Fotografia: Luis Barra


















in Expresso, E, Culturas, 3 de setembro de 2016


Em história do século vinte a escrita nunca é enfática nem grandiloquente. Pelo contrário, dir-se-ia que o autor impôs a si mesmo um certo rigor analítico, uma certa objetividade, uma toada precisa que se abstém de quaisquer arroubos. José Gardeazabal corrobora: «Não pertenço à tradição da catarse lírica. Apenas da catarse.»

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Fotografia: arquivo A Capital, EP

in Expresso, E, Cultura, de 27 de agosto de 2016


Não há melhor homenagem que se possa fazer a um escritor do que tornar possível o acesso à sua obra. E por isso o verdadeiro acontecimento do centenário de Mário Dionísio materializa-se na pubicação da Poesia Completa, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, na recentemente recuperada coleção Plural.
(...)

Teórico do neorrealismo, também foi neorrealista na prática poética, mas de uma forma que o distingue claramente da maioria dos companheiros de jornada.
(...)

Ao reunir 420 poemas, este volume mostra a extraordinária diversidade de produção poética de Mário Dionísio (...).

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Apresentação do livro: Poesia Completa
Autor: Mário Dionísio
Local: Casa da Achada * (Lisboa)
Data: sábado — 16 de JULHO
Horário: 18:00 h
Entrada livre.

Poesia Completa  reúne cerca de 420 poemas escritos ao longo de quase 50 anos (entre 1936 e 1982).

A apresentação — que contará com a presença de Jorge Silva Melo, autor do prefácio a esta edição, e de Jorge Reis-Sá, diretor da nova Coleção PLURAL — incluirá ainda a leitura, por Inês Nogueira e Isabel Cardoso, de uma cuidada seleção de poemas extraídos de Le feu qui dort, um dos 3 livros que integram esta Poesia Completa e que, publicado originalmente em francês, se apresenta nesta edição pela primeira vez acompanhado da magnífica tradução inédita para português por Regina Guimarães.

Os poemas serão lidos em embas as línguas, em jeito de antecipação da própria experiência que se tem ao ler a poesia de Mário Díonísio nesta edição da Imprensa Nacional.

A apresentação de Poesia Completa de Mário Dionísio insere-se no programa «MÁRIO DIONÍSIO: os primeiros 100 anos», organizado pelo Centro Mário Dionísio por ocasião do Centenário do seu nascimento.


*  A Casa da Achada é a sede do Centro Mário Dionísio.Morada: Rua da Achada, n.ºs 11 r/c e 11B, na Mouraria (próximo da Praça da Figueira, da Rua da Madalena e da Praça Martim Moniz).

in Jornal de Letras e Ideias, n.º 1193, de 22 de junho a 05 de julho de 2016, pp. 6-8


https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuTGtqb2lxZ3VIb3MRetrato e entrevista com um escritor que começa a escrever na leitura, que convoca ideia e mundo não literários e que ameaça com vários livros nos próximos tempos (...)










Sempre teve gosto em escrever, sentindo até que viria a ser coisa importante.

https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuZUxlT1cwRmF5dE0Hoje sabemos que o século XX morreu mas a história não acabou. E o século mudou depois de morto, tornando-se uma história de sobrevivências. Os escritor quer ser o sobrevivente que conta a história.







https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuQW9KQ29IMklrVG8As referências muito concretas que sobrevivem são como bóias de salvação que são lançadas mas, no entanto, somos obrigados a nadar logo a seguir. Sem referências mas com a estranha sensação de familiaridade. Foi uma escrita impulsiva e livre, cara a cara com os factos, mas quase submergido por eles.






