Título: Coreografando Melodias no Rumor das Imagens
Autor: Mário Avelar
Apresentação: Antonio Sáez Delgado
Coleção: Plural
Edição: Imprensa Nacional
Data: quinta-feira, 14 de junho
Horário: 18:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Livro dentro de outros livros, Coreografando Melodias No Rumor Das Imagens revela, de forma intimista e contemplativa, a nostalgia de momentos diversos advindos de encontros escorados nas diferentes linguagens artísticas ou de meros quotidianos a que o poeta imprime memórias e significados que os transmutam.

Mário Avelar nasceu em Lisboa em 1956. Professor catedrático de Estudos Ingleses e Americanos, publicou os seguintes livros de ensaios: América — Pátria dos Heróis (1994), Sylvia Plath — O Rosto Oculto do Poeta (1997), História(s) da Literatura Americana (2004), Ekphrasis — O Poeta no Atelier do Artista (2006), O Nascimento de Uma Nação — Nas Origens da Literatura Americana (2008), O Essencial sobre William Shakespeare (2012), O Essencial sobre Walt Whitman (2013). É autor dos romances: Pentâmetros Jâmbicos (2008) e Inveja — Uma Novela Académica (2010). A sua poesia reunida é publicada pela Imprensa Nacional sob o título Coreografando Melodias no Rumor das Imagens (2018).


Por: Tânia Pinto Ribeiro

Se fosse uma canção de Bossa Nova, pela melodia, seria a icónica Manhã de Carnaval — a canção mais famosa de Luiz Bonfá e de Antônio Maria, eternizada nos ecrãs de cinema, em Orfeu Negro. A atentar à letra, seria O Quereres, de Caetano Veloso, uma canção toda feita de falsas antíteses. E se a sua vida desse um filme escolheria Charles Chaplin para o realizar — foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça. Mas, é sabido, a vida não obedece aos condicionais. Isso é coisa da gramática.

Tinha apenas minutos de vida quando o avô materno, português de Évora, profetizou que o neto seria escritor. E quis o acaso — «tudo na vida é o acaso» — que nascesse no Dia de Camões. Mas Antonio Carlos Secchin, poeta, ensaísta, crítico literário, professor de literatura e um dos imortais da Academia Brasileira de Letras não tem a pretensão — apesar «da sua aspiração das grandezas» — de «unificar as duas datas nacionais». Mas gostaria de ver as literaturas portuguesa e brasileira, muito concretamente no campo poético, a descobrirem-se uma à outra. Afinal, são «duas amigas que se desconhecem». Por exemplo, Manuel António Pina é «inteiramente desconhecido» no Brasil, mas Antonio Carlos Secchin deu-lhe o seu voto em 2011 — ano em que Manuel António Pina recebeu o Prémio Camões.

Se pudesse, Antonio Carlos Secchin gostaria de raptar Cesário Verde para a literatura brasileira. «Nós não temos nada no Brasil de equivalente. Ele é parnasiano, é realista, é irónico». À mesa dos deuses sentaria Fernando Pessoa, Camões, Mário de Sá-Carneiro e Antero de Quental — de quem possui as primeiras edições assinadas. Dos mais recentes, Secchin admira Sophia e Eugénio de Andrade e também Gastão Cruz, Nuno Júdice, Inês Fonseca Santos, E. M. Melo e Castro, «na sua linha mais experimental», Fiama Pais Brandão, Al Berto, entre muitos outros.

No campo académico, refere Alva Teixeiro, Aparecida da Silva, Abel Barros Baptista, Vania Chaves e Arnaldo Saraiva como os principais mestres portugueses em Literatura Brasileira. Na inversa, cita, entre outras, as figuras icónicas de Cleonice Berardinelli, «viva nos seus 102 anos», e de Massaud Moises, ambos fulcrais para os estudos da Literatura Portuguesa no Brasil.

Antonio Carlos Secchin pensou em estudar, a fundo, o autor de O Ateneu, Raul Pompeia, mas acabou por se especializar no pernambucano João Cabral de Melo Neto eternizado pela sua Morte e Vida Severina. Depois de muitas páginas escritas e de 30 anos de muita pesquisa, em 2014, Secchin lançou aquele que considera ser o seu «livro testamento» em matéria cabralista: João Cabral: Uma fala só lâmina, um livro com quase 500 páginas. Depois disto anunciou a sua reforma em João Cabral. Mas será que Cabral é um assunto mesmo arrumado? «Sempre digo que é e as pessoas nunca permitem que o seja», desabafa. Arrumada está a questão do Acordo Ortográfico de 1990 no Brasil, onde «foi aceite pacificamente e não causou confusão».

