Com a recente publicação da edição crítica de O Mistério da Estrada de Sintra — Cartas ao Diário de Notícias publica-se o 16.º volume da edição crítica das Obras Completas de Eça de Queirós, proporcionando a todos os queirosianos, e particularmente aos seus estudiosos, uma visão distintiva de um texto tido por Carlos Reis como «uma das mais ousadas provocações que a nossa história literária já conheceu».

Escrito em colaboração com Ramalho Ortigão, O Mistério da Estrada de Sintra — Cartas ao Diário de Notícias surgiu apresentado sob a forma de romance epistolar suportado por um «exercício de construção de uma ficção que habilmente disfarça essa sua condição», contribuindo essa subtileza para inquietar a tão tradicional sociedade cultural lisboeta, e dessa forma estimular a crítica de costumes tão ao gosto do século XIX.

A (re)descoberta da obra através desta edição é uma viagem guiada pela metamorfose editorial das edições de 1870 e de 1884-1885 rumo a um texto justificadamente fixado e histórico-editorialmente enquadrado.

Esta publicação, com edição de texto da responsabilidade de Ana Luísa Vilela, reconhecida especialista queirosiana, sob a coordenação de Carlos Reis, conta com uma primeira parte de Introdução, com a contextualização da obra, e o Texto Crítico, que lê com a emoção de saber que esta é, provavelmente, a versão mais próxima da intenção de Eça quando a escreveu.

CSG / RAS
«Na visão muito própria que o Autor teve da vida – uma visão feita de amor, de simplicidade, de humanidade e da permanente consciência da transitoriedade de tudo quanto é humano, quando considerado em si, contraposta à eternidade que adquire logo que visto com os olhos do divino – está verdadeiramente a origem da escolha das formas de expressão para um discurso narrativo, cuja beleza marca, afinal, o apogeu de uma evolução que, na produção da prosa portuguesa, vinha desde Fernão Lopes. E foi através dessa alquimia verbal que o culto Dominicano soube transformar a história em arte, o passado em presente, a vida em poesia, deixando na biografia do venerado Arcebispo Bracarense uma das manifestações mais belas da língua portuguesa, num momento cuja perenidade o tempo não consumirá.»

Aníbal Pinto de Castro
(in Introdução à 1ª edição de 1984)


Nível: FÁCIL

Um passatempo para pessoanos, pequenos e grandes.
Ilustrações de João Fazenda, em Fernando Pessoa, o Menino Que Era Muitos Poetas, um título da coleção Grandes Vidas Portuguesas.

NOTA: Pode verificar as suas respostas e obter informação adicional em «Todas as respostas».



O Modernismo Brasileiro e o Modernismo Português, de Arnaldo Saraiva, vem aclarar perspetivas ainda obscuras sobre estes importantes movimentos culturais, que marcaram a história da língua portuguesa e da literatura do século XX nos dois países, e pretende contribuir para o conhecimento recíproco e para uma ainda maior consolidação da aliança cultural, dando corpo à preservação e promoção do património bibliográfico da língua portuguesa.

CSG



Título: O MODERNISMO BRASILEIRO E O MODERNISMO PORTUGUÊS
Autor: Arnaldo Saraiva
Coleção Temas Portugueses
Tema: Estudos Literários
N.º de páginas: 704
Publicado em: junho 2015
ISBN: 978-972-27-2330-5
Arnaldo Saraiva é professor emérito da Universidade do Porto, de cuja Faculdade de Letras foi professor, tendo também ensinado na Universidade da Califórnia em Santa Barbara (1978-1979),na Universidade de Paris – Sorbonne Nouvelle (1993-1994) e na Universidade Católica Portuguesa-Porto (2003-2009).
Foi membro da direcção da Cooperativa Árvore, presidente do Conselho Geral do Boavista Futebol Clube, fundador do Centro de Estudos Pessoanos, presidente da Fundação Eugénio de Andrade, cronista colaborador da Radiotelevisão Portuguesa e da Radiodifusão Portuguesa e ator em filmes de Luís Galvão Teles, António Reis, Saguenail e Joaquim Pinto. Autor de extensa bibliografia, entre os seus livros (ensaio, poesia, crónica e tradução) incluem-se:
  • Literatura Marginalizada (2 vols., 1975 e 1980)
  • Bilinguismo e Literatura (1975)
  • Fernando Pessoa e Jorge de Sena (1981)
  • In (poemas, 1983)
  • O Modernismo Brasileiro e o Modernismo Português (1986) – reeditado em 2015 pela INCM
  • O Livro dos Títulos (1992)
  • Fernando Pessoa Poeta-Tradutor de Poetas (1996)
  • Introdução à Poesia de Eugénio de Andrade (1995)
  • O Sotaque do Porto (1996)
  • Conversas com Escritores Brasileiros (2000)
  • Folhetos de Cordel e Outros da minha Coleção (2006)
  • Poesia de Guilherme IX de Aquitânia (2008)
  • Augusto dos Santos Abranches, Escritor e Agitador Cultural em Portugal, em Moçambique e no Brasil (2013)
  • O Génio de Andrade (2014)
  • Dar a Ver e a se Ver no Extremo – O Poeta e a Poesia de João Cabral de Melo Neto (2014)
  • Os Órfãos do Orpheu (2015)





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por Tânia Pinto Ribeiro

«À Tânia:
Respostas a eito, mão levantada, currente calamo e má caligrafia,
em 25 de abril de 2015 — depois de algumas centenas de páginas
que escrevi, mais explicativas.»

