Texto: Tânia Pinto Ribeiro
Fotografia: Rita Assis Santos


É pela «inovação» que passa o papel das artes — e o da literatura em particular — no combate à corrupção, segundo Guilherme d’Oliveira Martins, antigo presidente do Tribunal de Contas. Até porque «a única possibilidade que o homem e a mulher têm de contemplar a ação de Deus é sendo criadores». E se, em tempos, Umberto Eco questionou «o que deseja a cultura?», adiantando como resposta «tornar o infinito compreensível», Guilherme d’Oliveira Martins acrescenta: «A cultura pretende ser criadora e pretende favorecer o respeito mútuo, a compreensão de que o Outro é a outra metade de nós mesmos.» Ao mesmo tempo a cultura é a «nossa relação com a natureza» porque sempre que falamos de cultura falamos dessa «capacidade de semear e de colher». Expressão que Guilherme d’Oliveira Martins quer deixar registada é a da «cultura da língua portuguesa» como uma cultura de «melting pot, multifacetada e de diferenças» que, tendo nascido europeia, «projetou-se globalmente», tendo já «direito próprio» e onde os «crioulos não podem ser esquecidos». Portanto, não se peça tudo ao novo Secretário-Geral das Nações Unidas. «Julgo que há uma decisão muito importante a fazer: a reforma do Conselho de Segurança da ONU, designadamente a presença do Brasil como membro permanente no Conselho de Segurança». Depois disso, Guilherme d’Oliveira Martins não tem dúvidas: «a partir dessa reforma — que é urgente — é muito natural que o português se torne também língua oficial da ONU, sem grandes pressões». Para o administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, o que também tem de ser permanentemente «acompanhado, tratado e ‘regado’», por ser uma «flor muito frágil», é esse bem «extraordinariamente precioso» chamado Democracia. E para que nunca nos falte paixão política, Guilherme d’Oliveira Martins deixa a sugestão: «Tornemos os parlamentos nacionais mais presentes, mais ativos, prestando contas aos cidadãos, quer na dimensão nacional, quer na dimensão interestadual, quer na dimensão supranacional.» Precisamente, o texto fundamental, garante de direitos e valores essenciais a um regime democrático, acabou de celebrar os seus quarenta anos de existência. Para Guilherme d’Oliveira Martins, a Constituição da República Portuguesa, de 1976, continua a garantir esses direitos e continua a ser um instrumento com «potencialidades ainda futuras». De preferência sempre com o seu Preâmbulo original. Diz ainda que existem leis a mais, e que isso é «mau». Há que ter «poucas leis» e que estas sejam «claras» e «acessíveis» para o cidadão. E se a lei e a mentalidade se alteram num processo paralelo é porque há uma relação «íntima, biunívoca, entre a lei e a cidadania». Refere como exemplos admiráveis de cidadania Alexandre Herculano e [Joaquim Pedro de] Oliveira Martins. Ao último dedicou o n.º 64 da coleção «O Essencial sobre...», chancela INCM; o primeiro será um dos «protagonistas» do seu próximo livro, intitulado o Essencial sobre o Diário da República, também da editora pública. Para Guilherme d’Oliveira Martins, a política é «a mais nobre das atividades» e, por isso mesmo, «se não atrairmos os melhores à atividade cívica e política, não estamos a defender adequadamente o bem comum», e abre-se espaço à «mediocridade» e à «corrupção». Sabe-o, por experiência própria, que Portugal não é um país mais corrupto do que os outros. Mas gosta sempre de relembrar que a corrupção «começa no favor e acaba num crime» e é um «fenómeno preocupante». Tal como o são Donald Trump e o brexit. Diz que não deu conselhos ao seu filho, o atual secretário de Estado das Infraestruturas, porque «palavras, leva-as os vento» e o melhor é sempre a «experiência» e o «exemplo». Um «mestre», um «amigo» e alguém que lhe faz «muita falta» é António Sousa Franco, a cujo percurso o seu em tudo se assemelha: também ele um amante de livros, eminente professor de Direito, ministro, deputado e presidente do Tribunal de Contas. «Se olhar ali para a estante, vê a sua presença. A fotografia está ali para que eu nunca me esqueça. E é assim em todos os meus gabinetes de trabalho.» E foi no seu gabinete de trabalho da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, que Guilherme d’Oliveira Martins nos recebeu. Uma fundação criada há mais de sessenta anos para dar resposta às necessidades mais urgentes da sociedade portuguesa, com base nas suas quatro áreas estatutárias — Arte, Beneficência, Educação e Ciência — e cujas finalidades «se mantêm vivas e não podem deixar de ser aprofundadas». Quanto à coleção do seu fundador, «bem reveladora da personalidade de Calouste Gulbenkian» — que, ao que parece, «falava mal português» —, estima-se que seja uma das sete maiores coleções de arte privadas do mundo. «As reservas do Museu são extraordinariamente ricas.» E, boas notícias (!), hoje, um dos grandes desafios da Fundação é, precisamente, o de «tornar a coleção mais próxima do público em toda a sua riqueza». Guilherme d’Oliveira Martins não acredita em coincidências, mas a verdade é que nasceu no dia da escritura de constituição formal do Centro Nacional de Cultura, organismo ao qual viria a presidir. E talvez aí, sim, «tenha sido uma grande coincidência»! No final de tudo, perguntámos-lhe se um dia o poderíamos ver como diretor-geral da UNESCO, ele que já esteve na Comissão Nacional. Riu-se e respondeu que não. Mas Guilherme d’Oliveira Martins sabe-o bem: o céu não é o limite. O limite é, tão somente, a «capacidade de cada um»…



PRELO (P) — A 23 de setembro de 1952 Richard Nixon profere o seu «Checkers speech», o famoso «Discurso de Damas». Um discurso em que, o então senador e candidato à vice-presidência dos Estados Unidos, negava acusações de suborno e irregularidades relativas ao financiamento de sua campanha. No mesmo dia nascia em Lisboa um dos futuros presidentes do Tribunal de Contas, a instituição suprema de fiscalização e controlo de dinheiros e valores públicos. Acredita em coincidências?

Guilherme d’Oliveira Martins (GOM) — Não. As coincidências são coincidências. Assim como os jornais davam nota desse acontecimento, também davam nota de que Charles Chaplin estava em Nova Iorque, onde fez declarações sobre as perspetivas da sua carreira e da sua relação com o cinema. Diria que coincidência foi o facto de no dia 23 de setembro de 1952 ter sido feita a escritura de constituição formal do Centro Nacio
nal de Cultura, que tinha sido criado em 13 de maio de 1945 mas só foi formalizado no notário a 23 de setembro de 1952. Eu viria a ser presidente do Centro Nacional de Cultura, a que me ligam ligações muito fortes. E aí talvez sim, talvez, foi uma grande coincidência.

P — Ou talvez uma confluência dos astros…

GOM — Sobretudo há um dado importante: nasci no trânsito dos signos Virgem e Balança. Por isso, nunca sei bem qual é, de facto, o meu signo, porque nasci exatamente nessa transição.

P — E identifica-se mais com o rigor e preciosismo de Virgem ou com a busca do equilíbrio e da justiça de Balança?

GOM — [risos] Não conheço o suficiente sobre a matéria!

P — Realizamos esta entrevista no dia [8 de novembro de 2016] em que decorrem as eleições na América. Que acha desejável que resulte deste escrutínio?

GOM — O problema não é de desejabilidade. O problema é de realidade. O certo é que o fenómeno «Donald Trump» existe e, em qualquer circunstância, não pode deixar de ser tido em consideração. Não apenas nos Estados Unidos da América mas também quanto às necessidades evidentes de aperfeiçoamento da Democracia. É indispensável compreendermos o seguinte: é preciso aproximarmos mais os cidadãos das instituições quer em termos de representação quer em termos de responsabilidade. Essa é que é a grande questão! E é uma questão que ocorre também na Europa. Há uns meses tivemos uma surpresa, para mim desagradável, que foi a decisão do brexit. E aí estão todas as dificuldades e todas as dúvidas, uma vez que há nitidamente um corte entre os mais jovens e as gerações mais idosas relativamente ao futuro do Reino Unido. É uma procissão que ainda vai no adro. Não podemos deixar de respeitar aquilo que aconteceu no referendo. O referendo, ou a sua convocação, foi uma decisão muito aventurosa, como se prova. O que é facto é que nada estava preparado. Quando uma sociedade toma uma decisão com esta importância, naturalmente que deve preparar-se. Depois, há contradições muito grandes como foi a promessa feita à Escócia nas vésperas do referendo para a eventual independência. Prometeu-se que a Escócia seria necessariamente ouvida e tida em consideração numa qualquer decisão que viesse a ser tomada relativamente à Europa. Há muitas contradições. Ou seja, a Democracia é hoje um bem extraordinariamente precioso, dela dependem a Paz e a Segurança. Nesse sentido, temos de compreender que estamos a viver um momento decisivo.

P — Sente que atualmente a Democracia tende a desembocar num niilismo passivo, ou seja, numa falta de paixão política? Veja-se as taxas de abstenção em Portugal…

GOM — A Democracia está sempre incompleta. Esse aspeto é naturalmente importante. A sua pergunta suscita um problema em que tenho refletido bastante. O problema consiste na necessidade de aproximar as pessoas, aproximar os cidadãos da coisa pública. O cidadão comum, em determinadas matérias, nomeadamente em matérias europeias, desenvolve este euroceticismo. E isto acontece por toda a Europa. É algo que tem a ver com a insuficiência dos mecanismos de participação.

P — O que há a fazer?

GOM — Os parlamentos nacionais têm de ter um papel mais ativo, mais presente relativamente ao acompanhamento das matérias europeias, a subsidiariedade tem de fazer-se, isto é, a resolução dos problemas deve fazer-se próximo das pessoas, nos casos em que isso é possível. Tornemos, pois, os parlamentos nacionais mais presentes, mais ativos prestando contas aos cidadãos quer na dimensão nacional, quer na dimensão interestadual, quer na dimensão supranacional. Depois, defendo também para a União Europeia uma segunda câmara, um senado, que deve ser de representação igual de todos os estados, como acontece no Senado dos Estados Unidos. Para quê? Para assegurar uma dupla legitimidade: a legitimidade dos Estados e a legitimidade dos cidadãos. A legitimidade do Parlamento Europeu é, muitas vezes, uma legitimidade artificial. Está incompleta. Não estou a dizer que não seja importante. É importante mas está incompleta, e é preciso ser completada por um senado que traduza esta dimensão nacional e que preveja um papel muito interveniente dos órgãos nacionais, designadamente dos parlamentos nacionais. Esta preocupação de aperfeiçoar os mecanismos da Democracia é importante. A Democracia é uma flor muito frágil. Tem de estar sempre a ser acompanhada, tratada, regada…

P — Voltando às eleições americanas…

GOM — Independentemente de pensar que a senhora Hillary Clinton poderia ganhar as eleições, o certo é que o fenómeno Trump está aí.

P — Além de exercer as funções de presidente do Tribunal de Contas, foi também presidente do Conselho de Prevenção da Corrupção, da Organização das Instituições Superiores de Controlo das Finanças Públicas da Europa e do Comité de Contacto dos Presidentes das Instituições Superiores de Controlo da União Europeia. Pela sua experiência, acha que a corrupção em Portugal é mais acentuada do que em outros países?

GOM — Não. Não é mais acentuada do que nos outros países mas é um fenómeno preocupante. Tenho insistido nisso no desempenho das minhas funções. É indispensável percebermos que a corrupção está muito mais próxima dos cidadãos do que eles próprios supõem. A corrupção começa no favor e acaba num crime. E é tudo muito rápido. As fronteiras por vezes tornam-se extremamente ténues. Por isso mesmo, é indispensável haver planos de prevenção. A prevenção é absolutamente crucial. Claro que há outros países europeus onde os riscos de corrupção são ainda maiores do que os nossos. Mas com o mal dos outros podemos nós bem... Diria apenas duas coisas: primeira, devemos estar muito atentos uma vez que o fenómeno da corrupção nos espreita a cada passo; e, segunda, temos de montar sistemas preventivos designadamente no domínio dos conflitos de interesses.

P — E como é que se faz isso?

GOM — Temos de saber exatamente os processos de enriquecimento. Muitas vezes encontramos enriquecimentos súbitos, portanto temos de saber qual é a sua origem. Pode ser uma origem lícita e legítima, e aqui é indispensável dizer que «quem não deve não teme». E, por isso, quando existe a dúvida, a verdade deve ser esclarecida e deve prevalecer.

P — Falou do cidadão. A seu ver, qual é o papel do cidadão comum no combate à corrupção?

GOM — Um dia ia na rua e uma pessoa que não conhecia abeirou-se de mim e perguntou-me: «O que é que eu devo fazer? O que é que eu posso fazer para combater a corrupção?» E eu respondi-lhe: «Se tem conhecimento de um facto que possa corresponder a um ato de corrupção, deve denunciá-lo às autoridades.» E este é um princípio muito importante. Num país que viveu uma longa ditadura, as pessoas têm sempre a ideia de que a denúncia é algo menos bem-visto.

P — É visto como algo de pidesco…

GOM — A denúncia relativamente a atos lesivos do interesse geral e do bem comum é algo de fundamental. É isso que acontece nos países nórdicos. É verdade que são países com outra tradição, uma tradição calvinista, como refere Marx Weber, mas não é preciso sermos calvinistas para dizer, por exemplo, que não pagar impostos é roubo.

P — Dizia também o filósofo grego que «é muito mais fácil corromper do que persuadir».

GOM — Concordo. Sobretudo tendo em conta também a afirmação de Emmanuel Mounier: «O poder atrai os corrompidos e corrompe quem atrai.» Ou seja, o fenómeno mais preocupante aqui é que aos corrompidos se associam aqueles que, de algum modo, são arrastados por este fenómeno. A frase de Sócrates confirma a ideia de que a corrupção está próximo das pessoas e começa numa lógica de conhecimentos e de favores. Por que razão é que os gerentes das instituições bancárias não podem estar por um período muito longo com essa responsabilidade? Para evitar o conhecimento e para evitar a discriminação. No fundo, quando conhecemos as situações tendemos naturalmente a discriminar e a favorecer quem conhecemos em detrimento de quem não conhecemos. Na resolução de problemas que têm a ver com todos é necessário que corrijamos essa situação e que retiremos da decisão esse fator da empatia e conhecimento.

P — Qual é o papel das artes e da literatura, em particular, na prevenção da corrupção que referiu?

