Luís Caetano gravou o seu pivot do programa «Todas as Palavras» de 23 de julho de 2016 nas instalações da INCM, na esquina da Rua da Escola Politécnica com a Rua de Imprensa Nacional, em Lisboa.
Foi um gosto recebê-lo, bem como à sua equipa, e partilhar esta grata missão de preservação da cultura portuguesa.

INCM.

Esta sigla resulta da fusão em 1972 da Imprensa Nacional e da Casa da Moeda.

Começou por ser Impressão Régia, criada em 1768 pelo Marquês de Pombal, com o objetivo de «fazer-se respeitável pela perfeição dos caracteres e pela abundância e asseio das suas impressões.»

Mas em 1863 passou a ser designada por Imprensa Nacional com a missão de «animar as letras e levantar uma impressão útil ao público pelas suas produções, digna da capital destes reinos».

Aqui labora, há mais de dois séculos, na rua a que deu nome em Lisboa, com pergaminhos na arte da gravura. Uma escola de talentos nas artes gráficas e um imenso legado de grandes livros de caráter literário, artístico ou científico que aumenta a cada ano.

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda preserva e divulga o património literário português. Aqui encontramos, por exemplo, as obras completas de Almada Negreiros, José Régio, Vitorino Nemésio; ou a edição crítica de Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Camilo, Garrett; sínteses da cultura, ensaios, história, novos autores.

Uma rica e variada proposta editorial marcada desde sempre pela vertente institucional. Da Gazeta de Lisboa ao Diário da República, é nesta chancela de confiança que encontramos informação oficial e documentos fundamentais para o país.

Luís Caetano, Todas as Palavras, RTP 3, 23 / 7 / 2016

Veja a emissão completa aqui.

RAS



Foi a 10 de abril de 1976 que se procedeu à mudança da denominação do jornal oficial para Diário da República, no preciso dia em que foi publicado o Decreto que aprovou a Constituição da República Portuguesa, aprovada em 2 de abril de 1976, e que foi assinado pelo Presidente Francisco da Costa Gomes.

A associação do Diário da República à Constituição de 1976 constitui um facto simbólico, na medida em que inaugura um período constitucional comprometido com o Estado de Direito e com a ideia de que os cidadãos são diretos da soberania nacional e do direito fundamental à segurança jurídica e ao conhecimento do Direito vigente.

(...)

O jornal oficial tem a sua origem no longínquo ano de 1715, quando se deu início à publicação da Gazeta de Lisboa. Ao longo dos anos, a sua designação foi oscilando, mantendo a sua designação de Diário do Governo até 9 de abril de 1976.


in site oficial
da Ministra da Presidência e da Modernização Administrativa
XXI Governo Constitucional
República Portuguesa



Notícia completa aqui.



por Tânia Pinto Ribeiro

Duarte Azinheira é diretor da Unidade de Publicações da Imprensa Nacional-Casa da Moeda S.A. É licenciado em Ciência Política e pós-graduado em Gestão de Recursos Humanos. Trabalha em questões editoriais, com funções executivas e consultivas, há mais de 20 anos, em instituições públicas e privadas. Desempenhou, entre outras funções, a de diretor-geral da Assírio & Alvim e a de consultor do Instituto Camões para a conceção, desenvolvimento e implementação da Biblioteca Digital Camões. Fez parte do grupo de trabalho que, a pedido da Fundação Calouste Gulbenkian, estudou a circulação do livro português e em português nos PALOP e no Brasil.
Trabalhou em diversos projetos ligado à formação de quadros, desenvolvimento de modelos de competências e estudos de clima e cultura organizacional. Foi assistente convidado da Universidade Lusófona e do ISLA. Melómano assumido, com predileção por Bach, Debussy e Mahler e apaixonado por livros, aceitou, em 2010, o desafio de dirigir a editora pública — um desafio de responsabilidade colossal mas assumido, a cada dia de trabalho, com «imenso prazer». Seis anos e muitos livros depois, começa já a deixar a sua marca na Unidade de Publicações da INCM: promoveu diversas parcerias com os principais museus, palácios e teatros nacionais; dinamizou o espaço da centenária biblioteca da Imprensa Nacional, na rua da Escola Politécnica em Lisboa, com concertos, leituras encenadas e recitais de entrada gratuita; conta já com uma panóplia de edições premiadas; ajudou a renovar a imagem do site do jornal oficial do Estado, o Diário da República, atribuindo-lhe também novas funcionalidades; apostou na criação do Prémio INCM/Vasco Graça Moura e na dinamização de um blogue literário: o PRELO. Mais-valias que contribuem para a contínua afirmação da Imprensa Nacional como uma fábrica de livros, que em 2018 cumprirá dois séculos e meio de atividade, mas também como a casa de cultura e artes por excelência que sempre foi. Isto sem nunca descurar a sua missão primordial: a de uma editora de «salvaguarda patrimonial».
Por ocasião da apresentação do Plano Editorial para 2016 o Prelo entrevistou o seu diretor, que prontamente nos falou das novidades que por aí vêm — com Eça de Queirós, Bocage e Sá de Miranda a encabeçar a lista —; dos livros que gostava de publicar e ainda não publicou; dos limites que se devem impor ou não à liberdade de expressão; do alarmismo em torno dos direitos de autor com o advento dos novos media; das dores de cabeça da distribuição livreira; dos escritores que estão no limbo do esquecimento e, entre outras coisas, de como um editor pode aumentar a vida útil de uma obra. Segue-se uma conversa com o diretor da Unidade de Publicações da INCM que nos revelou ainda que foi Os Três Mosqueteiros, do francês Alexandre Dumas, o livro inaugural da sua estante de recordações e que se pudesse entregar o Nobel da Literatura a um autor de língua portuguesa distinguiria o português Mário de Carvalho e o brasileiro Rubem Fonseca.

PRELO (P) — A Imprensa Nacional-Casa da Moeda é a editora pública por excelência e conta já com mais de dois séculos de história e uma miríade de prémios e distinções. Sente uma grande responsabilidade?

DUARTE AZINHEIRA (DA) — Sim, claro. Há uma história para respeitar e uma missão clara para cumprir. No entanto, e para ser sincero, o que mais sinto é um grande prazer!

P — Como é que é administrar um catálogo gigantesco como o da INCM, a atenção dada as obras que já foram publicadas e a prospeção de novos autores? 

DA — A INCM não edita muitos novos autores, não é essa a sua missão. A grande responsabilidade da editora é manter disponíveis um conjunto de textos fundamentais da cultura portuguesa e, também, títulos fundamentais para uma melhor compreensão do que é a matriz cultural da civilização ocidental. A INCM é uma editora de salvaguarda patrimonial.

P — Porque é que, nos tempos que correm, não faz parte da missão da INCM a descoberta de novos talentos? O estado não deverá ter um papel nesse sentido? É uma questão de concorrência? De verbas? 

DA — Como sempre referimos, o papel da INCM é supletivo ao dos editores privados. Portugal tem, hoje, edição e editores de muito boa qualidade (nem sempre foi assim) que fazem de forma qualificada a prospeção de novos autores. A INCM já tem, com o Prémio INCM/Vasco Graça Moura, o papel que pode (e deve) ter. O vencedor de 2015 está agora a publicar o seu primeiro livro. história do século vinte de José Gardeazabal vai ser uma surpresa!

P — E está satisfeito com o resultado desta primeira edição do Prémio INCM/Vasco Graça Moura

DA — Muito satisfeito! Mais de duzentos e quarenta candidatos, um excelente livro vencedor que, como lhe disse, estará publicado dentro de poucas semanas, e ainda uma menção honrosa. Não imaginei que pudesse ser melhor.