Admira Piero della Francesca e Nuno Gonçalves, mas também Chaplin, Mahler e Louis Armstrong. Faz do Jardim da Estrela o seu porto de abrigo no meio ano que passa em Lisboa. O resto do tempo passa-o em Jarzé, um pequeno vilarejo francês, o «descanso do guerreiro», como gosta de lhe chamar.

Correu o mundo em busca do belo e da verdade. E não só — acrescenta ele. É avesso às novas tecnologias e não gosta de gravar entrevistas. Prefere respondê-las à mão. E assim foi. Duas linhas, em jeito didascálico, encabeçam as respostas à PRELO. São reveladoras da personalidade deste colaborador já antigo da INCM.

Quanto ao número de páginas que escreveu estar na ordem das centenas, isso já será apenas modéstia. Feitas todas as contas, este escritor, historiador da arte e também académico — por esta ordem precisa — chegarão, facilmente, aos milhares. Quanto à data das respostas poderá ser apenas coincidência. Ou talvez não.

É que o percurso que vamos revisitar a seguir, a currente calamo, como quem diz, ao correr da pena, pertence a um homem que, aos 92 anos, continua a viver a vida aprendendo a ver e a escrever sobre o que procura ver. A tal «liberdade cor-de-homem», como lhe chamou o surrealista André Breton.

Espaço para as saudades, não o tem. Mas tempo para voltar ao Louvre, o seu museu preferido, para visitar a Tate Modern, onde nunca esteve, e escrever um Essencial sobre Picasso, não lhe pode faltar. E por falar em tempo… é o tempo que faz a Arte ou a Arte que faz o tempo? Quem melhor do que José-Augusto França para nos dar a resposta?


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(continuação da 3.ª parte)

A FORMAÇÃO LITERÁRIA DOS ALUNOS

Prelo — É professor catedrático. Já deu aulas em muitos sítios. Qual é o papel dos professores na educação literária dos nossos alunos?

Carlos Reis — É um papel fundamental. Aquém ou além de metodologias, de estratégias pedagógicas, de manuais... E este papel fundamental não é só de um professor de literatura é o de todo o professor: mostrar ao aluno que está apaixonado pela matéria que ensina. Isso é a primeira coisa, é o primeiro estádio onde o professor triunfa ou falha. Se eu ensino literatura e não mostro aos meus alunos que sou apaixonado por literatura, não consigo transmitir aquilo de que gosto. É fundamental para cativar o estudante.

P — Nota muita diferença entre os alunos de Coimbra atual e os alunos da Coimbra do seu tempo de estudante?

CR — Sim, muitas! A começar pelo facto de na Coimbra no meu tempo de estudante serem 8 mil estudantes e agora são 20 e tal mil. Noto também que as atitudes culturais, no sentido geral, não no sentido elitista do termo, são diferentes, apesar que eu conhecer relativamente mal o que é que os estudantes fazem na sua vida extra aulas. Os estudantes hoje têm uma vida boémia muito mais intensa do que a que eu tinha no meu tempo. A universidade de Coimbra, para o bem ou para o mal, tem uma capacidade de atração muito grande sobre estudantes estrangeiros. Nesse ponto de vista a Universidade de Coimbra é também muito interessante. A Universidade de Coimbra tem as vantagens e as desvantagens de ser uma universidade relativamente grande, para a dimensão portuguesa, numa cidade pequena. Coimbra compara-se com Salamanca ou com Oxford, não se compara com Lisboa ou Nova Iorque. Portanto, a convivialidade académica, independentemente da praxe, que é uma questão que eu abomino, tem condições que são especiais, e isso é uma mais-valia.

P — Acha preocupante a forma como os jovens escrevem e falam atualmente, ou acha que é uma evolução natural da língua?

CR — A questão dos «k» das mensagens SMS e das redes sociais? É uma realidade com a qual nós temos de saber conviver. Uma realidade que acabará por atingir inevitavelmente, se é que já não atingiu, a própria linguagem da literatura. Temos de ver os lados positivos. Nós estamos a falar para um blogue. Hoje um jovem tem mais possibilidade de publicar eletronicamente do que tinha há 30 anos. Isso é um benefício, ele hoje publicou um texto e esse texto pode ser lido naquele momento, ou pouco depois, em Timor, ou no Brasil, ou na Ásia. Hoje em dia existem interações com os outros que a publicação convencional não tinha.

P — Os seus alunos escrevem bem português?

CR — Atualmente só dou aulas a alunos de pós-graduação e os meus alunos escrevem bem português. Não vou dizer que escrevem mal… Uma vez, ou outra, há um problema mas, também não devemos ser fundamentalistas quanto a isto. Todos nós, por vezes, temos dificuldades quanto à língua: não sabemos bem se a vírgula está bem ali; se a palavra se escreve com «z» ou com «s». Mas há que ser exigente. Se eu não sei como se escreve tenho de ir verificar como se escreve.

P — Que futuro preconiza para a licenciatura em Letras?

CR — Um futuro não massificado. Até há 10, 15, 20 anos ia-se para Letras para se ser professor. Agora a situação de um professor é muito diferente. A demografia está aí com os seus problemas: o número de crianças é cada vez menor, o número de escolas é cada vez menor, o número de salas de aulas é cada vez menor, e portanto, o país não precisa de tantos professores como precisava há 30 ou 40 anos atrás. Talvez venha a precisar no futuro, se entretanto se perder, de uma forma muito brusca, esta ideia de que é preciso estudar Letras para se ser professor. Não é a única saída. Hoje, é preciso estudar Letras por outras razões. Vou contar-lhe um episódio que para mim ficou-me como modelar. Quando eu tinha funções públicas uma vez recebi um executivo de um banco importante. Curiosamente não um banco português. A nossa conversa correu muito bem, e, no final, perguntei ao meu interlocutor qual era a sua formação. Respondeu «Filosofia». E eu fiquei muito espantado com aquilo. Hoje, já não me espantaria tanto. Há grandes empresas, grandes bancos, grandes seguradoras que sabem que ter nos seus quadros uma pessoa com formação em Humanidades é muito importante. Não é para citar Platão ou ler versos de Camões nas reuniões, mas é por terem outra cabeça.

