Jerónimo Pizarro em entrevista — «Pessoa está a ser vítima da sua celebridade»



Texto e fotografias: Tânia Pinto Ribeiro

Se a sua vida desse um livro para já poderia ser o Livro do Desasocego e se lhe pedissem uma biografia breve escrevia apenas: «sou uma pessoa que encontrou Portugal e fez dele o seu lar». Colombiano de sangue, com Portugal na pele, Jerónimo Pizarro é aos 42 anos de idade uma autoridade nos estudos pessoanos. O próprio Eduardo Lourenço terá afirmado que Jerónimo Pizarro é «o mais jovem dos heterónimos pessoanos». O que faz com que a multiplicação pessoana não se fique pela do próprio Pessoa. «Antonio Tabucchi também foi considerado heterónimo de Pessoa. Acho que é muito melhor ser considerado heterónimo de Pessoa do que viúva», diz a rir.

O seu dia triunfal poderiam ser dois ou três, como o foram no caso de Fernando Pessoa. Mas Jerónimo Pizarro não esquecerá nunca o dia triunfal da leitura. Estava deitado no relvado da Universidade Nacional de Bogotá, na Colômbia, a ler o «Guardador de Rebanhos». Talvez daí o seu primeiro amor tenha sido Caeiro. Logo a seguir veio Campos e só depois Reis. «Há autores que precisam de mais tempo e mais estudo. Com Reis, ao inicio, tive problemas de paixão mas enquanto leitor acabei apaixonadíssimo», refere.

Jerónimo Pizarro é professor da Universidade dos Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia e doutor pelas Universidades de Harvard (2008) e de Lisboa (2006), em Literaturas Hispânicas e Linguística Portuguesa. É também tradutor, crítico literário e um dos principais responsáveis pela maioria das novas edições e séries de textos de Fernando Pessoa publicadas em Portugal. É ainda editor crítico da Imprensa Nacional, casa com a qual tem mantido uma relação assídua e regular, desde a publicação de Escritos sobre Génio e Loucuraem 2006.

Octávio Paz disse, a propósito de Pessoa, que os poetas não têm biografia. E para Jerónimo Pizarro ainda estamos longe de conseguir reconstituir, um dia da vida do autor de Mensagem: «já se fizeram muitos trabalhos biográficos, muitos foram feitos a partir de livros já existentes, mas falta-lhes trabalho de campo, de arquivo, de reconstrução da época. Trabalhos grandes de natureza histórica da reconstituição da vida de Pessoa faltam ainda muitíssimos», afirma. E talvez daí Pessoa tenha sido, em muitos sentidos, constantemente traído. «Tenho quase a certeza que Pessoa não teria querido publicar as cartas de amor, que não teria intitulado um livro de Páginas Íntimas e de Interpretação, que não teria dado a conhecer certos horóscopos», exemplifica.

Se tivesse possibilidade de encontrar Fernando Pessoa, como teve Ricardo Reis no livro de Saramago, e lhe pudesse fazer apenas uma pergunta, perguntar-lhe-ia se se a data de 2198 se mantém — esta que foi a data prevista por Fernando Pessoa para que a totalidade da sua obra fosse plenamente descoberta. «Um apontamento fantástico!»

Quando a diferenças entre as literaturas portuguesa e colombiana, Jerónimo diz que procura sempre mais as semelhanças do que as diferenças. E o que mais o tem atraído «é saber que existe, por exemplo, um poeta colombiano chamado León de Greiff que tem talvez tantos heterónimos ou figuras fictícias como tem Fernando Pessoa».

Perguntámos a Jerónimo Pizarro qual era o seu heterónimo pessoano preferido mas, de entre os 136 possíveis, preferiu deixar a pergunta para o leitor. «Nunca me mantive apenas num (…) vou variando». Perguntámos também quantas vezes Pessoa «foi mulher» e ficámos surpreendidos.


PRELO (P) — Em 2017 publicaste juntamente com Carlos Pittella-Leite Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida. Das 49 lições que estão no livro, qual foi aquela que aplicaste primeiro?

