Para Ivo Castro, coordenador da Edição Crítica da obra de Fernando Pessoa, dizer que Pessoa tinha desdobramentos de personalidade é um perfeito disparate de quem não compreende a genialidade do escritor. Uma genialidade que se pressente na densidade da escrita, mesmo quando feita em momentos de cansaço, e que nos obriga a colocar de novos modos a questão do singular e do plural. Se tivesse de escolher um heterónimo preferido, escolheria Ricardo Reis — pela nitidez clássica do seu método. Mas foi o semi-heterónimo Bernardo Soares, pela mão da sua professora de Português, que o introduziu no universo pessoano. Tinha 13 anos e era, na altura, o chefe de uma turma de «galfarros» do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Quase não dá para acreditar, mas diz que também ele se tornou «galfarro», só que mais tarde. Desses tempos até ser nomeado coordenador da Edição Crítica da obra de Fernando Pessoa, na década de 1980, muito se passou. Entre outras coisas, formou-se em Filologia Românica e doutorou-se em Linguística Portuguesa na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ainda é professor. Viveu três anos em Paris — a cidade das tertúlias e dos míticos cafés literários Flore e Les Deux Magots. Empenhou-se para que a Linguística se autonomizasse da Literatura, e viu o penteado dos rapazes mudar quando se começou a ouvir os Beatles em Portugal. Depois, e com a naturalidade das coisas exatas, foi vendo a língua evoluir, com palavras novas a surgir e outras a morrer lentamente. Como «flausina» — a palavra que descrevia as meninas da moda no tempo de Sylvie Vartan, Françoise Hardy ou Brigitte Bardot. O normal, portanto, numa sociedade aberta, como sempre foi a nossa, e numa língua que, mesmo traiçoeira, é falada nos cinco continentes.



O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e a Ministra da Cultura, Graça Fonseca, presidiram, esta manhã, à assinatura de dois protocolos na área do Livro e da Tradução que reforçam as políticas públicas para a internacionalização dos autores portugueses.

A cerimónia decorreu pelas 11 horas e teve lugar na Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, e contou com a presença das entidades parceiras, o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua I.P., a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e a Imprensa Nacional da Casa da Moeda.

O primeiro dos protocolos permitirá a conceção, edição, publicação e divulgação do Catálogo Gram Bem Querer – Mostra de Literatura em Língua Portuguesa. O Catálogo consiste num livro, de publicação anual, composto por excertos traduzidos de obras de autores de língua portuguesa, para promoção e divulgação internacional do património bibliográfico em língua portuguesa. Os excertos de obras serão apresentados com tradução em língua inglesa, francesa e espanhola, e a seleção das obras e dos excertos que, em cada ano, integrarão o catálogo será da responsabilidade de uma comissão editorial.

O segundo protocolo estabelece uma linha de apoio à tradução e à edição de obras da literatura em língua portuguesa nos domínios do ensaio literário, ficção, poesia e dramaturgia. O Camões – Instituto da Cooperação e da Língua I.P. e a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas estabelecem, assim, uma parceria, comprometendo-se a promover a divulgação internacional do programa de apoio à tradução e edição junto de editoras e feiras internacionais, nomeadamente, através das redes externas e da presença técnica nas feiras profissionais do livro, para além de apoiar o desenvolvimento de uma plataforma tecnológica com registo de dados de obras traduzidas de autores de língua portuguesa

Os dois protocolos pretendem consolidar uma estratégia partilhada e integrada para o setor do livro e representam uma concretização prática do Programa de Ação Cultural Externa. A promoção da língua portuguesa, os seus autores e todas as formas de criação literária - poesia, ficção, teatro, ensaio literário e infantojuvenil potencia o conhecimento e o interesse pela cultura portuguesa no panorama internacional e, simultaneamente, estimula a tradução no estrangeiro de autores de língua portuguesa.






A «Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa», editada pela Imprensa Nacional, obedece a um propósito claro: acolher, de forma criteriosa, um conjunto alargado de textos nucleares da Literatura Portuguesa, enquadrados do ponto de vista editorial por elementos de apoio à leitura. 


A coleção procura colmatar lacunas que atingem sobretudo a produção literária de escritores do passado, mas vai além disso: procura constituir um elenco de obras e autores com significado patrimonial, reafirmando, no seu conjunto, a relevância literária e social daquelas obras e daqueles autores.


A «Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa» conta com coordenação de Carlos Reis e com textos introdutórios de grandes especialistas nas obras publicadas.


Foi uma ideia que me foi proposta e que desenvolvi com muito gosto, cujo título fala por si. No sentido em que nós podemos olhar para a literatura portuguesa como um corpus muito alargado, mas nesse corpus muito alargado, tal como na literatura espanhola, francesa, italiana ou inglesa há autores a quem nós chamamos de autores do cânone e outros que não o são. Pode ser muito discutível quais são os autores do cânone, mas há coincidências e convergências. Facilmente, concordamos que Camões, Garrett, Eça, Camilo, Pessoa são autores fundamentais. Mas também são fundamentais autores de segunda linha, vamos-lhe chamar assim, que nem sempre estão disponíveis no mercado. Posso dar um exemplo As Memórias dum Doido, de António Pedro Lopes de Mendonça. Poderia dar outros exemplos. São autores que são fundamentais para entendermos a nossa identidade e que, muitas vezes, as editoras comerciais não têm possibilidade de editar. Julgo que foi com esse espírito que a Imprensa Nacional decidiu que era seu dever institucional facultar a um público mais alargado edições relativamente simples, rigorosas quanto aos textos, com instruções de tipo pedagógico, sem aparato erudito de notas e a preços acessíveis. Trazer para o público, por exemplo, a poesia da Marquesa de Alorna, uma autora fundamental na passagem do século XVIII para o século XIX, mas que muitas vezes não se encontra no nosso mercado.
Carlos Reis, em entrevista ao PRELO, em maio de 2015


Conheça aqui os títulos já publicados na
«Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa»  


Vinte Horas de Liteira
Autor: Camilo Castelo Branco


Camões
Autor: Almeida Garrett


As Pupilas do Senhor Reitor
Autor: Júlio Dinis


História de Menina e Moça
Autor: Bernardim Ribeiro


Obras Poéticas Marquesa de Alorna
Autor: Marquesa da Alorna


Cânticos do Realismo. O Livro de Cesário Verde
Autor: Cesário Verde


A Ilustre Casa de Ramires
Autor: Eça de Queirós


Clepsidra
Autor: Camilo Pessanha


«Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.»

É este evocativo de saudade e sentimentalidade que dá nome, início e matriz a uma reconfiguração do romanesco na literatura da segunda metade do século XVI.

Trata-se da frase inicial do Prólogo do livro Saudades, mais conhecido por Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, autor que será evocado por Jorge Silva Melo na próxima sessão de A Voz dos Poetas.

É já esta segunda-feira, dia 18 de março, pelas 18h30 na sala da Biblioteca da Imprensa Nacional.

Jorge Silva Melo dirá a poesia de Bernardim Ribeiro. Recorde-se que além de prosa Bernardim Ribeiro deixou-nos:

Duas trovas, três cantigas, três esparsas e quatro vilancetes, publicados no Cancioneiro Geral.

Cinco éclogas: Persio e Fauno, Jano e Franco, Silvestre e Amador, Jano, Agrestes e Ribeiro.

A sextina «Ontem pos‑se o sol, e a noute».

Duas cantigas publicadas na edição de Ferrara da História de Menina e Moça.

O romance Ao longo de hũa ribeira, pela primeira vez atribuído a Bernardim Ribeiro na edição da Menina e Moça de 1645.

A entrada, como sempre, é gratuita.


Nota biobibliográfica de Bernardim Ribeiro


Por Marta Marecos Duarte


In História de Menina e Moça, Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa, Imprensa Nacional, 2016

Bernardim Ribeiro terá nascido no Torrão, vila alentejana que pertence hoje ao concelho de Alcácer do Sal. Esta hipótese baseia‑se numa referência presente na écloga Jano e Franco (vv. 10‑13). Numa das versões da écloga Basto, da autoria de Francisco de Sá de Miranda, amigo do autor da História de Menina e Moça, as palavras do pastor Bieito parecem também indiciar essa origem: «Tornaste me ora à lembrança/ Um amigo do Torrão» (vv. 401‑402). O facto de ter assinado várias composições incluídas no Cancioneiro Geral, publicado por Garcia de Resende em 1516, permite situar o seu nascimento entre 1480 e 1490. Desta colaboração se pode depreender que Bernardim foi frequentador da corte de D. Manuel I, onde terá privado com Sá de Miranda.

Ao contrário do introdutor do soneto em Portugal, Bernardim Ribeiro não foi um cultor da medida nova. Contudo, considera‑se que a sua obra se aproxima do cânone renascentista, quer por dela fazerem parte diversas éclogas e uma sextina, géneros clássicos sujeitos a inovações nos séculos xv e xvi , quer pelos vários paralelismos que é possível estabelecer entre o seu legado e o de autores como Ovídio, Petrarca e Sanazzaro, que exerceram uma influência modelar sobre os autores quinhentistas.

Além do referido, sobre Bernardim Ribeiro praticamente nada se sabe. Durante muito tempo, a sua obra serviu para ilustrar factos que se acreditou terem feito parte da sua vida.

Como afirma J. A. Cardoso Bernardes, «À falta de documentos, o estabelecimento desses dados [condição aristocrática, amores clandestinos, loucura] operou‑se através de uma verdadeira saga decifratória visando os anagramas das éclogas e de Menina e Moça». Foi sobretudo «o projecto de construção de uma história literária nacional» que obrigou a «que ao autor da História de Menina e Moça se tenha feito corresponder, desde cedo, o protótipo do luso genial e sensível» . O protótipo que se esboçara nas cantigas de amigo e que se «projectaria depois no Romantismo e no Saudosismo» contribuiu para determinar o lugar indiscutível que a novela de Bernardim ocupou, ao longo do século xx, nos manuais escolares. A tematização da saudade que nela é feita foi também um fator determinante dessa presença, porquanto serviu de base a uma mitificação da identidade portuguesa como sendo singularmente marcada por este sentimento.

Exemplo da decifração acima citada foi a interpretação levada a cabo por Teófilo Braga no ensaio Bernardim Ribeiro e os Bucolistas, publicado em 1872. As perspetivas aí propostas são reformuladas anos depois num outro estudo, Bernardim Ribeiro e o Bucolismo . Com base num documento falso , Teófilo desvenda a Menina e Moça, estabelecendo, entre muitas outras, correspondência entre o par amoroso ficcional Bimarder‑Aónia e o poeta Bernardim Ribeiro e a sua prima D. Joana Zagalo. Sob as alegorias pastorais e cavaleirescas, «[t]ratavam‑se ahi amores do paço» , refere. O aparecimento da intriga de corte a que o poeta surge associado, à qual não é alheio o mistério que reveste o final das histórias da Menina e Moça, em particular a de Avalor e Arima, antecede em muito o final do século xix. No século xvii, Manuel de Faria e Sousa, em Fuente de Aganipe (1644), divulgava pela primeira vez a lenda dos trágicos amores de Bernardim Ribeiro com a Infanta Dona Beatriz, segunda filha de D. Manuel I. Uma lenda que foi tida em consideração não só por Teófilo Braga, mas também por Alexandre Herculano e Almeida Garrett.

Em pleno século xx, desenvolveu‑se uma outra corrente biografista, também com repercussões na interpretação da obra. Trata‑se daquela que afirma o judaísmo, ou criptojudaísmo, de Bernardim, e que encontra base de sustentação na descoberta da edição de Ferrara da História de Menina e Moça. Foram os Usque, judeus portugueses exilados em Itália, que publicaram a editio princeps da novela portuguesa. Com que interesse?

Porquê editar uma obra de carácter profano entre uma maioria de publicações de cariz religioso, dirigidas a leitores judeus? Perguntas como estas, acrescidas do facto de a novela figurar no Índice expurgatório de 1581 e de se revestir de elementos sugestivos de uma certa heterodoxia cultural e religiosa, paralelamente a uma significativa ausência de referentes associados ao universo do cristianismo, levaram José Teixeira Rego (1931) e Helder Macedo (1977) a atribuírem a Bernardim a condição de judeu, ou cristao‑novo . O primeiro lança ainda a hipótese de o poeta e Judá Abravanel, mais conhecido pelo nome Leão Hebreu, autor de Diálogos de Amor, obra publicada em Itália em 1535, serem a mesma pessoa.

Assim, não dispondo por ora de documentação que nos conduza à elaboração de um retrato fiel do autor, atente‑se em algumas pistas que poderão ajudar a esbater parte do mistério em torno da sua biografia. É provável que Bernardim Ribeiro tenha falecido entre 1530 e 1540. A referência em tempo pretérito a um certo Ribeiro, em várias éclogas de Sá de Miranda escritas entre 1532 e 1536, permite conjeturar essa possibilidade. Herculano de Carvalho foi dos primeiros a ter este dado em conta, lançando o debate sobre um verso contido num Epitalâmio pastoril de Miranda («De Ribero has sabido bien quién fué?», v. 188). Eugenio Asensio, ao fixar a data de escrita do Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa da Menina e Moça entre 1540 e 1546, sugere também o falecimento do autor em data anterior a 1540.

Segundo Pina Martins, um passo da écloga Alexo parece sugerir que Bernardim Ribeiro acompanhou Miranda na sua viagem a Itália, entre 1521 e 1526. Repare‑se nos versos que pensa aludirem à companhia de Ribero: «Al cantar que aqui cantámos;/ Fue […] de estraña parte/ Donde un tiempo ambos andamos/ I dir te he como pasó» (vv. 437 440). Tal circunstância inviabilizaria a conexão do poeta com o cargo de escrivão da câmara de D. João III, atribuído a alguém com o mesmo nome, em 1524. Terá este sido apenas mais um dos homónimos do autor da Menina e Moça? As alusões a Ribeiro nas éclogas de Miranda não ficam por aqui. Ainda em Alexo, o pastor Juan, referindo‑se ao canto de Ribeiro, termina a estrofe com uma acusação à «Gente de firmeza poca/ Que le dió tantos loores,/ I aora ge los apoca» (vv. 388‑390). O conteúdo destes versos indiciaria, por sua vez, uma situação de mudança relativamente ao apreço granjeado pelo poeta.

Poder‑se‑a entender estas citações como pistas biográficas com a mesma certeza com que o fazemos em relação, por exemplo, à referência do poeta do Neiva a Garcilaso de la Vega, cuja morte é lamentada pelos pastores da Écloga V (Nemoroso), escrita um ano após o falecimento do poeta espanhol? Enquanto os esboços de uma possível biografia não assumem uma maior nitidez de contornos, debrucemo‑nos sobre as obras atribuídas a Bernardim Ribeiro.










30 de novembro de 1935. 

Fernando Pessoa morre no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, de uma crise hepática. Era o início de uma noite de sábado.

