Escritor, conferencista, novelista, crítico panfletário, polemista, ensaísta, romancista, poeta, dramaturgo e desenhador hábil, Almada Negreiros é uma das figuras mais talentosas do século XX português. O seu génio permitiu-lhe estar presente em todas as frentes do modernismo.

José de Almada Negreiros faleceu, em Lisboa, a 15 de junho de 1970. Há 50 anos precisos.

Obras de Almada Negreiros publicadas na Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A.:

Poesia, com «Almada Negreiros Poeta», por Jorge de Sena, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. I, 1990

Nome de Guerra, prefácio de António Alçada Baptista, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. II, 1994

Artigos no Diário de Lisboa
, org. e prefácio de E. W. Sapega, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. III, 1988

Contos e Novelas, com texto introdutório de Maria Antónia Reis, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. IV, 1993

Ensaios, introdução de Eduardo Lourenço, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. V, 1992

Textos de Intervenção, introdução de Luísa Coelho, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. VI, 1993

Teatro, todos os textos dramáticos conhecidos, incluindo três inéditos, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. VII, 1993

E ainda sobre Almada Negreiros:

José-Augusto França, O Essencial sobre Almada Negreiros (n.º 66), 2003

José Jorge Letria (texto) e Tiago Albuquerque (ilustr.), Almada Negreiros, Viva o Almada, Pim!, coleção Grandes Vidas Portuguesas, 2014


Multifacetado, vanguardista e corajoso assim foi Almada Negreiros. Bailarino, pintor, escritor, dramaturgo, conferencista e artista que defendeu a modernidade a todo o custo, daí ter andado «dez passos de gigante à frente [...] sem temer reprovação ou contratempo». José Jorge Letria conta-nos a sua história em Almada Negreiros. Viva o Almada Pim! E Tiago Albuquerque ilustra-a à altura. Nós, desafiamos-te a pores à prova os teus conhecimentos sobre esta Grande Vida Portuguesa!







Com o cheiro dos manjericos e das sardinhas assadas no ar, Lisboa dá as boas vindas ao verão em modo de festa! O popular Santo António abençoa rapazes e raparigas e os arraiais animam os bairros históricos da cidade. Cenário ideal, portanto, para Vasco Leitão: namoradeiro, conquistador e eterno estudante cábula de medicina, que sobrevive da pensão de duas tias. Precisou, porém, o menino Vasquinho de abandonar a vida boémia e aplicar-se nos estudos para conquistar a bênção do pai de Alice, sua namoradinha, e a herança das suas ricas tias. E foi, precisamente, num suposto livro «composto e impresso» na nossa casa, a Imprensa Nacional, que aprendeu o que era o esternocleidomastóideo! Feito que lhe valeu um «brilharete» no exame final  e que o tornou Doutor (porque fadista já ele era!). Mas aprendeu muito mais.

https://www.youtube.com/watch?v=fRwdQEiewBQ


A personagem de Vasco Leitão, eternizada por Vasco Santana em A Canção de Lisboa (1933), é conhecida de todos. A ele se deve a famosa frase «chapéus há muitos, meu palerma». A Canção de Lisboa é também um verdadeiro clássico da comédia portuguesa, assinalando uma efeméride importante: foi o primeiro filme sonoro português a ser filmado (em parte) em estúdios nacionais e a primeira longa-metragem produzida com equipamento da Tóbis! Já nessa altura a Imprensa Nacional era uma referência incontornável que fazia correr a sua tinta — e boa fama — ao lado da contemporaneidade: o cinema sonoro!

Realizado por Cottinelli Telmo e com diálogos de José Galhardo A Canção de Lisboa teve a sua estreia no Teatro São Luiz, a 07 de novembro de 1933, e contou com um elenco de peso: António Silva, Beatriz Costa, Manoel de Oliveira, Vasco Santana, Tereza Gomes, Alfredo Silva, Sofia Santos, entre outros. A música ficou a cargo de René Bohet e Jaime Silva Filho. O genérico saiu da criatividade de Almada Negreiros, que desenhou o cartaz do filme.

Cartaz da autoria de Almada Negreiros
A título de curiosidade, e tentando uma aproximação à obra citada em A Canção de Lisboa, dos arquivos da Imprensa Nacional — Casa da Moeda constam os seguintes títulos:

Da autoria do Dr. Eduardo Motta (e não da Mata, como refere a personagem) numa edição da Academia das Ciências:

Licções de pharmacologia e therapeutica geraes de Eduardo Augusto Motta. - 3ª ed., Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1901. - XII, 753, [1] p., 23 cm. - Enc.

Licções de pharmacologia e therapeutica geraes de Eduardo Augusto Motta. Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1887. - 674, [2] p., 23 cm. - Enc.

Da autoria de uma comissão presidida pelo Dr. Bernardino Gomes, secretariada pelo Dr. José Tomás Sousa Martins e nomeada pelo Rei D. Luís, numa edição Imprensa Nacional:

Pharmacopêa portugueza. - Edição official. - Lisboa, Imprensa Nacional, 1876. - LIII, 547 p.; 25 cm. - Enc.

Em 2016, o menino Vasquinho continuou a fazer das suas, desta vez por intermédio do humorista César Mourão, no remake do filme homónimo assinado, agora, por Pedro Varela. A adaptação da história à atualidade exigiu, evidentemente, rever o guião original: a menina Alice tem sotaque brasileiro, o seu pai já não é alfaiate mas sim um aspirante a primeiro-ministro e a tia rica é natural de França e não de Trás-os-Montes. Mas, já se sabe, há coisas que nunca mudam: e Vasco Leitão continuou e estudar pelos supostos manuais «compostos e impressos» na Imprensa Nacional.