P — Está a falar de uma questão de sensibilidade?

CR — Exatamente! Sensibilidade e valores… Eu penso que muitos problemas que estamos a viver hoje em dia advêm do facto de se ter perdido, em relação à vida, à sociedade, aos outros, aos idosos, aos animais, à natureza, muito de uma atitude ética perante a vida. Falo dos valores do Bem e do Mal, dos valores da justiça, da solidariedade. Estes valores estão na Literatura e aprendem-se também na Literatura. Não é só para isso que ela existe evidentemente, mas acho fundamental continuar a resguardar isso. Evidentemente, que no futuro as humanidades têm de ter em conta que as narrativas não se contam só nos romances do século xix nem nas epopeias do século xvi. Hoje em dia, contam-se nas séries de televisão. A publicidade, por exemplo, é um lugar de fecundação de imagens e de figuras retóricas. Há, portanto, outros discursos que estão aí, que têm uma componente estética, que têm uma componente paraliterária, que têm uma componente ficcional. As Humanidades, aquelas que alguns chamam novas Humanidades, servem para isso também.
O PRÉMIO RUY CINATTI

P — O professor preside também ao Prémio Literário Ruy Cinatti, uma iniciativa da Imprensa Nacional-Casa da Moeda que visa selecionar e premiar anualmente uma obra de prosa ou poesia inédita de um autor Timorense. Que balanço faz deste prémio passados três anos?

CR — O balanço de uma produção residual mas não necessariamente negativo. Nós temos que colocar as coisas em perspetiva. Timor está muito longe, e não está muitas vezes tão próximo da língua portuguesa como nós quereríamos, Timor é um país que tem um cenário dialetal complexo e há muita população em Timor que não fala português. O que se quer também com o prémio é que a língua portuguesa continue viva e ativa. E uma forma de o fazer é estimular os poetas, os novelistas e os romancistas em Timor.

P — Então acha que está a ser bem-sucedido?

CR — Sim, está a cumprir o propósito. Claro que este é um caminho longo, um caminho difícil mas que Imprensa Nacional está, permita-me a expressão, «a fazer o seu dever». E quem faz o seu dever faz o que deve fazer.
A POLÉMICA EM TORNO DO AO90

P — Também sempre foi favorável e um acérrimo defensor do novo acordo ortográfico. Quais são as vantagens que vê no novo Acordo?

CR — Para as crianças que estão a aprender é uma aprendizagem mais próxima da oralidade. Creio que isso é uma vantagem, aliás, as reformas ortográficas, os acordos ortográficos tem muito a ver com isso. A reforma de 1911, independentemente, das suas bondades ou dos seus defeitos, foi uma reforma que se quis democratizadora, por razões que têm muito a ver com a situação politica que se estava a viver, embora ela já estivesse a ser preparada antes da República. No caso queria-se afastar um bocadinho mais a língua da etimologia, que era certamente muito importante, mas pouca gente sabe de etimologia. Neste momento a tendência é essa também. Essa é uma vantagem. Infelizmente, os momentos e as dinâmicas políticas não tiraram disso o partido necessário. O Acordo Ortográfico não quis nem tem de que querer unificar a língua portuguesa, deve querer aproximar e, sobretudo, também se fala muito pouco sobre isto, terminar com uma situação que existia, que era a seguinte: o português tinha duas normas oficiais — a portuguesa e a brasileira. Com o Acordo Ortográfico [o português] deixou de ter duas normas oficiais. Se as mantivesse, o caminho por onde seguiria amanhã teria de ser ter uma norma oficial angolana… e depois uma norma oficial moçambicana… e assim por diante. No concerto internacional das grandes línguas de cultura essa era uma fragilidade porque, independentemente de nas línguas haver — e há, no inglês por exemplo — oscilações ortográficas, não havia, como havia em português duas normas ortográficas oficiais. Isso era uma fragilidade. Portanto, por estas duas razões (umas da ordem da aprendizagem, outra da ordem da política de língua) vejo vantagens no Acordo Ortográfico. Apesar disso, respeito todas as posições. Infelizmente, em Portugal, os poderes políticos nunca pegaram nesta matéria como deveriam ter pegado. Foram omissos, foram preguiçosos, foram timoratos, adiaram, fingiram que não viram… Isso, evidentemente, deu lugar a equívocos! Posso dizer um: há dias eu vi num documento que vinha de um organismo público a palavra facto escrita sem «c», é um fenómeno de hipercorreção. A palavra facto não perde o «c» em português de Portugal, como também não ganha um «c» em português do Brasil. Isto decorre justamente de nunca ter havido uma orientação, uma explicação, uma pedagogia bem feita, tolerante, aberta, respeitadora de todas as posições. Mas as coisas correm no seu tempo e para mim hoje o Acordo Ortográfico é uma realidade adquirida.

P — Gosta muito de escrever, mas tem resistido à tentação de escrever no sentido literário do termo. Porque que é que nunca se aventurou?

CR — Talvez porque conheço bem demais, por deformação profissional, muitos mais projetos falhados do que projetos conseguidos. Talvez porque a minha tendência fosse para imitar, de uma forma muito caricata, o Eça e o Eça é inimitável. Talvez porque acho que é muito difícil inovar para além de muito do que já está feito. É muito difícil trazer alguma coisa de novo, de viver essa ilusão e depois ter a desilusão de verificar que, afinal de contas, não se conseguiu. Mas há escritores que deram esse salto.

