
(continuação da
1.ª parte)
MOMENTOS-CHAVE DA LITERATURA PORTUGUESA
Prelo — Existe uma época de ouro da literatura portuguesa?
Carlos
Reis — Existem duas ou três. Depende daquilo que estivermos a falar. A
expressão tem muito que ver também com a expressão consagrada do século
de ouro da literatura espanhola. A meu ver, a nossa poesia tem dois
séculos de ouro: o século XVI e o século XX. É lá que estão figuras como
Camões e Fernando Pessoa e outras mais. A nossa ficção em prosa tem um
século de ouro que é o século XIX, onde estão o Eça, o Garrett, o
Camilo... Estas coisas nem sempre são fáceis, sendo que o século XIX é a
meu ver o grande século da ficção narrativa mas está lá um grande poeta
chamado Cesário Verde. Isto não é absoluto. O século XX é o grande
século da poesia portuguesa — está lá o Pessoa, Carlos de Oliveira,
Sophia de Mello Breyner, estão muitos outros que agora não refiro para
não cometer nenhuma injustiça - mas está lá também [José] Saramago, está
lá o [António] Lobo Antunes… Estas coisas são sempre muito relativas
mas servem como imagens fortes para acentuar dominantes em certos tempos
históricos.
A LITERATURA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA
P — E o século XXI? O que acha que vem aí?
CR
— O século XXI já tem 15 anos, já é adolescente mas ainda não chegou à
maioridade. A meu ver, ainda vive muito de escritores do século xx,
alguns que já citei e outros: Lídia Jorge, Mário Cláudio, Mário de
Carvalho e o José Cardoso Pires, que ainda morreu no século XX mas que
devemos continuar a ler. No século xxi, há toda uma geração de gente
jovem que eu não vou agora mencionar para não cometer injustiças. Penso
que a Literatura Portuguesa está de boa saúde e recomenda-se.
P — Consegue descortinar algum futuro Eça nesta nossa nova geração?
CR
— [risos] Gostava de falar não da nova geração, mas sim de escritores
que estão aí e de livros que estão aí. É uma questão de tempo e de um
certo distanciamento também. Se quisermos fazer história cultural,
social e política do século xix não podemos passar sem o Eça, não é um
historiador mas está lá muita coisa. Costumo dizer que se quisermos
fazer história social, cultural, política e mental do fim do século XX e
princípio do século XXI, não podemos de deixar de ler [António] Lobo
Antunes, por exemplo.
P — A questão da guerra colonial…
CR
— Da guerra colonial, do período pós-colonial, da descolonização... Não
podemos deixar de ler, por exemplo, o olhar extraordinariamente ácido,
irónico e sarcástico do Mário de Carvalho, não podemos deixar de ler a
forma como a Lídia Jorge observa a questão da memória, da memória mais
recente, a questão da mulher… A Agustina [Bessa-Luís] é fundamental para
entendermos a forma como depois de 1974 se passou a viver, do ponto de
vista das mentalidades. Há certos escritores que dão esse testemunho.
Não o darão no estilo do Eça porque cada época tem o seu estilo.
O ESTUDO DO ESPÓLIO DE EÇA DE QUEIRÓS
P — Com a sua colega Maria Rosário Milheiro trouxe a lume A Construção da Narrativa Queirosiana — O Espólio de Eça de Queirós. Qual é que foi a grande revelação que obteve deste estudo?
C R
— Esse
estudo caiu-me no colo quase por acaso, aqueles acasos que mudam ou
condicionam muito a nossa vida. Para contar rapidamente a história, o
Estado tinha incorporado nos fundos da
Biblioteca Nacional o espólio de Eça de Queirós, que tinha sido disponibilizado para esse efeito pela família. Então, o diretor ou presidente do
Instituto Português do Livro,
o meu saudoso amigo António Alçada Baptista, propôs-me fazer um estudo
do espólio de Eça de Queirós, coisa que me deixou, ao princípio,
completamente perplexo: foi a maior oferta que alguma vez fizeram na
minha vida, não os papéis mas a possibilidade de os estudar!
P — Estamos a falar de quantos documentos?
CR
— Estamos a falar de mais de uma centena de documentos, estamos a falar de muitos manuscritos que já estavam publicados: os d’
A Capital, do
Alves &Companhia,
estavam lá. Estamos a falar também de muitos papéis que eram rascunhos,
listas de palavras, listas de personagens: os papéis da oficina de um
escritor. Nessa altura, ainda não se falava disso em Portugal - estamos a
falar dos fins dos anos 70, inícios dos anos 80 — mas aquilo que estava
em causa era a crítica genética - que é um ramo autónomo, não é
exatamente a crítica textual — que podia facultar maneiras de nós
tentarmos perceber como é que o Eça escrevia narrativas. Entrar no
laboratório do escritor. Entrar na sua oficina de trabalho. E foi isso
que eu tentei fazer com essa minha colega.
P — E descobriu?