Jerónimo Pizarro (JP) —
(risos) Não é que eu tenha começado a aplicar a partir do livro. O livro já estava na minha cabeça há muito tempo eu é que não sabia. Fernando Pessoa, que muda de facto muitas vidas, já tinha mudado, em parte, a minha. E também a do Carlos Pittella. A certa altura começámos a ter uma maior consciência, em certos planos e aspetos, de como Fernando Pessoa tinha mudado as nossas vidas. Eram muitos. Sabíamos? Não sabíamos?… Era algo que estava guardado no interior de nós. Tenho sempre presente um pensamento de Fernando Pessoa. Certo dia, Pessoa estava a ler no elétrico um livro sobre os Evangelhos e foi atacado por estar a ler sobre os Evangelhos no elétrico. Fernando Pessoa tentou, com certeza, perceber a reação mas sobretudo Pessoa queria poder ler tudo em todos os lugares. Não havia motivo nenhum para não ir de um livro para o outro, de não poder ir atrás das histórias, de não poder abarcar todas as áreas do conhecimento. Nestes tempos de tanta e tanta especialização, sinto que Fernando Pessoa, entre muitas coisas, convida a manter acesa uma curiosidade voraz e total, que devemos ser sempre curiosos ao longo da vida. Assim foi a vida e a obra de Fernando Pessoa. Esta é uma das grandes lições que podemos aprender através da leitura dos seus livros. Um dos capítulos é precisamente dedicado aos livros que Fernando Pessoa leu e aí percebe-se bem abertura imensa que ele tinha para o mundo todo. De facto, o livro dedicado a essa biblioteca abre com um apontamento que gostaria de citar:
«Uma vez, vinha eu num carro electrico entretendo a rapidez prolongada do transito com a leitura do livro de Blass sobre a Philologia dos Evangelhos. Um amigo meu, que calhou entrar, teve uma anotação prolixamente portugueza para a natureza do meu entretenimento. Parecia-lhe absurdo que eu, que quasi não sei grego, e nenhum hebreu sei, me pudesse preoccupar com os detalhes debatidos do texto da Boa-Nova christista. Eu não expliquei cousa nenhuma, porque estas cousas nunca se podem explicar. O meu critico não percebia que o texto dos evangelhos é uma realidade da Terra, como a luz e as flores, e que eu seria de um sectarismo de barbaro se me interessasse pelos cravos e as magnolias sem tambem me interessar pela doxologia de S. Matheus» (A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa, 2010).

P — Lembras-te de quando é que aconteceu o «Dia Triunfal», o dia em que descobriste o poeta português?

JP — Tenho algumas memórias que estão em cruzamento. O Dia Triunfal poderiam ser dois ou três. No caso de Fernando Pessoa houve vários dias triunfais. Isso percebe-se bem na edição crítica de Pessoa. Os editores, Ivo Castro, João Dionísio e Luís Prista, a certa altura, perceberam que havia dias da vida de Pessoa em que ele tinha escrito muitíssimos poemas, mais do que em [19] 14 aquando da criação de Alberto Caeiro. No meu caso, há o Dia Triunfal da leitura no relvado da Universidade Nacional de Bogotá.

P — E o que estavas a ler nesse dia?

JP —
«O Guardador de Rebanhos». Lembro-me lindamente de estar dentro desse livro e de encontrar o descobridor da natureza. Também me lembro, em termos de leitor, da «triunfalidade» que foi estar a ler o Livro do Desasocego. Lembro-me nitidamente dessa leitura. Há duas ou três leituras de Fernando Pessoa que para mim foram triunfais, no sentido de as ter limpidamente decoradas. Depois vem o Dia Triunfal, já não enquanto leitor, mas enquanto profissional.



P — E que dia foi esse?

JP —
Foi o dia em que encontrei o espólio, os papéis, os documentos. Isso que para muitas pessoas ainda é a arca ou as arcas de Fernando Pessoa. Lembro-me muito bem do primeiro momento em que tive nas minhas mãos os documentos de Pessoa. Aqui já era outra dimensão. Já não era apenas o leitor, que podia ou não continuar a ler Fernando Pessoa, era a pessoa que sabia que tinha um lugar ao qual sabia que tinha de regressar permanentemente. Tinha tanto material à minha frente que nesse Dia Triunfal soube que se quisesse podia dedicar a vida toda a estudá-lo.

P — O que lias antes de leres Fernando Pessoa?

JP —
A minha formação foi fundamentalmente em literaturas hispânicas. Tive alguma formação em literatura inglesa. Passei por uma escola anglo-americana e, depois, por departamentos onde a literatura espanhola estava fortemente presente e também alguma, pouca, literatura brasileira. O que aconteceu a partir de uma certa altura foi a expansão e a abertura desse universo, até então mais ibero-americano, à literatura portuguesa, incluindo também a literatura dos outros países lusófonos.

P — Então, o teu primeiro contacto com a língua portuguesa faz-se por via dos escritores brasileiros?

JP — Digamos que houve leituras tão marcantes de ambas as literaturas que foram quase feitas ao mesmo tempo. As de Guimarães Rosa e as de Fernando Pessoa. Com um grande paradoxo: é que o tradutor era o mesmo: Ángel Crespo, que fez a tradução de Grande Sertão: Veredas e do Livro do Desasocego. A descoberta foi simultânea. Só mais tarde, bastante mais tarde, e ainda hoje continua a ser tarde, é que veio o conhecimento dos autores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e de Timor.

P — A primeira vez que leste Pessoa foi em português ou em espanhol?

JP — Foi numa edição bilingue. Caeiro li em espanhol mas tinha ao lado o português a acompanhar. O Livro de Desasocego li-o em espanhol na tradução de Ángel Crespo, da Seix Barral. O português foi entrando lentamente e não apenas através de Fernando Pessoa. Lia muitas versões bilingues, português/espanhol e também português/italiano. Daí ter conhecido o trabalho da Maria José de Lancastre e de Antonio Tabucchi. Quando já morava em Lisboa comecei a ler apenas em português. Mas efetivamente de início procurei ler sempre em bilingue.

P — A teu ver o que tem de específico ou de especial a língua portuguesa?