Quanto à poesia, diz-nos, que esta fala para cada vez menos pessoas, o que «do ponto de vista da difusão é a sua tragédia, do ponto de vista da autonomia é a sua glória». Para Secchin o poeta é «uma ilha cercada de poesia alheia por todo o lado». E o crítico também: cercado por todos os discursos que o banham. A diferença é que o poeta está «absolutamente livre diante da página em branco». Já o crítico pode ir para qualquer lugar mas está, à partida, «com o espaço predeterminado». Esse espaço é a palavra do outro. Entre julgar ou compreender uma obra, Secchin prefere a via da «compreensão». Até porque «a vida é muito curta para perdemos tempo com obras que nós achamos ruins».

Diz que «todas as palavras combinadas são passíveis de análise» mas ressalva: «letra é uma coisa poema é outra». E, neste sentido, Vinicius foi um grande poeta mas «como letrista escreveu textos, na média, de nível abaixo dos que fez como poeta».

Antonio Carlos Secchin diz-se «imantado» pela Literatura. E foi ela que o trouxe a Portugal, em Maio de 2018 — como de todas as outras vezes. Desta vez veio também para tomar posse na Academia das Ciências de Lisboa — como correspondente brasileiro — e para percorrer os alfarrabistas, de que tanto gosta, ou ir até à a Feira da Ladra, em pleno coração alfacinha — o lugar onde sempre «vingamos dum pouco desse tempo que morreu», como diz a letra de Ary dos Santos.

Por ser um «apaixonado por livros», Secchin é tido como um dos principais bibliófilos brasileiros. Eucanaã Ferraz dedicou-lhe um poema, precisamente: «Os Bibliófilos». Uma paixão que o fez descobrir volumes raros, alguns já considerados perdidos para sempre. Descobriu, por exemplo, Os 25 Poemas da Triste Alegria, de Carlos Drummond de Andrade, ou Espectros da Cecília de Meireles, um livro de 1919, que estava desaparecido há mais de 80 anos. «O livro escolhe as mãos em que quer parar!», diz.

Antonio Carlos Secchin, esteve a 11 de maio na Biblioteca da Imprensa Nacional para lançar Desdizer, um livro que dedica à mãe, que, conta, foi quem lho encomendou. «Felizmente ela nunca me pediu um livro de ficção». A cerimónia pública contou com a apresentação de Ronaldo Cagiano e com  as presenças do Ministro da Cultura Português, Luís de Castro Mendes, e do Embaixador Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, Representante Permanente do Brasil junto à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Desdizer — o título é uma provocação — está agora publicado na renovada coleção «Plural» da Imprensa Nacional, coordenada pelo também poeta e editor Jorge Reis-Sá, e vem juntar-se a mais dois outros poetas brasileiros: Eucanaã Ferraz, seu antigo aluno, e Alice Sant’Ana, um «frescor» para a nova poesia brasileira. Logo na contracapa de Desdizer pode ler-se que este congrega toda a produção poética de Antonio Carlos Secchin «em forma definitiva». Será que devemos acreditar?

Ler entrevista na integra aqui




Título: Aula de Natação
Autor: Alice Sant’Anna
Apresentação: Anabela Mota Ribeiro
Coleção: Plural
Edição: Imprensa Nacional
Data: segunda-feira, 21 de maio
Horário: 18:30 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Aula de Natação é um livro repleto de lirismo, delicadeza, cor e movimento, elementos que singularizam a escrita de uma das mais novas e talentosas poetas contemporâneas brasileiras.
Alice Sant’Anna tem a capacidade de extrair poesia das coisas simples. Através do seu olhar o prosaico ganha aspetos singulares, fixando indelevelmente a sua personalidade e visão do mundo.