GOM — É o da inovação! No dia em que conversamos está a ter lugar, aqui em Lisboa, o Web Summit, que tem um peso muito significativo relativamente à inovação. Ao falarmos de inovação, falamos pelo menos de três realidades que tem a ver com a cultura. A primeira é justamente aquela que tem a ver com o progresso tecnológico; a segunda tem a ver com a inovação ligada à literatura ou à arte — às artes plásticas, à música, etc. —, e, em terceiro lugar, a inovação científica. É preciso não esquecermos que há bem pouco tempo 80% dos cancros eram doenças incuráveis e hoje apenas 20% estão nessa situação. E porquê? Porque houve inovação e eficácia relativamente à investigação científica. Diria que a inovação tecnológica, artística e literária e a investigação científica são processos semelhantes relativamente à inovação.

P — Escrevia Oscar Wilde que «a civilização não é de modo algum fácil de se conseguir. Há apenas duas maneiras possíveis de a alcançar. Uma é através da cultura, a outra através da corrupção»…

GOM — A cultura é a capacidade de influenciar a natureza, influenciar positivamente, transformá-la e pô-la ao serviço das pessoas. A corrupção ocorre não apenas com o fator humano mas também como degradação ou deterioração do próprio meio ambiente. Por exemplo, quando emitimos CO₂ em excesso ou quando poluímos os centros das cidades, etc., estamos a corromper também. Corrompemos a natureza. Esse fenómeno de corrupção na afirmação de Wilde é o contraponto à capacidade criadora. Alguém dizia que a única possibilidade que o homem ou a mulher tem de completar a ação de Deus é sendo criadores.

Umberto Eco  foi escritor, filósofo, semiólogo, linguista,
homem de letras e um grande bibliófilo italiano
P — Umberto Eco também levantou a questão: «O que pretende a cultura?» E deu a sua resposta: «Tornar o infinito compreensível.» Pergunto-lhe: o que pretende a cultura?

GOM — A cultura pretende ser criadora e pretende favorecer o respeito mútuo, a compreensão de que o outro é a outra metade de nós mesmos e, simultaneamente, a nossa relação com a natureza. Cultura e natureza estão sempre relacionadas. A cultura humana influencia sempre a própria natureza.

P — Falamos em cultura agrícola, por exemplo…

GOM — Agricultura... é a cultura do campo. Quando falamos de cultura falamos sempre nesta capacidade de semear e de colher. A cultura é uma sementeira. Em Portugal: Identidade e Indiferença [Aventura da memória. Lisboa: Gradiva, 2007], um dos meus livros, quando falo em Herculano e Garrett, e em «sementeira de ideias». Isto para referir os dois nossos grandes românticos, que tiveram uma influência muito além da escola que frequentaram e do tempo em que agiram. No caso de Alexandre Herculano, teve uma relação muito importante com a Geração de 70 e muito particularmente com Antero de Quental e com Oliveira Martins.

P — Os Vencidos da Vida...

GOM — Era uma relação tão estreita a ponto de, quando foi proibida a sessão das Conferências Democráticas do Casino, Alexandre Herculano ter sido o primeiro subscritor em protesto a essa decisão. Mas Herculano não deixa de dizer «eu não tenho de concordar ou discordar, tenho é de garantir que haja liberdade de expressão, liberdade de circulação de ideias». Isto vai ao encontro do que disse Voltaire, que «estava disposto a morrer para que aquele que não tenha as minhas ideias as possa exprimir».

P — Em Apocalípticos e Integrados, Eco diz-nos que não há alta cultura nem baixa cultura, tudo é cultura. É assim?

GOM — É assim mesmo. Há dias, a convite de Joana Vasconcelos, participei na inauguração do Pop Galo, na Praça do Comércio, em Lisboa. E, justamente, houve pessoas que me perguntaram: «Então como é que é?» E eu respondi: «É a ligação entre a cultura erudita e a cultura popular.» É que as pessoas esquecem-se, por exemplo, que o elemento «gal», as três letras finais da palavra «Portugal», significa a nossa ligação à civilização indo-europeia que une os Gálatas, os Galegos, os Galécios, os Gauleses, os Galeses… Isto significa, afinal, a compreensão deste fundo indo-europeu e céltico que aqui na finisterra se manifesta. O galo, simplesmente, é que anuncia a aurora, e projeta-se fora da Europa, uma vez que temos o candomblé em Salvador da Bahia, por exemplo. Essa cultura extraordinária que foi levada pelos africanos para a América do Sul, que fizeram essa mestiçagem cultural na qual o galo é um símbolo muito importante articulado com os orixás. Depois, temos evidentemente a nossa relação com o Oriente. Fomos os primeiros a relacionar-nos com o Japão e com a China. E não podemos esquecer que no calendário chinês o próximo ano é o ano do galo.

P — Porque refere esse dado?

GOM — Porque foi com muito gosto que aceitei o desafio da Joana Vasconcelos. É a cultura erudita e a cultura popular que estão no Pop Galo, como a Joana Vasconcelos tão bem o tem compreendido.

P — Então de que falamos quando falamos de «elitismo» na cultura?

GOM — Temos de prevenir essa situação. Essa é uma situação que tem de ser prevenida. A cultura não pode estar no último capítulo dos programas políticos.

P — Como é que isso se consegue?

GOM — A cultura tem de estar da primeira à última linha em qualquer programa de políticas públicas. A cultura não pode ser uma cereja no cimo de um bolo. E muitas vezes é-o. Trata-se de tudo, de todas as questões e depois lá se lembram de que falta um capitulozinho onde referir os escritores, os artistas, os músicos… Não pode ser assim. A cultura é transversal, mas, atenção! não se pode dizer que a cultura é tudo! Isto também é completamente errado. O que nós temos de compreender é que a cultura envolve a própria diversidade da ação humana, abrangendo-a. A cultura obriga a perceber o que está mais próximo da terra. Um artesão analfabeto, como dizia o meu querido mestre Agostinho da Silva, é extraordinariamente importante como agente cultural. Por outro lado, temos de ter em conta a educação. Na língua alemã usa-se a palavra Bildung. Bild é construção, é construir. Esta ideia de Bildung é não só a ideia de educação mas também a ideia de capacidade criadora. Da educação vem sempre uma troca.

P — Forma-se portanto um triângulo: Cultura, Educação e…

GOM — Ciência! Exatamente! E esse triângulo é fundamental. Quando nós estamos a apostar na cultura estamos a apostar no triângulo. Por isso é que lhe dizia que falar de cultura é falar de algo que está subjacente a toda a atividade humana e, logo, à cultura popular e à cultura erudita. E naturalmente que há uma ligação. Volto ao Pop Galo, esta ideia do pop, é algo com que temos de saber lidar.

P — Ainda acha que existem artes superiores e artes inferiores? A boa literatura é melhor do que o bom blues, por exemplo?

GOM — É muito difícil responder-lhe. A sua pergunta não se responde em claro ou escuro, em preto ou branco, em sim ou não. A sua pergunta responde-se dizendo que é preciso perceber — como o fazemos em relação aos valores — que há uma hierarquia. Não podemos ser indiferentes ou relativistas. Não podemos confundir o relativismo com o pluralismo. Nós vivemos numa sociedade pluralista, numa sociedade de diferenças mas isto não significa que tudo valha o mesmo. Não! Edgar Morin, de quem também tenho ali a fotografia, e que é uma pessoa que conheço bastante bem, introduz este elemento: o da complexidade. A cultura tem de ser a compreensão da complexidade onde há vários fatores e onde há uma hierarquia de valores. E são valores enraizados. São os valores dos homens e das mulheres, das pessoas de carne e osso. Isto obriga a compreender uma hierarquia: o Bem, o Bom, o Belo, o Justo e o Verdadeiro são valores aos quais não podemos ser indiferentes.

P — Há dias a Academia Sueca surpreendeu. O que achou da entrega do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan?

GOM — É cultura popular. É disso que falamos quando falamos de Bob Dylan. Talvez ainda não tenhamos a capacidade plena de compreensão de uma decisão destas. Tenho acompanhado o debate internacional em torno desta atribuição. Há argumentos contrastados. Há aqueles e aquelas que dizem «atenção!, é preciso compreendermos o papel da literatura», e aqueles que dizem «de algum modo a poesia de Bob Dylan é uma forma de expressar a relação moderna com o mundo e com a sociedade que nos cerca». Como todas as decisões inovadoras é algo que tem prós e contras. Mas devo dizer que não me choca a decisão de entregar o Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan. Mas esta decisão vai obrigar a uma profunda reflexão. O próprio júri do Prémio teve dúvidas. Aliás, neste ano tivemos um atraso relativamente à divulgação do Prémio Nobel da Literatura porque houve alguma controvérsia, compreensível. Vamos ver. Não me choca.

P — Defendeu que a lição essencial da nossa cultura tem a ver com a capacidade de prever, de planear e de persistir. Consegue antever de que maneira é que a nossa cultura vai evoluir?

GOM — A nossa cultura vai evoluir em relação com as outras culturas. A cultura da língua portuguesa — aqui registo a expressão — é uma cultura de melting pot, multifacetada, de diferenças; é uma cultura que tendo nascido europeia projetou-se globalmente. Penso que a melhor expressão relativamente à projeção internacional desta nossa cultura é falar de uma língua de várias culturas e de uma cultura de várias línguas.

O músico norte-americano Bob Dylan tornou-se o 113.º escritor
a receber o prémio literário mais cobiçado do mundo: o Nobel. 
P — Não há uma contradição nesta expressão?

GOM — Não há qualquer contradição nessa expressão. É, de facto, uma língua de várias culturas porque se projetou universalmente. É hoje a 3.ª língua europeia mais falada no mundo, a 1.ª mais falada no Hemisfério Sul e é uma das cinco línguas que mais vai crescer até ao final deste século.

P — E que está presente nos cinco continentes...

GOM — Está presente nos cinco continentes... E, depois, é uma cultura de várias línguas uma vez que não podemos esquecer a relação da cultura portuguesa com os crioulos, que são línguas subsidiárias de uma língua principal, que é o português. Os crioulos não podem ser esquecidos. E sublinho: não podem ser esquecidos. No romance extraordinário, da autoria de Baltazar Lopes, Chiquinho encontramos as idiossincrasias próprias de Cabo Verde e as várias culturas e línguas com a existência do português. Tudo isto vindo de um mestre da língua portuguesa, Baltazar Lopes, que foi também professor de latim no Liceu Camões. Não é por acaso que isto acontece. Foi este professor de latim e cultor da língua portuguesa que abriu as portas relativamente às outras línguas com as quais esta língua se relaciona.

P — Qual a política atual da Fundação Calouste Gulbenkian em relação à promoção da língua portuguesa no estrangeiro?

GOM — O reforço, a reorientação. Nas linhas principais de ação da Fundação temos a internacionalização da língua e da cultura. E esta internacionalização da língua e da cultura obriga à compreensão do papel na preservação do património cultural, no sentido amplo, de responsabilidade e futuro. Na noção de património muitas vezes perdemos a sua etimologia. A noção de patri munus: o dever que temos perante aquilo que recebemos dos nossos pais. Não é um culto retrospetivo daquilo que recebemos, é uma responsabilidade. E o património, para ser preservado, tem de ser enriquecido.

P — Em 2010, dedicou o texto Mestre Cidadão, publicado pela INCM, a Alexandre Herculano, que defendia que «querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é o querer». Sempre quis fazer política? Ou isso é mesmo de família — tem um tetravô que foi ministro do Reino a seguir à revolução de 1820; um tio-avô que foi ministro da Fazenda; agora, um filho que é secretário de Estado…

GOM — Considero que a política é a mais nobre das atividades. É aquela que cuida do bem comum. E se nós não atrairmos os melhores à atividade cívica e política — ligo sempre as duas coisas —, não estamos a defender adequadamente o bem comum e damos espaço à mediocridade e à corrupção. E temos de estar atentos quanto a isto. Quando oiço dizer, muitas vezes, «Ah! A política não é para mim, isso é sujar as mãos…», digo que é indispensável perceber que os melhores têm de estar na vida política.

P — É uma questão de cidadania?

GOM — Sim, por uma questão de cidadania. Quando nós vemos, por exemplo, esse momento extraordinariamente importante que foi a Assembleia Constituinte de 1975 vemos a composição dessa Assembleia que é absolutamente notável, em que há um conjunto de personalidades que se envolveram, que participaram ativamente e que permitiram aprovar uma lei que é das mais duradouras na nossa história constitucional. Isso é positivo! Contra a indiferença, é positivo que tenha havido uma grande mobilização.

P — A seu ver, Alexandre Herculano é um exemplo de cidadania?

GOM — É um exemplo bastante significativo que eu admiro profundamente. E admiro designadamente pela afirmação que referiu. A Herculano, ao ter estudado a história portuguesa, pôs-se-lhe uma questão: «Porquê haver Portugal?» E Herculano costumava dizer que «as razões para não haver podem ser em maior número que as razões para haver». Então porque existíamos? E ele dizia: «Somos porque queremos.» Esta ideia é particularmente importante. Os grandes historiadores têm andado em torno deste tema. Recordo Alexandre Herculano, Oliveira Martins e mais modernamente José Mattoso.

P — Qual é, então, a razão de ser de Portugal?

Retrato de Alexandre Herculano
por João Pedroso, 1877.
GOM — Há uma razão geográfica, que é óbvia. É a nossa frente atlântica. Nós somos marítimos, a Espanha é continental. Até aos Reis Católicos, Castela hesitou, e os reis portugueses também hesitaram relativamente a Castela, nomeadamente para saber se a Península Ibérica se deveria dividir numa união entre Portugal e Castela, ou se Portugal ficaria autónomo com a nossa frente marítima, ou se Castela se uniria a Aragão. Foi isto que acabou por acontecer. A verdade é que há uma continentalidade na realidade de Espanha. Daí, e voltando ao brexit e às minhas preocupações relativamente à eventual saída do Reino Unido da União Europeia, que seja negativo enfraquecer a frente atlântica. A frente atlântica tem funcionado. O tratado luso-britânico — tão antigo que é, e não é tão antigo por acaso — deve-se justamente a essa articulação natural marítima e atlântica. Já a França tem neste momento esse dilema entre a continentalidade e a «maritimalidade». Portugal nunca teve essa dúvida. Portugal existe graças à frente atlântica e, simultaneamente, à vontade dos Portugueses.

P — Acha que nos últimos anos, principalmente a partir de 1986, existe a vontade de nós, Portugueses, nos voltarmos para o continente, para a Europa?