P — O Duarte já trabalhou em editoras do setor privado. Para si quais são os grandes desafios à frente de uma editora pública, principalmente num tempo de crise, em que a cultura é das primeiras visadas? 

DA — Em primeiro lugar, e como é sabido, a INCM não compete com os editores privados. O seu papel é supletivo. A INCM deve continuar a garantir que há um conjunto fundamental de textos para a cultura e língua portuguesas que estão disponíveis e em edições de qualidade. Há, depois, um outro papel que é o trabalhar em conjunto com as entidades públicas de referência na área da cultura, garantindo edições de qualidade, e a preços aceitáveis, que promovam o património (material e imaterial) português ou apresentado por instituições portuguesas.

P — A criação de parcerias para a disseminação da língua e da cultura é um requisito que a história e o futuro impõem. A INCM pensa em internacionalizar essas relações? Coopera também com instituições estrangeiras na promoção da língua e dos autores portugueses? 

DA — Não é missão da INCM a promoção da cultura portuguesa no exterior. Existem instituições, como por exemplo, o Instituto Camões que fazem esse trabalho. A INCM tem desenvolvido inúmeras parcerias ao longo dos anos com essas instituições.

P — Quais são as vantagens imediatas destes projetos em parceria? 

DA — Os projetos em parceria com instituições públicas são hoje uma marca identitária da INCM como editora pública. A INCM é parceira da generalidade dos museus e palácios nacionais, bem como dos três teatros nacionais. É ainda parceira de uma série de outras instituições públicas e, também de alguns municípios. Por exemplo, temos uma colaboração importante com as instituições culturais da Câmara Municipal de Lisboa. Estamos, para dar um outro exemplo muito significativo, a trabalhar em conjunto com o município de Setúbal para tornar disponível a obra completa de Bocage, bem como um conjunto de outras edições de referência sobre o grande poeta. A parceria que temos com «o primeiro museu nacional» é muitíssimo importante. A INCM é já há alguns anos o parceiro editorial do Museu Nacional de Arte Antiga. A qualidade dos catálogos, a par de um preço de venda muitíssimo competitivo, fala por si. Os bons exemplos sucedem-se. O que dizer, por exemplo, do magnífico livro-catálogo da referencial exposição sobre a Lusitânia Romana inaugurada há dias no Museu Nacional de Arqueologia?

P — A INCM também faz alguns projetos editorais por encomenda, correto?

DA — Sim. São projetos empresariais pensados para serem rentáveis e para libertar recursos que possam a apoiar a edição de serviço público.

P — Uma das incumbências da INCM é a edição de obras essenciais da cultura nacional e universal. Acha que os leitores portugueses têm apreço pelos seus clássicos? 

DA — Penso que deverão ter o mesmo apreço que a generalidade dos países que têm um tradição literária importante. Os leitores portugueses não são piores que os outros. Os «tops de venda» são muito parecidos na generalidade dos países. Em todo o caso, tudo o que possa ser feito para promover a matriz cultural e linguística de um país nunca é demais.

P — Italo Calvino escrevia: «Os clássicos são livros de que se costuma ouvir dizer: ”Estou a reler…” e nunca ”Estou a ler…”». Isto é mesmo assim? 

DA — Admito que a maioria das pessoas que o diz tenha vergonha de confessar que, em muitos casos, é mesmo uma primeira leitura... Em todo o caso, o que Calvino queria dizer é que mesmo quando se trata da primeira leitura é como se não fosse. As histórias que os clássicos nos contam pertencem, em muitos casos, ao próprio imaginário de um país ou de uma civilização e, por isso, quando as lemos é, de facto, como se as estivéssemos a reler.

P — Em relação aos autores contemporâneos… Como é que se distingue um potencial bom autor? Como se reconhece uma boa obra? 

DA — O que quer dizer «uma boa obra»? Que vai vender bem? Que vai ganhar um prémio literário? Que ficará na história da literatura? Se tudo isso fosse fácil, como admitir que editores competentes tenham rejeitado originais de José Saramago ou J. K. Rowling? Acredito que, cumpridos determinados pressupostos formais, a questão do gosto do editor tenha um peso considerável e não vem o mal ao mundo por causa disso... A programação cultural é sempre resultado de uma escolha de uma (ou mais) pessoa (s).

P — Isso quer dizer que a «genialidade» não salta à vista? Estou-me a lembrar de como Mário de Sá-Carneiro se referiu à loucura no seu livro com esse mesmo título: «a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria». Acha que a genialidade também o é?

DA — Talvez a genialidade salte logo à vista... mas é uma coisa muito rara… a genialidade. Parece-me que vulgarizámos o conceito, e confundimos alguém que pode ser muito competente a fazer o seu trabalho com um génio. Mais uma vez me parece que existe aqui um certo romantismo em relação à criação e aos criadores. O trabalho de um escritor ou de um músico é, na esmagadora maioria dos casos, 10% inspiração e 90% de transpiração. Depois, existem, talvez, os génios em que esta regra não se cumpre, mas são muito, muito poucos...

P — «Há livros que são no mundo como almas penadas. Andam, andam, tropeçam através de séculos pela obscuridade e pelo sofrimento, até que um dia apareça alguém que os tire do limbo do esquecimento...», escreveu Miguel Torga. Um editor também é uma espécie de «salva-livros»? Ou um fiel descobridor da genialidade?

DA — Esse conceito meio romantizado da figura do editor está a desaparecer. O papel do editor, que escolhe editar ou não, continua a ser muito importante, é mesmo determinante. No entanto, nenhum livro sairá, em 2016, do «limbo do esquecimento» sem estar disponível na generalidade das livrarias e nas principais lojas online. Em países como Portugal, onde as publicações dedicadas aos livros são cada vez menos, onde o espaço dedicado à crítica literária está a desaparecer, em que os suplementos culturais dos jornais estão a acabar, aliás, como os próprios jornais, a única possibilidade que resta ao leitor é encontrar o livro nas livrarias que costuma frequentar. As livrarias independentes atravessam um período muito complicado em Portugal, mas também noutros países, e o retalho livreiro mainstream corresponde, normalmente, a uma oferta formatada e que necessita de «elevada rotação» para atingir as rentabilidades definidas para cada metro quadrado. Como se vê, esta realidade é muito pouco romântica. No entanto, ao editor cabe a escolha e isso, pelo menos em teoria, pode fazer descobrir o génio...

P — Na sua opinião, temos muitos livros e escritores no limbo do esquecimento?

DA — Claro que sim! Basta que não existam edições disponíveis nas livrarias. Esse é um dos papéis fundamentais de uma editora com a INCM: resgatar escritores importantes do esquecimento. A ausência de memória é imprópria de um país civilizado.

P — Quer recordar-nos um autor esquecido?

DA — Por exemplo, o Afonso Lopes Vieira. Este ano a INCM vai editar a sua novela de 1904 «Marques» (História d’um perseguido).

P — Há livros e escritores intemporais. Também aí o contributo do editor é fundamental nessa questão… 

DA — Claro que sim. O editor tem a responsabilidade de apresentar esses livros a cada nova geração de leitores e editá-los de uma forma marcante e que se enquadre no «espírito do tempo». Os mesmos livros são importantes para pessoas e gerações diferentes por razões distintas. É preciso fazer sobressair essas razões...

P — Com que olhos vê a reedição do livro que foi bíblia do nazismo, escrito por Hitler em 1924, que voltou a ser publicado na Alemanha 70 anos depois de ter sido proibido, numa versão que conta com quase 4 mil anotações académicas?

DA — A publicação de Mein Kampf tem um quadro conceptual distinto. Embora seja um livro que defende valores abomináveis, trata-se, hoje, sobretudo de um documento histórico. Claro que é impensável a publicação dessa «bíblia do nazismo» sem todo o aparato académico que refere. Como todos sabemos, o contexto é sempre um aspeto fundamental para podermos fazer a avaliação de um facto. Sem nenhum enquadramento teórico sério, a publicação de Mein Kampf é um ato injustificável que nenhum editor, digno desse nome, pode admitir.