O que chamou minha atenção de chofre foi a qualidade da escrita. Não havia deslize. Sabia parar na linha certa, com uma noção de equilíbrio notável. E sabia — e como — continuar no poema seguinte do mesmo modo. Como seu leitor, ao passar do tempo, fui vendo que sua poética, a partir de Dobradura, tal como um origami, se transformava
subliminarmente, mantendo‑se fiel ao ponto de origem, ao toque do lápis primal, ao desenho das primeiras palavras. Coisa rara, encantadora e firme.
in Prefácio por Armando Freitas Filho

Alice Sant’Anna
Nasceu em 1988 no Rio de Janeiro. Lançou o seu primeiro livro de poemas, Dobradura, aos 20 anos. Publicou Rabo de baleia, que venceu o Prémio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) em 2013 por título de poesia. Pé do ouvido, lançado em 2016, é um longo poema resultado da sua pesquisa de mestrado sobre poesia japonesa. Além desses três títulos, lançou livros por conta própria, artesanais, e por editoras independentes, três dos quais em parceria: Ilha da decepção, com fotografias de Alexandre Sant’Anna; Vinhetas, com Zuca Sardan; e Pingue pongue, com Armando Freitas Filho.

Anabela Mota Ribeiro
Nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa. É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Filosofia (variante Estética) com uma tese sobre «A Flor da Melancolia e o Ímpeto Cesariano (ou a Negação e a Afirmação da Vida) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis». Jornalista freelance, colaborou com diversos jornais e revistas, entre eles, e de forma sistemática, DNa (suplemento do Diário de Notícias), Jornal de Negócios e Público.
fonte: www.anabelamotaribeiro.pt






À venda nas nossas lojas.




Título: Desdizer
Autor: Antonio Carlos Secchin
Apresentação: Ronaldo Cagiano
Coleção: Plural
Edição: Imprensa Nacional
Data: quinta-feira, 11 de maio
Horário: 18:30 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Este é um livro de livros diversos. Estão aqui reunidos todos os títulos que compõem a obra poética de Antonio Carlos Secchin, autor em que esplende uma constelação de ofícios afetos à arte da palavra. Influente e respeitado crítico literário, Secchin é ensaísta refinado e ficcionista bissexto. É membro da Academia Brasileira de Letras e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde lecionou literatura brasileira durante décadas. Bibliófilo apaixonado, é responsável pela redescoberta e pela reedição de obras raríssimas, consideradas irremediavelmente desaparecidas da história literária do Brasil.
Os muitos lados além de outros lados bem simbolizam o multifário universo lírico secchiniano, irredutível a classificações superficiais ou categorizações simplistas. O caráter múltiplo e não excludente, que tudo abarca no irrenunciável destino de produzir beleza, é pedra fundamental dessa obra, e lastreia o que o próprio Secchin define como «poética do desreconhecimento», na qual, segundo o autor, «a haver um fio condutor no que escrevo, ele não se localize nem na influência tutelar de um guia, nem na recorrência de temas, ou tampouco na reiteração do estilo».
Alguns dizeres antes de Desdizer (estudo introdutório desta obra)
Luciano Rosa


Antonio Carlos Secchin
Nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. É Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde lecionou por quase quatro décadas, até 2011. Hoje, é Professor Emérito da instituição. Poeta com 10 livros
publicados, é ainda autor de outros 7 na área do ensaio. Organizou também uma vintena de publicações — antologias, obras reunidas — de alguns dos mais importantes poetas da literatura brasileira, como Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar. Em 2004, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tornando-se à época o mais jovem membro da agremiação. Proferiu cerca de 500 palestras distribuídas por quase todas as regiões do Brasil e por países de África, América e Europa.
Desdizer congrega toda a produção poética, em forma definitiva, de Antonio Carlos Secchin que, nas palavras de Ferreira Gullar: «além de lúcido crítico de poesia, é poeta e de raras e especiais qualidades, numa mescla de lirismo e senso de humor».

Ronaldo Cagiano
Escritor, ensaísta e crítico brasileiro, colabora com diversos jornais e revistas do país, tendo publicado 14 títulos.




POEMA DA MULHER NOVA

Vejo-te no mundo que não pára,
como um grande lenço rubro desfraldado.
Vejo-te em mim quando me sinto massa
com milhões de braços e de pernas e uma cabeça de anjo.
Vejo-te na vida em marcha,
nas mãos estendidas.
Vejo-te em toda a vibração,
nas plantações cobertas de girassóis e de papoulas,
no topo dos tractores arroteando a terra.