Dá entrada no hospital na véspera da partida. E são dessa data (29 de novembro) as suas últimas palavras escritas:


«I know not what tomorrow will bring».

[não sei o que o amanhã trará].

Tinha 47 anos.

Quando morreu Fernando Pessoa deixou publicada uma décima parte da sua obra: 35 Sonnets (1918), Antinous (1918), English Poems (1921), O Interregno: defeza e justificação da dictadura militar em Portugal (1928), Mensagem (1934) e uma série de escritos dispersos por algumas revistas, como a Orpheu — da qual foi o fundador.

Só mais tarde se descobriu que Fernando Pessoa deixou uma herança inestimável para o país e, sobretudo, para a Língua Portuguesa: uma arca com mais de 27.000 manuscritos inéditos.

A vasta obra, deixada inédita, só começou a ser editada em 1942, por iniciativas de Luís de Montalvor e de João Gaspar Simões.

Apenas em 1968 começou o inventário da sua famosa arca. Portugal começava então a aperceber-se a dimensão e a magnitude da obra pessoana. O mundo descobriu isso depois. E pasmou-se.

Em 1985, por ocasião dos 50 anos da morte do poeta, a sua obra entra em domínio público. Nesse ano, e nos seguintes, o mercado do livreiro (nacional e internacional) mostrou um verdadeiro interesse pelo poeta. Porém, em 1997, ao abrigo da diretiva da União Europeia (que fixava em 70 anos após a morte, o período de vigência dos direitos de autor) a editora Assírio e Alvim comprou aos herdeiros os direitos de edição — medida que viria a causar celeuma entre os editores de todo o mundo.

Em 2005, cumpridos os 70 anos da morte do poeta, a sua obra entra definitivamente em domínio público. Fernando Pessoa passou a ser livre outra vez e consagrou-se como um dos nomes maiores da literatura universal.

Em setembro de 2009, pelo Decreto 21/2009, de 14 de setembro, o espólio documental de Fernando Pessoa foi classificado como «bem de interesse nacional», passando a designar-se o espólio do escritor como «tesouro nacional».

Entre outros títulos a Imprensa Nacional dedica-lhe a coleção «Edição Crítica de Fernando Pessoa», sob a coordenação do Professor Ivo Castro, a coleção de ensaios «Pessoana» e o primeiro volume da coleção infanto-juvenil «Grandes Vidas Portuguesas».




Festa dos livros, da literatura, da arte e da cultura, a Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara, no México, é o principal evento dedicado ao negócio do livro da América Latina e a segunda maior feira internacional do livro do mundo, logo a seguir à de Frankfurt, na Alemanha.

A 32.ª edição do evento, criado pela Universidade de Guadalajara, arranca já amanhã, 24 de novembro, e prolonga-se até dia 2 de dezembro. Portugal é o convidado de honra. Da literatura à música, da arquitetura à gastronomia, a língua portuguesa vai estar em destaque. E cultura também.

Sobre a escolha de Portugal, o presidente da Feira do Livro de Guadalajara, Raúl Padilla López, afirmou que esta quis assinalar os 155 anos de relações diplomáticas entre os dois países. Esta que é uma participação que envolve vários organismos públicos, mecenato e parcerias privadas.

Manuela Júdice é a comissária da participação portuguesa na Feira do Livro de Guadalajara sendo também a responsável pela programação das atividades portuguesas no evento, um programa que inclui visitas a escolas, lançamento de livros, sessões de leitura e encontros com leitores.

São cerca de 40 os autores portugueses, e autores do espaço da lusofonia, presentes no certame, representando várias gerações e alguns deles já galardoados com o Prémio Camões.

Entre eles, Adélia Carvalho, Afonso Cruz, Alexandra Lucas Coelho, Ana Luísa Amaral, Ana Margarida de Carvalho, António Carlos Cortez, António Jorge Gonçalves, António Lobo Antunes, Carlos Reis, Dulce Maria Cardoso, Filipa Leal, Francisco José Viegas, Germano Almeida, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Inês Fonseca Santos, Isabela Figueiredo, Isabel Rio Novo, Jerónimo Pizarro, João de Melo, João Luís Barreto Guimarães, João Pinto Coelho, João Tordo, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Lídia Jorge, Margarida Vale de Gato, Maria do Rosário Pedreira, Mia Couto, Miguel Miranda, Nuno Júdice, Ondjaki, Pedro Mexia, Pedro Serra, Ricardo Araújo Pereira, Rui Cardoso Martins, Rui Cóias, Rui Vieira Nery, Rui Zink, Teolinda Gersão, Valter Hugo Mãe e Vasco Gato. Manuel Alegre não estará presente por questões de saúde mas será um dos escritores em destaque na Feira. O seu livro Todos os Poemas São de Amor vai contar com uma edição mexicana que será apresentada em Guadalajara.

Na música, Ana Bacalhau, Capicua, Dead Combo, Amor Electro, Kátia Guerreiro, Gil do Carmo, Moonspell, Camané e Luís Represas estão entre os artistas que vão atuar em Guadalajara.

No cinema, 12 longas-metragens baseadas em livros de escritores portugueses e 7 curtas-metragens farão a Mostra de Cinema português. Uma abelha na chuva, de Fernando Lopes, Vale Abraão e Singularidades de uma rapariga loira, de Manoel de Oliveira, A costa dos murmúrios, de Margarida Cardoso, A corte do Norte” e Filme do Desassossego, de João Botelho, passarão no grande ecrã.

O programa de teatro passará pela apresentação de duas peças: By Heart de Tiago Rodrigues e Consentim(i)ento - A Perda do Paraíso, uma produção de Cassefaz com João Grosso e Pedro Barbeitos.

Quanto ao bailado acontecerá com Lídia, com coreografia de Paulo Ribeiro e música de Luís Tinoco, a cargo da Companhia Nacional de Bailado.

Nas exposições, Portugal levará para o México desde os conhecidos Lenços dos Namorados, às obras de Ana Hatherly e de Almada Negreiros.

O arquiteto João Luís Carrilho da Graça vai ser homenageado no encontro de arquitetura da Feira.

Prevista está também uma evocação a José Saramago, nos 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura.

A participação portuguesa contará ainda com a presença de editores, designers, ilustradores, bem como uma mostra de gastronomia sob responsabilidade do Chef Luís Tarenta e provas de vinhos portugueses.

O Pavilhão de Portugal na Feira de Guadalajara, desenhado pelos arquitetos João Santa-Rita e Pedro Guedes Lebre, terá uma livraria com mais de mil títulos da literatura em língua portuguesa e um espaço da agência para o investimento AICEP.

No dia do encerramento, espera-se a presença do primeiro-ministro, António Costa, que passará o testemunho à Índia, convidado de honra de 2019.

No total, a Feira Internacional do Livro de Guadalajara, conta ter um total de 800 escritores, a presença de mais de 20 mil profissionais ligados ao mercado livreiro, mais de 2.000 editoras e 400 mil títulos de 47 países.

A Imprensa Nacional marcará presença neste grande festival do livro e que será também uma grande oportunidade para dar a conhecer a cultura portuguesa ao mundo.





Vitorino Nemésio foi poeta durante 60 anos e nunca pôs de lado a poesia — atividade ininterrupta entre 1916 e 1976. É precisamente com a poesia que se inaugurara a nova coleção «Obra Completa de Vitorino Nemésio», numa profícua — e simbólica — parceria entre as editoras Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico, e a Imprensa Nacional.

Esta nova coleção, simples, sem aparato de notas e rigorosa do ponto de vista do texto, estrutura-se em quatro séries: Poesia, Teatro e Ficção, Crónica e, finalmente, Ensaio. Esta é uma forma de mostrar a obra ampla e multifacetada que Nemésio nos deixou.

A partir da próxima sexta-feira, dia 23, e até dia 30 de novembro vamos publicar, uma pergunta por dia, sobre a vida e obra de Vitorino Nemésio. A pessoa tiver mais respostas certas ganha um exemplar de Poesia 1916-1640 !

Mas atenção: as respostas não podem estar visíveis! Envie-nos todas ao mesmo tempo ou uma de cada vez, por email ou mensagem privada para a nossa conta do facebook.

Esteja atento!



As perguntas:

dia 23 - Em 1916, aos 15 anos de idade, Vitorino Nemésio era um jovem aluno do liceu de Angra do Heroísmo. É neste ano que publica o seu primeiro livro de poemas «Canto Matinal». O então jovem poeta quisera chamar-lhe «Canto Vesperal». Foi a conselho de um professor que alterou o título. Como se chamava este professor?

dia 24 - O poema «Aquele cais ali, agudo e nu», de Vitorino Nemésio, foi publicado pela primeira vez em 1940. Em que livro?

Dia 25 - Em 1933, Vitorino Nemésio é contratado pela Faculdade de Letras de Lisboa, tendo-se doutorado, no ano seguinte. Qual o título da sua dissertação de doutoramento?






Júlio Dinis, pseudónimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho, nasceu há precisamente 179 anos, a 14 de novembro de 1839, na cidade do Porto, onde viria a falecer, ainda muito jovem, com 31 anos, em setembro de 1871, vitima de tuberculose.

Apesar do desaparecimento tão prematuro, Júlio Dinis deixou títulos soantes na Literatura Portuguesa tais como: A Morgadinha dos Canaviais, Uma Família Inglesa, Serões da Província, Os Fidalgos da Casa Mourisca e As Pupilas do Senhor Reitor — obra que 151 anos depois de ter sido publicada pela primeira vez continua a suscitar interesse editorial. O ano passado, por exemplo, a editora Guerra e Paz publicou o romance onde incluiu 70 aguarelas do pintor Roque Gameiro. Também em 2017 a Imprensa Nacional acrescentou este título à sua coleção «Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa», onde inclui também uma nota prévia do académico Carlos Reis e introdução e nota de bibliográfica de Maria do Rosário Cunha.

Para uns As Pupilas do Senhor Reitor é o retrato fiel de uma aldeia portuguesa oitocentista , para outros será obra da literatura light, para outros ainda, caso de Alexandre Herculano, é o primeiro romance português e o seu autor «o maior talento da sua geração». Para nós, As Pupilas do Senhor Reitor, é indiscutivelmente uma obra fundamental da Literatura Portuguesa.

Além dos amores e dos desencontros  Clara e Margarida (órfãs) e de Daniel e Pedro, As Pupilas do Senhor Reitor, apresenta uma interessante e colorida galeria de personagens como João das Dornas, João Semana, o inesquecível médico da província, João da Esquina, dono da loja, a Ti'Zefa, a coscuvilheira da aldeia, o Sr. Reitor, o Velho Mestre, entre outras...

Inicialmente As Pupilas foram publicadas em folhetim, no Jornal do Porto, conhecendo o formato de livro em 1887. O sucesso foi imediato, sendo um dos romances mais vendidos nos séculos XIX e XX em Portugal.

Muitas serão as razões para se explicar este sucesso. A simplicidade do estilo, muito afastado da escrita erudita de outros romances da época, a própria trama, as situações imprevistas, a intensidade dramática… Na nota à edição da Imprensa Nacional pode ler-se:

«O romance As Pupilas do Senhor Reitor traça um quadro de costumes rurais e sociais que ajuda a compreender aspetos relevantes da vida portuguesa da segunda metade do século XIX.
Algumas vezes classificado como escritor de leitura fácil e amena, Júlio Dinis merece ser lido e relido para além dessa imagem de superficialidade e de idealizada visão das coisas e das pessoas. N’As Pupilas do Senhor Reitor encontramos muito mais do que isso, por exemplo, no respeitante à prática da medicina e à imagem do médico, bem como no tocante a opções éticas e morais que nos mostram, em personagens de desenho sugestivo, uma sociedade em mudança. Com justiça, as obras de Júlio Dinis (e em especial este romance) conseguiram sobreviver ao seu autor.»

O êxito deste romance suscitou várias adaptações para cinema. A primeira em 1922 sob a direção de Maurice Mariaud. A segunda em 1935, com realização e adaptação de Leitão de Barros. Anos mais tarde, em 1960 Perdigão Queiroga também levou a história aos ecrãs de cinema. A história também já foi adaptada para o formato de novela e no Brasil, em 1970 pela TV Record, e em 1995, pelo SBT.




Com vista à promoção da língua e cultura portuguesas, a Imprensa Nacional doará cerca de 25 mil livros do seu acervo bibliográfico, no valor de 163 mil euros, ao Ministério da Cultura e a das Indústrias Criativas de Cabo Verde, sem qualquer contrapartida de caráter pecuniário ou comercial. Já o Ministério da Cultura e a das Indústrias Criativas de Cabo Verde compromete-se a assumir o papel de facilitador cultural junto das comunidades locais.

A doação de livros do seu acervo é uma forma da Imprensa Nacional - Casa da Moeda continuar a contribuir de forma ativa para a promoção da leitura e do conhecimento, assumindo um papel preponderante na promoção da língua portuguesa junto das comunidades locais.

Este Protocolo Institucional foi celebrado no decorrer da 2.ª edição do Morabeza – Festa do Livro de Cabo Verde, que se realizou entre os dias 19 e 28 de outubro.


A celebrar hoje a 70.ª edição, a Feira do Livro de Frankfurt é considerada uma das maiores feiras do livro do mundo, “muito importante do ponto de vista editorial e com uma longa tradição”, refere Patrícia Severino, conselheira cultural da Embaixada de Portugal na Alemanha.

Durante os próximos cinco dias, editores, escritores e entusiastas vindos de todo o globo reúnem-se nesta feira para assistir às tendências do setor internacional de livros e mídia distribuídas pelos 7100 expositores presentes, entre os quais 49 portugueses e com Geórgia como país convidado.

Destaca-se a importância da presença de escritores na feira.
Há dois anos, a escritora Patrícia Portela esteve na Feira do Livro de Frankfurt e, na altura, concluiu-se que há cerca de 16 anos que não havia a presença de autores portugueses naquela feira. Por um lado, é muito virada para o mercado, com a compra e venda de direitos, por outro lado, sendo uma feira do livro, consideramos que é importante os autores estarem presentes porque sem eles não há livros.

Nesta edição estarão presentes Isabela Figueiredo, que é a autora que estará em residência literária aqui na Alemanha, Kalaf Epalanga, que está sediado aqui em Berlim e se desloca connosco para uma conversa sobre a língua portuguesa, e o autor brasileiro João Paulo Cuenca, que também se junta a nós no dia 13 de outubro. Por outro lado, no dia 12, associamo-nos à livraria TFM, que é um espaço de literatura dedicado à língua portuguesa, onde fazemos uma apresentação dos livros destes dois autores.
Informa Patrícia Severino.

Em 2021 Portugal será o país convidado da Feira do Livro de Leipzig. Patrícia Severino salienta a importância de “um trabalho continuado ao longo dos próximos três anos, que antecipem esse momento.” Como a edição especial do Jornal de Letras, que vai ser apresentado na Feira do Livro de Frankfurt, dedicado a José Saramago e aos 20 anos do Prémio Nobel da Literatura.