GOM — Nesse aspeto, sou muito concordante com aquilo que disse Eduardo Lourenço. E hoje podemos completar o seu raciocínio, que está muito claramente explícito em ensaios como o Labirinto da Saudade ou Psicanálise Mítica do Destino Português e, depois, com toda a sua intervenção no decorrer da Expo’98 e com os textos que na altura fez. Eduardo Lourenço disse algo com o qual estou profundamente de acordo. Disse que Portugal é originalmente europeu através de um melting pot, mas não se compreende sem a projeção extraeuropeia. Portanto, Portugal não é só a dimensão extraeuropeia nem só a dimensão europeia. Nisso partilhamos uma vocação com a Espanha. Costumo citar muitas vezes Lorenzo Natali, que foi o comissário do alargamento de Portugal e Espanha, quando os dois países entraram na Comunidade Económica Europeia. Este costumava dizer que, quando Portugal e Espanha entrassem na Comunidade Europeia, esta mudaria de natureza, uma vez que iria receber não apenas a presença europeia dos países ibéricos mas também a sua dimensão extraeuropeia. Isso hoje está muito claramente demonstrado. Se virmos bem, o alargamento à Península Ibérica teve uma importância que os alargamentos do Centro e Leste da Europa não tiveram. Temos no alargamento ibérico um caso de sucesso. Evidentemente que este alargamento coincidiu com momentos particularmente importantes: o Ato Único Europeu, a coesão económica e social, três anos depois veio a queda do muro de Berlim. Claro que isto precipitou as coisas. Aquilo que era o debate de alargamento e aprofundamento rapidamente se tornou no debate de alargamento inexorável, como um ato quase fatal. E hoje estamos a pagar isso. Porque esse alargamento foi um alargamento demasiado rápido, não devidamente consolidado — é certo que o mesmo já tinha acontecido com o alargamento à Grécia, que não reunia minimamente as condições de aderir ao euro, ao contrário do que aconteceu com Portugal e Espanha. Hoje, vistas as coisas, Portugal e Espanha tinham perfeitas condições para aderir ao euro desde que — e é isso que tem faltado à União Europeia — houvesse uma verdadeira coesão económico-social.

P — Que é que falta neste momento?

GOM — Há poucos meses discutiu-se muito o sancionamento de Portugal e Espanha relativamente ao critério da convergência e esqueceu-se clamorosamente de referir que havia dois países, a Alemanha e a Holanda, que estavam a violar também o Tratado, no que se refere à coesão económico-social. Tanto a Holanda como a Alemanha acumulavam excedentes e não os partilhavam. Ora, a coesão económico-social obriga a uma partilha de todos: de quem acumulou excedentes e de quem é beneficiário dos mesmos.

P — Podemos saber, enquanto pai e enquanto político que foi, qual o principal conselho que deu ao seu filho antes de este assumir o cargo de secretário de Estado das Infraestruturas?

GOM — A minha relação com o meu filho não se baseia em conselhos, mas sobretudo numa permanente troca de ideias e impressões. Não penso que o método correto seja dar conselhos. Palavras, leva-as o vento. O melhor é sempre a experiência, o exemplo. O meu filho é professor na Faculdade de Direito, onde também fui professor. Depois, doutorou-se na especialidade que eu também segui: o direito financeiro. Isso para mim é naturalmente um motivo de orgulho. Cultivei o direito financeiro graças ao meu Professor António Sousa Franco, está a ser seguido pelo meu filho e também pela minha filha, que é professora de Finanças Públicas na Faculdade de Direito da Universidade Católica. Neste aspeto, dois dos meus filhos seguiram os meus passos. Mas devo dizer-lhe que num e noutro caso não tive qualquer influência. No caso da minha filha, até foi o Professor Sousa Franco, no último ano que esteve entre nós, que a convidou para ser sua assistente. Mantenho com o meu filho uma relação de troca de ideias, e isso é que me parece importante.

P — Refere António Sousa Franco, também ele um amante de livros, eminente professor de Direito, ministro, deputado e presidente do Tribunal de Contas. Têm, aliás, um percurso parecido… Qual a importância do seu mestre para o seu percurso?

GOM — Toda! Se olhar ali para a estante vê a sua presença. A fotografia está ali para que eu nunca me esqueça e é assim em todos os meus gabinetes de trabalho. António Sousa Franco era uma pessoa absolutamente excecional. Conheci-o como meu professor na Faculdade de Direito e depois seguiu-se um percurso de aproximação e depois de relação familiar, uma vez que ele é o padrinho da minha filha mais nova, que não se dedicou ao Direito, mas às artes plásticas e à arquitetura. Foi uma relação muito próxima, até ele ter morrido. A poucas horas de morrer telefonou-me. Foi durante uma campanha eleitoral, como bem sabemos, ele estava profundamente empenhado e com razão porque o que é facto é que ele iria ter um resultado muito bom, uma vitória clara nas eleições. António Sousa Franco é um mestre, é um amigo e alguém que me faz muita falta. Muitas vezes dou por mim a pensar: «Se ele aqui estivesse, o que me diria?» Havia um contacto muito natural e permanente entre nós.

P — Exerceu também funções de ministro da Presidência, das Finanças e da Educação. Foi secretário de Estado da Administração Educativa e deputado à Assembleia da República. É atualmente administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian e presidente do conselho das artes do Centro Nacional de Cultura. A melhor coisa é sempre aquela que está a fazer no presente?

GOM — É. É assim exatamente. Essa é a atitude correta. E comigo tem sido assim. Dou sempre tudo o que posso relativamente àquilo que estou a fazer. Tenho tido a alegria de ter feito coisas que gosto de fazer. Obviamente que há momentos melhores e há momentos piores. Maiores dificuldades, menores dificuldades, isso é natural.

P — É um homem de balanços? Passou por ministérios ditos «complicados». Dá por si a pensar naquilo que fez, no que não fez, no que poderia ter feito?

GOM — Sim. É evidente que todos nós fazemos balanços e ponderações. Mas o pior general é aquele que discute por que razão perdeu a última batalha; o melhor general é aquele que discute como é que vai vencer a próxima batalha. Essa é a atitude correta. E neste sentido os balanços retroativos não estão muito no meu caráter. Todos nós cometemos erros. Essa é a verdade.

P — O próprio Herculano dizia que não se envergonhava de corrigir os erros e de mudar de opinião «porque não me envergonho de raciocinar e aprender».

GOM — Não posso estar mais de acordo!

P — Assim de repente, há alguma coisa de que se arrependa?

GOM — De tudo o que é da minha experiência, procuro retirar sempre os aspetos positivos. Se me perguntar se cometi erros, claro que os cometi. Todos os dias cometemos erros! Somos imperfeitos. Eu relativizo um pouco as coisas. Se tivesse uma outra conceção da vida, certamente que me penalizaria pela imperfeição. Julgo que os erros podem ser sempre positivos, desde que possam ser retificados.

P — O erro pode ser pedagógico…

GOM — Exatamente!

P — Nos anos 1960 frequentou o Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Andou sempre em escolas públicas?

GOM — Sempre! Andei sempre em escolas públicas. A escola primária, fi-la na Escola n.º 6, em Campo de Ourique, D. António da Costa. Foi, aliás, uma escola que fiz questão de visitar quando fui ministro da Educação e levei lá os meus colegas. Era a escola do Casal Ventoso, e, portanto, foi um contacto com a realidade social. Hoje, o bairro de Campo de Ourique é diferente, até porque já não existe o Casal Ventoso. Mas a minha experiência foi sempre muito boa na escola pública. Os meus filhos já tiveram as duas experiências. Não tenho parti pris, antes pelo contrário: acho que a liberdade de ensinar e aprender é algo fundamental e, por isso, tenho desenvolvido com o meu amigo Marçal Grilo a noção de serviço público de educação, onde serviço público não é sinónimo de serviço estatal. A educação é algo que tem progredido através da complementaridade de iniciativas. Recordo que, quando lançámos o ensino pré-escolar — e foi um caso de sucesso, e aí está um caso de que me orgulho —, lançámos essa ideia como rede pública e não como rede estatal. Daí a importância das instituições particulares de solidariedade social, e designadamente as respostas às necessidades efetivas das comunidades e muito concretamente as questões dos horários: os horários das mães e das famílias muitas vezes não se compadecem com uma lógica rígida dos horários padronizados.

P — Acha que o ensino público atual é um ensino de qualidade?

GOM — Acho claramente. Aliás, não tenho qualquer dúvida. E aí também refiro a necessidade de também haver, cada vez mais, maior exigência e maior rigor em todos os níveis de ensino. As boas experiências do ensino público e do ensino privado tendem a inter-relacionar-se. Eu estou mal habituado. Como referiu, fui aluno do Liceu Pedro Nunes, que era na altura o melhor liceu da cidade de Lisboa. Todos o reconhecem. Basta ver os resultados, pela vida fora, dos antigos alunos do Pedro Nunes. Era de facto uma instituição de referência.

P — Nasceu no meio dos livros, na biblioteca do seu avô. Como é que isso foi acontecer?

GOM — Foi! Aconteceu porque os meus pais estavam em casa dos meus avós nesse dia. Nessa altura, os meus pais moravam em Queluz. Hoje Queluz fica ali ao lado, mas naquela altura não era assim tão perto. E o que aconteceu foi que eu me adiantei. E o compartimento da casa dos meus avós que estava livre para eu nascer era a biblioteca.

P — Foi presidente do steering committee do Conselho da Europa que aprovou a Convenção de Faro, precisamente sobre o valor do Património Cultural na sociedade contemporânea.

GOM — Coordenei, no Conselho da Europa, a feitura da convenção-quadro sobre o valor do património cultural, a Convenção de Faro, que foi aprovada em 2005 e entrou em vigor em 2011. Tenho especial orgulho em referir isto, porque nem todas as convenções entram em vigor. Hoje, ela é obrigatória para quem a subscreveu. A Convenção de Faro diz que o património é material e imaterial. Nesse ponto seguimos as orientações mais recentes da UNESCO. Simultaneamente é também o diálogo com a criação contemporânea.

P — Atualmente, a ONU tem seis línguas oficiais: o castelhano, o inglês, o mandarim, o russo, o francês e o árabe. O próximo Secretário-Geral das Nações Unidas afirmou que gostaria de ver o português tornar-se uma das línguas oficiais desta organização. Que papel terá a língua portuguesa quando Guterres for Secretário-Geral da ONU?

GOM — Não se pode pedir tudo ao novo Secretário-Geral da ONU, sobretudo com uma agenda tão complexa e importante. Eu estive na Comissão Nacional da UNESCO, entre 1988 e 1993, com Helena Vaz da Silva, e conheço bem todo esse combate pela presença da língua portuguesa. Devo dizer que a língua portuguesa tem um lugar de direito próprio, uma vez que estamos a falar da 3.ª língua europeia mais falada pelo mundo. É já uma língua de trabalho; quer nas Nações Unidas quer nas organizações setoriais, podemos usar a língua portuguesa como instrumento de trabalho. Não é ainda língua oficial como referiu, mas o mais importante é que a língua portuguesa é indiscutivelmente umas das que terão mais projeção no decorrer deste século. Entre 2070 e 2100 a língua portuguesa vai continuar a ser a língua mais falada no Atlântico Sul. Temos o desenvolvimento natural do Brasil, que tem, neste momento, 230 milhões de falantes, e temos Angola. E teremos o desenvolvimento, até meados do século, do eixo entre o Huambo e Benguela, que vai representar uma enorme potencialidade. O português da internet também tem uma expressão enorme.

P — Mas falta-lhe o tal certificado, o tal carimbo…

GOM — Todos nós gostaríamos que essa decisão fosse tomada. Pessoalmente, julgo que há uma decisão muito importante a fazer: a reforma do Conselho de Segurança da ONU, designadamente a presença do Brasil como membro permanente. Ligaria estes dois elementos. Não tenho dúvidas de que a partir desta reforma, que é urgente, em que o Brasil tenha lugar como membro permanente no Conselho de Segurança, é muito natural que o português se torne também língua oficial, sem grandes pressões. Mas quero expressar aqui que o português é já uma língua de direito próprio em relação às línguas das Nações Unidas.

P — O fundador desta casa, onde conversamos hoje, Calouste Sarkis Gulbenkian, falava português? Ou melhor, aprendeu a falar português?

GOM — Creio que não. Se falava, era muito pouco. Mas é alguém a quem devemos tudo. E não me refiro só à Fundação, refiro o próprio País. Se nós pensarmos que a partir de 1956 a cultura é assumida como uma responsabilidade inovadora e de futuro, devemos esse impulso extraordinário a Calouste Gulbenkian. Falo do apoio dado a tantos e tantos estudantes, a tantos e tantos artistas, das bolsas de estudo concedidas a milhares de beneficiários e a abertura de horizontes que isto possibilitou e representou.

P — O papel das bibliotecas itinerantes também foi pioneiro.

GOM — As bibliotecas itinerantes foram importantíssimas. Não podemos esquecer o papel de Branquinho da Fonseca e de David Mourão-Ferreira, pessoas que estiveram envolvidas na Fundação. Foram milhares as pessoas que tiveram acesso à leitura através das carrinhas das bibliotecas itinerantes! Se pensarmos nisto tudo, é absolutamente extraordinário! Mas é extraordinário não de um ponto de vista de uma realidade que se considere pretérita; é uma responsabilidade de agora. Hoje, temos de fazer aquilo que outros não fazem, porque entretanto muitos estão a fazer aquilo que a Fundação fez. E ainda bem! Hoje, há programas públicos e há intervenção do Estado… Neste momento, a preocupação é que a Fundação faça aquilo que outros não fazem nos domínios da cultura, da educação, da ciência, etc.

 O serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian  foi criado em 1958, segundo uma ideia de Branquinho da Fonseca.
Tinha por objectivos «promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos,
assentado a sua prática no príncipio do livre acesso às estante, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço.» 
O serviço foi extinto em 2002.

P — Aliás, neste momento, numa parceria com a Casa Fernando Pessoa a delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, está a organizar, de 4 de outubro a 18 de dezembro de 2016, o Festival da Incerteza, que vai mostrar, pela primeira vez ao público francês, a biblioteca particular de Fernando Pessoa. Já começou a receber reações?

GOM — Já, já. E, como compreende, tive oportunidade de ter estado na inauguração e de ter assistido ao início dessa extraordinária experiência e iniciativa que permite, afinal, divulgar a figura de Fernando Pessoa. Uma figura hoje tornada universal, tornada referência, tornada mito no bom sentido, na compreensão crítica dos mitos. Para Eduardo Lourenço, os mitos valem pela possibilidade que nos dão de assumir uma perspetiva crítica, uma cidadania ativa.

P — Crítico literário francês, expoente da «Nova Crítica», que na década de 1970 exerceu uma enorme influência nos meios intelectuais de todo o mundo, Roland Barthes defendia que «toda a Lei que oprime um discurso está insuficientemente fundada». Pergunto-lhe: acha que as nossas leis são suficientemente transparentes e compreensíveis para o cidadão comum?

GOM — Tenho dito que se produz leis a mais e isso é mau. Temos de ter poucas leis e leis claras e compreensíveis para o cidadão. Leis claras e compreensíveis para os cidadãos é meio caminho andado para combater a corrupção.