por Tânia Pinto Ribeiro



Até agora escreveu mais prosa e teatro que poesia, mas foi precisamente no terreno fértil dos poemas que José Gardeazabal sobressaiu por entre mais de 200 candidaturas à primeira edição do prémio INCM/Vasco Graça Moura. E foi precisamente a sua história do século vinte, «um livro de saltos e acumulações», no dizer do poeta, que acabou por vencer, por unanimidade dos votos do júri, o disputado galardão da editora pública. Uma história escrita a partir de factos e de alguns recuos, que o autor compôs há cerca de oito anos, e que vem agora estrear a renovada coleção Plural, iniciada em 1982 por Vasco Graça Moura. Uma espécie «de cartografia do próprio tempo, um olhar filosófico para a realidade que colhe o nó da questão do século XX, uma antiepopeia, um louvor não lírico, quase cirúrgico que não deixará nenhum leitor indiferente», assim se referiu José Tolentino Mendonça, presidente do júri, à obra distinguida de Gardeazabal. Quanto ao prémio, diz Gardeazabal que significou sobretudo um reencontro do autor com a sua obra. E se cada escritor desenvolve uma relação pessoal com a escrita, Gardeazabal não foge à regra: gosta de escrever todos os dias, e normalmente trabalha em dois ou mais projetos ao mesmo tempo. Quanto à palavra «profissional» diz que convive mal com a literatura, mas que a literatura é a sua forma de viver. Já a inspiração encontra-a na leitura, porque afinal «Ler é o princípio da Literatura». E se Theodor W. Adorno defendia que depois de Auschwitz é impossível escrever poemas, Gardeazabal vem refutar o mandamento do filósofo alemão e vem mostrar com esta sua história, como o século feito de tragédias, bombas e Holocausto — mas também de pequenas coisas, como pessoas a sorrir no canto das fotografias — nos transformou totalmente. E à Literatura também. Vem provar que neste já adolescente século XXI e numa Europa assolada por crise(s) sucessiva(s), a poesia continua viva e em toda a parte. E mais, numa «poética que arrisca alimentar o esquema das oposições, num exercício invulgar, notável e vertiginoso» José Gardeazabal consegue também a proeza de conduzir «a literatura para um lugar novo», como tão bem salientou o júri do prémio, composto por José Tolentino Mendonça, Jorge Reis-Sá e Pedro Mexia. Um prémio que vem revelar um poeta novo às letras portuguesas contemporâneas. Entrevista a José Gardeazabal.




PRELO — Nadine Gordimer, Nobel da literatura 1991, dizia que a «poesia é um esconderijo e um altifalante». Concorda?

José Gardeazabal — A literatura é tanto exposição como esconderijo. Por vezes esconder é o princípio de ver. Há uma tradição da poesia que a torna a campeã da exposição, uma tradição que foi reiterada até à adulteração. Em relação a essa poesia, a escrita de história do século vinte está mais do lado do esconderijo. Poesia escondida atrás de um século. A história tem aqui algo de esconderijo, de não exatamente. Mas em muitos outros textos, ficção, teatro e outros, acho que estou mais do lado da exposição.

Para mim a literatura tem algo de recuo e de grito. Escrever é como dar um passo atrás e, em vez de sair um grito, sai literatura. É um ajuste de contas com o mundo. Lentamente, e muitas vezes em silêncio. Mais silêncio que altifalante. Certo é que a literatura enquanto esconderijo nos revela coisas novas e verdadeiras sobre nós, individual e coletivamente.

P — Como teve conhecimento do resultado do Prémio INCM/VGM?

JG — Através de um telefonema muito simpático do José Tolentino Mendonça.

P — E como reagiu quando soube que era o vencedor? 

JG — Fiquei contente.




P — Recorda-se dos primeiros poemas que escreveu? Como começou a sua aventura literária?

Sim, dos primeiros poemas e dos primeiros outros textos.

P — A prosa é um terreno que lhe poderá ser fértil também?

JG — Até agora escrevi mais prosa e teatro que poesia. Primeiro há a literatura, só depois a forma da literatura. Romance, teatro, poesia, prosa curta, tudo são veículos para a literatura. O meu foco é nas ideias e nas palavras, só depois surge o veículo, prosa, poesia, o que seja. Acontece começar um livro que pensava vir a ser de poesia e vê‐lo exigir ser prosa à minha frente. Ou o contrário, de prosa em poesia ou teatro. Nesses momentos temos de respeitar o texto. Fazer literatura é também respeitar a forma da literatura.

P — Onde vai encontrar inspiração?

JG — Gosto de ler quase tudo. Ensaio, teatro, ficção, poesia. Não é para mim um prazer ter um bom livro para ler e não o fazer. Ler é o princípio da literatura. Não é, certamente, o fim. Mas é o princípio.