Vejo-te nua das sedas
com a boca rasgada numa canção de futuro
como um punho ameaçador à pestilência dos homens.

Vejo-te bela
com os cabelos ao vento,
em frente,
sem um talvez: perfeita.

Vejo-te mãe de milhões de homens novos,
de rosto calmo e olhos firmes,
através das labaredas e do fumo,
sem país e sem lar, a caminho da vida
— na descoberta constante.



Mário Dionísio
Poesia Completa Coleção Plural



por Maria da Conceição Caleiro
in Revista Caliban, 18 set. 2016


E uma imagem. Vidro sobre vidro, autor anónimo, séc. XIX. Textos que emanam imagens fortes: Fade Out, menção honrosa do prémio de poesia INCM/Vasco Graça Moura, é o último volume de uma trilogia que inclui Thaumatrope (Averno, 2007) e View-Master (Língua Morta, 2013). Imagen(s), mote ou trampolim de escrita. Livro dedicado a Mafalda Capela cujas fotografias têm acompanhado o escritor. Poesia? Prosa? Antes quadros imagéticos fortíssimos. Livro dividido em duas partes: RODA DE FARADAY e DRESS CODE. O movimento, a velocidade que alucina e transformo no seu curso umas coisas noutras e outras; a máscara sobre a máscara do sujeito que enuncia e de qualquer cena enunciada; e dada a ser visualizada.

Uma poesia culta, algo hermética plena de erudição, «textos sobre textos», multirreferencial, que se mascara, densa, elítica. Quase parece um quebra-cabeças com que o autor se diverte e nos enreda. Como que estratificada em ondas vibrantes e sucessivas de sentidos possíveis que se sucedem mas não se sobrepõem e expandem diferindo qualquer sentido que um instante sincronizou, e que parecia estável como uma câmara lenta. Mais parece uma incessante charada. No Aurélio, charada: «espécie de enigma cuja solução consiste em recompor uma palavra partindo de elementos desta ou de sílabas que tenham um significado determinado, sendo tais significados (parciais, pedras ou chaves) apresentados juntamente com um conceito que expressa a palavra desejada. Caso ou assunto misterioso».

Ao mesmo tempo da imaginação (metaforicamente desenfreada ) que reúne corpos sem nada aparentemente em comum, da atenção aos agregados imagéticos que isola, intensifica e por acumulação metonímica exaustivamente descreve. Riqueza metafórica na vertical e acumulação metonímica que estende o espaço sem o esgotar, as conexões são sem fim. Tal como o trabalho do arqueólogo que o autor é e em que o leitor é induzido a transformar-se, expurgando estrato a estrato, em profundidade, o que parece turvar a compreensão plena. E dentro da imaginação uma obsessiva, obstinada e precisa atenção às pequenas peças do mundo.

Na capa, uma linha negra esgarçada, talvez uma réstia da lua. Ou luz. Um rastilho magro que mesmo assim levará o texto sempre a reacender-se.

Mesmo que sobre um pano de fundo obscuro, de guerra, conflito e de morte.

Todo um léxico noturno trespassa: sangue, cicatrizes, rixa de navalhas, bélica celebração, navalha, ponta-e-mola, balear, bala, tórax couraçado, cota de malha, elmo, detonação, 6,45 [arma]… Uma constelação bélica suporta-a:
HELENA:

de pouco lhe servia a tua ponta-e-mola quando a quiseram levar dali para o bloco
onde se morria preso por elásticos e ligado a garrafas de soro sedativos e mijo;
a Ilíada à cabeceira e a velha levada por uma plêiade de mulheres de socas perfuradas
suas saias drapejando o ar condicionado demasiado apontado ao linóleo do piso

sobre quem retumbar era só uma questão de fortuna: os aparelhos a monitorizar a queda;
rodapé vidros e chão: tudo agredido por um solvente com nome de guerreiro aqueu —
e eis que enquanto a empurravam, as almofadas em desordem sobre a cama de rodados,
rachou o ecrã da laparoscopia empunhando bem alto o seu flamejante capacete de deusa.
Um dos traços estlísticos desta escrita é a colisão de universos à partida distintos, o chamado zeugma: os olhos de Peter, eram azuis e ele tinha uma pistola de alarme. Chama-se Aquiles o poema e é talvez um dos mais belos de Fade Out. Curiosamente usa-se e abusa-se do condicional. O futuro do passado. O passado revisitado numa perspetiva futura? De quem persegue as situações de fora de qualquer, ou seguindo o rastilho trespassando todos os tempos. Diluindo-os. Talvez.