Esta edição assinala, por um lado, este momento tão importante para a história da literatura portuguesa, por outro lado, é um protejo que se enquadra na iniciativa ‘Portugal – país convidado da Feira do Livro de Leipzig 2021’. Portanto, vão sair durante os próximos anos duas edições anuais, uma por ocasião da Feira do Livro de Leipzig, outra por ocasião da Feira do Livro de Frankfurt. A finalidade é termos um veículo de informação estruturada sobre a literatura de língua portuguesa que circulará na Alemanha
Explica Severino.

A Feira do Livro de Frankfurt termina no próximo domingo, dia 14. Esteja atento às próximas publicações!

Fonte: observador.pt







CLUBE DE LEITORES DA IMPRENSA NACIONAL
2.ª edição: 2018/2019
Programa: Leituras e Temas da Literatura Portuguesa do século XX
Orientação: Gonçalo M. Tavares
Organização: INCM
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Periodicidade: mensal
Horário: quintas-feiras, 18:30 - 20:00 h

O Clube de Leitores da Imprensa Nacional é uma iniciativa da editora pública e do escritor Gonçalo M. Tavares.
A 2.ª edição do Clube de Leitores da Imprensa Nacional desenvolverá as suas sessões, totalmente gratuitas, entre outubro de 2018 e julho de 2019, num total de dez (10) sessões.

1. Objetivos:

• Debate sobre as obras proposta por Gonçalo M. Tavares;
• Partilha de conhecimentos, reflexões e inquietações a partir de uma experiência de leitura;
• Reavivar a leitura das obras e dos autores portugueses do século XX e trazê-los para o debate contemporâneo.

2. Público-alvo:

• O Clube de Leitores da Imprensa Nacional destina-se sobretudo a pessoas que gostem de ler e que não encarem a leitura apenas como um processo de distração ou de puro passatempo. Este clube não se destina a especialistas de livros. Destina-se àqueles que veem o livro como o início de uma boa conversa.

3. Funcionamento:

• Todas as sessões terão como ponto de partida a leitura de obras do século XX da Literatura Portuguesa;
• O mesmo livro suscita quase sempre diferentes interpretações e vivências por isso para cada sessão haverá um livro, um autor e um tema — que servirá de tópico para discussão.
• Na sessão, além da leitura em voz alta de excertos do livro, haverá um diálogo sobre o livro proposto bem como sobre outros livros com temas próximos.
• A partir das obras lidas, chamar à discussão outros livros, filmes, peças de teatro, músicas, notícias, etc. relacionados com o tema do livro lido no mês.
• Diálogo sobre outras leituras feitas pelos participantes do clube durante o mês.
• O clube funcionará através de sessões presenciais.
• O clube reunirá com uma periodicidade mensal.
• Cada participante lerá o livro indicado para cada mês.
• Todas as sessões serão orientadas/dinamizadas por Gonçalo M. Tavares.

4. Local de funcionamento

• As sessões decorrerão na Biblioteca da Imprensa Nacional sita na Rua da Escola Politécnica n.º 135 em Lisboa (entre o Largo do Rato e o Jardim do Príncipe Real).
• Como chegar: Autocarro: 773 e 758; Metro: Rato; Coordenadas GPS: N 38º 43' 4.45" W 9º 9' 6.62"

5. Calendário das sessões

• A agenda das sessões será definida pelo orientador do clube juntamente com os seus membros, com início previsto para outubro de 2018.
• As sessões do Clube de Leitores da Imprensa Nacional ocorrerão uma vez por mês, sempre num dia útil (tendencialmente quinta-feira), ao final da tarde, entre as 18:30 e as 20:00 horas.

6. Admissão

• O número de participantes é limitado;
Para participar no Clube de Leitores da Imprensa Nacional Casa da Moeda os interessados deverão enviar um pequeno texto explicativo (cerca de 1200 caracteres em formato Word) do seu percurso académico e profissional e a motivação que os leva a querer participar no Clube de Leitores da Imprensa Nacional.
• O critério de seleção dos participantes será efetuado com base no texto de motivação enviado. Os candidatos deverão ainda disponibilizar as seguintes informações:
1. Nome completo
2. Data de Nascimento
3. Profissão
4. Contacto email
5. Contacto telefónico
• As candidaturas deverão ser enviadas para o email: clube.leitores@incm.pt até ao dia 05 de outubro
• A seleção dos participantes ficará a cargo da Imprensa Nacional Casa da Moeda e será comunicada para o endereço email e /ou telefónico facultado pelos participantes.
Todas as informações adicionais deverão ser solicitadas por escrito para o email: clube.leitores@incm.pt

7. Programa

• Sessão 1 – José Cardoso Pires – O Delfim
Tema: O cinema
• Sessão 2 – Sophia de Mello Breyner – Poesia
Tema: A clareza
• Sessão 3 – Ana Hatherly - 351 Tisanas,
Tema: O fragmento
• Sessão 4 – Carlos de Oliveira – Finisterra
Tema: A precisão e a ambiguidade
• Sessão 5 – Vitorino Nemésio - Mau tempo no Canal
Tema: O isolamento
• Sessão 6 – Herberto Helder - Photomaton & vox
Tema: A imaginação
• Sessão 7 – Maria Gabriela Llansol - Um beijo dado mais tarde
Tema: A narrativa
• Sessão 8 – Vergílio Ferreira – Aparição
Tema: A reflexão e o espelho
• Sessão 9 – Eduardo Prado Coelho - A Poesia Ensina a... Cair
Tema: O pensamento
• Sessão 10 – José Saramago - Ensaio sobre a Cegueira
Tema: A cidade

8. Disposições finais

• Os membros do Clube devem respeitar-se mutuamente e cumprir as regras básicas de boa convivência, caso não o façam reserva-se o direito à Imprensa Nacional — Casa da Moeda de anular a sua participação.
• A não comparência, sem aviso prévio, a duas (2) ou mais sessões consecutivas, reserva-se o direito à Imprensa Nacional — Casa da Moeda de anular a sua participação e de substituir o participante.
• Somente serão consideradas as inscrições que estiverem em conformidade com as normas estabelecidas neste Regulamento.
Ser membro do Clube de Leitura da Imprensa Nacional pressupõe a aceitação e cumprimento dos termos propostos no presente Regulamento.

Gonçalo M. Tavares
Nasceu em 1970. Desde 2001 publicou livros em diferentes géneros literários e está a ser traduzido em mais de 50 países. Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no estrangeiro. Como Aprender a rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meuilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Orhan Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Elias Canetti, entre outros. Alguns outros prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi também por diferentes vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Uma Viagem à Índia recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas, curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, vídeos de arte, ópera, performances, projetos de arquitetura, teses académicas, etc. Em 2017 publicou A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, pela Bertrand Editora.



Texto e fotografias: Tânia Pinto Ribeiro

Gonçalo M. Tavares é um virtuoso das letras contemporâneas e um prodigioso observador da gramática humana. Mas não tem a certeza se daqui a 50 anos haverá um Clube de Leitores que se reúna para debater uma obra sua, apesar de tentar «escrever de uma forma séria». E escrever de uma forma séria pressupõe «escrever livros que resistam ao tempo». Ficaria «muito contente» se, a partir de um livro seu, conseguíssemos todos ficar «um pouco mais lúcidos» em relação ao «mal» e à «maldade».
Para já, ou melhor, para outubro, é ele quem vai dinamizar a 1.ª edição do Clube de Leitores da Imprensa Nacional, inteiramente dedicada aos clássicos da Literatura Portuguesa. De Gil Vicente a Nemésio, passando por Camões, Pessoa e Sá Carneiro; de Cesário Verde a Almada, sem esquecer António Vieira, Régio ou Eça. As sessões — num total de 10 — vão tocar temas tão díspares como universais: a morte, o amor, a linguagem, as utopias, a arte, a beleza, a loucura, o poder, a imaginação ou a identidade… «A ideia é termos um clube de leitura aberto, gratuito, com sessões mensais, a decorrerem na Biblioteca da Imprensa Nacional, onde se irá debater, em cada sessão, um tema e um livro.», diz-nos.
Gonçalo M. Tavares vê na leitura «o início da reflexão» — como que uma espécie de prefácio do pensamento. Diz que não gosta de ler sozinho e que tem de ter sempre à mão a «imprescindível» companhia do lápis. «Ler não é estar a ver um programa de televisão. Ler é estar com um bisturi, que é o lápis, a anotar, a sublinhar, a riscar, a apontar de lado…». Depois há também a questão dos sublinhados, um roteiro que o faz compreender o momento da leitura e, em certa medida, uma parte da sua biografia. «O que não sublinhei naquele momento foi porque não lhe dei importância».
Diz também que não consegue ler poesia ou ficção da parte da manhã. Só ensaio e filosofia dura. Também não consegue ler ensaio ou filosofia dura da parte da tarde. Só poesia e ficção. Gonçalo M. Tavares não gosta de falar de autores, prefere falar de obras. Menos das suas. Foi na biblioteca do pai que folheou as primeiras obras clássicas da literatura universal. E onde se tornou leitor. «Na biblioteca do meu pai havia várias coleções de clássicos. É engraçado porque associo os clássicos também a um percurso do corpo. Uma dessas coleções estava no primeiro andar, outra estava no piso abaixo. Eu tinha de chegar até lá».
Hoje, Gonçalo M. Tavares continua a manter uma relação muito física com o livro impresso. «Uma coisa tão simples como sentir o peso do material é algo que não se consegue com o e-book. Quando se está a começar a ler um livro o peso maior está no lado direito, depois continuamos a ler e sentimos um prazer enorme ao verificar que o peso do livro se está a deslocar para a mão esquerda. É uma sensação extraordinária!». Foi o que sentiu quando leu A Montanha Mágica, de Thomas Mann.
Mas o clássico a que volta sempre — e do qual não se cansa de falar — foi escrito há quase dois mil anos. Precisamente por ser um clássico continua atual: Cartas a Lucílio, do estoico filósofo romano Séneca. Afinal, «um clássico pode ser muito mais contemporâneo do que um livro escrito na contemporaneidade».
Escritor, Gonçalo M. Tavares não obedece a regras. Obedece a instintos. Não escreve com um plano. Escreve de «maneira alucinada». Escreve «de manhã» para publicar anos mais tarde. O tempo apura-lhe o olhar. Até porque não há espírito crítico que não se altere com o acontecer dos dias. Também é subversivo «intencionalmente» quanto à ortografia. O que origina diálogos «muito divertidos» com os seu revisores. Como das vezes em que escreve Paris com p pequeno. «Quando se escreve Paris com p grande no meio da frase há uma pequena paragem; quando se grafa Paris com p pequeno no meio da frase há uma microaceleração. Isto parece uma conversa de malucos mas para quem escreve e para quem sente o texto não é!». A revista Magazine Littéraire intitulou-o «genial»!
Não gosta da palavra «inspiração» para explicar o dom. Prefere chamar-lhe «energia extraordinária». «Realmente esta parte da escrita nada tem que ver com uma racionalidade muito lúcida. Lá isso não tem! Até sinto que quanto mais rápido escrevo, quanto menos estou a pensar, mais forte o texto fica».
Explica, depois, que a falta de curiosidade é uma «desistência da vida» e o entusiasmo uma «doença contagiosa». Mas, por muito que se esforce, não consegue sentir «entusiasmo» quando olha para uma fotografia despida de gente. «Uma paisagem sem pessoas é muito pouco interessante. O que me interessa são as pessoas». E Gonçalo M. Tavares vai ao encontro delas, quase que secretamente, calcorreando, sem pressa, os cafés, as artérias e as curvas da cidade — de que tanto gosta — como que a contemplar, perdão, a observar um grande fresco da condição humana. E, talvez por isso mesmo, capaz de as tornar personagens. Depois — e como que numa roda viva — põe-nas a caminhar por entre reinos, bairros, mitologias, cidades e bibliotecas, descortinando também, por detrás de cada uma delas, a sua própria experiência de grande leitor que é.
É, aos 46 anos de idade e quase 40 livros depois, considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea ocidental. Recebeu os mais diversos prémios e chegaram-lhe os elogios mais distintos de nomes como Eduardo Lourenço, Enrique Vila-Matas, Bernardo Carvalho, António Lobo Antunes, Alberto Manguel e José Saramago. Reza a história que o Nobel português teve vontade de lhe bater por «escrever tão bem», deixando a profecia: a Academia Sueca iria estar de olhos postos na obra dele. Vasco Graça Moura não pôde estar mais de acordo. Mas Gonçalo M. Tavares prefere não se deixar deslumbrar (nem irritar) diante das reações que recebe. Opta por «guardar uma certa distância». Talvez por cautela. Talvez por ser avesso a grandes aclamações épicas. Apesar de já ter escrito uma epopeia: Uma Viagem à Índia.
Hoje, está presente em de cerca 50 países e é traduzido em quase 40 línguas. E há uma coisa que agrada Gonçalo M. Tavares nesse percurso lá fora: geralmente quem o escolhe publicar «são editoras muito literárias». Já este ano esboçou um novo projeto com a editora pública portuguesa, a futura coleção Europa, e inaugurou, na Bertrand Editora, a série Mitologias com o título A-Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, «a primeira publicação ligada a uma inquietação minha», conta-nos. E nós, claro, quisemos saber qual é…




CLUBE DE LEITORES DA IMPRENSA NACIONAL

1.ª edição: Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa
Orientador: Gonçalo M. Tavares
Sessões: de outubro 2017 a julho 2018 (1 por mês)
Horário: 18:30 às 20:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)

Estão abertas as inscrições. Ver aqui o Programa e o Regulamento.

A leitura é só o início. Será um clube de leitores reflexivo. Há uma ideia importante que é a de não falarmos apenas de literatura. A literatura não é uma espécie de arte que está num túnel ao lado de outros túneis. Não existe o túnel da literatura, o túnel do teatro, o túnel do cinema… Não são túneis paralelos e que não se tocam! É precisamente o contrário. Estas artes estão todas no mesmo mundo e tocam-se. O ponto de partida deste clube de leitores será um determinado livro mas passaremos por muitos livros e por outras artes.
Gonçalo M. Tavares

Já a partir do início de outubro próximo, a centenária Biblioteca da Imprensa Nacional, em Lisboa, voltará a ser povoada pelos nossos autores clássicos, os livros de sempre, as leituras comuns e os debates esclarecedores (ou, talvez, inquietantes)…

«Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa» é a proposta temática para este que é o primeiro clube de leitores dinamizado pela Imprensa Nacional e pelo leitor (e também escritor) Gonçalo M. Tavares, que coordenará as sessões.

De Gil Vicente a Nemésio, passando por Camões, Pessoa e Sá Carneiro; de Cesário Verde a Almada, sem esquecer o Padre António Vieira, Régio ou Eça. As sessões tocarão temas tão díspares como universais: a morte, o amor, a linguagem, as utopias, a arte, a beleza, a loucura, o poder, a imaginação, a identidade, entre outros...