P — Tem escritores de eleição?

JG — Há muitos autores que fazem parte importante da minha vida. A sensação de descobrir um desses autores é sempre de uma estranha familiaridade e humanidade partilhada. É um acontecimento de alegria.

P — O que é que os leitores podem esperar de história do século vinte?

JG — É difícil falar sobre um livro. É um objeto que fala por si, que diz o que quer dizer e por vezes diz mais do que o autor pode dizer. Diz e pensa. Se correr bem, o livro pensa por si.
Este texto é feito de fragmentos, saltos, acumulações. Num certo sentido o contrário de história. Não há personagens, não há ações consequentes, há uma multidão de factos, movimentos, observações. Não há culpas, responsabilidades, vencedores. Num outro sentido, mais profundo, este texto é uma história honesta, um fluxo de consciência do século. O século vai‐nos dizendo coisas mas não lhe conseguimos apontar o dedo. Não o conseguimos agarrar.

Uma certa ofuscação não é propositada, acontece. É como se o escritor visse mal e retirasse os óculos para compreender melhor. E neste caso do século vinte, compreender pode vir de ver pior, ver de longe, com alguma saudável miopia. A primeira coisa que perdemos quando vemos mal ao longe são as personagens, as datas, as simplicidades narrativas. Este livro é uma história escrita a recuar, um passo atrás até perder datas e nomes, perder fios condutores, um observador que recua em relação à história até a transformar em literatura. Um recuo que se torna poesia.

Acho que este texto pode ser lido a partir do ponto que quisermos e terminar também onde quisermos. De certa forma podemos ler apenas frases ou conjuntos de palavras. É uma literatura de fragmentos, como aqueles fragmentos gregos em que se suspeita que alguém gostou de alguém, ou alguém matou alguém, mas não sabemos, não temos a certeza. Nesta história também impera o fragmento. Não é cada página que é o centro, o poema, são os vários fragmentos, individualmente, que têm personalidade própria. Os fragmentos ou o texto todo, ambos têm uma personalidade própria.

Por exemplo, o índice. Foi uma agradável surpresa. Acaba por oferecer uma leitura própria, ao mesmo tempo alusiva ao texto completo, leitura sumário, e por outro lado um novo texto, vivo por si mesmo. O índice foi uma sugestão dos editores da INCM e de certa forma sugere um método de leitura do texto. Além de acrescentar um «poema», por assim dizer.


P — Para si, na História do século XX, qual foi o acontecimento maior?

JG — Talvez um dos sentidos deste livro de poesia com o século vinte em fundo seja precisamente enterrar os acontecimentos concretos do século. Os grandes e os pequenos, as bombas, as barbáries, e as pessoas a sorrir no canto das fotografias. Está muita coisa lá, mas subentendida e por vezes perdida para sempre. É uma caixa com o século que se afasta de nós, até percebermos apenas contornos, impulsos. Há coisas do século vinte aqui escondidas. Escondidas do leitor e do autor. Não é o autor que as esconde, é a natureza do século e do texto que o faz. Nisso a poesia deste século vinte é como a história, trabalha sobre as sombras, é o contrário da transparência.

Não me sinto à vontade para eleger o acontecimento mais importante do século que passou. De certa forma é fácil cair num campeonato da ignomínia quando se trata do século vinte. Neste texto de poesia, como em outros textos meus, acho que o pior do século passado está presente, em pessoa ou na sombra, mas gosto de resistir a uma certa complacência na convivência com a desgraça. Dito isto, as grandes tragédias do século vinte mudaram o que somos como seres humanos. Mudaram a nossa imagem no espelho, mudaram a literatura. Neste século vinte e um estamos do outro lado do espelho, e isso influencia como nos vemos e como nos escrevemos.