Tudo é perspetivado assim. Diversas situações que tendo sido viriam a ser.

O passado revisitado adquire uma aura de tempo sem balizas, sem bainha. Imponderável. O futuro do passado reinventa-se. Daí talvez a preferência por minúsculas no começo de cada verso, deixados em aberto do começo e no fim. Sem ponto final, antes o ponto e vírgula, uma pausa menor do que o ponto. Uma espécie de ethos desencarnado que levita mesmo quando a identificação no espaço é precisa.

Uma espécie de regresso. A persistência em sincronia com a memória do agora ou do naquele tempo. Talvez por isso os títulos dos poemas são os nomes próprios de Homero: Aquiles, Ájax, Heitor, Ulisses; Paris, Agamémnon, Helena.

Na primeira parte o espaço, povoado pelos «mauvais garçons» é reconhecível: de Carcavelos a Santo Amaro talvez: a praia, o túnel para a praia, a Pérgola, a linha de caminho de ferro à beira, a Marginal onde alguém mergulha e morre. Sob o rápido de Algés. E era verão, é quase sempre verão o tempo destes maus rapazes, violentos e alcoolizados, na ressaca. A temática dos amigos, da adolescência, da família insiste.

Versos longos, quase prosaicos cuja poeticidade, ou estranheza, advém sobretudo da irrupção de elementos insólitos, cujo choque de alusões nem sempre facilmente decifráveis (o que acontece aliás em todo o livro aliás), na solene e elegante inversão de substantivo e adjetivo, na menção de um léxico incomum no texto literário e que nos sobressalta; estranha a leitura (farmacopeia. Ablepsia ou laparoscopia), assim como o gosto por termos já quase arcaicos ou línguas estrangeiras. Sem esquecer a elegância das repetições.

Lugares, personagens, nomes que arrastam e cumulam uma história, abraçam e dão nome próprio ao que o poema alude, que nele se inspira. E que o leitor terá de desvendar, se quiser, estas contiguidades intensas.

Um exemplo: da segunda parte, DRESS CODE, o primeiro «A shorter Ego. [ James Agate]». Primeira interrogação do leitor comum: quem foi James Agate (1877–1947)? Um diarista (Ego, em vários volumes), textos sérios e faits-divers, assuntos descosidos, critico de teatro britânico, desabrido e mordaz, as entradas do são de uma grande variedade. Elitista e petulante, um dandy. Gostava de cavalos e ambientes requintados: Ego, é o nome que o sujeito poético (James Agate?) chamava a uma égua baleada. A sua agonia é dilacerante. Todo o poema é construído sobre um eixo semântico equestre e a violência animal do cavaleiro: o cavalo, o cavalgar e os apetrechos da cavalgada (até as luvas que a seguir à detonação foram deixadas numa cómoda encimada pela figura de São Francisco;
o texto é emblema deste labor e universo poéticos tão peculiares em todos os planos: a ferocidade, um estado ou ameaça de guerra latentes e a minúcia dos detalhes. Ela, Ego, «espojada entre os trevos e as azedas» diria: «Seigneur, faites de moi un instrument de votre paix», transcreve Sarrazola a oração de São Francisco, o mesmo pousado sobre a cómoda de mogno.

De resto a hiponímia é um dos traços mais marcantes. Ainda deste poema, mas poder-se-ia escolher muitos outros:

no princípio era a pulsão de a montar e ir a passo galgar o arroio bordejado da azedas
que marcava o limite da granja e corria depois para a curva da várzea alagada pelo rio: 
ninguém aqui me estranhou, nem às polainas sujas de pétalas de flores do lameiro; (…). 

Se o olhar é regra geral agreste, Com a soberba fria de um olhar que se quer exterior, sem sujeito, a frio. Mesmo escaldando por defeito. No que diz respeito à paisagem, a uma certa ruralidade, a violência dá tréguas e a delicadeza quase amorosa emerge.