P — Em 2003 Eduardo Lourenço, em entrevista ao Diário de Notícias, afirmou: «Passámos do trágico para uma espécie de carnavalização de todas as experiências, todas as atitudes humanas. Hoje não há dúvida de que o espaço próprio da civilização a que pertencemos se chama televisão. A televisão é um instrumento permanente do divertissement, daquilo que Pascal considerava como afastamento das únicas coisas necessárias e verdadeiramente profundas e importantes.» Qual é o papel do Livro nos nossos dias?

DA — O livro dura, é permanente. Contudo não estou de acordo com essa espécie de «antagonismo entre o livro e a televisão». A televisão pode ser um magnífico meio de divulgação da cultura. Não devemos confundir o meio com o modelo de negócio que o suporta, pelo menos na maioria dos casos. O livro também pode, e deve, ser divertimento. Existem magníficos livros que são... divertimento. Algumas pessoas passam a vida a criticar, por exemplo, o romance histórico. Eu prefiro pensar no grande romance histórico: Memórias de Adriano de Yourcenar, O Nome da Rosa de Umberto Eco ou Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde de Mário de Carvalho são grandes exemplos, para citar apenas alguns, de como a literatura («O Livro») pode ser um grande divertimento e provavelmente o melhor...
Naturalmente que um canal de televisão inteiramente suportado nas receitas publicitárias é «um instrumento permanente do divertissement» e, na maioria dos casos, de má qualidade.

P — O advento dos novos media resulta em novas formas de comunicar, mas também em novos modos de partilha e consumo de informação. De que maneira a INCM acompanha esta tendência?

DA — A INCM acompanha essa tendência e tem uma oferta crescente de livros eletrónicos (à venda nas lojas de referência — Apple, Amazon, Google, Fnac, Almedina, Cultura, Saraiva,...), tem um blogue dedicado ao tema do livro, e outros temas paralelos, e tem, também, uma página no Facebook dedicada aos livros.

P — A proliferação dos eBooks é, na sua opinião, uma oportunidade ou uma ameaça, ou um misto de ambas?

DA — É mais uma oportunidade para as pessoas poderem ler. Os números dos últimos anos mostram que o eBook não representa nenhuma ameaça para o livro em papel. Aliás, uma parte significativa dos compradores de eBooks são os leitores compulsivos que leem em todos os suportes e formatos. É o que se passa, por exemplo, comigo...

P — Os hábitos de leitura estão mesmo a mudar? 

DA — Sim, estão a mudar da mesma forma que a vida está a mudar. A leitura faz parte da vida. As pessoas têm vidas muito exigentes e intensas, e por outro lado, existem muito mais «concorrentes» da leitura. Lutam todos por um recurso cada vez mais escasso: o tempo livre. Assim, é natural que as pessoas passem menos tempo a ler livros do que passavam há 70 anos ou 50 anos ou mesmo 25. A quantidade de «concorrentes» era bem menor. Não existia Internet, nem tablets ou smartphones... Evidentemente que a predisposição para ler os «Grandes Livros» que exigem tempo e concentração é menor. Não é possível ler a Guerra e Paz numa sucessão de períodos de 10 minutos...

P — Quer falar-nos do catálogo das edições para 2016? Que novidades vêm aí?

DA — O Plano Editorial da INCM mantém a orientação aprovada em 2015, que representa um regresso ao essencial, ao básico da função de promoção da língua e cultura portuguesas. A generalidade do plano está centrada nos autores clássicos portugueses: as edições críticas de Almeida Garrett, de Eça de Queirós; de Camilo Castelo Branco, de Fernando Pessoa; a Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa (BFLP) e a Biblioteca de Autores Portugueses (BAP); a Pessoana (série EDIÇÕES e série ENSAIOS); as Obras Completas de José Régio; a Olhares, que é uma coleção dedicada ao ensaio sobre temas sociais e culturais portugueses ou importantes para a cultura portuguesa; a Plural , uma coleção de poesia em língua portuguesa. Depois, outras coleções relacionam-se também de forma clara com a problemática da cultura portuguesa, como a coleção infantojuvenil Grandes Vidas Portuguesas, a Coleção D, coleção dedicada ao design português, e a coleção História, que aborda temas da história portuguesa contemporânea. Já a coleção Essencial e a Biblioteca de Autores Clássicos mantêm as portas abertas à edição de obras fundamentais para a matriz cultural do Ocidente. Destacaria, em todo o caso, para 2016, a edição das Obras Completas de Bocage: esta edição distribuir-se-á em três volumes e será coordenada por Daniel Pires. A Poesia Completa de Sá de Miranda será, sem qualquer dúvida, uma edição de referência absoluta para os anos vindouros e que é resultado de um notável trabalho de investigação e coordenação de José Camões e da sua equipa. A Biografia de Eça de Queiroz, de Alfredo Brandão de Campos Matos. Depois da edição, em 2015, do magnífico Dicionário de Eça de Queiroz, este ano temos planeada a biografia de Eça que Campos Matos nunca editou em Portugal, existe apenas uma edição brasileira. Este ano será, também, feito um esforço importante na consolidação da coleção Plural de que falei há pouco. Temos sete títulos previstos para 2016: quatro de autores portugueses e três de autores brasileiros

P — A INCM lançou o ano passado o blogue literário PRELO. Que balanço faz desta iniciativa? E o que se pode esperar ainda? 

DA — Este ano que passou, 2015, o PRELO teve, talvez, um caráter ainda um pouco experimental. Andámos à procura de um conceito. Esse processo está bastante mais sedimentado. Assim, vamos oferecer uma nova grelha de conteúdos com mais opinião e cronistas a dias certos (tanto quanto o possível), mais imagem: entrevistas, lançamentos e booktrailers. Estas entrevistas em profundidade que a Tânia faz tão bem e que deixam os entrevistados sem fôlego continuarão a ser uma marca do PRELO. Dentro em breve anunciaremos estas novidades.

P — A Biblioteca da Imprensa Nacional tem também sido palco de finais de tarde bastante animados. O que está na programação para os próximos tempos?

DA — A Biblioteca terá em 2016 uma temporada de música de câmara feita com a Orquestra Metropolitana e terá seis recitais. Com o Teatro Nacional D. Maria II teremos também uma pequena temporada com quatro leituras encenadas. Esta biblioteca pública terá ainda múltiplas apresentações de livros, conferências, exposições e outros eventos. Serão, talvez, uns 50 eventos durante o ano. Teremos «Boca Aberta» — a primeira leitura encenada para a infância — a ser apresentada no dia 13 de maio de 2016, às 15h. No dia 25 de fevereiro iniciaremos a temporada dos recitais de câmara com Sonatas de J. S. Bach e C. P. E. Bach para cravo e flauta (Marco Magalhães e Nuno Inácio) e no dia 10 de março, um segundo recital, com peças de Villa-Lobos e Lopes-Graça para quarteto de cordas.

P — O Duarte é um melómano. Não lhe faz confusão não existir uma editora de música do Estado? Uma editora pública de salvaguarda do património musical português?

DA — Não me parece estritamente necessário que essa função seja assegurada por uma «editora pública». É, no entanto, fundamental que o Estado garanta, num trabalho que pode, perfeitamente, ser executado por privados, que esse património é salvaguardado e que existam gravações disponíveis. A INCM mantém em parceria com a Gulbenkian uma coleção, de livros, de edições críticas de música portuguesa dos séculos XVI a XX.

P — Uma das grandes dores de cabeça para todas as editoras é a distribuição. A INCM tem uma boa visibilidade nas livrarias? Qual a política que utilizam em relação à distribuição? 