JP — É muito mais rica do que a língua espanhola em termos de sonoridade e de algumas complexidades gramaticais e sintácticas. É uma língua de muitas subtilezas, com muitas nuances. Isto serve não só para falar da língua mas também para falar dos portugueses. Quando estava a celebrar Utopia, de Thomas More, Portugal, lembrou-se de que era um português que estava no centro de Utopia e houve, aliás, várias comemorações. O livro de Thomas More está cheio de formas de atenuar e de atenuações, as coisas contam-se de forma atenuada. A língua portuguesa e os portugueses estão treinados para as formas de atenuar, formas de conversar e depois de desconversar e no caminho encontram-se sentidos especiais para certas palavras. O português abriu-me claramente as portas para outro universo e para outra forma de tratamento do mundo das pessoas. Em espanhol são os circunlóquios, os rodeios. Acho que os portugueses nem sempre são assertivos. Por exemplo, em português não se responde afirmativa ou negativamente, responde-se com a repetição do verbo ou, então, encontrando uma outra forma para responder. Mas muito dificilmente será uma forma curta, direta ou assertiva.


P — Sentes intimidade com a língua portuguesa? Já deste por ti a sonhar em português?

JP — Já dei! Claro, depende muito do contexto. Lembro-me perfeitamente de estar a sonhar em português quando morava num 7.º andar na Estefânia [em Lisboa]. Sonhar que estou a responder ou a discutir em português já me aconteceu muitas vezes já!

P — A mim já me aconteceu usar a palavra «espanhol» para me referir à língua e alguém corrigir-me, como se tivesse cometido uma grande heresia. Porque devia saber que o nome correto da língua é «castelhano». E também já me aconteceu precisamente o contrário. Afinal, que língua é que se fala na Colômbia?

JP — Essa é uma discussão que existe mas que nunca percebi muito bem. Porque quando dizemos «castelhano» falamos direta ou indiretamente de Castela e Castela diz respeito a uma parte muito pequenina do mundo. Já quando o termo «espanhol» é muito mais abrangente e não representa apenas uma parte do todo. Eu prefiro o termo mais abrangente, o termo que indica o país e não apenas uma parte desse país. É até um pouco absurdo. Imagina, é como pensar que há uma língua colombiana e depois dizer que se fala a língua «antioquenha» (remete para a região de Antioquia), ou pensar que há uma língua portuguesa e dizer que se fala «lisboeta». É uma convenção, uma forma de falar. Não conheço os argumentos para ficarmos apenas pelo termo «castelhano». E há outra coisa, o espanhol e o português não existiriam se não fosse o galego. Continuamos tristemente a esquecermo-nos do galego, que até podia integrar numa lição conjunta de português e espanhol. É uma forma de esquecimento muito política de um país chamado Espanha que ainda não sabe reconhecer a sua diversidade de uma forma mais plena.

P — Tens alguma palavra preferida em língua portuguesa?

JP — No outro dia estava com uma amiga que me disse que a sua palavra preferida em português era «cheiro». Eu gosto muito da palavra «borboleta». É uma palavra bonita e especial em todas as línguas e em português também só podia ser especial. Mais do que ter uma palavra preferida sinto que há palavras que só poderiam existir em português.

P — Como por exemplo?

JP — Há uma expressão de que gosto muito, conheci-a logo no início e demorei a perceber-lhe o sentido. A expressão é: «se não existisse teria de ser inventado».

P — E há alguma expressão ou palavras com as quais embirres particularmente?

JP — Há palavras com que embirro mas apenas porque com elas vem uma atitude. Engonhar, travar, melgar… por exemplo.

P — Portugal e Colômbia têm em comum, entre outras coisas, terem um laureado com o Prémio Nobel da Literatura: José Saramago e Gabriel García Marquéz. García Márquez é bem tratado na Colômbia? Está onde devia estar? Nas escolas? Nas livrarias…? Em todo o lado?

JP — Isso será sempre muito relativo. É um autor amadíssimo, dificilmente encontras na Colômbia um autor mais amado pela maioria da população. A questão é que a Colômbia está em dívida, em muitos aspetos, para com o García Márquez.


P — Porque dizes isso?

JP — García Márquez é lido e faz parte do currículo das escolas, mas podia ser mais lido pelo conjunto da sua obra e não apenas por dois ou três livros que escreveu. Na verdade, isso acontece com quase todos os grandes autores. García Márquez deixou a Colômbia no início dos anos 1980 e a partir dai praticamente nunca mais regressou. Foi-se naturalizando no México e em outros lugares. Acabou por ser mais homenageado, depois da sua morte, fora da Colômbia do que dentro. São coisas políticas. Por exemplo, o espólio, o arquivo do García Márquez acabou nos Estados Unidos da América. Apenas uma parte mínima e simbólica ficou na Colômbia. Em termos de política cultural a Colômbia está claramente em dívida com García Márquez.

P — Em 1982 quando ele recebe o Nobel tu tinhas 5 anos? Tens alguma memória desse dia? Já estavas desperto para estes assuntos?

JP — Não estava. Para mim Márquez aparece muito mais tarde com a leitura de livros mais curtos como Ninguém Escreve ao Coronel. Depois, claro, tornou-se numa leitura constante. Só chego a García Márquez em 1988/1989. E na verdade não chego a ele por causa do Nobel. A minha mãe tinha feito a sua pós-graduação, em Paris, com um trabalho sobre os Contos de García Márquez. Em minha casa, na biblioteca da minha mãe, tinha praticamente toda a obra dele disponível. Compreensivelmente, ele era um dos autores que a minha mãe mais queria que eu lesse.