P — O Carlos Reis pertenceu à comitiva que acompanhou o Saramago a Estocolmo. Acha que vai acompanhar mais alguma?

CR — Se me convidarem eu vou. A pergunta é: acha que mais algum escritor português vai receber o Prémio Nobel? Para falar francamente acho que o Lobo Antunes tem a dimensão para receber o Prémio Nobel, a Sophia de Mello Breyner Andresen era uma escritora com a dimensão para receber o Prémio Nobel, o Jorge de Sena também. Simplesmente, temos de ter a noção das coisas. O Brasil nunca ganhou um Prémio Nobel. Quando o Machado de Assis morreu já havia Prémio Nobel. O próprio Pessoa quando morreu já havia Prémio Nobel. Aliás, Pessoa diz numa carta «quando eu ganhar o Prémio Nobel….». A língua portuguesa, como dizia o Machado de Assis infelizmente é uma língua escusa, uma língua um pouco retirada, um pouco afastada. O Prémio Nobel depende muito, no melhor sentido do termo, da forma como se promove um escritor. Não basta ser um grande escritor. É preciso que ele tenha também a dinâmica própria para poder ganhar um Prémio Nobel. Eu penso que depois de Portugal ter ganho o Prémio Nobel em 1998 é muito difícil que tão cedo venha a receber outro. Infelizmente, porque isto não tem a ver com a qualidade dos escritores. Se acontecer, mesmo que não vá lá, ficarei muito contente. Seja ele quem for.

P — Para terminar, enquanto autor dos blogues Figuras de Ficção e Queirosiana, que conselho dá a este novo blogue da Imprensa Nacional-Casa da Moeda?

CR — Que seja o mais provocatório possível, provocatório e exigente também; que se abra; que fomente a participação dos outros; que conheça — eu também não conheço exaustivamente — a lógica do blogue (não é a de uma revista nem a de um jornal); que perceba que uma palavra posta lá pode ser lida, naquele momento, no outro lado do mundo. Isto é um desafio extraordinário! E eu acho extremamente interessante que uma casa como esta se abra a este tipo de linguagem.


Março de 2015


TPR

O EÇA POR DESCOBRIR

Prelo — O que é que lhe falta descortinar do Eça de Queirós? Se pudesse, hipoteticamente, jantar com ele…
Carlos Reis — Vou-lhe dizer uma coisa que lhe vai parecer estranha: acho que não gostava de jantar com o Eça. Talvez ficasse desiludido. Construí, ao longo dos anos, uma imagem tão bonita do Eça e o Eça não era perfeito seguramente… talvez ficasse desiludido ao jantar com ele. Prefiro ficar com a imagem construída a partir dos livros e, sobretudo, deixe-me dizer isto, não sou partidário, nunca fui e nunca serei de uma visão de um escritor que se limite às pequenas curiosidades da vida do escritor. Isso não explica praticamente nada da obra. É uma espécie de arqueologia da devassa que pouquíssimo tem que ver com a extraordinária qualidade dos textos do Eça.

P — Então, vou reformular a pergunta. Falta-lhe descortinar alguma coisa da obra do Eça?

CR — Sim, falta. Olhe, isso tem a ver com um projeto de investigação que nesta altura estou a coordenar no meu centro de investigação e que se chama Figuras da Ficção. É um projeto de investigação sobre a forma como os escritores fazem personagens. Falta-me perceber melhor como é que o Eça fazia as personagens.

EÇA E ASSIS: ADMIRAÇÃO E RIVALIDADE

P — Fala-se numa certa rivalidade entre o Machado de Assis e o Eça, que talvez se odiassem. Era mesmo assim?

CR — Não é bem assim! Se tiver paciência para me ouvir, vou contar-lhe a história…

P — Claro que sim!

CR — O Machado de Assis era um pouco mais velho que o Eça. O Eça nasceu em 1845 e o Machado em 1839. Nos anos 70, o Machado de Assis era um crítico literário já com alta influência no Brasil, e, em 1878, quando saiu O Primo Basílio — já tinha saído a segunda versão de O Crime do Padre Amaro — o Machado de Assis escreveu uma crítica em duas partes, num jornal chamado O Cruzeiro. Era, de facto, uma crítica muito severa para O Primo Basílio. O Machado entendia que o Eça tinha uma visão do naturalismo muito repulsiva, muito chocante, e, por vezes, até pornográfica. O Machado era um pouco moralista nestas coisas, pelo menos naquela época. O Eça conheceu essa crítica e ficou, evidentemente, um pouco sentido, mas teve a inteligência suficiente para perceber que o Machado de Assis tinha razão nalgumas coisas. Quando reescreveu O Crime do Padre Amaro, e isso está estudado pelo Professor Alberto Machado da Rosa, omitiu determinadas coisas em função da crítica de Machado de Assis. Nunca houve diálogo epistolar entre eles, embora o Eça tivesse desafiado o Machado para isso, mas o Machado tinha um temperamento um pouco especial. Houve, sim, uma grande admiração entre eles. Talvez mais do Machado pelo Eça do que do Eça pelo Machado. Julgo que o Machado conhecia bem as obras do Eça, não sei se o Eça conheceria tão bem as obras do Machado de Assis.O Eça morreu a 16 de agosto de 1900 e há uma carta de Machado de Assis do dia, salvo erro,18 ou dia 20 de agosto, a um amigo, Henrique Chaves. O Machado tinha vindo de um funeral de um outro amigo, o Ferreira de Araújo, que tinha sido diretor da Gazeta de Notícias onde o Eça tinha colaborado. E essa carta, que é uma carta curta, é uma carta tocante, comovente porque o Machado diz mais ou menos «fui enterrar este nosso amigo [Ferreira de Araújo] e, ao mesmo tempo, soube da notícia do desaparecimento de Eça de Queirós (…) foi-se o melhor de nós», escreveu o Machado de Assis. Até fico arrepiado! O Machado era um grande escritor. Atenção, não era inferior ao Eça! Mas tinha a elevação para reconhecer que o Eça era um grande escritor, apesar daquele pequeno incidente.