DA — Para a INCM a distribuição também tem sido uma dor de cabeça! Temos agora uma solução interna, mais estável e madura, que começa a dar boas indicações. Acreditamos que em 2016 as edições da INCM vão estar de uma forma mais consistente nas livrarias. No entanto, não devemos ter ilusões quanto à possibilidade de uma presença massificada: a INCM não é uma editora comercial, por isso os termos de comparação não podem ser as editoras comerciais. As livrarias dos grandes grupos de retalho estão situadas em espaços onde a pressão para a rentabilidade é enorme. Só é possível pagar arrendamentos em centros comerciais com livros de altíssima rotação. A edição que fazemos não tem qualquer relação com esta realidade.

P — O novo Acordo Ortográfico tem sido outra dor de cabeça? Ou foi bem acolhido por parte dos autores? 

DA — Uma dor de cabeça não diria... A INCM não tem posição sobre o AO. Como sociedade pública, cumpre a legislação que se aplica ao setor. A grande maioria dos autores não levanta qualquer problema.

P — A INCM é também uma fábrica de Livros. Quer explicar-nos o processo desde a entrega do original até à chegada à montra?

DA — Como é sabido, a maioria das coleções da INCM estão enquadradas por protocolos institucionais (de longa duração e considerável profundidade) que definem, em boa parte, a programação. Este modo de organização do catálogo tem sido determinante no modo de trabalho da editora pública ao longo dos anos, numa metodologia que nos parece totalmente adequada à missão estatutária da INCM. Os originais das obras submetidas à INCM, com exceção daqueles que se considerem projetos especiais ou parcerias institucionais, serão apreciados de acordo com os seguintes critérios: Contribuição relevante para a cultura; que estejam de acordo com a linha editorial da INCM que privilegia, a saber, a edição de obras inéditas, escritas ou traduzidas em português, com relevância cultural nos vários campos do conhecimento e que preenchem os requisitos da originalidade, correção e coerência dos conteúdos. Outro critério: a reedição de obras de qualquer género de criação artística ou área do conhecimento científico considerados fundamentais para o património cultural. As obras inseridas no primeiro critério “Contribuição relevante para a cultura" serão objeto de parecer do Conselho Editorial da INCM, que é um órgão estatutário da INCM integrado por personalidades de relevância cultural e científica. Ultrapassadas as questões formais, os originais são distribuídos pela equipa editorial — uma equipa que conta com editores seniores muito experientes — e inicia-se, então, o processo de edição do livro: revisão e editing dos textos, design e paginação, e impressão. Finalmente, os livros da INCM são vendidos nas lojas INCM (Lisboa, Porto, Coimbra e loja online) e nas principais livrarias portuguesas.

P — Além do envio de originais, existem outras maneiras de se descobrir bons novos autores?

DA — Em editoras comerciais a prospeção também pode ser feita pelo que as pessoas escrevem na comunicação social e hoje, de forma cada vez mais evidente, nas redes sociais.

P — Há algum livro que tenha alcançado um sucesso surpreendente ou maior do que o esperado neste ano que passou?

DA — O magnífico catálogo da exposição de Josefa de Óbidos no Museu Nacional de Arte Antiga é um bom exemplo.

P — Já lhe ocorreu fazer uma parceria com o Museu do Louvre? Já pensou editar um catálogo desse calibre? O que é preciso para que isso aconteça?

DA — Bom, nós já editamos os catálogos do «primeiro museu português» que é o Museu Nacional de Arte Antiga. Admito que o Louvre privilegie os editores franceses...

P — Que obra/autor gostaria de publicar que ainda não publicou?

DA — É uma pergunta complicada até porque, nalguns casos, podem estar em curso negociações, que por razões óbvias não posso revelar, para a publicação de algumas dessas obras e autores. Assim, prefiro responder com alguns livros recentes que adoraria ter publicado se trabalhasse numa editora com outras características. Gostaria muitíssimo de ter publicado A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmond de Waal, que a Sextante, da chancela do grupo Porto Editora, publicou; teria sido um enorme prazer publicar A de Açor, de Helen Macdonald, que a Lua de Papel, do grupo Leya, publicou; teria sido belíssimo editar o Racismos – Das Cruzadas ao Século XX, de Francisco Bethencourt, que a Temas e Debates/Círculo de Leitores publicou; e, finalmente, seria um enorme orgulho, e uma honra, sem dúvida, publicar um escritor como Mário de Carvalho e a totalidade da sua obra. Coisa que a Porto Editora tem vindo a fazer de forma magnífica numas edições com um grafismo maravilhoso da responsabilidade da excelente SilvaDesigners.

P — Já aconteceu, alguma vez, deixar de publicar uma obra por questões de direitos de autor?

DA - Numa editora como a INCM essa nunca foi uma questão fundamental.

P — Se pudesse, mudaria alguma coisa na legislação atinente aos Direitos de Autor?

DA — A legislação parece-me globalmente equilibrada. Não sou daqueles que acredita que o quadro legislativo concede demasiados direitos e prerrogativas aos autores. Sem autores não existem obras. Tudo o resto é instrumental. Percebo, no entanto, que se coloque a pergunta. Até lhe digo que muito piores (no âmbito da negociação, claro) que os autores são os herdeiros dos autores...

P — Sob o pretexto de inovação e adaptação da legislação às novas tecnologias, a Comissão Europeia tem elaborado alguns projetos em matéria de direitos de autor. Fala-se na reforma dos Direitos dos Autor. Richard Malka publicou no ano passado a obra La gratuité, c’est le vol. 2015 la fin du droits d’auteur [A gratuitidade é um roubo. 2015 o fim dos direitos de autor] Acha verdadeiramente que com o advento da Internet os direitos de autor estão ameaçados?

DA — Parece-me, sinceramente, um alarmismo. Claro que a partilha ilegal coloca em causa o justo pagamento dos autores, sobre isso não podem existir dúvidas. Porém essa é uma questão que resulta de alterações tecnológicas e não de «laxismo» das legislações de proteção do direito de autor. Sinceramente, parece-me que as coisas já estiveram piores. O modelo do streaming na música, e também nos cinemas e nas séries parece ter vindo para ficar e garante, mesmo com algumas queixas, o pagamento aos autores. Por outro lado, na música, o espetáculo ao vivo (único e irrepetível) tem uma importância crescente para os criadores. Não deixa de ser curioso que os adolescentes e outros,… que fazem pirataria porque não admitem pagar por uma gravação, estejam depois disponíveis para pagar bom dinheiro por uma experiência única que é assistir a um espetáculo. No livro a realidade é bem diferente, porque a partilha de edições digitalizadas não replica (como na música ou nos filmes) a leitura de um livro. O suporte é diferente por isso a experiência é distinta.

P — Em relação aos limites da liberdade de expressão… Como editor, qual é a sua opinião? Deve ou não deve haver limites à liberdade de expressão? Publicaria em livro uma compilação do Charlie Hebdo, por exemplo? 

DA — Os limites da liberdade de expressão são os da lei e os genericamente aceites pelas democracias liberais. Para mim não é aceitável publicar um livro que defenda, de forma expressa, valores racistas ou, que por exemplo, negue a existência de factos históricos indiscutíveis. O Holocausto, por exemplo. Para responder à sua questão sobre o Charlie Hebdo (que numa editora como a INCM jamais se colocaria), eu diria que dependeria da compilação, do género de edição e do seu fundamento. Jamais publicaria essa «compilação» sem uma sólida introdução onde se explicaria a razão se ser da edição. Não me revejo, nem de perto, no género de trabalho que faz e sempre fez o Charlie Hebdo.


P — Lembra-se do primeiro livro que leu?

DA — Do primeiro livro que li não, mas o primeiro que me marcou foi Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas.