P — Tiveste oportunidade de o conhecer pessoalmente?

JP — Não, nunca estive com García Márquez.

P — Para quem não conhece os autores colombianos que nomes sugerias para primeiras leituras?

JP — Creio que em Portugal já há vários autores colombianos traduzidos. Héctor Abad Faciolince é muito lido e é fantástico. Juan Gabriel Vásquez também é publicado e pode ser ainda mais publicado. Há outros que passarão sempre um pouco ao lado. Estou a pensar em Tomás González, que não aceita prémios literários nem participa em Feiras Literárias. González faz parte de um conjunto de autores que não está no circuito de visibilidade e logo não são muito traduzidos. Ainda assim, em Portugal já se conhecem bastantes autores colombianos.

P — E os poetas?

JP — Da poesia há nomes como Piedad Bonnett, Darío Jaramillo ou Juan Manuel Roca. Não sei se já estarão traduzidos em Portugal. Sei que o Juan Manuel Roca já tem um ou dois livros traduzidos. Estes são nomes já consagrados.

P — E da poesia atual?

JP — Neste momento, a poesia na Colômbia está numa grande fase. Há muitíssimos poetas e muitos são mulheres. Um bocadinho à semelhança do que acontece em Portugal, a melhor poesia está a ser escrita por mulheres. Há uma jovem poetisa colombiana, com menos de 30 anos, que já está a ser publicada em Portugal, chama-se María Gómez Lara.

P — Quais são os autores portugueses mais acarinhados e lidos na Colômbia?

JP — Os mesmos que nos outros países. Fernando Pessoa e José Saramago costumam ser os mais lidos. Depende da história de cada país e dos autores que estão a ser publicados no país. Na Colômbia o Valter Hugo Mãe está a ser muito traduzido e publicado e a Dulce Maria Cardoso também, isto para falar dos vivos.


P — E Lobo Antunes?

JP — É publicado e lido, mas tenho a sensação de que poderia ser muito mais.

P — Para ti quais são os autores portugueses difíceis de se conhecer fora de Portugal?

JP — É muito difícil conhecer, por exemplo, a Hélia Correia ou a Agustina Bessa Luís fora de Portugal.

P — Em traços largos, a teu ver, o que aproxima e separa a literatura dos nossos países?

JP — Tento sempre procurar mais as semelhanças do que as diferenças. O que me tem atraído mais é saber que existe, por exemplo, um poeta colombiano chamado León de Greiff que tem talvez tantos heterónimos ou figuras fictícias como tem Fernando Pessoa. Para responder à tua pergunta, talvez haja mais escrita distópica em Portugal. Também há mais preocupação pelas questões europeias, mesmo em termos de civilização e de enquadramento político de Portugal na Europa. Há autores, romancistas e poetas portugueses, que pensam muito Portugal, a identidade portuguesa, a portugalidade, a filosofia portuguesa. Nem sempre é o mais universal, o que se torna o diálogo mais difícil para quem está de fora. Apesar disto sinto que as afinidades são maiores do que as diferenças.

P — Como é que um colombiano se tornou numa das principais autoridades na obra de Fernando Pessoa?

JP — Não sei, ou prefiro não saber. Podia ter sido um equatoriano ou um boliviano. A pergunta deve ser feita ao contrário: porque é que não há mais portugueses a fazerem isso?

P — Mas há. A teu ver, quem mais te acompanha neste campeonato? Quem são os grandes especialistas em Pessoa na atualidade?

JP — Aqueles que já foram meus professores: Fernando Cabral Martins, Teresa Rita Lopes, Ivo Castro, Fernando Martinho, Ana Maria de Freitas, que faleceu há pouco tempo. Depois há também o Luiz Fagundes Duarte, Manuela Parreira da Silva, Luís Prista, estes não foram meus professores mas é como se tivessem sido.

P — Além de Pessoa, tens outras paixões literárias?

JP — Sim e espero vir a ter muitas mais. É um universo que está em expansão. Dinis Machado para mim foi sempre uma referência. Os mestres de Fernando Pessoa também. Tenho uma grande paixão por Camilo Pessanha, Antero de Quental e Cesário Verde. Ultimamente, tenho estado a ler narrativa portuguesa contemporânea, até porque dei um seminário sobre isso. Estou bastante focado na geração posterior a Saramago, onde está a Lídia Jorge, o Valter Hugo Mãe, o Afonso Cruz, o José Luís Peixoto, a Isabel Figueiredo… Também estou muito comprometido com a tradução da obra de Maria Dulce Cardoso. Acompanhei muito de perto a tradução de Germano Almeida. Sabes, é difícil nomear todos. Tenho a certeza de que me estou a esquecer de alguém.

P — Hoje em dia Pessoa é um ícone para turistas, chegamos às livrarias e só encontramos a Lisboa de Pessoa ou os cafés de Pessoa e por aí fora… Como encaras este fenómeno? Não sentes que os outros autores ficam na penumbra?