O Clube de Leitores reunirá mensalmente, num total de 10 sessões (entre outubro 2017 a julho de 2018). As sessões serão totalmente gratuitas, e destinam-se a todos aqueles que gostam de ler e, sobretudo, a todos aqueles que gostam de conversar sobre aquilo que leram, que estão a ler ou que tencionam vir a ler.

Esta é mais uma iniciativa da Imprensa Nacional-Casa da Moeda que pretende ir ao encontro do seu desígnio de sempre, numa missão maior de serviço público: promover a leitura, reavivar os clássicos, suscitar reflexões, fomentar debates.

Promete, a rentrée literária da editora pública! E sempre na melhor das companhias: a dos nossos escritores!

Veja aqui como pode candidatar-se.


TPR


CLUBE DE LEITORES DA IMPRENSA NACIONAL
1.ª edição: 2017/2018
Programa: Leituras e Temas Clássicos da Literatura Portuguesa
Orientação: Gonçalo M. Tavares
Organização: INCM
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Periodicidade: mensal
Horário: quintas-feiras, 18:30 - 20:00 h

O Clube de Leitores da Imprensa Nacional é uma iniciativa da editora pública e do escritor Gonçalo M. Tavares.
A 1.ª edição do Clube de Leitores da Imprensa Nacional desenvolverá as suas sessões, totalmente gratuitas, entre outubro de 2017 e julho de 2018, num total de dez (10) sessões.

1. Objetivos:
  • Debate sobre as obras proposta por Gonçalo M. Tavares;
  • Partilha de conhecimentos, reflexões e inquietações a partir de uma experiência de leitura;
  • Reavivar a leitura das obras e dos autores clássicos e trazê-los para o debate contemporâneo.
2. Público-alvo:
  • O Clube de Leitores da Imprensa Nacional destina-se sobretudo a pessoas que gostem de ler e que não encarem a leitura apenas como um processo de distração ou de puro passatempo. Este clube não se destina a especialistas de livros. Destina-se àqueles que veem o livro como o início de uma boa conversa.
3. Funcionamento:
  • Todas as sessões terão como ponto de partida a leitura de clássicos da Literatura Portuguesa;
  • O mesmo livro suscita quase sempre diferentes interpretações e vivências por isso para cada sessão haverá um livro, um autor e um tema — que servirá de tópico para discussão.
  • Na sessão, além da leitura em voz alta de excertos do livro, haverá um diálogo sobre o livro proposto bem como sobre outros livros com temas próximos.
  • O clube funcionará através de sessões presenciais.
  • O clube reunirá com uma periodicidade mensal.
  • Cada participante lerá o livro indicado para cada mês.
  • Todas as sessões serão orientadas/dinamizadas por Gonçalo M. Tavares.
4. Local de funcionamento
  • As sessões decorrerão na Biblioteca da Imprensa Nacional sita na Rua da Escola Politécnica n.º 135 em Lisboa (entre o Largo do Rato e o Jardim do Príncipe Real).
  • Como chegar: Autocarro: 773 e 758; Metro: Rato; Coordenadas GPS: N 38º 43' 4.45" W 9º 9' 6.62" 
5. Calendário das sessões
  • A agenda das sessões será definida pelo orientador do clube juntamente com os seus membros, com início previsto para outubro de 2017.
  • As sessões do Clube de Leitores da Imprensa Nacional ocorrerão uma vez por mês, sempre num dia útil (quinta-feira), ao final da tarde, entre as 18:30 e as 20:00 horas.
6. Admissão
  • O número de participantes será limitado a 15 (quinze);
  • Para participar no Clube de Leitores da Imprensa Nacional Casa da Moeda os interessados deverão enviar um pequeno texto explicativo (cerca de 1200 caracteres em formato Word) do seu percurso académico e profissional e a motivação que os leva a querer participar no Clube de Leitores da Imprensa Nacional.
  • O critério de selecção dos participantes será efectuado com base no texto de motivação enviado. Os candidatos deverão ainda disponibilizar as seguintes informações:
  1. Nome completo
  2. Data de Nascimento
  3. Profissão
  4. Contacto email
  5. Contacto telefónico
  • As candidaturas deverão ser enviadas para o email: clube.leitores@incm.pt
  • A seleção dos participantes ficará a cargo da Imprensa Nacional Casa da Moeda e será comunicada para o endereço email e /ou telefónico facultado pelos participantes.
  • Todas as informações adicionais deverão ser solicitadas por escrito para o email: clube.leitores@incm.pt
7. Programa
  • Sessão 1 – Sobre a morte
    Gil Vicente – Auto da Barca do Inferno
  • Sessão 2 – Sobre o amor e o desejo
    Camões – Os Lusíadas (canto IX)
  • Sessão 3 – Sobre a linguagem
    Padre António Vieira – Sermões (Sermão aos peixes)
  • Sessão 4 – Sobre as utopias
    Eça de Queirós – O Mandarim
  • Sessão 5 – Sobre a técnica e a cidade
    Cesário Verde – O Livro de Cesário Verde
  • Sessão 6 – Sobre a arte
    Almada Negreiros – Manifestos
  • Sessão 7 – Sobre a loucura e a racionalidade
    Mário de Sá Carneiro - A Loucura
  • Sessão 8 – Sobre a doença e a beleza
    José Régio - O Príncipe com Orelhas de Burro
  • Sessão 9 – Sobre o poder e a imaginação
    Vitorino Nemésio – Poesia
  • Sessão 10 – Sobre a identidade
    Fernando Pessoa – Livro do Desassossego
8. Disposições finais
  • Os membros do Clube devem respeitar-se mutuamente e cumprir as regras básicas de boa convivência, caso não o façam reserva-se o direito à Imprensa Nacional — Casa da Moeda de anular a sua participação.
  • A não comparência, sem aviso prévio, a duas (2) ou mais sessões consecutivas, reserva-se o direito à Imprensa Nacional — Casa da Moeda de anular a sua participação e de substituir o participante.
  • Somente serão consideradas as inscrições que estiverem em conformidade com as normas estabelecidas neste Regulamento.
  • Ser membro do Clube de Leitura da Imprensa Nacional pressupõe a aceitação e cumprimento dos termos propostos no presente Regulamento.

* Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Desde 2001 publicou livros em diferentes géneros literários e está a ser traduzido em mais de 50 países. Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no estrangeiro. Como Aprender a rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meuilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Orhan Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Elias Canetti, entre outros. Alguns outros prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi também por diferentes vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. Uma Viagem à Índia recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas, curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, vídeos de arte, ópera, performances, projetos de arquitetura, teses académicas, etc. Já em 2017 publicou A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, pela Bertrand Editora.

SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS GLOBAIS
Sessão II: «Um Ensaio sobre o Mundo Contemporâneo na Perspetiva Crítica de Gonçalo M. Tavares»
Oradora: Lilian Jacoto
Organização: INCM | UAb | CIDH | FCT | CLEPLUL | APCA | IAC
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Data: terça-feira - 29 de NOVEMBRO
Horário: 18:00 h
Entrada gratuita limitada à capacidade da sala.




Lilian Jacoto, desde 1998 é professora na Universidade de São Paulo (Brasil).
Especializada em de Literatura Portuguesa moderna e contemporânea e suas relações com a Ética.

Investigadora do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa), onde desenvolve um projeto de pós-­Doc sobre as comunidades fictícias de Fernando Pessoa, Maria
Gabriela Llansol e Gonçalo M. Tavares.


Coordenadora do Laboratório de Estudos de Poéticas e Ética na Modernidade, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.


Coordena também o Núcleo de Estudos de Literaturas de Língua Portuguesa e Ética na mesma Universidade.

«Chamava‑se meu pai, segundo solene depoimento de minha mãe na hora da sua contrita morte, Pai Francisco Fagundes, homem limpo, de cor preta, caiador de ofício, morador em Lisboa, residente de dia a um canto do Rossio, de noute pelas vizinhanças da Ribeira Velha. Alguns disseram que também de noute variava não só a residência porém o ofício mesmo de meu pai, e que se de dia caiava com pote branco, à noute despejava pote de outra cor. Más‑línguas e invejosos que todo o ofício os tem e de que a história imparcial não deve tomar *partido. Eu a quem negou fortuna de conhecer nem um nem outro de meus honrados progenitores devo dar inteira fé a meu tio o Reverendo Padre Mestre Frei António da Apresentação de quem sei quanto deles conheço e a quem devo segunda vida pela educação e *ensino que me deu. Mas não anticipemos dados. Lá chegaremos breve.

Sucedeu que estando um dia meu pai na referida esquina do Rossio armado de seu pote e pincel com bom provimento de *caios e demais petrechos, o chamou um *lacaíto, dos que naqueles tempos chamavam andarilhos, que fosse à rua de *** n.º 34 onde precisavam de seu mister. Voou Pai Francisco ao n.º 34 da rua indicada e se achou intrando pelo espaçoso portão de um mais que mediano palacete, onde, recebido por uma rechonchuda matronaça que tinha toda a traça de lavadeira ou esfregadeira de casas, se pôs de caminho à obra designada que era se bem me lembro o caiamento de uma vasta cozinha e longo corredor. Entravam ainda *trastes para a casa, e o novo inquilino ou proprietário tinha de entrar aquele ou um dos dias seguintes.

Era o senhor meu pai de preta e caiada memória muito inclinado à ternura, e tinha segundo memória *minha, para os requebros d’amor, aqueles quindins e incidentes que para aquém de Lisboa se não aprendem e que d’aquém e d’além tanto avalia(10) o belo sexo assim como o nosso nele aprecia. E assim por sua natural inclinação como animado por antecedentes bonnes fortunes, entrado o temos logo de conversa com a rechonchuda esfregadeira cujas grosseiras mas substanciais e sólidas formas tinham já titilado com a ingénita propensão de Pai Francisco. — Longo não foi o assédio da praça ou porque não fosse ela difícil de entrar, ou porque realmente em Pai Francisco houvesse o irresistível feitiço de que o diziam dotado. Mas o caso e verdade são que ao cabo de meia hora dum lado jazia ele com troféu, pincel, escada e pote, do outro nadavam dispersos sobre *escuma d’água suja, escovas e alguidares, esfregões, bassouras, … e a ponderosa massa dos enxovalhados incantos da esfregadeira caíra nos braços d’évano (ou de pau santo) do novo Cipião africano.

Nesta atitude nada equívoca se achava o galante par, quando ao som de algumas vozes (porventura e decerto deles não ouvidas) se abriu a porta da cozinha, e precedido por uma espécie de mordomo entrava ao mesmo tempo um cavalheiro de mediana estatura e idade, ricamente vestido, porém de mal airoso porte, dando o braço a uma dama mais gorda que magra, mais baixa que alta,(11) e mais bonita que feia, custosa e primorosamente ataviada, olhos grandes, mas míopes e *quase em todo seu ar e ademã ressumbrava não sei que despejo e desgarre que mal se casava com tanto luxo e grandeza; ou antes mui bem lhe ficava pois já grandeza e modéstia se desavieram de andar juntas.

Imagine o leitor, se de imaginar é o caso, os gestos de admiração, de riso, de vergonha, de enleio e de confusão que nos atores, e espetadores dela(12) tão cómica cena excitou. O mordomo balbuciava imprecações e ameaças, o cavalheiro esfregava a testa e arqueiava os sobrolhos, a criadage sorria às furtadelas, a lavadeira *fregona arranjava os desalinhavados trapos,(13) e a fidalga, como inalterável no meio de tudo isto, observava com sua pendente luneta a meio rosto Pai Francisco que atordoado e perdido nem acertava a encobrir sua indecente desnudez, antes (e a fidalga sempre observando) se descompunha cada vez mais.

— ‘Com permissão de Vossa Senhoria’ rompeu o mordomo alfim — ‘forte desaforo! — vou castigar estes marotos. Canalha nesta casa! há desacato assim!’

— ‘Deixe estar’ — disse o fidalgo, ‘eu farei presente, e veremos …’

— ‘Senhor’, clamou a desgraçada deitando‑se aos pés do cavalheiro, ‘Senhor, tenha Vossa [Senhoria] dó da minha miséria …’

— ‘Pode ser, veremos, subirá por consulta; fale com o oficial do gabinete, eu não sei dessas cousas. Vá, vá com Deus, filha, os negócios amontoam‑se, falta‑me o tempo: que serviço, que trabalheira. Tomara‑me eu ver livre disto! Amanhã peço a minha demissão. É aquele intrigante do marquês que me quer perder, que me quer arruinar, que tudo revolve para me tirar a pasta! Nada nada; não tenho mais tempo: José Domingos(14) aqui não se aventura. Adeus Prima… não posso, não posso perder mais tempo…’ E larga o braço da dama, e sai a gritar pela *sege e pelos criados que o seguem perdidos ainda com riso, e mordendo *os beiços para não desandar à carcalhada.»


LEGENDA:
/*/ — leituras duvidosas ou conjeturadas
(10) tanto avalia] tanto <aprecia>
(11) alta, e mais bonita que feia] alta, ↑e mais bonita que feia↑
(12) espetadores dela] espetadores <de tal cena> ↑dela↑
(13) trapos, e a] trapos, <Pai Francisco> e a
(14) José Domingos] José <Firmino> <Luís>

Almeida Garrett, «Memórias de João Coradinho», 
in Fragmentos Romanescos, coleção Edição Crítica, 
Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015



Obras de e sobre Vergílio Ferreira publicadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda


No dia em que Vergílio Ferreira faria 100 anos, e em que se iniciam as comemorações do seu centenário, recuperamos alguns excertos do texto «Defesa da Língua», com o qual contribuiu, a pedido de Vasco Graça Moura, para a coletânea Estão a Assassinar o Português, publicada pela editora pública em 1983, reunindo depoimentos de 17 autores «acerca da sua experiência de escritor[es] preocupado[s] com a principal ferramenta do ofício, a língua em que se exprime[m].».