P — E qual é o livro que anda a ler?

DA — En la Orilla, de Rafael Chirbes, e El Ruído de las Cosas al Caer, de Juan Gabriel Vásquez.

P — Fale-nos um pouco sobre esses dois autores?

DA — Rafael Chirbes, um belíssimo escritor espanhol recentemente falecido (2015), publicou En la Orilla, que já tem tradução portuguesa na Assírio & Alvim, um livro excelente, um romance, sobre a crise que vivemos (e que Espanha tem vivido de forma particularmente aguda) e a bolha imobiliária. É um livro sobre aqueles que estão realmente «na margem». Aliás, é o título da tradução portuguesa. Este livro tem ganho inúmeros prémios e distinções, e é visto em Espanha como «o grande livro sobre a crise».
Juan Gabriel Vásquez é um escritor colombiano, e o seu livro El Ruído de las Cosas al Caer ganhou o Prémio Alfaguara, de 2011. É um livro sobre a violência, o narcotráfico, temas muito colombianos, e, talvez, sobre o medo. Apesar de o país se ter liberto da experiência radical que foi Escobar, para muitos, o medo nunca desapareceu. Este livro tem uma tradução portuguesa na Alfaguara Portugal. É o que posso dizer. Agora tenho de acabar de os ler...

P — Quando está a ler um livro da concorrência sente aquilo a que se chama «defeito profissional», ou consegue desfrutá-lo sem atentar aos pormenores da edição? 

DA — Eu antes de ser um editor sou um leitor. O prazer da leitura é, sem dúvida, uma das coisas mais importantes da minha vida. Claro que, por razões profissionais, eu reparo em coisas para que muitos leitores comuns não estão despertos. No dia em que a minha profissão for uma limitação ao prazer da leitura terei de procurar outra profissão!

P — Quase 300 milhões de falantes de português é, à partida, um número retumbante. A verdade é que a língua portuguesa é a quarta a nível mundial em termos de número de falantes maternos, e está entre a sexta ou sétima posições em termos globais. Podemos falar numa economia da cultura? A língua portuguesa tem valor económico?

DA — Claro que podemos falar numa economia da cultura. Temos, no entanto, que separar o que é cultura e entretimento, coisa que, normalmente, as estatísticas nunca fazem. O que provoca sempre uns artigos bombásticos, e mal informados, partilhados até à náusea nas redes sociais, com o peso absolutamente estrondoso que a economia da cultura tem no PIB dos respetivos países. Evidentemente não pode ser tratado por igual o dinheiro gasto nas novas edições de Vergílio Ferreira, agora que se comemora o centenário do nascimento, ou o dinheiro que se gasta em séries de televisão — o novo «ópio do povo» sem nenhuma qualidade e que mantêm as pessoas num estado de assinalável letargia. As línguas têm um valor económico. Aliás, em Portugal o Instituto Camões tem trabalhado em conjunto com o ISCTE, creio, no sentido de aproximar esse valor. Claro que estas valorizações provocam sempre diversas perplexidades, no entanto é uma aproximação. Porém, parece-me que tem sido feito relativamente pouco para dar um verdadeiro valor económico a esta comunidade de quase 300 milhões de falantes. Esse é um trabalho muito complexo e moroso. O nível de desenvolvimento, a disparidade de características entre os países e a distância tornam a criação dessa comunidade uma tarefa para décadas.

P — Quais são as estratégias da INCM nesse sentido?

DA — A INCM tem vindo a criar parcerias com as imprensas oficiais, por via dos diários oficiais, de língua portuguesa, sendo que algumas delas têm uma atividade editorial significativa. Já começamos a ter projetos editoriais em comum, como Eça e Machado de Assis com dupla chancela para ambos os países (parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo). Temos, também, um prémio literário em Timor, que é o Prémio Ruy Cinatti. Simultaneamente, estávamos a fazer um esforço significativo para disponibilizar livros da INCM nas principais livrarias brasileiras. Estamos, já, a ter um trabalho próximo com a Livraria Cultura. Por outro lado, já este ano vamos abrir um espaço maior no nosso plano editorial para autores brasileiros contemporâneos de qualidade, nomeadamente no domínio da poesia, na nova coleção Plural.

P — Apelando a um lado mais pessoal, com que olhos vê o mercado editorial e livreiro em Portugal?

DA — Vejo com evidente apreensão. O mercado editorial emagreceu, de forma muito significativa, nos últimos anos. Perdeu uma parte importante do seu valor. Por outro lado, a concentração editorial e no retalho deixa um espaço muito pequeno a projetos independentes. A diminuição da oferta editorial provoca sempre uma limitação da escolha e da cidadania. Aqui há alguns anos, os editores independentes tentaram criar plataformas de entendimento e ofertas partilhadas para tentar responder a este condicionamento. Por uma razão ou por outra, estas iniciativas acabaram por ser abandonadas. Acredito que continua a existir espaço para um maior entendimento entre os «independentes». Editores e livreiros. Um projeto desta natureza necessitará, sempre, de uma certa escala.

P — Que medidas indicaria para a melhoria dos hábitos, contribuindo para a viabilidade das editoras que não estão dispostas a descurar a qualidade em benefício de aspetos comerciais?

DA — Acredito que o Estado poderia ter um papel mais ativo nesta matéria. Há um conjunto básico de títulos que todas as famílias portuguesas com filhos em idade escolar deveriam ter em casa, e seria fácil construir uma lista destas com o apoio de especialistas. Esta política do livro e da leitura deveria, naturalmente, ser financiada pela Estado. Existem diversos exemplos em vários países — o Brasil tem praticado esta política insistentemente nos últimos anos.




P — Estamos quase a terminar… Mas, antes disso, fale-nos das «relíquias» que compõem o acervo na belíssima Biblioteca da Imprensa Nacional?

DA — Como a biblioteca tem cerca de 20 mil livros, destacarei os incunábulos e as primeiras edições da Imprensa Régia. Nos incunábulos, temos a enciclopédia Etymologiae, de Izidoro de Sevilha, de 1472, e duas obras religiosas: a Summa de viciis, de Guilelmus Paraldus, de 1475, e a Precordiale Sacerdotum, de Jacobus Philippi, de 1489. Das primeiras edições da Impressão Régia temos:

P — Para finalizar, uma questão institucionalmente incorreta… Se pudesse entregar o Nobel da literatura a um autor de língua portuguesa, quem seria o feliz contemplado?

DA — Mário de Carvalho ou Rubem Fonseca.


TPR



Ao longo das últimas décadas, os postais institucionais de Boas Festas da Imprensa Nacional-Casa da Moeda têm retratado a atividade gráfica e editorial da empresa.

Com frequência se recorreu à reprodução de gravuras do Mestre Gravador Francesco Bartolozzi (Florença, 1728 — Lisboa, 1815), contratado em 1802 por D. Rodrigo de Sousa Coutinho para reformar a aula de gravura da Imprensa Régia.

Em 1971, ainda a solo, a Imprensa Nacional apresentava no seu postal o logótipo brasonado com a legenda "Sciencias e Artes", e no interior uma imagem gravada por Bartolozzi em 1811, nas Oficinas da Impressão Régia. Esta gravura voltaria a ser replicada no postal de Boas Festas de 1996.






A gravura Adoração dos Pastores, realizada em 1810, quando Bartolozzi já tinha 84 anos, viria a ser utilizada nos postais de 1997 e de 2010. Esta gravura pertence à obra Missale Romanum, editada em 1820, pela Tipografia Régia.




Nos postais de 1972 e de 1974, já com ambas as instituições reunidas numa só e um novo logótipo idealizado pelo designer Valente de Carvalho, o postal de Boas Festas da INCM reproduz uma imagem incluída numa edição antiga do Auto da Mofina Mendes, de Gil Vicente.