A ELEVAÇÃO DO NOME DE EÇA

P — Não há melhor forma de distinguir um escritor que não seja lendo as suas obras. Acha que os portugueses sabem valorizar o Eça?

CR — Penso que sim! É inquestionável que o Eça continua a ser um dos escritores portugueses que mais se vende. Por alguma razão será. Claro que há pessoas que compram e não leem, há estudantes do ensino secundário que se calhar leem obrigados e outros que fingem que leem. Também não sou muito dramático quanto a isso. Para mim, a literatura é o centro da minha vida mas não tem que ser o centro da vida de toda a gente. Há pessoas para quem o centro da vida é a matemática, para outras o desporto… Acho que na literatura está muito da nossa maneira de ser, da nossa atitude elevada perante a vida e isso deve ser facultado democraticamente a toda a gente, mas não pode ser obrigatoriamente imposto a toda a gente.

P — Numa entrevista que deu a Rogério Mendonça afirmou que «a elevação do nome de Eça ou de qualquer grande escritor, passa pela boa edição das suas obras e isso infelizmente nem sempre acontece em Portugal». O que é que falta para fazer, para que isto mude?

CR — Falta dar aos editores comerciais a consciência de que quando estão a editar um texto estão a trabalhar com uma obra de arte que tem que ser respeitada e que uma virgula a mais ou a menos num texto, pode alterar o seu sentido. Dou-lhe apenas um exemplo de um erro que sucessivas edições têm cometido em Os Maias: a certa altura, num episódio onde se está falar sobre a questão do naturalismo, onde o poeta Alencar estava muito impressionado com o avanço do naturalismo, diz-se «esses estilos tão preciosos e tão dúcteis». Isto é o que se lê em quase todas as edições. O que o Eça escreveu foi «esses estilos tão precisos e tão dúcteis». É isto que está na primeira edição. Depois introduziu-se aqui uma gralha que é uma das piores que pode haver porque corresponde a uma palavra que existe. Isto é um exemplo entre muitos. Um editor comercial deve ter consciência de que se vai fazer uma edição comercial deve tentar olhar para a melhor edição. É isto que nós fazemos na Biblioteca Fundamental [da Literatura Portuguesa]. Este é um critério absolutamente decisivo. Os editores comerciais têm que ter a noção disso.

P — O que é que sente quando vê a venda d’Os Maias disparar depois do filme de João Botelho ou d’ O Crime do Padre Amaro, do Carlos Coelho da Silva.

CR — Sinto-me bem. Acho que esse efeito é um bom efeito. Não tenho absolutamente nada contra o facto de as pessoas irem ler o livro depois de verem o filme. Concretamente, em relação ao recente filme do João Botelho, que não me entusiasmou extraordinariamente, apesar da admiração que tenho pela obra do João Botelho como cineasta. Mas só o facto de 40 mil, 50 mil ou 60 mil pessoas terem visto o filme e terem sido impulsionadas, muitas delas, a dialogarem com o romance que tinham ou que foram ler, isso é um facto que eu considero extremamente positivo.

P — Será que o cinema está a colmatar uma falha da escola?
CR — Às vezes, pode colmatar essa falha. Às vezes, pode substituir ou tentar substituir a leitura. Em dez jovens de 16 ou 17 anos talvez três ou quatro sejam capazes de perceber um romance com a dimensão d’Os Maias e gostem até mais do romance do que do filme. Se for assim já é bom. Se o cinema serve para isso ótimo! Se serve só para uma pessoa passar duas horas ou três horas a olhar para imagens que trazem palavras, ideias, personagens de um escritor, também é bom.

(continua)



TPR

(continuação da 1.ª parte)

MOMENTOS-CHAVE DA LITERATURA PORTUGUESA

Prelo — Existe uma época de ouro da literatura portuguesa?

Carlos Reis — Existem duas ou três. Depende daquilo que estivermos a falar. A expressão tem muito que ver também com a expressão consagrada do século de ouro da literatura espanhola. A meu ver, a nossa poesia tem dois séculos de ouro: o século XVI e o século XX. É lá que estão figuras como Camões e Fernando Pessoa e outras mais. A nossa ficção em prosa tem um século de ouro que é o século XIX, onde estão o Eça, o Garrett, o Camilo... Estas coisas nem sempre são fáceis, sendo que o século XIX é a meu ver o grande século da ficção narrativa mas está lá um grande poeta chamado Cesário Verde. Isto não é absoluto. O século XX é o grande século da poesia portuguesa — está lá o Pessoa, Carlos de Oliveira, Sophia de Mello Breyner, estão muitos outros que agora não refiro para não cometer nenhuma injustiça - mas está lá também [José] Saramago, está lá o [António] Lobo Antunes… Estas coisas são sempre muito relativas mas servem como imagens fortes para acentuar dominantes em certos tempos históricos.

A LITERATURA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA

P — E o século XXI? O que acha que vem aí?