DEFESA DA LÍNGUA
 
«Defender a língua é, de um modo geral, uma tarefa ambígua e até certo ponto inútil. Mas também é quase inútil e ambíguo dar conselhos aos jovens de uma perspectiva adulta e no entanto todo o adulto cumpre o que julga ser de seu dever. (...) no que se refere à língua o choque ou oposição situam-se normalmente na linha divisória do novo e do antigo. Mas fixar no antigo a norma para o actual obrigaria esse antigo (...) a recorrer a um mais antigo até ao limite das origens da língua. (...) Que se imagine um bom caturra do século XXIII em face de uma transgressão de hoje que o uso venha a consagrar. Naturalmente a valorizaria justamente pela consagração de tal uso, emendando por ela as transgressões de então. Assim a própria língua, como ser vivo que é, decidirá do que lhe importa assimilar ou recusar. Porque a inúmeros giros de frase e vocábulos a língua mastiga-os e deita-os fora. E a outros absorve-os e integra-os no seu modo de ser. (...) Hoje que a facilidade de comunicação é total, compreendemos como é inglório o combate contra a infecção. Ela é menos, aliás, também por isso, uma fatalidade que se sofre do que um cosmopolitismo que se procura. (...) A língua viva, como o jovem, realiza-se no equilíbrio ou no confronto de duas forças que o dinamizam — a da regra e a da infracção. Há casos em que o erro é evidente e assim quem nele persiste é excluído do convívio geral. (...) E todavia, algo de fascinante (direi de «útil»?) há, apesar de tudo, nessa marginalidade. Ela faz-nos ao menos propedeuticamente relativizar o que pressupomos como absoluto, ela apela para a transgressão que é uma voz audível no marasmo e na rotina, ela compõe a diversificação humana, ampliando-lhe o espectro da sua realidade. E só quando o crime a limite nós a recusamos drasticamente. (…)

Toda a língua tem o seu código próprio que é genericamente inviolável. Esse é o que na escola se procura ensinar e preservar. (…) os limites extremos desse código são de um modo geral intransponíveis. E toda a disciplina da língua tem aí a sua razão de ser. Não podemos todavia esquecer que além de um código uma língua é de si uma matéria «plástica» como o sabem os «estilistas» e nós com eles. Há uma «norma» e mil «desvios» possíveis. Saber, todavia, em que media esses desvios podem ou não tocar os limites do código, só o próprio artista o sabe — e nós com ele, se o seu desvio nos atingiu. Eça de Queirós é o exemplo conhecido do artista que infringiu certas normas da língua mas que com essas infracções, ou apesar delas, conseguiu efeitos estéticos profundamente inovadores. De todo o modo, incomodando os puristas da língua, Eça não transpôs nunca os limites do código. Mas e se um artista os transpusesse? Se com essa transposição ele criasse também efeitos estéticos? Se eles se tornassem impressivos para nós a tal ponto que só numa análise minuciosa nos déssemos conta da transgressão? Porque enfim todo o artista é em potência um assassino da língua para que ela viva mais forte; como na palavra evangélica só perdendo a alma nós a podemos salvar.

(…) Assim entendemos que o tratamento plástico da linguagem codificada não implica o desconhecimento do código mas sim a tentativa da sua superação. Como um pintor começa normalmente pelo desenho académico, pelo código de uma pintura «clássica» (e assim sabemos como facilmente ele retorna a esse desenho, se o desejar) também o escritor que pretenda sublimar ou violentar o código de uma língua sabe como se escreve adentro das regras estritas desse código e o pode provar — e o prova — numa simples carta ou exposição «normal» que escreva ou realize.

(…) Assim as relações com uma língua são múltiplas e várias e o problema da sua «defesa» difícil de solucionar. Fácil é, todavia, opor a isto — que é uma questão de criatividade artística — o uso fácil e medíocre de fórmulas, vocábulos, giros de frases que têm que ver, (…) não com uma reacção activa, mas com uma total passividade e falta de dignidade na afirmação do que é nosso, ou seja do que é nós. Vale-nos que a própria língua, que é a profundidade de nós próprios, reage normalmente a esse desapossamento ou invasão de elementos intrusos, reafirmando-se a si como individualidade autónoma e implícito orgulho ofendido. E se tais elementos acabam por fixar-se é porque a língua os acabou por reconhecer como úteis ou indispensáveis. Assim a nossa luta será sempre entre a permanência e a renovação, entre o antigo e o novo. E do tempo dessa luta, desejável e necessária, só o tempo, como se disse, ou seja, a própria língua poderá decidir.


Vergílio Ferreira, in Estão a Assassinar o Português,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1983.



por Tânia Pinto Ribeiro

Para Ivo Castro, coordenador da Edição Crítica da obra de Fernando Pessoa, dizer que Pessoa tinha desdobramentos de personalidade é um perfeito disparate de quem não compreende a genialidade do escritor. Uma genialidade que se pressente na densidade da escrita, mesmo quando feita em momentos de cansaço, e que nos obriga a colocar de novos modos a questão do singular e do plural. Se tivesse de escolher um heterónimo preferido, escolheria Ricardo Reis — pela nitidez clássica do seu método. Mas foi o semi-heterónimo Bernardo Soares, pela mão da sua professora de Português, que o introduziu no universo pessoano. Tinha 13 anos e era, na altura, o chefe de uma turma de «galfarros» do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Quase não dá para acreditar, mas diz que também ele se tornou «galfarro», só que mais tarde. Desses tempos até ser nomeado coordenador da Edição Crítica da obra de Fernando Pessoa, na década de 1980, muito se passou. Entre outras coisas, formou-se em Filologia Românica e doutorou-se em Linguística Portuguesa na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ainda é professor. Viveu três anos em Paris — a cidade das tertúlias e dos míticos cafés literários Flore e Les Deux Magots. Empenhou-se para que a Linguística se autonomizasse da Literatura, e viu o penteado dos rapazes mudar quando se começou a ouvir os Beatles em Portugal. Depois, e com a naturalidade das coisas exatas, foi vendo a língua evoluir, com palavras novas a surgir e outras a morrer lentamente. Como «flausina» — a palavra que descrevia as meninas da moda no tempo de Sylvie Vartan, Françoise Hardy ou Brigitte Bardot. O normal, portanto, numa sociedade aberta, como sempre foi a nossa, e numa língua que, mesmo traiçoeira, é falada nos cinco continentes.

Para este professor, linguista e membro do conselho editorial da INCM, traiçoeiro e preocupante é mesmo «o desprezo que a classe dos professores de Literatura tem pelo texto criticamente editado; é acreditar-se na falsificação histórica dos 800 anos da língua portuguesa; é termos uma lusofonia que só serve os outros e não serve Portugal e um Ministério da Educação que não percebe o mal que está a fazer à língua com a política de colocação de docentes». [esta entrevista foi gravada em meados de 2015, muito antes das eleições que alteraram o sistema governativo em Portugal.]
Num registo ora crítico ora muito bem-humorado, a PRELO esteve à conversa com um dos maiores linguistas portugueses da atualidade, mas que não foi capaz de nomear a sua palavra preferida na sua língua materna. Só porque nunca se debruçou sobre o assunto. Mas sabe bem aquela de que não gosta: «pompa», porque a seguir vem sempre «circunstância».


PRELO (P) — Em 1988, foi escolhido para realizar a edição crítica da obra de Fernando Pessoa publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 27 anos volvidos, que balanço faz deste projeto?

IVO CASTRO (IV) — Tantas perguntas numa só! Há algumas imprecisões. Eu fui escolhido como segunda escolha. Quem foi escolhido inicialmente foi a Prof.ª Luciana Stegagno-Picchio, uma professora italiana, uma grande pessoana e uma grande conhecedora da cultura portuguesa, que aceitou e que foi imediatamente objeto de uma barreira de crítica na imprensa Portuguesa. Isto porque a Prof.ª Luciana era uma estrangeira, e este trabalho não podia ser feito por estrangeiros. Era esse o nível de chauvinismo em que se andava, em 1980 e tal, nos meios culturais portugueses. Ao mesmo tempo que era criticada por aceitar dirigir a edição crítica de Pessoa, ela própria tinha percebido que não poderia fazer o trabalho que imprudentemente tinha aceite, sem viver em Portugal. Ela vinha cá mês sim mês não; isso era uma coisa. Outra coisa era ir «viver» para a Biblioteca Nacional. Era isso que os editores tinham que fazer. Ela percebeu que, de facto, a realidade do terreno implicava um trabalho contínuo e muito longo. De certa maneira, até lhe calhou bem estar a ser empurrada para fora. E assim saiu, e não teve de dizer não. E então apareço eu, como segunda escolha.

P — E a quem se ficou a dever a sua escolha?

IC — Essa escolha coube à Dr.ª Teresa Patrício Gouveia, que era na altura Secretária de Estado da Cultura. Foi ela que pôs isto a funcionar. O que há de singular é que este é o único caso que conheço de uma atividade de natureza filológica, portanto literária e científica, que é promovida e financiada pelo governo, e com nomeação publicada em Diário da República.
Mais ou menos ao mesmo tempo — até um pouquinho antes — arrancou a edição critica de Eça de Queirós — que aliás também é publicada na Imprensa Nacional. O estatuto das duas edições distingue-se exatamente nisto: enquanto a edição de Fernando Pessoa é uma edição de iniciativa e nomeação governamental, a edição crítica de Eça de Queirós é uma iniciativa do Prof. Carlos Reis e de um grupo de pessoas que trabalhava com ele, que se candidatou a apoios e recebeu-os. Possivelmente, esses apoios foram mais ou menos do volume dos financiamentos que eu tive, mas a pedido dele e por iniciativa dele. Mas tanto o projeto do Prof. Carlos Reis como o meu projeto foram possíveis numa fase de políticas otimistas da cultura, como o eram — e isto é espantoso de pensar! — nos primeiros anos do governo do Prof. Cavaco Silva. Eram tempos de políticas otimistas. É claro que eram políticas de cultura pensadas pelo António Alçada Baptista e pela Teresa Patrícia Gouveia. E, portanto, não podiam ser más políticas. E resistiram mesmo à passagem da pasta da Cultura para as mãos do Dr. Pedro Santana Lopes que, inteligentemente, manteve as coisas que tinham sido feitas antes, em vez de querer fazer novas. Quis fazer outras: fundir edifícios, fundir instituições… coisas deste género. Mas, neste plano, deu carta-branca para tudo poder continuar. Hoje em dia não seriam possíveis essas políticas. Nem o Governo atual [na altura da entrevista], nem os governos de Sócrates nem, se calhar, os próximos governos terão… [pausa] meios, terão… Não terão a coragem política e a imaginação para promover iniciativas de longo prazo como esta.

P — E que balanço faz deste projeto?

IC — Uma das poucas condições que coloquei à Dr.ª Teresa Gouveia, ao aceitar a nomeação foi: «Darei resultados experimentais muito rapidamente; darei resultados definitivos muito lentamente, sem calendário, mas com certeza entrando no século que vem». E ela disse: «Está a exagerar.» E eu respondi: «Não estou!» E estamos a ver que não estava a exagerar, e que só agora é que estamos a ver o fim do programa que rapidamente elaborámos.
Na altura, fizemos uma opção estratégica que foi a seguinte: vamos publicar a poesia de Pessoa, não nos vamos ocupar da prosa. Identificámos, então, um plano editorial. O plano de títulos que aparece no anterrosto de cada uma das nossas edições foi um grande erro, porque estabeleceu uma sequência, uma numeração de volumes, e um recorte apriorístico dos volumes, antes de conhecermos a realidade completa. E a realidade é constituída pelos papéis que estão Biblioteca Nacional, os papéis e livros que agora estão na Casa Fernando Pessoa, mas ainda se achavam encaixotados, e outros papéis que nós não sabíamos que existiam, com os problemas que eles nos trazem. Provavelmente, teria sido mais inteligente ir publicando à medida que os volumes estivessem prontos, sem um plano pré-estabelecido. É que, assim, estamos há vinte e tal anos a dever o tomo I do volume I. O que não deixa de ser uma maneira má de executar um plano.
Fomos otimistas demais ao assumir compromissos. Não me refiro à aceitação com a Dr.ª Teresa Gouveia, mas ao plano que elaborei inicialmente. Hoje, não teria feito isso. O que teria continuado a fazer, isso sim, é a opção pela poesia, não ligando à prosa. E há razões de fundo para isto. Pessoa era nos anos 80 muito mais conhecido como poeta, evidentemente, do que como prosador. Havia as edições do Livro do Desassossego, havia escritos filosóficos, e coisas assim do género. Não havia um conhecimento muito claro da prosa dele. O conhecimento que nós tínhamos da sua prosa era constituído por fragmentos dispersos, que não começavam nem acabavam, e que se podiam organizar em obras de vários contornos, como depois aconteceu. Foram materiais desses, aliás, que foram usados pelos mais recentes editores do Livro do Desassossego para inchar, e inchar, e inchar o volume com pedaços de prosa interessantes, pertinentes ou não.

P — O próprio Livro do Desassossego, como o conhecemos, foi editado apenas nos anos 80, correto?

IC — Houve fragmentos publicados em 1960 pela Maria Aliete Galhoz na obra poética da Aguilar, e depois a 1.ª edição foi da Ática, dirigida por Jacinto Prado Coelho, que teve como colaboradoras a Maria Aliete Galhoz e a Teresa Sobral Cunha. Foi publicada em 1982.

P — Porque não se interessaram inicialmente pela prosa de Pessoa?

IC — Nós não nos interessámos inicialmente pela prosa porque achámos que era um continente bastante difuso, cujos principais problemas editoriais eram ler, decifrar os papéis e, depois, saber onde eles se encaixavam. Ao passo que a poesia era um território muito rico de documentação controversa, que era preciso sistematizar, e com muitas propostas de solução também controversas. Era um terreno que, do ponto de vista do método, e até do ponto de vista da teoria, era fascinante de admirar. Aí é que estavam as reais dificuldades da edição de Pessoa.
E continuo exatamente a pensar o mesmo. Foi por isso que nós decidimos atacar a poesia. Só por vontade do Conselho Editorial da Imprensa Nacional é que, na década seguinte, comecei a pensar em publicar a prosa. Por um lado, os livros de poesia que se podia ter realizado em alguns anos estavam realizados, e os livros difíceis de poesia que demoraram muito mais anos a fazer estavam exatamente a demorar esses muitos mais anos a fazer. Um deles foi o Caeiro, que nós publicamos em março de 2015.

P — Fale-nos um pouco desta obra?

IC — O manuscrito principal da obra de Caeiro é um manuscrito d’«O guardador de rebanhos», cujo caráter especial foi percebido, ainda em vida de Pessoa, por um parente e colaborador dele chamado Eduardo Freitas da Costa, que na altura da morte do Pessoa se achou em posição de ficar na posse desse manuscrito. Trata-se, portanto, de um manuscrito que nunca esteve no Espólio, nunca esteve na arca, nem em vida do Pessoa. É um caderno de aspeto «bronzeado» nas últimas folhas, porque esteve exposto à luz, virado para baixo, pousado em cima de mesas e de cómodas. Nunca foi à arca. Eduardo Freitas da Costa guardou o manuscrito e depois, não sei muito bem como, foi transitando de mãos em mãos, muito provavelmente como um bem transacionável de luxo — já havia consciência disso — até que foi parar às mãos da família Sousa Machado, de Lisboa. E foi por intermédio de pessoas dessa família que tive conhecimento dele e o pude estudar com vagar. Tive assim a sorte de conseguir uma pequena descoberta. Quando peguei nele pela primeira vez, pensei: aqui está a prova de que é verdade o que Fernando Pessoa disse a Adolfo Casais Monteiro na famosa carta da génese dos heterónimos, sobre o caderno de 30 e tal poemas que tinha escrito. Demorei uns dias, talvez semanas, talvez meses, a perceber que isso não batia certo.