Um exemplo: Beckett. No À Espera de Godot, mas também na sua prosa, Watts, Murphy, Molloy, etc. É tudo extraordinário. É uma literatura do fim, que nesse sentido é uma literatura do século vinte. É um caminho absoluto que chega a uma rua de um só sentido. É um dos grandes fios da literatura. Algum desse sentimento de fim e de desamparo é lido hoje por nós como eco de uma civilização que viveu o Holocausto. É o nosso ponto de vista, a partir de hoje, sendo hoje o fim do século passado e o princípio deste século. Mas podemos ler o À Espera de Godot como literatura pós-holocausto ou literatura pós‐bomba atómica, e há argumentos que sugerem que a experiência das explosões nucleares foi a determinante para Beckett, para a espera por Godot. As explosões nucleares eram o acontecimento marcante no imediato pós‐guerra. Só depois veio o Holocausto. Duas tragédias com significados e sentidos diferentes, que nos responsabilizam de forma distinta. Mas as duas mudaram o que é ser humano, e o que é pensarmo‐nos humanos daqui para a frente. Ora, isso é relevante para a literatura? É e não é. Se lermos Godot à luz do Holocausto ou à luz das explosões nucleares lemos duas obras diferentes. Ambas magníficas, mas diferentes. Esse é o papel dos acontecimentos únicos na literatura. Aumentam o sentido, espalham‐no em várias direções. Nesta história do século vinte temos, por assim dizer, o grande e o infinitamente pequeno, o histórico no sentido político e o histórico no sentido pessoal. É um livro de saltos e acumulações, como aqueles mecanismos anteriores ao cinema em que espreitávamos por uma ranhura para ver figuras a passar e essa passagem dava‐nos a ilusão de movimento. Imagens fixas cuja passagem imitava o cinema. Cinema antes do cinema. Esta poesia é uma tentativa de espreitar. Vamos ver menos, ver mais, ver coisas diferentes. Parte do que fica é o movimento do século. Ou a ilusão do movimento.

P — Tem projetos para o futuro no campo literário?

JG — Muitos dos meus projetos futuros foram completados no passado, nos últimos 8 a 10 anos. Gosto de escrever todos os dias e normalmente trabalho em dois ou mais projetos ao mesmo tempo. Tenho uma ideia dos três ou quatro textos que quero trabalhar cada ano, mas muitas vezes as coisas mudam e outras ideias que pensava estarem à espera do seu tempo, impõem‐se, mudo os planos. «Planos» aqui é tudo entre aspas.

Tenho uma ideia‐mãe, um título, alguma ideia do tempo que preciso de dedicar ao projeto. Depois é começar a escrever até acabar de escrever.

Revejo os textos um ou dois anos depois, quando penso que os gostaria de ter prontos para publicação. Outros ficam escritos a cru, à espera outra vez do seu tempo.

Ou seja, sim, tenho vários projetos para o futuro.

P — Gostava de viver inteiramente da escrita? Isto é, ser um escritor profissional?

JG — A palavra profissional convive mal com a literatura. Mais tempo para escrever, sim, seria muito bom. A literatura é a minha forma de viver e um grande prazer.
https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=102967
P — Agora que o livro já saiu do prelo, o que acha do resultado final? Gostou da experiência de publicar na editora pública?

JG — Devo dizer, com a sinceridade possível, que o cuidado na edição e a qualidade do volume final excederam todas as minhas expectativas. Houve paciência para cuidar do texto por parte dos editores, e uma grande inspiração no grafismo da capa e do texto. A palavra pública, como em editora pública, adquiriu para mim um sentido mais concreto e profundo depois desta experiência. Associo‐a a cuidado e esmero.

P — Todos nós desenvolvemos uma relação pessoal com a escrita. O texto, neste caso, os poemas não nascem sem um processo de escrita. Qual é o processo de escrita de José Gardeazabal?

JG — Leio muita coisa diferente. Para mim ler e escrever são atividades irmãs e irmãs gémeas. Preciso de ler para escrever e escrever ajuda a ler melhor. Escrever é ler melhor.

O meu dia ideal começa pela leitura, depois a escrita chega, e a partir de determinado momento as duas coisas estão presentes e muito próximas.

Então quase tudo, uma conversa num café, um programa de rádio passam a ser alimento para a literatura. Literatura é escrita e leitura, pelo menos essas duas coisas.