JP — São dois problemas que estão relacionados. Sim, é verdade que outros ficam na penumbra mas ter tanto Pessoa em tantas lojas e em tantos sítios turísticos coloca-o também a ele na penumbra. Diria mais, Fernando Pessoa é o primeiro a ficar na penumbra. Uma pessoa que é apresentada através de umas quantas imagens em canecas ou sacos ou em de meia dúzia de frases, para consumo rápido, não se torna mais lida. Pessoa não é mais lido por estar a saturar determinados lugares. Era melhor que não saturasse. A sensação de saturação só faz com que se desconheça mais e se queira conhecer menos. O que me preocupa não são os turistas, são os portugueses e os políticos portugueses que ao acharem que ele já está em tantos lugares já não é preciso fazer mais nada. É exatamente o contrário. Há ainda uma parte gigantesca por trabalhar. Não ajuda nada esta sensação. Uma sensação que já se teve nos anos 1980, quando foi o primeiro boom de Fernando Pessoa. Aliás nesses anos 1980 houve alguém que disse «tanto Pessoa já enjoa». Agora começa a sentir-se o mesmo. A parte positiva é que Portugal começa a ser identificado com Fernando Pessoa. Já ouvi alguém dizer que a grande rivalidade atual é entre Cristiano Ronaldo e Fernando Pessoa. A reflexão hoje em dia passa por: que utilização é que damos a determinados símbolos e o que há de positivo e negativo nessa utilização? A maior vítima de Fernando Pessoa é Fernando Pessoa, que fica na penumbra e é usado num merchandising que o próprio teria rejeitado. Pessoa está a ser vítima da sua celebridade. Não nos podemos esquecer que ele que era uma pessoa super discreta, que lutou tanto para passar pelas ruas de Lisboa entre os pingos da chuva. Estou certo de que se Pessoa visse isto ficaria desesperado.

P — És editor crítico de Fernando Pessoa, na Imprensa Nacional. Na tua perspetiva, qual é o perfil de um bom editor crítico?

JP — Alguém que perceba de filologia, que saiba o que é a pesquisa, que perceba a importância das fontes e a necessidade de se edificar um património coletivo. Um bom editor crítico é ainda alguém que tem um pouco de alma de detetive, alguém que é obcecado pelas fontes, pelo confronto de diferentes provas, alguém a quem não lhe basta um jornal, um dicionário, uma coisa que ouviu dizer. Fundamentalmente, é alguém que questiona cada pequena informação, cada pequeno detalhe.

P — Quais são as regras editoriais básicas para se fazer uma boa edição crítica?

JP — Um grande trabalho com as fontes, uma grande compreensão das diferentes fontes e um grande confronto com todas fontes. Um trabalho que coincida com a história. Só depois disto se faz um trabalho mais sintético, que é uma edição.

P — Estamos mais para o perto ou mais para o longe de alcançar um cânone textual mais ou menos estabelecido das obras de Fernando Pessoa?

JP — Sinto que estamos mais para o longe. De uma forma quase megalómana, muitos dos editores de Pessoa começaram por propor obras completas. Nenhum dos editores conseguiu. Nenhum. Nem conseguiria neste altura do campeonato. Aliás, nem estou certo de que o espólio pessoano seja próprio para propor obras completas. Estamos, por exemplo, muito longe de conseguir uma biblioteca das obras de Fernando Pessoa. Acredito muito numa frase que Pessoa disse, depois de um cálculo astrológico: «eu vou ser descoberto plenamente em 2198». É um apontamento fantástico!

P — Foi Octávio Paz que disse, a propósito de Pessoa, que os poetas não têm biografia. Ainda falta, como dizes, descortinar muita coisa sobre a obra de Pessoa, mas a verdade é que cada vez mais vamos tendo mais informações. Conseguimos, por exemplo, dados suficientes para reconstituir um dia na vida de Fernando Pessoa?

JP — Não, não conseguimos. Estamos longe de conseguir. Já se fizeram muitos trabalhos biográficos, muitos foram feitos a partir de livros já existentes, mas falta-lhes trabalho de campo, de arquivo, de reconstrução da época. Trabalhos grandes de natureza histórica da reconstituição da vida de Pessoa faltam ainda muitíssimos.

P — Estando ainda longe de ter a totalidade do legado literário de Pessoa transcrito, o editor pessoano é obrigatoriamente um editor que tem de «trair» o autor?

JP — Depende do que entendemos por traição. O editor tem sempre de ser muito ativo. Não acredito em formas mecânicas de transcrever e dar a conhecer. O editor pessoano tem de entender que muitas coisas ficaram incompletas, desorganizadas, descontextualizadas. Fernando Pessoa tem sido traído e vai continuar a ser traído ao longo de toda a sua posteridade.

P — É traído em que sentidos?

JP — Em muitos sentidos. Tenho quase a certeza que Pessoa não teria querido publicar as cartas de amor, que não teria intitulado um livro de Páginas Intimas e de Interpretação, não teria dado a conhecer certos horóscopos. Estamos a publicar muitas coisas fora do âmbito que Pessoa teria publicado, estamos a publicar à nossa maneira. Parece-me inevitável por isso publicar cada papel. Só assim poderemos chegar a uma biblioteca total de Fernando Pessoa. Estamos neste momento a transcrever as notas dos livros da biblioteca particular e a marginália. Tudo isto são formas de traição.