P — O Código Civil, referência basilar da nossa literatura jurídica, faz este ano cinquenta anos. Desde 1966 até hoje já sofreu cerca de 70 alterações. A seu ver, quais são as mais importantes e de que maneira é que isso se reflete na nossa vida?

GOM — As mais importantes foram aquelas que disseram respeito ao direito de família. Foram, sem dúvida, as mais significativas. Festejamos os cinquenta anos do Código Civil, porém temos de recordar também o primeiro Código Civil, o Código Civil de Seabra. Alexandre Herculano teve um papel fundamental na sua comissão de redação. Portanto, é somar cem anos mais. Este ano festejamos 1966-2016, para o ano celebramos 1867-2017. Serão justamente números redondos em relação à ideia do Código Civil. O Código Civil que é um instrumento extraordinariamente importante e que deve ser modelário. Dou dois exemplos: o Código Civil e a Legislação Tributária, a legislação dos impostos. Temos de ter a enorme preocupação de dar estabilidade a esses instrumentos. Nós para garantir atratividade aos agentes económicos temos de ter um sistema fiscal justo, estável e permanente e para isso temos de ter um quadro jurídico estável quer no domínio civil quer no domínio penal.

P — A celebrar quarenta anos temos outro texto fundamental: a Constituição da República Portuguesa (CPR). Acha mesmo que na prática a CRP continua a funcionar como garante de direitos e das regras e valores essenciais a um regime democrático?

GOM — Não tenho dúvidas, uma vez que a CRP de 1976 é um instrumento que tem já quarenta anos mas tem potencialidades futuras. Sou muito pela estabilidade das leis fundamentais. Dou muitas vezes o exemplo da Constituição dos Estados Unidos da América que é um instrumento que ninguém põe em causa relativamente à sua importância e significado. A CRP de 1976 que eu penso que teve duas revisões constitucionais que a fortalecerem (a de 1982 e a de 1989) tem um domínio de uma extraordinária estabilidade e que diz respeito aos direitos, liberdades e garantias. E estes direitos, liberdades e garantias são, em primeiro lugar, aqueles de aplicação direta e, em segundo lugar, aqueles de aplicação indireta, que são os direitos económicos e sociais. Há dias, recordava um grande amigo que nos deixou há pouco, o Professor António Barbosa de Melo que foi o autor da declaração de voto do então PPD na Assembleia Constituinte. É um documento modelar que dá nota da importância do compromisso. Afinal a CRP de 1976 é um compromisso onde se notam as várias influências. Não há unilateralidade. Temos os vários partidos, as várias influências, as várias componentes — desde o CDS ao PCP. Todos eles têm marcas. E o Professor António Barbosa de Melo, nessa declaração de voto notável, diz-nos exatamente que a CRP é, no fundo, a marca e, simultaneamente, o quadro geral relativamente à Democracia.


Assembleia Constituinte em 1976.

P — Há já alguns anos que se fala em rever o Preâmbulo da CRP. Concorda?

GOM — Não.

P — Porquê?

GOM — Acho que o Preâmbulo é um documento histórico. Não é propriamente normativo e representa, de algum modo, o selo que nos reporta à circunstância histórica em que a CRP foi aprovada.

P — A seu ver, o que muda em primeiro lugar: a lei ou a mentalidade?

GOM — O processo é sempre paralelo uma vez que o contrato social obriga o legislador a influenciar a sociedade. É preciso repensar permanentemente o contrato social. Há uma relação íntima, biunívoca entre a lei e a cidadania.

P — Estou a pensar na Educação Rodoviária e na obrigatoriedade do uso do cinto de condução. No início dos anos 1990 só depois de a lei mudar e das multem surgirem é que se começou a ser um hábito o uso do cinto de condução. É um exemplo arbitrário…

GOM — Dou-lhe outro exemplo concreto, onde eu próprio sou protagonista. Quando cheguei ao Tribunal de Contas defendi que muitas das sanções deviam ser reforçadas — e foram reforçadas — em nome da dissuasão. É importante termos na lei essa coercibilidade e explicar às pessoas que a lei se não for cumprida deve ter consequências.

P — Escreveu O Essencial sobre Oliveira Martins. Que é essencial saber-se sobre Oliveira Martins numa frase?

GOM — Essa capacidade extraordinária de alguém que morreu com 49 anos e tem uma obra multifacetada e referencial.

P — Está a preparar O Essencial sobre o Diário da República. Que detalhes engraçados é que descobriu na sua pesquisa?

GOM — Ui! Voltamos a Alexandre Herculano, que foi redator do Diário do Governo, e ao facto de aí ter exprimido o maior elogio que conheço relativamente à Constituição de 1838. Alexandre Herculano escreveu o livro contra a revolução de setembro de 1836, A Voz do Profeta, mas, perante o resultado da Assembleia Constituinte que aprovou a Constituição de 1838, elogiou esse documento e tornou-se num defensor ativo. Quando Costa Cabral, no golpe de Estado de 1842, veio a restaurar a Carta, Herculano não baixou os braços enquanto não foi possível — com a Regeneração, em 1851, e depois no ato adicional em 1852 — incorporar na Carta os elementos fundamentais da Constituição de 1838. Essa série de textos, infelizmente, não está ao alcance do grande público. Ainda há dias, a propósito da publicação da obra de Camilo Castelo Branco, dizia que continuam por publicar obras fundamentais, nomeadamente os Opúsculos, de Alexandre Herculano, onde estão os textos que ele fez para o Diário do Governo. Claro que o Diário do Governo era muito diferente do que é hoje o Diário da República. O Diário da República publica atos oficiais, e o Diário do Governo, daquela altura, tinha uma componente de reflexão com ensaio e crítica, de que Alexandre Herculano é o exemplo.

P — Como e quando é que começou a sua ligação com a editora do Estado, INCM?

GOM — Devo invocar aqui a memória do meu grande amigo que foi Vasco Graça Moura. Foi justamente no início dos anos 1980 que Vasco Graça Moura me desafiou a começar a colaborar com a INCM, nomeadamente com a Biografia de Oliveira Martins. Vasco Graça Moura é diretamente o responsável por ter começado a colaborar com a Imprensa Nacional, e não deixo de o invocar com muita saudade.

Rolando Sá Nogueira, Figuras (1964).
Tapeçaria pertencente à coleção do Museu Gulbenkian.
P — Quando foi criada, a Fundação Gulbenkian deu resposta às necessidades mais urgentes da sociedade portuguesa, com base nas suas quatro áreas estatutárias: arte, beneficência, educação e ciência. Continuam os desígnios da Fundação Calouste Gulbenkian a ser os mesmos, sessenta anos passados?

GOM — Continuam. A Fundação é uma instituição perpétua cujas finalidades se mantêm vivas e não podem deixar de ser aprofundadas. Esse é o desafio no qual nos encontramos.

P — Uma das marcas atuais da Gulbenkian é a questão de educação para a cidadania. Qual é, a seu ver, no domínio da educação para a cidadania, a área mais urgente e prioritária?

GOM — A maior urgência é a educação para a cidadania ativa. Há poucos meses, tive oportunidade de voltar a apresentar a Educação Cívica de António Sérgio, e é essa educação cívica, de que nos fala António Sérgio, que é preciso reforçar. Essa é a grande urgência: educar para uma cidadania ativa. É preciso compreender que uma criança é já um cidadão na medida das suas capacidades. Isto é extremamente importante.

P — Colecionador eclético, Calouste Gulbenkian tinha pelos seus objetos de arte uma grande afeição, tratando-os por «mes enfants». Estima-se que a coleção do fundador é uma das sete maiores coleções privadas do mundo.

GOM — As reservas do Museu são extraordinariamente ricas. Hoje, outro grande desafio que a Fundação tem é o de tornar mais próximo do público a coleção na sua riqueza. E esta coleção é bem reveladora da personalidade de Calouste Gulbenkian. Daí o percurso que nós invocamos em Paris na Casa dos Arménios e na Residência André de Gouveia. Nesse sentido, esse percurso e essa coleção são fundamentais.

P — As moedas antigas foram uma das grandes paixões de Calouste Gulbenkian. Qual a relevância da numismática na coleção do fundador?

GOM — A numismática permite-nos seguir a vida dos povos, e as moedas raras que Calouste Gulbenkian reuniu demonstram bem o seu grande apego à Antiguidade clássica e a esse diálogo muito rico entre o Ocidente e o Oriente.

A colecção da Fundação Calouste Gulbenkian inclui objetos de vários períodos e áreas: Arte Egípcia, Arte Greco-Romana, Arte Islâmica e do Extremo Oriente e ainda Numismática, Pintura e Artes Decorativas europeias.  A afirmação «only the best is good enough for me» reflete bem os critérios de qualidade pelos quais o seu fundador se guiava.

P — Calouste Gulbenkian era também um bibliófilo. Da biblioteca particular do fundador gostaria de destacar algumas obras?

GOM — Sim. Uma memória que não esqueço foi quando Orhan Pamuk visitou a Fundação Gulbenkian e ficou absolutamente apaixonado com os originais das gravuras sobre Istambul e a civilização turca. E Orhan Pamuk disse-nos que, naquele momento, o seu maior desejo seria estar aqui na Fundação, durante uns dias, esquecido, para poder admirar esta riqueza extraordinária, uma vez que muitas das gravuras originais que ele encontrou aqui só as conhecia em reprodução.

P — Livros, moedas… Para quando uma parceria da Gulbenkian com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda?

GOM — A parceria com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda está já a ser preparada!

P — Calouste Gulbenkian refugiou-se em Portugal aquando da Segunda Guerra Mundial. Como é que a Fundação está a acompanhar a crise dos refugiados e que medidas concretas tem vindo a implementar?

GOM — A Fundação está a acompanhar esta questão, a par das outras fundações, no âmbito do Vision Europe. Está a acompanhar na medida das suas responsabilidades e na medida também da necessidade de uma rede da sociedade civil e das principais fundações mundiais para tomar consciência relativamente a este problema. Não é um problema imediato, ou seja, do curto prazo, mas é um problema que tem de ser entendido no largo prazo. Não é um problema só destes refugiados, mas dos refugiados pelas suas diversas razões.

P — Já esteve na Comissão Nacional da UNESCO. Agora, no Centro Nacional de Cultura e na Fundação Gulbenkian. O passo que se segue poderá vir a ser, então, a Direção-Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a UNESCO?

GOM — [risos] Certamente que não...

P — O céu é o seu limite?

GOM — O limite é a capacidade de cada um!


Lisboa, novembro de 2016.






10 personalidades elegeram «o livro de 2016» para o DN | Artes de 31 de dezembro.

Para Nuno Júdice e Teolinda Gersão, Manuel Teixeira Gomes «boémio, negociante, melómano, viajante, escritor, diplomata, Presidente da República» de José Alberto Quaresma, Estrada Nacional de Rui Lage e história do século vinte de José Gardeazabal estão entre os melhores.


Nuno Júdice elogia biografia de Teixeira Gomes.
O poeta e ficcionista Nuno Júdice elegeu uma biografia e dois livros de poesia. No primeiro caso, Biografia - Manuel Teixeira Gomes, de José Alberto Quaresma: «É o trabalho mais completo até agora feito sobre um dos nossos grandes novelistas da transição do século XIX para o XX, com um enquadramento contextual exaustivo para situar a personalidade de um homem que marcou a política internacional do país na primeira década da República, como embaixador em Londres, e a política nacional ao ser eleito presidente, em 1923. Compreende-se que um espírito cosmopolita e um esteta intransigente no seu bom gosto não tenha suportado a mediocridade lisboeta, os pequenos ataques vis, e sobretudo a inveja pela popularidade de que desfrutava.» Quanto à poesia: «Ainda se encontram alguns rari nantes no nosso mar poético: Estrada nacional, do Rui Lage, e um primeiro livro que já impõe o nome do autor: História do século vinte, de José Gardeazabal. Uma confirmação e um autor a seguir.



Montaigne escreveu uma obra monumental, em extensão e em profundidade, de que é quase impossível extrair o essencial em poucas páginas. Clara Rocha consegue esse tour de force num ensaio acessível a qualquer leitor, sem contudo ser mera «divulgação». Montaigne, complexo e diverso, é visível no seu esplendor. Quem é este homem, que dedica toda a vida a escrever um livro? Que sabe ele de si próprio, do mundo, do bem e do mal, da doença, da morte, de Deus, da humanidade, da existência? Que sabe ele da escrita? Procurando respostas, Montaigne encontra a forma do ensaio como género literário: proteico, omnívoro, e ao mesmo tempo exercício, tentativa, esboço, forma sem forma, em permanente evolução. Toda a escrita ensaística, mas também biográfica, memorialista e diarística, lhe serão doravante devedoras.



Ler a peça integral aqui.




Texto de Tânia Pinto Ribeiro
Fotografias de Rita Assis Santos

A vitalidade dos Estados Unidos da América, a ênfase na crença e nas capacidades pessoais, a abertura para o outro, a noção da responsabilidade em substituição da noção de culpa, a dimensão do desafio e o «just for a change» americano transformaram-lhe a vida. E o que começou por ser um Programa Fulbright na Universidade do Minnesota, em 1985, revelou-se uma viagem determinante para o seu percurso. Mário Avelar era então assistente estagiário, já com a nomeação definitiva, num dos mais prestigiantes departamentos da Academia portuguesa: Estudos Anglísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Depois, veio a vontade de experimentar desafios novos e fez «o que mais ninguém tinha feito até ali»: já doutorado e com a nomeação definitiva, trocou o certo pelo incerto e transferiu-se para a então embrionária Universidade Aberta. Hoje, permanece por lá, onde ensina a relação entre a poesia e as artes visuais. Ora com poetas ingleses, ora com americanos. Motivos mais que suficientes para que fosse ele o escolhido para assegurar o lado anglo-saxónico da coleção O Essencial sobre..., chancela INCM. Inaugurou-a, em 2012, com Shakespeare, o maior dramaturgo de todos os tempos. Durante a pesquisa que fez, surpreendeu-o a abundância de material à volta do poeta inglês que morreu há precisamente 400 anos. O que propicia, por vezes, a «alucinação» como aquela de se querer atribuir a autoria da obra shakespeariana à rainha Isabel I ou a Edward de Vere. Quanto à ideia de um Shakespeare «meio tonto, meio boçal», diz Mário Avelar, é completamente «irrealista». «Shakespeare é Shakespeare» e ponto final. É o «inventor da heteronímia», o humanista que «conseguiu explorar o ser humano na pluralidade de que todos nós somos feitos», é o autor que consegue «dar-nos personagens para os diferentes momentos da nossa vida», além de profundamente cinematográfico e musical. Verdi, Purcell, Welles ou Kozintsev souberam-no bem. E se o bardo inglês pertence já ao património literário universal, como pertencem Cervantes ou Molière, por cá faltam programas mais integradores nas escolas para o fazer chegar mais cedo aos alunos. Já ao nível das traduções, Shakespeare «não vai de todo mal servido». O rei D. Luís I, Álvaro Cunhal, Carlos de Oliveira, Sophia, Vasco Graça Moura e mais recentemente António Feijó, sem descurar o trabalho levado a cabo pela equipa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, asseguram a qualidade da obra do inglês na versão portuguesa. E, de Shakespeare, Mário Avelar passou para Walt Whitman, o poeta pai de uma nação que pôs todos os outros poetas a dialogar com ele. Pessoa também. Contemplado no Essencial n.º 124, trazido a lume em 2014, foi Whitman quem declarou a independência poética dos Estados Unidos e quem construiu pela primeira vez uma epopeia americana: Folhas de Erva. Uma epopeia do aqui e do agora, como nos explica o famoso verso de Song of Myself: «there was never any more inception than there is now». Mais do que uma entrevista, o que vem a seguir é um verdadeiro roteiro pela Literatura inglesa e americana, com muito wit à mistura, essa palavra intraduzível mas que reúne perspicácia, inteligência, sagacidade, argúcia e humor. Paragem ainda obrigatória num certo bar de Minneapolis ao som de Bruce Springsteen com uma Harley Davidson estacionada à porta, e depois em todos os pecados capitais. Muito particularmente n’A Inveja, título de um dos romances de Mário Avelar e palavra término da epopeia nacional… Duas horas de conversa que passaram a voar. À boa maneira anglófona, «Time flies when you’re having fun»!