CR — O século XXI já tem 15 anos, já é adolescente mas ainda não chegou à maioridade. A meu ver, ainda vive muito de escritores do século xx, alguns que já citei e outros: Lídia Jorge, Mário Cláudio, Mário de Carvalho e o José Cardoso Pires, que ainda morreu no século XX mas que devemos continuar a ler. No século xxi, há toda uma geração de gente jovem que eu não vou agora mencionar para não cometer injustiças. Penso que a Literatura Portuguesa está de boa saúde e recomenda-se.

P — Consegue descortinar algum futuro Eça nesta nossa nova geração?

CR — [risos] Gostava de falar não da nova geração, mas sim de escritores que estão aí e de livros que estão aí. É uma questão de tempo e de um certo distanciamento também. Se quisermos fazer história cultural, social e política do século xix não podemos passar sem o Eça, não é um historiador mas está lá muita coisa. Costumo dizer que se quisermos fazer história social, cultural, política e mental do fim do século XX e princípio do século XXI, não podemos de deixar de ler [António] Lobo Antunes, por exemplo.

P — A questão da guerra colonial…

CR — Da guerra colonial, do período pós-colonial, da descolonização... Não podemos deixar de ler, por exemplo, o olhar extraordinariamente ácido, irónico e sarcástico do Mário de Carvalho, não podemos deixar de ler a forma como a Lídia Jorge observa a questão da memória, da memória mais recente, a questão da mulher… A Agustina [Bessa-Luís] é fundamental para entendermos a forma como depois de 1974 se passou a viver, do ponto de vista das mentalidades. Há certos escritores que dão esse testemunho. Não o darão no estilo do Eça porque cada época tem o seu estilo.

O ESTUDO DO ESPÓLIO DE EÇA DE QUEIRÓS

P Com a sua colega Maria Rosário Milheiro trouxe a lume A Construção da Narrativa Queirosiana O Espólio de Eça de Queirós. Qual é que foi a grande revelação que obteve deste estudo?

C R Esse estudo caiu-me no colo quase por acaso, aqueles acasos que mudam ou condicionam muito a nossa vida. Para contar rapidamente a história, o Estado tinha incorporado nos fundos da Biblioteca Nacional o espólio de Eça de Queirós, que tinha sido disponibilizado para esse efeito pela família. Então, o diretor ou presidente do Instituto Português do Livro, o meu saudoso amigo António Alçada Baptista, propôs-me fazer um estudo do espólio de Eça de Queirós, coisa que me deixou, ao princípio, completamente perplexo: foi a maior oferta que alguma vez fizeram na minha vida, não os papéis mas a possibilidade de os estudar!

P Estamos a falar de quantos documentos?

CR Estamos a falar de mais de uma centena de documentos, estamos a falar de muitos manuscritos que já estavam publicados: os d’A Capital, do Alves &Companhia, estavam lá. Estamos a falar também de muitos papéis que eram rascunhos, listas de palavras, listas de personagens: os papéis da oficina de um escritor. Nessa altura, ainda não se falava disso em Portugal - estamos a falar dos fins dos anos 70, inícios dos anos 80 — mas aquilo que estava em causa era a crítica genética - que é um ramo autónomo, não é exatamente a crítica textual — que podia facultar maneiras de nós tentarmos perceber como é que o Eça escrevia narrativas. Entrar no laboratório do escritor. Entrar na sua oficina de trabalho. E foi isso que eu tentei fazer com essa minha colega.

P E descobriu?

CR Há algumas explicações no livro. Se estão certas ou erradas não sei, mas há algumas explicações. Por exemplo, a função que desempenhava uma lista de cinco personagens que Eça fez antes de tentar escrever uma novela que, de resto, acabou por não escrever. Outro exemplo: quando estava a escrever supostamente A Ilustre Casa de Ramires, munido de um léxico ao lado, fez uma lista por ordem alfabética de palavras medievais, «alcáçova», por exemplo. Foram, digamos, estes métodos e rotinas de trabalho que nós procurámos perceber nesse livro. Por sugestão do meu grande mestre Ernesto Guerra da Cal entendemos também que só devíamos avançar para a edição crítica do Eça, depois de conhecermos bem a oficina de trabalho do escritor.

A PROSA DE EÇA NÃO ENVELHECE

P — «Então, perante este Céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida». Escreveu Eça de Queirós em Um Génio que era um Santo. O Carlos Reis, outrora estudante, agora catedrático de Coimbra, senta-se aos pés de Eça, como um discípulo?

CR — Não tenho, infelizmente, dimensão para isso. Gostava de ter, mas não tenho. O Eça escreveu esse texto muito tempo depois de ter vivido isso. O Eça viveu isto no princípio dos anos 60 e escreveu acerca disso em meados dos anos 90, passados mais de 30 anos. Escreveu isso para um amigo que se tinha suicidado, o Antero de Quental, e construiu também uma imagem do Antero, que provavelmente era uma imagem literária e ficcional. O Eça, em 1896, quando esse texto foi publicado, era já um escritor incomparavelmente mais destacado de que o Antero. Mas nessa época o Eça ficou fascinado com a capacidade de liderança que o Antero tinha. Eu gostaria muito de escrever como o Eça, mas não sei. Agora, sou discípulo constante do Eça no sentido em que encontro, a cada momento, a cada passo, resposta para aquilo que são as inquietudes, as dificuldades, as crises da nossa vida pública — como se fosse necessário lermos o Eça com muita atenção para não cometer erros que no tempo do Eça se cometeram.

P — Para si, onde é que reside a genialidade de Eça de Queirós?