P — E o crítico? O que deve fazer o crítico literário diante de uma obra inacabada e estando assim tão longe de ter sido fixada?

JP — Tanto o crítico literário como o arquivista, o filólogo, o historiador, aplica-se a todas as áreas, têm de admitir uma certa ignorância. A semana passada, em conversa com um amigo, falava d' A Hora do Diabo, obra da qual se conhece apenas uma edição feita pela Teresa Rita Lopes. A Teresa Rita Lopes nunca percebeu bem a data d'A Hora do Diabo. Datar apropriadamente esse projeto altera completamente a forma como podemos ler o livro. Podemos entrar de uma forma mais irresponsável e mais rápida, enquanto críticos literários, fascinados pelo texto e pela figura do diabo na literatura portuguesa, e escrever uma crítica que tem muito de historiografia e de diálogos entre citações do texto. Depois temos de pensar numa edição sobre o próprio projeto, uma edição que tente explicar o porquê do projeto, porque é que foi escrito e em que altura foi escrito. Quando não temos isto bem definido faltam-nos muitos elementos para fazermos uma crítica literária completa. Fazemos uma crítica coxa. Este livro, para não pensar noutros, datado e apresentado da forma certa, explicando o contexto, torna-se um livro completamente diferente daquele que foi pensado e imaginado há 30 anos atrás.

P — No âmbito da Edição Crítica das Obras de Fernando Pessoa, publicadas pela Imprensa Nacional, já contribuíste com sete/oito volumes, sendo o último a primeira edição crítica de Livro do Desasocego. Como é que chegaste até às edições críticas da Imprensa Nacional?

JP — Foi graças ao primeiro livro que publiquei Escritos sobre Génio e Loucura, que saiu em 2006. Quer a edição crítica quer o estudo foram as duas partes do meu doutoramento em filologia e letras na Universidade de Lisboa, com a orientação de Ivo Castro e Manuel Gusmão. Ivo Castro sendo — e ainda é — o coordenador da obras de Fernando Pessoa na Imprensa Nacional, parte do meu doutoramento passou por preparar mais volumes para a Edição Crítica de Fernando Pessoa. Durante muito tempo também fui membro do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, na área da filologia, cujos projetos passavam também pela área da edição de texto .

P — Desde que começou a manifestar interesse pelas grandes questões do «génio» e da «loucura», Pessoa compreendeu que tanto uma como outra eram temas literários. Há mais genialidade ou mais loucura em Pessoa?

JP — A genialidade encontra-se em toda a obra de Fernando Pessoa. Já a loucura, temática e cronologicamente, encontra-se sobretudo na chamada 3.ª adolescência, ao tempo que Fernando Pessoa regressou a Lisboa, naqueles 3, 4 anos depois de regressar de Durban. A loucura é uma grande preocupação de Pessoa, que conhecendo a história da avó Dionísia, começa a pensar que a loucura é uma questão genética, de família, uma questão de herança. Pessoa acreditava que a genialidade tinha de ter um pouco de loucura. Sem essa pitada de loucura podia ser-se muito inteligente mas não se era genial. A questão do génio vai acompanhar Pessoa toda a vida, até morrer. Creio que Fernando Pessoa confiou nesse génio, nos diferentes entendimentos que foi tendo de si próprio enquanto génio.


P — Retomando as edições críticas, que balanço fazes deste projeto da Imprensa Nacional?

JP — Foram a minha grande formação, permitiram abrir a edição crítica de Pessoa ainda mais para o domínio da prosa, permitiram-nos chegar a outro tipo de problemáticas que não estavam tão presentes, permitiram ainda perceber que o projeto poderia crescer infinitamente e permitiram criar um diálogo entre diferentes livros da edição crítica.

P — Qual a é a tua posição frente às correções ou às atualizações ortográficas da escrita de Pessoa? São necessárias, inevitáveis, são as únicas opções de um editor? Nas edições críticas de Fernando Pessoa decidiste, por exemplo, editar a A Educação do Stoico sem o E antes do S e editar o Livro do Desasocego com a grafia peculiar de Pessoa…

JP — Acho que os próprios portugueses não sabem quantos acordos e desacordos a língua já teve. Para mim isso nunca foi propriamente uma questão. Na edição crítica o plano inicial era ter uma série maior e uma série menor. Na série maior ficava uma ortografia e na série menor ficava outra. Continuo a achar que dá para publicar primeiro com a ortografia do autor e a seguir na ortografia que consideramos a nossa. O que já se torna difícil. Hoje metade das pessoas escrevem de uma maneira e a outra metade de outra maneira. O problema não é a ortografia de Pessoa, o problema é a confusão toda criada por acordos e desacordos.

P — Como é que fazes para não te perderes neste enredo de papeis, mais de 30 mil papeis? É preciso muita organização?

JP — Perco-me e não consigo ter noção das coisas todas. Esqueço-me de partes que já vi e acho que estou a ver pela primeira vez. Daí, por vezes, fazer descobertas que são falsas descobertas. Tento percorrer o espólio na íntegra, tomo inúmeras notas, tenho tentado organizá-las todas. O espólio é tanto! Há partes que já começam a ficar mais arrumadas e outras que ainda são incógnitas. Há dias em que nem sei por onde começar. Sinto que em termos de cartografia falta muito por cartografar.