Fade Out - Alexandre Sarrazola


Alexandre Sarrazola
Fade Out
Coleção Plural
Imprensa Nacional-Casa da Moeda




há uma paragem no final de cada estação
onde os dedos hesitam e as mãos incompletas
se abrem de vazias, a pele fria e outra.
e tão-pouco pode a canção, se o céu se esgota
e a planície outrora habitada de sons
é já abismo de nomes, falésia cega de vida.


entoamos o murmúrio antigo dos cereais,
a velocidade dos esquilos, o enigma das pedras,
porém é desacerto dormir fora da noite.
é verdade que não disseram que viria a existir
este solo gasto, este território de espuma morta,
nunca se imaginou o mar desfeito de azul e ritmo,
nunca se quis a voz estrangeira por berço.


haveria pureza, entende-se, se o tempo fosse único,
se a montanha não rachasse a terra, a boca o corpo,
assim como não se concebeu um acampamento de estrelas
fora da humana trajectória — e isto sim está certo.
entre os mundos detecto a estranha forma dos anos
que vêm a ser os nossos, os meus, onde eu procuro caber,
e não só caber como exceder, infringir, ser louco
à revelia do rosto, explodir como uma vogal.


porque se descobrirá o tamanho desta lágrima breve,
porque o verso está grávido do poema e o poema
de todo o mundo possível, e todo o mundo possível
aponta para a completude dos braços que não fechamos.
auscultamos as portas e as casas serão sempre imprevisíveis.

por isso me deito sobre tudo quanto amei
e, ao cair a gota de luz no silêncio onde vou nascer,
escolho a margem, a fronteira, a idade redonda de um lírio.

Vasco Gato
Contra Mim Falo. Poesia Reunida
Coleção Plural
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Novembro 2016


https://www.rtp.pt/noticias/cultura/o-vaivem-entre-as-raizes-e-o-futuro-na-obra-de-rui-lage_v983965
Um vaivém entre o campo e a cidade, que tem a ver com uma tensão territorial, geográfica, cultural, que coincide com uma tensão também existencial, e onde está presente o medo do desenraizamento e da perda da identidade. Há um desejo de partir e até de me despedir, de um mundo rural, de um mundo campestre, que foi o da minha infância e o dos meus antepassados. Constata-se a impossibilidade de regressar a esse mundo, ou porque se regressa às ruínas da infância e a um espaço marcado pelo desaparecimento dos antepassados; ou, num âmbito mais geral, pela impossibilidade de regressar ao que foi o mundo rural português tal como ele existiu durante séculos ou até milhares de anos e que desapareceu algumas décadas atrás.
(...)
Há também hoje, embora de uma forma um pouco tímida, um certo impulso de regressar ao campo, porque se entende que isso proporciona um tempo mais lento, mais saudável, mais próximo da natureza e, nesse aspeto, mais verdadeiro. Muitos jovens são movidos por algum idealismo. Muitos deles também se desiludem com o que lá encontram. Mas é um fenómeno interessante.
(...)
É a minha despedida. Quer porque esgotei já o meu olhar sobre esse mundo (...). E também porque há o reconhecimento de que o regresso é impossível. Sobretudo o regresso privado, a nível individual, porque esse mundo está hoje, para mim, povoado de perdas e de ausências. É um regresso utópico. Uma espécie de partida que se confunde com regresso. Como se a partida e o regresso fossem a mesma coisa, tivessem o mesmo rosto.



 



Rui Lage, natural do Porto, com sete livros de poesia publicados, foi distinguido na 10.ª edição do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2016 pelo livro Estrada Nacional, publicado pela Imprensa Nacional.

... uma viagem com partida e regresso pelo mundo rural, com o itinerário definido poema a poema, estrada a estrada, e onde as representações são apresentadas pelo olhar de Rui Lage
O Prémio Literário Fundação Inês de Castro é um prémio anual que distingue obras publicadas sobre temas «inesianos», como a paixão, a vingança, a tragédia, as razões de Estado no contexto português.

O júri do Prémio em 2016, presidido por José Carlos Seabra Pereira, integrou ainda Mário Cláudio, Isabel Pires de Lima, Pedro Mexia e António Carlos Cortez.




Estrada Nacional é um título da nova PLURAL, a coleção criada por Vasco Graça Moura na década de 1980, hoje dedicada exclusivamente à poesia sob a direção de Jorge Reis-Sá, com design de André Letria.