Quanto a Vasco Santana deixou-nos há quase 60 anos, em 1958. Precisamente num dia de Santo António…

Texto: TPR
Pesquisa bibliográfica: MJG


Almada Negreiros
(São Tomé, 1893—Lisboa, 1970)

Filho de um alto funcionário ultramarino, José Sobral de Almada Negreiros nasceu a 7 de abril de 1893, na roça da Saudade, na ilha de São Tomé, terra natal da sua mãe. Após a morte desta, em 1896, o pai é nomeado responsável pelo Pavilhão das Colónias, na Exposição Universal de Paris de 1900, e deixa os filhos, José e António, aos cuidados dos Jesuítas do Colégio de Campolide, em Lisboa. Almada Negreiros frequentou depois o Liceu de Coimbra e mais tarde foi aluno da Escola Nacional de Belas Artes.

Almada Negreiros foi uma das figuras de proa da primeira geração do modernismo português. Começou como caricaturista (1912), mas foi sobretudo como poeta que participou no movimento futurista lisboeta (1915-1917). Em 1915, está na génese uma revista marcante para a literatura portuguesa — a revista Orpheu — com a qual colabora, juntamente com Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Amadeo de Souza Cardoso e outros nomes das letras e das artes. Publica «Frisos» na Orpheu 1. Para a Orpheu 3 escreve A Cena do Ódio, que acabou por só ser publicada parcialmente, como separata da revista Contemporânea 7, em 1923. Em 1916, publica, em folhetos, o famoso e polémico «Manifesto Anti-Dantas e por Extenso», no qual invectiva contra o médico e escritor Júlio Dantas, que personificava as posições mais retrógradas do tempo. Em dezembro 1917, oito anos após a implantação da República, inspirado pelas ideias do italiano Marinetti, lê no Teatro República, juntamente com o seu amigo e pintor Santa-Rita Pintor, o Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX. Aqui Almada afirma: «pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva», fazendo transparecer uma profunda aversão pelas tradições literárias, românticas e saudosistas bem como pela falta de ódio e de orgulho nacional.

A curta estadia em Paris, entre 1919 e 1920, para onde foi para estudar pintura e onde chegou a trabalhar como bailarino de cabaré e empregado numa fábrica, orienta-o definitivamente para as Artes Plásticas. Instala-se, posteriormente, em Madrid, entre 1927 a 1932. Na capital espanhola deixou pinturas murais, atualmente desaparecidas, colaborou com o jornal El Sol e escreveu El Uno. Tragedia de la Unidad, um conjunto das duas peças de teatro «Deseja-se Mulher» e «S.O.S.», que dedicou à sua mulher, a pintora Sarah Afonso.

Estudou durante anos os Painéis de São Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves, cuja disposição recomendava que fosse a da perspetiva dos ladrilhos do pavimento. E assim foram apresentados na célebre exposição Primitivos Portugueses. 1450-1550, no Museu Nacional de Arte Antiga, em 1940.

Desenhador hábil, produziu numerosas obras plásticas, grande parte das quais integradas em projetos de arquitetura da autoria de Porfírio Pardal Monteiro, como sejam: os vitrais e mosaicos da Igreja de Nossa Senhora de Fátima (1938), as pinturas murais das estações marítimas de Alcântara (1943) e da Rocha do Conde de (1948), no porto de Lisboa, que constituem uma das principais referências de pintura moderna em Portugal; as tapeçarias do Hotel Ritz (1956-1959), as gravuras dos pórticos das Faculdades de Direito (1958) e Letras (1961) de Lisboa. Famosas ficaram também as duas telas com o retrato de Fernando Pessoa (1954 e 1964).

Escritor, conferencista, novelista, crítico panfletário, polemista, ensaísta, romancista, poeta e dramaturgo, A Invenção do Dia Claro (1921) é considerada a sua obra poética mais destacada. O seu romance Nome de Guerra (escrito em 1925, mas publicado apenas em 1938) é considerado por alguns um dos mais significativos romances da história da literatura portuguesa. A Engomadeira, Saltimbancos e Quadro Azul marcaram a sua produção novelística mais significativa. Colaborou em várias publicações, como Diário de Lisboa, Athena, Presença, Revista Portuguesa, Cadernos de Poesia, Panorama, Atlântico, Seara Nova e Sudoeste.

Almada Negreiros é uma das figuras mais talentosas do século XX português. O seu génio multiforme permitiu-lhe estar presente em todas as frentes do modernismo. Foi provavelmente o maior provocador representante da geração vanguardista portuguesa. Com um humor semelhante na obra e na vida, deu ao grupo modernista o impulso, a vivacidade e a irreverência de que precisavam.

José de Almada Negreiros viria a falecer em Lisboa, a 15 de junho de 1970.

Obras publicadas na Imprensa Nacional-Casa da Moeda:

  • Poesia, com «Almada Negreiros Poeta», por Jorge de Sena, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. I, 1990 [Esgotado]
  • Nome de Guerra, prefácio de António Alçada Baptista, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. II, 1994 [Esgotado]
  • Artigos no Diário de Lisboa, org. e prefácio de E. W. Sapega, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. III, 1988 [Esgotado]
  • Contos e Novelas, com texto introdutório de Maria Antónia Reis, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. IV, 1993 [Esgotado]
  • Ensaios, introdução de Eduardo Lourenço, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. V, 1992 [Esgotado]
  • Textos de Intervenção, introdução de Luísa Coelho, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. VI, 1993 [Esgotado]
  • Teatro, todos os textos dramáticos conhecidos, incluindo três inéditos, Obras Completas de Almada Negreiros, vol. VII, 1993
E ainda:


TPR