Este livro teve a sua vida, noutro lugar. Agora como que volta para mim, já envolto numa capa própria, algo fechado sobre si, mas com pistas novas e verdadeiras. O diálogo que tem comigo é diferente do diálogo do tempo da escrita. Agora é uma coisa mais equilibrada. Existe o livro e o escritor, é um diálogo, acontece em duas direções. No início, o exercício da escrita tem algo de monólogo e só depois se torna um diálogo. Isso é bastante gratificante. Gostei de voltar a encontrar e falar com este livro. Tornou‐se um amigo.

P — Quanto tempo demorou a escrever este livro?

JG — Este livro foi escrito há cerca de oito anos. Demorou três a quatro meses a escrever e revi‐o há um ano atrás.

P — Posso saber quem foi a primeira pessoa a quem deu a ler os seus poemas?

JG — A primeira pessoa a ler os meus textos foi o meu pai. Gostou. Leu romance e teatro, anda não tinha lido poesia. Algumas amigas e amigos também leram coisas pequenas, fragmentos. No caso de história do século vinte tenho de agradecer aos membros do júri, pois eles foram, neste caso, primeiros leitores. Isto se aceitarmos que quem escreve não é leitor de si mesmo, ou é um leitor bastante imperfeito de si mesmo. A minha revisão deste texto recordou‐me o que ele tem de resistente, de sólido e duro, de difícil, por isso o meu reconhecimento a estes primeiros leitores.

Março de 2016

Luís Filipe Castro Mendes, diplomata e poeta que hoje assume funções como Ministro da Cultura de Portugal, é autor da Imprensa Nacional-Casa da Moeda desde 1983.

Recados, o seu primeiro livro publicado, é o 16.º título da Plural, a histórica coleção criada por Vasco Graça Moura na década de 1980 para acolher obras de novos mas já então muito promissores autores, nas áreas de ficção, ensaio, dramaturgia, artes plásticas e, sobretudo, de poesia.

Em Recados, Luís Filipe Castro Mendes problematiza a relação entre o sujeito e a realidade, a palavra e o silêncio, o eu e o outro.


Não, nenhuma orla de desejo entre as minhas imagens e a tua voz nos podia trazer qualquer palavra de sossego. Remetíamo-nos à comunicação imóvel dos bichos, como se ela fosse inscrição da sede na fruta. Mesmo a orientação das raízes na espessura da treva não nos era mais familiar do que qualquer perdida música. Estávamos sós, entre o coração vazio e a quieta maturação do esquecimento.



Luís Filipe Castro Mendes,
«Transparências da Manhã 1»,
in Recados,
coleção Plural,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda,
Lisboa, 1983, p. 17


 
in Jornal de Letras e Ideias, n.º 1187, de 30 de março a 12 de abril de 2016








Direis que não é poesia
                    e a mim que importa?
Eu canto porque a voz nasce e tem de libertar-se.
Eu grito porque respondo
                    às lanças que nos espetam
                    e aos braços que me chamam
E porque, dia e noite, minhas mãos e meus olhos,
por estranhas telegrafias,
dos cantos mais ignotos
                    e das ilhas perdidas
e dos campos esquecidos
                    e dos lagos remotos,
                                        e dos montes,
recebem longas mensagens e comunicações:
                    para que grite e cante.

O meu grito e meu canto é a voz de milhões.

Por isso que me importa?
Eu canto e cantarei o que tiver a cantar
e grito e gritarei o que tiver a gritar
e falo e falarei o que tiver a falar.

Direis que não é poesia
                    E a mim que importa
se eu estou aqui apenas para escancarar a porta
                                        e derrubar os muros?

E a mim que importa
Se vós sois afinal o que hei de ultrapassar
e esmigalhar
                    em nome
                                        de todos os futuros?

Eu sigo e seguirei
como um doido ou um anjo,
obstinado e heroico a caminho de nós
                                        em palavras e ações
Por todos os vendavais
                    e temporais
                                        e multidões
nos cantos mais ignotos
                    e nas ilhas perdidas
e nos campos esquecidos
                    e nos lagos remotos
                                        e nos montes
                                        — por terra, mar, e ar.

Direis que não é poesia
                    e a mim que importa!
Convosco ou não, meu galope é em frente.
Pertenço a outra raça, a outro mundo, a outra gente.

É andar! É andar!