CR
— Há
algumas explicações no livro. Se estão certas ou erradas não sei, mas
há algumas explicações. Por exemplo, a função que desempenhava uma lista
de cinco personagens que Eça fez antes de tentar escrever uma novela
que, de resto, acabou por não escrever. Outro exemplo: quando estava a
escrever supostamente
A Ilustre Casa de Ramires,
munido de um léxico ao lado, fez uma lista por ordem alfabética de
palavras medievais, «alcáçova», por exemplo. Foram, digamos, estes
métodos e rotinas de trabalho que nós procurámos perceber nesse livro.
Por sugestão do meu grande mestre Ernesto Guerra da Cal entendemos
também que só devíamos avançar para a edição crítica do Eça, depois de
conhecermos bem a oficina de trabalho do escritor.
A PROSA DE EÇA NÃO ENVELHECE
P — «Então, perante este Céu onde os
escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a
capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que
improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre
assim me conservei na vida». Escreveu Eça de Queirós em Um Génio que era
um Santo. O Carlos Reis, outrora estudante, agora catedrático de
Coimbra, senta-se aos pés de Eça, como um discípulo?
CR
— Não tenho, infelizmente, dimensão para isso. Gostava de ter, mas não
tenho. O Eça escreveu esse texto muito tempo depois de ter vivido isso. O
Eça viveu isto no princípio dos anos 60 e escreveu acerca disso em
meados dos anos 90, passados mais de 30 anos. Escreveu isso para um
amigo que se tinha suicidado, o Antero de Quental, e construiu também
uma imagem do Antero, que provavelmente era uma imagem literária e
ficcional. O Eça, em 1896, quando esse texto foi publicado, era já um
escritor incomparavelmente mais destacado de que o Antero. Mas nessa
época o Eça ficou fascinado com a capacidade de liderança que o Antero
tinha. Eu gostaria muito de escrever como o Eça, mas não sei. Agora, sou
discípulo constante do Eça no sentido em que encontro, a cada momento, a
cada passo, resposta para aquilo que são as inquietudes, as
dificuldades, as crises da nossa vida pública — como se fosse necessário
lermos o Eça com muita atenção para não cometer erros que no tempo do
Eça se cometeram.
P — Para si, onde é que reside a genialidade de Eça de Queirós?
CR
— Vou dizer uma expressão que vai parecer banal, em que retomo uma coisa que ouvi dizer uma vez ao Professor Eduardo Lourenço. Primeiro que tudo, é a graça do Eça. O Eça escreve com graça, é agradável. Mas não é só a graça do ponto de vista de ter piada, é a ironia, é o olhar às vezes desencantado perante a vida, é a grande inteligência para perceber as coisas que muitos outros, na época, não tinham, não percebiam. De resto, costumo sugerir que façam a contraprova: vamos ler um texto do Eça e depois vamos ler um texto dos contemporâneos, por exemplo, do Abel Botelho ou do Teixeira de Queirós. Essa prosa é uma prosa que envelheceu e a prosa do Eça não envelheceu.
P — Continua com o mesmo fascínio por Eça de Queirós como aquele que tinha aos 14 anos, quando leu A Capital? Eça ainda o surpreende?
CR
— Completamente. Eça ainda me surpreende. Ainda há pouco tempo, fiz com duas colegas a edição crítica de
A Correspondência de Fradique Mendes. Para se fazer uma edição crítica tem de se ler o texto palavra a palavra e somos surpreendidos com a pertinência de uma vírgula, pela razão de ser da mudança de um adjetivo…
UMA QUESTÃO DE «POSE»
P — No final d’Os Maias podemos ler: «(…) Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira daexperiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança — nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta palidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito do Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades (…).» Na sua opinião, isto é uma lição de um sábio? Ou de um vencido da vida?
CR
— É uma lição de um vencido da vida. Sem dúvida! Não é por acaso que isso aparece no episódio final d’
Os Maias, quando Carlos da Maia regressa a Lisboa e no tempo da história em 1887. Os Vencidos da Vida começam a reunir-se por volta de 1891/1892. Isso, portanto, é uma atitude de desencanto de alguém que viveu uma grande tragédia pessoal (a tragédia do incesto), de alguém que viveu o falhanço de uma carreira, que viveu o falhanço dos seus projetos e que, de certa forma, incorpora em si um país em decadência e que depois desiste... Apesar do extraordinário encanto com que isso é dito, é por essas e outras que há gente que critica o Eça e a sua visão às vezes um pouco derrotista da existência do país.
P — Se bem me lembro, logo de seguida, o Carlos e o João da Ega correm para o elétrico….
CR
— Sim, sim, correm para o carro: o americano…
P — Isso quer dizer mais qualquer coisa?
CR
— Quer dizer que tudo isso é uma pose, mas que enquanto estivermos vivos vamos ter de lutar pela vida. É inevitável! E esse Carlos da Maia nessa atitude
blasée, cética, um pouco arrogante é já um pré-
Fradique Mendes, que vai depois aprofundar esse tipo de atitude perante a vida, mas que no fundo nunca desiste de correr… nem que seja, com o desejo falhado de comer um prato de paio com ervilhas!
(
continua)
TPR