P — Porquê?

IC — Não batia certo porque não se encontrava, em dimensão, um corte que correspondesse àqueles safo, no sentido de «tendo concluído a viagem» ou «tendo chegado a porto seguro», ou ainda «estando em terra»). Ora, o caderno está coberto de uma escrita inicial muito cuidadosa e caligráfica, que à primeira vista poderia parecer «limpa e safa» se isso não entrasse em contradição com os seus hábitos de criar os textos com uma escrita rápida, inspirada e pouco legível; esta escrita é típica de passagem a limpo, e não de criação inicial de textos, especialmente nas circunstâncias descritas na carta de Casais Monteiro. Depois disto, o poeta parece ter deixado de gostar do que tinha feito. E fez emendas sobre emendas, sobre emendas… Há páginas em que encontramos um verso modificado nove e dez vezes, utilizando materiais de escrita diversificadíssimos. Ou seja, o manuscrito, depois de ter sido construído cautelosamente em várias sessões, talvez uma dúzia de sessões de escrita, foi quase totalmente posto em causa e passou anos e anos a ser repensado e reescrito. Nada disto bate certo com a ideia de o «Guardador» ter sido criado por meio de um ato de escrita inspirada, muito rápida e muito definitiva. A evidência física é exatamente prova do contrário: este manuscrito, na sua nitidez caligráfica, deriva de rascunhos anteriores, os rascunhos da Biblioteca Nacional que então eu ainda não conhecia; as camadas de emendas posteriormente sobrepostas desmentem que os poemas tivessem nascido prontos.


30 e tal poemas. Além disso, havia mudanças físicas (na tinta, na caneta, na letra) que apareciam a intervalos muito mais curtos e irregulares, sugerindo que o manuscrito fora escrito em diversos momentos separados. Não havia um ponto em que se dissesse: «Ora cá está, naquele primeiro dia ele escreveu até aqui, e o resto foi feito a seguir». Por outro lado, Pessoa disse que os poemas do «Guardador» tinham nascido perfeitos e acabados; a sua expressão é «limpos e safos» (

P — Fernando Pessoa chegou ao pormenor de atribuir caligrafias distintas aos vários heterónimos?

IC — Não. Fernando Pessoa tinha várias caligrafias, dependendo da caneta ou lápis que estava a usar. Uns permitiam uma escrita mais miúda; outros não. A caligrafia dependia também da disposição com que estava. Há manuscritos que estão datados não com o dia mas com a hora; e há manuscritos que estão datados das 3 ou 4 horas da manhã. Talvez por isso, são dos mais difíceis de ler...

P — Como é que caracteriza a escrita de Alberto Caeiro, que, segundo o seu criador, morreu há precisamente 100 anos?

https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=102763IC — Pegando na sua pergunta, é uma escrita que tem prolongamento no túmulo. Porque, tendo ele morrido oficialmente em 1915, o seu penúltimo poema está datado de 1922, e o epitáfio de quando morreu está datado de 1923. É uma escrita para lá do túmulo.
Não lhe posso responder à pergunta de como ele eterniza a escrita de Alberto Caeiro, mas digo porquê. Vejo o trabalho do editor crítico — que é aquilo que eu sou — como sendo a pessoa que reúne, etiqueta e dispõe os dados para serem analisados pelos críticos literários, pelas pessoas que podem introduzir caracterizações várias (de gosto, estéticas e de valorização) que eu não poderia fazer. Aliás, há caracterizações da escrita de Pessoa feitas de forma genial por muitos críticos. Nem me apetece entrar em discordância com alguns deles, nem acho que tenha algo a acrescentar ao que eles já disseram. Eles é que terão alguma coisa a acrescentar ao que já disseram, com base naquilo que a edição crítica fornece. O que me sinto à vontade para dizer é apenas isto: a escrita dos poemas de Caeiro é caracterizada de modo geral por ser uma escrita fluente e corrida, seguida por inúmeras alterações pontuais, mas principalmente caracterizada por certos saltos, se quiser saltos paradigmáticos, bastante frequentes, que ocorrem quando um poema, uma vez escrito, é mantido intacto até que os seus últimos versos se veem repetidamente bombardeados com alterações profundas da estrutura, que afetam o significado total do poema. Mudanças terminais deste género acontecem com muita frequência em Caeiro e são uma característica não da escrita, mas da sua reescrita. E isto leva a uma pergunta a que não sei responder.

P — Que é: quando foram inicialmente escritos aqueles poemas e quando foram reescritos?

IC — Aí dispomos de um calendário de cronologia relativa, com o qual conseguimos trabalhar quase sempre. O que não sabemos é isto: quando foi inicialmente escrito o poema, e como foi ele escrito inicialmente — como sendo de Caeiro ou como sendo de Pessoa? Ou seja, a escrita dos poemas de Caeiro precede a sua autoria, a sua atribuição ao heterónimo, ou foi o contrário que aconteceu? Em muitos manuscritos iniciais — os rascunhos em papéis soltos de muitas naturezas diferentes, de escrita, essa sim, improvisada, com coisas que caracterizam uma escrita não planeada — não encontramos atribuições claras de autoria, como se ainda não soubessem quem os escrevia.
Aliás, qualquer pessoa pode comprovar isto. Os manuscritos de Caeiro estão integralmente disponíveis on line no site da Biblioteca Nacional. Os rascunhos são de naturezas díspares, e contêm coisas muito engraçadas. Por exemplo, o poema IX e o poema VIII, que é o maior de todos, ocupam uma infinidade de papéis pequenos. O que significa que quando Pessoa — ou, se se quiser, Caeiro — começou a escrever aqueles poemas não sabia que ia escrever todos aqueles versos. Tanto que usou um papel pequeno e, depois, o poema foi crescendo como que por vontade própria. Teve, então, de passar para um segundo papel, julgando que chegava, e depois para um terceiro, e para um quarto, e por aí fora… Isto, sim, é escrita improvisada.
Quando vemos uma coisa destas, pensamos: antes disto não há nada; o poema nasceu aqui, nasceu nestas páginas. Hoje, somos testemunhas de como o escritor foi, de certa maneira, ele próprio testemunha do nascimento do heterónimo. Mas que escritor era essa testemunha? O escritor Pessoa, ortónimo, ou Caeiro? As marcas que hoje reconhecemos, essas marcas só mais tarde foram atribuídas a poemas que antes não eram de Alberto Caeiro, mas, por defeito, do ortónimo.

P — E a quem coube essa decisão?

IC — Coube a Fernando Pessoa. Foi o próprio que decidiu, mas mais tarde, à medida que foi crescendo uma parte do «Guardador». E só aí é que conseguimos encontrar um vislumbre de semelhança com o que ele diz na carta a Casais Monteiro.
Há um núcleo de 20 a 30 poemas que parece ter nascido desta forma, que devem ter sido passados a limpo muitas vezes, muito perto do período inicial de criação — a Primavera de 1914. Mas quando começam essas passagens a limpo, ainda não tinham sido escritos os poemas da metade final do ciclo. Faltavam uns 20 poemas, que já são escritos como sendo de Caeiro. E para entrarem num barco que, de certa maneira, já navegava. São feitos para completar o ciclo.

P — A Edição Crítica de Fernando Pessoa foi o seu primeiro trabalho para a editora pública?


IC — Não. Se bem me lembro, o primeiro trabalho que fiz para a Imprensa Nacional foi um parecer sobre um projeto de edição. Na altura, o Dr. Vasco Graça Moura pediu-me que visse se esse projeto tinha pernas para andar. Tratava-se da lírica de Camões editada pelo professor brasileiro, Leodegário de Azevedo Filho, já falecido. São seis ou sete volumes. O Dr. Graça Moura achava que era muito livro. Limitei-me a examiná-los, a dar um parecer favorável, e a edição foi feita. Depois, tive uma encomenda, que está realizada, ainda com o Dr. Vasco Graça Moura, no tempo em que no Conselho Editorial estava Maria de Lourdes Belchior propôs que a Imprensa Nacional publicasse uma nova edição da Fénix Renascida, uma coletânea de poesia barroca que teve duas edições no século XVIII e depois nunca mais foi publicada. Nos princípios dos anos 90, no tempo do Dr. Diogo Pires Aurélio, fui convidado a abrir uma coleção de linguística e filologia, designada Filologia Portuguesa, e compreendeu uma dezena de títulos.

P — Como é que chegou a/descobriu Fernando Pessoa?

IC — Aos treze anos de idade, eu era aluno no Liceu Pedro Nunes e tinha como professora de português a Dr.ª Maria Aliete Galhoz. Ela era e sempre foi uma pessoa muito tímida, e tinha medo da turma de «galfarros» que nós éramos. Eu era o chefe da turma. Tornei-me «galfarro» mais tarde. Nessa altura eu e ela conversávamos bastante. E certo dia convidou-me para ir a sua casa para ver os livros que lá tinha, e dentro de uma pasta que tinha em cima de uma mesinha da marquise — morava na Avenida de Madrid, na altura — mostrou-me uns papéis batidos à máquina e perguntou-me: «Sabes o que isto é?» Claro que eu não sabia. «Isto são manuscritos do Fernando Pessoa». E eu fiquei mais ou menos na mesma.

https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=101918P — E que manuscritos eram esses?

IC — Era o Desassossego. Ela estava a tentar encontrar a ordem dos papéis do Desassossego, a preparar o caminho para uma edição, que tinha sido encomendada pela Ática ao Jorge de Sena, que estava emigrado. Estava numa situação mais ou menos idêntica à da Professora Luciana Stegagno-Picchio de quem falámos há pouco. Ele disse: «Os papéis estão aí e eu estou aqui nos Estados Unidos da América, portanto, preciso de alguém aí que me prepare os papéis para depois eu editar.» Ou seja: «que edite, para depois eu assinar.» E indicou o nome da Maria Aliete Galhoz. Portanto, a Maria Aliete Galhoz estava a preparar uma edição para ser assumida pelo Jorge de Sena. Não sei por que razão isto depois não avançou, e o trabalho que ela fez levou o Dr. Jacinto do Prado Coelho, então sim, a promover a primeira edição do Livro do Desassossego, em que a Maria Aliete Galhoz foi a principal colaboradora. Resumindo, foi aos treze anos que descobri Fernando Pessoa, mas longe de pensar que mais tarde iria trabalhar sobre ele.

P — Conhecem-se, pelo menos, duas traduções diferentes para francês do Livro do Desassossego: Livre de l'Intranquillité (Françoise Laye, 1991) e Livre de l'Inquiétude (Inês Oseki-Depré, 1987). Pelo menos em relação ao título, para si, qual é a tradução mais bem conseguida e porquê? «Intranquilidade» ou «inquietude»?

IC — Intranquilidade. Porque tanto em português como em francês a palavra «inquietude» traduz um estado de preocupação por algo que está para acontecer. Nós não temos inquietude com o passado, que já está feito. A «intranquilidade» corresponde mais a uma posição. Tem a ver com uma posição de não estar bem. Não estar bem, onde. Não estar bem, como. Não estar bem, com.

P — Aproveitando-me, agora, da tradução da obra pessoana para italiano — Una sola moltitudine — pergunto-lhe: Fernando Pessoa vivia entre a multidão, muito só, ou as duas coisas ao mesmo tempo?

IC — Que vivia muito só, sem dúvida nenhuma. Entendo essa tradução como «uma multidão solitária». Ou seja, estar sozinho no meio da multidão. Fernando Pessoa é um autor que nos obriga a colocar, de modos novos, a questão do singular e do plural. Mas, repare, na nossa cultura judaico-cristã nós estamos preparados para isso. É a ideia da Trindade. É uma pessoa ou são três? No caso de Pessoa, ele fabricou um políptico à sua imagem.

P — O que mais admira na obra de Fernando Pessoa?

IC — A densidade que se pressente na escrita feita nos momentos de cansaço, quando não há nenhum desejo de impressionar, surpreender, ocultar a realidade. Há papéis que se percebe que foram escritos em momentos desses, em momentos um pouco distraídos. A qualidade da voz aí é bastante grave. E, muitas vezes, são secções de texto que, uma vez escritas, nunca mais foram reescritas.
https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=102780
P — Tem algum heterónimo preferido?

IC — [Ricardo] Reis.

P — E porquê?

IC — Gosto da nitidez clássica do método de Reis.

P — Qual o maior disparate que já ouviu dizer ou leu sobre Fernando Pessoa e a sua obra?

IC — É difícil escolher, dada a diversidade. Se não se importa, eu respondo-lhe não mencionando nenhum dos muitos, mas mencionando um tipo de disparate. Um disparate coletivo, que está embebido em grupos ou em camadas de pessoas, é o de que se pode ter opiniões sobre a obra de Pessoa — e, antes disso, se pode compreender a obra de Pessoa, — sem ter o cuidado de usar versões que fossem criticamente trabalhadas. Este disparate coletivo é sistematicamente praticado com a maior das frivolidades por uma categoria profissional que dá pelo nome de «professores de literatura». O desprezo que a classe dos professores de literatura tem pelo texto editado criticamente tem como consequência que tudo o que disserem é provisório e será descartado em devido tempo.

P — Cito agora Bernardo Soares: «Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente».
Esta frase tem sido mote da expressão da lusofonia. Acha que a frase é empregue, hoje em dia, de acordo com o que Fernando Pessoa queria dizer com ela?

IC — Os aproveitamentos políticos da frase não são da responsabilidade de Pessoa. Na obra dele, faz sentido de vários modos. De facto, «pátria» é aqui a casa do ser, é um dos aspetos em que, não tendo tido tempo para ler muita da filosofia alemã do tempo dele — onde encontramos preocupações de Heidegger e Wittgenstein — ele, de certa maneira, corporiza-a.
Pessa refere-se à língua como «o lugar onde se está e onde se vive» e chama a isso «pátria». Sente-se muito isso nos tais momentos de distração. E esta afirmação é muito pessoana também por outro motivo: é um paradoxo que se autodestrói. Pessoa deve ter escrito mais em inglês do que em português. Pessoa pensava em inglês. Nos textos que escreve em português, as anotações que faz na revisão são muitas vezes em inglês. Ele falava consigo próprio em inglês. Quando ele diz que «a pátria» dele é a «língua portuguesa» — sim, é o que ele diz e, sim, é o que ele, em certas ocasiões, por vezes sente. Mas, por favor! Nós acreditamos tanto nisso como acreditamos que tinha desdobramentos de personalidade. Não tinha! Não há causas naturais para explicar o desdobramento dos heterónimos. Não é uma doença dele, mas sim um artefacto cultural. E isto que ele acaba de dizer é uma frase muito bonita, que por um lado faz todo o sentido, e por outro é uma completa mentira.