(1942)

in Mário Dionísio, Poesia Completa
colação PLURAL, Imprensa Nacional-Casa da Moeda
(em publicação)


 




« Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros »



in Mário Dionísio, Poesia Completa
colação PLURAL, Imprensa Nacional-Casa da Moeda
(em publicação)



« A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.

A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã. »


in Mário Dionísio, Poesia Completa
colação PLURAL, Imprensa Nacional-Casa da Moeda
(em publicação)



por Tânia Pinto Ribeiro

Em 1999, a UNESCO proclamava em Paris a decisão de celebrar o dia 21 de março como Dia Mundial da Poesia. Ontem, tal como hoje, a UNESCO reconhece que a poesia é um valor e um símbolo da criatividade do espírito humano. Na sua mensagem de 2016 a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, sublinha:
Ao dar uma forma e pôr em palavras aquilo que não tem nem um nem outro — como, por exemplo, a insondável beleza que nos rodeia ou o imenso sofrimento e a miséria que existe no mundo — a poesia contribui para a expansão da humanidade que nos une, ajudando a aumentar a sua força, solidariedade e consciência.

O PRELO não podia deixar de juntar-se aos festejos, e celebra este dia destacando a coleção Plural, uma coleção inteiramente dedicada à poesia e aos poetas. Uma coleção que é ela própria fruto da criação de um grande e já saudoso poeta: Vasco Graça Moura. Quando em 1982 Graça Moura era administrador e responsável pelo pelouro editorial na INCM, cria a Plural dando guarida a obras de novos mas já promissores autores, que tinham nesta coleção a primeira oportunidade de publicação. Entre os títulos publicados encontram-se obras de ficção, ensaio, dramaturgia, artes plásticas, mas sobretudo poesia.

Em 2015, com a criação do Prémio INCM/Vasco Graça Moura, renasce a coleção e é agora desígnio da nova Plural publicar as obras poéticas distinguidas no âmbito do Prémio, mas também outras obras de indubitável qualidade, que não encontraram ainda a justa oportunidade de publicação ou que são de acesso difícil para o público português.

A inaugurar a nova Plural estão as obras premiadas história do século vinte de José Gardeazal e Fade Out de Alexandre Sarrazola (respetivamente, vencedor e menção honrosa do Prémio INCM/VGM 2015) e, para sair em breve, Estrada Nacional do português Rui Lage. Porque não há duas sem três, a juntar à POESIA e à renascida PLURAL festejamos também, em ano de centenário, a Poesia Completa de Mário Dionísio, que será reunida e acolhida também na Plural. Um espaço, tal como a natureza intrínseca do poema, de liberdade, de literatura, de difusão, de pluralidade, de inquietude e questionamento. Em suma, de Primavera — de nascimento e de renovação.

E assim em jeito de presente e pré-publicação ao longo do dia, o PRELO irá publicar alguns poemas selecionados deste autor. Poemas que fazem parte de uma obra poética que, no dizer de Georges Le Gentil, é «daquelas que ultrapassam a introspeção e restabelecem o contacto entre a arte e a vida» e onde podemos encontrar ou reencontrar, ainda nas palavras de Le Gentil, «a mesma angústia e a mesma fé, o sentimento agudo da miséria humana e o grande apelo à fraternidade num mundo em que se desencadeiam as paixões de outra época».

E porque a Poesia não se inventou — apenas — para cantar o Amor, termina-se este texto invocando um prosador maior, talvez o maior: Eça de Queirós, que escrevia assim em A Correspondência de Fradique Mendes:
A poesia não se inventou para cantar o Amor — que de resto não existia ainda quando os primeiros homens cantaram. Ela nasceu com a necessidade de celebrar magnificamente os deuses, e de conservar na memória, pela sedução do ritmo, as leis da tribo. A adoração, ou captação da divindade, e a estabilidade social, eram então os dois altos e únicos cuidados humanos: — e a Poesia tendeu sempre, e tenderá constantemente a resumir, nos conceitos mais puros, mais belos e mais concisos, as ideias que estão interessando e conduzindo os homens. 

Haverá elogio maior?

Que a POESIA e os POETAS estejam sempre entre nós!

TPR