O postal de Natal da INCM em 1980 remete para as comemorações camonianas, decorridas 500 anos sobre a morte do poeta, com uma folha em fac-símile de Os Lusíadas, retirada da sua própria coleção das obras de Luís de Camões. 




O uso de imagens retiradas das edições INCM para ilustração dos postais de Boas Festas é recorrente na década de 80, como podemos constatar na Adoração dos Magos, pormenor do vitral da capela-mor do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha. Esta imagem foi utilizada na obra O Vitral em Portugal – séculos XV-XVI, editada em 1988.




Outro exemplo, na década seguinte, são os postais dos anos 1995 e 2000, que utilizam uma iluminura e uma gravura retiradas da edição da INCM, de 1983, do Livro de Horas de D. Manuel: estudo introdutório, de Dagoberto Markl.




Nos postais dos anos 90, observamos ainda a utilização de testemunhos históricos existentes no edifício da Casa da Moeda. Em 1993, é retratada a imagem de um fólio do Livro de Rezistos dos Previllegios... concedido aos Officiais e Moedeiros..., códice em pergaminho que pertence ao acervo do Arquivo Histórico.






Em 1994, opta-se por mostrar o fresco existente na antiga sala do Museu Numismático, aos dias de hoje a sala do Conselho de Administração. Este painel mural foi realizado pelo Pintor Henrique Franco e retrata o episódio da recolha de metais na cidade de Lisboa para uso na produção de nova moeda, presente na Crónica de D. João I.




Na primeira década do novo milénio, as imagens tornam-se mais estilizadas e genéricas como é exemplo o postal do ano 2008. Com a criação da nova logomarca INCM em 2010, pelo designer Eduardo Aires, assiste-se ao renovar da edição dos postais de Boas Festas, que passam a estar associados à agenda produzida para o mesmo ano, num trabalho integrado da Unidade de Publicações da empresa. A partir de então, procura-se aliar os temas com as comemorações da cultura histórica e literária portuguesa, editando o postal institucional com uma imagem grafiacamente mais despojada, apelativa e contemporânea, através do uso de um design gráfico de cores e tipografia fortes, marcantes e destacadas.





Como exemplos: o postal do ano 2011, enquadrado nas comemorações do V centenário do nascimento de Fernão Mendes Pinto. Este postal contém um excerto de texto da Peregrinação, com desenhos do arquiteto e artista plástico Carlos Marreiros.



O postal de 2015 centra-se na comemoração do centenário da publicação da revista Orpheu, onde se reproduzem as imagens das capas dos dois únicos números publicados da revista.





Por fim, o postal de 2016 retrata a comemoração do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, um dos escritores e autores mais importantes do século XX literário português, destacando um excerto da sua obra Aparição.



Boas festas!

MJG
Prelo — Na sua opinião o que distingue uma editora pública de uma editora comercial?

Carlos Reis — Uma editora pública tem uma função sobretudo patrimonial e de salvaguarda de valores que nem sempre são cuidados pelas editoras públicas. Uma editora pública publica autores que outros não podem publicar. O que não quer dizer que publique só esses autores.

P — O que pensa da editora Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM) nestes últimos anos?

CR — Pelos exemplos que eu conheço, e conheço alguns, é uma editora que tem feito um trabalho muito profissional, até do ponto de vista gráfico. Tem responsabilidade patrimonial e vontade de chegar ao público. Porque uma editora, lá por ser pública, não tem de ser uma editora ruinosa, não tem de trabalhar só para si. Não é o caso e ainda bem!

P — Acha que a INCM presta um bom serviço público?

CR — Penso que sim! Só o facto de publicar edições críticas já seria suficiente para prestar um bom serviço público. Mas a INCM faz muito mais do que isso!

P — Indique-me três títulos do catálogo da Imprensa Nacional-Casa da Moeda que mais gostou?

CR — Além dos meus "Eças" e companhias e da Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa? Gosto do Camilo [Castelo Branco] que a INCM está a publicar; gosto da edição crítica do Pessoa que a INCM está a publicar — embora tenha algumas discordâncias quanto a critérios filológicos, mas isso é outro assunto. Ainda há pouco tempo tive de reler o Almada Negreiros e onde é que eu o fui reler? Na INCM! E creio que se não fosse na INCM não poderia relê-lo. Não sei se o Almada está publicado aí, à mão de semear. Isto é o que me vem à memória. Evidentemente, que olhando para o catálogo de edições, muito mais coisas me apareceriam. A INCM tem publicado nos últimos anos muitos trabalhos científicos, muitas vezes trabalhos académicos, que têm de ser conhecidos, que merecem ser conhecidos, e que muito provavelmente no futuro migrarão para o digital, mas que em formato papel também são muito importantes.

P — Um título que gostaria de ver no nosso catálogo?

CR — Se eu fosse capaz de a escrever, gostaria que de ver no vosso catálogo a minha autobiografia.

As logomarcas Imprensa Nacional e da Casa da Moeda ao longo dos tempos

Desde cedo se registaram tentativas de construção de uma identidade gráfica das duas empresas que deram origem à imprensa Nacional-Casa da Moeda, ainda que só tarde tenham chegado à fixação.

O logótipo da Imprensa Nacional-Casa da Moeda desde 2010

A Casa da Moeda

No caso da Casa da Moeda (CM), a primeira ocorrência de um ensaio de imagem de marca surge em 1863 e prossegue com amplas hesitações em relação ao modelo.


 


Em 1873, aparece uma imagem no papel timbrado, precursora, também, de uma imagem de marca.


E é no papel timbrado que diversas imagens se vão sucedendo, ao arbítrio do grafismo em moda.



A República traz o escudo para o centro da imagem.



Em 1938, a Casa da Moeda passa a ter no seu nome apenas estas palavras, tendo caído definitivamente em desuso a sua identificação como produtora de papel selado.



A Imprensa Nacional

No caso da Imprensa Nacional (IN), os primeiros esboços desse ensaio têm lugar no papel timbrado. Também com a República, o escudo passa a ter lugar de destaque no grafismo da IN.

O mais aproximado de ideia de logótipo surge inscrito nos vitrais e cadeiral da biblioteca, inaugurada em 1923.

Com a fusão, muda o nome da empresa, juntando num só o das empresas que a constituíram, mas seriam necessários mais 10 anos para que uma identidade gráfica se estabelecesse.

 

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Fundada em 1972 pela fusão das duas empresas públicas que integram o seu actual nome e um ano mais tarde, a INCM tem, pela primeira vez, um logótipo. O seu designer foi o colaborador da empresa, Valente de Carvalho.

A primeira imagem da marca INCM mantém-se em uso durante quase duas décadas.
Em 1991 é substituída por um novo logo, da autoria do pintor e escultor José Cândido.





A Criação da Nova Marca

Em 2010, a INCM lança um concurso para a criação de uma nova identidade gráfica.

O essencial das transformações formais realizadas é explicado pelo próprio autor-designer que ganhou o concurso para o projecto da nova marca, Eduardo Aires:

Deixamos aqui sublinhados alguns aspectos conceptuais que presidiram à recriação do «logo» da empresa. Antes do mais, a passagem a primeiro plano do próprio nome «INCM». A opção prende-se com o prestígio que a empresa e a sua designação adquiriram, ao saber modernizar-se e responder aos novos desafios da actualidade. INCM é um nome com valor: tradição, confiança, segurança, rigor. É essa relação entre tradição e modernidade que a nova imagem traduz, ao manter elementos essenciais do «logo» anterior, reinterpretando-os no tempo presente, a olhar para o futuro.

E o resultado foi a atual logomarca da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, que passou a estar presente em todas as publicações e em todas as peças de comunicação:

O texto completo do racional criativo encontra-se na edição de junho de 2010 do boletim Matriz.

