O Livro Branco da Melancolia, publicado na coleção «Plural», em 2019, é uma antologia que reúne, propositadamente de forma continua e irreferencial, os mais significativos poemas de José Jorge Letria -  poeta, ficcionista e jornalista. O Livro Branco da Melancolia conta também com um prefácio de autoria de Yvette K. Centeno.  José Jorge Letria lê aqui o poema «De mim se dirá um dia».






DE MIM SE DIRÁ UM DIA

De mim se dirá um dia,
na arrastada surdina dos rumores,
que fui tantos que lhes perdi a conta,
sendo todos ao mesmo tempo
e não sendo nenhum em absoluto.
É verdade que me desdobrei em vozes
que não soube nem quis disfarçar
sob a capa enganadora de outros nomes.
É verdade que caldeei para os livros
o meu total assombro perante a vida,
a minha dolorosa impaciência
perante a ausência de sentido.
De mim se dirá um dia, pressinto,
na vociferante prosápia das tribunas,
que esbanjei o que tinha para dar
no ritual dispersivo de tantas escritas.
Se assim acontecer, juro que nada farei,
deixando-me ficar sentado na muralha,
a olhar o mar e os seus múltiplos rostos,
como quem se perde naquilo que o prolonga.



José Jorge Letria in O Livro Branco da Melancolia, pág. 406





O Livro Branco da Melancolia, publicado na coleção «Plural», em 2019, é uma antologia que reúne, propositadamente de forma continua e irreferencial, os mais significativos poemas de José Jorge Letria -  poeta, ficcionista e jornalista. O Livro Branco da Melancolia conta também com um prefácio de autoria de Yvette K. Centeno.  José Jorge Letria lê aqui o poema «Aviso aos Filhos».


Aviso aos Filhos

Filhos, eu já nada tenho que vos possa prometer,
a não ser a limpa ressonância de um nome
que é tanto vosso como meu.
Eu já não sei de esconderijos
em que possa ocultar-me
enquanto vocês correm atrás do eco
da minha voz sussurrada e distante,
eu já não sei de brinquedos
que vos possam entreter e divertir,
porque esse tempo se escoou há muito,
fio de água por entre os dedos,
carreiro de sílabas por entre os dias.
Filhos, eu comecei subitamente a envelhecer,
que não a envilecer, quando vocês
fizeram um dia as malas e partiram
para tornarem também audível o vosso nome
nos sítios onde um nome ainda conta, ainda vale.
Filhos, eu alerto-vos para os perigos
da selva voraz em redor de nós, e são medonhos.
Aí não há clemência nem brandura,
aí não há perdão nem acalmia,
e toda a vigilância é sempre pouca
quando as feras saltam ao caminho.
Filhos, por favor, contem aos vossos filhos
que eu ainda tive tempo de vos avisar,
tigre ferido pela memória de tudo quanto viu.

José Jorge Letria in O Livro Branco da Melancolia, pág. 407






Aconteceu duas vezes, no último mês.

Primeiro, num posfácio a uma antologia que organizei e que deve ver a luz do dia no final do ano ou, se a pandemia não deixar, já em 2021 (era para ser publicada em Maio). Depois numa destas crónicas da Edição Nacional.

Escrevi o que queria dizer. Tanto no posfácio, como na crónica. No primeiro caso, disse tudo o que me apetecia, sem filtros. No segundo, falei da pandemia, do confinamento, da família a invadir de casa o escritório de quem trabalha, como eu, em casa. E, depois, deixei-os pousar.

A escrita tem esta propriedade de terapia. Já vem de há muito – nos diários, por exemplo. Ou nas cartas aos nossos mais chegados. Escrever para esquecer, mais do que para lembrar o que se escreveu. Fazer da escrita uma morada de silêncio, como disse Al Berto, mas sem a partilha que os versos seguintes publicitam. A escrita enquanto expurgar de uma alma para consciencializar o coração. Só que, depois, apareceram os blogues. E, depois, o facebook. Não tendo, ainda para mais, qualquer mediador, funcionavam e funciona como um diário a céu aberto. Como uma carta sem destinatário e com centenas ou milhares de destinatários. Como um poema sentimentalista onde o que importa é o escritor e nunca o leitor. Fernando Pessoa escreveu a “Autopsicografia” cem anos mais cedo do que o que devia. Era agora que deveria estar aí como novidade, adaptada a estes novos tempos e não só como metapoesia. «Queres escrever um texto no facebook? Óptimo. Então lê primeiro isto: sentir, sinta o leitor. Que queres tu fazer no estado da alma de quem lê? Mostrar o teu, tão-só? Então, cala-te. Ninguém quer saber de estados de alma ordinários, sem forma nem conteúdo, só válidos para ti, que os escreveste.»

O posfácio foi dado a ler a um querido amigo. A certa altura, na conversa posterior, eu disse: «Acho que o precisava de ter escrito». A resposta dele, sapiente: «Óptimo. Ainda bem que o escreveste. Agora podes escrever o que interessa às outras pessoas e não só a ti.» Eu percebi imediatamente que, sem o ter escrito, não conseguiria escrever o que verdadeiramente interessava para o livro, isto é, para o leitor. E o mesmo aconteceu com a crónica, sem tirar nem pôr. Eu precisava de expurgar esta casa cheia demais. Esta falta que a saudade faz, porque estamos todos demasiado juntos. Esta impossibilidade de paz para escrever e ler porque lá fora há uma guerra. Mas que importa isso a quem me lê? Falar da pandemia, das minhas dores ou dos meus amores quando até acabo por ser um privilegiado? Ninguém deve escrever sobre as chamas, já o disse aqui há umas semanas. A escrita faz-se pensando as chamas sobre as cinzas. E ninguém quer saber de mais um relato sofrido nos tempos da pandemia, das suas dores e dos seus amores – mesmo dos meus, que são os que mais me interessam.



José Jorge Letria foi o convidado de ontem, 13 de fevereiro, de Luís Caetano no programa A Ronda da Noite (RTP/Antena 2) para uma conversa que teve por mote O Livro Branco da Melancolia, a sua antologia poética agora editada pela Imprensa Nacional.



O LIVRO BRANCO DA MELANCOLIA

O Livro Branco da Melancolia, reúne, propositadamente de forma continua e irreferencial, os mais significativos poemas de José Jorge Letria.

José Jorge Letria escolhe, para este conjunto de poemas, um título bem sedutor, e ao mesmo tempo intrigante. Uma palavra como Melancolia carrega um forte peso, na tradição cultural, filosófica, artística.

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