CR — Vou dizer uma expressão que vai parecer banal, em que retomo uma coisa que ouvi dizer uma vez ao Professor Eduardo Lourenço. Primeiro que tudo, é a graça do Eça. O Eça escreve com graça, é agradável. Mas não é só a graça do ponto de vista de ter piada, é a ironia, é o olhar às vezes desencantado perante a vida, é a grande inteligência para perceber as coisas que muitos outros, na época, não tinham, não percebiam. De resto, costumo sugerir que façam a contraprova: vamos ler um texto do Eça e depois vamos ler um texto dos contemporâneos, por exemplo, do Abel Botelho ou do Teixeira de Queirós. Essa prosa é uma prosa que envelheceu e a prosa do Eça não envelheceu.

P — Continua com o mesmo fascínio por Eça de Queirós como aquele que tinha aos 14 anos, quando leu A Capital? Eça ainda o surpreende?

CR — Completamente. Eça ainda me surpreende. Ainda há pouco tempo, fiz com duas colegas a edição crítica de A Correspondência de Fradique Mendes. Para se fazer uma edição crítica tem de se ler o texto palavra a palavra e somos surpreendidos com a pertinência de uma vírgula, pela razão de ser da mudança de um adjetivo…

UMA QUESTÃO DE «POSE»

P — No final d’Os Maias podemos ler: «(…) Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira daexperiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança — nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta palidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito do Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades (…).» Na sua opinião, isto é uma lição de um sábio? Ou de um vencido da vida?

CR — É uma lição de um vencido da vida. Sem dúvida! Não é por acaso que isso aparece no episódio final d’Os Maias, quando Carlos da Maia regressa a Lisboa e no tempo da história em 1887. Os Vencidos da Vida começam a reunir-se por volta de 1891/1892. Isso, portanto, é uma atitude de desencanto de alguém que viveu uma grande tragédia pessoal (a tragédia do incesto), de alguém que viveu o falhanço de uma carreira, que viveu o falhanço dos seus projetos e que, de certa forma, incorpora em si um país em decadência e que depois desiste... Apesar do extraordinário encanto com que isso é dito, é por essas e outras que há gente que critica o Eça e a sua visão às vezes um pouco derrotista da existência do país.

P — Se bem me lembro, logo de seguida, o Carlos e o João da Ega correm para o elétrico….

CR — Sim, sim, correm para o carro: o americano…

P — Isso quer dizer mais qualquer coisa?

CR — Quer dizer que tudo isso é uma pose, mas que enquanto estivermos vivos vamos ter de lutar pela vida. É inevitável! E esse Carlos da Maia nessa atitude blasée, cética, um pouco arrogante é já um pré-Fradique Mendes, que vai depois aprofundar esse tipo de atitude perante a vida, mas que no fundo nunca desiste de correr… nem que seja, com o desejo falhado de comer um prato de paio com ervilhas!


(continua)

TPR
Carlos Reis publica na INCM desde 1989
por Tânia Pinto Ribeiro 

Foi com A Capital! (Começos de uma carreira) que se estreou no universo de Eça de Queirós. Tinha 14 anos. Mais tarde, já na década de 1990, foi também com A Capital que Carlos Reis, acolhido por Vasco Graça-Moura, inaugurou a coleção Edição Crítica das obras de Eça de Queirós. Atualmente, colabora de forma intensa e regular com a INCM, continuando à frente de projetos como a Edição Crítica e a Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa. E foi também na capital portuguesa que a PRELO esteve à conversa com este académico de Coimbra, nascido nos Açores, que abomina as praxes, mas que está já rendido à dinâmica dos blogues. E ao Novo Acordo Ortográfico. Uma conversa à volta dos livros, das edições, do ensino das Letras e, claro, do incontornável Eça, que, tal como Pessoa, também tinha uma arca… mas esta foi ao Brasil e voltou!

AUTOR NA IMPRENSA NACIONAL DESDE 1989

PRELO — O professor tem privilegiado a INCM para publicar os seus trabalhos. Como e quando nasceu a sua relação com a editora pública?

CARLOS REIS — Nasceu há alguns anos, já nos anos 90, pela mão de uma figura fundamental para esta casa e que já não está connosco: Vasco Graça Moura. Foi o Vasco Graça Moura quem acolheu a ideia das Edições Críticas. Na altura, o Eça e, logo a seguir, o Pessoa. Desde essa época foi cada vez mais evidente que à Imprensa Nacional cabia esta função tão importante de resguardar textos de natureza patrimonial. No meu caso foi Eça, porque sempre o estudei, e era preciso fazer edições do Eça. Devo, de facto, este tributo a Vasco Graça Moura.

P — Estreou-se na INCM com que obra?

CR — O primeiro volume da Edição Crítica publicado foi A Capital! (Começos de uma carreira). Saiu em 1992, em edição preparada por Luiz Fagundes Duarte. Logo a seguir veio o Alves & Companhia. Não tenho exatamente ordem, mas vão já 15 volumes publicados até agora.

Edição crítica das obras de Eça de Queirós

A EDIÇÃO CRÍTICA DE EÇA DE QUEIRÓS

P — Para si qual é a importância da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós para as letras e para os leitores portugueses?

CR — É um pouco como quem restaura uma tela que o tempo degradou ou uma fachada de uma catedral que também se estragou e que precisa voltar ao que seria o seu estado inicial. Os textos, tal como as obras de arte, também se estragam e estragam-se sobretudo em duas circunstâncias: uma, quando os escritores deixam manuscritos por publicar, que podem ser mal lidos, mal publicados... e a outra, quando o escritor é tão popular, como é o caso do Eça, que favorece múltiplas edições. Como antes não havia métodos de reprodução fotomecânica, ao reeditar, mesmo que fosse exatamente o mesmo texto, era inevitável introduzir alguns erros, erros esses que se vão repetindo.