PRELO (P) — É o autor de O Essencial sobre Shakespeare, obra da chancela INCM, trazida a lume em outubro de 2012. Deve ter sido um desafio enorme escrever em apenas 168 páginas o essencial sobre o maior dramaturgo — e poeta — de todos os tempos. Foi um desafio, Mário Avelar?

Mário Avelar (MA) — Foi um desafio muito grande. Curiosamente, foi um desafio que eu coloquei a mim próprio. Quando o Duarte Azinheira me disse que pretendia reconfigurar o perfil desta coleção [Essencial] e abri-la para outros horizontes literários e culturais, convidando-me para assegurar o lado anglo-americano, eu respondi-lhe que o primeiro livrinho teria de ser Shakespeare.

P — Estamos a falar de um Essencial sobre alguém que assinou 38 peças, 154 sonetos e vários poemas…

MA — Exatamente. Foi indiscutivelmente um desafio muito grande. Eu já tinha lecionado Shakespeare há muitos anos. Algures entre finais dos anos 1980 e início dos anos 1990. Simplesmente, Shakespeare é um autor que está a ser sistematicamente objeto de investigação e de produção de obras muito relevantes. Ainda há semanas no Times Literary Supplement faziam uma resenha de obras que tinham saído entretanto em Inglaterra, e eram na casa das dezenas. Portanto, a investigação sobre Shakespeare que eu tinha feito há vinte e tal anos para lecionar já estava parcialmente ultrapassada, e havia imensos dados novos. Nomeadamente, desde início do novo século surgiram uma série de novas obras particularmente importantes em termos da biografia. E aqui é que residia o problema em relação a Shakespeare.
O que significa que eu tive de ler uns milhares de páginas para poder atualizar os meus conhecimentos sobre este assunto, tendo em conta que a minha área de investigação, não só mas também, era a literatura americana. Estava, portanto, a entrar em terrenos que não eram os da minha investigação dura. Logo, foi um grande desafio, sim.

P — William Shakespeare morreu precisamente há 4 séculos, mas as suas obras continuam a ser muito analisadas pelos académicos, como acabou de referir. Para si, onde reside a intemporalidade e a modernidade da obra de Shakespeare?

MA — A modernidade, é, em certa medida, construída por ele próprio. Ele vive num tempo de transição da época medieval para a época renascentista. E isso pode ser percetível, por vezes, dentro da mesma peça, em circunstâncias tipicamente medievais, por exemplo, os augúrios, os presságios, um determinado tipo de universo mais determinista… 

P — Vemos isso muito bem em Hamlet, por exemplo…

Ricardo III (National Portrait Gallery)
MA — Exatamente. E depois, e ao mesmo tempo, Shakespeare tem dimensões muito modernas, como por exemplo, os tipos de heróis que são já maquiavélicos. Caso concreto: Ricardo III. Ricardo III é, em certa medida, inspirado pelas personagens dos milagres medievais, onde há uma distinção clara entre o bem e o mal... Mas Shakespeare leva-o além disso: torna-o uma personagem humana e, nesse sentido, uma personagem maquiavélica, alguém que está a desenvolver um determinado tipo de estratégia para chegar ao poder e para se manter no poder. Portanto, vemos um Shakespeare que pega em coisas que pertencem ao passado mas que estão já a voltar-se para o futuro.


P — E Shakespeare vem colocar de modos novos a própria condição humana, não é assim?

Ricardo II (National Portrait Gallery)
MA — Exatamente. E essa questão é particularmente interessante. Por exemplo, numa peça de que eu gosto muito que é o Ricardo II. Nesta peça, há um momento em que ele está a ser objeto de um complô para o depor, numa altura em que se considerava que o rei era soberano por direito divino. E ele tem um solilóquio muito bonito, em que está a meditar e a ver-se ao espelho, e começa a questionar a sua própria humanidade, a sua própria fragilidade, e acaba por partir e espelho.
Este tipo de cena quase que faz antecipar Freud, faz antecipar muitas daquelas dúvidas que nós associamos ao século XX. Aquilo que era ideia de um monarca por direito divino, uma personagem quase transcendente, nesta peça é humanizada.  

P — Shakespeare é já um humanista.

MA — É exatamente isso também.

P — Fala-me do Ricardo II, mas há tantas personagens marcantes. Otello, Hamlet, Lear, Macbeth, Ricardo III, Romeu… Consegue eleger uma preferida? Qual e porquê?

MA — Shakespeare dá-nos personagens para os diferentes momentos da nossa vida. E mesmo para os diferentes momentos do nosso dia. Nós não estamos sempre com o mesmo sentido de humor, não estamos sempre com o mesmo estado de espírito.
Falstaff, por Eduard von Grützner (1896)
Há uma personagem de que eu gosto muito. É o Falstaff, um tipo folgazão, que gosta de beber, que gosta de se divertir, é um boémio. É engraçado, o Falstaff dá origem a duas obras que não são meras adaptações de textos shakespearianos e que são duas obras cimeiras nas suas formas de expressão artística: o Falstaff de Verdi e, aquela que alguns críticos consideram a melhor transposição de Shakespeare para o cinema, que é As Badaladas da Meia-Noite, de Orson Welles. As Badaladas da Meia-Noite é um filme que Orson Welles compôs a partir de várias peças de Shakespeare, e cuja personagem central é o Falstaff. É um filme absolutamente espantoso!

Mas há outros momentos do dia em que nós nos podemos sentir absolutamente Hamlet. E, para quem está próximo do poder, aí temos muitas personagens, desde o Rei Lear ao Júlio César… É difícil, podermos indicar uma personagem preferida tendo em conta que nós próprios somos reflexos prismáticos de muitas delas.

P — Não consegue, portanto, eleger uma personagem que lhe cause mais fascínio?

MA — Talvez, em última análise, o Hamlet.

P — Falou-me agora mesmo de cinema e, de facto, as peças de Shakespeare além de serem representadas no teatro inspiram também, e muito regularmente, o cinema. Só para relembrar mais algumas, temos o Romeu e Julieta, de Franco Zeffirelli (1968); Hamlet, de Laurence Olivier (1948); Macbeth, de Roman Polanski (1971); Rei Lear, de Peter Brook (1971); A Paixão de Shakespeare, de Jonh Madden (1998). Sabendo, à partida, que se pode perder sempre qualquer coisa da obra original, acha que Shakespeare é cinematográfico?

MA — Acho que Shakespeare é profundamente cinematográfico. E é-o, nomeadamente, através da própria palavra. Há uma adaptação do Hamlet, por parte de um cineasta soviético, o Grigori Kozintsev, dos anos 1960. É um filme absolutamente espantoso. Há uma referência, logo de início, no texto shakespeariano, ao barulho do mar. E toda a parte inicial do filme é feita exatamente junto ao mar, com o som das ondas sempre ali. Ou seja, uma palavra apenas — fala-se no mar — e este realizador pega exatamente neste aspeto para criar todo um determinado tipo de atmosfera — que é melancólica, que é tensa: e o mar torna-se banda sonora.

P — Shakespeare é cinematográfico, como é musical…

MA — Aliás, ele é o primeiro — reforço, ele é o primeiro — dramaturgo inglês a introduzir a música como elemento estruturante da peça. Também a esse nível há uma inovação da sua parte, e, ao mesmo tempo, pontos de contacto com estratégias cénicas atuais.

P — Apesar da intemporalidade e atualidade da obra, Shakespeare continua a ser um mistério para nós. É de tal maneira misterioso que serve a uma teoria da conspiração vastamente popular. Por exemplo, existe a teoria oxfordiana sobre a autoria de Shakespeare, que defende que Edward de Vere escreveu as peças e os poemas que são tradicionalmente atribuídas a um comerciante de Stratford upon Avon… Concorda com esta teoria?

MA — Uma das coisas que me impressionou, e de que eu não estava à espera, quando estava a fazer a investigação sobre ele foi o número de biografias, muito bem feitas, nos últimos quinze anos e a quantidade de informação que constatei que existia à cerca dele.

P — Informações divergentes?

MA — Não. Complementares. Muito complementares. Há umas que ficam na dúvida. Em meados do século XVI o tipo de fontes que existiam não eram obviamente as que existem hoje em dia, e no entanto conseguimos saber, até o pormenor, o momento em que foi batizado e, por exemplo, quem é que o levou ao colo [risos].

P — E, em relação, àquela coincidência do dia de nascimento e morte: 23 de abril. Acredita que isto seja verdade?


MA — Isso é especulação. De facto, sabemos que ele morre a 23 de abril [1616]. Quanto ao nascimento há três datas possíveis, e o 23 de abril é uma delas. Os outros ou são os dois anteriores (o 21 e o 22) ou dois seguintes (24 e o 25). Há imensas referências nas peças: «Autoria de…» com o nome dele, William Shakespeare. As pessoas podem dizer: «Sim, mas não há textos manuscritos...» Temos de ter presente que o mundo do teatro naquele tempo era completamente diferente do dos dias de hoje. Aliás, completamente diferente do dos tempos de Molière, de Racine. São universos completamente distintos.
No teatro isabelino os autores escreviam para representações quase imediatas. Há, portanto, uma dimensão de imediatismo, e muitas das vezes não existe um texto único. Existem os tais rolos — e daí a palavra role em inglês — para cada personagem. Era tudo trabalhado em cima do momento. Portanto, eram condições de escrita completamente diferentes. E encontramos muitas referências, que eu fui assinalando ao longo de O Essencial..., relativamente a essas presenças e a pessoas que com ele foram convivendo.

Ben Jonson
por Abraham van Blyenberch
E há depois um aspeto que costumo sempre referir, que é o seguinte:  imagine-se que quando José Saramago morreu António Lobo Antunes tinha escrito: «Morreu o maior entre nós». Ora, naquela altura, o grande «rival» de Shakespeare era o Ben Jonson, que era mais novo do que ele e em cujas peças o próprio Shakespeare chegou a representar; há referências a isso em programas das peças. Sabe-se que personagens interpretou nas suas próprias peças, as reações que houve: uns diziam que era um ator razoável, outros diziam que não era muito bom. Alguém disse, mais ou menos a brincar, que o melhor papel que fez foi de fantasma no Hamlet. Aquando da morte de Shakespeare, Ben Jonson escreve: «Morreu o maior entre nós». Ora, era preciso uma teoria da conspiração tão elaborada que eu penso ser praticamente impossível que gente brilhante, como Ben Jonson, fosse atribuir a autoria das peças de Shakespeare a alguém que não fosse Shakespeare. Londres na altura era uma grande urbe — só Paris e Nápoles eram maiores que Londres —, mas aquela gente do mundo do teatro conhecia-se toda. Portanto, aquela ideia, que foi levada para o cinema, de um Shakespeare meio tonto, meio boçal acho que é completamente irrealista.


O famoso retrato de Shakespeare desenhado por Droeshout para o frontispício da primeira edição
das suas comédias, dramas históricos e tragédias em 1623, e a elegia de Ben Jonsosn que o acompanhava.


P — Há ainda quem atribua a autoria da obra à própria rainha Isabel I!

MA — Pois, é. Há, de facto, muita alucinação. E muito disso tem a ver com desconhecimento face à investigação muito séria, fundamentada, que tem vindo a ser feita ao longo dos anos. O que me surpreendeu na minha pesquisa não foi a ausência de coisas, foi a abundância. Por exemplo, nós em relação ao testamento até sabemos quantas libras é que ele deixou aos amigos dele, aos atores com quem ele trabalhava…

P — Shakespeare morreu rico?

MA — Ele não era propriamente rico, mas vivia desafogadamente. Tinha comprado para a família a segunda maior casa de Stratford upon Avon e possuía muitos bens em Stratford. Aliás, é curioso que ele nunca se preocupou em adquirir uma casa em Londres. Saiu de Stratford muito jovem e a família ficou por lá. Temos notícia de que ele regressaria a Stratford com alguma regularidade — há dados, que tem de ver com questões notariais, compras de terrenos, celeiros… Portanto, não era propriamente um indivíduo rico, mas era abastado.

P — Então, para si, não existem pretendentes válidos a serem o verdadeiro Shakespeare, a não ser aquele comerciante de Stratford upon Avon?

MA — Para mim Shakespeare é aquele Shakespeare. Por tudo aquilo que li ao longo dos anos e tudo aquilo que vai continuando a sair e eu vou continuando a ler. Há uns tempos, a propósito dos inúmeros estudos que se faziam, em Portugal dizia-se: «Tanto Pessoa, já enjoa». Uma das coisas impressionantes em Inglaterra é que quase todas as semanas saem livros novos sobre Shakespeare.

P — Acredito que para os estudiosos, como é o caso do Mário Avelar, estas teorias mais ou menos conspirativas não sejam muito importantes. O legado literário deve ser mais interessante. Mas o que é que gostaria muito de descobrir sobre William Shakespeare ou sobre a sua obra que ainda ignora?