Nas anteriores edições, foram distinguidos Pedro Tamen pelos poemas de Analogia e Dedos (2007), Teolinda Gersão pelo volume de contos A Mulher Que Prendeu a Chuva e Outras Histórias (2008), José Tolentino de Mendonça pelo livro O Viajante Sem Sono (2009), Hélia Correia pelo livro Adoecer (2010) e Gonçalo M. Tavares pelo livro Uma Viagem à Índia (2011), Maria do Rosário Pedreira pelo livro Poesia Reunida – A ideia do fim (2012), Mário de Carvalho pelo seu livro de contos A Liberdade de Pátio (2013), Luís Quintais pelo seu livro de poesia O Vidro (2014) e Armando Silva Carvalho pelo seu livro de poesia A Sombra do Mar (2015).

Recortes de imprensa:

http://observador.pt/2017/02/16/fundacao-ines-de-castro-premeia-poesia-de-rui-lage-e-carreira-de-maria-velho-da-costa/http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-02-16-Rui-Lage-vence-Premio-Literario-Fundacao-Ines-de-Castro-2016


https://www.publico.pt/2017/02/16/culturaipsilon/noticia/fundacao-ines-de-castro-premeia-poesia-de-rui-lage-e-carreira-de-maria-velho-da-costa-1762248


http://rr.sapo.pt/noticia/76203/fundacao_ines_de_castro_distingue_escritores_rui_lage_e_maria_velho_da_costa


https://www.tveuropa.pt/noticias/rui-lage-vence-premio-literario-fundacao-ines-de-castro-2016/
http://www.revistaestante.fnac.pt/rui-lage-vence-premio-literario-fundacao-ines-castro/

http://www.porto.pt/noticias/rui-lage-e-o-vencedor-do-premio-literario-fundacao-ines-de-castro-2016
https://noticias.up.pt/alumnus-da-flup-vence-premio-literario-fundacao-ines-de-castro-2016/




por Diogo Vaz Pinto, in Sol, 21 jan 2017


Contra Mim Falo, título da obra poética de Vasco Gato, acaba de chegar às livrarias e é, a par da reunião da obra do poeta brasileiro Eucanaã Ferraz, uma edição que abre boas perspetivas quanto ao projeto de fazer renascer a Plural.

A estreia no ano 2000, se não foi das mais seguras, viria a ser marcante por dar início a um percurso que hoje coloca Gato como um dos nomes mais firmes da nova poesia portuguesa, essa que não recusa nem vira as costas aos grandes abalos provocados na tradição poética portuguesa no século XX.

DVP — Este título, Contra Mim Falo, pressupõe a ideia da poesia como o discurso com o qual uma pessoa se condena, ao invés de procurar salvar-se?

VG — Claramente. Espero que esse fogo se mantenha, o da poesia como o grande adversário da complacência. É fácil não ter complacência com o mundo, com o estado das coisas, mas depois seres bastante benevolente contigo próprio. O título pode estender-se a essa investigação que deves sempre manter, um estado de vigilância e confronto contigo mesmo. Na verdade, nasceu da ideia de reunir todos os livros, que não era algo que eu desejasse propriamente, sabendo que ia ter de lidar com muitas coisas que, neste momento, me põem a falar contra mim, mas, num sentido mais lato, creio que sempre foi essa a matriz.

DVP — Nos últimos tempos tem traduzido muita poesia. Há um lado mais sedutor na tradução do que na escrita de poesia?

VG —
Sim. Há o próprio deslumbramento de andar a folhear e ser de repente apanhado por qualquer coisa. Já há o ponto de partida do fascínio e o desafio é só – é só? – transpô-lo, fazer com que mantenha a palpitação. Na escrita tens de andar à procura de um deslumbramento ou de uma inquietação. Às vezes penso que já traduzi muito, julgo que já não vou encontrar muitos poemas… E de repente, no último ano, depois de ter reunido uma série de poemas traduzidos, já tenho mais cento e tal páginas de poemas. Não vou dizer que é inesgotável, mas é fascinante essa promessa renovada de que vais encontrar uma coisa que te vai derrubar. É esse o gozo do tradutor, neste caso, o saber que andam por aí à espera que tropeces neles, ou que alguém tos faça chegar. Que vais ter outra vez esse momento de descoberta.

Ler a entrevista na íntegra:

Pag 1

 Pag 2

Pag 3


Pag 4