Os Artistas Unidos continuam a dar voz aos poetas na Biblioteca da Imprensa Nacional.

A próxima sessão de «A Voz dos Poetas» é já na próxima segunda-feira, dia 12 de novembro, pelas 18h30. E esta é uma sessão especial: Jorge Silva Melo vai ler um poeta muito caro a todos nós. Nem mais: o protagonista desta sessão será Luís Vaz de Camões (1524-1580), figura ímpar da Literatura em Língua Portuguesa.

Autor de uma das mais importantes obras da Literatura Portuguesa, Os Lusíadas, Camões escreveu também poemas líricos, versos bucólicos, comédias e sonetos, entre eles o famoso «Amor é fogo que arde sem se ver».

Poeta erudito e popular, humanista viajado e aventureiro, Camões é símbolo do país que o celebra todos os anos a 10 de junho. Sobre ele afirmou Jorge de Sena:

«Se pouco sabemos de Camões, biograficamente falando, tudo sabemos da sua persona poética, já que não muitos poetas em qualquer tempo transformaram a sua própria experiência e pensamento numa tal reveladora obra de arte, como a poesia de Camões é».

Não perca esta récita!

Programa: A Voz dos Poetas
Textos: Luís Vaz de Camões
Leitura de poesia: Jorge Silva Melo | Artistas Unidos
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Rua da Escola Politécnica, n.º 135, Lisboa)
Data: 12 de novembro 2018
Horário: 18:30 h


Celebramos hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
O país comemora a sua festa nacional. Festejamos a nossa história e a nossa língua, olhamos de frente para os reptos do nosso presente, para os desafios do nosso futuro. Homenageamos a diáspora portuguesa mundo fora. E fazemo-lo celebrando Camões. Afinal, somos um país de poetas.

Por isso mesmo o Prelo decidiu celebrar um grande poeta pela mão de outro grande poeta: Miguel Torga – o justo primeiro vencedor do mais alto galardão atribuído em Língua Portuguesa. Nem mais: o Prémio Camões. Estávamos em 1989. Antes disto, em 1987, Torga foi convidado a deslocar-se a Macau, por ocasião das celebrações do 10 de Junho, para fazer uma conferência sobre o autor d’Os Lusíadas, no Leal Senado. Mais tarde, viria a publicar essa conferência no vol. XV do Diário, tinha precisamente por título «Camões». Aqui um pequeno excerto:

O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista. Daí a espécie de obscura inocência e actuamos na História. A poder e a valer, nem sempre temos consciência do que podemos e valemos. Hipertrofiamos provincianamente as capacidades alheias e minimizamos maceradamente as nossas, sem nos lembrarmos sequer de que a criatura só não presta quando deixou de ser inquieta. E nós somos a própria inquietação encarnada. Foi ela que nos fez transpor todos os limites espaciais e conhecer todas as longitudes humanas.
Quatrocentos anos depois de a termos alargado até este Extremo Oriente, estamos aqui a despedir-nos de um recanto da pátria e a evocar Camões. Não, como disse, em termos formais, mas em termos factuais. É uma definitiva meta cronológica que irrevogavelmente assinalamos. E, numa circunstância tão significativa, tudo quando disséssemos e fizéssemos à revelia do maior de todos os portugueses seria lamentavelmente negativo. Sem a bênção do seu nome e o critério da sua universalidade, nem daríamos um penhor válido de nós, nem poderíamos ter a certeza de voltar. De voltar eternamente.

Macau, 10 de Junho de 1987
(in Diário, vols. XIII a XVI, D. Quixote)


Hoje, no Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas recordamos também alguns dos versos que Miguel Torga dedicou a esta figura maior da língua, da cultura e da literatura portuguesas, que hoje celebramos: Luís Vaz Camões.

Camões

Nem tenho versos, cedro desmedido

Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.

Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto,
Chega aos teus pés e como que arrefece.
Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta de um império que era louco,
Foste louco a cantar e louco a combater.
Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e professo,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso!

Na Gruta de Camões


Tinhas de ser assim:

O primeiro
Encoberto
Da nação.
Tudo ser bruma em ti
E claridade.
O berço,
A vida,
O rastro
E a própria sepultura.
Presente
E ausente
Em cada conjuntura
Do teu destino.
Poeta universal
De Portugal
E homem clandestino


Miguel Torga
In Antologia Poética, D. Quixote




Os reinos e os impérios poderosos,
que em grandeza no mundo mais creceram,
ou por valor de esforço floreceram
ou por varões nas letras espantosos

Teve Grécia Temístocles famosos;
os Cipiões a Roma engrandeceram;
doze pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.


Ao nosso Portugal (que agora vemos
tão diferente de seu ser primeiro),
os vossos deram honra e liberdade.


E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
do braganção estado, há mil extremos
iguais ao sangue, e móres que a idade.
 

Lírica Completa, Vol. II
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Lisboa, 1980