MA — Haverá sempre uma curiosidade relativamente ao perfil dele. Penso que isso é legítimo, embora, de facto, Shakespeare seja uma personagem profundamente esquiva.
É difícil responder. Porque, quanto mais vamos estudando, lendo e vendo, mais coisas vamos querendo saber. Falou há pouco do cinema. O cinema é também um mundo, a esse nível. Há um novo filme sobre Macbeth, com uma nova leitura de Macbeth... Existe, de facto, uma riqueza a nível dos personagens e da sua capacidade de verbalizar as coisas — isto é um aspeto muito importante. E porquê? Naquela altura, praticamente não havia efeitos especiais. Bom, havia os efeitos especiais para a época (não tinham nada a ver com os de hoje), o que significa que tudo o que se estava a ocorrer em cena. Passava tudo pelo que os atores diziam e também pela capacidade de criar imagens, criar situações numa linguagem muito alusiva, que é algo muito anglo-saxónico. Nós, enquanto latinos, tendemos a ser muito literais; no mundo anglo-saxónico há uma outra dimensão: a sugestão, a palavra que sugere, a alusão, os trocadilhos… ora, Shakespeare teve toda essa capacidade de explorar, através da riqueza da linguagem, o ser humano na pluralidade de que nós todos somos feitos.

P — Apesar de ser universal e dos autores mais conhecidos vindos de Inglaterra, porque é que Shakespeare continua a ser desconhecido nas escolas em Portugal. De facto, no ensino obrigatório os alunos não estudam Shakespeare, como não estudam Molière,... Não acha bizarro?

MA — Penso que tem muito que ver com a complexa realidade em que nós vivemos hoje em dia, em que a própria cultura literária é olhada com alguma suspeição. O que interessa, muitas vezes, é que seja um texto. Nivelam-se os textos. Não interessa que seja um texto de Shakespeare ou um texto jornalístico. O que interessa é a comunicação. E as coisas, na minha opinião, não são assim. Há uma densidade, uma complexidade, uma capacidade de nos ajudar a descobrir a nós próprios e aos outros, que encontramos nos textos de shakespearianos e que não encontramos (nem tínhamos de encontrar) num texto jornalístico, por exemplo. Dito isto, num tempo em que esta dimensão é muito esquecida, eu diria que é perfeitamente natural que Shakespeare seja uma ausência.

P — Efetivamente, no ensino obrigatório temos a disciplina de Português ou Literatura Portuguesa. E o tempo com certeza será pouco para ensinarmos os nossos autores, os nacionais. Mas pergunto-lhe, e tendo em conta a universalidade de Shakespeare — como a de Molière ou a de Cervantes — se não será uma falha?

MA — Poderiam surgir em programas mais integradores. Qualquer um deles pode surgir em programas de História, pode surgir em programas de Língua, em programas de Literatura. Quando estamos a estudar ou a ensinar Gil Vicente poderíamos e deveríamos sinalizar essas pontes. A dificuldade poderá surgir por parte de quem organiza esses programas, que não consegue lançar essas pontes, ou de quem leciona que não consegue superar essas lacunas.
Eu tenho um exemplo familiar muito interessante. O meu filho mais novo, quando estava no 11.º ano, foi para uma nova escola com um novo professor de Português. O meu filho era profundamente avesso à leitura. Um dia chego a casa e dou com o rapaz a ler uma Bíblia. Até era uma Bíblia mais decorativa, não aquela que eu uso para trabalhar. O certo é que o rapaz estava a ler a Bíblia e porquê? Na escola estava a estudar Gil Vicente, o professor tinha-lhe chamado a atenção para a pintura do Hieronymus Bosch e para determinados espaços bíblicos. Estabeleceu ali uma relação com essas três dimensões. Esse professor, que na altura não conhecia, é um jovem poeta que se chama António Carlos Cortez. O meu filho tinha uma amiga, que tinha permanecido na escola antiga, e ele brincava com ela porque ela estudava textos jornalísticos, enquanto ele estava a estudar Gil Vicente. Portanto, a maior parte das vezes, tem de partir de nós essa capacidade de relacionação, as coisas não têm de estar necessariamente no programa. É importante motivar os jovens a fazerem essas descobertas, esse exercício de relacionamento. Afinal, Shakespeare não é português...

P — É universal.

MA — Sim, é universal. Mas há determinadas formas de sentir que decorrem de uma determinada especificidade cultural. Por exemplo, os Monty Python não são portugueses, e nós portugueses temos muitas dificuldades em lidar com aquele sentido de humor. Nunca se fez humor em Portugal semelhante ao dos Monty Python. As pessoas dizem, às vezes, que os Gato Fedorento são semelhantes aos Monty Python. Isso é um disparate. Não são. Não é pelo facto de uma pessoa dizer uma piada com um ar sisudo que é idêntico aos Monty Python. Há um crítico norte-americano, o Harold Bloom, que diz que o princípio do Monty Python são algumas peças de Shakespeare. Com a dimensão do sentido de humor indireto, alusivo, que põe as pessoas a raciocinar. Está muito relacionado com a palavra wit. Nós não temos uma palavra para traduzir wit. Porque wit é humor, mas é também fineza, é também intelecto. Agora há séries muito boas na televisão, como o Inspetor Morse, que convivem muito bem com esta palavra wit. Ou seja, eu compreendo que Shakespeare não esteja cá, como não está Cervantes ou Molière. Não têm que estar. Mas podem, devem aparecer. 

P — Não lhe pergunto como é que Shakespeare chegou até si, pergunto, sim, se se lembra de como é que chegou até Shakespeare?

MA — [risos] Não! Não me consigo lembrar. Começa na faculdade. As minhas memórias literárias antes da faculdade, curiosamente, têm sobretudo a ver com os romancistas russos. Dostoievski, principalmente. Eu li Shakespeare antes de entrar para a faculdade, mas não é daí que eu me lembro. Eu podia responder-lhe: «Li Shakespeare aos 16 anos; foi um encontro determinante e revelou-se.» [risos] Seria mentira. Os russos, sim, marcaram-me muito na minha adolescência. E alguns portugueses também: Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Eça de Queirós, Almeida Garrett. Toda esta gente me marcou muito. O Shakespeare, só depois e, muitas vezes, através de outros. E aí entra a literatura americana.

P — Para assinalar os 400 anos da morte do bardo inglês, várias são as iniciativas. Por exemplo, o Teatro D. Maria II e o São Luiz, entre julho e agosto, apresentam vários espetáculos portugueses e internacionais a partir da obra de Shakespeare, ocupando as suas diversas salas mas também o espaço público da cidade. Trata-se do Glorioso Verão — Festival Shakespeare. Acha as escolhas acertadas?

Orson Welles no papel de Falstaff, em As Badaladas da Meia Noite (1965)
MA — Em relação ao ciclo de cinema, faz todo o sentido. Acho, apenas, que falta As Badaladas da Meia Noite de Orson Welles. Quanto ao resto, quando se faz uma programação destas, fica tudo de fora. O que importa é que o que é selecionado seja coerente. E o programa deste festival parece-me perfeitamente coerente. Aliás, acho-o excelente.

P — Enquanto especialista de literatura inglesa, acha que a obra de Shakespeare está bem traduzida para português? Quem são para si os grandes tradutores de Shakespeare para português?

Duas edições de Hamlet e de Ricardo III com tradução
de D. Luís I, publicadas pela Imprensa Nacional
em 1880. Ambas se encontram disponíveis na Biblioteca.
MA — É muito complicado dizer, nomeadamente porque está em curso, desde há muito anos, por parte dos colegas da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, um projeto de tradução da obra completa de Shakespeare. São edições muito bem feitas, muito atualizadas em termos de informação, que eu, inclusive, utilizei para o Essencial. O que eu acho que será simpático dizer é que a tradução feita pelo rei D. Luís é muito considerada pelos poucos shakespearianos portugueses que existem, por exemplo, Rui Carvalho Homem. É uma tradução que envelheceu muito bem, apesar de ser em prosa. Esse é um dos problemas de sempre quando se está a traduzir poesia do inglês, que é uma língua muito monossilábica. A questão do pentâmetro jâmbico e a questão da própria cadência. Depois, a tradução que Álvaro Cunhal faz do Lear; as traduções particularmente complexas dos Sonetos de Vasco Graça Moura; as traduções de alguns, poucos (ele traduziu poucos), Sonetos feita pelo Carlos de Oliveira, que são muito interessantes, nomeadamente em termos da captação da dimensão visual e daquele esforço de síntese de que o Carlos de Oliveira era capaz; as traduções dele são para mim do melhor. Uma das traduções mais recentes de que eu gostei muito foi a do Hamlet por António Feijó. A nível de tradução acho que não se pode dizer que Shakespeare esteja mal servido no nosso país.


P — E o Mário Avelar já se aventurou pelos caminhos da tradução de Shakespeare?

MA — Não, não. Não faz parte do meu programa! [risos]

P — Quando é que a obra de Shakespeare começou a ser conhecida em Portugal? Quem a divulgou?

MA — A obra de Shakespeare começa a ser conhecida em Portugal muito cedo. Aliás, há notícias de ele ter sido representado, ainda em vida, num barco, envolvendo marinheiros portugueses. O Hamlet...

P — Que curioso! Havia representações nas embarcações para entreterem os marinheiros.

MA — Exatamente. Mas o verdadeiro marco, quando ele começa realmente a ser conhecido, é o Rei D. Luís.

P — Que peça aconselharia a quem nunca leu, ouviu ou viu Shakespeare? Uma peça de iniciação, chamemos-lhe assim…

MA — Creio que muitas das pessoas pensarão de imediato no Hamlet. Mas temos de ter em conta uma série de fatores. As peças têm uma certa extensão. Há um filme muito curioso do Al Pacino de finais dos anos 1990. A tradução do filme para português é À Procura de Ricardo III, o título original é Looking for Richard. É curioso porquê? Em termos de género cinematográfico, podemos considerar os documentários e os mockumentary, isto é um «documentário simulado». E este filme é um mockumentary, mas o espectador só se apercebe disso a determinada altura. O «documentário» é sobre a tentativa do Al Pacino levar à cena Shakespeare — em particular Ricardo III — nos Estados Unidos da América. Como é que os americanos lidam com Shakespeare? Qual a dificuldade que o ator americano tem para representar Shakespeare? O Al Pacino vai entrevistando atores americanos, entrevista grandes atores ingleses, por exemplo a Vanessa Redgrave, Sir John Gielgud. A um determinado momento, o Al Pacino pergunta-lhe: «Porque é que os atores americanos têm tanta dificuldade em representar Shakespeare?» E o John Gielgud responde-lhe com aquela pose algo snob: «Talvez seja porque não vão tanto a museus como nós». Enquanto está a fazer estas entrevistas, vai-se reunindo com um grupo de amigos com os quais reflecte sobre o modo como hão-de levar Shakespeare à cena. E a primeira questão é a edição que vai utilizar. E depois vão-se questionando sobre os mais variados aspectos hermenêuticos. Isto tudo para dizer que nós não estamos habituados a focar a nossa atenção (quando vamos ao cinema, mesmo quando lemos) na palavra. Mais uma vez, a questão alusiva, o que pode significar quão importante é a escolha da palavra certa. Nós não estamos habituados a isso. Consequentemente é difícil dar esse conselho. Depende da pessoa que está em causa. Macbeth é uma peça relativamente curta, tem lá aqueles ingredientes todos: traição, morte, sedução — é quase uma peça gótica. Depende também do temperamento. Pode ser uma comédia, por exemplo. Pode ser A Tempestade, uma peça completamente alucinante face à própria obra do Shakespeare. Vai também depender muita da faixa etária da pessoa, do meio sociocultural em causa também, até das questões raciais, o judeu em O Mercador de Veneza, o negro em Othello.

P — Isso que me está a dizer só vem comprovar o quão transversal Shakespeare é. Escreveu também O Essencial sobre Walt Whitman, o poeta da revolução americana. O que é essencial saber-se sobre ele?

MA O que é que é essencial saber-se sobre Walt Whitman? Excelente pergunta! Portanto, fazer O Essencial do Essencial sobre Walt Whitman! [risos]

P — Isso!

MA — Quando eu e o Duarte Azinheira decidimos que o primeiro Essencial seria sobre Shakespeare, decidimos que o segundo seria sobre Walt Whitman. Porque ele é uma espécie de pai da poesia americana. Não vou, obviamente, dizer da literatura em geral, porque ele é basicamente poeta. O essencial sobre Walt Whitman é isto: ele vive também num tempo particularmente conturbado da vida dos Estado Unidos da América. Ele nasce 40 anos depois de a nação ter sido fundada, e vive aqueles primeiros anos da construção da identidade americana. Na altura, os americanos, em termos estéticos, estavam ainda muito próprios dos ingleses: a poesia era escrita de acordo com os cânones ingleses, a pintura era muito inspirada nos mestres europeus; era, portanto, uma nação que ainda não tinha a construído a sua identidade estética. E é aqui que entra o Whitman.

Reprodução de daguerriótipo incluída no frontispício
da edição de Leaves of Grass de 1855.
É muito curioso ver as reações escritas logo aquando da primeira edição de Folhas de Erva. As pessoas questionavam-se: «Isto é um livro de poemas? Um livro que não tem o nome do autor na capa mas que exibe uma fotografia do autor?» Com efeito, a fotografia — o daguerreótipo — inicial é particularmente exótica, porque não é, como habitual, uma fotografia que destaca a cabeça — o intelecto — mas que revela o corpo numa pose algo negligente. Aliás, Whitman contrata um artista para trabalhar o daguerreótipo de modo a diliuir o corpo dando-lhe um ar algo esfumado, a imagem do autor é, deste modo, uma construção. Logo desde o princípio, Whitman começa a fazer uma coisa absolutamente singular: faz acompanhar a escrita da imagem, e da transformação da sua própria imagem ao longo das diferentes edições. No fundo ele reescreve um livro ao longo da vida, um livro que envelhece com ele, e as suas imagens evidenciam esse envelhecimento. Há depois uma outra dimensão, a de conseguir construir, de facto, pela primeira vez, uma epopeia americana.

P — Podemos então dizer que Folhas de Erva está para literatura americana como os Lusíadas estão para a literatura portuguesa?

MA — Absolutamente. Sim! Em termos de epopeia sim, apenas com uma diferença. É que Folhas de Erva é um texto fundador. Enquanto Os Lusíadas surgem na sequência de uma tradição, Whitman inaugura uma tradição. Além disso, ele escreve uma espécie de epopeia ao contrário. Enquanto normalmente a epopeia se situa num passado mítico, remoto, fundador, a epopeia dele é o aqui e o agora; é o tempo presente. Ele tem aquela expressão famosa «There was never any more inception than there is now» [Nunca houve mais início do que agora]. Portanto, é o agora.

P — Fernando Pessoa, admirador de Whitman, escreve também sobre a ambição de um Quinto Império na Mensagem… um projeto de futuro.

MA — Sim. Pessoa podemos e devemos ligá-lo a Walt Whitman.

P — Temos um Álvaro de Campos que saúda Walt Whitman na sua Ode Marítima. De que maneira podemos e devemos avaliar a relação entre Fernando Pessoa e Walt Whitman, através da análise do impacto que o autor de Leaves of Grass [Folhas de Erva] tem no heterónimo Álvaro de Campos?

