Eduardo Aires.


Começamos e acabamos com chave de ouro: aplaudida pelo público e aclamada pela crítica, a «Série Ph.», estreada o ano passado com os títulos Jorge Molder e Paulo Nozolino, é uma coleção de monografias bilingues dedicada à fotografia portuguesa contemporânea que pretende dar a conhecer a obra de autores portugueses, enriquecida ainda com textos de especialistas. Em 2019 a coleção, coordenada por Cláudio Garrudo, promete continuar o sucesso do ano anterior, ao receber os trabalhos de Helena Almeida e Fernando Lemos.





Texto: Tânia Pinto Ribeiro/Ilustrações: Marta Braz

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