P — Aprende-se na escola que Bernardo Soares é o semi-heterónimo de Fernando Pessoa. Afinal o aproxima e o que distancia o «semi heterónimo» do seu criador?

JP — Diria que Bernardo Soares tenta ser muito mais musical do que Fernando Pessoa. Em certa prosa Soares procura uma musicalidade e um léxico diferente de Álvaro de Campos, tenta até ser mais onírico e misturar mais tipos de sensações. Parece tentar ser menos racional. Daí Pessoa ter dito que Bernardo Soares estava numa fase de sono, por vezes menos coerente, permitindo-lhe o uso de frases muito compridas e uma relativa confusão entre o interno e o externo. Fernando Pessoa tenta ser muito mais «objetivo», em certo tipo de prosa. A prosa de Soares é mais artística, com mais figuras retóricas, com uma tentativa de ser quase sinfónica, indo à procura dessa dimensão sinfónica da língua portuguesa. Uma dimensão que Pessoa encontrou no Padre António Vieira. O Livro do Desasocego não diria que seja barroco mas é de uma leitura do barroco, passando também pela poesia francesa e inglesa.



P — Há uns anos perguntei ao Professor Ivo Castro, coordenador das Edições Críticas de Pessoa, das duas traduções para francês do Livro do Desasocego: Livre de l'Intranquillité e Livre de l'Inquiétude qual era a mais bem conseguida? Se «Intranquilidade» ou «inquietude»? O professor Ivo Castro, respondeu Intranquilidade. E a ti o que te parece?

JP — Essa é uma questão da língua francesa que passa também para a língua inglesa. Em inglês usa-se as palavras disquiet e disquietude. Até é paradoxal. Nos Estados Unidos o mesmo editor publicou o livro das duas formas diferentes (The Book of Disquietude e The Book of Disquiet). Neste momento, em inglês, é mais habitual usar-se o disquiet. Em italiano a situação é parecida. Em espanhol é igual, é desasosiego, não muda. O importante é que é uma palavra que passou a ser muito utilizada. Fernando Pessoa que escreveu imenso sobre o tédio no livro não lhe quis chamar o livro do tédio, nem nunca terá pensado neste título. Também não lhe quis chamar o livro do spleen. Pessoa procurou no léxico uma palavra que não era muito utilizada, e que mais tarde até leva para um certo existencialismo, para Samuel Beccket, para o teatro do absurdo por exemplo, e torna-a numa palavra chave, técnica. Não utilizaríamos tanto a palavra dessassosego se não fosse Fernando Pessoa.

P — Além dos de sempre: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Alexandre Search… Das várias dezenas de heterónimos criados por Pessoa, que outros consideras mais relevantes na totalidade da obra pessoana?

JP — Preferia deixar o convite ao leitor… Deixar o leitor escolher, não influenciar.

P — Se me permites, aceito o teu convite. Um dos meus heterónimo preferidos, além dos de sempre, é Maria José, a corcunda, da Carta da Corcunda para o Serralheiro.

JP — Maria José, a corcunda, é a última autora criada por Pessoa e tornou-se, a certa altura, muito importante e ainda continua a ser. Principalmente agora que a banda Alexander Search levou Fernando Pessoa para o rock. Cada integrante dos Alexander Search foi à procura de um autor fictício diferente. Muitas pessoas em Portugal, e lá fora também, continuam a desconhecer o heterónimo António Mora. E há outros heterónimos que, mesmo estando publicados, estão esquecidos. Falta conhecer Vicente de Guedes e por aí fora. São tantos que acho que seria interessante começar a confirmar se o conhecimento que temos dos heterónimos está a crescer ou se continuamos apenas a conhecer três ou quatro. Ou seja, se tem havido ou não um alargamento do conhecimento dessas figuras todas.


P — Como é que se pode alargar esse conhecimento, o conhecimento de todas esses autores criados por Pessoa?

JP — Será um processo lento e que obrigatoriamente terá de passar pela escola. As escolas terão de começar a colocar mais autores fictícios de Pessoa nos seus programas.

P — Voltando à carta da Maria José… A mim parece-me que está lá a noção fundamental de Pessoa: a noção de alteridade, do outrar-se pessoano. Concordas?

JP — Completamente. A carta diz muito sobre a corcunda e diz muito sobre o próprio Livro do Desasocego, que por vezes parece autista outras vezes parece outrar-se. Até certo ponto podia-se defender que a arte não se podia fazer senão por via do outrar-se. Essa carta é muito forte. E uma das leituras é precisamente essa da capacidade que nós temos ou não temos de outrarmo-nos. Até que ponto conhecemos verdadeiramente os outros ou se conhecemos apenas a imagem que temos dos outros. Agora estou a pensar outra vez no Livro do Desasocego quando Pessoa diz «mais do que amar uma pessoa amamos a imagem que temos dela».

P — Quantas vezes mais foi Fernando Pessoa mulher?

JP — Diria, por alto, mais umas sete ou oito vezes. Para ser exato terei de ir confirmar.

P — Entre cerca de 136 casos, foram poucos autores.

JP — Sim, proporcionalmente foram poucos e não são os autores fictícios mais trabalhados.

P — Tem algum heterónimo preferido?