Fac-símile de uma página de Song of Myself,
incluído na edição de 1882 de Leaves of Grass.
MA — Uma das nossas reputadas scholars, Maria Irene Ramalho, da Universidade de Coimbra, é autora de estudos sobre o eco de Whitman em Pessoa que influenciaram a perceção que Harold Bloom apresenta em O Cânone Ocidental. Neste livro, quando Bloom escreve sobre Fernando Pessoa, ele está, afinal, a convocar sempre Maria Irene Ramalho. Aliás, reconhece-o. Importa referir que Fernando Pessoa é o primeiro grande poeta português de formação anglo-saxónica; algo que obviamente ecoa na sua poesia, como a dimensão heteronímica que Maria Irene Ramalho assinala com uma leitura muito singular. Com efeito, a heteronímia «surge» com Shakespeare, com todas aquelas personagens que referimos. A partir delas constrói-se o tal «prisma» que nós somos. Por exemplo, o Iago — esperemos que não acha muito Iago dentro de nós, mas há de haver um bocadinho. Como há um bocadinho de Ricardo III, de Ricardo II, de Hamlet, de Falstaff,… Enfim, dessa «rapaziada toda». Há um desdobrar em imensas personae que Walt Whitman verbaliza em o Canto de mim Mesmo. Em determinado momento do poema, ele conclui: «mas este não sou o verdadeiro eu». Noutro instante dá voz àquilo que refere ser a sua alma. Ou seja, só em Canto de mim Mesmo ele revela três «máscaras», se quisermos; três facetas que vão aparecendo ao longo do poema, que vão conflituando entre si. A determinada altura interroga: «Do I contradict myself? / Very well then I contradict myself; / (I am large, I contain multitudes.)» Há pessoas até que, numa leitura mais redutora, associam esta polifonia tripartida à tipologia freudiana, ao ego me, ao superegosoul, e ao idthe real me, the Me myself. Ora, Maria Irene Ramalho estabelece uma certa ligação com algumas das facetas de Fernando Pessoa. O «eu» celebratório corresponderá a Álvaro de Campos, o «Me myself» a Caeiro e a «soul» a Ricardo Reis. Todos estes ecos têm, portanto, muito a ver com a influência da cultura anglo-saxónica e de Walt Whitman, em particular.


P — Cultura essa que Fernando Pessoa vai adquirir nos anos da sua estada na Africa do Sul?

MA — Exatamente. Em tempos, a Professora Ivete Centeno contou-me que, quando ela era ainda uma jovem assistente, o Professor Eduardo Lourenço lhe falou do espólio de Fernando Pessoa e da sua Biblioteca, e que seria interessante consultá-la devido à presença de livros de Whitman; seria, por exemplo, interessante ver eventuais anotações de Pessoa. Os ecos formativos da cultura anglo-saxónico em Pessoa têm sido, afinal, objecto de uma constante investigação e descoberta.

P — Recuemos a Folhas de Erva, um livro re-escrito ao longo de toda a vida de Whitman, que começou por ser um livro de 12 poemas e acabou como uma coletânea de 400 poemas, tornando-se num marco da história da literatura americana, como, aliás, acabou de referir. Qual é a importância de Folhas de Erva para a literatura e para a atualidade dos Estados Unidos da América?

MA — Há um aspeto muito curioso que é provavelmente único, em termos da literatura universal: a necessidade de dialogar com Whitman que os poetas americanos foram tendo ao longo dos tempos. É algo de absolutamente único. Whitman, num dos seus últimos poemas, diz «agora fico aqui à tua espera». E parece que houve sempre uma necessidade de os poetas responderem a isso, a esse convite. Hart Crane, com A Ponte, de alguma forma responde a esse convite. Wallace Stevens, com as Notas para uma ficção suprema, também, ou Allen Ginsberg, ou  Gregory Corso... Foram muitos os poetas que foram tentando dar resposta a essa ideia de epopeia. É quase como se cada poeta americano escrevesse um canto dessa epopeia, que é a epopeia americana.
O que é muito curioso tendo em conta que a epopeia é um género poético que caiu muito em desuso no século XX. Nós temos, de facto, a Mensagem. Um colega já desaparecido, Manuel Ramos Ribeiro, disse-me, em tempos, que a Praça da Canção, de Manuel Alegre, poderia revelar traços épicos, mas isso é algo emerge pontualmente, não faz parte da mundividência poética contemporânea. Nos Estados Unidos é diferente. Essa é a vitalidade que Whitman introduziu, que verbalizou, sinalizando a singularidade de cada um.

Manuscrito de 1887 do poema «O Captain! my Captain!»
que Whitman escreveu em
1865.
P — Um filme marcante para a minha geração — e, suponho, não só — faz alusão a um dos poemas de Whitman com a célebre frase «O Captain! my Captain!»…

MA — Pois, com certeza. O Clube dos Poetas Mortos! [risos]


P — Também aqui Whitman é atual e cinematográfico…

MA — Exatamente. No fundo faz referência a uma fase do Whitman de que eu gosto em particular, uma fase que o marcou profundamente: a da Guerra Civil. Esta fase dá-nos uma outra dimensão — e aqui, contrariamente a Shakespeare, temos muito mais informação sobre a pessoa, a distância no tempo é muito menor, e as fontes abundam. Os poemas que escreve nesta altura revelam o impacto que a guerra teve nele: a reiterada presença da morte, a vida e morte de Lincoln, que ele celebra nesse poema.
No entanto, não é para a desiludir, mas ele não gostava muito desse poema. Ele teve a perceção clara de que tinha escrito algo que teria um impacto imediato nas pessoas. E ele sabia que tinha escrito outros poemas melhores mas que não teriam nunca o mesmo impacto. E esse realmente teve. Tem aquele ritmo, aquela cadência, aquelas repetições; é tudo muito forte, e isso toca qualquer pessoa, como é lógico.

P — Whitman, ao contrário de Pessoa, é, portanto, reconhecido em vida. Correto?

MA — Sim, sim. Ele é reconhecido em vida. Era uma personagem que tinha um grande impacto. Era «um bárbaro» irreverente. Repare na própria maneira como se vestia: não aparecer de gravata ou laço, por exemplo, como na fotografia da primeira edição de Folhas de Erva, de camisa aberta e com um «chapéu à cowboy». Não era alguém que integrava o establishment literário, mas foi claramente reconhecido. Aliás, foi amiúde convidado para fazer conferências ao longo da vida. E, este aspecto é importante, ele é reconhecido pelo cidadão comum. Pense-se, por exemplo, uma vez mais na Guerra Civil, pois este é um momento particularmente relevante. Whitman vai à procura de um dos irmãos que tinha sido ferido em combate; não o encontra nessa altura — encontrá-lo-á mais tarde — mas acaba por passar toda a Guerra Civil a cuidar dos feridos.

P — Este ano, precisamente, uma carta escrita por Walt Whitman em nome de um soldado, o soldado Robert N. Jabo para a sua mulher, foi encontrada por uma voluntária nos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos da América. Esta descoberta é relevante para quem estuda este poeta? Traz alguma informação nova?

MA — Uma das coisas que Whitman fazia era precisamente isso: os soldados ditavam-lhe as cartas que queriam enviar às famílias; ele próprio escrevia às famílias quando eles estavam incapacitados de o fazer; e acompanhava os soldados naqueles momentos. Aliás, aquando da sua morte — contrariamente ao que se diz, não era alcoólico, tinha até muito cuidado com a sua saúde — a autópsia revelou que um pulmão já não funcionava e o outro só parcialmente; tudo isso devido às agruras passadas nos anos de guerra. Embora não tenha combatido, esteve sempre perto dos que o faziam, sujeito às doenças mais variadas, pelo que a sua saúde ficou profundamente debilitada para sempre. Em tudo isto ressalta a sua humanidade, e também em episódios aparentemente banais mas tocantes, em gestos muito bonitos. Por exemplo, já velho e doente, foi bater à porta de uma vizinha, também ela idosa, no dia do seu aniversário, para lhe deixar um ramo de flores...


P — É professor de Literatura Inglesa e Americana na Universidade Aberta. Qual das duas prefere ensinar?

MA — Desde há muitos anos — no fundo, desde a dissertação de mestrado — que sempre trabalhei a relação entre a poesia e as artes visuais. A minha dissertação final de mestrado foi sobre a poesia final do Herman Melville, que é o primeiro poeta a escrever nos Estados Unidos um livro só sobre obras de arte. O que significa que, mais do que ensinar Literatura Americana ou Literatura Inglesa, aquilo que tenho feito ao longo do tempo é lecionar literatura que explora esta relação. E isso pode ser em determinados momentos com poetas americanos, e noutros momentos com poetas ingleses, porque o que me interessa muito é essa relação: poesia e artes visuais.

P — Se lhe pedissem um Essencial sobre a Literatura Inglesa, quais os nomes incontornáveis?

MA — Se me pedisse os cinco nomes incontornáveis da Literatura Inglesa seria mais fácil, senão corre o risco de nunca mais me calar [risos].

P — Vamos delimitar, então, a lista. Para si, Mário Avelar, quais são os cinco nomes incontornáveis da Literatura Inglesa?

MA — Então, incontornáveis são: Chaucer é fundamental, com Os Contos de Cantuária. Depois, Shakespeare; e aí acabamos por passar ao lado de todos os outros grandes nomes que Shakespeare ofusca completamente. Depois, o William Wordsworth e o Jonh Keats, isto ao nível dos românticos. Ah, temos o John Milton também. E já vamos em cinco nomes nesta altura do «campeonato»! [risos].
E depois, quando chegamos ao século XIX, temos uma quantidade de romancistas que são poderosíssimos. E a questão também é essa — os Monty Python fizeram um sketch sobre um jogo de futebol entre as seleções dos filósofos orientais e ocidentais. Ora, se nós tivéssemos de fazer uma seleção de autores europeus, ela incluiria uma grande quantidade de ingleses, e se calhar não teríamos nenhum português. De facto, no século XIX temos um número impressionante de autores; as irmãs Brontë, Charles Dickens,... E eu sei que estou a deixar uma quantidade enorme para trás.
E no século XX também temos uma quantidade impressionante, quer na prosa quer na poesia.

P — Quer dar destaque a alguns?

MA — Há um (que era americano mas que se naturalizou inglês) que é o T. S. Eliot. Eliot continua a ser uma descoberta. Foi recentemente publicada uma edição dos Collected Poems — um livro absolutamente fascinante, cheio de anotações.
Também gosto muito da prosa do E. M. Forster, a Passagem para a Índia, Um Quarto com Vista sobre a Cidade,… Também gosto muito do William Golding, O Senhor das Moscas.
Voltando à poesia, gosto muito de Ted Hughes. As Cartas (selecionadas) dele são fabulosas. É o ser humano que dá corpo àquela poesia é um ser humano que tem sido muito mal tratado por causa daquela relação dele com a Sylvia Plath. Também gosto muito do Philip Larkin.
Há ainda uma série de escritores mais próximos de nós que também aprecio muito. O Ian McEwan, o Malcolm Bradubury e o Martin Amis, por exemplo.

P — E quais incluiria se escrevesse um Essencial sobre Literatura Americana?

MA — Por ser uma literatura mais recente, é relativamente mais fácil. Começaria por dois poetas puritanos, dos séculos XVII-XVIII, que julgo serem muito importantes para nós conhecermos a mundividência deles, que são Anne Bradstreet e Edward Taylor.
Depois, saltava de imediato para o século XIX, e aí temos Ralph Waldo Emerson e Edgar Allan Poe, Walt Whitman, Emilly Dickinson, Herman Melville, Nathaniel Hawthorne e Mark Twain. E terminávamos por aqui.
Passávamos para o século XX, e temos F. Scott Fitzgerald, John Steinbeck, Ernest Hemingway, John dos Passos.
Depois temos os prosadores mais próximos de nós, como Don DeLillo.
Na poesia, ainda neste século, temos Ezra Pound, William Carlos Williams, Wallace Stevens, Hart Crane. Depois, passando para a fase do pós-guerra, temos Jonh Ashbery, Frank O'Hara, Mark Strand, e por aí…

P — E nesse salto temporal que deu aí, o que aconteceu à Literatura Americana?


MA — Aconteceram muitas coisas. Mas era ainda uma literatura muito colonial, no sentido em que aquilo ainda eram colónias e que aqueles escritores não eram americanos, ainda. Há coisas que podem ser interessantes em termos documentais: começam a surgir narrativas que têm a ver com a escravatura, questões que têm a ver com a própria música, com a poesia; a poesia que vai ser musicada para ser cantada, os Blues. Há uma riqueza muito grande a esse nível, como é lógico. E há toda uma tradição oral: o canto dos escravos, por exemplo, os Blues começam por aí. Até há uma tradição muito interessante que é a da literatura oral por parte dos chamados «índios». Há muitas coisas importantes ainda no princípio do século XVI. E curiosamente, uma das primeiras obras importantes é escrita por um português, o chamado Fidalgo de Elvas — uma narrativa sobre a incursão que o Fernando de Souto, um espanhol, fez pelos Estados Unidos. Há uma história que o Fernando Pessoa conta, por causa de uma notícia que leu no jornal, a dizer que numas montanhas no norte do estado de Nova Iorque um indivíduo que andava a passear, e encontrou uma inscrição numa língua que ele não conhecia. Copiou-a e quando chegou à terra dele alguém lhe disse «Olha que isso é português». Fernando Pessoa depois conclui que em qualquer sítio onde formos já lá esteve ou um português ou um inglês. O inglês compreende-se, porque eles são muitos; agora, o português vai lá porque tem de ser, é o destino. E neste caso concreto sabe-se que há um grupo de fidalgos de Elvas (salvo erro, eram três) que foram nessa expedição do Fernando de Souto.

P — Qual deles é que teria escrito este relato?

MA — Não se sabe. Mas existem de facto muitos relatos de viagens muito interessantes, ainda no século XVI. Há diários, há cartas, há todo um universo particularmente interessante em termos culturais, mais até do que literários, a meu ver. O Emerson tem um ensaio que é o The American Scholar (o Erudito Americano, em português) que foi considerado na altura por um dos seus contemporâneos como a «declaração de independência cultural» da América.
Ilustração de Rockwell Kent para a edição de 1930 de Moby Dick
A América já tinha a independência política. E 60 anos depois vem a independência cultural: a independência poética com Whitman; a nível da prosa, com Melville e o seu Moby Dick, um romance perfeitamente estranho e alucinado, que começa com uma quantidade de prefácios até que aparece a história, e depois a história divaga entre a poesia, a prosa, o drama, as passagens filosóficas. Por exemplo, há uma quantidade de autores franceses que fazem referência ao Melville. Há até aquele ensaio literário famoso Pour saluer Melville de Jean Giono, o romance Les Femmes de Philippe Sollers,... Os franceses sempre tiveram uma perceção muito curiosa relativamente ao que se passava nos Estados Unidos, nomeadamente em relação a um autor que passou muito ao lado na América e durante muito tempo: é graças aos franceses que o Edgar Alan Poe acaba por ser reconhecido na sua verdadeira dimensão, nos Estados Unidos.