P — Há também que fixar o texto…

CR — Fixar o texto é o primeiro passo para uma edição crítica. Isto é, saber qual o texto que constitui ou que constituiria a vontade do autor. Para isso, fazem-se várias operações que a crítica textual tem relativamente definidas. O editor é crítico porque, por vezes, decide criticamente que é a versão «A» e não a versão «B» ou «C», aquela que melhor representa o propósito artístico do autor.

P — Cada editor terá o seu critério…

CR — Sim, cada editor de edição crítica tem a sua capacidade de decidir, mas há certas regras que metodologicamente são seguidas e que dão uma certa segurança a esta espécie de ciência auxiliar dos estudos literários.

P — Quais são os principais eixos que caracterizam esta coleção?

CR — Esses eixos estão determinados pela sua organização interna e a primeira distinção que é preciso fazer é a seguinte: o Eça é um escritor que em vida publicou relativamente pouco. Em vida, o Eça só publicou O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, A Relíquia, Os Maias, O Mistério da Estrada de Sintra juntamente com Ramalho Ortigão e O Mandarim. Não me estou a esquecer de nenhum. Logo quando morreu estavam para publicação A Ilustre Casa de Ramires, A Correspondência de Fradique Mendes, A Cidade e as Serras e ficou muita coisa que só foi descoberta depois: A Capital!, Alves & Companhia, A Tragédia da Rua das Flores... Muitas dessas coisas foram posteriormente editadas de uma maneira pouco profissional, cometeram-se erros que a edição crítica tenta reverter. Portanto, a estrutura da edição crítica reparte, antes de mais, os textos que o Eça publicou e os textos que o Eça não publicou. Reparte também textos que são romances e textos que são de imprensa e outros que são textos epistolares e outros ainda que são mais difusos.

P — Também havia uma arca?

CR — Havia mesmo! E muita gente não sabe que foi para o Brasil e voltou…

P — Pode relatar-nos a história dessa viagem?

CR — A história é que essa arca, um pequeno baú de lata, que está nesta altura na Fundação Eça de Queirós, tinha ficado na posse da família de Ramalho Ortigão, que tinha um filho no Brasil. A certa altura descobriu-se que tinha ali uma papelada que não era dele. Como tinha relações de amizade com os filhos do Eça mandou a arca para cá. E foi aí que se ficou a saber da existência d’ A Capital!, do Alves & Companhia, d’A Tragédia da Rua das Flores, de cartas inéditas de Fradique Mendes, muita coisa...

P — Em 2015 está tudo publicado, daquilo que se conhece?

CR — Sim. Do que se conhece, está tudo publicado. Mais que publicado: umas vezes mal publicado, outras vezes bem publicado. Portanto, não há novidades. De vez em quando aparecem manuscritos, mas de textos já publicados. Por exemplo, quando estávamos a preparar a edição da Correspondência de Fradique Mendes apareceu um monte de manuscritos que ainda foram úteis para a edição crítica.


BIBLIOTECA FUNDAMENTAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

P — O Carlos Reis tem coordenado também a o projeto da Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa. Em que consiste esta coleção?

CR — Foi uma ideia que me foi proposta e que desenvolvi com muito gosto, cujo título fala por si. No sentido em que nós podemos olhar para a literatura portuguesa como um corpus muito alargado, mas nesse corpus muito alargado, tal como na literatura espanhola, francesa, italiana ou inglesa há autores a quem nós chamamos de autores do cânone e outros que não o são. Pode ser muito discutível quais são os autores do cânone, mas há coincidências e convergências. Facilmente, concordamos que Camões, Garrett, Eça, Camilo, Pessoa são autores fundamentais. Mas também são fundamentais autores de segunda linha, vamos-lhe chamar assim, que nem sempre estão disponíveis no mercado. Posso dar um exemplo As Memórias dum Doido, de António Pedro Lopes de Mendonça. Poderia dar outros exemplos. São autores que são fundamentais para entendermos a nossa identidade e que, muitas vezes, as editoras comerciais não têm possibilidade de editar. Julgo que foi com esse espírito que a Imprensa Nacional decidiu que era seu dever institucional facultar a um público mais alargado edições relativamente simples, rigorosas quanto aos textos, com instruções de tipo pedagógico, sem aparato erudito de notas e a preços acessíveis. Trazer para o público, por exemplo, a poesia da Marquesa de Alorna, uma autora fundamental na passagem do século XVIII para o século XIX, mas que muitas vezes não se encontra no nosso mercado.

P — E como se processou o trabalho de seleção destes autores e obras?

CR — O trabalho de seleção foi feito por mim, depois proposto à Imprensa Nacional. Confrontei essa seleção com alguns colegas. E se pensarmos em 100 títulos fundamentais da Literatura Portuguesa, podemos divergir quanto a 20 ou a 30 desses, mas 80 ou 70 são consensuais. E não é por causa desses 20 ou 30 que não vamos ter a coragem de dizer: esta é a minha Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa!

P — Desta coleção já saíram do prelo Clepsidra e A Ilustre Casa de Ramires. Algum motivo especial para serem estes dois livros a inaugurar a coleção?

CR — Não, não houve nenhum plano. Eu, nesta altura, tenho entregues e a serem trabalhados cerca de 10 a 11 títulos e outros vão chegar. Nomeadamente a poesia da Marquesa de Alorna, Menina e Moça, Vintes Horas de Liteira, As Pupilas do Senhor Reitor e vários outros títulos que estão prontos e entregues e em condições de serem publicados.


(continua)

TPR