JP — Mais uma vez preferia deixar a pergunta para o leitor. Nunca me mantive apenas num. Claro, tive fases em que gostei mais de um, fases em que gostei mais de outro. Agora vou variando.

P — E qual é que foi o teu primeiro amor?

JP — Ah! O primeiro amor foi Caeiro, a seguir foi Campos e a seguir foi Reis. Quando entrei na obra de Ricardo Reis fiquei fascinado. Há autores que precisam de mais tempo e mais estudo, foi o caso de Reis. Com Reis, ao inicio, tive problemas de paixão mas enquanto leitor acabei apaixonadíssimo.


P — Quando venceste a 9.ª edição do Prémio Eduardo Lourenço, o próprio afirmou que tu te tornaste o «mais jovem dos heterónimos pessoanos». Sentes-te mesmo um heterónimo?

JP — Sinto, claro que sinto. O interessante é que isso já foi dito a várias pessoas. Todos os que trabalham, e vão ainda trabalhar, na obra do Fernando Pessoa, a certa altura, vão tornar-se heterónimos. Ou seja, a multiplicação pessoana não se fica pela do próprio, continua. Nós fazemos parte dessa multiplicação. Também é interessante a parte do «mais novo heterónimo» porque o tempo vai passar e daqui a uns tempos já não o serei. Será outro e depois continuarão a ser muitos mais. Antonio Tabucchi também foi considerado heterónimo de Pessoa. Acho que é muito melhor ser considerado heterónimo de Pessoa do que viúva (risos).

P — Quando vieste Portugal pela primeira vez?

JP — A primeira vez foi em 1995. Em 2000 vim para cá estudar.

P — Que impressão te provocou o contacto direto, também em termos linguísticos, com aquele Portugal que conhecias mas de longe?

JP — Olha, passados poucos dias tive logo a sensação de que tinha vivido aqui sempre. Senti-me em casa. Quase que não houve período de transição. Caminhava por ruas que parecia conhecer desde sempre e no entanto nunca lá tinha estado.

P — Foi por isso que decidiste naturalizar-te português? Porque o fizeste?

JP — Para mim foi por uma questão de coerência. Sinto-me em casa aqui. O próprio Fernando Pessoa convida-nos a ter muitas identidades. Gostava da ideia de viver num mundo que convidasse a termos muitas identidades.

P — És professor da Universidade dos Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia. O que mais te agrada mais na tua carreira, a parte pedagógica ou a parte de investigação?

JP — Estão muito divididas. Não consigo não ter um bocadinho das duas. Não faria muito sentido estar só na investigação e não conseguir partilhar. Também não faria sentido estar só a dar aulas e estar desligado de continuar a aprender, de continuar a encontrar coisas novas, de mudar conteúdos. Se separasse as duas coisas ficaria muito isolado, incompleto e desatualizado.

P — És membro do conselho estratégico que junta Portugal e Colômbia, um foro consultivo encarregado de fazer recomendações aos respetivos governos. Em que é que isto consiste exatamente?

JP —
É ainda um conselho que está por construir, não está propriamente em função constante. É mais um projeto do que propriamente um conselho ativo. O conselho foi criado mas ainda está dormente. São questões políticas que me ultrapassam.

P — Que livro te falta na tua biblioteca?

JP —
Pelo contrário, tens de me perguntar que livro é que tenho de tirar da minha biblioteca! São tantos que já não tenho espaço para mais nenhum. (risos)

P — Então e que grande clássico da literatura é que te falta ler? Sim, porque isso acontece...

JP —
Acontece, acontece, com vários clássicos até. Acontece, por exemplo, com aqueles que tenho na minha mesa de cabeceira e que agora não me lembro do título. E acontece com outros que estão à espera de uma grande viagem.

P — Por falares em mesa de cabeceira… Consegues deixar Fernando Pessoa à porta de casa, ele é um tabu em tua casa, ou entra contigo?

JP —
Eu «auto-tabu-o» Fernando Pessoa. Fiz disso um tabu. Faço questão de não ter Pessoa a partir de uma certa hora. Em Portugal fazia só investigação pura e dura. Durante o dia estava demasiado embrenhado. E então, fazia questão de deixar Pessoa à porta de casa quando convidava os meus amigos para irem lá a casa jantar. Se era para jantar era para jantar e conviver com amigos, se era uma reunião de trabalho aí sim falaríamos de Pessoa. E agora continuo com o mesmo critério. Em casa tenho os livros todos e duas ou três imagens de Pessoa. Bastam-me os livros.

P — Se por alguma «transcendentice» que nos ultrapassa tivesses a oportunidade de teres Pessoa à tua frente e lhe pudesses fazer uma única pergunta, que pergunta farias?

JP —
Se ainda mantém a data de 2198…

P — Qual é a tua citação preferida de Pessoa?

JP —
«Para ser grande sê inteiro».


P — Se te pedisse uma biografia tua muito curtinha, como a escreverias?

JP —
Uma pessoa que encontrou Portugal e fez dele o seu lar.

P — Se a tua vida fosse um livro que livro seria?

JP —
Para já poderia ser o Livro do Desasocego.

1 comentário:

  1. Corrijam, por favor, a errata presente em várias ocasiões: é "Desassossego", não "Desasocego".

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