P — Em julho deste ano, a escritora Hélia Correia recebeu o Prémio Camões e dedicou-o à Grécia. No seu discurso afirmou: «(…) Na ditadura da economia a palavra é esmagada pelo número.» E acrescentou: «Amo mais a língua portuguesa do que a pátria». Qual é o significado desta afirmação, quando Portugal acaba por passar por uma fase em que as decisões políticas são fortemente condicionadas por agentes externos? Pequena provocação: corremos o perigo de que nos digam que o português não é uma língua rentável?

IC — Há vários problemas dessa natureza. É interessante Hélia Correia dissociar a língua portuguesa da pátria ou de Portugal. Essa dissociação, de certo modo, já está feita a partir do momento em que nós reconhecemos que a língua portuguesa pertence aos cinco continentes. Pertence a várias pátrias. Pátrias feitas e a serem feitas. Há várias pátrias que se podem reclamar desta língua. O que, evidentemente, cria inquietudes interessantes para o futuro: como é que a coisa vai evoluir? Isto, quando se verifica que os vários Estados que formalizam essas várias Nações estão cada vez mais desatentos uns aos outros. No meio dessa desatenção, o Estado português, através das suas autoridades, praticamente não acerta uma. De há vários anos até agora, os governos — e isto não é uma crítica a este governo, é uma crítica aos últimos governos que Portugal tem tido — foram obrigados a abdicar de uma política económica e financeira nacional, mas também foram obrigados a abdicar de uma política externa de promoção e defesa da cultura, e não têm quase instrumentos nenhuns para defender o que nós julgamos serem os símbolos nacionais. Há um momento em que temos de pensar o que devemos salvar das águas: o conceito de pátria ou a língua? Sendo que um e o outro não estão destinados a confundirem-se e a seguirem de mãos dadas durante muito mais tempo.

P — Os portugueses baniram do seu léxico a palavra «esperança»?

IC — Espero que não.



P — Um tradutor traduz uma língua, via escrita; um intérprete fá-lo oralmente. Um professor ensina a língua; um escritor usa a língua para criar a sua obra. O que faz um linguista?

IC — Ensina a língua também, mas a outro nível. O professor de língua ensina a usar a língua. O linguista, antes de a ensinar, tenta sabê-la, tenta perceber como funciona a língua.

P – Mais uma pequena provocação. Atribui-se a Erasmo de Roterdão a afirmação: «Os grandes escritores nunca foram feitos para suportar a lei dos gramáticos, mas sim para impor a sua». Concorda?

IC — Sim, sim! Só há duas categorias de pessoas que têm autorização para mudar a língua de repente. Ou seja, autorização para introduzir pontualmente na língua alterações ao que os gramáticos ensinam. Esses dois tipos de pessoas são: os não-escolarizados, que mudam a língua por baixo, porque dá jeito; e os escritores, que mudam a língua por cima.

P — A via popular e via erudita…

IC — Exatamente! É isso mesmo.

P — Qual a principal distinção entre linguistas, gramáticos e filólogos?

IC — À profissão de gramático está associada a descrição de uma língua em particular ou de um grupo de línguas afins — descrição do seu conteúdo e do seu funcionamento — acompanhado de regras para o ensino e para a prática. Normalmente, para a gramática a grande distinção faz-se entre gramática descritiva e gramática normativa. A gramática normativa indica o que é obrigatório, o que é recomendado, e o que é errado. A gramática descritiva é mais liberal. Aceita que a língua tem erros ao lado de coisas certas. Porque é que aparecem uns ao lado dos outros, é o que interessa saber. A natureza humana é variada. O gramático descritivo é o mais linguista dos dois.
O linguista trata dos mecanismos da língua, dos processos de evolução do pensamento, da história e da linguagem. É o estudioso da língua. Ou seja, o gramático é o médico que está a curar doenças, e o linguista é o médico que estuda a etiologia da doença e as diversas terapêuticas que podem vir a ser aplicadas.

P — O que faz o filólogo?

IC — No quadro de pensamento do romantismo — com dois séculos — um filólogo é isto tudo e é também um professor de literatura, um historiador, um etnólogo, tudo! Todos os ramos do conhecimento que eram materializados nos monumentos — os textos escritos eram monumentos — eram armazenados e preparados (para serem lidos e estudados) por filólogos.

P — E hoje em dia?

IC — Hoje em dia, filólogo é algo muito mais restrito: é um crítico textual que prepara edições para as pessoas lerem.

P — Decerto já lhe aconteceu ouvir esta frase: «A língua portuguesa é muito traiçoeira». Acha que a língua portuguesa é especialmente traiçoeira?

IC — Em alguns aspetos, um bocadinho mais traiçoeira do que outras. Se bem que todas as línguas sejam traiçoeiras para quem não as conhece. Não há maior traição, por exemplo, do que uma pessoa ser levada a usar uma palavra de calão de uma língua que não é a sua, em que não nasceu. Faça o que fizer, sai mal. Não é dito à pessoa certa, não é dito nem com o tom nem no registo correto, não era aquela palavra de calão mas uma outra. Há coisas que nascem connosco e que na nossa língua materna não são nada traiçoeiras e que para os outros são traiçoeiras. Todas as línguas são traiçoeiras.
A língua portuguesa, em cima disso, tem outras dificuldades. Por exemplo, o sistema de formas de tratamento remete, não para uma sociedade hierarquizada em castas, mas para uma sociedade organizada em redutos bastante pequenos de intimidade, respeito, confidencialidade… E os próprios portugueses, cada vez mais, lidam menos bem com estas zonas discretas do convívio. Isto vai traduzir-se no tratamento: os portugueses não sabem utilizar a forma adequada em cada momento, usando tendencialmente formas estereotipadas e que têm por efeito, normalmente, deixar todas as pessoas ofendidas.



P — Há sempre palavras novas a aparecer no dicionário. Em 2010, por exemplo surgiram no Dicionário de Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa palavras como: guetizar, basmati, pluriemprego, googlar, homebanking, sobre-endividamento… entre outras. Da mesma maneira que surgem palavras novas no dicionário, também há outras que desaparecem?

IC — A resposta é sim. Há palavras que caem em desuso e não são mortes súbitas. Há palavras que caem em desuso a pouco e pouco, que continuam a ser usadas na escrita mas que na oralidade ninguém mais usa. Há outras que passam de moda. Eu tenho um amigo que nasceu e viveu em Portugal até aos vinte anos e saiu de cá em 1950 e tal. Ele fala muito bem português, mas continua a usar expressões que mais ninguém usa. Usa, por exemplo, «flausina». Sabe o que é uma flausina? Faz uma ideia do que eram as meninas da moda no tempo da Sylvie Vartan, ou da Françoise Hardy, ou da Brigitte Bardot? Eram as flausinas! Mas isto para dizer que na boca do meu amigo a palavra não morreu. Mas quando ele morrer a palavra desaparece.

P — E há várias assim. Umas duram pouco tempo, como «otelismo»…

IC — «Otelismo» servia para designar os apoiantes do Otelo Saraiva de Carvalho, e durou pouquíssimo tempo. Essas mortes justificam a necessidade de criação de novas palavras.

P — Acha que há demasiados estrangeirismos na língua portuguesa ou que os usamos em excesso? Por exemplo: site para sítio; budget para orçamento…

IC — Não. Nada disso. Há pessoas que são um bocadinho ridículas. São ridículas quando se percebe que estão a usar estrangeirismos para fazer género e não porque é a forma mais rápida de chegar lá. Agora, para que é que haveremos de estar à procura de uma forma castiça, por vezes provinciana, se temos um termo internacional facilmente reconhecido? Numa sociedade aberta como aquela em que vivemos é impossível não haver estrangeirismos.

P — «Outrar-se» (Fernando Pessoa) ou «escreviver» (David Mourão-Ferreira) são palavras que poderão vir a constar do dicionário de língua portuguesa? Porquê?

IC — Se isso acontecesse, perderiam uma parte do encanto e da carga poética que têm. Mas basta que um número de pessoas se lembre de as usar para elas entrarem na língua. Ou seja, a inovação linguística proposta pelo escritor depende sempre do momento em que outros pegam nela.

P — Para Artur Anselmo, presidente do Instituto de Lexicologia do Academia de Ciências, o número de vocábulos utilizados pelos portugueses tem vindo a diminuir de forma preocupante. Concorda?

IC — Assim dito, parece-me simples de mais. Quando foi feito — quer para o francês quer para o português — o levantamento do chamado Francês Fundamental ou Português Fundamental, verificou-se que, em português, cerca de 1700 palavras — entre verbos, substantivos e alguns adjetivos — eram as palavras mais frequentes da língua portuguesa. No francês é mais ou menos a mesma coisa. Dito de outra forma: uma pessoa consegue fazer a sua vida e comunicar com outros usando como base cerca de 1500 palavras muito frequentes, e um ou dois vocabulários especializados, de coisas do seu dia-a-dia e do dia-a-dia da comunidade onde está, ou do seu trabalho. Sendo assim, todos os portugueses têm cerca de 1500 palavras do seu vocabulário comum, e depois têm alguns pequenos dicionários próprios. Nós aqui falamos de manuscritos, de impressões, de edições; outros falarão de serralharia, automóveis, por aí… As pessoas vivem com muito poucas palavras. As pessoas analfabetas vivem sem palavras conhecidas da comunicação social, da literatura, da cultura, etc… Em compensação têm conhecimentos muito ricos de palavras terra-a-terra, da vida quotidiana. Se forem agricultores sabem o nome das plantas todas, dos seus feitios, etc., palavras que nós não conhecemos. Os analfabetos têm outro tipo de cultura. Mas de facto consegue-se viver com um número relativamente parco de palavras.
Afirmações pessimistas desse género talvez sejam feitas a pensar numa outra coisa: os jovens, na medida em que lhes é permitido continuarem alérgicos à leitura, têm fontes de aquisição lexical e de enriquecimento linguístico diminuídos. São jovens não-reeducados, mal-educados. São jovens a quem o sistema de ensino não faz o que devia fazer. Aí, sim, verifica-se um empobrecimento lexical que — atenção! — não significa diminuição comunicativa. Com 20 palavras, e se o seu grupo de interlocutores estiver de acordo consigo e fizer o mesmo, consegue fazer a comunicação de que precisa apenas com essas. São palavras que têm um espetro semântico muito lato.

 P — Lembra-se da última palavra que descobriu ou que o tenha surpreendido? Qual foi?

IC — Há uma palavra que ando desde ontem a tentar saber o que significa. É a palavra alão, um termo medieval. É conhecido alão como uma raça de cães, mas neste contexto que me preocupa não pode ser isso. Tem de ser alguma coisa da armadura do cavaleiro. Agora, que coisa? Ainda não consegui descobrir. Há pouco perguntava-me por palavras que desaparecem, esta desapareceu. Mas ficou escrita. Como no texto onde ela está — aliás são muitos — pode ser repescada a qualquer momento, por essa via a palavra pode reaparecer, e reaparece como um mistério. É uma palavra que tem de ser reaprendida. Uma vez reaprendida ficamos a conhecê-la e não pensamos mais no assunto. Provavelmente, é isso que vai acontecer. Mas é um caso vivo, concreto, em tempo real, de uma palavra desaparecida da língua e que está a bater à porta para que lhe deem atenção. O que também é um sinal de esperança.

P — Uma outra palavra que desapareceu e voltou a reaparecer é a palavra «arruada»…

IC — Pois! E isso é muito engraçado. É por causa das manifestações de rua, que voltaram.

P — Qual é a sua palavra preferida em português? Porquê?

IC — Olha, olha… Não sei!

P — Nunca pensou sobre isso?

IC — Não, nunca pensei. Eu agora podia arranjar aqui umas quantas palavras para ser agradável, mas não. Há muitas palavras de que gosto.

P — E há alguma que deteste?

IC — Ah! Isso é mais fácil. A expressão «pompa e circunstância», não gosto dela.

P — E porquê?

IC — Não gosto devido ao uso que lhe é dado. Fico furioso com palavras previsíveis, que já sabemos que vão ser usadas uma a seguir à outra. Repare, quando ouvimos pompa já sabemos que vem aí circunstância. É banal. Ou quando falamos de adesão a greves, muitas vezes vem qualificação a meio gás. «A greve está a meio gás». São preguiças mentais de profissionais da comunicação social, que não percebem que as palavras são entidades soltas, que podem ser recombinadas, e acham que ao usarem uma têm de usar a outra, quando isso não é verdade.

P — É o uso da redundância, como na expressão a mim próprio…

IC — Pois, aí é redundante, é. Comigo e consigo também são redundantes. Quer saber porquê? A formação de comigo é co + mi + go. Este go final é o mesmo cum latino da sílaba inicial. Quando o latim queria dizer comigo dizia me cum. Me cum evoluiu para migo em português, galego e espanhol. A certa altura as pessoas achavam que faltava ali qualquer coisa… porque migo não transmitia já a ideia do com. E então passaram a dizer com migo, e depois comigo. Ou seja, puseram lá segunda vez o que já lá estava. É uma redundância. Agora, pode passar sem ela? Não pode!

P — O que dá unidade a uma língua?

IC — O que dá unidade a uma língua é uma estrutura gramatical que é adquirida por todos os membros de uma sociedade, após a nascença. E também um dicionário; um dicionário em que algumas palavras são conhecidas de todos, outras são conhecidas por especializados, e outras são conhecidas apenas por camadas muito cultas. Não é um dicionário único, é um dicionário compartimentado. O conhecimento comum, por uma sociedade, dessas regras gramaticais e desse dicionário costuma ser suficiente para dar unidade a uma língua.

P — No dia em que os Beatles ou o Elvis começaram a fazer-se ouvir em Portugal, o português mudou? Isto é, qual o contributo das artes e, neste caso, da música para uma língua?

IC — Bom, é claro que o português não mudou. O que mudou foi a maneira de os rapazes se pentearem! O contributo da literatura, da cultura, das artes, em geral, para a renovação de uma língua provém precisamente do poder que os artistas têm de propor novas formas de gosto, entre as quais estão as palavras. Isto é, de propor à comunidade novas formas, com a capacidade de convencer a sociedade a rapidamente gostar e adotar essas palavras. Um artista tem a capacidade de vender instantaneamente um produto linguístico que a escola demoraria uma geração a vender.

P — Qual a diferença entre uma língua e um dialeto?