P — Além de professor e ensaísta, também já enveredou pela carreia literária, com uma novela publicada em 2011 pela Assírio & Alvim, intitulada A Inveja. Como foi passar de ensaísta a escritor?

MA — Foi muito difícil. Creio que pelo facto de estar sempre a trabalhar com grandes obras e grandes autores.

P — Está a falar do receio da comparação?

MA — Não. É mais o «será que vale a pena»? Era simplesmente isso. O meu primeiro romance não é esse, mas sim um outro chamado Pentâmetros Jâmbicos, publicado em 2008 também pela Assírio & Alvim. Conta a história de um rapaz no último ano da ditadura, que passa pelo período revolucionário do 25 de Abril e acaba na noite do 25 de novembro de 1975.

P — Um romance autobiográfico, Mário Avelar?

MA — É todo ele baseado em coisas que eu vivi, à exceção de um capítulo, que é completamente imaginado. De resto, é tudo baseado em coisas reais, transpostas para uma pessoa que não tem nada a ver com a minha maneira de ser. Sempre fui uma pessoa muito envolvida com questões sociais, políticas — antes e durante o 25 de Abril. Era um miúdo, tinha 17 anos, mas mesmo assim participei. Contrariamente ao protagonista, nunca tive uma atitude de espetador, fui sempre interveniente de uma forma ou de outra.

P — Chegou a sofrer as represálias do sistema?

MA — Não. Antes do 25 de Abril, o que apanhei foi sustos, nada mais que sustos. Coisas mínimas, sem qualquer tipo de relevância face às coisas que aconteciam a outras pessoas.

P — Voltemos ao seu primeiro romance.

MA — Então, no Pentâmetros Jâmbicos o que imaginei foi uma personagem do género «maria-vai-com-as-outras». No 25 de Abril parecia que toda a gente era anti-fascista, que todos eram democratas. Achei que seria muito engraçado escrever uma história exatamente sobre aquelas pessoas que andam aí e que a história está constantemente a ultrapassar, mas que depois vêm ao de cima como se fossem grandes heróis. É era a história de um rapaz que anda numa fase da vida sem saber muito bem o que andava a fazer e que, sem querer, sem fazer nada por isso, acaba por se ver envolvido no meio da história. Inspirei-me num episódio do Maio de 68: uma das fotografias icónicas do Maio de 68 é a de uma jovem — muito bonita, por sinal — com uma bandeira vermelha, às cavalitas de um rapaz, no meio de uma manifestação. Ora, qual é que era a história dessa rapariga na verdade? Ela era uma modelo, que tinha tanta consciência política como um peixinho dentro de um aquário, que um dia tinha acabado do fazer umas sessões fotográficas, passou por casa, vestiu um camisolão, e foi ter com o namorado que ia para uma manifestação. Ela pôs-se às cavalitas dele, ele passou-lhe uma bandeira vermelha para a mão, e essa imagem tornou-se um dos símbolos do Maio de 68. Achei esta ideia muito interessante e inspirou-me para o livro. Como se as coisas que foram acontecendo nessa época fossem acontecendo por acaso; a importância do acaso, a dimensão irónica, um tipo de humor anglo-saxónico, e até na escolha do próprio título, que é muito dececionante: ninguém percebe que Pentâmetros Jâmbicos é um romance sobre o 25 de Abril, e era isso que eu queria. Não queria que as pessoas comprassem o meu livro por ser sobre o 25 de Abril.

P — E porquê Pentâmetros Jâmbicos?

MA — É o tal ritmo inglês que é baseado em duas batidelas. Pentâmetros são conjuntos de cinco sílabas. É como se fosse o ritmo do coração, quase o ritmo da respiração. É também como nós próprios às vezes estamos, ora mais em baixo, ora mais em cima.
Esta foi a minha primeira incursão. E escrevi-o na sequência de uma conferência apresentada por uma grande romancista inglesa de policiais, P. D. James, que contou que a determinada altura, tinha feito 50 anos, e as filhas convenceram-na a começar a escrever. Eu, que tinha 40 e tal naquela altura e escrevi um conto, o único conto que não fala de uma experiência biográfica, que depois acabou por ser um capítulo desse livro. A partir daí, as coisas simplesmente começaram-me a sair com uma velocidade impressionante, e no espaço de um mês escrevi o livro.
E depois usei a ideia do oportunista que usa a política para passar de um lado para o outro; personagens que vivem à nossa volta, e que começam todas por ser todos muito revolucionárias mas acabam por chegar todas aos mesmos sítios. E usei uma estratégia basicamente cinematográfica: um plano único sem cortes, uma câmara que anda à roda de uma sala e vai apanhado o que cada um está a pensar dos outros. E assim surge A Inveja.

P — A realidade académica é propensa à inveja?


MA — A última palavra da nossa epopeia é «inveja». Com esta palavra terminam Os Lusíadas.
É um dos sete pecados capitais. O que significa que a inveja não é propriedade nossa; pelo menos a nível teológico, é reconhecida como um pecado capital [risos].
O universo académico é profundamente competitivo. A academia é quase como um desporto de alta competição. Não sei como é que é com outras profissões, mas o universo político também é extremamente competitivo. E esse lado competitivo, não necessariamente assumido, pode levar a isso: temos de dar provas daquilo que fazemos, não nos podemos repetir. Apesar de todos conhecermos casos de pessoas que passam a vida a escrever o mesmo livro ou a escrever o mesmo ensaio, apenas mudando o título; assim como sabemos dos casos de indivíduos que pedem a alguém para lhes escrever as coisas.
Ora, se pegarmos nisto tudo, temos a inveja. Não é preciso ir muito longe. Não tendo como inspiração uma pessoa em concreto, podermos reconhecer ali imensa gente.

P — Porquê?

MA — Porque tem a ver com comportamentos que são característicos da Academia.

P — E projetos no campo literário?

MA — Neste momento tenho publicados três livros de poemas que já estão fora no mercado. Tenho uma outra sequência de poemas que já foram parcialmente publicados na revista Suroeste, em Espanha. Apresentei também um projeto à Imprensa Nacional-Casa da Moeda para publicação de um pequeno volume com os poemas que escrevi até hoje, e tive há pouco tempo a feliz informação de que foi aceite.

P — Também sei que está prometido um Essencial sobre Philip Roth

MA — Neste momento estou a trabalhar num livro sobre Literatura e Artes Visuais para a INCM, que é quase uma súmula desta investigação levada a cabo ao longo de 30 anos e que está a caminhar bem e está dar-me muito prazer escrever. Tenho O Essencial sobre Philip Roth para sair ainda este ano. Tenho uma tradução de um poeta inglês do século XIX muito interessante que é o Gerard Manley Hopkins; é uma tradução muito difícil mas que está praticamente pronta. Tenho vários romances: A Luxúria, que está praticamente acabada; tenho também a A Ira, que está escrito mas que vou reescrever; e tenho mais um outro romance que espero que venha cá para fora no próximo ano. Quero escrever um romance para todos os pecados capitais, e todos ligados à Universidade: ver a Academia através da Gula, da Preguiça, da Ira e muito concretamente da Luxúria. Quem me sugeriu esta ideia dos sete pecados capitais foi uma colega, a Luísa Leal Faria. E quem me deu a ideia para A Luxúria foi um amigo também, o António Feijó, que me disse: «Seria muito interessante escreveres um romance sobre a luxúria em que não houvesse sexo». E vai ser exatamente isso.

P — Para si, qual é a mais-valia de publicar na editora pública?

MA — São várias. É uma capacidade de, através de uma editora de prestígio, chegar aos países de expressão portuguesa, e isso é extraordinariamente importante.
É a possibilidade de publicar numa editora que não se rege por determinado tipo de exigências estritamente de mercado, o que permite determinado um tipo de atitude, e uma margem que é importante para quem está a criar.
E depois há outra coisa que tem a ver com a dimensão quase cívica, num sentido muito lato: escrever um Essencial sobre… é estar e intervir civicamente; e partilhar. É uma das coisas mais bonitas de ser professor. O Essencial..., para mim, tem um tipo de escrita que me apaixona profundamente — a pessoa saber que vai ler milhares de páginas para depois as meter em apenas meia dúzia, e isto em livros que abrem janelas. Quando o Duarte Azinheira me falou nisso pela primeira vez, disse: «Pense nisso e apresente um projeto», e eu pensei nisso e apresentei o projeto. E na altura fiz as contas e, se escrevesse dois por ano, tinha ali o que escrever até aos 80 e tal anos. A coleção Essencial é um projeto muito interessante, e é uma coleção que sempre teve um grande impacto sobre as pessoas. E, nos tempos que vão correndo, com os livros digitais também, consegue-se chegar a sítios onde não se chegava antes.
É também uma dimensão mais cosmopolita, que o Duarte Azinheira introduziu nesta coleção: abriu a coleção para o mundo. Como é que nós, portugueses, olhamos para Shakespeare, para Cervantes, para Chaplin ou para Camus? São todos autores universais que já não são propriedade dos franceses, dos ingleses, dos espanhóis. São universais. Eu, por exemplo, devorei O Essencial sobre Camus, de António Mega Ferreira. São livros que nos ajudam a situarmo-nos a nós próprios.

P — «A última vez que os lilases floriram no jardim junto da porta» é uma elegia à morte de Abraham Lincoln. Consegue imaginar um titulo de um poema de Whitman dedicado a Barack Obama, agora em final de mandato?


MA – [risos] Não consigo. Barack Obama é também aquilo que Whitman construiu e que nós podemos reconhecer às vezes até em pequenos versos. Whitman pegou numa estratégia que é muito utilizada pela oratória religiosa, que é a chamada «catalogação retórica». Ele fala deste, e daquele, e mais daquele, e tenta não deixar ninguém de fora. Eu acho que aquilo que o Obama representou ou pode representar em certa medida está já pronunciado ali, passa por aqueles versos de Whitman. Não poderá ser uma elegia — o homem está vivo e é tão jovem — mas passa muito por ali. Tem a ver com aquela vitalidade dos Estado Unidos, com toda aquela ênfase na crença pessoal, nas capacidades pessoais; aquela abertura para o outro e perceber que outro, antes de estar lá fora, está dentro de nós. São dimensões que eu vejo em Obama, como vejo em Kennedy, como vejo de uma forma diferente em Reagan, por exemplo. Não tem que ver com uma experiência política, tem que ver com a expêriencia humana. E essa experiência humana que encontramos em homens como Obama passa muito por uma determinada vivência da América. Tem muito a ver com símbolos, com ícones.
Vou-lhe contar outra história. A primeira vez que fui aos Estados Unidos da América foi em 1985. Era um programa Fulbright. Fomos para a Universidade de Minnesota. Quando chegámos a Minneapolis fomos para o campus decidi que o tempo que estivesse nos Estados Unidos seria para viver o mais possível. Naqueles meses dormia três horas por noite; o que eu queria era absorver o mais possível da América. Absorver tudo. Isto a propósito dos ícones culturais. Certa noite, saí do campus, onde não se podia beber álcool, e procurei um bar onde se pudesse beber cerveja. Nesse bar havia uma cópia de um quadro do Edward Hopper, e à porta do bar estava estacionada uma Harley Davidson. No meu imaginário, aquilo era toda a cultura americana a vir ao meu encontro. Quando entro no bar…

P — Encontra a sósia da Bo Dereck?

MA – [risos] Calma! Já lá vamos… Quando entro no bar, estavam uns fulanos com «ar de Harley Davidson», possantes, fortes que estavam a jogar snooker. O bar não tinha muita gente e do outro lado estava de facto uma senhora com as características da Bo Dereck, mas que não era a Bo Dereck. E depois há estas coincidências: estava uma juke box também e, no preciso momento em que eu entro, há alguém que mete uma moeda na juke box, e o que é que começa a tocar? Bruce Springsteen a cantar o «Born in the USA». E aí senti: eu estou na América!

P — Conseguiu sentir-se americano?

MA — A América transformou-me totalmente. Foi uma experiência de vida que me transformou.

P — A América tem vindo a transformarmo-nos a todos um bocadinho…

MA — A vivência da América é uma coisa que nos transforma.
Fiz uma coisa que ninguém [na Academia] tinha feito antes de mim: lecionava na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, num departamento que era dos mais respeitados a nível nacional, e onde eu gostava imenso de lecionar; tinha o doutoramento e tinha a nomeação definitiva; e vim para a Universidade Aberta, uma universidade que estava nos primeiros anos de vida, que não tinha de modo algum o impacto que tinha a Universidade de Lisboa. Mas vim. E vim porquê? Necessidade de mudar, do desafio...
Tive um episódio nos EUA que me marcou profundamente e que tenho contado, ao longo dos anos, aos meus alunos. Conheci um casal que vivia num condomínio de luxo, no centro de Minneapolis. Era uma casa de sonho. Eles eram pessoas dos seus 40 anos, e disseram-me: «Estamos a pensar ir para o Sul». E eu, espantado, comecei a fazer as perguntas que um português faria, que um funcionário público que eu era — e continuo a ser — faria: «Mas porquê? É uma questão de trabalho? Têm família lá? Mas porquê?» perguntava eu. Não era por uma questão de trabalho, nem de família. Voltei a perguntar: «Se têm tudo aqui, porque é que querem ir para o Sul?» E eles respondem-me: «Just for a change.»
Há uma dimensão de desafio, de ênfase do presente. Eu sou aquilo que sou, muito a partir daquela experiência. Com noção de ética, de profundo sentido de responsabilidade: saber que sou responsável pelos meus atos e não vale a pensa culpar o governo, ou a Troika, ou este, ou aquele. Se não estou contente, há que mudar de vida. Quando deixei a Faculdade de Letras, também muita gente não percebeu. Eu não estava zangado com nada nem com ninguém. Queria ir experimentar, queria novos desafios. E, com toda a sinceridade, acabei de fazer 60 anos e aguardo sempre novos desafios.

P — Historicamente, os norte-americanos são maioritariamente protestantes, nós maioritariamente católicos…

MA — Lá há toda uma cultura de raiz protestante, e a nossa é de raiz católica, sejamos católicos ou não. Isso não interessa absolutamente para nada. Temos o pecado, mas temos sempre o perdão também.
Perguntaram a um escritor inglês, o G. K. Chesterton, porque tinha escolhido a igreja católica e não a anglicana, ao que ele respondeu «É que os católicos têm o perdão!» [risos]



Maio de 2016