Prelo — Na sua opinião, o que distingue uma editora pública de uma editora comercial?

José-Augusto França — a primeira deve assumir os custos de uma programação cultural; a segunda deve assumir os riscos de uma programaçao criativa — a menos que prefira participar de uma programação que sirva os gostos mais comuns do leitorado.

P — O que pensa da evolução da editora INCM nos últimos anos?

J-AF — Positiva a partir das presidências de Vasco Graça Moura e de António Brás Teixiera.

P — Acha que a INCM presta um bom serviço público?

J-AF — Sem dúvida, em relação às suas possibilidades.

P — Indique-nos três títulos do catálogo da INCM de que mais gostou.

J-AF — Prefiro destacar o empreendimento das Obras Completas de vários autores nas suas edições críticas.

P — Indique-nos um título que gostaria de ver publicado no catálogo da INCM.

J-AF — Uma História Crítica do Cinema Português, que podleria ser acordada com a Cinemateca Nacional, considerando a falta de tal obra nas nossas bibliotecas — e prevendo resumos adequados, em inglês, francês e espanhol.

Abril 2015

JAF
Eis o PRELO, um blogue temático ligado à atividade editorial.

O nome soa certamente familiar a muitos: PRELO foi o título histórico atribuído a uma publicação periódica da Imprensa Nacional, que iniciou a sua primeira série em 1972 como «revista nacional de artes gráficas», e cuja publicação foi retomada em 1983 e novamente em 2006, com a 2.ª e 3.ª séries, contando com os contributos de grandes vultos cultura portuguesa.

É essa a tradição, temporariamente interrompida, que se pretende agora recuperar — a de promover o debate intelectual em torno da cultura — mas fazendo uso dos novos canais que a tecnologia coloca à disposição da comunicação e dos seus dos intervenientes.

Os leitores do PRELO poderão contar com a publicação muito regular de novos conteúdos produzidos internamente; mas também com os frequentes contributos de personalidades de reconhecido prestígio nas respetivas áreas de atividade, e que estejam de alguma forma ligados à INCM.

Entre esses conteúdos, teremos:
  • entrevistas de fundo;
  • notícias da atualidade editorial;
  • recensões literárias;
  • opinião dos nossos autores e parceiros sobre «O papel da editora do Estado»;
  • biografias de autores publicados na INCM;
  • curiosidades ligadas à história da empresa;
  • informação acerca do Prémio de Poesia INCM | Vasco Graça Moura
Com esta nova apresentação, o PRELO constitui-se como um canal de comunicação privilegiado da INCM com o seu público, assumindo-se mais próximo e informal do que a página institucional na Internet, mas mais profundo e elaborado na abordagem dos conteúdos do que a página no Facebook; um canal que transmita o posicionamento contemporâneo da editora do Estado, e que ao mesmo tempo reforce a sua missão de serviço público.

O que desejamos para o PRELO é que venha a tornar-se uma importante referência no contexto editorial, literário e académico, por abordar conteúdos de interesse não só para a comunidade de destinatários habituais das publicações da INCM, mas também para um público cada vez mais vasto de novos leitores e simpatizantes da empresa centenária que é a Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

RAS

por ANTÓNIO MEGA FERREIRA

É seguro prever que Vasco Graça Moura (VGM) será lembrado sobretudo como excelente poeta, excecional tradutor e ensaísta erudito. Mas as múltiplas dimensões em que exerceu a sua atividade de intelectual (isto é, de homem de cultura com intervenção constante na vida pública), tornam esta memória futura insuficiente para abarcar uma personalidade que foi, a par da sua condição de criador e estudioso, também a de um homem de ação.

Após uma breve passagem pela direção do 1º canal da RTP, entre 1978 e 1980, foi como administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda que VGM marcou duradouramente a vida cultural portuguesa, em especial na sua vertente editorial. Durante cerca de dez anos, que abarcaram quase toda a década de 80, VGM deu à editora do Estado uma dimensão e uma capacidade de intervenção na vida cultural que lhe era até então praticamente desconhecida, dotando a empresa de uma política editorial agressiva e competitiva, que suscitou não poucas reservas aos editores privados, habituados ao ramerrão sonolento da editora do Estado, à qual se atribuía apenas a missão de publicar o Diário da República. No passado, a Imprensa Nacional fora mais, muito mais do que isso; VGM entendia que os novos tempos da democracia exigiam que a editora pública voltasse a assumir um papel de liderança na edição de livros, intervindo não apenas supletivamente em relação aos editores privados, mas, até, em concorrência com eles, quando se se tratasse de privilegiar a cultura portuguesa.

Foi por isso que, nessa década prodigiosa, a INCM editou a Trilogia da Mão de Mário Cláudio, os dois volumes de Post-Scriptum de Jorge de Sena e a poesia de Alexandre O’Neill e António Barahona ou Maria de Lurdes Belchior e Pedro Homem de Mello; as Obras Completas de Nemésio e Almada; coleções de ensaios sobre Temas Portugueses, incluindo autores como Eduardo Lourenço, Antonio Tabucchi, Cleonice Berardinelli ou Eduardo Prado Coelho, e de Clássicos Portugueses, como Tomé Pinheiro da Veiga, Camões (a Lírica, em edição preparada por Maria de Lurdes Saraiva), ou a narrativa cómica Eufrósina de Jorge Ferreira de Vasconcelos; que se abalançou a publicar a edição portuguesa da monumental Enciclopédia Einaudi, dirigida por Fernando Gil; que lançou a coleção de Arte e Artistas, na qual tive a oportunidade de colaborar; que avançou com uma coleção de poesia, Plural, na qual editaram os seus primeiros poemas alguns jovens poetas portugueses; que abriu uma coleção de Autores dos Países de Língua Portuguesa, em 1984; que arriscou reeditar em fac-símile prestigiosas edições antigas, como a das Poesias Inéditas de Pero de Andrade Caminha, as Poesias de Sá de Miranda coligidas por Carolina Michaëlis de Vasconcelos ou a Crónica Geral de Espanha de 1344.

Estou a esquecer-me de muito? Sem dúvida. Cito ao fio da memória e, se puxasse ainda mais por ela, ficaria aqui a referir títulos que ilustrariam como VGM tinha da edição o mais alto conceito: para ele, a cultura de um povo mede-se pela capacidade de disponibilizar a toda a gente, em livro, as suas obras mais representativas. Prolongaria esta sua visão no impressionante trabalho editorial que animou quando presidiu à Comissão dos Descobrimentos (CNCDP), entre 1988 e 1995. Para lá do vigor da sua obra literária, é como editor de livros que a obra de VGM mais definitiva e duradouramente me parece marcar a vida cultural portuguesa.

AMF

Março de 2015

Sede atual da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, ao Arco do Cego
A fusão

Em 1972, a Imprensa Nacional e a Casa da Moeda fundiram-se, pelo Decreto-Lei nº 225/72, de 4 de Julho. Esta fusão fez da INCM a herdeira de dois dos mais antigos estabelecimentos industriais do País.

O Decreto-Lei nº 170/99 de 19 de Maio transformou a INCM numa sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos.

Se bem que à Imprensa Nacional esteja ainda hoje associada a publicação do Diário da República (e dos seus antecedentes, Gazeta de Lisboa e Diário do Governo, entre as várias designações que o jornal oficial teve), já nos termos do Alvará de 1768, deveria «fazer-se util e respeitavel pela perfeição dos caracteres e pela abundancia e asseio de suas impressões».

Notabilizou-se na arte da gravura, teve uma escola de composição, fundada em meados do século XIX, de onde saíram alguns dos mais notáveis profissionais de artes gráficas, e hoje, mais de dois séculos depois da sua criação, tendo-se adaptado às novas exigências, mantém-se no local onde foi instalada pelo Marquês de Pombal, cumprindo a missão que então lhe foi confiada, de «animar as letras e levantar uma impressão util ao publico pelas suas produções, e digna da capital destes reinos».