IC — Costuma dizer-se que uma língua é um dialeto equipado com um exército. Ou seja, um dialeto que detém um exército tem poder político e, portanto, pode invadir a área de outros dialetos. Historicamente, foi sempre assim que aconteceu. Modernamente, diria que uma língua é um dialeto que tem uma televisão. A televisão é mais eficaz do que um exército. Aquilo que está a acontecer no mundo globalizado é que os dialetos, como variedades menores dentro de uma língua, estão cada vez mais a perder características, estão a ser descaracterizados, e a tendência é para desaparecerem. Em Portugal, há 50 anos, dizia-se que havia dialetos no Norte e no Sul do país que se distinguiam, e no Norte havia mais dialetos que se distinguiam uns dos outros. Havia também uma questão — que interessava às pessoas de Coimbra — que era saber se nas Beiras havia dialetos diferentes dos do Norte e do Sul. Havia quem dissesse que sim — as pessoas de Coimbra — e quem dissesse que não — quem não era de Coimbra. Havia um panorama que foi cartografado, que é o mapa de dialetos de Lindley Cintra. Um mapa muito semelhante aos das regiões portuguesas de Orlando Ribeiro. São produtos da mesma época e que davam contam da situação nessa altura. Hoje em dia não há isso. Não há a mesma divisão entre Norte e Sul. Há, sim, divisão entre litoral e interior. E o litoral é constituído por uma espécie de megacidade onde vive quase toda a população portuguesa, que vem desde Viana do Castelo até ao Algarve com uma interrupção entre Sines e Lagos. Nesta megacidade predomina um superdialeto que é o português standard — que já não é só o português de Lisboa. É o português da comunicação social, é o português das escolas. Isto porque os professores das escolas não são naturais dos sítios onde trabalham e estão constantemente a ser movimentados pelo Ministério da Educação, que não percebe o mal que está a fazer à língua com a política de colocação de professores que tem; além de fazer mal aos próprios professores. É um mal profundo, que tem consequências visíveis a séculos de distância e que se deve a políticas ignorantes, descuidadas e desrespeitosas, que em determinados momentos os governos tomam. Como não promoverem a fixação em determinado local de professores desse local. Sem isto a reprodução dos dialetos está ameaçada, com resultados que estão à vista.

P — E a questão do mirandês?

IC — O mirandês é um dialeto ou, mais exatamente, um conjunto de dialetos. Mas é um conjunto de dialetos de uma língua que não é o português. É da língua asturo-leonesa, que se encontra do lado de lá da fronteira de Trás-os-Montes. Há razões históricas para explicar isso. É um dialeto em território português de uma língua transfronteiriça. Em Portugal tem o estatuto de língua oficial minoritária, pois é uma língua com instrumentos de ensino, com gramática, com dicionário, literatura e muito interesse na sua sobrevivência. Em Portugal não há mais nenhuma situação como esta.

P — E o que dizer do barranquenho?

IC — O barranquenho não é língua, mas sim um minidialeto constituído por elementos do dialeto andaluz, do outro lado da fronteira, e do dialeto alentejano, do lado de cá. Depois temos o caso de Minde — não está na pergunta, mas eu digo-lhe. Os de Minde querem ter um estatuto igual aos de Miranda, mas não têm direito a isso. Em Minde há uma variedade linguística que não é dialeto. É o chamado minderico, que tem grupos de pressão e lobbies bastante ativos. O minderico não é um dialeto, mas aquilo a que se chama uma gíria, uma norma fechada, privativa de grupo socioprofissional que utiliza materiais dos dialetos locais e que é utilizada pelas pessoas em situações de confidencialidade. É uma gíria, não é um dialeto.
Em relação a línguas no território português, possivelmente deveríamos começar a pensar num levantamento sólido, em certas cinturas das grandes cidades, da existência de crioulos africanos como línguas de comunidade. Há indicadores muito interessantes que nos mostram que há jovens de origem europeia que aprendem a falar crioulo porque é a língua dominante no grupo de amigos onde estão inseridos. Isso vê-se na música. O Rap, por exemplo. Esse elemento de reprodutividade é um elemento essencial para que se possa falar de uma língua. Talvez ao lado do mirandês devêssemos começar a habituar-nos a que há outras línguas estrangeiras — pois é o que são — em território português e em comunidades definidas. Agora, é preciso defini-las melhor.

P — O erro ortográfico de hoje pode ser a norma de amanhã?

IC — Sim. O erro linguístico de hoje pode ser a norma de amanhã. Se for aceite pela comunidade, transforma-se em norma e entra no sistema da língua. O erro ortográfico, para deixar de o ser, depende de alterações da convenção (mudanças de cima para baixo), ao passo que a aceitaç ão da comunidade é uma mudança de baixo para cima.

P — Ainda em relação à norma, no caso da atribuição do nome próprio o peso da norma faz-se sentir. Esteve ligado ao Instituto dos Registos e do Notariado (IRN). A lista de nomes foi atualizada e agora é possível registar uma menina com o nome de Ingrid ou Acil, por exemplo. Mas não um menino a quem queiram chamar Tom ou Elvis. Qual é o critério? Que teste é preciso passar para ter o estatuto de nome legal na língua portuguesa?

IC — A legislação portuguesa era bastante restritiva. A partir do ano 2000 foi-se progressivamente tornando um pouco mais permissiva, mais atualizada com os tempos. Por um lado, a Lei da Liberdade Religiosa tornou extensivo a nomes estrangeiros, de religiões que existem em Portugal, o mesmo estatuto e direito que até então eram dados aos nomes católicos. Por outro lado, o fenómeno da emigração levou a que fossem reconhecidos direitos a filhos de emigrantes nascidos no estrangeiro e a filhos de estrangeiros nascidos em Portugal que lhes permitissem terem nome estrangeiro, ou dos pais ou do país onde nasceram. Finalmente, o Acordo Ortográfico de 1990 reintroduziu o K, o W, e o Y — o que significa que os nomes voltaram a poder incluir essas letras, que até então estavam banidas. Neste quadro, o mecanismo é um pouco mais aberto, mas é sempre preciso que o pai que vá registar o filho esteja em condições de convencer o funcionário do Registo Civil de que aquele nome é um nome possível. Porque não há uma lista dos nomes permitidos. Há uma lista dos nomes não permitidos e outra lista dos nomes que foram postos em dúvida, mas que acabaram por ser permitidos. Mas a lista dos nomes possíveis é infinitamente maior, sendo constituída por todos os nomes em relação aos quais ninguém tem dúvidas que são nomes portugueses. Na lista dos permitidos não está Maria… porque não é preciso. Se o funcionário considerar, com a sua experiência linguística, que o nome que está a ser proposto é português, não se pensa mais no assunto e está resolvido. Dependemos da experiência, mas também do arbítrio do funcionário. Se o funcionário achar que Lyonce Viiktórya é um nome poderosíssimo, o nome passa. E este passou. Se o funcionário tiver dúvidas, então há um processo hierárquico de controlo dialogado, que pode levar a que o nome seja permitido. Então, esse nome que esteve em causa, e que foi apreciado por um linguista, entra para a lista dos permitidos. Se não, fica na lista dos não-permitidos.

P — Podemos exprimir tudo por palavras?

IC — Claro que não! Há pouco falávamos da arte. A arte é uma forma de nos exprimirmos sem palavras.

P — Os emojis são novas formas de linguagem? A Internet veio mudar a nossa relação com as palavras, propondo-nos novas formas de comunicação?

IC — Não são uma forma de linguagem. São elementos gráficos significativos, como qualquer desenho o é.

P — É, há largos anos, professor de crítica textual da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Para si a crítica textual é uma arte ou é uma ciência?

IC — Dizer uma ciência pode parecer pretensioso, mas não é uma arte. Fazer crítica textual é precisamente uma recusa de editar livros como se fossem arte, com critérios estéticos, de gosto e de opinião. É uma ciência na medida em que tem um objeto definido, tem um método que se questiona constantemente, e mecanismos de autocrítica e de revisão.

P — Em 2014, comemoraram-se os 800 anos da Língua Portuguesa…

IC — Não é verdade! Não se comemoraram nada os 800 Anos da Língua Portuguesa. E as comemorações em que a INCM participou, de uma forma generosa mas deficiente, são um simples processo de propaganda que não tem nenhuma fundamentação científica. E quando foram praticados os poucos atos dessas comemorações, todos estavam cientes de que estavam a participar de uma ficção histórica.

P — Celebrar o aniversário da nossa língua numa data precisa, por um lado, envolve algum grau de arbitrariedade e de escolha. Por outro lado, é evidente que uma língua não nasceu num dia só… Porquê o 27 de junho de 1214 para o nascimento do português?

IC — Trata-se da data do primeiro testamento do rei Afonso II, terceiro rei de Portugal. A sua escolha para documento fundador não é muito feliz, pois não é um documento único (há dele duas cópias, mas houve mais), não é o testamento definitivo do rei (dois outros o substituíram), não é o documento mais antigo em português que se conhece e, acima de tudo, uma língua não nasce quando a começam a escrever, mas muito antes.

P — Mas existem textos anteriores: uma Notícia de Fiadores, datada de 1175; um Auto de Partilhas dos irmãos Sanches, de 1192; a Notícia de Torto, em data incerta (1211? 1214? 1216?), contemporânea do Testamento de D. Afonso II….

IC — Exatamente. É precisamente por haver ciência disponível, publicada e recente a este respeito que se torna inadmissível que algumas instituições com responsabilidades culturais muito grandes — e aí a INCM exercitou alguma prudência, mas o mesmo não se poderá dizer do Instituto Camões ou da Biblioteca Nacional — se tenham deixado enredar nesta manobra de publicidade e promoção de uma data que não existe. As grandes instituições de cultura do nosso país não podem dar-se ao luxo de patrocinar atos de ignorância quando há ciência disponível.

P — O Centro Virtual Camões, na secção de História da Língua que foi por si dirigida, disponibiliza a biografia de Lindley Cintra, uma das figuras principais da Linguística portuguesa. Passo então a citar parte dessa biografia: «(…) Cintra não foi um homem paradoxal, nem muito apreciador de ironias ou surpresas conceptuais. (…) não gostava de Camões e, se pudesse ser língua, preferia ser o castelhano.» E agora pergunto-lhe, acha que o castelhano e o português, duas línguas irmãs na ascendência, conseguem conviver pacificamente?

IC — Eu acho que o português e o espanhol convivem muito bem. Nas regiões de fronteira convivem de maneira diferente da das capitais. Mas também aí convivem muito bem. É possível que na conquista de cargos de ensino nos Estados Unidos da América ou no Oriente acha alguma competição entre elas, mas francamente a competição que pode haver entre o ensino do português e do espanhol é bem menor do que a competição entre o ensino do português de Portugal e do português do Brasil — essa é que é uma competição feroz!

P — E o «portunhol» na ponta da língua?

IC — A questão do «portunhol»!... Nós quando vemos um estrangeiro pomos logo a boquinha em feitio para falar estrangeiro. Nós, portugueses, adoramos falar línguas estrangeiras, e achamos que temos jeito para falar línguas estrangeiras. Até tenho impressão de que nós temos mais jeito para falar línguas estrangeiros do que outras nações. Mais do que os espanhóis, por exemplo. Algumas nações são completamente alérgicas às línguas estrangeiras. Há aquela famosa piada da senhora inglesa que dizia que não gostava de vir para a Europa porque na Europa tinham a mania de falar estrangeiro. Os franceses também eram assim, mas ultimamente fazem tudo e mais alguma coisa para falar inglês. Tinham uma ideia de superioridade da sua língua, mas que parecem ter abandonado. Os espanhóis são também bastante imperiais nesse aspeto. Mas povos como os do norte da Europa sabem que têm de falar outra língua além da sua, e sabem que essa língua agora é o inglês, e por isso são quase bilingues. Ou seja, os povos que têm uma noção da sua marginalidade sabem que frequentemente os assuntos que têm de tratar são com estrangeiros. Muitas nações estão como nós a fazer os possíveis para falar a língua dos outros. Bem ou mal. Esses fenómenos são normais em nações que acham que não estão no centro do mundo.

P — Otimista ou pessimista em relação à língua portuguesa no mundo?

IC — Pessimista. Não acredito nas estruturas políticas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Não há unidade linguística a médio e a longo prazo que possa justificar o termo «lusofonia». E não colhem as desculpas que costumam ser dadas para usar o conceito em si, que é o de uma comunidade de simpatias, de conhecimento mútuo, e que é muito boa para os negócios. O que se tem verificado é que esses negócios são para desproveito dos portugueses. Portugal tem sido diplomaticamente humilhado pelos amigos da Guiné Equatorial, por Timor Leste, que nos deve alguns favores,… tem sido vendido a grandes interesses brasileiros e angolanos. Tudo isso a cavalo de uma lusofonia que só serve para os outros e não para Portugal. Como isto é uma questão que está nas mãos de governos, é preciso que haja uma opinião pública suficientemente robusta para mostrar que as coisas não estão tranquilas.

P — Quais os desafios da linguística para o século XXI?

IC — Desafios que estão a ser bem enfrentados. O reconhecimento de que cada vez é mais fácil conhecer os processos cognitivos que estão por trás da aquisição da linguagem, do armazenamento da memória e do processamento humano e automático da linguagem. Tudo isto devido ao desenvolvimento das neurociências, que está a ser feito com abertura aos aspetos comunicativos que a linguística fornece. Isso está evidentemente a levar a linguística para muito longe da história literária; não da história linguística, porque a história de uma coletividade linguística em certos aspetos prefigura a história da aquisição da linguagem do indivíduo. Portanto, até há ganhos nestes desenvolvimentos. Mas o afastamento entre a linguística e a literatura é nítido. Os estudos literários clássicos não têm muitos caminhos por onde ir. Veja o aparecimento de subciências que os especializam e substituem: a teoria da literatura, os estudos comparatistas, os estudos culturais, a tradução literária… São tudo desenvolvimentos que de certo modo replicam aquilo que nós, linguistas, fizemos nos anos 70 quando nos autonomizámos em relação à literatura.

P — Enquanto académico, crítico, investigador e professor, que mensagem deixaria para quem quer estudar linguística?

IC — A linguística, hoje, é um estudo científico que tem os cofres cheios de saberes adquiridos e estabilizados e tem desafios muito interessantes pela frente, mas perdeu um certo triunfalismo que teve nos primeiros tempos de revolução chomskyana, e que levaram, nos anos 70 e 80, a uma indevida invasão do ensino secundário por práticas linguísticas ou conceitos linguísticos que são bons para universitários, mas não para ensinar língua. Ainda o estamos a pagar um pouco, na atual reação que já pôs novamente no centro do ensino da língua portuguesa o fenómeno literário. Nem essa invasão nem esta restauração me parece que sejam donas da razão.

P — Pergunto-lhe a si, Ivo Castro, se pudesse ser língua, que língua gostaria de ser?

IC — Ahhh! Seria o francês!

P — E porquê?

IC — Olhe, calhou. Fui educado numa idade em que a primeira língua estrangeira que se aprendia era o francês, e tive a possibilidade de viver muito tempo em França. O francês que sei é um francês já antigo, como as «flausinas» do meu amigo. De facto, depois do português, é a língua que me é imediatamente disponível e é uma língua que infelizmente tenho pouca oportunidade de falar.

P — Agora e para terminar: e Leite Vasconcelos?

IC — Ah! Leite Vasconcelos é o maior linguista que Portugal jamais teve e que continuará a ter! Adoro dizer isto aos meus colegas! [risos]


TPR