MJG

Da Gazeta de Lisboa ao Diário da República

A origem do jornal oficial costuma situar-se em 1715, quando se dá início à publicação da Gazeta de Lisboa (assim chamada a partir do nº 2, já que o nº 1 sai sob o título de Notícia dos Estados: História Anual, Cronológica e Política do Mundo e Especialmente da Europa).

Gazeta de Lisboa 1718

Entre 1718 e 1741 toma o nome de Gazeta de Lisboa Ocidental, para em 1741 voltar a chamar-se apenas Gazeta de Lisboa. Entre 1762 e 1778 a sua publicação é proibida pelo futuro Marquês de Pombal, só voltando a publicar-se entre 1778 e 1803 e entre 1814 e 1820. 

A partir de 1820, o jornal oficial não mais deixou de ser publicado pela Imprensa Nacional.

Entre 1821 e 1868, refletindo o período conturbado que se vivia, o jornal oficial passa por diversas designações: de Diário do Governo, a Diário da Regência, novamente Diário do Governo, de novo Gazeta de Lisboa, Crónica Constitucional de Lisboa, simplesmente Crónica de Lisboa, Gazeta Oficial do Governo, Gazeta do Governo, Diário do Governo, Diário de Lisboa.

Primeira página da edição do Diário da República de 5 de outubro de 1910

Finalmente, a partir de 1 de Janeiro de 1869 volta a chamar-se Diário do Governo, designação que mantém até 9 de Abril de 1976, quando recebe o nome atual de Diário da República.

MJG

Descendente da Impressão Régia

Criada por Alvará de 24 de Dezembro de 1768, a Impressão Régia, também chamada Régia Oficina Tipográfica, só a partir de 1833 passou a ser designada Imprensa Nacional.

A laboração iniciou-se o palácio de D. Fernando Soares de Noronha, à Cotovia, na então Rua Direita da Fábrica das Sedas, quase defronte do Colégio dos Nobres, mas com entrada pela Travessa do Pombal, atual Rua da Imprensa Nacional, com equipamento adquirido à oficina tipográfica de Miguel Manescal da Costa, que se manteve como Administrador da Oficina.
A Imprensa Nacional no Sítio da Cotovia

Nos termos do Alvará de 1768, à Impressão Régia foi «unida a fabrica dos caractéres que até agora esteve a cargo da Junta do Commercio», fundada em 1732 por Jean de Villeneuve, um francês chamado a Portugal por D. João V para Assegurar a «continuação do ensino de aprendizes da mesma fabrica de letra, para que não faltem no reino os professores desta utilissima arte».

E porque «sendo presentemente necessario que no corpo de huma Impressão Regia não falte qualquer circunstancia que a faça defeituosa, e sendo hum dos ornatos da impressão as estampas, ou para demonstrações, ou para outros muitos utilissimos fins», foi nomeado Joaquim Carneiro da Silva como «abridor de estampas conhecidamente perito, o qual terá obrigação de abrir todas as que forem necessarias para a Impressão, e se lhes pagarão pelo seu justo valor, e de mais ensinará continuadamente os aprendizes».

Alvará régio de 1768

Entre 1802 e 1815, teve este cargo o célebre gravador Francesco Bartolozzi, chamado a Lisboa pelo então presidente do Real Erário, D. Rodrigo de Sousa Coutinho.

Joaquim Carneiro da Silva

Francesco Bartolozzi

A incorporação da Fábrica de Cartas de Jogar e Papelões

Em Julho de 1769, foi incorporada na Impressão Régia a Fábrica de Cartas de Jogar e Papelões, sob a direção do genovês Lorenzo Solesio.

O monopólio de fabrico e venda de cartas de jogar no «reino e conquistas» foi um dos seus principais rendimentos até 1832, quando foi extinto.

Após o Terramoto de 1775, a Impressão Régia começou a funcionar num o palácio da travessa do Pombal, uma zona de Lisboa em pleno desenvolvimento industrial, sob a direção de uma Junta ou Conferência de três membros, o Diretor Geral, Nicolau Pagliarini, o Deputado Tesoureiro, Bento José de Miranda, e o Administrador da Oficina, Miguel Manescal da Costa.

Em 1895, o velho edifício, considerado inadequado para as necessidades de um estabelecimento fabril em contínuo desenvolvimento, começou a ser demolido, para dar lugar ao actual. A obra, que decorreu por fases, ficou concluída em 1913. Caso interessante de longevidade de espaços fabris, a Imprensa Nacional continua hoje, com quase 250 anos, a laborar no mesmo lugar, se bem que com as profundas alterações internas de um necessário ajustamento aos novos tempos e às modernas tecnologias.

Maquete do antigo edifício da Imprensa Nacional 1768 - 1895

Maquete do actual edifício da Imprensa Nacional, concluído em 1913

Um papel decisivo nas obras literárias

Até 1801, a Imprensa Régia foi tutelada pela Junta do Comércio (1768), pela Junta de Administração das Fábricas do Reino e Águas Livres (1778), pela Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros (1788) e pelo Presidente do Real Erário (1801).

Até 1810, foi administrada por uma Junta Económica e Administrativa, coadjuvada por uma Junta Literária, composta por quatro professores régios, que devia decidir acerca das obras a serem publicadas, ficando ainda com a incumbência de «continuar a impressão dos livros e obras de que se achava encarregada a Casa Litteraria do Arco do Cego», entretanto extinta, e «concluir todas as obras que se achão ali principiadas e que deverão concluir-se, assim como executar-se outras».

Modernização e reconhecimento internacional

O período de 1810 a 1833 foi um tempo de saneamento e desenvolvimento da instituição, que apetrecha as suas oficinas com novo equipamento, os dois administradores efetuaram viagens ao estrangeiro, a Paris, Londres e Bruxelas, e foram adquiridos os prelos e outra maquinaria que colocaram a Imprensa Nacional ao nível das suas congéneres europeias.

Prova disso são os prémios que ganhou nas exposições nacionais e internacionais a que concorreu: Londres 1862, Porto 1865, Paris 1867, Viena 1873, Filadélfia 1876, e, já sob a gerência de Venâncio Deslandes (1878-1909), Paris 1878, Rio de Janeiro 1879, Paris 1889 e 1900.

Em 1910, com o advento da República, tomou posse do lugar de Diretor-geral Luís Derouet, assassinado à porta do edifício, em 1927, por um tipógrafo desempregado. Foi durante a sua administração que a Imprensa Nacional conheceu um notável desenvolvimento cultural (organizou conferências e exposições e inaugurou a sala da Biblioteca em 1923) e social (Cooperativa A Pensionista, em 1913, Caixa de Auxílio a Viúvas e Órfãos, em 1918, e a Previdência Mútua em 1923).

A Biblioteca da Imprensa Nacional, atualmente com uma programação intensa ao serviço da cultura

Até 1968, quando foi festejado o seu 2.º Centenário, a Imprensa Nacional continuou a modernizar-se para se adaptar às novas tecnologias e necessidades do mercado. Em 1969, pelo Decreto-Lei nº 49476, de 30 de Dezembro, passa a empresa pública.

Finalmente, em Julho de 1972, funde-se com a Casa da Moeda.

Ao longo da sua existência, editou ou apenas imprimiu obras de autores clássicos ou vivos, não só portugueses como traduzidos, obras de caráter literário, artístico ou científico, além das obras ditas «oficiais», como legislação, relatórios, ou mesmo discursos e os impressos designados no século XVIII por «papéis volantes», ou seja, os impressos e modelos de uso administrativo.

MJG